O que aprendi – até agora – sobre a maternidade

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Depois de muito tempo, o blog volta para abordar um tema já muito discutido, mas que sempre divide opiniões. A maternidade, tida como uma espécie de estado de santidade por alguns, é sempre um tema polêmico. Pensando sobre isso e ouvindo as mais diversas ideias, de mães ou não, é que resolvi escrever sobre o assunto. Na verdade, o blog já havia abordado o tema, mas eu ainda não era mãe, o que fez muita gente, inclusive eu, se questionar sobre algumas das posições defendidas e atacadas na época. Pois bem, agora eu já sou mãe, então eu já posso escrever com mais propriedade 🙂 Na verdade, de acordo com a minha experiência, percebi que muitas coisas que escutamos dos outros e que passamos a acreditar ao longo do tempo sobre a maternidade podem não se concretizar em nossas experiências pessoais. É claro que existem métodos e técnicas que podem nos ajudar a cuidar de um filho. Entretanto, nem sempre elas darão certo e nem sempre aquilo que nossas mães, avós e babás nos ensinaram será algo de verdadeira serventia para nós:

 

1. Cada filho é único – um dos maiores erros que as mães podem cometer é achar que seus filhos vão mamar, se comportar, agir e todas as outras coisas da mesma forma que os filhos de suas amigas ou como as outras crianças que elas conhecem ou já leram sobre. É claro que é sempre válido estudar e pesquisar sobre o comportamento usual – e não “normal” – de uma criança da idade de seu filho, mas não é bom se sentir angustiada porque o filho da sua amiga mama de 3 em 3 horas, enquanto o seu mama de 1 em 1 hora. Cada criança é única no sentido de apresentar, com rapidez ou não, suas necessidades e, mais tarde, suas preferências. Nos primeiros dias, há um nervosismo que permeia a maternidade: escutamos choro onde não tem, vigiamos o bebê e sua respiração a cada 10 minutos, não conseguimos relaxar nem mesmo quando o bebê dorme. Pior ainda é quando escutamos de outras mães ou de “especialistas” que “não é normal” isso ou aquilo que nossos filhos fazem. O conceito de normalidade é tão relativo quanto cafona, então o melhor é saber vivenciar e aprender aos poucos como é o seu bebê. O convívio com ele facilita bastante. Temos que aprender a “escutar” a demanda deles.

2. Todos os filhos precisam ser “adotados” pelos pais – adoção é um termo muito conhecido por estar ligado à prática de adotar alguém que não é nosso filho “de sangue”, mas de coração, como os pais e mães adotivos costumam falar. Entretanto, esse termo vai bem além disso. Adotar alguém é simplesmente proporcionar que esse alguém construa com você uma sensação de pertencimento, de vínculo. Não é só o filho adotivo que precisa ser adotado, TODOS OS FILHOS PRECISAM SER ADOTADOS por alguém. Alguém que os ame, que esteja disposto a compreender suas necessidades e desejos, que o proteja, mas que preserve sua liberdade de ser o que quiser ser, independente do desejo materno ou paterno.

3. Nossas culpas são de nossa inteira responsabilidade – se transformar em mãe parece ser a melhor desculpa que muitas mulheres utilizam para se sentirem culpadas o tempo todo, por tudo. Quando somos nomeadas mulheres, de acordo com todas as convenções sociais que aprendemos desde criança, sendo a grande maioria dessas convenções extremamente machistas, já está implícita a culpa que carregaremos a vida toda. Não podemos sentar de qualquer jeito, não podemos falar tudo o que pensamos, não podemos fazer tudo o que queremos, não não e não…é difícil. É bom que nós mães saibamos cada vez mais criar nossos filhos, sejam meninos ou meninas, de uma maneira saudável diante de todas essas convenções, mas isso é assunto para outro post. Na vivência da maternidade, nossas culpas vão se proliferando: nos culpamos porque queremos sair mais de casa, porque queremos um tempo sozinhas, porque desejamos ir a uma festa com amigos e por aí vai. Muitas vezes, costumamos transferir a responsabilidade do surgimento da nossa culpa a outras pessoas. Digo, por exemplo, que me senti culpada porque Fulano disse algo sobre mim ou sobre o meu desejo de fazer alguma coisa que não incluía meu filho. Entretanto, a fala desse mesmo Fulano só terá algum efeito sobre mim se a culpa já estiver comigo, se eu, de alguma forma, concordar com Fulano sobre seu argumento. É complicado lidar com isso, mas é bom que a gente saiba que atribuir a responsabilidade de nossas questões a outras pessoas é extremamente cômodo para nós.

4. Nem sempre estamos felizes – bom, você esperou nove meses cheia de planos e expectativas, arrumou tudo pro seu bebê, cuidou de você com muito carinho durante a gravidez e hoje, depois que ele nasceu e tem alguns dias, você não se sente feliz. Pior: além de não se sentir feliz, você não saber nem dizer porque não se sente feliz. Temos que considerar, primeiramente, a grande mudança hormonal que ocorre depois do nascimento do bebê. Ela jamais pode ser desconsiderada. Mas não é só isso: a vida muda, a rotina muda, alguns prazeres são deixados de lado e você se sente alguém que não tem mais vida própria, já que tem agora seus dias controlados pelas necessidades de outra pessoa. Isso pode ou não ter um grande impacto na vida das mães. De repente, todas essas mudanças podem ser consideradas mínimas para aquela que sempre achou que sua mais importante função na vida era ser mãe. Mas nem todas as mães pensam assim – e nem por isso são péssimas mães, pelo contrário: apesar de saberem desde sempre que ser mãe acarreta em fazer várias concessões, vivenciar sua própria transformação em um grande seio que amamenta é bem difícil. É difícil, para algumas, ser “reduzida” a isso. O bom é que hoje podemos contar com muitos avanços e ajudas que podem auxiliar no resgate de nossas vidas, mesmo que nem todas as mães consigam ou queiram se aproveitar delas (babás, bombas de tirar leite, mamadeiras, babás eletrônicas…). Portanto, temos que compreender que sim, que somos mães e que isso, por si só, já pode ser algo maravilhoso, mas que esse mesmo fato, por si só, não significa que TEMOS QUE ser felizes o tempo todo. Podemos ficar irritadas e saudosistas em alguns momentos, por que não?

5. O pai não é simplesmente um acompanhante ou um ajudante – o pai participou ativamente da “produção” da criança, assim como a mãe. Só isso já deveria ser suficiente para justificar o fato de que o pai não é um ajudante ou acompanhante da mãe. É muito comum alguma mulher citar algo que o marido fez, alguma situação onde ele a ajudou com os filhos e todos o elogiarem, porque como assim que ele fez isso, ele é o pai e pai não faz isso! Como se o pai merecesse um prêmio por trocar as fraldas da criança. Parece que a gente se acostumou com a alienação que o machismo proporciona, como se a gente realmente acreditasse que os homens não tem inscrito em seus DNAs algumas funções que as mulheres, por sua vez, já nascem preparadas para fazer. Parece que nunca vimos ou conhecemos mulheres que não querem ter filhos ou que querem, mas que não sabem fazer muitas coisas típicas da maternidade. Essas mulheres seriam o que, anormais? E os homens extremamente maternais, que desempenham com muita habilidade e carinho todas as funções que intitulamos burramente como “de mulher”, estão em que grupo? O pai não é simplesmente um acompanhante ou um ajudante, apesar de acompanhar e ajudar em muitos momentos, porque ele é muito mais do que isso. Porque não se pode dividir por gênero a responsabilidade que uma pessoa tem sobre seu filho. O pai é o pai.

6. Mães são também mulheres – cinta, leite, sutiã de amamentação, roupas maiores…parece o combo da baixa auto estima. Durante algum tempo, é assim que as mães se olham, como alguém que, vestindo esses acessórios, só serve pra isso. A mulher morre lentamente para que a mãe surja. Grande erro. A mulher continuará lá, mesmo que agora fique calada ou adormecida. Muitas vezes, percebe-se que o ser mãe virou uma capa de proteção contra os desejos dela mesma. Ela não corre mais atrás do que quer, como mulher desejante, porque agora é mãe. Ser mãe é entendido quase que como um mecanismo de defesa. Nesse sentido, o filho carregará a responsabilidade de servir de fardo para aquela mãe, pois ele será o eterno culpado por tudo o que aquela mulher deixou de fazer, deixou de desejar e deixou de ser.

7. Precisamos de ajuda – pedir ajuda não é o mesmo que transferir sua responsabilidade para outra pessoa. Muitas mães não pedem ajuda por se sentirem culpadas (olha a culpa mais uma vez aí…), por acharem que é seu dever dar conta de tudo a todo momento…o fato é que é extremamente difícil, ainda mais nos dias de hoje, dar conta da criação de um filho sem nenhum tipo de ajuda, em momento algum. Não se pode compactuar com essa ideia retrógrada e mentirosa de que a mulher tem que dar conta de tudo. Mais uma vez, cadê o pai, aquele que participou ativamente do processo? E outra: não dá pra desmerecer ou chicotear aqueles que contratam ajudas especializadas de babás e técnicas, por exemplo. Antes de apontar o dedo, lembre-se de que você realmente não sabe dos motivos e das necessidades dessas mães que, inclusive, podem ser bem diferentes dos seus.

