Direito ao esquecimento

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Partiu da União Europeia, por meio de uma decisão do seu Tribunal de Justiça, a consagração – polêmica, diga-se de passagem – de um direito que nem todo cidadão, europeu ou não, sabe que tem: o direito ao esquecimento.

O assunto estava sendo discutido desde 2012, como parte de um processo de revisão de normas relativas à proteção de dados. Em síntese, a decisão diz que “as regras europeias de proteção de dados são aplicadas às companhias não europeias que oferecem seus serviços aos consumidores na UE”, segundo a porta-voz comunitária da Comissão Europeia (CE).

Houve, de certa forma, uma inversão do ônus da prova: antes, recaía sobre os consumidores a exigência de provar que determinada informação constante nos bancos de dados, como os do Google, já estava ultrapassada e lhes era prejudicial. No futuro, as companhias é que devem provar, caso insistam em manter as informações.

Porém, não se restringe à União Europeia a preocupação com o caráter invasivo desses dados tornados públicos, e perenes, pela web. No Brasil, segundo reportagem da Folha de São Paulo (18/05/2014), 1.635 itens sofreram pedido de remoção do Google no 1º semestre de 2013, desses, 48% saíram do ar, e 44% têm como justificativa casos de difamação.

Mas, em que consiste mesmo o tal direito ao esquecimento?

O direito ao esquecimento guarda correspondência direta com os “direitos da personalidade” que são conexos à liberdade de expressão e de informação, quais sejam: honra, intimidade, vida privada e imagem, alçados à condição de direitos fundamentais autônomos na Constituição de 1988 (Art. 5º, X).

Quando esses direitos entram em confronto com a liberdade de expressão e informação, diz-se que há uma colisão de direitos fundamentais.  Dessa colisão, as vítimas podem ser muitas e, as consequências, irreversíveis: a honra ultrajada, a intimidade devassada, a vida privada tornada pública, a imagem conspurcada. Tais consequências podem levar, dependendo de cada caso concreto, ao direito ao esquecimento.

No Brasil, em março de 2013, durante a realização da VI Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, foi aprovado o seguinte: “Enunciado 531: A tutela da dignidade da pessoa humana na sociedade da informação inclui o direito ao esquecimento”. Tal enunciado é considerado um avanço e, mais que isso, um balizador para futuras decisões judiciais.

Mas, na prática, ao fazer uso do direito ao esquecimento, o cidadão estaria dizendo “me deixem em paz” ou “eu quero estar só”.

A bem da verdade, só sabe da importância desse direito quem tem seu nome eternizado em publicações ofensivas, de alcance mundial, na internet, e da quase impossibilidade de retirá-lo, mesmo que judicialmente.

Relembre-se, por paradigmático, o caso da Escola Base em São Paulo, em 1994, execrada pela opinião pública por causa de acusações levianas e completamente infundadas de que seus donos e alguns funcionários estariam praticando abuso sexual contra os alunos.

Ninguém sabe ao certo como surgiu o boato, mas ele foi suficiente para que a imprensa deixasse de lado o animus narrandi para enveredar pelo animus acusandi sem a menor preocupação em checar a origem da história. Resultado: os donos sofreram os horrores de um julgamento público sem tribunal, sem processo e sem provas. A angústia “kafkiana” materializada em sua pior face.

Os ex-proprietários da Escola Base jamais se recuperaram. Ficaram com sequelas psicológicas e amargaram todo o tipo de prejuízo moral e material.

Vê-se, nesse caso, a transgressão a todos os valores que devem ser cultivados em nome da informação verdadeira e responsável. O caso da Escola Base é uma mácula na história da imprensa brasileira. Nódoa indelével que deve manchar, até hoje, a consciência dos que patrocinaram tamanho assassinato moral.

O caso foi em 1994, ano em que a internet ainda engatinhava no Brasil. Fosse hoje, os donos e funcionários teriam, inevitavelmente, o mesmo destino da dona de casa linchada no Guarujá, em São Paulo, após ser confundida com outra pessoa.

A grande imprensa, no Brasil, recebeu com ressalvas a decisão da Corte Europeia e vê como perigosas decisões similares no Judiciário brasileiro. O argumento: ameaça à liberdade de expressão e de informação.

Não há, a nosso ver, supremacia de um direito em relação ao outro. A sociedade é que é a destinatária das garantias constitucionais. Daí, porque, na resolução do aparente conflito, os valores devem ser sopesados com base nos critérios da proporcionalidade e da razoabilidade, levando em conta, sobretudo, o interesse coletivo.

