Metabolismo Lipídico: Parte I

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Galera, decidi de vez tomar uma iniciativa que há muito tempo queria fazer. Apesar de eu ter uma coluna no MundoTRI onde eu tenho total liberdade para escrever, o motivo pelo qual decidi escrever um pouco mais sobre fisiologia aqui no blog é porque eu queria muito ter algo que fosse mais participativo, onde eu recebesse sugestões de temas bem específicos, principalmente situações do nosso dia-a-dia no triathlon e em outros esportes. Isso me força a estudar mais, a ir em busca de muita coisa desconhecida e de atormentar a vida de vários professores pra me dar embasamento e escrever sobre determinados assuntos. Não preciso nem dizer que nem de longe sou o dono da verdade. A intenção é apenas levantar questionamentos e, pela proximidade com a Educação Física e por ser minha área de estudo para o mestrado e nos grupos de pesquisa, consigo desenvolver alguns conceitos que fazem sentido para mim. Aqui, eu compartilharei com vocês, onde espero que também faça sentido. Aí cabe a vocês identificar se é importante ou não! :))

O primeiro tema foi sugerido pelo Ulisses, no grupo IRONBROTHERS, e foi colocado diante da seguinte situação: “Gostaria de saber mais sobre a transformação do nosso corpo para usar mais gorduras do que carboidratos.”

Achei bastante oportuno porque é um assunto que influi diretamente na direção do nosso treinamento.

Primeiramente, me vem uma questão: ter eficiência do metabolismo lipídico para quê? Precisamos, antes de tudo, identificar qual é o tipo de esforço predominante em prova do atleta em questão, para então saber se é importante ou não ter tanta eficiência no metabolismo lipídico. Eu compreendi na pergunta que se trata de provas de longa distância, mas só gostaria de ressaltar que nem sempre é oportuno gastar tanto tempo com baixa intensidade, visto que a gordura nunca vai ser mais eficiente do que os carboidratos na capacidade de gerar trabalho, por questões metabólicas e estruturais. Por exemplo,  para um corredor de 10.000 ou um triatleta de curta distância (short ou olímpico), não é interessante super-otimizar o metabolismo lípidico, visto que, para as situações de prova que eles estarão submetidos, é muito mais importante ter o limiar anaeróbico super-fortalecido – e que é completamente dependente dos carboidratos.

Para as provas de longa distância, tenho a impressão de que existe um pouco de confusão diante dos conceitos. Eu pelo menos tenho percebido as pessoas colocando que é possível, num determinado nível de esforço, em vez de utilizar carboidratos como fonte energética, utilizar a gordura – não é bem por aí. Vamos à alguns conceitos fisiológicos.

Em bioenergética, existem alguns fatores que regem a seleção do substrato energético para determinada intensidade e duração do esforço. O corpo seleciona primordialmente o substrato mediante a intensidade.

Vou usar uma situação muito conhecida.

É muito comum, principalmente em academias de ginástica, por exemplo, o comentário dos professores de que antes de 30 minutos nosso corpo não queima gordura. Isso é completamente equivocado por vários fatores. Inicialmente, fomos educados a imaginar o esforço alimentado por somente um substrato, ao passo que a nutrição do esforço, ou até mesmo do estado de repouso,é e sempre será uma mistura dos três macronutrientes – carboidratos, proteínas e gorduras -, regidos primordialmente pela solicitação energética para o momento - e não pela duração (aqui entra o segundo equívoco). Isto acontece por carboidratos, proteínas e gorduras tem capacidades diferentes em gerar trabalho. Não é por acaso que o metabolismo anaeróbico e o esforço pesado em metabolismo aeróbico é regido primordialmente pelos carboidratos, onde se envolve alta energia, e que os baixos esforços e o estado de repouso é regido pelas gorduras. Mas, todos, sem exceção, sempre serão um conjunto de processos onde todos os nutrientes estão envolvidos para tornarem-se uma coisa só ao final disso – ATP. Mas, o que torna o carboidrato mais eficiente em gerar trabalho do que a gordura? Estruturalmente, os carboidratos possuem comprimentos de cadeia bastante inferiores ao das gorduras, que são muito maiores e mais difíceis de serem quebrados.

Vocês já devem ter se perguntado porque estou usando o termo trabalhoem vez de energia. Seria errado eu falar que o carboidrato é mais eficiente do que a gordura em gerar energia porque 1g de CHO tem 4 kcal, e 1g de FAT tem 9 kcal (mais que o dobro). Isto é completamente paradoxal, pois, se a gordura fosse tão ágil na disponibilidade e na sua conversão em ATP, provavelmente teríamos esforços humanos que ainda não vimos. Entretanto, o trabalho final não dependente só da capacidade energética do nutriente, mas sim de como ele pode ser processado e multiplicado em ATP.

