Antes de namorar, case-se | DQ 207

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Adeptos ou não do enlace matrimonial hão de convir que o casar-se consigo é tão preciso quanto necessário. Por mais simples que pareça essa decisão, acredite: há aqueles que, tal como a clichê cena de novela, dizem não em pleno altar. É inconcebível a ideia de querer ser um bom par pra alguém antes de estar em par consigo. A solidão tem muito mais a ver da forma como você se relaciona consigo do que com os outros. Há milhões de pessoas casadas e solitárias pra provar isso. 

Milhares de livros, coaching e fórmulas são lançados à rodo sobre como se relacionar com o outro. Parcos são os que ensinam a se relacionar consigo. Não pela sociedade não saber que isso é necessário, mas por saber que isso é bem mais difícil. É mais fácil trocar de parceiro e buscar no outro o que deveria ter em você. É mais fácil, mais cômodo. Há alguém dentro de nós que mente por conveniência. Tipo uma voz que alivia a consciência e nos permite transmitir a responsabilidade pela ausência que temos em nossa própria vida. Parece contraditório, mas dá pra passar uma vida toda sendo figurante e culpando os outros de todo insucesso.

Deveriam nos ensinar a sermos gentis, pacientes, entusiastas, românticos e todos os predicativos que usamos para impressionar o outro conosco. Seria uma benção ter em si uma boa companhia, e no outro, um complemento. Por vezes, cobramos um entendimento do outro sobre nós que sequer nós temos. Seria menos dispendioso e mais natural criar intimidades, posto que quando conhecer a si é uma prioridade. Com menos pressão e menos cobrança, as relações teriam mais tempo pra maturar antes de serem destinadas a podas. É só lembrar que entre a semente e germinação há muito mais que uma simples estação.

#DQ 207

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Saudade emprestada | DQ 206

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Pouca gente fala sobre, mas todo mundo já sentiu uma saudade emprestada. Parece loucura, mas saudade emprestada é mais comum que gripe no inverno. Na verdade, dá como gripe. Saudade emprestada é quando a gente ouve algo sobre sentir saudade e, mesmo não tendo saudade, começa a senti-la. Tipo aquele amigo que não consegue esquecer a ex, ou aquele filme que tem uma música que embalou algum relacionamento ou momento marcante de sua vida. Não que você sinta saudades, de fato. Passou, superou e você sequer lembra que se lembrava daquilo. Mas as sinapses daquelas emoções ainda estão ali, como numa gaveta que guarda tudo que não presta. Ela está ali tão bagunçada, que você vai procurar algo completamente diferente e encontra o que nem sabia que havia ainda guardado. Saudade emprestada é justamente isso: uma memória afetiva, com um poder de convencimento muito maior.

 A memoria afetiva é mais tranquila de controlar, uma vez que, por estar relacionado não só a pessoas, como também a coisas, ela é domesticada. É o lobo que, por conviver tanto tempo com os humanos, tornou-se seu melhor amigo. Memória afetiva é o saudosismo que traz um riso jocoso, um suspiro soletrado e passa como um resfriado. Memória afetiva traz a você, no máximo, uns dois espirros, que cura com chá, ou com um comprimido qualquer. Passa rápido. Ninguém morre. Ninguém se fere. Não muda sua rotina e nem é considerado um problema.

 Já saudade emprestada é o caos. Ela é miragem. Você já havia enterrado aqueles sentimentos— tanto que daria para encher de areia o Saara. Mas saudade emprestada cria, até mesmo num deserto de emoções, um lago bonito e irreal no horizonte. (Um puta golpe baixo criar um lago no horizonte de um deserto!). Não há esperteza ou sanidade que resistam a essa sedução. Algo que empresta saudade nos faz um tremendo desfavor. Saudade emprestada deixa acamado, engana os anticorpos e vira autoimune. Você é agora refém de si mesmo. A saudade emprestada enlouquece a gente. Faz sofrer mais do que na época da cura. Saudade emprestada fere, corrói, mata. Às vezes, sara: hoje, amanhã ou nunca. Há gente morrendo de saudade emprestada até hoje. Pensam que não superaram, porque caíram na cilada de acreditar que a saudade é  mesmo sentida, e não emprestada. É incrível, mas ninguém faz nada.

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#DQ206

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A simplicidade de uma vida a dois|DQ 205

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O despertador toca, nós fingimos que não ouvimos. Ele insiste, e a gente se convence de que precisa encarar o mundo lá fora. A rotina normal de um casal se preparando pra começar uma segunda-feira começa, e, entre beijos de bom-dia com gosto de café e flúor, a gente se despede, e seguimos para nossa rotina. Daí, começam uma contagem regressiva e constantes mensagens de WhatsApp. É como se virtualmente buscássemos o compartilhar mútuo da vida a dois. Vamos narrando o dia um pro outro, até que enfim chega a hora do regresso. Pressa, trânsito e uma ansiedade digna de um adolescente em suas paixões pueris.