Como pondera o doutrinador Manuel Costa Andrade (Liberdade de imprensa e inviolabilidade pessoal. Coimbra: Coimbra Editora, 1996. p. 34), “os conflitos entre direitos fundamentais não deverão superar-se por via do sacrifício total de um deles. Em vez disso, há de procurar assegurar-se a mais extensa e consistente proteção em concreto praticável. O que implica, nomeadamente e por um lado, o mandamento da salvaguarda do núcleo essencial do direito fundamental a sacrificar e, por outro lado, a proibição de um sacrifício desmesurado ou desproporcionado. Um paradigma a que hão de, em qualquer caso, conformar-se as instâncias formais (máxime o legislador e os tribunais) no recorte da disciplina legislativa dos conflitos de direitos fundamentais”.

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Somos todos imbecis?!

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homem das cavernasO século é o XXI, mas a mentalidade geral parece que retrocedeu ao paleolítico. Senão, como justificar o comportamento animal dos “homens das cavernas” do nosso tempo?!

Protestar contra a realização da Copa do Mundo no Brasil virou pano de fundo para o extravasamento do instinto selvagem de um numerosíssimo bando de loucos, débeis mentais – com todo o respeito aos que sofrem de alguma debilidade mental, condição que produziria a inimputabilidade penal, de acordo com o nosso ordenamento jurídico – em pleno gozo de suas faculdades físicas e psíquicas.

Ora, as bestas que estão indo às ruas depredar o patrimônio público, roubar, furtar e agredir não saíram de hospícios ou de clínicas de reabilitação. São nossos vizinhos, talvez colegas de trabalho, transeuntes quaisquer, sem nenhum traço aparente de anormalidade mental. São, portanto, responsáveis pelos seus atos, conscientes dos delitos que estão praticando.

Não há clamor popular, não há Copa, Carnaval, corrupção, insatisfação – seja esta motivada pelo que for – que justifique o que vem acontecendo no Brasil. Por qualquer motivo, ônibus são queimados, o direito de ir e vir é obstaculizado, o comércio é saqueado, pessoas agredidas, rodovias interditadas, enfim, a vida para, e para violentamente, porque uma meia dúzia ou dúzias de pessoas resolvem protestar contra o que lhes der na telha.

A imprensa fica “cheia de dedos” para tratar do assunto. Geralmente, as notícias vêm com a seguinte ressalva: “… a manifestação começou de forma pacífica, até que um pequeno grupo de vândalos resolveu depredar… etc., etc., etc.”.

Pequeno grupo??? E, desde quando um pequeno grupo pode se sobrepor à maioria e impor, de forma violenta, a sua vontade? O constitucional direito ao protesto não justificaria isso. E, se não justifica, não respalda. No caso, inexiste esse direito. Em não existindo, gera, obviamente, o dever do Estado de combater todas as formas de protesto que atinjam, mesmo que minimamente, a paz social e o bem-estar coletivo.

O pior de tudo, é que não há violência apenas nos protestos. Não há só primitivismo no bestial linchamento de um inocente. Nas mais banais atitudes do dia a dia, nós, autodenominados cidadãos,  tomamo-nos de uma fúria que, na comparação, nos iguala aos loucos e aos violentos que gostaríamos de ter, e ver, à distância.

Meu filho, de apenas 11 anos, ao assistir ao noticiário da TV em que um homem – por coincidência, deficiente mental – é brutal e gratuitamente assassinado, sentenciou: “Pai, no Brasil tem que ter pena de morte. Um cara que faz isso tem de morrer”.

Atordoado, pus-me a pensar: estamos agindo como primatas, hominídeos. Selvagens. Matamo-nos uns aos outros, ainda que, em muitos casos, não usemos da violência física, seja nas ruas, em casa ou no trabalho.

Somos todos imbecis?!

