NOVENTA ANOS DE GULLAR

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Se Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, não tivesse falecido a 4 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro, onde estava radicado desde 1951, certamente que a cultura brasileira comemoraria no próximo dia 10 de setembro, os seus noventa anos de vida, quase todos dedicados às letras e às artes do País.

Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Lago Burnett, José Sarney, Lucy Teixeira, José Bento Neves e outros jovens intelectuais, fizeram parte do movimento literário que vicejava em São Luís do Maranhão, no final da década de 1940, que se reunia com frequência em uma movelaria na Rua do Sol e onde nasceu a revista A Ilha, tendo como parceiro o também poeta Lago Burnett, totalmente voltada para a promoção dos novos valores literários de nossa terra.

O intelectual maranhense notabilizou-se a nível nacional por ser um escritor talentoso, um poeta de expressão, um crítico de arte renomado, um tradutor respeitado, um memorialista famoso e um ensaísta invejável, sendo, também, famoso por ser um dos fundadores do neoconcretismo.

Gulllar foi um escritor engajado politicamente, integrou as fileiras do PCB, razão porque foi perseguido pela ditadura militar, exilando-se na União Soviética, Argentina e Chile.

Depois de muito assédio, concordou em fazer parte da Academia Brasileira de Letras, eleito para a Cadeira 37, que pertencia a Ivan Junqueira, e tomou posse a 5 de dezembro de 2014.

VIDA E OBRA

Em setembro de 1998, uma das melhores revistas de cultura publicadas no Brasil, denominada Caderno de Literatura Brasileira, editada sob os auspícios do Instituto Moreira Salles e da Lei de Incentivo à Cultura, dedicou toda uma edição ao extraordinário homem de letras, nascido em São Luís.

Dentre as matérias incluídas na revista, todas de excepcional qualidade literária, selecionei a intitulada “A campanha”, que traz uma cronologia, um verdadeiro retrato sem retoque dos primeiros tempos de sua vida no Maranhão e de sua ida para o Rio de Janeiro, cidade que o projetou para o Brasil como extraordinário e polivalente intelectual.

A CRONOLOGIA

1930 – Nasce no dia 10 de setembro, na Rua dos Prazeres, 497, em São Luís, capital do Maranhão, José Ribamar Ferreira, quarto filho do comerciante Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart. Depois dele, o casal teria ainda mais sete filhos.

1941 – Matricula-se no curso primário do Colégio São Luís Gonzaga, um dos mis tradicionais da cidade e de orientação católica; quatro anos antes, iniciara seus estudos no Jardim Decroli, de onde sairia para ter aulas primeiramente com as irmãs Duarte, costureiras e dublês de professoras e em seguida numa escola particular, da qual acabaria fugindo.

1942 – É aprovado em segundo lugar no exame de admissão do Ateneu Teixeira Mendes; não concluiria, porém, o ano letivo nesse colégio.

1943 – Ingressa na Escola Técnica Federal. Apaixonado por certa Terezinha, moradora na mesma rua que ele, abandona seus dois grandes amigos, apelidados de “Esmagado” e “Espírito da Garagem da Bosta”.

O apelido de Gullar na época era “Periquito” e passa a ficar dentro de casa lendo livros retirados da Biblioteca Pública e escrevendo poemas.

1945 – Sua redação sobre o Dia do Trabalho ganha nota 95 e é elogiada pela professora de português na escola inteira. Os cinco pontos que faltaram para a nota máxima se devem a erros de gramática, levando-o a mergulhar no estudo das normas da língua.

A redação, que ironizava o fato de não se trabalhar no Dia do Trabalho, seria o ponto de partida para o soneto “O trabalho”, primeiro poema publicado por Gullar, três anos depois no jornal O Combate, de São Luís.

1948 – Começa a trabalhar como locutor da Rádio Timbira, ao mesmo tempo em que se torna colaborador do jornal Diário de São Luís.

1949 – Publica seu primeiro livro de poesia, “Um pouco acima do chão”, editado com recursos próprios e o apoio do Centro Cultural Gonçalves Dias.

1950 – Presencia o assassinato de um operário pela polícia, durante repressão do governo a um comício de Adhemar de Barros, na Praça João Lisboa, em São Luís.

Em protesto, nega-se a ler, em seu programa na Rádio Timbira, uma nota que aponta os comunistas e baderneiros como responsáveis pela morte. Essa atitude faz com que perca o emprego de locutor; o episódio, porém, rende-lhe um convite para participar da campanha politica no interior do Maranhão.

 Com o poema “O galo”, inspirado em anúncio do sal de frutas Eno, vence concurso promovido pelo Jornal de Letras; a comissão julgadora era formada por Manuel Bandeira, Willy Lewin e Odilo Costa Filho.

Gullar começa a escrever poemas que iriam integrar o livro “A luta corporal”

1951 – Muda-se para o Rio de Janeiro. Indicado pelo jornalista João Condé, consegue emprego na redação da Revista do Instituto de Aposentadoria e Pensão do Comércio. Conhece o crítico de arte, Mário Pedrosa, iniciando uma longa amizade. Publica na Revista Japa, que teve somente um número, o conto “Osiris come flores”. Entusiasmado com o texto, o escritor Herberto Sales, arranja-lhe um emprego de revisor na revista O Cruzeiro. Entre dezembro e março do ano seguinte, passa três meses num sanatório  em Correias, Estado do Rio, tratando de uma tuberculose.   

1953 – No dia em que completa 23 anos, é apresentado pelo jornalista Oliveira Bastos a Oswald de Andrade. O escritor modernista havia lido o então inédito e recém-concluído A luta corporal e leva de presente a Gullar dois volumes teatrais de sua autoria, um contendo “A morta e O rei da vela” e outro, “O homem e o cavalo”. Nessa época, Gullar começa a escrever “Crime na flora ou Ordem e Progresso”, texto quase que inteiramente em prosa poética. Concluído no ano seguinte, o livro só seria publicado em 1968 pelo editor José Olympio.   

1954 – Casa-se com a atriz Thereza Aragão, com quem teve três filhos. Lança a “Luta Corporal”, impresso na gráfica da revista O cruzeiro. Após a leitura do livro, os poetas Haroldo de Campos e Décio Pignatari escrevem-lhe uma carta manifestando o desejo de conhecê-lo. No final do ano, Gullar começa a trabalhar como revisor na revista Manchete.

1955 – Às vésperas do carnaval, conhece Augusto Campos, iniciando discussões a respeito da literatura. Trabalha como revisor no Diário Carioca, antes de engajar-se no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil.

1956 – A convite de Augusto e Haroldo Campos e Décio Pignatari, participa da I Exposição Nacional de Arte Concreta, que acontece em dezembro no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

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