Histórias que contamos para saber quem somos

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Encontro marcado e, várias vezes, adiado. Revisito Buenos Aires neste outono tropical. Faz muito frio e é inevitável o meu encontro com A Cidade das Palavras, de Alberto Manguel, único livro que trouxe na minha bagagem de mão.
É claro que Manguel me remete sempre a Jorge Luis Borges. Consta que Borges, leitor compulsivo, ao cabo de seus 86 anos, próximo à morte, já cego, leitor insaciável que dizia que bibliotecas eram metáforas do paraíso, lia pelos olhos de um ainda jovem leitor de palavras e imagens, Alberto Manguel. Esse outro argentino que emprestou os olhos ao grande escritor de “Ficções” escreveu, pelo menos, dois livros muito interessantes sobre a leitura das imagens, “Uma História da Leitura” e “Lendo Imagens”.
Mas o meu encontro neste maio outonal da capital portenha é com A Cidade das Palavras. Leio de um só fôlego o livro que Alberto Manguel publicou sob um lúcido e instigante subtítulo: As histórias que contamos para saber quem somos.
Lá pelas tantas, dou de cara com um parágrafo que quase me derruba da cadeira:  “Chegamos ao mundo como criaturas inteligentes, curiosas e ávidas de instrução. É preciso tempo e esforço imensos, em termos individuais e coletivos, para embotar e por fim sufocar nossas faculdades intelectuais e estéticas, nossa percepção criativa e nosso uso da linguagem.”
Vale repetir em vulgar: é preciso empenho por parte dos interessados – igrejas, meios de comunicação, partidos políticos – para atrofiar a nossa predisposição ao aprendizado e nos transformar em idiotas!
Não se trata, é claro, de nenhuma novidade argumentativa, mas as palavras de Manguel, formuladas com uma clareza desconcertante, têm o poder de elevar a nossa percepção sobre os “mecanismos emburrecedores” que, de tão presentes no cotidiano, tornam-se invisíveis aos nossos olhos. É mais ou menos como o mito da caverna de Platão. Acostumados que estamos a apreciar as sombras projetadas nas paredes, não temos coragem ou condições de olhar para o outro lado, para a luz, e enxergar as coisas como de fato são.
Mas vamos falar de forma mais objetiva. Que mecanismos emburrecedores seriam esses a que me refiro? Considerando que Manguel aborda o problema a partir da criatividade estética, parece válido frisar que todos esses mecanismos provêm do uso utilitário da linguagem. São as prédicas dogmáticas dos religiosos, a estética superficial dos slogans publicitários e especialmente a demagogia recheada de clichês que emana dos porta-vozes de todo e qualquer governo.
Quando um discurso oferece certeza em vez de ponderações e consolo em vez de reflexão, é melhor desconfiar antes de cair de joelhos e dizer amém. Exemplos: para encontrar a salvação em Cristo, você precisa aceitar a verdadeira palavra sem questionamentos; para que o sonho de ser especial se realize conforme a propaganda na TV, é necessário comprar mercadorias de que não precisamos para viver; e para, enfim, que você se sinta membro de um país em ascensão, há a obrigatoriedade de aplaudir os discursos oficiais, mesmo que eles criem uma realidade diversa daquela que conhecemos através da experiência.
São trocas unilaterais, sem margem para mediações. Se você não aceita a verdade das religiões, o máximo que merece é ser lembrado nas orações dos justos. Se estiver fora da linha de consumo, sequer existirá perante o mundo. E se não aplaude a cantilena do poder, será chamado de elitista e preconceituoso.
Ainda que Manguel não fale em salvação, fica evidente que ele acredita que o nosso “vício” de contar e ouvir histórias seja uma resposta adequada à ação endêmica dos mecanismos emburrecedores acima referendados. Mas não qualquer tipo de história, não as que tolhem o espaço da dúvida e da ambiguidade (isso a religião, a publicidade e a política já fazem a contento), e sim as que se encontram na boa literatura, no cinema de proposta, na música e na poesia de maior inspiração.
Na Arte, enfim. Ali, e só ali, encontraremos as tais histórias que contamos para saber quem somos.

