Amor e justiça não combinam | DQ 202

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Trilha: 

A meritocracia que me perdoe, mas quando a gente ama, a primeira coisa que se perde é o senso de justiça. Fica difícil acreditar na justiça quando até a seleção natural de quem amamos é tão natural que chega a ser randômica. Primeiro que o conceito de que o mais forte sobrevive é totalmente furado, quando nos encontramos amando as curvas menos perfeitas que conhecemos. É um sorriso não tão branco -mas que você enxerga lindo. É uma barriga sobressalente, que você jura ser charme, mas a sociedade chama de culote. E tantas outras imperfeições que passam totalmente despercebidas pelo nosso olhar de amante.

Quem diz que aparência só conta nos cinco primeiros segundos é feio ou mentiroso. Aparência conta, pesa, decide. Ninguém é tão descontruído a ponto de abdicar dos atributos estéticos. Ainda que não sigam o padrão da sociedade, seguem seus próprios conceitos. A questão é que a justiça parece não ter lugar, quando se ama alguém. Somos injustos com os candidatos mais bem preparados, não percebemos as melhores propostas (lê-se: atributos físicos) e sempre, ou quase sempre, apostamos no azarão. Justiça e amor brigaram no jardim de infância e até hoje não fizeram as pazes. Deve ser por isso que a fulana do 570 é linda, educada, inteligente e tudo aquilo que deveria contar pra ser a mulher ideal, se houvesse justiça nesse mundo. Mas não conta ou, pelo menos, a conta não fecha.

A gente gosta é do desequilíbrio. Da marginalidade. Do avesso. A gente quer á injustiça. Amor é ironia disfarçada. O manual de par perfeito é rasgado no primeiro sinal de incongruência. Somos atraídos pela novidade, pela curiosidade que o absurdo esconde. Até aqueles que estão amando exatamente quem eles idealizaram não o amam por isso. O amor é sujeito que aparece antes de qualquer predicado. Aliás, se você discordar disso e achar que há justiça sim no amor e dá pra amar primeiro o predicado e, depois, o sujeito. Sem problemas, até a gramática já explicou que esse “amor” segue uma ordem inversa.

 

#DQ202 #espalheamorporaí <3

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É VOCÊ?! | DQ 201

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Trilha:

 

Eu sempre li bastante quando criança. Adorava todos os contos de fadas. Eles trazem sempre uma mensagem positiva sobre o amor. Assim, nós, românticas, passamos a perder sapatos, deixar crescer os cabelos e dar uma chance para uma fera – mesmo que essa não seja nada amável e nem se transforme em príncipe. Até que chega um dia, em que os adultos chamam de maturidade, que você morre para o amor, ou melhor, nós, românticas incuráveis, não deixamos de acreditar, apenas adormecemos. De olhos fechados, não vemos ninguém passar, nos recusamos a acreditar que contos de fadas existem e que ser uma princesa é só mais uma cruel mentira que salta dos livros. No fundo, no fundo, nós alimentamos, quase que secretamente, o desejo de ser despertada com um beijo. E se voltar a acreditar nisso for uma ilusão, então, faz um bem danado viver iludida.

 

Era pra ser um bom dia qualquer, seguido dum beijo de cada lado do rosto ou um aperto de mão. Ele diria o nome, e eu, o meu. E assim estaríamos apresentados. Mas quando ele me olhou com esses olhos morenos e esse sorriso de criança, eu cheguei a ouvir: “Era uma vez”. – Sim, Era uma vez. “Bom dia” e todo esse ritual de apresentação é para quem está apenas cumprindo um protocolo, uma norma de etiqueta. Era uma vez é algo mais intenso, dito no começo das histórias mais incríveis que a humanidade já ouviu. Eu senti, na paz que aquele sorriso me trazia, que estava finalmente despertando.