 

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Blog Divã entrevista: Ana Paula Adler Borges

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A convidada de hoje do blog Divã é Ana Paula Adler Borges. Paulinha, como é mais conhecida, sempre sonhou ser professora. Por isso, resolveu fazer Pedagogia. No meio do caminho, conta que começou a ler alguns artigos de psicologia e se apaixonou. Mudou pra Psicologia, se formou e desde então já trabalhou como Coordenadora de Saúde Mental Indígena no Maranhão, Coordenadora de RH na Camargo Corrêa na Expansão da ALUMAR e por último no TJ-MA como psicóloga no projeto Casa da Criança, um lar provisório para crianças que poderão ser adotadas. Atua paralelamente em seu consultório, atendendo crianças e casais. Entretanto, seu mais novo empreendimento ainda estava por vir. Ela conta que a Funny English surgiu de uma paixão pelo trabalho com crianças e uma necessidade desse tipo de serviço na nossa cidade. Focada no ensino de inglês para crianças de 3 a 11 anos, de forma divertida e lúdica, com ambientes que estimulam inúmeras habilidades, a Funny English conta com cozinha gourmet, sala do futuro, teatro, horta, musicalização, cinema, entre outras coisas. No meio disso tudo, Paulinha também foi blogueira durante um tempo, mas as outras atividades acabaram deixando essa atividade em segundo plano: “não é fácil ser uma Ursa!”, diz ela. E aí, sabem de que blog ela está falando? 🙂
O convite foi feito, principalmente, para que o leitor conhecesse particularidades da psicologia infantil, da terapia de casais e da Funny English, é claro!

foto Paula

1. Como normalmente se inicia um atendimento psicológico com crianças?

Sempre que os pais ou responsáveis pela criança entram em contato comigo, solicito que o nosso primeiro encontro no consultório seja apenas com eles. Neste primeiro contato é fundamental conhecer as pessoas que convivem com a criança e que têm influência sobre ela. A partir desses relatos, terei alguma ideia sobre o quadro a ser atendido na sessão seguinte e os pais poderão tirar algumas dúvidas sobre o meu atendimento, abordagem a ser seguida, etc. Com a criança as sessões devem ser de forma natural, espontânea e lúdica.

2. Qual a participação dos pais no atendimento psicológico dos filhos?

Fundamental! Não acredito em atendimento infantil sem que exista um acompanhamento e orientação aos pais. E esse contato no meu consultório ocorre sempre após cada sessão. É essencial que todas as partes envolvidas estejam a par de todos os passos a serem tomados, limites, evolução e resultados. Em grande parte dos casos atendidos, a melhora da criança é significativa a partir do momento que o comportamento dos pais é alterado. Dessa forma, a família consegue enxergar a melhora da criança não apenas durante as consultas psicológicas, mas durante o dia a dia.

3. O que normalmente o psicólogo infantil estabelece enquanto limites aos pais de uma criança que está sendo atendida?

Depende muito do caso, da dinâmica familiar, rotina, idade da criança, etc.. Mas, em geral posso citar alguns limites/orientações a serem seguidos:

– Perceber que seu filho, apesar de criança, é um ser humano que precisa de privacidade, assim como os pais. Não é aconselhável insistir em perguntas sobre o que foi dito e feito durante as sessões. Caso ele queira conversar, isso ocorrerá de forma natural, sem pressão.

– Crianças são espertas, inteligentes e manipuladoras. Usam de artifícios para que os pais façam aquilo que elas querem sem que eles percebam, muitas vezes. Os pais devem observar o comportamento do filho e identificar essas situações. Nestes momentos, existe uma busca pelo poder: quem pode mais? O filho que faz a birra no meio no shopping porque quer um brinquedo novo ou o pai que, morto de vergonha, acaba comprando o brinquedo para acabar com todo “vexame”? Os pequenos são observadores e a cada resposta permissiva dos pais, independente do motivo, aprendem e reforçam esse comportamento de busca pelo poder.

– Amor não é sinônimo de permissividade. Atender e aceitar tudo que os filhos querem e fazem só os tornam pequenos tiranos. Dizer “não” é difícil, mas extremamente necessário para a formação do caráter e personalidade das crianças.

– Já percebeu como crianças adoram assistir um desenho inúmeras vezes, ao ponto de saberem de cor todas as falas? A repetição lhes traz segurança. E essa segurança só ocorre porque elas sabem antever o que vai acontecer em seguida. Com a rotina das crianças acontece a mesma coisa. Ao saber o que irá acontecer durante a semana, dia após dia, elas se sentem seguras, mesmo que em alguns momentos reclamem da hora do banho ou da hora de comer. Quem disse que rotina e limites é uma coisa ruim? Depende muito da forma como os pais transmitem isso.

4. Como acontece o atendimento de casais? Existe algum momento de atendimento individual?

Grande parte dos encontros ocorre com ambos, mas durante a orientação pode ter alguns encontros isoladamente, mas isso não é regra. O ideal seria que os casais pudessem falar com toda liberdade sobre o que os aflige, porém muitas vezes a barreira do silencio é tão grande que a princípio eles precisam de atendimento individual.

O atendimento de casais pode tomar dois caminhos opostos: a aceitação do outro e melhora do relacionamento ou a total quebra no relacionamento, justamente por tratar de assuntos pessoais e arraigados durante muito tempo no íntimo de cada um. Por isso, uma orientação adequada com um profissional qualificado é fundamental.

5. Hoje em dia, é bastante comum e crescente a inserção de crianças em escolas bilíngues. Qual sua opinião sobre isso?

Acredito que, assim como todos os métodos e sistemas pedagógicos, existem pontos positivos e negativos. É enriquecedor para as crianças o estímulo desde bem novos com outra lingua que não seja a pátria. E, ao contrário do que muitos pensam, o aprendizado do inglês nos primeiros anos de vida não atrapalha na aquisição da linguagem e alfabetização em potuguês. Crianças são polivalentes, compreendem e sabem diferenciar os dois idiomas.

Por outro lado, crianças inseridas em escolas bilíngues muitas vezes perdem o contato com conteúdos que são inerentes ao nosso pais, cutura e costumes.

Por fim, o que deve ser levado em consideração, independente da metodologia, é o compromisso da escola, a qualificação dos profissionais e se a instituição possui bases pedagógicas apropriadas para aquilo que se propõe.

6. De que forma a Funny English pode estimular, além do desenvolvimento cognitivo da criança, seu desenvolvimento psicossocial?

O tripé psicopedagógico da Funny English está baseado nas Inteligências Múltiplas, Pedagogia de Projetos e Heutagogia. É uma proposta inovadora porque as crianças poderão trabalhar múltiplas habilidades através de projetos elaborados por nossa coordenação pedagógica, mas ao mesmo tempo eles possuem liberdade e poder de escolha no processo de criação das aulas. Ou seja, nossas aulas são atuais, dinâmicas e se ajustam de acordo com cada turma. Por trabalharmos o inglês associado a outras habilidades, deixamos de lado o conceito ultrapassado, no qual o indivíduo gosta ou detesta aprender inglês. Na Funny English, atuamos através da música/instrumentos musicais, culinária, tecnologia, contato com a natureza, cinema, teatralização, entre outros. Dessa forma, é impossível cair na monotonia, além de alcançarmos mais facilmente os gostos de cada aluno e ampliar suas fontes de conhecimento, prazer e lazer.

 

Espero que tenham gostado! Seguem os contatos dela:

Ana Paula no Facebook: https://www.facebook.com/paulaadler?fref=ts
Funny English no Facebook: https://www.facebook.com/redefunnyenglish

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Blog Divã entrevista: Flávia Chaves

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Dando continuidade às entrevistas do blog, hoje apresento a psicóloga, pedagoga e psicopedagoga Flávia Chaves. As perguntas que fiz foram direcionadas à Psicopedagogia, visto que muitas pessoas ainda tem dúvidas quanto aos objetivos desse ramo de conhecimento tão importante.

Flávia iniciou sua trajetória profissional como professora particular aos 18 anos. Lecionou em todas as séries da Educação Infantil e Ensino Fundamental I e exerceu a função de coordenadora pedagógica nestas duas modalidades de Educação Básica. Trabalhou como psicóloga na SEDUC/MA e, atualmente, pedagoga alfabetizadora da rede municipal de ensino e da Instituição FASENES, psicopedagoga e psicóloga clínica.

foto Flávia

1. O que faz um psicopedagogo?

O psicopedagogo é o mediador de todos os bloqueios na aprendizagem que impedem o estudante (criança, adolescente e adulto) de assimilar o conteúdo ensinado na escola. E é através do diagnóstico, da avaliação e da intervenção nos processos geradores de dificuldades/problemas, transtornos ou distúrbios que este profissional trabalhará.