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O exemplo que vem do Recife…de bicicleta

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ciclistarecife

A partir de uma campanha iniciada por este blog, em 2010, uma das faixas da Av. Litorânea foi bloqueada ao trânsito de veículos, aos domingos, das 6h às 12h.
A interdição durou alguns meses. Depois, supostamente pressionado pelos donos de barracas, o então prefeito João Castelo voltou atrás. Diminuiu o tempo e o percurso.
No início da atual gestão, provavelmente, por inércia, a interdição continuou e, mais uma vez, foi interrompida, ou seja, a pista voltou a ser liberada.
No mês passado, voltamos a lembrar, via Facebook, da necessidade da interdição para a melhoria do lazer dos cidadãos de São Luís. De nada adiantou.
O poder público parece não estar preocupado com proposta, digamos, tão insignificante.
Enquanto isso, vem do Recife o exemplo. Neste domingo (24/3), a prefeitura local inaugurou uma extensa ciclofaixa, que funcionará aos domingos e feriados.
Recife tem mais de 1,5 milhão de habitantes. Uma das maiores metrópoles do Nordeste e com os mesmos problemas urbanos enfrentados por qualquer capital.
Mas, por que será que lá pode e, aqui, não?
Abaixo, o release distribuído pela prefeitura do Recife a respeito da ciclofaixa.

“Ciclofaixa de Turismo e Lazer começa a funcionar neste domingo

Duas rotas vão funcionar também nos feriados, sempre das 7h às 16h
A Prefeitura do Recife, por meio das secretarias de Turismo e Lazer e de Mobilidade Urbana, lança a Ciclofaixa Móvel de Turismo e Lazer no dia 24 deste mês. A coletiva de imprensa com o anúncio sobre o projeto será nesta quinta (dia 21), às 14h, no Centro de Artesanato, ao lado do Marco Zero. “O nosso objetivo é criar, tanto para os cidadãos recifenses tanto para os turistas que estão na cidade, uma opção de lazer segura, saudável e cultural”, afirma o secretário de Turismo e Lazer, Felipe Carreras.

Serão duas rotas, da Zona Norte e da Zona Sul, que se conectam, totalizando aproximadamente 20 km (levando em consideração os 7km já existentes da ciclofaixa da av. Boa Viagem). O ponto de convergência é o Marco Zero no Recife Antigo. A rota da Zona Norte até o Marco Zero tem aproximadamente 7 km, enquanto a da Zona Sul possui uma extensão aproximada de 6,5km.

A Ciclofaixa vai funcionar aos domingos e feriados, sempre das 7h às 16h. O trecho da rua reservado para a passagem das bicicletas obedecerá às determinações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), ou seja, terá uma largura de 2,5 metros, já que será uma via de mão dupla.

A rota da Zona Norte começa na avenida Parnamirim, na Ciclofaixa de Casa Amarela, e segue pela av. Rui Barbosa, rua Amélia, rua José Luiz da Silveira Barros, av. Agamenon Magalhães (pista local), rua Leopoldo Lins, rua dos Palmares, av. Mário Melo, rua da Saudade, rua Princesa Isabel, av. Rio Branco, av. Alfredo Lisboa, até chegar ao Marco Zero. Já a rota da Zona Sul sai do Parque Dona Lindu, aproveita a ciclofaixa da av. Boa Viagem, seguindo pela av. Engenheiro Antônio de Góes, av. Engenheiro José Estelita, av. Sul, até chegar ao Marco Zero.

Para atender a população e os turistas, o trajeto da ciclofaixa foi planejado de uma forma que unisse a atividade de lazer a um passeio turístico. Sendo assim, tanto a rota da Zona Norte quanto a da Zona Sul passam por pontos turísticos da cidade. Na Zona Norte, a ciclofaixa sai do Mercado de Casa Amarela, passa pelo Sítio da Trindade, Parque da Jaqueira, Praça do Entroncamento, Câmara Municipal do Recife, Parque Treze de Maio, Faculdade de Direito, Assembleia Legislativa, Teatro Santa Isabel, Palácio do Campo das Princesas, Praça da República, Palácio da Justiça e Central do Artesanato, além do Marco Zero. Na Zona Sul, o roteiro engloba a praia de Boa Viagem, Parque Dona Lindu, Pracinha de Boa Viagem, Cais de Santa Rita e Forte das Cinco Pontas.

Ao todo, ao longo da ciclofaixa, 50 operadores de tráfego (sendo 25 pela manhã e 25 à tarde) estarão aptos para orientar e educar ciclistas e veículos. A equipe inteira estará fardada, para que ciclistas e motoristas possam facilmente identifica-los. Todos esses monitores estão passando por um treinamento específico e também vão participar de palestras promovidas pela Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) sobre educação no trânsito. Agentes da CTTU e da Guarda Municipal também estarão a postos. “Estamos contando com todo o apoio da Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano, da CTTU e da Guarda Municipal, que são essenciais para a viabilidade do projeto”, comenta Carreras.