 

O tempo foi passando e não ficamos apenas no ‘era uma vez’. Saímos uma, duas, três, até chegar o dia em que ele me convenceu novamente a acreditar em contos de fadas. Apesar de toda mágica do sentimento, olhar para dentro de mim e ver meu coração em pedaços fizeram eu me sentir uma idiota, por acreditar nisso tudo novamente. Mas, um dia, você vai sentir no abraço de alguém um sentimento tão forte que, assim como um passe de mágica, todos seus pedaços serão colados. Essa pessoa pode até não ser um príncipe montado num cavalo branco, mas ela será tão grande, a ponto de preencher o abismo que o ‘era uma vez’ geralmente fica do “felizes para sempre”.

 

#DQ201 #espalheamorporaí

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QUEM DIRIA?! | DQ 200

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Trilha: 

Eu não uso mais aparelho. Meu cabelo mudou de cor três vezes. Agora, sei que vinho e cerveja não são lá muito amigos. Se alguém me dissesse naquela época que eu poderia ser feliz sem você, que um dia você iria esperar eu me virar para o outro lado da cama para vestir as calças e ir embora, eu não mudaria de lado. Permaneceria abraçada, enlaçada, só pra você ter que ficar. Na verdade, eu diria que isso seria a maior insanidade que eu já ouvi na vida. Afinal, a gente se prometeu que seria para sempre, né? Mas quem diria?

Quem diria que, como se não bastassem as lembranças que a gente não escolhe ter, o Facebook, agora, desse para me lembrar de quando era você o motivo de declarações piegas e emoticons exagerados? Que era você o primeiro bom dia que eu lia? Que nossa maior briga era para saber quem desligaria o telefone primeiro ou diria eu te amo por último? Nós éramos bobos, ambiciosos e irresponsáveis. Se tivessem inventado uma escala Richter nesse aspecto, estaríamos classificados em uns 10 pontos de magnitude. O PIOR melhor casal do mundo – não me pergunte de qual mundo. Talvez só do nosso, mas o que isso importa?

Hoje eu abri o Facebook. Fazia tempo que eu sequer olhava alguma foto sua. Apesar de não tê-la excluído, desativei todas as suas notificações.  Então, hoje, logo hoje, como se não bastasse ser seu aniversário, o Facebook vem me lembrar da época em que esse dia era nosso “FERIADO MUNDIAL”. A gente sempre brincava com todos ao redor. Perguntávamos ao garçom, flanelinha, porteiro: “como vocês podem trabalhar nesse dia?” ou “como vocês podem agir normalmente?”. Eu sei que isso é o suprassumo da idiotice, mas que estupidez deliciosa essa de amar como idiota!

Então, nossa foto do piquenique no meio de um parque deserto apareceu, sem tempo de eu olhar para outra coisa, bem estampado em minha timeline: nosso último feriado juntos. Nossa, como éramos felizes! DROGA! Olhar isso é como uma piada sarcástica, sem graça, que a vida faz com a gente. O tempo muda tudo e percebo o quão frágil são esses “nós” que, hoje, parecem estar tão firmes. Nós mudamos, desatamos, e minha cabeça briga com meu coração para saber quem vai assumir o controle daqui pra frente. Quem diria que a gente mudaria para longe um do outro? Quem diria que durasse tão pouco? Quem diria que essa cama em pleno verão se tornasse tão fria? Quem diria? Quem diria?

#ESPALHEAMORPORAÍ #DQ200

 

 

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ALGUÉM QUE ENSINE | DQ 199

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Trilha:

Estou precisando de alguém que me convença a banhar na chuva, e a não pensar que isso pode me render uma boa gripe no dia seguinte. Alguém que me ensine uma música que não conheço e que a faça ser a minha favorita. Alguém que me ensine como ser mais calmo e transforme um momento de fúria em risos descontrolados. Estou precisando de alguém que me faça não querer desistir de tudo na primeira dificuldade. Estou precisando de alguém que venha sem etiquetas e não respeite meu espaço. Estou esperando ser invadida por chegadas inesperadas, com uma proposta que envolva: amor, violão, praia e Nutela – não necessariamente nessa ordem.