2. Como é a formação de um profissional da psicopedagogia?

Atualmente, existem vários lugares de cursos de graduação. Mas de acordo com a ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia), esta área ocorre em nível de pós-graduação porque tal instituição entende que a Psicopedagogia se dá na modalidade de formação continuada do profissional, no qual ele se qualificará e se dará a profissionalização. Esta posição é respaldada na LDBEN nº 9394/96, artigo 64 que diz: a formação de profissionais de educação para administração, planejamento, supervisão e orientação educacional para a educação básica, será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional.

3. Quem é o público alvo do profissional da psicopedagogia?

Público alvo: pedagogos, psicólogos, professores e demais profissionais ligados à área da educação.

4. Quais as principais diferenças entre dificuldades e problemas de aprendizagem?

A literatura é bem divergente em relação à diferença entre dificuldade e problema de aprendizagem. Existem muitas concepções e os teóricos se dividem sobre tal tema. Mas eu não vejo distinção entre esses dois termos, pois os considero e uso como sinônimos. O problema e a dificuldade de aprendizagem estariam relacionados a vários fatores como: emocionais, orgânicos, específicos e ambientais. Nós, educadores temos que ter em mente que a aprendizagem depende basicamente da MOTIVAÇÃO que nós damos aos nossos educandos.

5. O psicopedagogo trabalha o sujeito em quais âmbitos? De que forma?

Nos âmbitos escolar, clínico e hospitalar.

Escolar: o psicopedagogo trabalhará diretamente com os alunos, professores, coordenadores, diretores e pais das crianças. O seu objetivo é de descobrir se existem dificuldades ou problemas de aprendizagem que afetam o desempenho da criança na escola, quais são as suas causas a fim de que possa, na medida do possível, buscar soluções.

Clínico: o psicopedagogo avalia todas as áreas/habilidades motoras, pedagógicas, afetivas e cognitivas para depois devolver aos pais e/ou responsáveis, o diagnóstico de seu filho(a).

Hospitalar: o psicopedagogo é interlocutor tanto de crianças como de todas as pessoas que passam por internações de curto, médio e longo prazo. Ele elabora diagnósticos das condições de aprendizagem desses pacientes não se esquecendo do suporte à família, profissionais e acompanhantes do paciente envolvido.

Em todos os três âmbitos, tal profissional poderá necessitar de auxílio de uma equipe multidisciplinar, como o neurologista, psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapia e terapeuta ocupacional para aprofundar tal investigação.

6. Que tipo de conhecimento outros profissionais de diversas áreas podem ter para ajudar o psicopedagogo em seu trabalho?

O neurologista ou neuropediatra ajudará com o seu conhecimento em relação a doenças que comprometam o sistema nervoso (cérebro). O psicólogo com o seu conhecimento referente ao desenvolvimento humano para identificar e intervir nos fatores determinantes das ações dos sujeitos. O pedagogo com o seu conhecimento dos processos educativos. O fonoaudiólogo ajudará com a aquisição da linguagem e seus impasses. E por fim, o terapeuta ocupacional em relação às atividades da vida diária (AVDs) que são atividades relacionadas à higiene pessoal, vestuário e alimentação e das atividades de vida prática (AVPs) que são todas aquelas relacionadas à organização e limpeza do ambiente. Tais atividades buscam a independência, autonomia e integração do indivíduo.

7. Como o psicopedagogo influencia no processo ensino aprendizagem?

A Psicopedagogia influencia no processo educacional de maneira significativa, procurando identificar e reconhecer se existem problemas de aprendizagem de crianças que apresentam dislexia, disortografia, dislalia, disgrafia, discalculia, déficit de atenção (TDA) e déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), síndrome de down, atraso nas aquisições acadêmicas, baixo autoestima, atraso na fala, problemas de socialização bem como as suas causas e se estas são de ordem orgânica, metodológica ou comportamental. Para isso, este profissional fará um diagnóstico psicopedagógico utilizando entrevistas com o indivíduo, pais e/ou responsáveis e escola, acompanhamento da sua vida escolar, provas/testes, jogos e atividades que favoreçam o seu desenvolvimento cognitivo e emocional.

 

 

Espero que tenham gostado de mais essa entrevista.

Para falar com a Flávia por email: [email protected]

Flávia no Facebook: https://www.facebook.com/flaviatheresa.chaves?fref=ts

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Blog Divã Entrevista: Anna Kelly Ticianel Frota

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Para nossa segunda entrevista (e primeira do segundo grupo, dos profissionais de áreas da Psicologia e áreas afins), convidei a psicóloga Anna Kelly Ticianel Frota, que possui  formação em Orientação Profissional e de Carreira pelo Instituto do Ser (Florianópolis – SC). Atua principalmente facilitando processos de escolha profissional (desde 2009) e já trabalhou com jovens de escolas públicas e de projetos sociais. Atualmente, coordena o serviço de Orientação Profissional da clínica Pleno Psicologia e atua como psicóloga escolar e orientadora profissional em uma escola particular de São Luís – MA. O motivo principal da escolha de Anna foi a falta de conhecimento de muitas pessoas e, inclusive, de profissionais da área de Psicologia, acerca do serviço de orientação profissional e de sua finalidade.

Anna Kelly 2

1. No que consiste o processo de orientação profissional?
A orientação profissional (OP) é um processo de reflexão, autoconhecimento, informação e planejamento que tem o objetivo de facilitar as escolhas necessárias ao longo da vida profissionais de cada um.
2. Como se caracteriza, geralmente, o público que procura a orientação profissional?

Como a orientação profissional se coloca hoje, o público é variado. Fazem parte das pessoas que procuram por esse serviço, jovens em fase de vestibular, ENEM e em processo de primeira escolha profissional – egressos do ensino médio ou não. Os profissionais que já estão no mercado de trabalho e que desejam repensar suas escolhas ou trajetórias também encontram no serviço de orientação profissional o apoio necessário para decisões alinhadas consigo e com o próprio entorno. O planejamento de carreira para os universitários e alunos de cursos técnicos é também uma possibilidade cada vez mais requisitada. Por último e não menos importante, temos a orientação para a aposentadoria que se apresenta cada vez mais forte e atrai profissionais que estão próximos do momento da aposentadoria ou que já se aposentaram. Empreender novos projetos pessoais e profissionais é sempre importante.

3. Quais são as etapas as quais passa o sujeito no processo de orientação profissional?
Eu não gosto de falar em etapas, eu prefiro falar em pilares. Afinal, o processo é alicerçado no autoconhecimento, na informação profissional e no projeto de futuro. Quem procura a orientação profissional não pode sair do processo sem ter ampliado o que sabe de si, sem conhecer mais sobre a realidade profissional e de mercado que o cerca e sem projetar sua vida, através de suas escolhas, para os próximos anos. Porém, caberá ao profissional que conduz o processo perceber o que pode acrescentar para facilitar a escolha mais consciente possível alinhada ao momento de vida atual do orientando. É possível ampliar a discussão sobre o sentido do trabalho, sobre empreendedorismo e empregabilidade. A educação financeira pode aparecer em alguns momentos de forma mais aprofundada. O uso de escalas e inventários entre outros instrumentos podem ser incluídos, bem como os jogos de informação profissional e materiais lúdicos diversos. A competência de customizar o processo para contribuir ao máximo com o orientando é algo que diferencia um bom orientador dos que simplesmente replicam modelos estáticos. Eu, particularmente, gosto de trabalhar com sonhos individuais. Sonhos possíveis e não ilusões. Acho importante por vários aspectos para a vida profissional de um indivíduo. Acredito que realizar sonhos é empreender vida. Não é difícil paralisar uma pessoa com a falta de uma resposta quando perguntamos: qual o seu sonho? Além de preocupante, isso é triste.