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Arte política

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CORRECTION Argentina Obit Alfonsin

José Sarney, Raul Alfonsín e Julio María Sanguinetti

Somente neste fim de semana tive acesso à íntegra do discurso proferido pelo presidente José Sarney no último dia 19, em Montevidéu, na cerimônia comemorativa dos 25 anos de restauração da Democracia no Uruguai.

Uma peça, sem dúvida, densa no conteúdo humanístico e de filosofia política e primorosa na forma literária.

Depois de evocar fatos marcantes da História do Uruguai e os nomes das figuras que a ilustram, Sarney destacou a inestimável contribuição uruguaia no domínio das letras e das artes. Citou Horacio Quiroga, Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, Torres Garcia, Figari, entre os tantos poetas, escritores e artísticas plásticos que singularizaram as criações do espírito uruguaio.

Vários deles, das gerações mais recentes, se engajaram na luta contra o regime militar, Sarney sublinhou, ao abordar o tema central de seu pronunciamento: o ciclo de redemocratização que se deslanchou na América do Sul nos anos 80, exigindo dos condutores do processo toda uma bagagem de sabedoria política.

 

 II

“Como conciliar democracia e governabilidade em paises com instituições frágeis, estruturas débeis e às voltas com o atraso econômico? Como consolidar a democracia em países pobres?” – eram as questões que Sarney se colocava ao assumir a presidência do Brasil.  Formulada na cerimônia de Montevidéu, sua reflexão sobre os percalços e atribulações que amargou ao conduzir a transição no País é rica de ensinamentos:

– a transição é a mais difícil de todas as etapas políticas para administrar-se. É obra de grande sabedoria e complexidade. Exige uma postura de renúncia total e de humildade. Exige experiência. Tem um alto preço político (…).

 

 III

– Sarney prosseguiu:

– A transição tem sido o túmulo de grandes estadistas. Transforma heróis em vilões, santos em demônios e, às vezes, democratas em ditadores.

– Dela é quase impossível sair ileso e íntegro. Nesse jogo a paciência é tudo e o resto é quase nada.

– A primeira lei da transição é sobreviver. Conduzir representa sempre um grande risco (…) mas o sentimento da missão que a História nos confiou era maior do que os óbices.

Resistir às resistências. Fazer um pacto aberto para todos, começando pela sociedade civil em todos os seus segmentos. É mais difícil cicatrizar feridas e trabalhar para unir o país pela anistia, lutar por esta, cuja realização está ligada ao mais exigente ensinamento cristão: perdoar os inimigos.

  – O êxito da transição brasileira se deve ao fato de que foi realizada sem revanchismos.

 

Lula, o símbolo

Ao sublinhar que o Brasil é, hoje, uma das grandes democracias do mundo, o presidente Sarney observou que nossa evolução política passou pelos governos das elites agrárias, das elites industriais, da classe média e dos militares.

E acrescentou: “Hoje, o Brasil é governado por um político que nasceu do proletariado e neste prosperou. Estamos orgulhosos pelo desempenho do presidente Lula, expressão extraordinária de liderança e de capacidade política. Temos não somente instituições sólidas como também uma sociedade verdadeiramente democrática – e o presidente Lula é seu símbolo.

 

Ovacionado

Ao término de seu pronunciamento, Sarney foi demoradamente ovacionado pelos presentes, entre os quais o presidente uruguaio José Mujica e demais representantes das classes dirigentes do Uruguai e do representante da Argentina, deputado Ricardo Alfonsín (filho do ex-presidente e saudoso Raul Alfonsín).

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Soraia Fialho Silva e a cozinha molecular

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MARÇO Le Meurice 3

Não faz muito tempo, uma espécie de “grande conselho” da cozinha mundial, formado por mais de quinhentos cozinheiros e críticos culinários, assegurou que a nova moda no mundo é a chamada “cozinha molecular”, proclamando os melhores restaurantes do planeta em que a prática pode ser encontrada.

A cozinha molecular é uma prática em que se combinam ingredientes cuja composição molecular é compatível, mas não se sabe se, para determinar essa compatibilidade, é preciso instalar nas cozinhas um microscópio eletrônico, mas se isto acontecer também não causaria estranheza.

Até pouco tempo atrás, a melhor ou pior combinação de dois ou mais elementos em um prato era dada, antes de tudo, pela compatibilidade, fosse complementar ou antagônica (como contraste), de seus sabores, aromas e texturas. Tudo isso, naturalmente, destinado ao que deveria ser o fim de toda obra culinária: o prazer do cliente.