Estou esperando alguém que não use novas desculpas para problemas antigos. “Não quero me envolver” é o que eu ouço/digo constantemente. Eu estou precisando de alguém que me faça feliz em “ser de alguém”, sabe? Essa possessividade que algumas mulheres detestam, eu amo. Estou com saudades de pertencer a alguém, de ser de alguém e ter alguém pra chamar de meu. Pra mim, essa é a forma mais livre que o amor pode ter. Alguém que tenha coragem para viver uma vida a dois, com uma pitada de covardia em descobrir se é melhor seguir sozinho. Alguém que me ensine o gosto de um beijo roubado, depois que os olhares se cruzam e as palavras se tornam desnecessárias. Alguém que some e não suma, que me divida em antes e depois da chegada dele, alguém que multiplique abraços e subtraia qualquer espaço que nos distancie de amar.

Estou esperando você, que vai me ensinar a recomeçar e, finalmente, a terminar com esse ciclo de quase amores. Esperando você, que vai me dar, além das flores, também seu coração, com cheiro de paz e vários sabores. Estou esperando você, que também vai me ensinar a dose exata de ciúmes, que uma relação precisa, para ficar ainda mais gostosa. Estou esperando, inclusive, que você descubra minhas qualidades e me dê liberdade para mostrar todos os meus defeitos. É que há uma casca seca que envolve meu coração. Mas, calma, é só uma casca. Espero ensinar a você como descascá-la. Assim como estou esperando você me ensinar a andar de mãos dadas, a não esperar para fazer as pazes e até rir de suas velhas e repetidas piadas. Estou esperando você, que vai me ensinar a fechar os olhos durante um beijo e a devorar com os olhos para aumentar o desejo. Não leia isso com medo ou com o peso da responsabilidade de me ensinar. Você não precisa saber tudo. Só precisa decidir que quer tentar.

#DQ199 #espalheamorpoaí <3

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Limpo ou puro? | DQ 198

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Trilha: 

Já dizia um grande pensador que o homem nasce como uma folha em branco. A ideia é simples. Nascemos limpos, o que não quer dizer puros. (Pelo menos, não necessariamente). Um relacionamento pode se manter limpo mesmo sem ser puro. A limpeza é o tratamento diário, superficial. São as aparências que impressionam os olhares mais óbvios. A pureza é uma espécie de Santo Graal da limpeza. É o selo de resistência. Ser puro é o prêmio que os casais que permaneceram limpos recebem por seus esforços.

A pureza de uma relação é medida pela capacidade de resistência ante às pressões externas. Quando resistimos a essas pressões, mantemo-nos puro. Quando recomeçamos, após sucumbir num erro, limpamo-nos. Ou seja, pureza é um bibelô que se põe na estante principal, no afã de impressionar os outros. É título que envaidece e superestima relacionamentos, dando a eles superpoderes. Casais puros não se aproximam dos caminhos tortuosos e da margem da estrada. Há uma espécie de detector de perigo que é acionada, mesmo a léguas de realmente estarem diante de um. E, de longe, nunca saberemos se é medo ou excesso de preocupação.

Já casais que estão limpos, vivem na difícil e, às vezes, ingrata rotina de varrer a sujeira do dia. Estão ali errando, sujando, corrigindo, limpando. Já perderam a pureza e, pra falar a verdade, sequer estão preocupados com isso. São atraídos para margem e, vez ou outra, derrapam nas curvas mais sinuosas. O bom é que o desejo de limpeza impera mais que instantaneamente. A pureza de um casal é sensível. A de limpeza, compreensível. A sensibilidade está para a fragilidade, assim como a limpeza está para a compreensão.

A vida sem máculas deve dar um trabalho danado. Deve ser difícil negar-se à ira, ao egoísmo e a tantos outros sentimentos que batem à porta dos casais. Talvez não querer se limpar todos os dias dê menos trabalho, mas “poder sujar” deveria ser parte do pacto. Até porque, no fim, o que vale mesmo é claro, ser feliz.