4. De que forma o processo de orientação profissional pode contribuir para a vida daquele sujeito que acaba de se formar na escola, por exemplo?
Acredito que o processo de orientação profissional deve acontecer na escola como parte integrante de um currículo que visa o desenvolvimento saudável dos alunos. A escolha profissional é um pilar importante a ser trabalho com adolescentes e a escola é o lugar de uma coletividade possibilitadora. O meu viés educacional favorece esse entendimento, mas os trabalhos que conheço também reforçam essa ideia de que a escola deve oportunizar espaços de reflexão sobre o tema, com profissionais que podem conduzir um processo eficiente. Não é difícil encontrar escolas que não contam com psicólogos integrando a equipe. O que dizer, então, de um processo de orientação profissional de qualidade? Não são poucas as escolas particulares que terceirizam o serviço, quando sim proporcionam isso aos alunos. Nas escolas públicas a situação é muito mais crítica devido à falta de políticas nessa área, políticas essas tão necessárias em um país que almeja crescimento. Digo isso para introduzir a ideia de que a orientação profissional em serviços específicos e particulares tem uma grande responsabilidade, mas não consegue atingir uma significativa parcela dos jovens egressos do ensino médio. Temos um panorama de jovens que se veem obrigados a escolher uma profissional cada vez mais cedo, seja pela pressão familiar, escolar ou social. Temos jovens que prestam vestibulares ou fazem o ENEM com 16 anos. Os números de evasão universitária são altos e quando falamos das universidades públicas a situação se agrava ainda mais em decorrência do ônus das vagas ociosas e do que isso representa para a sociedade. Processos de OP podem contribuir inclusive desde a oitava e o nono ano tanto para a escolha dentre opções de ensino médio integrado com o ensino técnico, como para diminuir a desistência de jovens durante o ensino médio. Dificilmente você terá 100% de certeza com relação a uma escolha, com a escolha profissional não é diferente. Um jovem que consegue refletir, amadurecer e se implicar na escolha profissional tem um diferencial a mais, a motivação. Saber para onde quer ir é necessário para trilhar caminhos mais seguros por mais que esses caminhos possam se alterar em decorrência de diversos fatores. Um jovem que aprende a escolher tem um diferencial na vida como um todo e não somente na própria carreira.

5. Existe algum envolvimento de outras pessoas no processo de orientação profissional de um sujeito, como por exemplo, de seus pais ou professores? Se sim, de que forma ele acontece?
Em qualquer ambiente onde o trabalho de OP se desenvolva, a família é sempre a maior parceira. Afinal, ela influencia positiva ou negativamente na escolha profissional dos seus componentes. O trabalho com a família pode ser feito com palestras, oficinas ou outras atividades em momentos específicos do processo. Quanto mais trabalhamos a família, mais somos surpreendidos de forma positiva com processos ricos de sentido para o orientando. Quando o trabalho é desenvolvido em uma escola, toda a equipe deve participar. Os professores podem contribuir com informação profissional de qualidade, cada um na sua área, e a transversalidade do assunto dentro do ambiente escolar é muito rica e proveitosa para os alunos. O problema da terceirização do serviço de OP é que se configura em um trabalho descolado daquela realidade, apesar de um trabalho terceirizado ser melhor do que não realiza-lo de forma alguma. Em ambientes de educação não formal e em ONG’s, pedagogos e assistentes sociais podem ser inseridos em momentos específicos de um trabalho multidisciplinar. Vale ressaltar que a orientação profissional não é exclusividade dos psicólogos, mas o uso de testes psicológicos sim.

6. Fatores emocionais são levados em conta durante o processo? Se sim, de que forma?
Durante todo o processo de OP trabalhamos os fatores emocionais que influenciam na escolha profissional, mas a orientação profissional não se configura terapia. O profissional que desenvolve esse trabalho deve ter plena consciência disso e avaliar se a pessoa em atendimento precisa de encaminhamento para um processo psicoterápico. O foco é o processo de escolha profissional, apesar de fatores emocionais serem pontuados, eles devem ser sempre trazidos para a questão destaque que é o momento de escolha e, consequentemente, o delineamento de um futuro profissional.

7. Quais são os resultados de um processo de orientação profissional que podem ser observados pelos orientadores?
Falar em resultados é complicado. O código de ética profissional do psicólogo versa sobre isso quando diz que é vedado ao psicólogo fazer previsão taxativa de resultado. Prefiro dizer que um resultado considerado positivo por quem procura esse serviço vai ser uma união do envolvimento dessa pessoa no próprio processo junto a uma facilitação experiente e atualizada de quem conduz o serviço. É sempre muito importante deixar claro que o orientador não vai dizer qual profissão seguir, mas que o orientador conduzirá um amadurecimento de vários fatores que interferem diretamente na escolha profissional possibilitando que o orientando encontre suas próprias respostas.

 

Espero que tenham gostado! Qualquer dúvida, usem os comentários ou:

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Blog Divã entrevista: Rafaela Marques

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Dando início às entrevistas que o blog fará, começo com as opiniões da publicitária e jornalista Rafaela Marques sobre, principalmente, a força da internet na atualidade e os últimos assuntos que andam movimentando todas as esferas de nosso país. Rafaela é sócia da “Matilde – Conteúdo e Guerrilha”, uma agência de produção de conteúdo e análise de mídia. Basicamente, ela e sua equipe produzem todo tipo de conteúdo para empresas: atualização diária dos sites e redes sociais, vídeos, revistas, por exemplo. Resumindo, a Matilde produz conteúdo exclusivo pra qualquer plataforma que o cliente usa para se comunicar: do release de assessoria ao tweet. Ela também faz parte da comunidade global TED e é organizadora do TEDxPraçadaAlegria, evento multidisciplinar que acontecerá em São Luís no dia 1 de novembro e terá como objetivo, nas palavras de Rafaela, “disseminar na internet ideias com força pra transformar o mundo”. Entretanto, o motivo que me fez convidar a Rafaela para participar das entrevistas do Divã é simplesmente sua incrível habilidade de escrever, e para todos os públicos. Suas análises sobre os fatos são certeiras e brilhantes, o que pode ser observado, principalmente, em sua página do Facebook. Seguem as perguntas:

A publicitária e jornalista Rafaela Marques

A publicitária e jornalista Rafaela Marques

1. Como você analisa o poder das redes sociais e da internet como um todo no mundo de hoje?

Como alguém que trabalha com comunicação, e, mais ainda, como alguém que trabalha essencialmente com o aspecto digital e que está praticamente 24h conectada, eu poderia fazer uma análise dessas bem apaixonadas e positivas pra responder essa pergunta. Mas acho que, para além do entusiasmo com esse admirável mundo novo, é preciso lembrar que internet tem, sim, fronteiras – e que elas esbarram na nossa falta de preparo para lidar com um mundo em que a tecnologia caminha mais rápido do que a mudança de conceitos. É óbvio que a internet e as redes sociais abriram caminho para novas formas de socialização, que as possibilidades de participação política se ampliaram de uma maneira sem precedentes e que os grupos historicamente no controle da vida social – o poder financeiro e os Estados – estão atônitos com tudo isso. Mas não dá para romantizar muito o cenário. As pesquisas sérias sobre esse assunto mostram que menos de 1% dos usuários ativos da rede efetivamente produz conteúdo. Isso quer dizer que a maioria só consome informação e repassa a diante. Boa parte desse conteúdo produzido para a internet – isso as pesquisas também demonstram – vem de grupos de mídia tradicionais. Ou seja: as pessoas continuam creditando a esses grupos seus principais referenciais. E por isso, antes de nos deslumbrarmos com as possibilidades da internet, precisamos repensar o modelo vigente nas mídias tradicionais. Crescemos ouvindo a TV nos falar sobre concentração fundiária, reforma agrária… Mas em concentração midiática elas não falam, em reforma midiática é óbvio que não vão falar. Qualquer movimento nesse sentido é logo mal-interpretado (com más intenções) como censura, ameaça ao direito de livre expressão. Mas essa discussão precisa começar a ser gestada, e isso só vai poder acontecer no ambiente on line. É preciso democratizar a mídia no Brasil, permitir que vários atores e segmentos consigam emergir e atuar nesse espaço que é público. As nossas manifestações culturais; as várias formas de pensar e sobretudo de viver. Aquilo que em jornalismo a gente chama de “frame”; ou recorte, se tornou insuficiente pra abarcar toda uma realidade social complexa, cheia de lados. Na verdade, pra que a internet e as redes sociais efetivamente promovam mudanças, é preciso oferecer às pessoas novos referenciais: é preciso que elas entendam que imparcialidade é um mito; que não é ruim ter um lado e que isso se chama democracia. Mas é preciso que elas entendam também que toda informação pode ser manipulada, usada da maneira que melhor convém a quem conta. Isso me parece que já é uma percepção coletiva, mas ainda profundamente descolada do sentido prático. Quantas pessoas compartilham algo sem checar se aquilo é verdadeiro ou não? As pessoas estão perdidas em um mar de informação, sem saber em quem acreditar. Daí vem também a grave crise de credibilidade que atinge o jornalismo.

2. O que você entende por “ativismo de sofá”? Acha que ele pode contribuir com algo?

Eu já tive várias opiniões sobre isso e felizmente estou constantemente reformulando, rs. O que chamamos de “ativismo de sofá”, normalmente de maneira pejorativa, é o exercício político na internet. O fato é que é uma forma muito nova de participação e que dá provas de que tem fôlego, que vai se tornar cada dia mais comum. Outro aspecto importante disso tudo é que os políticos costumam gastar milhões de reais em pesquisas durante as campanhas eleitorais, mas não usam o mesmo recurso para legislar e governar de acordo com o que pensam e querem as pessoas. Agora, se sentirão cada vez mais pressionados a isso, o que é muito bom. O grande risco do sofativismo é que as pessoas passem a entender a atuação política como uma relação comercial. Não se “devolve” um político porque se está insatisfeito com a atuação dele, como se fosse um produto dentro da garantia – não se a maioria estiver satisfeita. E como medir isso? Na urna, claro. Pelo menos até que inventemos um jeito melhor. Achar que a parcela ativa de pessoas fazendo sofativismo reflete a maioria é estar cego para milhões de pessoas que não atuam dessa maneira, mas também são representadas politicamente. Sim, isso me faz lembrar a grande desonestidade do brasileiro de classe média que imagina que seu voto vale mais que o de alguém que recebe bolsa-família. Por que a elite sempre insiste em pensar que pode decidir pelos pobres, por algum acaso eles são uma classe social incapaz de pensar?