Tendo isto, na situação colocada pelo Ulisses, vamos entender o que acontece de fato. Fica realmente muito complicado dizer que capacitaremos o nosso corpo para trocar os carboidratos pelas gorduras, porque não é isso que vai acontecer, e se acontecesse, teríamos queda de rendimento. O principal conceito que precisa ficar claro aqui é que o que se quer dizer é que o atleta de longa distância precisa ter boa velocidade em baixa intensidade! Os processos que nos fazem chegar ao ponto de, por exemplo, correr a 3min50s/km com uma FC de 155 bpm, como o Craig Alexander o faz, não envolvem trocar os carboidratos por gorduras, porque esta zona de esforço é comandada pelas gorduras. É um conjunto de adaptações.
O que acontece é que, nas situações de prova de longa distância, estamos em baixa intensidade. Sempre será baixa intensidade, se comparado a um golpe, um tiro de 100m, uma corrida de 1.500m. É baixa intensidade fisiológica. E, ganha uma prova quem é mais veloz. Em um Ironman, depois de 5 horas de prova, nós não conseguiremos sustentar uma intensidade de esforço tão forte quanto conseguiríamos numa corrida solo, por exemplo. E é no que sobra que precisamos tirar o máximo.

Nesse nosso conjunto de adaptações, temos situações como: o atleta corre os 10km com pace de 3min30s/km, por exemplo, entretanto, ao correr a 75% de sua FC, não consegue sustentar um pace abaixo de 4min30s/km. Isto é completamente plausível e esperado tanto no âmbito matemático como no âmbito fisiológico. Isto reflete bastante ineficiência do metabolismo lipídico de produzir trabalho, pois ele não tem sido treinado pra isso. Este atleta, provavelmente, para correr a 4min30/km, terá que sair dos 75%, apesar de continuar com a percepção do esforço em fácil. Os mecanismos que controlarão o estado estável de produção de energia, o controle biomecânico e principalmente as adaptações enzimáticas que selecionarão a gordura para produzir o esforço precisam ser estimulados com trabalhos que envolvam treinar em baixa intensidade, ainda que se tenha que correr em ritmos muito mais lentos do que o usual. Este trabalho, se contínuo, o trará para o seu equilíbrio de proporcionalidade. Essa proporcionalidade é que é o ponto chave, sempre partindo do limiar anaeróbico como referencial. Isto quer dizer compreender que ritmo é esperado para diversas faixas de FC (ou VO2máx ou potência) em função do que você tem hoje para o limiar anaeróbico. Aí você consegue detectar as deficiências do atleta. O contrário também pode acontecer. Um atleta que tem este mesmo limiar anaeróbico e não consegue correr 1km abaixo de 3 min provavelmente tem um condicionamento anaeróbico e adaptações musculares de velocidade bastante ruins!

E, para finalizar, porque isto é bom e tem sido preconizado?!

Essa é mais fácil, e é por um conceito bastante comum, conhecido por nós todos. As nossas reservas de gorduras são infinitamente maiores do que as nossas reservas de carboidratos. A prova de Ironman, querendo ou não, o obrigará a competir regido primordialmente pelo metabolismo lipídico, sempre, justamente pelas reservas de carboidratos, mesmo que repostas, não conseguirem suprir com qualidade o esforço solicitado. Aí, o atleta que conseguiu ganhar velocidade nessa zona, se deu bem! Não foi uma nem duas vezes que vi casos de atletas que correm infinitamente melhor numa prova de Ironman do que outros atletas que, são muito mais velozes em distâncias mais curtas. Lógico que, principalmente numa prova de longa distância,  o desempenho é multi-fatorial, mas, no caso citado, eu conheci a prova e o treinamento dos atletas, e os dois a realizaram em condições bastante parecidas (vale lembrar que o ciclismo influi consideravelmente no desempenho da corrida). O atleta X, que corre os 10 km para 38 min, corria todos os longos num pace 4min25 a 4min30, enquanto o atleta Y, que corre os 10km para 36 min, corria os longos entre 4min30 e 4min40.

Espero que, depois do que foi colocado, vocês já tenham conseguido identificar as causas disso.

Ulisses, obrigado pela sugestão! Foi bastante oportuna!

Grande abraço!!!!

1 comentário para "Metabolismo Lipídico: Parte I"


  1. Fabiano Furtado

    Caro Lucas, Gostaria primeiramente de parabenizar você pelo post esclarecedor sobre metabolismo lipídico, desejo sucesso nesta etapa desafiadora em sua vida levando aos seus leitores e toda comunidade cientifica assuntos relevantes da atividade física, saúde e esporte. Parabéns!!

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