Hoje, poucas pessoas falam em prazer. Quando se lêem as descrições dos pratos destes cozinheiros, se encontram expressões como ”absoluto domínio da técnica”, ”alarde de conhecimentos”, ”provocação” e, às vezes, ”emoção”.

As pessoas “normais” entendem a cozinha molecular como sendo aquela em que o que chega ao cliente no prato é exatamente isso: algumas moléculas (poucas) de comida, muito bem colocadas, e em cujo enunciado se especifica a temperatura (baixa) em que foram cozidas e, qualquer dia, até a pressão a que foram submetidas no processo de cozimento.

Uma cozinha cujos autores investem nos espaços gastronômicos dos principais meios de informação, o que gera um interesse geral para ir aos restaurantes.

Minha experiência com a cozinha molecular – ou ciência que estuda os fenômenos físico-químicos que ocorre em uma cozinha de forma metódica e científica – começou no “El Bulli”, na Espanha, onde o chef catalão Ferran Adriá começou a revolucionar a gastronomia.

Depois, fiz incursões no Pierre Gagnaire, em Paris, e – mais recentemente – no Per Se, em Nova York.

Criada por Hervé This, um cientista francês que percebeu que embora se conheça a temperatura no interior de uma estrela longínqua não se conhece o que se passa no interior de um ovo que está sendo frito, a cozinha molecular resultou de um estudo das receitas e truques culinários, que passam de geração em geração sem que ninguém tenha se preocupado em saber porque funcionam assim, com os instrumentos da química e da física atuais.

E nasceu assim, a gastronomia molecular que deu origem à cozinha molecular.

Sempre antenada com as novidades mais sofisticadas da gastronomia, a maranhense Soraia Fialho Silva andou por São Paulo realizando cursos sobre a gastronomia molecular, ministrados pelo Chef Laurent Suaudeau e Armando Pucci.

E esta semana decidiu promover na loja Caves Du Vin, uma degustação de suas primeiras descobertas.

Os quitutes da cozinha molecular foram harmonizados com a degustação dos vinhos e espumantes da Premium Winery do Brasil, apresentados pelo enólogo da Casa Valduga, Alexandre Mondadori.

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Só gênios na disputa de um título

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JUNHO_flamenco

1

Domingo, acordei musical. Mas com algumas perguntas que não queriam calar. Ficar com quem no final da Copa do Mundo? Qual das laranjas iria predominar? A original ou a derivada?
A laranja holandesa era cultivada na Espanha, onde o clima é mais propício, sem tanto frio. Mas laranja é cor derivada do vermelho sanguíneo, a cor de Felipe de Espanha. Ao qual se juntou o amarelo das auroras equatoriais, das quais se tornaram afeiçoados os navegadores da Companhia das Índias Ocidentais – os holandeses da Casa de Orange, entre eles, o “laranjão” Maurício de Nassau.
É claro que eu não queria entrar na história – a oficial ou a delirante – para não produzir, aqui, um laranjal de sambas espremidos diretamente do liquidificador de Stanislaw Ponte Preta – autor daquele hilariante Samba do Crioulo Doido.

2

A pergunta, direta como uma lâmina de punhal, veio do meu mordomo: “Vamos ficar com quem neste domingo?”.
Em questão de segundos, comecei a fazer perguntas para os meus botões.
Vamos ficar com as cores vivas dos girassóis de Van Gogh? Ou com luminescências em meio à escuridão, como retratam as obras-primas de Diego Velazquez?
Será que a Holanda vai atacar com a volúpia ensandecida de Van Gogh, recusando-se ser vice-campeã do mundo pela terceira vez? Entrará em campo com o espírito de ganhar a Jabulani ou sacrificar a outra orelha? Aplicará, em seus “cruzamentos”, as fases oranges de Van Gogh, mescladas aos focos de luz de Rembrandt, dando lume à Lição de Anatomia?
E os espanhóis? Vestirão os cornos de um touro miúra? Vestirão a “persona” dos seus gênios da literatura, como Cervantes – pilar da grande literatura ocidental? Ostentarão o destemor de García Lorca, o poeta que desafiou a ditadura do general Francisco Franco?
Aliás, qual dos dois moinhos sobreviverá? O moinho atacado com furor por Dom Quixote de La Mancha nas pradarias de Espanha ou o moinho da antiga província do Norte, cercado de tulipas claras, primas-irmãs dos girassóis vangoghianos?