3. Você é a favor do tipo de manifestação que vem acontecendo em nosso país? Já participou de alguma?

Posso devolver a pergunta? Qual “o tipo” de manifestação que vem acontecendo no nosso país? Elas são “pacíficas”? São violentas? São manifestações que incorporam um pensamento da esquerda ou da direita? São fruto da insatisfação de uma determinada classe social, ou são plurais e congregam todos os setores da sociedade – incluindo os que estão à margem dela? É importante lembrar que as manifestações começaram com uma pauta clara, um objetivo legítimo e específico: derrubar o reajuste da tarifa de transporte público de São Paulo. Um movimento na base da esquerda, do movimento estudantil.
No segundo momento, as pessoas foram às ruas protestar contra a enorme carga repressiva com que o governo de São Paulo respondeu aos manifestantes. Daí em diante causa inicial foi seqüestrada. A opinião pública, absolutamente dirigida pela mídia tradicional, mudou as bandeiras e condensou uma insatisfação generalizada da classe média com o governo, com a classe política de uma maneira geral. O que vimos foi um festival de absurdos, de declarações fascistas nas ruas, de arbitrariedades de todos os lados. Por isso é tão difícil responder qual “o tipo” de manifestação estamos vendo. É claro que, em princípio, só sendo muito anti-democrático para condenar o exercício livre de se manifestar e de cobrar algo de qualquer governo. Mas há um problema gravíssimo no nosso cenário. Nossa juventude é despolitizada, as pessoas mais velhas evitaram falar de política ao longo das últimas décadas, criou-se um consenso de que “política não se discute”. Como assim, gente? Não vejo como não discutir política nos livrará dela, não discuti-lá vai só piora-lá. Política se discute sim, assim como sexo, religião e futebol. Esse ressentimento é fruto de uma ditadura de direita que maculou profundamente a nossa história e de uma desilusão com um governo de esquerda que terminou por fazer concessões demais em favor de uma tal “governabilidade”. As pessoas não estão interessadas em saber quem é da base aliada e quem é da oposição, não estão interessadas na disputa política PT/PSDB. Elas estão cansadas disso. Mas isso é péssimo, porque sem compreender como funciona a política não vai ser possível mudar a política – nem em semanas, nem em meses, nem em anos de gente nas ruas. Na última semana eu e meus pais passamos por uma situação complicada voltando pra casa de noite. Passamos por uma manifestação que fechava o elevado da Cohama e fomos ameaçados unicamente porque estávamos passando por ali. Que rostos eram aqueles? Quem eram aquelas pessoas? Bom, não sei. O que sei é que elas não estavam ali se manifestando politicamente enquanto rejeitavam a política como instância de negociação de interesses. Elas estavam, ao contrário, regurgitando recalques. Estavam ali para paralisar a cidade e dizer claramente que elas não são parte dela, não se vêem inseridas nela. É uma catarse de uma geração niilista, iconoclasta, desiludida. Isso é preocupante, e não é exclusividade brasileira. O mundo está em crise e não só no aspecto econômico, mas o modelo do neoliberalismo não é o ideal, como queriam nos fazer acreditar seus teóricos, a social democracia não consegue ser tão social e nem tão democracia assim, o capitalismo é autofágico. A crise é anunciada.

4. Existem limites para o jornalismo? Explicando melhor, existe algum conteúdo ou situação que o jornalista “não deve” acessar?

Você poderia me chamar se louca se eu dissesse que o jornalismo não pode acessar determinados conteúdos e temas! Não só pode como tem o dever moral de fazê-lo. Jornalismo, diz o mestre Ricardo Kotscho, “é um serviço público essencial, que existe para informar uma parte da sociedade sobre o que a outra parte está fazendo”. Extrapolando um pouco mais esse conceito, a gente pode dizer que é de responsabilidade do jornalismo contar a história do nosso tempo e principalmente questionar os alicerces sobre os quais se constrói a história da dominação de uns homens sobre os outros. Essa dominação não acontece só no macrossistema político e financeiro, mas em menor escala, nas casas, nas famílias, com a manutenção de um modelo social de patriarcado, que se reproduz em estupros, violências dos mais variados tipos… Essa dominação se reproduz quando consideramos que a vinda de um médico latino para atuar entre os nossos, supostamente mais bem preparados, é negativa, mas não pensamos da mesma maneira se estiver vindo um médico “importado” de uma universidade norte-americana. A xenofobia, o machismo, a homofobia, a luta de classes… Tudo isso faz parte da nossa era. Não morreu, não ficou pra trás. Cabe ao jornalismo lembrar as pessoas disso todos os dias.

5. Qual a sua opinião sobre o posicionamento da presidenta Dilma diante das manifestações?

Coitada da Dilma!, rs. A Dilma foi sendo comprimida pelo peso das alianças ao longo dos últimos anos. O jogo político, do jeito que acontece no Brasil hoje, é um jogo de conciliação de interesses. Para permitir que seja feito o que precisa ser feito, é preciso manter uma base de partidos aliados cujos representantes no Congresso amanheçam diariamente na briga com os representantes da oposição. Isso não é, evidentemente, positivo para a sociedade. Há uma disputa pelo poder e as armas usadas para dificultar ou facilitar o acesso a ele são a saúde pública, a educação, as garantias civis individuais, o planejamento urbano, a previdência, a questão fundiária, enfim… A Dilma jogou bem quando as ruas passaram a bola para ela.Movimentar-se rumo a uma reforma política foi uma saída inteligente. É óbvio que o nosso Congresso não quer a reforma política, caso contrário ela já teria saído. Ao propor essa reforma abertamente e dizer à população que não vai medir esforços para que ela aconteça, Dilma escancara a necessidade de uma reforma de fato. É como se mandasse um recado: “olha só, estão lutando contra os interesses coletivos, não é por minha causa que essa reforma não acontece”. É óbvio que é uma forma de partilhar o peso da responsabilidade com toda a classe política, mas é muito mais simbólico. Ao fazer isso, a mensagem que fica é que há os que trabalham para atrapalhar. E as pessoas precisam mesmo saber disso, porque, veja bem, faz parte do processo de politização reconhecer quem são os atores e que personagens eles encenam.

6. Qual a sua opinião acerca das declarações do deputado Marcos Feliciano sobre homossexuais, mulheres e negros?

Ai, o Feliciano… rs. Olha, eu acho ele um erro de percurso da natureza. Uma dessas pessoas que nem deviam existir, foi, sei lá, um momento de burrice da seleção natural, rs. O que acho das declarações dele? Acho ignorantes, burras, fundamentalistas, preconceituosas… Óbvio que eu poderia dizer só isso, mas seria ignorar uma reflexão muito mais perturbadora sobre algo que se personifica na figura do Feliciano, mas sobre o quê ele é só um lado aparente. Ele não é um caso isolado, como gostaríamos de acreditar. Na verdade, o Feliciano é o lado estridente de algo que avança de maneira perigosa sobre a nossa esfera social: as tendências teocráticas. Permitir que o que diz a Bíblia (ou o Corão, ou a Torá, ou o Livro do Espíritos) esteja acima do que diz a constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos é renunciar àquilo que temos de mais valioso, que é a democracia. Pra ser bem honesto com os evangélicos de bem e dar o nome correto ao que as coisas são, a bancada congressista composta por Feliciano, João Campos, Garotinho entre outros nem devia ser chamada bancada evangélica, mas bancada teocrática. Eles estão à serviço de restringir liberdades individuais, interditar questões de saúde pública (como no caso do Estatuto do Nascituro), e de fazer com que o Deus deles seja dominante sobre o Deus dos outros. O que faz do Deus do Feliciano melhor que Ogum, por exemplo? Nada, mas se você fizer essa pergunta pra ele, vai ouvir que o Deus dele é o verdadeiro Deus porque assim diz a Bíblia. Gente, cada um acredita naquilo que quer – e a liberdade de crença é princípio constitucional e é de foro íntimo. Mas normatizar a vida do outro a partir de suas crenças é violência, é impedir que o outro seja simplesmente “o outro”: um indivíduo autônomo, que merece viver sua vida como lhe convém. O Estado precisa ser laico, sob pena de atentar contra seus próprios indivíduos – e negros, mulheres e gays são segmentos vulneráveis aos ataques de uma teologia deturpada. Aqui, mais uma vez, entra o aspecto da dominação de um grupo de homens sobre outros homens. E nem vou me atrever a falar sobre isso em um blog escrito por uma psicanalista, mas certamente essa necessidade de domínio sobre o corpo por meio da colonização da mente tem explicações bastante contundentes em Lacan, não?