#espalheamorporaí <3 #DQ198

 

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Os cinco sentido do amor| DQ 196

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Trilha:

 

Você vai gostar de um beijo mais do que outro, de um toque mais que outro, de um cheiro mais que outro, de um olhar mais que outro e uma voz mais que outra. Mas, um dia, se der sorte, vai conhecer alguém que vai lhe trazer as cinco melhores sensações possíveis em um só corpo. Será um só toque. Um só gosto. Um só cheiro. Uma só voz. Um só olhar. E, a partir daí, entenderá que o amor é a plenitude, não só dos sentimentos, mas dos sentidos.

É através do tato que se consegue perceber a maioria das sensações e por que não distinguir quando é amor? É no toque que o corpo sente o arrepio que vai até à alma. É nele que os poros se ouriçam em tom suave, e a pele se derrete. É em forma de transpiração que o amor se apresenta ao tato. Ele cresce em forma de calor e transborda em forma de suor, como um rio que lava não só a pele, mas a alma.

Haverá um timbre – que vai além da sedução do grave ou da calmaria de um soprano, que vai atingir o tom certo do seu coração. Ele vai sussurrar palavras num ritmo conhecido, só para parecer familiar, mas, de repente, ele mudará o sentido e trará uma nova canção. Vai embalá-lo como o melhor refrão daquela música que você nunca se cansará de ouvir.

O paladar trará um beijo, com gosto de eternidade. Um beijo que parece se reinventar todo dia, sempre com um frescor de novidade. Pode até ser que, no começo, não seja tão bom, mas, com o passar do tempo, ele, assim como o vinho, ficará irresistível. Não importa se está salgado ou doce, molhado ou seco, são os variados sabores que o farão ser tão especial. Aproveite os nuances que essa multiplicidade pode oferecer. 

Há quem diga que a paixão vem do olfato, como se tivéssemos um filtro no subconsciente sobre qual cheiro vai nos apetecer ou não. O fato é que quando é amor, o cheiro é um bálsamo instigante que vai exalar e despertar nossos instintos mais primitivos e sacanas. Ele vai envolvê-lo como uma áurea e o protegerá como uma manta. É nesse cheiro que envolve que o amor cresce, tal como um coquetel instigante: um vício que entorpece.

Deixei a visão, por último. Dizem que é através dos olhos que o amor entra. Eles, que são a janela da alma, vão convidá-lo para morar dentro de alguém. Eles vão invadi-lo e descobrirão seus segredos mais ocultos. Aquele olhar dividirá a sua existência. Que olhar! Esse que antecede o beijo. Esse que convida ao toque. Esse que vai chamá-lo ao mergulho e, no mais profundo, ver o resto da sua vida inteira. Afinal, quando o olhar for mais forte que o toque, pode agradecer: é amor para vida inteira.

#DQ196 #espalheamorporaí <3

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O mito da monogamia | DQ 195

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Você vai conhecer alguém que vai fazê-lo não querer mais ninguém. Você vai acordar e dormir pensando nessa pessoa. Toda vez que ela chegar perto de você, seu peito entrará num frenesi cardíaco que fará inveja à bateria da escola de samba Beija-flor. Você conversará o dia todo e, ainda sim, faltará tempo e sobrará conversa para o dia seguinte. Tudo isso é verdade. Quem sou eu pra discordar disso? Mas o que a gente esquece é que a paixão é monogâmica por natureza. O amor, não. Calma. Não quero dizer que o amor é bi, tri ou “zilhogâmico”. A questão é que a paixão por natureza tem esse gosto insaciável. Já o amor traz, em seu bojo, a maturidade e a constância. Ninguém vai se engasgar bebendo amor. Já a paixão, isso é quase uma regra.