Em termos de sinalização, o trajeto vai contar com quatro mil cones separando a faixa dos ciclistas e a dos veículos, 50 cavaletes, 50 banners com informações sobre a ciclofaixa e o mapa das rotas, 240 placas verticais e aproximadamente 10 km de sinalização horizontal de trânsito. Além dos operadores de tráfego, a ação terá a supervisão de um coordenador de projeto, três inspetores de tráfego e seis auxiliares técnicos. Três equipes médicas estarão disponíveis para aferir a pressão arterial dos ciclistas no Parque da Jaqueira, Marco Zero e Parque Dona Lindu.

Três quiosques para assistência técnica e mecânica das bicicletas serão montados em pontos estratégicos: Marco Zero, Parque da Jaqueira e Parque Dona Lindu. A assistência será gratuita. Nesses três pontos de apoio serão disponibilizados panfletos com mapas do roteiro da ciclofaixa. Além disso, o Marco Zero vai contar com um bicicletário, que vai operar sempre nos mesmos dias do projeto, aos domingos e feriados.”

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Litorânea: paisagem despoluída

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A Blitz Urbana, sob o comando de Da Hora Júnior, removeu o monstrengo de ferro que serviria de base para um outdoor no calçadão da Litorânea. A denúncia foi feita neste blog e no Facebook.

Mais uma vitória da cidadania.

Prova de que é preciso denunciar e manter-se vigilante, sempre.

Obrigado, Blitz Urbana. Parabéns aos cidadãos de São Luís.

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Litorânea: 4 donos e ninguém manda

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À exceção do Centro Histórico, a Avenida Litorânea é o único cartão-postal urbano de São Luís. E, como todo o resto, sofre as consequências dos maus-tratos e da falta de gestão.

Para quem não sabe, a Litorânea é disputada, a um só tempo, por 3 donos: a União, manda na faixa de areia, no mar, na ocupação; a Prefeitura, no trânsito, na iluminação, na sinalização; e, o Governo do Estado, no saneamento e nas praças.

O quarto dono, o povo, acionista majoritário, não manda em nada. Mas tem  sua culpa: usufrui de tudo, não tem lá muito zelo pelo próprio patrimônio e, pior, é rigorosamente passivo em relação à omissão dos demais.

A Litorânea serve para tudo: shows, corridas, manifestações, cultos, passeatas, carreatas, assassinatos… Serve, também, como depósito de coliformes fecais vindos de todas as partes, inclusive, dos rios Calhau e Pimenta.

Agora mesmo, do nada, surge um esqueleto de ferro, tão grande quanto feio, provável base para um outdoor ou luminoso. Ninguém sabe quem mandou instalar. Mas, está lá, fincado no concreto, enfeando a paisagem da orla.

Provavelmente, a depender de como as coisas acontecem em São Luís, jamais será retirado.

Você vai deixar isso acontecer?

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O velho, de novo!

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Aproxima-se mais uma eleição e, em tese, a chance de o eleitor escolher quem ele julga melhor para administrar sua cidade.

Apenas em tese, pois, se falta à maioria o discernimento necessário para escolher “o melhor”, as opções de escolha, não raro, sugerem que esta seja feita entre os menos ruins.

E, assim, entra eleição, sai eleição, mais promessas são feitas, os problemas continuam, a vida nas cidades se deteriora e a esperança dá lugar à desilusão.

O cidadão, desiludido, descrente de tudo, torna-se passivo e não crê que o voto dele seja capaz de mudar alguma coisa. Fecha-se – e repete-se – um círculo vicioso e perverso. Uma realidade cruel.

Nos blogs, jornais, redes sociais e em outros meios de comunicação, alimenta-se o ego dos candidatos, bolam-se teses, rebolam-se antíteses, discute-se sobre alianças, publicam-se manifestos, cartas e um sem número de palpites que nada dizem e a nada levam, porquanto não contemplam os interesses da maioria.

A informação deforma-se em meio à profusão de interesses nada republicanos. Cenário mais que ideal para projetos políticos que não contemplam o cidadão, as cidades e a cidadania. Em outras palavras, espaço amplo para projetos de ‘Poder’ personalistas, destituídos do caráter democrático que deveriam ter.