Bom, é isso. Espero que tenham gostado da primeira entrevista. E comentem!!!
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Novidades do blog Divã

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Depois de um bom tempo, o blog volta com novidades. Durante as próximas semanas, profissionais de áreas afins à Psicologia serão entrevistados por aqui. Essa era a ideia inicial, mas ficou impossível ficar somente com os profissionais dessas áreas depois da onda catártica de manifestações pelo Brasil. Sendo assim, entre as entrevistas desse primeiro grupo, uma ou outra pessoa de opinião importante para esse blog será também entrevistada. Se as entrevistas com os profissionais se estabelecem por fins mais didáticos e informativos aos leitores, acerca de cada área de conhecimento específico, as entrevistas do segundo grupo tratarão de assuntos voltados à atualidade do contexto social e cultural brasileiro. Espero que gostem!

 

PS: Vem “Amor à vida” por aí 🙂

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“Minha vida a-ca-bou!” ou Sobre a adolescência

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Se tem uma coisa que eu gosto na vida é escutar adolescentes. Na verdade, gosto deles como um todo: suas intensidades, medos, amores, raivas, ódios, desejos. Tudo é tão novo e interessante que nos faz pensar em uma velha discussão que ronda os “adultos” sobre eles: adolescentes seriam chatos e difíceis ou sonhadores e esperançosos?

O período “adolescência” ficou tão difícil de definir ao longo do tempo que muitas correntes da Psicologia optam hoje por defender que não existe faixa etária fixa para essa fase. O que existem são perfis típicos que caracterizam um sujeito e algumas características podem estar presentes nos chamados adolescentes. Logo, temos adolescentes de 25 anos e de 11 anos, por exemplo. Depende do contexto, da cultura, da sociedade que os envolve, de seu desenvolvimento intelectual e emocional, de atividades de sua rotina, dentre outras coisas.

Talvez o ponto mais interessante sobre o adolescente seja exatamente a velha discussão já citada acima, ou melhor, os sentimentos que essa discussão ou que o próprio adolescente acaba por provocar nos “adultos”. Uma pessoa adulta já foi adolescente. Parece que essa segunda fase da vida, sendo a primeira a infância, nos faz pensar se somos realmente aquelas crianças que um dia fomos, quando recebíamos amor e cuidado o tempo todo de nossos pais, ou se viramos uma outra coisa, um outro sujeito, ora irresponsável, ora fardo, ora brilhantes, ora descuidados. Quando a gente é adulto, fica difícil olharmos a vida na visão de um adolescente. E qual é a visão do adolescente sobre a vida?

1. O adolescente é intenso: sua paixão da escola é seu primeiro e ÚNICO amor da vida. Seus problemas são urgentes, tais como: “se eu não for convidada para a festinha na casa de Fulana, minha vida social acabou e isso significa que ninguém me ama!!!”. Seus ódios são fortes e vorazes: “Mãe, te odeio!!!”; “Pai, jamais quero ser como você!”;

2. Imagine que você ainda é um adolescente e escuta a seguinte frase da sua mãe: “filha, você não é mais criança, você tem que ser responsável, fazer as coisas com mais independência!!” Entretanto, chega o fim de semana e a mesma mãe diz para a mesma filha: “Você não vai pra essa festa porque você não tem idade pra isso, você ainda é uma criança!”. Pois é, a velha história de ser criança pra algumas coisas e adulta para outras. Apesar de isso ser totalmente compreensível para os pais, para os adolescentes, muitas vezes, não é. Eles não entendem como pode ser possível ser, ao mesmo tempo, duas coisas tão distantes. Na verdade, o que assola o adolescente parece ser a concepção de que ele é um sujeito SEM IDENTIDADE, já que é o tempo todo lembrado disso por cobranças e proibições que sofre;

3. A adolescência é normalmente a fase onde as mais importantes descobertas da vida acontecem: o primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira viagem com os amigos, as primeiras dormidas fora de casa, os primeiros namoros, a primeira relação sexual. Só isso já é muita coisa pra dar conta!!! Pobre do adolescente que não pode compartilhar essas e outras experiências com ninguém. Ser ouvido e COMPREENDIDO é importante em qualquer época da vida, que dirá essa. Vale lembrar: compreender não significa concordar com tudo e sim respeitar e dar atenção ao que o adolescente demanda, deseja e clama;

4. Quantas adolescências foram perdidas? Quanta gente teve que “pular” essa fase (ou o melhor dela) por conta dos caminhos da vida? Imagine se você, ao sair da adolescência, tivesse que ir direto para a velhice, sem direito à vida adulta? Ou se já nascesse adolescente, sem nunca ter sido criança? Isso nunca deu certo. Cada fase a seu tempo e cada tempo com sua importância. Entretanto, a partir dessa concepção, vemos hoje o “surgimento” de adolescentes de 25 a 30 anos, ou porque prolongaram demais a fase ou porque só estão vivendo sua adolescência agora, por motivos múltiplos. Isso pode prejudicial ao sujeito? Sim e não, como tudo na psicologia. Depende de muitos fatores. Se for do desejo desse sujeito e daqueles a seu redor, por que não? Tudo depende do desejo por isso ou da insatisfação por isso.

5. Adolescentes, hoje em dia, não podem ficar sem fazer nada!! Tem aula de tudo: balé, inglês, natação, matemática, português… ótimo, então ele está ocupando a cabeça e desenvolvendo potencialidades, o que é bom. Ok. Mas ele não pode ter um minuto de descanso? Ele não pode ficar um final de semana ou até mesmo uma tarde durante a semana sem fazer NADA ou fazendo algo que ELE deseja, que ELE tenha preferência? Pode e deve, pois privá-lo disso seria como silenciar seu desejo completamente. E outra: a vida extremamente atarefada de crianças e adolescentes PODE SER sintoma de seus pais.

A verdade é que a jovialidade adolescente é algo que nos assombra. É tanta intensidade apaixonada que os pais, por exemplo, podem sentir medo de não dar conta de tudo isso. “Ah, e se meu filho me perguntar sobre sexo? E se ele quiser saber sobre órgão genitais?” Aí você vai ter que responder! E vá pelo caminho mais fácil: deixe de lado os contos de fadas e mitos e explique da maneira mais simples, sem muitos termos técnicos. E outra: SÓ RESPONDA O QUE FOR PERGUNTADO. Se ele não perguntou ainda, pode ser que ele não queira saber ou apenas não quer que você, mãe ou pai, seja aquele que vai dar essa informação a ele. Por mais que os pais sofram com isso, tem coisas que eles preferem NÃO  conversar com você.

Que nós, adultos, estejamos sempre atrás dessa jovialidade. Que antes das proibições e da estipulação de metas a serem alcançadas na escola, que os pais aprendam a ouvir e a compreender seu filho. Se você quer que seu filho partilhe as experiências dele com você (e isso NÃO inclui você ler o diário dele, por exemplo), então você não pode ser uma máquina de NÃOS ou uma repressora assombrada com tudo. Por que alguém ia querer contar suas coisas mais íntimas a alguém que só discorda e julga? Isso não parece lógico? Seja fiel, não conte os segredos dele a ninguém, especialmente a outros membros de sua família. Seja confiável e, por fim, respeite-o.

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Sobre machismo e sexualidade feminina

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Há muito se fala sobre liberação sexual, feminismo e direitos das mulheres. Ao mesmo tempo, construindo-se em outra via, se fala também sobre o machismo e sobre as consequências de uma sociedade machista para seus membros. Mas o que seria a sexualidade da mulher? O que se chama de machismo? Por fim, qual seria a ligação entre as concepções machistas que permeiam até hoje em nossa sociedade e a vivência plena da sexualidade da mulher?

Desde os primórdios da psicanálise, Freud construiu uma noção de sexualidade que vai muito além do ato sexual. Quando se pensa na concepção de sexualidade na teoria psicanalítica, não se pode pensar apenas em relações sexuais e de que forma elas acontecem. Na verdade, segundo essa concepção, o sexual seria a base de todos os nossos investimentos afetivos, mesmo que muitas vezes apareça atuando de forma quase imperceptível. A sexualidade da mulher, por exemplo, abrange desde seu desenvolvimento – que é psicossexual – até as escolhas  que fazemos na vida adulta. A sexualidade infantil, por exemplo, é um fato.

Já o machismo consagrou-se pela máxima de que homens, simplesmente por serem homens, tem certos privilégios que podem ser observados, principalmente, em suas participações na social. Por muito tempo, acreditou-se que o homem deveria ganhar mais do que a mulher, que ele teria direitos a mais por ser homem e que a submissão da mulher perante o homem era algo quase que “natural”. É como se “naturalmente” as mulheres devessem estar à disposição do homem, já que esse seria um dos papéis que fazem parte de sua essência.