A paixão decide por você. O amor, com você. A paixão pensa por você. O amor, em você. É preciso admitir que não fomos feitos em pares. E, por mais bonito que isso pareça na poesia, na realidade, isso é apenas o reflexo de nossa ilusão. Nós não somos monogâmicos. Sentimos ou sentiremos desejo por outra pessoa, de possuir outros corpos e descobrir novas sensações. Há um espírito aventureiro em todos nós. Descobrir terras além-mar não foi suficiente. Hoje, mesmo após conquistar os quatro cantos do mundo, o homem se lança ao espaço em busca não só das descobertas, mas das experiências que, com certeza, trarão.

É preciso desconstruir o mito criado em torno da monogamia, bem como o de achar que amar alguém nos fará imunes a desejar outras pessoas. Isso não é e nunca será um estímulo nato. É, sim, uma decisão diária e com doses cavalares de renúncias. Toda traição põe em xeque o sentimento alheio, como se ela fosse uma prova cabal de que não há amor. Talvez haja sim, mas faltam caráter, domínio próprio e todos os outros ingredientes que compõem a fidelidade e a monogamia. Quando você admitir que somente o sentimento seja suficiente e partir para um exercício de sacrifício e altruísmo, vai descobrir que não há no mundo uma alma gêmea sequer. Se você é do time dos românticos, vai lutar contra isso. – Mas, calma! Isso é maravilhoso! Afinal, há, no mínimo, mais de uma chance de ser feliz.

#DQ195 #espalheamorporaí

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Crônica do perdão | DQ 194

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A Língua Portuguesa até tentou classificar o perdão. Colocou  “perdoar” como um verbo transitivo direto e indireto, ou seja, há objetos diretos e indiretos concomitantemente. A bitransitividade do verbo realça o que todo mundo já sabe epistemologicamente: o perdão foi feito para perdoar – salva quem pede, salva quem dá. Algumas pessoas julgam-se incapazes de perdoar, talvez por tentarem mimetizar o perdão divino. Aqui, uma ressalva: ele tem a proeza de concede-lo dar o perdão de forma plena, gratuita e ainda jogar num tal mar de esquecimento. Mas nós, meros mortais, não temos essa capacidade. Se não temos, não podemos condicionar o perdão à nossa capacidade de esquecer. Nem esperar que ele cresça de forma involuntária, como se fosse algo inato.

Não somos capazes de liberar o perdão instantaneamente. Afinal, perdão não é simplesmente doado, é liberado. Com isso, a mágoa que existe dentro de você é mitigada. Esse exercício é, para alguns, menos dispendioso. Para outros, um calvário. O nível de envolvimento, ou melhor, de comprometimento em uma relação pode, e geralmente afeta, a capacidade de perdoar. A dificuldade em perdoar não obedece a uma razão entre ter ou não um bom coração. Na verdade, o perdão não obedece a nenhuma regra. É uma espécie de alter ego altruísta se voltando contra o ego egoísta. É um exercício contrário à nossa natureza. Por isso, temos tanta dificuldade em perdoar.

Outra questão que deve ser comentada é a que diz respeito ao poder. O homem sempre teve um fascínio por ele. Há uma concepção errônea do perdão. Há quem ache que quem perdoa está algum grau acima daquele que o recebe. Não, absolutamente. O perdão é o espelho que reflete desculpa como cura, tanto do culpado como de quem culpa. Assim, temos incólume ao perdão um bálsamo que banha ambos. Muito diferente do lavar de mãos de Pilatos. Se Pilatos tivesse perdoado, não lavaria as mãos. Por isso, libere o perdão: pelo outro e, principalmente, por você.