Ao eleitor, em nome de quem se promete mundos e fundos, resta o papel de coadjuvante de uma farsa, adredemente, montada. Uma opereta em que os protagonistas fingem ser o que não são e, exímios ilusionistas, projetam uma realidade que jamais será alcançada.

Tem sido assim e nada indica que não será, mais uma vez, assim. Ou alguém duvida?

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Cecília (en)canta Vinícius

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Sou fã de Vinícius de Moraes. Canto suas músicas, declamo seus poemas, devoro suas biografias, invejo suas paixões e daria tudo para ter estado ao lado dele e do seu melhor amigo (segundo Vinicius, “o uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado”).

A propósito, segundo uma das mulheres de Vinícius, Maria Lúcia Proença, citada por João Carlos Pecci , autor do livro “Vinicíus Sem Ponto Final”, “muita gente pensa que Vinícius esbanjava irresponsabilidade. Nada disso! Era extremamente responsável com tudo o que fazia. E sofria muito com qualquer coisa que o contrariasse, errada ou injusta, muito mais quando comprometia um amigo do que a ele mesmo”.

Vinícius cantou o amor como poucos e, como poucos, permaneceu eterno, muito além de sua existência tão inspirada, inspiradora e prolífica.

Cantar Vinícius não é para qualquer um.  Vinícius é para quem tem paixão. E aí, então, é preciso ter coragem. Mais do que coragem, é preciso competência musical, talento e voz.

Tais predicados, além de uma beleza que encantaria imediatamente o nosso “Poetinha”,  estão presentes na cantora maranhense, Cecília Leite.

Quem foi ao teatro Arthur Azevedo assistir ao show “Cecília Leite por toda a minha vida – Cecília canta Vinícius”,  não deixou de se encantar.

Quem foi, viu um Cecília simples, mas requintada; contida, mas  exuberante; jovem, mas amadurecida.

Quem foi, ouviu uma voz possante, afinada. A  perfeita comunhão entre a técnica e a emoção.

Em nenhum momento, Cecília se permitiu ser maior que a obra do poeta que ela, como eu, idolatra. E residiu, aí, o sucesso do seu show.

A banda, outro destaque da noite, fez jus à performance da artista e com esta se confundiu em musicalidade e afinação. Cecilia, perfeccionista como ela só, não deve ter gostado da falha técnica do início do show. Minutos angustiantes que a tecnologia, sabe-se lá porque, não conseguiu evitar.

Esperei-a nervosa, irritada talvez. Nada disso. Superou o episódio e superou-se a cada música cantada. E foram tantas. Mais de 20, cuidadosamente escolhidas para uma noite que se fez inesquecível.

“A felicidade é como a pluma

Que o vento vai levando pelo ar

Voa tão leve

Mas tem a vida breve

Precisa que haja vento sem parar”.

Cecília foi pluma e foi vento. E, durante breves duas horas, fomos felizes sem parar.

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‘Nordeste Independente’

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A ignorância da estudante paulista, Mayara Petruso, condenada à pena de prestação de serviços à comunidade, além de ter recebido multa de R$ 620, por  veicular mensagem preconceituosa contra nordestinos no Twitter, após a vitória da presidenta Dilma Rousseff, nas eleições presidenciais de 2010, fez dela o símbolo maior da intolerância contra o Nordeste e sua gente.

Mayra também foi condenada ao pagamento de uma indenização por danos à sociedade, fixada em R$ 500,00, quantia que será destinada à ONG Safernet, que atua na prevenção de crimes cibernéticos.

Infelizmente, comportamentos como o dela não são raros na internet e redes sociais, onde, por qualquer motivo, as pessoas revelam seus instintos selvagens e mesquinhos.Posturas furiosas assim, reverberam rapidamente e na mesma proporção.

Não tivesse sido tão irascível, tão petulante, tão idiota mesmo, a jovem em questão poderia ter conquistado seus 15 minutos de fama de outra forma.

Agora, carregará pela vida inteira o ônus da besteira que fez. E, nas mesmas redes sociais em que atacou o Nordeste e os nordestinos, terá seu nome permanentemente vinculado à discriminação a este “recanto bonito do Brasil”.

Mas, o nordestino é calejado. Mayara fez mal a si própria. O Nordeste é maior e melhor do que ela pensa, se é que, algum dia, ela tenha pensado sobre.

Na década de 70 ou 80, não lembro bem, o genial poeta, escritor e jornalista paraibano, Bráulio Tavares, meu conterrâneo, criou um mote bem humorado exatamente sobre essa questão do preconceito contra o Nordeste. E o mote, por si só, era provocativo: “Imagine o Brasil ser dividido/E o Nordeste ficar independente”.