Quando a gente lê esse tipo de coisa sobre o machismo, a gente tende a achar que isso é coisa do passado, que isso não existe mais. Hoje homem chora, ajuda na cozinha, ganha o mesmo ou até menos que muitas mulheres. Bom, isso é verdade, mas não é bem essa a questão. A questão é que a sexualidade da mulher ou a expressão dessa sexualidade faz com que possamos perceber o quanto ainda estamos presos à concepções machistas e pior: o quanto que ainda alimentamos o machismo em nosso cotidiano, em nossas relações. Talvez seja difícil de entendermos isso no primeiro momento, mas alguns exemplos de frases e de situações que são ditas e que ocorrem diariamente podem nos ajudar:

1 – “Homem solteiro pode ficar com quem e com quantas ele quiser. Já a mulher deve se preservar , pois se fizer o mesmo que o homem, ganhará fama” – eu desafio qualquer pessoa a me apresentar uma justificativa aceitável, que não seja o simples fato de uma pessoa ser homem e a outra ser mulher, para essa frase. Ahh, então eu estou dizendo aqui que as mulheres que ficam com outros caras depois do fim de um relacionamento não ganham fama, que isso é uma mentira? Pelo contrário, ganham fama sim. E por muitos motivos: porque somos hipócritas, porque aprendemos desde cedo que mulher pode fazer apenas tal coisas e homem outras coisas e por aí vai. Tá tudo errado. Mas nada justifica, de forma racional e clara, uma fama de garanhão para o homem nessa situação e outra fama de vagabunda para a mulher na MESMA situação. E outra: o que é mesmo uma VAGABUNDA? Por que elas fascinam tanto as fantasias das mulheres que as apontam?

2- “Mulheres não podem usar roupas muito curtas ou coladas, pois esse tipo de roupa provoca os homens” – Gente, tadinho dos homens! Sinto pena até! Não podem estar na presença de uma mulher de roupa curta porque já se sentem provocados por elas! Muitas vezes poderia passar pela cabeça deles que elas estão com essa roupa porque elas querem, porque se sentem bem com elas, porque até querem provocar alguém, mas não todo mundo, etc; E mais: a roupa curta de uma mulher não pode servir como justificativa para o ato de uma outra pessoa. Mas quem nunca escutou “ah, eu fiquei com ela mesmo, ela tava de roupa curta, me provocando, aí eu sou homem, né? Como é que eu ia deixar passar?” Sério, homem (das cavernas)? Então defina pra mim o que você entende por “provocação”.

3 – “Aquela fulana foi estuprada porque ela mesma provocou” – Ninguém é estuprado porque quer, se fosse por desejo de ambas as partes, já não se configuraria como estupro! E outra, mais uma vez: o que estamos chamando de “provocação”? Um vestido curto? Ok, então meu vestido curto é um convite para que você me estupre. Sério, essa é a lógica? Continuo sem entender.

4 – “Homem que cozinha e que cuida dos filhos com muito afeto é gay” – É gente? Gay? Ok, então vamos lá: um heterossexual é aquele que trabalha, ganha dinheiro, não é afetuoso, é sério, não ri muito e também não chora, pois não pode mostrar suas fraquezas. É isso? Olha, essa concepção é bem equivocada, mas diante de outras, é o mínimo que se pode esperar. Tem gente que acha que gay é aquele que “toma vinho sozinho” (?!). Então.

5 – “Mulheres que trabalham fora esqueceram de seus filhos e esses filhos não são bem criados” – Essa é uma concepção comum entre as próprias mulheres, diga-se de passagem. Muitas delas acreditam também que mãe mesmo é aquela que teve seu filho de parto normal, pois cesariana te priva da experiência da dor. Outra coisa comum é as mulheres acharem que, uma vez mães, não são mais mulheres, são mães. E pronto. Toda a sexualidade por água abaixo. Sobre ser “bem criado” ou não, essa é uma outra concepção a se pensar: o que significa ser “bem criado”? É estudar, trabalhar, não falar palavrão, não usar drogas, é isso? E se a mesma pessoa estudar muito, mas mentir pros pais e dizer que estava em um lugar x quando estava em um lugar y, ela é bem criada? Ou se estudar, ser gentil, mas um dia fugir da escola para beber e ir pra praia com os amigos, ela é o que? E se for do seu filho que falaram, ele é o que?

6 – “Mulheres devem aceitar que trair faz parte da natureza do homem” – Pois é, a NATUREZA…maldita hora que resolveram colocar a biologia dentro das concepções de gênero masculino e feminino. Desde que fizeram isso, ficou permitido se pensar em um homem que NATURALMENTE  faz e pode fazer x coisas e em uma mulher que NATURALMENTE tem x e y características. A verdade é que quem nomeia o que seria natural de cada gênero é a própria sociedade, já dizia Judith Butler. Bem aí, já há uma contradição: uma noção construída pela sociedade, por nós, dentro de um certo contexto histórico, não pode ser, ao mesmo tempo, algo tão NATURAL  assim. Se você quer acreditar que é da essência do homem trair, ok, isso é uma escolha sua. Mas não diga que isso é NATURAL, que é um direito dele, que Deus criou o homem assim, porque olha, não é bem isso aí não.

7 – “Trair não é da natureza da mulher” – Sério? Hahahahahahahah

8 – “Mulheres casadas PRECISAM engravidar para se sentirem completas” – O velho mito que ronda a maternidade. Ela seria algo tão maravilhoso que Freud escreveu que as mulheres só superam sua inveja de ter um pênis pelo desejo de terem um filho. Pode ser. Para algumas mulheres, sim. A dificuldade (das próprias mulheres, muitas vezes) é ACEITAR que existem no planeta Terra algumas outras mulheres que tem outras prioridades. Que são heterossexuais, que amam seus maridos, mas que não querem ter filhos, simplesmente porque, nelas, não há esse desejo. Pode ser que ele venha, pode ser que não. Mas isso só quem sabe é cada uma delas. Mas o que se vê é uma outra história: mulher tendo filho porque a sociedade está lhe cobrando, porque o marido ( e somente ele) quer, porque ela já é casada, então ela tem que ter um filho porque todo mundo tem que ter um filho, mulher abrindo mão de outros sonhos e de outros desejos seus, mais importantes naquele momento, para terem um filho, pois a família dela acha ter um filho mais importante do que os desejos dela mesma. E por aí vai. Ser mulher passa por inúmeras questões que não podem ser resumidas apenas na maternidade.

Todas essas premissas acima dizem respeito a uma diferença de gênero. Só isso. Uma pessoa pode ou não pode fazer alguma coisa simplesmente porque é do gênero X ou Y. Essas concepções fazem parte de nossa realidade atual. Acaba que, no fim das contas, de uma maneira ou de outra, somos julgados por termos um desses dois gêneros. Um alerta: a concepção dual de gênero vem caindo cada vez mais. Muitas das características que eram atribuídas somente para descrever uma mulher agora são de domínio do outro gênero. Explico: um homem heterossexual, que é casado com uma mulher, mas que gosta de vestir peças do vestuário feminino é de que gênero? Outra: um homem heterossexual, que é casado com uma mulher, mas que faz uma cirurgia para feminilizar seu corpo, pois assim se sente melhor, é de qual gênero?

Se colocarmos um pouco a cabeça pra funcionar, veremos que concepções baseadas apenas no argumento dualidade de gênero não podem mais se sustentar. Se você realmente acha que mulheres devem trabalhar menos que homens, que devem ser submissas a eles e que devem ter menos direitos que eles, assuma que isso faz parte do seu desejo, da sua fantasia, e viva isso! Mas não venha me dizer que isso é o “natural”, pois está na “essência” de cada gênero.

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Para que serve Marcos Feliciano?