3

Os galegos da Laranja Mecânica já haviam chegado a duas finais de Copa, em 1974 e 1978 – e em ambas mereciam ter arrebatado o caneco. Revolucionaram o futebol com aquele inesquecível “futebol onipresente” – 11 laranjas brotando de todos os lugares do campo.
E, em 1978, foram vítimas da pior ditadura de uma época sinistra – nada a ver com Dom Dieguito Maradona, que, aliás, por excesso de talento e juventude, nem foi convocado pelos borzeguins do general Jorge Rafael Videla.

4

Sim, embora eu tivesse acordado musical no domingo, estava com o coração dividido. Perguntei a Ernest Hemingway. Ele preferiu assistir à final como se estivesse numa Plaza de Toros, à espera dos clarins e do golpe derradeiro, a espada furando a laranja bem no meio dos olhos.
Papa foi cem por cento Espanha, claro.
Perguntei a Cees Nooteboon, talvez o escritor holandês mais conhecido (Paraíso Perdido) no mundo e ao bem-humorado autor de Amsterdam Blues, Arnon Grunberg.
Ora, os dois holandeses são “laranjas” desde criancinhas, é claro, e apostaram tudo na redenção de suas cores.

5

Três e meia da tarde. Entra no gramado do Soccer City quase um século de democracia. É Nelson Mandela e a multidão delira. O jogo vai começar. Lembro os versos de um poema de Leila Diniz musicado por Milton Nascimento, “Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, que tem muito a ver com esta conversa: “Brigam Espanha e Holanda/ Pelos direitos do mar/ O mar é das gaivotas/ Que nele sabem voar/ Brigam Espanha e Holanda/ Pelos direitos do mar/ Por que não sabem que o mar/ É de quem sabe amar”.

6

De uma coisa eu tinha certeza: a Rainha Jabulani estaria bem servida com uns ou outros gênios. Mas, sem querer substituir os atributos do polvo Paul, o grande oráculo desta Copa, cheguei a suspeitar que os espanhóis continuariam na fila…
Lá de cima, o mestre Armando Nogueira tentava soprar nos meus ouvidos o nome do novo campeão do mundo, mas as vuvuzelas tocavam tão alto que eu não conseguia escutar.

7

Começou o jogo. A expectativa pela final era grande. Principalmente, porque o mundo entardeceu para amanhecer nesta segunda-feira mais  vermelho, mais “furioso”, com o futebol acrescido de uma nova escola em seu templo.
Passeio pela Holanda e avisto os vultos dos mestres da pintura Rembrandt, Vincent van Gogh e Mondrian. As tulipas, os tamancos de madeira, o queijo (especialmente Edam e Gouda) e a cerâmica de Delft. Os moinhos de vento drenando as águas para evitar que elas invadam parte das terras que ficam abaixo do nível do mar.
Na Espanha, trafego entre Cervantes e os mestres revolucionários da pintura moderna, Salvador Dali, Joan Miró e Pablo Picasso, ao lado de clássicos como Goya, El Grecco e Velázquez. Ou gênios do cinema, como Luis Buñuel, Carlos Saura e Pedro Almodóvar. Mais as touradas, a dança flamenca, o violão virtuoso de Andrés Segóvia ou de Pacco de Lucia. E a voz de José Carreras e Plácido Domingo.
Meu coração continua dividido.

8

Cinco horas da tarde. Nenhum gol. O “touro” espanhol afia os chifres para o golpe fatal. No gramado, nenhum um sinal de vitória. Apenas os vultos de uma seleção formada por Goya; Segovia, Casals e Buñuel; Miró e Gaudi; De Falla, Picasso, Plácido Domingo, Cervantes (o camisa 10) e Velázquez. Quando o olhar alcança o banco de reservas, estão lá Narciso Yepes, Dali e El Greco, Carlos Saura e Almodóvar.
Pelo Soccer City ecoa a voz rouca de Garcia Lorca declamando “La Cogida y la Muerte”: “Às cinco horas da tarde./ Eram as cinco em ponto da tarde./ Um menino trouxe o lençol branco/ às cinco horas da tarde./ Uma ceira de cal já preparada/ às cinco horas da tarde./ Tudo o mais era morte, apenas morte/ às cinco horas da tarde”.
O jogo segue num compasso de dança flamenca. Na arena, os “touros” holandeses equilibram-se em seus tamancos de madeira.

