Mariano de Castro: de arquivo vivo a arquivo morto

0comentário

Mariano de Castro (à direita) em reunião com o secretário de Saúde, Carlos Lula, e, ao fundo, a imagem do governador Flávio Dino

Está cercada de mistério a morte do médico Mariano de Castro Silva, um dos presos na Operação Pegadores, deflagrada em novembro do ano passado pela Polícia Federal para desbaratar uma quadrilha formada por membros do governo Flávio Dino (PCdoB) acusada de desviar cerca de R$ 18 milhões em recursos federais destinados à Saúde, por meio de fraudes na contratação e pagamento de pessoal. Apontado como operador do esquema, Mariano foi encontrado morto, por enforcamento, na noite de quinta-feira (12), dentro do apartamento onde morava com uma irmã, em Teresina (PI), em circunstâncias ainda não esclarecidas.

Recolhido em prisão domiciliar desde dezembro do ano passado, quando foi beneficiado por uma decisão que lhe permitiu deixar o Complexo Penitenciário de Pedrinhas, o médico, assessor técnico da Secretaria de Estado da Saúde (SES) à época da sua prisão, era um verdadeiro arquivo vivo. Ou seja, sabia demais, o que o tornava uma grave ameaça a quem não tem o mínimo interesse em ver o caso de corrupção esmiuçado e com todos os envolvidos devidamente punidos.

Seria precipitado levantar suspeita de queima de arquivo. Mas há elementos que, inevitavelmente, induzem a tal conjectura. Senão vejamos: o próprio médico legista que fez a autópsia no corpo de Mariano lançou dúvida sobre a hipótese de suicídio, apresentada, de início, como versão oficial. Para o profissional do IML piauiense, o ex-assessor da SES tanto pode ter ceifado a própria vida, como pode ter sido assassinado.

Ainda segundo o legista, não é possível concluir, com 100% de certeza, com base nas circunstâncias em que o cadáver foi encontrado – dentro de um dos quartos do apartamento, com um cabo da fiação elétrica amarrado ao pescoço – que a asfixia por enforcamento que matou o médico foi um ato cometido por ele próprio ou por terceiro (s).

Pessoas que tinham contato mais próximo com Mariano contestam a versão de suicídio. E prestam informações que podem ser úteis à investigação, como o fato de o médico ter um filho portador de deficiência, a quem dedicava extremo cuidado e atenção permanente. Por essa razão, acham difícil que ele tenha se matado, sabendo que deixaria o dependente desamparado.

Um dos protagonistas do maior escândalo de corrupção do governo comunista de Flávio Dino, até o momento, Mariano de Castro vinha registrando em cartas as memórias do tempo em que passou como membro da equipe da SES. Os documentos, já em poder da polícia, apresentam passagens reveladoras, que não deixam dúvida quanto à malversação de recursos da saúde estadual. Recluso e com tempo de sobra para rememorar, por escrito, as peripécias que o levaram à cadeia, o médico dava claros sinais, a cada linha dos seus textos, que trariam à tona mais fatos comprometedores.

Por isso mesmo, não faltavam interessados em silenciá-lo e transformá-lo em arquivo morto.

Sem comentário para "Mariano de Castro: de arquivo vivo a arquivo morto"


deixe seu comentário