A MELHOR E A PIOR IDADE

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Um desabafo do senador Garibaldi Alves, na semana passada, em Brasília, foi objeto de desusados comentários nos meios de comunicação. Numa demonstração de cabal inconformismo com a avançada idade, disse “que se pudesse jamais integraria a terceira idade e que não sabe como as pessoas dizem que essa é a melhor idade”.

A revolta contra a cronologia, manifestada pelo político do Rio Grande do Norte, não é um sentimento esposado apenas por ele. Muita gente aplaudiu o desabafo do senador e gostaria, também, de tê-lo pronunciado. Não por acaso, no meu dia a dia, sinto e vejo como são poucos os idosos que gostam ou se vangloriam de fazer parte da terceira idade. Alguns ficam até irados quando identificados como tais.

Não sei se no Brasil há pesquisas a respeito dos que chegaram aos 65 anos e vivem na plenitude da felicidade. Seria de bom alvitre que um instituto de opinião pública tomasse a iniciativa de apurar o que acha e sente esse significativo contingente da população, que vem crescendo assustadoramente pela melhor qualidade de vida que o brasileiro passou a ter nos últimos anos.

Não ficarei surpreendido se o resultado da pesquisa, salvo melhor juízo, apontar que a esmagadora maioria dos entrevistados se revelará insatisfeita de pertencer a um grupo da sociedade, que é exaltado em prosa e verso, só pelo fato de ter direito (?) a certas concessões ou prioridades, praticamente inócuas, enganosas e não respeitadas.

A esta altura da minha vida de setentão não assumido, tenho absoluta certeza de que ainda não apresento o perfil da terceira idade, situação que credito à minha boa situação física e psicológica, que me permite viver em estado de graça, na plenitude da mobilidade e com as atividades vitais funcionando a contento.

Esse quadro de vida saudável que até agora Deus me deu, leva-me a crer que a propaganda em torno da terceira idade, não passa de balela ao apontá-la como a melhor e mais radiosa de todas. Quem assim procede, falta com a verdade ou tenta convencer os idosos de a terceira idade se assemelhar à fase em que as crianças chegam ao mundo colorido do sonho e da fantasia.

Aos maiores de 65 anos são repassadas mensagens e propagandas, que urdidas e vocalizadas pelos meios de comunicação, procuram persuadi-los de que na idade avançada, passarão a usufruir direitos e vantagens pessoais, dentre as quais a de não entrar em filas de bancos ou similares, viajar sem pagar passagem de ônibus, sentar em lugares privilegiados e confortáveis, pagar meia-entrada em teatros, cinemas, casas de shows  e outras que tais, como diria o saudoso jornalista caxiense, Vitor Gonçalves Neto.

São mensagens mirabolantes, que, muitas vezes, levam o idoso a situações tristes e constrangedores, pois anunciadas como vantajosas, na realidade, não são cumpridas pelo descaso e pela incúria das autoridades. Veja-se, por exemplo, um caso que pode acontecer com o idoso em filas bancárias e similares: fica sujeito a arrumar encrenca com pessoas insolentes, que não aceitam e nem concordam em ceder lugares aos que carregam mais anos nas costas.

Mais ainda: nos dias de hoje fila dedicada à terceira idade está em toda parte e comumente são longas e vagarosas. Por isso, o próprio idoso, para chegar mais depressa ao guichê e ao caixa eletrônico, entra na fila que não lhe é destinada.

Eu nunca viajei de ônibus de linha interestadual, mas sei que as empresas se obrigam a conceder um número limitado de passagens grátis aos idosos. Um conterrâneo, de Itapecuru, na faixa da terceira idade, sempre vem de São Paulo, onde mora, ao Maranhão, por ocasião das festas de final de ano. Para usar o direito assegurado por lei, ele procura as empresas, antecipadamente. Mesmo assim, criam os maiores obstáculos à concessão do bilhete. Certa vez, foi obrigado a procurar o Procon e o Ministério Público para  valer o seu direito.

Ao relatar casos acima, faço questão de esclarecer um ponto importante: mesmo achando que a terceira idade não é essa maravilha toda que se apregoa, torço para os idosos não perderem as garantias e vantagens conquistadas de uns tempos para cá, mesmo sendo ainda precárias. Não desejo, também, que sejam desrespeitados, constrangidos ou desconsiderados, como atualmente são. Por serem longevos, merecem da sociedade todo acato, bem como acolhidos e festejados pelos mais novos, pois só assim os seus direitos, ainda que limitados, se tornarão invioláveis e não postergados.

Como a minha quilometragem aqui na terra é longa e cheia de subidas e descidas, posso de onde estou afirmar com todas as letras: a terceira idade, como alguns querem, não é a mais sublime e importante da vida. Nesse particular, comungo com os franceses que denominarem jeunesse dorée  a marcante  fase da juventude,  pois é nela que se vive os melhores e mais  vibrantes momentos da existência humana.

Eu, na condição de ex-ativista e admirador da juventude dourada, viajo no tempo e relembro os áureos anos 1950 e de 1960, em que éramos felizes e não sabíamos. Vivia-se a fase em que tudo era saudável e livre e sem a companhia de qualquer espécie de droga. O vício, se assim posso caracterizá-lo, da minha geração era a freqüência à zona do meretrício e, para variar, ser atacado por doença venérea, que a penicilina, a novidade da época, cuidava de curá-la.

Para encerrar este palmo de prosa, nada melhor do que extrair da bela composição musical de Roberto Carlos, “Velhos tempos de domingo”,  esta frase: “O que foi felicidade, me mata agora de saudade”.

 

 

 

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