“Vamo Arreuní, Vamo Guarnicê…”

0comentário

O Festival Guarnicê de Cinema completa em 2017, 40 anos de existência, e resolvi contar pra você um pouco de minha relação com este que é um dos mais antigos festivais de cinema do Brasil.
No início dos anos 1980, mais precisamente em 1983, eu, Celso Borges, Roberto Kenard, Paulinho Coelho e Érico Junqueira Aryes, secundados pelo cartunista Cordeiro Filho, pela jornalista Dulce Brito e pelo músico Ronaldo Braga, criamos a Revista Guarnicê, publicação voltada para a cultura de modo geral, com foco na literatura. Na Guarnicê havia espaço para tudo e todos, tanto que em 1984, para apoiar um parceiro de aventuras, o jornalista e cineasta João Ubaldo de Moraes, eu criei a Guarnicê Produções, que a princípio só existia como marca de fantasia.
Em parceria com Ubaldo e incentivado por Ivan Sarney, realizei meus primeiros trabalhos em super 8. Depois, também Zé Louzeiro passou a nos apoiar.
Comprei uma câmera, um projetor, uma moviolazinha… Aprendi o ofício de fazer cinema da maneira mais rudimentar que poderia existir, mas era algo maravilhoso. Para mim era melhor que a literatura, que tanto exigia de mim, um disléxico.
A primeira realização da Guarnicê Produções, tendo eu e Ubaldo como roteiristas, diretores, produtores, editores, sonoplastas… Só não fomos neste filme, atores… Estou falando de “The Best Friend – O Amigão”, um filme que se pode chamar de experimental, uma vez que se utiliza da mímica para contar sua história.
Nesta película, duas mãos se relacionam! Uma mão brasileira e uma mão americana, ambas identificadas pelas cores nos punhos de suas luvas brancas e pelas músicas que cantarolam, quando elas aparecem.
Aqueles ainda eram os tais anos de chumbo. O FMI estava em todas as notícias dos telejornais e o nosso filme falava exatamente disso.
A mão americana oferecia dinheiro à mão brasileira, que aceitava e pagava juros exorbitantes, como se via acontecer na telinha.
A história se desenrola e há um “grand finale” que ainda hoje, quando o assunto não está mais em voga, ainda surpreende por sua originalidade.
Devo dizer, para ser justo, que, para aquela época, aquela foi uma boa produção, mas vendo alguns detalhes referentes exatamente à produção daquele filme, hoje, tenho vontade de chorar!
Resultado: “The Best Friend – O Amigão” ganhou dois prêmios. O de melhor filme maranhense, pelo júri técnico e o de melhor filme do ano, pelo júri popular, que compareceu às sessões do festival naquele ano de 1984.
Depois disso continuamos, eu e Ubaldo produzindo outros filmes.
Acabada a Revista Guarnicê, eu que naquela época já estava na política, já era deputado estadual, resolvi ser deputado federal constituinte, o que me afastou de São Luís e das atividades artísticas e culturais.
Mesmo que não estivesse totalmente afastado, pois não parei de participar da vida artística, literária e cultural de modo geral, demorou 23 anos para que eu voltasse a me atrever a fazer cinema, formalmente.
Em 2007 realizei “Padre Nosso”, que na verdade foi um ensaio, para que pudesse me familiarizar com as novas tecnologias, agora já tão avançadas.
Em 2008 realizei “Pelo Ouvido”, filme com o qual repetiria a façanha de ganhar mais dois prêmios no Festival Guarnicê de Cinema, melhor atriz para Amanda Acosta e mais uma vez, melhor filme do festival, pelo júri popular.
O “Pelo Ouvido” saiu daqui e foi selecionado para mais de 120 festivais de cinema do Brasil e do exterior, onde no final de dois anos tinha ganhado 21 prêmios.
Em 2016 duas produções das quais fui coprodutor sagraram-se campeãs em suas categorias. “Macapá”, cujo diretor é o jovem promissor cineasta Marcos Ponts e “Joca e a Estrela”, em parceria com a Dupla Criação, que tem feito trabalhos primorosos em animação.
A minha história com o Guarnicê é essa, mas a história do Guarnicê com a cidade de São Luís e com o cinema do Maranhão é algo muito maior.
Viva o Festival Guarnicê! Viva o cinema Maranhense!

Sem comentário para "“Vamo Arreuní, Vamo Guarnicê…”"


deixe seu comentário

Twitter Facebook RSS