#Espalheamorporaí #DQ194

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Se eu conseguisse escrever – DQ 192

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Trilha: 

 

Se eu conseguisse escrever o que sinto por ti, seria um dos maiores fracassos da história da Literatura. Afinal, o amor que as pessoas compram é clichê, e o meu… ah, o meu é aquele absurdo que todo mundo confunde, até eu mesmo, com obsessão. Não dessas que matam e ferem. Mas dessas que deixam marca na alma, como se fossem um hematoma perpétuo. O que sinto não causa frio na barriga— é uma úlcera que morde as paredes do meu intestino e corrói todas as minhas entranhas. O meu é tipo fome, mas não dessas que se sentem entre uma refeição e outra. Meu amor é fome que mendiga migalhas, sorrisos, beijos e se alimenta morbidamente de tudo que cai do teu prato.

Muito já se falou sobre amor e amar. Sobre os vários tipos e formas de gostar. Eu mesmo já quis colocar todo meu talento à prova em versos que te provem, pelo menos por alguns segundos, tudo que sinto. Eu já busquei inspiração em coisas, lugares e até livros. Já me fiz sacana em versos indecentes que te fizessem suar, assim, de repente, como um suor flambado em desejo e regado ao vício que, pra mim, é teu cheiro. Já banquei o ultrarromântico em poesias que te fizessem chorar, como se o choro fosse uma prova de algo, desculpas. Já quis empenhar toda minha alma numa frase, mas ela caberia numa linha, se o texto quisesse mesmo traduzir a imensidão de te amar.

Convencido de minha missão inglória, eu te dedico meu lamento e uma ou outra dose de analgésicos. Há meses, escrevo, tento rimar com algo que preste. Faço um verso e apago, começo a olhar tua foto e divago. Voo pra uma ilha que deve ser cenário de filme. Confundo as personagens e coloco nós dois num cenário paradisíaco. Ah, se minha pena conseguisse escrever como meu coração sente! Imagina só, ler meus sentimentos e minha devoção? Mas vou continuar tentando. Quem sabe, um dia, eu desafio as leis da escrita e escrevo, de um jeito perfeito, toda nossa vida

 

#DQ192 #espalheamorporaí <3

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A autenticidade do perdão | DQ 191

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Trilha: 

 

Talvez o perdão seja a maior demonstração de amor que conhecemos. Mais que flores inesperadas, declarações públicas ou a permissão para o outro para dormir do lado da parede. Essa última, tecnicamente empatada, perde no limite da margem de erro. O perdão vence, porque ele é o orgasmo de um sentimento nada impulsivo, chamado amor. Toda vez que o amor perdoa, ele goza. Perdoar é extravasar bem na cara do outro a abnegação do ego. É colocar acima do nosso desejo nato de vingança, que chamamos de justiça— para não parecermos cruéis— uma segunda chance ao outro.

O problema é que o perdão é um sentimento tão nobre que, paradoxalmente, pode nos deixar assoberbado. Eu sei, é loucura, mas a vaidade é tão traiçoeira que pode aparecer até no exercício do perdão. Já vi diversas pessoas se vangloriando por serem humildes. A questão é que a altivez que o perdão pode provocar cria uma condicionante para a concessão do perdão. Admitimos liberar o perdão, se e somente se, não houver reincidência. E para não haver reincidência, precisamos fiscalizar. Daí, auditamos cada passo do outro. Viramos não mais perdoadores, e sim carcereiros. Aprisionamos o outro, legitimados pela suposta benesse que o perdão nos dá.

Fiscalizar quem errou satisfaz nossa sede de vingança (lê-se: justiça). Estabelece no outro o sentimento de dívida e aprisionamento. Nasce uma pressão tão intensa e pesada que provoca a rebeldia. A rebeldia, uma vez instaurada, pede a contravenção e é legitimada pela sede de vingança que, claro, não também existe em quem buscará o perdão inicialmente, —que, nesse momento, sequer lembra que errou: está tomado pela revanche. Ou seja, essa confusão toda, simplesmente porque o perdão virou moeda de troca. A gratuidade do perdão não é só sua forma mais autêntica, mas sim sua única forma. Talvez por isso seja tão difícil perdoar e, mais ainda, ser perdoado.

 

#DQ191 #espalheamorporaí <3

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