50 ANOS DA MORTE DO BAILE DE MÁSCARA

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A população de São Luis foi tomada por desagradável surpresa no dia 2 de janeiro de 1966, quando os jornais publicaram o decreto do prefeito Epitácio Cafeteira, que proibia taxativamente a realização de bailes populares ou de máscaras.

O ato, inesperado e demagógico, veio à tona, segundo o prefeito, porque o poder público precisava agir em defesa dos costumes sadios e da moralidade da comunidade, bem como erradicar as licenciosidades praticadas nos bailes populares, estes, acusados de focos de corrupção sexual.

O decreto de Cafeteira, de imediato, causou polêmica, debate e discussão na cidade. Se alguns setores sociais o aplaudiram, por vê-lo como instrumento de proteção das mulheres, especialmente da periferia, explorada pelos donos dos bailes, que as usavam inescrupulosamente, outros, contudo, o condenaram pelo fato de acabar com um evento específico de São Luis, que se melhor trabalhado e  organizado e mais policiado, para evitar abusos, poderia ser fonte de receita e atrativo turístico.

A primeira reação contra a atitude do prefeito veio dos promotores dos bailes de máscaras, que haviam contraídos empréstimos e assumidos compromissos para fazer face às múltiplas despesas requeridas pelos eventos. Apavorados com os iminentes prejuízos, contrataram advogados para pleitear na Justiça a ilegalidade de tão impensado ato.

A segunda reação surge nos escaninhos dos partidos políticos que apoiavam o governador José Sarney, que ainda não haviam deglutido a vitória de Cafeteira sobre o candidato do PSP, Ivar Saldanha, nas eleições de outubro de 1965.

Sintonizados com o sentimento popular – na sua grande maioria repudiava a atitude do gestor -, o vice-governador Antônio Dino e o deputado Clodomir Millet, por meio dos meios de comunicação, contestaram o decreto, sustentados na tese de que baile de carnaval não é assunto da competência da prefeitura, mas da Secretaria de Segurança, a quem cabe zelar pelos costumes e fiscalizar as diversões públicas.

Com base nos argumentos de Dino e Millet o coronel Antônio Medeiros, convoca a imprensa para anunciar a competência da Secretaria de Segurança com respeito aos bailes e autorizar o funcionamento dos mesmos, segundo a portaria já assinada.

A interferência do governo do Estado no problema, em vez de arrefecer a crise, ao contrário, elevou-a. Manifestações contra e favor do decreto incendiaram a questão, que foi parar na Justiça, onde Cafeteira impetra recurso para tornar sem efeito o ato do coronel Medeiros. Como se não bastasse, o prefeito ainda contrata blocos, escolas de samba e outras brincadeiras momescas, para nas ruas protestarem contra a portaria da secretaria de Segurança.

Tais manifestações repercutiram imediatamente no Palácio dos Leões, fazendo o governador José Sarney solicitar ao comando da Guarnição Federal a instauração de inquérito policial-militar para apurar e investigar ato que pregava publicamente a desobediência coletiva ao cumprimento da lei.

Com a portaria da Secretaria de Segurança em vigência, mas sub-judice, a temporada momesca chega ao final sem o funcionamento dos bailes populares. Só quatro meses depois do carnaval, ou seja, em 16 de junho de 1966, por cinco a três, o Tribunal de Justiça, profere uma sentença salomônica: acha perfeito e revestido das formalidades legais o ato da Secretaria de Segurança, mas considera líquido e certo o direito de Cafeteira de contestá-la.

Resumo da opereta: 1) no ano seguinte nenhum promotor de festa carnavalesca quis correr o risco de realizá-la; 2) Cafeteira fica com a glória de ser o coveiro  dos bailes de máscaras de São Luis.

 

BREVES RECORDAÇÕES DO CARNAVAL DE SÃO LUIS

Em 1950, deixei Itapecuru para estudar em São Luis. Ao chegar aqui não imaginava que o carnaval fosse um evento popular tão empolgante e com capacidade de mobilizar toda comunidade.  Era garoto, mas lembro das chamadas brincadeiras de Momo, que, à época, se concentravam na Praça Deodoro e nas Avenidas Silva Maia e Gomes de Castro. A partir das 16 horas, nesse perímetro urbano, literalmente decorado com alegorias carnavalescas, desfilavam as figuras que marcavam a folia: palhaços, odaliscas, pierrôs, arlequins, dominós, colombinas e fofões.

O carnaval parava a cidade e o poder público praticamente não interferia nas brincadeiras de rua. Tudo funcionava espontaneamente e na base da descontração e da alegria.  Até o entrudo, brincadeira que consistia em jogar água, pó, farinha e tintas nas pessoas, era aceita e tolerada. Quem não gostava do entrudo, vibrava com os corsos, ranchos, blocos, batucadas e turmas de samba.

Os corsos apresentavam-se em carros enfeitados, com moças e roupas coloridas, que jogavam confetes e serpentinas e tocavam pandeiros e tamborins. Outras brincadeiras também saiam às ruas para brindar o público, como Baralhos, Fidalgas, Cordões de Ursos, Fofões, Casinha da Roça, esta, até hoje, mantém a tradição de desfilar e encantar a cidade. Os blocos, não sofisticados como agora, mas bem organizados, estilizados e cadenciados, a exemplo dos Fuzileiros da Fuzarca, Cadetes do Samba, Vira-Latas, Sentenciados, Bando da Lua, Turma de Mangueira, do João Paulo, Turma do Quinto, da Madre de Deus, e Tribos.

Quem tinha fôlego de sobra, além de brincar na rua, ainda participava das noitadas carnavalescas, em bailes de segunda, promovidos em casas particulares e familiares, de classe média; em assaltos, que aconteciam em domicílios particulares, cujos donos só tomavam conhecimento da festa quando os brincantes chegavam e acompanhados de orquestra e bebidas; em clubes da alta sociedade – Casino Maranhense, Grêmio Lítero Recreativo Português e Jaguarema, neste, o baile da segunda-feira de carnaval, tendo como ponto alto o desfile de fantasia, com prêmios compensadores para os vencedores.

Houve tempo, em que o Teatro Artur Azevedo serviu de palco para a realização de festas carnavalescas, destinadas à alta sociedade e promovidas por entidades beneficentes. Exigência para participar do baile: fantasia de luxo ou traje a rigor.

Não podem ser esquecidos os bailes populares ou de máscaras, famosos e conhecidos por Gruta de Satã, Berimbau, Cantareira, Vassourinha, Bigorrilho, Inferno Verde e tantos outros. As mulheres não pagavam, mas só tinham acesso se mascaradas, fetiche para atrair os homens.  O mais famoso deles – o do Moisés, caprichosamente decorado, animado pelas melhores orquestras e com um batalhão de mulheres sedutoras, que deixavam os políticos e empresários embasbacados.

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