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Muitas coisas poderiam ser ditas sobre o famoso pastor que agora ocupa a presidência da comissão de Direitos Humanos. Faço algumas considerações abaixo, com o intuito de construir argumentos objetivos e claros:

  1. Marcos Feliciano serve para apontar o poder que uma religião pode alcançar perante toda uma sociedade. Pastor evangélico, Marcos é defendido e amado por seus fiéis seguidores. Em vídeos disponíveis na internet, pode-se perceber o estado quase psicótico o qual Marcos e seus fiéis atingem durante o culto. O que é mandado por Marcos, é executado por seus fiéis. Se for pra fazer um exército, um exército será feito. E será um grande exército;
  2. Marcos serve para comprovar que a premissa que assegura o estado brasileiro LAICO é falsa. O estado laico é uma utopia. Se laico fosse, uma comissão de direitos humanos não se prestaria a discutir questões religiosas, visto que todo cidadão tem o direito de escolher sua religião;
  3. Feliciano também serve para comprovar que machismo, homofobia e racismo são três coisas que não só podem ser encontradas no Brasil como também o caracterizam fortemente. Para o deputado, as mulheres, os negros e os gays se estabelecem em uma camada da sociedade que é inferior e que está sob o comando do demônio. A mulher deve ser submissa, o negro deve se contentar com o fato de que tem uma origem  inferior e  amaldiçoada e os gays devem simplesmente procurar a igreja evangélica de Feliciano para deixarem de ser gays, pois a bíblia prega a proibição da homossexualidade;
  4. O pastor também serve para apontar o quanto artistas, católicos e o vídeo game, olhem só, são coisas e serventes do demônio. Caetano Veloso serviria ao diabo, enquanto que o assassinato de John Lennon e a morte dos integrantes da banda Mamonas Assassinas teriam sido uma providência divina. Feliciano também garante acabar com todos os vídeo games até 2014. Já os católicos são considerados pelo pastor como “adoradores do diabo”;
  5. O deputado serve também para mostrar a indiferença da presidenta Dilma perante algumas questões que envolvem toda uma sociedade. Não houve qualquer tipo de declaração ou posicionamento acerca das atrocidades que tem dito e feito o deputado. Pelo que consta, ela apenas disse que não comentará nada pois não gostaria de acirrar ainda mais a briga entre  religiões. Ou seja: nem a presidenta acredita que a comissão que o deputado preside exista para tratar de DIREITOS HUMANOS e não de religião. Nem a presidenta assegura o estado laico;
  6. O pastor nos ensinou que existem ex-gays. O que seria, na visão de Feliciano, um ex-gay? Um ex-gay seria alguém que era amaldiçoado, alguém que serviu ao demônio, mas que procurou a religião a qual prega Feliciano e se salvou, encontrando o caminho da heterossexualidade para constituir uma família de Deus. Segundo um depoimento de um ex-gay ligado à Feliciano, vinculado nas redes sociais, o ex gay deve lutar para sempre contra a tentação. Isso significa não ficar perto de homens por muito tempo, por exemplo. Outro caso de discussão entre a homossexualidade e a religião foi a declaração do pastor e PSICÓLOGO Silas Malafaia, que afirmou que gays podem ser curados, já que o próprio Freud teria curado uma jovem homossexual nos anos 20. O fato é que o psicólogo e pastor parece não ter lido Freud muito bem. Freud não cura a jovem, apesar de esse ter sido o pedido dos pais dela quando a encaminham a ele para tratamento. Além disso, essa jovem possui uma biografia publicada, “Desejos Secretos”, onde explica exatamente o que, na sua visão, aconteceu e o que fez da sua vida depois de seu encontro com Freud. Tem gente que acredita em espíritos, outros em saci pererê, outros em duendes e alguns em ex-gays. Por favor, aqueles do último grupo, leiam a biografia da jovem homossexual;
  7. Feliciano serve para desafiar áreas as quais não domina e parece até mesmo desconhecer. Segundo ele, psicólogos deveriam ser autorizados a “curar” os gays, visto que o CRP não permite esse tipo de prática – inclusive a considera como motivo para a prática de um profissional ser proibida e sua licença ser cassada;
  8. O pastor nos mostra o quanto de pessoas que “convivemos” pela televisão ainda possuem um senso crítico digno de consideração. Milhares de artistas e intelectuais se pronunciaram contra seus pensamentos arcaicos, fundamentalistas e preconceituosos em relação à vários grupos e camadas da sociedade;
  9. Feliciano também nos fez outro favor: escancarou a hipocrisia das pessoas. A velha história de “amo meus amigos gays, mas não concordo que eles tenham os mesmos direitos dos heterossexuais” não cola mais pra muita gente. É o tipo da coisa, não adianta você dizer que ama uma pessoa, elogiar essa pessoa, mandar recadinhos pro seu maquiador gay dizendo “amei minha make, te amo!” e, em sua primeira oportunidade, deixar bem claro que esse que você ama tanto não pode ter os mesmos direitos (fundamentais) que você, SIMPLESMENTE PORQUE VOCÊ É HETEROSSEXUAL E ELE, GAY. Que tipo de construção narcísica é essa?
  10. O pastor nos mostra a quantidade de MULHERES MACHISTAS que habitam esse mundo. É mulher defendendo homem que passa a mão em outra mulher porque ela estava de vestido curto e por aí vai. Muita mulher machista, que ainda acha que homem pode fazer o que quiser SIMPLESMENTE PORQUE É HOMEM e mulher tem que ficar em casa trancafiada e se submeter às coisas impostas. Sério, que ano é hoje?
  11. Por fim, Marcos Feliciano nos mostra que é muito importante e útil para a sociedade atual. Ele serve para desafiar nossos preconceitos, nos fazer pensar, nos trazer para a realidade, mostrar a hipocrisia de nossas relações pessoais. Serve para fazer com que as pessoas se organizem em prol de algo. Tomara que dure apenas o tempo necessário, pois se passar da hora, estraga. Feliciano nos faz dialogar com nosso verdadeiro eu, com nossos verdadeiros medos e crenças, mas isso não pode durar ao ponto de uma dominação nazista.
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Por onde anda a criança perdida?

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Nós, adultos, sonhamos com nossa infância “perdida”, com o tempo em que éramos crianças e não precisávamos economizar dinheiro para pagar as contas do mês. Sonhamos com a inexistência da palavra “futuro” de forma concreta e sólida. Futuro, quando éramos crianças, era apenas um tempo quando alguns sonhos se realizavam, pois podíamos ser o que quiséssemos.

Bom, e o que realmente muda? O que fica diferente, de outra maneira, quando a gente cresce? Talvez uma resposta adequada a essa pergunta seria que a gente toma umas formas antes impensáveis e perde um mundo de tons. Talvez as mudanças ocorram, principalmente, em nossa forma e em nossa cor: se antes éramos da forma que imaginávamos, seja ela qual for, e das cores que quiséssemos nos colorir, depois de um tempo assumimos formas estranhas e bizarras e, simplesmente, ficamos em preto e branco – o que nos remete a uma falta de criatividade e de vontade de experimentar.

Talvez a marca mais clara, talvez o que realmente marque o espaço entre uma criança e um adulto seja uma questão de perdas e ganhos. Na infância, se ganha. Ganhamos sonhos, ideias não censuradas, ganhamos muito – porque ainda não perdemos a capacidade de ver o quanto vale muito algo de fácil acesso e de pouco ou nenhum valor monetário como abraços, beijos, conversas. O que se ganha é impagável. Na verdade, o que é “sem valor” é justamente o que é impagável. Depois, vamos perdendo. Não perdemos abraços e beijos, mas o valor que outrora eles tiveram. É o tempo em que pretendemos colocar preço no impagável, é quando a necessidade de se “civilizar” nos rouba a inocência e nos traz o mal-estar e a censura. O que podia antes, hoje não pode mais.

O lado bom, de certa forma, é que por mais que tentemos crescer, vamos sempre carregar um punhado de “infantilidade”, de sentimentos de criança, de crença e fé em algumas pequenas coisas, como o amor e a amizade, por exemplo. E não nos enganemos: isso se deve ao fato de termos “aprendido”, quando crianças, que quando a gente ganha algo a gente diz “obrigada (0)”, que quando a gente gosta de alguém, podemos chamar esse alguém de amigo e pode começar a confiar e contar com ele, pode ficar triste quando ele não está e muitas outras coisas que marcam a nossa infância no sentido de construir certos conceitos para os sentimentos que temos pelas pessoas e pelas coisas.

Desse modo, talvez a infância não seja nada mais do que o período onde a gente constrói o significado de certos sentimentos, afetos, gostos, prazeres, choros, tristezas, cheiros, aversões e outras coisas. É o período das descobertas em torno das palavras que a gente escuta e diz e das significações que damos a elas. É a alegria no volume máximo, combinada a pausas de tristezas simples e belas, como uma dor por conta de um machucado, fruto do fim de semana, que arde sem pressa, no compasso de quem cuida dele. A infância poderia ser como uma coleção de todas as nossas melhores amizades que nos decepcionam por não quererem compartilhar do mesmo brinquedo, mas que apoiam nossos maiores sonhos. O que constrói a infância deve ser algo como uma caixa de recordações de nossos maiores amores, com todos os elementos, com todas as cartas, bilhetes, papéis e trecos contidos nela. E talvez, acima de tudo, não se possa falar de infância sem falar de família. É quando nossos pais são maiores, mais bonitos e mais legais. É quando sonhamos com o dia em que seremos como eles, iguais a eles, sua cópia fiel. Por vezes, esse elo é ruim, tão ruim que estraga toda a inocência boa e necessária que nos constitui. A família é, principalmente, constituinte e construtora.

A criança então, não se perdeu na rua, em outra cidade ou em outro país. Se a criança está perdida, não se preocupe nem se ocupe demais pensando em seu melhor esconderijo: ela perdeu-se em você, dentro de você – e há melhor esconderijo? A gente nunca acha que vai encontrar o que perdeu em algum lugar óbvio. Ache-a o quanto antes, mas, se demorar, não se preocupe em promover um encontro entre a sua velhice e a sua infância. Não existe nada mais similar do que infância e velhice mesmo…

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