9

Seis horas da tarde. Hora do Ângelus, momento de devoção popular descrito com tons tocantes pelo poeta A. Manzoni: “Quando surge e quando cai o dia/ E quando o sol a meio caminho o parte/ Saúda-te o bronze, que as turbas piedosas/ Convida a louvar-te”.
A clássica Ave-Maria de Gounod ecoa das torres de igrejas católicas da Espanha. Na África do Sul, os espanhóis vivem uma experiência inédita. Conquistam um lugar para poucos e sentem o gostinho que só brasileiros, argentinos, uruguaios, alemães, italianos, franceses e ingleses já haviam sentido.

10

A Espanha é o novo membro do clube, com méritos. Que siga fazendo história, já que, taticamente consolidou uma lição europeia ao mundo: três atacantes, ocupação de espaços, multiplicação de funções, disciplina e objetividade.
É o novo futebol, menos bonito, mais eficiente.

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Em Lisboa, uma aceno para Saramago

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O avião estava prestes a cair. Lá dentro, entre os passageiros, estava o escritor brasileiro Jorge Amado. No momento em que todos se agitavam com medo de morrer pediu os jornais à sua mulher. “Estamos prestes a morrer e você quer ler os jornais?”, surpreendeu-se Zélia Gattai. Jorge Amado queria morrer informado sobre o que se passava no mundo. Foi esta a história com que Pilar del Río prestou a homenagem final ao marido, no discurso que fez na antecâmara do crematório, no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.
“E tu, Saramago, hoje ficas a saber”, continuou Pilar, agitando as mãos. “O que se passa no mundo é que todos os meios de comunicação falam de ti” e dizem que morreu um homem bom e honesto, um bom escritor, um ser humano excepcional, um lutador. “E nós não temos o direito de chorar, de derramar lágrimas, porque somos os privilegiados que te conheceram. Que chorem os milhões de pessoas que não tiveram a sorte de passar contigo os momentos de vida.”
Único prêmio Nobel de Literatura de língua portuguesa, o escritor José Saramago, deixa também entre seus legados uma ligação estreita com o Brasil, onde tinha amigos e leitores, e especialmente com o Maranhão, estado que visitou no final dos anos 1980 para conhecer São Luís e Alcântara.
Há mortes que nos afetam de modo especial. No caso de José Saramago, pela lucidez que ele emprestou à civilização. O fato de ter sido claramente ateu e comunista até o derradeiro minuto faz com que o abominem pessoas que nunca leram a sua obra, como se Literatura fosse panfleto político, ideológico ou religioso e com ele pudesse confundir-se. E como se um intelectual não pudesse ter opiniões próprias, divergentes do senso comum. Saramago propõe questões que muitas vezes abalam as certezas pétreas, e isto muita gente não consegue suportar.
Mas não é apenas esse pensador cristalino e retilíneo que se apaga com a morte anunciada no último dia 18. Morre também um dos mais importantes escritores da língua de Camões no século 20, reconhecido como tal pela imensa legião de seus leitores e pela Fundação Nobel, que lhe outorgou o Prêmio de Literatura de 1998.
Confesso que fiquei triste, mas reconfortado ao mesmo tempo. Por estar em Lisboa e poder acenar, em gesto de despedida, para Saramago. Sei que era ateu, sei que era ácido em suas críticas, sei que parecia uma pessoa inacessível do alto de sua grandeza, mas também sei que tive a honra de acompanhá-lo quando veio ao Maranhão conhecer as belezas e os monumentos históricos de nossa terra. E, mais tarde, conheci também a sua generosidade, ao ser recebido por ele em Lisboa, quando dividiu comigo sabores e emoções no seu restaurante preferido – O Farta Brutos –, em retribuição ao carinho que recebeu dos maranhenses.
Morreu um cara coerente, morreu um Quixote, como chegaram a dizer, mas pra mim, para além de tantos elogios, muitos dos quais feitos apenas pela força do hábito e de uma certa morbidez dos meios de comunicação que são obrigados a noticiar o fato, morreu sim, um pouco da nossa consciência, um pouco da nossa capacidade de contestar a hipocrisia desse mundo hostil que premia a força das armas em lugar do diálogo franco e responsável.
Saramago ficou em cada um de nós. Ele que era ateu, nos deixou ao menos pensar na louca vontade de beatificá-lo, de santificá-lo, mas não como se faz na santa madre igreja, mas no altar puro e nobre de nossos corações.

