38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo – Dia 14

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Que história bonita a de O Círculo (2014), o candidato Suíço ao Oscar 2015. E que sensibilidade a do diretor Stefan Haupt em combinar documentário e reconstituição para narrar o romance entre Ernst e Robi, o primeiro casal homoafetivo (ou homoerótico, como gostam de ser chamados) a casar na Suíça. A história deles começa em 1958 e envolve o surgimento da revista gay O Círculo, cujo nome da título ao filme, que migrou à Suíça após a criminalização da homossexualidade durante o período governado por Hitler. Entrecortando os depoimentos dos “verdadeiros” Ernst e Robi e de participantes daquele período com a recriação de certos eventos interpretados pelos competentes Matthias Hungerbühler e Babett Arens, a narrativa sinaliza com o preconceito tácito e expresso da comunidade que exige inclusive um escondeirijo subterrâneo por parte dos membros da revista. Afora a força da história de superação – e o amor de Ernst e Robi vencerá -, Haupt ainda o faz sem esquecer de nos fazer temer pelo destino dos heróis. Um dos representantes do Oscar que mais gostei.

Snow in Paradise (2014) seria um drama britânico com cara setentista se não houvesse o uso do Islamismo como ponto de redenção do protagonista Dave (Frederick Schmidt), um peixe pequeno no oceano do crime chefiado por seu tio, que desce uma espiral de consumo de drogas e violência até reencontrar-se na citada religião. A propósito, se há algo que Snow in Paradise sugere é que poderia ter sido estrelado por Tom Hardy e Michael Caine há alguns anos, tamanha a semelhança de Schmidt e David Spinx com os citados. Mas esta curiosidade não tem nada a ver com esse interessante estudo de personagem, estreia na ficção do montador Andrew Hulme (ControlUm Homem Misterioso), que não sucita comentários do tipo “casa de ferreiro, espeto de pau” pois os talentos deste vêm a serviço da narrativa para ir e vir no tempo e ilustrar as alucinações do protagonista ao invés de investir no decurso linear da ação. Faz sentido já que nos põe na cabeça do protagonista e em tudo que lhe cerca.

Em contrapartida, Hulme denuncia sua origem na escolha de ângulos inusitados da câmera que nada auxiliam a narrativa a contar sua história (para que os contra-plongés?). Hulme também equivoca-se na direção de atores quando parece exigir de Schmidt uma composição mais exagerada da que o ator pode entregar sem parecer forçado – e há cenas que Schmidt está esforçando-se em atuar, curvando o corpo mais do que o necessário, respirando de forma ofegante com a boca aberta etc. Mas por mais que a inexperiência cobre seu preço, Snow in Paradise tem solidez penetrante para nos manter ligados até o longo plano final.

Deixei por último um dos melhores filmes da Mostra deste ano ao lado de Winter Sleep e A Gangue, A Ilha dos Milharais (2014), selecionado pela Geórgia para representá-la no Oscar 2015. Sua narrativa leva minimalismo ao extremo ao apresentar um Avô e sua Neta, que chegam a uma pequena ilha e nela constroem sua casa e plantam um milharal, isto durante os conflitos que assolavam a região e cujas consequências ouvem-se no ribombar das metralhadoras e fuzis e na presença de um soldado Georgiano ferido e ajudadado pelo desconfiado Avô.

Como uma pedra preciosa, a direção de George Ovashvili é lapidada em pequenos detalhes: no olhar do Avô para ambos os lados quando descobre um “tesouro”, com receio de estar cometendo um crime, ou a ternura mútua entre Avô e Neta no auxílio desta com as tábuas de madeira e equipamentos pesados trazidos à ilha. Aliás, a Neta ganha maior importância à medida que a narrativa avança, o amadurecimento sexual desponta como uma gota de sangue (menstrual ou do cervo que acabara de morrer ali?) sobre a folha de uma espiga de milho e a boneca insperável que andava a tiracolo torna-se uma lembrança distante da garotinha que era.

Por falar na boneca, que será a rima inanimada que devolverá a narrativa ao ciclo original, A Ilha dos Milharais encontra dentro do seu microssistema de subsistência um desfecho arrebatador, angustiante e produto não do ser humano e de suas guerras, mas da aleatoriedade da natureza. Um “ser” que não julga as intenções e por isso mesmo é tão amedrontador.

Obrigado a todos que acompanharam estes 14 dias e 60 filmes de cobertura de nova Mostra São Paulo. 2015 tem mais. 🙂

Cotações:

58) O Círculo ****
59) Snow Paradise ****
60) Ilha dos Milharais *****

A Ilha dos Milharais

Cinema mínimo arrebatador em A Ilha dos Milharais

Snow in Paradise

A espiral decadente de Snow in Paradise

O Circulo

Documentário e recriação em O Círculo

Imagens:

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