Ele mostrou a criação ao poeta-repentista, Ivanildo Vila Nova, eleito o “Cantador do Século XX”. Ivanildo e Bráulio glosaram o mote que, mais tarde, viraria “hit” na voz de Elba Ramalho.

Ao contrário do que escreveu Mayara, o “Nordeste Independente” não é nenhuma apologia ao separatismo e à intolerância. Antes, é uma obra-prima da criatividade dos dois poetas e só demonstra o quão rica é a cultura do nosso povo.

NORDESTE INDEPENDENTE
(Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares)

Já que existe no Sul este conceito
que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
já que existe a separação de fato
é preciso torná-la de direito.
Quando um dia qualquer isso for feito
todos dois vão lucrar imensamente
começando uma vida diferente
da que a gente até hoje tem vivido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Dividindo a partir de Salvador
o Nordeste seria outro país:
vigoroso, leal, rico e feliz,
sem dever a ninguém no exterior.
Jangadeiro seria o senador
o cassaco de roça era o suplente
cantador de viola o presidente
e o vaqueiro era o líder do partido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Em Recife o distrito industrial
o idioma ia ser “nordestinense”
a bandeira de renda cearense
“Asa Branca” era o hino nacional
o folheto era o símbolo oficial
a moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o Inconfidente
Lampião o herói inesquecido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

O Brasil ia ter de importar
do Nordeste algodão, cana, caju,
carnaúba, laranja, babaçu,
abacaxi e o sal de cozinhar.
O arroz e o agave do lugar
a cebola, o petróleo, o aguardente;
o Nordeste é auto-suficiente
nosso lucro seria garantido
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido…
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fez
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.

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“Vou-me embora pro passado”

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Jessier Quirino é um poeta paraibano que o Brasil começa a conhecer. E a respeitar.
Ele é poeta, é repentista, é cantador…
Uma poesia requintada, mas com a pureza da alma nordestina.
Em “Vou-me embora pro passado”, ele faz uma viagem no tempo e resgata tudo o que a geração dos “enta” viveu.
Não há como não reviver o passado.
Então, vamos ‘simbora’ pra ele…

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Diário de bordo

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A viagem é em um avião lotado, porém solitária.

Ao preço do bilhete, nem sempre barato, acrescento – por imperiosa necessidade – os 30 reais indispensáveis para ter direito ao que a companhia aérea chama de “assento conforto”.

Bem sei que é uma subversão do que sonhamos como conforto, mas, desconfortos à parte, meus 1.90m de altura ficam razoavelmente contemplados em qualquer uma das poltronas das fileiras 12 e 13, bem nas saídas de emergência.

Lembro-me que, ao visitar a fábrica da Boeing, em Seattle, em 2006,  a minha primeira preocupação foi a de indagar o porquê de o espaço entre as poltronas ser tão reduzido.

- Quem define isso é o comprador – assegurou-me o Public Relations da gigante da aviação.

Daí, sempre recordo da promessa feita pelo então Ministro da Defesa, Nelson Jobim, ele próprio tão alto quanto eu, de que o governo brasileiro iria exigir das companhias aéreas nacionais um espaço menos indecente entras as poltronas de nossas aeronaves.

Como todos sabem, não passou de uma jogada ‘pra galera’, ou melhor, para nós todos, sofridos passageiros desses trens de subúrbio voadores.

Obrigado, por força das minhas atividades profissionais, a fazer muitas viagens, a revolta diante dessa humilhação é recorrente.

E ela aumenta a cada decolagem, quando algum gaiato que não pagou pelo “conforto” aproveita o descuido dos comissários para se aboletar na poltrona supostamente confortável.

É a malandragem, esta instituição nacional da terra, mar e ar, demarcando o seu território. Malandro que é malandro sempre se julga dono de alguma coisa que não lhe pertence…

E lá vou eu, mais uma vez, fazendo a rota SLS/SP/SLS pela terceira vez consecutiva em menos de um mês.

Estivesse na Europa, lembra um passageiro ao meu lado, cruzaria três ou quatro países no mesmo espaço de tempo dispendido entre São Luís e São Paulo. Fazer o quê?

Apenas sonhar em ser respeitado como consumidor e rasgar os céus com um mínimo de conforto e dignidade.

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