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Salgado Maranhão: o dono do Rio e da poesia

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Foi uma grande noite da palavra: da grande diversidade da palavra – falada, escrita e cantada, regada a bons papos, gurus descontraídos de muitas tribos, mulheres bonitas e o discreto e envenenado glamour carioca.

No centro da epifania, coube ao poeta Salgado Maranhão ser o catalizador da festa da poesia realizada na noite quarta-feira, 9 de junho, no Espaço Cultural Finep, debruçado sobre a praia do Flamengo no Rio de Janeiro. Apesar da discreta ressaca, lá fora, o mar era só poesia.

Salgado autografava “A Cor da Palavra”, reunião de seus sete livros de poemas, em caprichada edição da Imago Editora / Biblioteca Nacional.

Vestindo um blazer de veludo azul, anfitrionava convidados e amigos em noite badalada que incluiu exposição iconográfica (produção do poeta Carlos Dimuro) sobre o autor e a obra, com direito a canja declamatória de Elba Ramalho e Zézé Motta, que leram alguns poemas seus, e performances musicais dos cantores Ronaldo Motta, Bia Mello, Patrícia Mellodi e Mariana Baltar, já que coabitam em sua lírica o poeta e o letrista, multiplicando sons e parcerias. Ave, palavra!

Concorrido, o metro quadrado do espaço, fervilhava em densidade literária e artística. Notavam-se dentre muitos os poetas Ferreira Gullar (com Claudia Ahimsa), Carlos Nejar (com Elsa), Ivan Junqueira (com Cecília Costa), Antônio Carlos Secchin, Geraldo Carneiro, o romancista Antônio Torres, o ensaísta Silviano Santiago e o filósofo Muniz Sodré, presidente da Biblioteca Nacional.

O poeta Luiz Augusto Cassas no meio do evento, foi seduzido pelo editor Eduardo Salomão, e saíram para jantar enquanto o poeta Antônio Cícero adentrava o recinto e lá ficou até o fim da festa. Múltiplas gerações se revezavam, como mestre da Bossa Nova João Donato, o jornalista Ricardo Cravo Albin, Antônio Carlos Miguel e, ainda, as cantoras Flávia Bittencourt (residindo no Rio), que foi muito aplaudida em sua apresentação.

Precedido de ampla divulgação na imprensa carioca o acontecimento literário e cultural, revelou a capacidade de mobilização e de reconhecimento de Salgado Maranhão.

Exibindo tríplice nacionalidade lírica e civil: a maranhense, a piauiense e a carioca, já que nasceu em Caxias onde permaneceu até seus quinze anos, estudou em Teresina até aos vinte, vindo a fixar-se definitivamente no Rio em meados da década de setenta. Sua poesia é atravessada por um sopro de beleza e esperança, cuja voz poderosa e solidária abre-se à celebração e à dor dos tempos.

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Saramago e o pessimismo

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Saramago

No meu último encontro com José Saramago, em Lisboa, o Nobel de Literatura declarou-se um “ser insular” e um “desterrado” de continentes onde a democracia começava a definhar.

O autor de “Ensaio sobre a Cegueira” e outros 15 romances manifestava seu pessimismo sobre o futuro da democracia no mundo.

Lera na revista Foreign Affairs que as potências do G-7 protestavam contra o “grampo universal, via satélites-espiões”.

Os EUA estão grampeando os chefes de Estado do mundo em suas conversas transcontinentais. “Meu colega George Orwell tinha razão. O Grande Irmão existe”.

 

Censura e Lanzarote

A censura a seu “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, por autoridades portuguesas – ato infeliz de um obscuro Secretário de Cultura, Souza Lara –, determinara o auto-exílio na Ilha de Lanzarote, nas Canárias espanholas. Lugar eleito pela sevilhana Pilar del Río, que lhe era 28 anos mais jovem e que lhe arrebatara o coração, agora pulverizado em cinzas na nativa Azinhaga.

Nas Canárias, “recriou o Portugal de que gostava”.

Depois de visitar Alcântara, no Maranhão, Saramago, que viajou ao meu lado num velho Bandeirantes da FAB, disse-me que queria voltar um dia, com Pilar e mais livre, para desfrutar da bela cidade-monumento.

– Esta é a cidade ideal para se viver na velhice – disse.

 

Camões e Shakespeare

O autor de “Caim”, último romance, manifestou desconforto com os rumos que tomava o patrimônio “traído” da língua compartilhada por portugueses e brasileiros.

O Português estava mesmo sendo “esbarrondado” (desmontado) pelo internetês e pelo inglês predatório.

“Agora mesmo, no Rio – contou –, pedi do quarto de hotel que fechassem minha conta e me responderam num anglicismo lamentável: vamos checar”…

– Ai, Jesus! Camões não deve nada a Shakespeare!

 

 

Poema à boca fechada

Não direi:

Que o silêncio me sufoca e amordaça.

Calado estou, calado ficarei,

Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,

Se represam, cisterna de águas mortas,

Ácidas mágoas em limos transformadas,

Vaza de fundo em que há raízes tortas.

 

Não direi:

Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,

Palavras que não digam quanto sei

Neste retiro em que me não conhecem.

 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,

Nem só animais boiam, mortos, medos,

Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam

No negro poço de onde sobem dedos.

 

Só direi,

Crispadamente recolhido e mudo,

Que quem se cala quando me calei

Não poderá morrer sem dizer tudo.

(De “Os Poemas Possíveis”, 1966)

 

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”. (José Saramago)

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Saramago e as intermitências da morte

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“Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto”, escreve José Saramago diante da representação tradicional da morte. Só mesmo um grande romancista para desnudar ainda mais a terrível figura.

Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. E foi nela que o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel da Literatura buscou o material para seu romance As intermitências da morte.

Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.

Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”.

Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?

Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta “ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte”.

O livro faz parte do tipo de literatura que nos deixa inquietos, no faz refletir, acaba com nossas certezas. Devemos nos preocupar com a morte ou o que vem depois dela? Em vez de pensar somente nela, não deveríamos viver o tempo presente, aproveitando nossa vida na Terra? José Saramago nos mostra que a morte é, paradoxalmente, parte da vida e não passagem para outra. Ateu, acredita que as religiões se apoderam da idéia da morte para existirem.

Certo ou não, se há outra vida depois dessa, espero que lá tenha romances tão bons como esse para ler.

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José Saramago (1922 – 2010)

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Ele estava com 87 anos. Viveu, cumpriu sua rotina, registrou seu nome em uma das páginas da história que a boa prosa escreve.

Uma lenda inglesa, reconstruída, diz que os bons escritores mortos levam seus livros não publicados em vida para a biblioteca de Lucien. Lucien é o guardião da biblioteca que fica no reino dos sonhos, o de Morpheus.

José Saramago já deve estar lá, já deve estar sabendo de nossos agradecimentos aos seus serviços de escritor para humanizar um pouco este mundo tão desvalido de princípios, de bons espíritos.

Que o seu nos ilumine com mais poesia, com qualidade de arte, com respeito e com mais atenção ao silêncio que o mundo tanto precisa.

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Troca de frivolidades num “Flagrante Delitro”

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primavera

1

É fim de primavera e ainda sopra um vento frio que vem do mar. Em Póvoa de Varzim faço um discreto aceno para Jacinto de Thormes e por onde passo sinto um cheiro de sal e a presença marcante de Eça de Queiroz, que não gostava das cidades, como deixou claro no seu libelo contra essa “criação antinatural”, em A Cidade e as Serras.
Na comparação entre as selvas – a verde e a de pedra – o monóculo do escritor só tinha olhos para a primeira:
– Na Natureza, nunca se descobriria um contorno feio ou repetido. Nunca duas folhas de hera se assemelharam na verdura ou no recorte. Na cidade, pelo contrário, todos repetem servilmente a mesma casa, todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação.

2

Na Praça do Almada, fixo os olhos no coreto, no pelourinho, nos canteiros, nas árvores e na estátua de Eça esculpida em bronze. Mas a paisagem refletida nas minhas retinas é São Luís.
Bigode cincunflexo no sobrelábio, pincez-nez no olho direito, “fato” escuro, colete cinza, sapatos impecavelmente engraxados, Eça de Queiroz passeia pela Praia Grande, observa os sobrados antigos, presta atenção em cada veneziana, cada bandeirola, cada sacada, cada “meia-porta” – casas portuguesas que a gente dos Açores plantou.
Não é miragem, nem o último brincante de bumba-meu-boi flanando pelas imediações do velho Mercado e do antigo prédio da Alfândega. Tampouco algum “músico” desterrado ali para aqueles paralelepípedos, esquadrinhando a paisagem, com movimentos rotativos de nuca, como um enérgico curió.
Sua recompensa não parece ser alpiste, mas a visão de alguma janela setecentista, beirais em rococó manuelino, algum sótão parecido com o que hospedava “Amelinha”, a desejada do padre Amaro.

3

José Maria Eça de Queirós perscruta a Rua Portugal, atirando olhares a esses novos portugueses da tropical ilha lusitana, léguas abaixo do Bojador.
Nem tenho coragem de me aproximar, com medo do ilustre visitante virar pó, retornando ao prisma temporal do qual havia escapado. E toda a estampa explodiria diante de mim, como uma bolha de sabão.
No chão, de lembrança, restariam o pincez-nez e, quem sabe, a famosa piteira.

4

Ali naquelas esquinas já encontrei Machado de Assis, num por-de-sol especialmente belo, como só São Luís é capaz de produzir.
E, certa noite, bem na confluência de Rua da Palma com a Rua de Nazaré, percebi o poeta Fernando Pessoa ordenando um “prego” – xicrinha fumegante da rubiácea, ali no Canto do Protesto.
Quem sabe não seria o momento de convidar o grande satírico, o anticlerical, o crítico de costumes, o iconoclasta, o debochado romancista de “Os Maias”, “O Primo Basílio”, “A Relíquia”, “O Crime do Padre Amaro”, “A Ilustre Casa de Ramires” e tantos outros himalaias da literatura portuguesa, para “um dedo de prosa”, uma cervejinha, com tira-gosto de camarão seco, ali no Mercado da Praia Grande?
Imagino Fernando Pessoa, olhando-nos de longe, a bordo de seu próprio pincez-nez, escrevendo depois para a quase-namorada Ofélia:
– Encontrei aqui o fantasma do Eça com um escribazinho da terra, os dois trocando frivolidades num “Flagrante Delitro”…
À distância, ainda sem ânimo para abordagem, vejo o romancista aproximar-se de uma banca de jornal, interessando-se pelas manchetes. Que visão levaria de nós, de São Luís, do Brasil?

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Do Brasil, Eça guardava alguns desenhos mentais não muito lisonjeiros e um certo preconceito da ligeireza com que imitavam, aqui, idéias da “república positivista”, instalada assim “num estalar de dedos” e o bacharelismo de dupla descendência, tanto português quanto francês:
– No dia em que o Brasil, por um esforço heróico, se decidir a ser brasileiro, haverá na Terra uma grande nação. Desde que acreditem que mais vale ser um brasileiro original, com a beleza de suas mulheres e esse bom café, do que resultarem todos num doutor mal traduzido do francês.
Agora, do inglês, mestre. Mas com que olhar estaria vendo aquelas manchetes recheadas de violência – ai, Jesus! – nossa São Luís já com mais de 10 homicídios por mês? O que deve fazer a Polícia para devolver nossa inocência perdida?
– Ah, a Polícia! – desdenhou o conhecido demolidor social. A Polícia é uma instituição que passeia aparatosamente em certas ruas – só para prevenir aos malfeitores que se dirige para outras…
– E as mulheres, mestre, o que achou das mulheres?
– Lindas raparigas. Mas não lhes corro atrás. Digo, como Lamartine: a mulher é igual a sombra – se correis atrás dela, foge-vos. Se fugis dela, corre atrás de vós.
Para não espantar “o pássaro”, deixei que uma perna de vento o levasse na direção das serras, posto que das cidades o gênio de “O Mandarim” decididamente não gosta.

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