Não há nada de anormal, nenhuma data especial: é nossa vida bucólica e previsível. Vamos aos mesmos lugares e fazemos as mesmas coisas. Mas eu não trocaria por nada todo esse embalo de rede delicioso que é viver contigo. Constantemente, eu me perco vendo seu escovar de dentes, como se fosse algo que merecesse atenção minuciosa, O seu secar de cabelos e a forma como segura a xícara de café com as duas mãos, abraçando-as com tanta força, que parece que segura meu coração. E seu andar de bailarina na ponta do pé, ao sair do boxe do chuveiro? Esquece sempre a toalha e sai, como se estivesse num campo minado. Meu Deus, é lindo e hilário! As coisas corriqueiras aqui mereceriam meus versos mais sinceros, e eu poderia narrar nosso dia como se fosse um reality show da televisão. É uma bobagem, eu sei. Mas quem resiste há amores bobos e calmos, como dias de domingo? O mundo lá fora buzina tanto, e aqui, até seu lavar de louças parece tango. Há um amor escondido entre as tarefas monótonas do dia a dia, tipo quando eu faço um jantar insosso e, mesmo assim, você nem liga. Mas — não se engane —a leveza do dia não apaga o furor da noite. Lá sim, somos caos, mas com muito mais suor e sal. Afinal, cá entre nós é muito mais delicioso.

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É charme ou antipatia? |DQ 204

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Eis que surge uma batalha campal no terreno árido da conquista. De um lado, o bravo cavaleiro, puxando um cavalo puro sangue. Do outro lado, uma donzela esperando a chegada imponente de seu amado. Todos no reino esperam o encontro que selará a paz entre as duas famílias e deixarão mais abastadas os celeiros e lagares de ambos. Há um cortejo triunfante e um protocolo que, mesmo que manjado, geram uma expectativa. Parece coisa de novela de época ou final de filme medieval. Naquela época, as princesas tinham pouquíssimas oportunidades de fazer charmes. Afinal, o mundo precisava daquela união. E, pensando bem, o charme não era lá bem uma opção.

O tempo passa, e as coisas mudam. Inventam o tal namoro na corte, esses que não há contato (pelo menos, não às claras) até a consumação do fato. E o fato é o sexo. Mas endeusaram o sexo, e a virgindade virou um relicário imenso. Nesse futricado todo, nasceram filhos gêmeos e bastardos chamados charme e antipatia. Nem a mãe sabia quem era quem. Era uma confusão todo dia. Na hora de alimentar o charme, a mãe dava a comida pra antipatia. Mas os dois cresceram fortes e saudáveis, cada um à sua forma, cada um com sua sina.

Charme é recatado, inventor da moral e dos bons costumes. No futricado, provavelmente, herdou o gene da hipocrisia. Queria, no fundo, ser diferente, talvez como antipatia. Antipatia era desbocada, cheia de querer, mimada, como se fosse a predileta da mãe. E, no fundo, era isso que todo mundo via acontecer. Mas eles são da corte, e ninguém seria louco o suficiente de falar mal dos herdeiros do rei.

Mas em uma casa não habitam dois senhores. Como toda boa tragédia grega, o trono sucumbiu, e em dois grupos, o reinado se dividiu. De um lado, os charmosos, prendados e vistosos, vestindo a hipocrisia que lhes era peculiar. Do outro, o orgulho e a altivez, dignos dos nobres, coisa que não se entende se for um mero burguês. As duas castas existem até hoje, mas quem saberá distinguir se é charme ou antipatia, se a própria história conta que até mesmo a mãe se confundia? Dizem que é impossível de cara saber quem é quem, mas que o tempo revela logo a antipatia. Mas aí vai um conselho: ao ver qualquer um dos dois, se eu fosse você, fugiria.

#DQ204

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DE QUE VALE O PARAÍSO? | DQ 203

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A vida a dois pode ser um paraíso, mas acredite: abandonar o paraíso é a melhor forma de manter a relação viva. É humanamente impossível viver num paraíso pra sempre. Não estamos preparados — isso sem levar em conta que sequer merecemos isso. A vida no paraíso é perfeita e há, na plenitude da perfeição, a ausência de evolução. Evoluir pra quê? —ou melhor— pra onde? O paraíso é um pequeno oásis que avistamos em meio a alguns desertos que uma relação a dois nos obriga a passar.

O paraíso é paz perene e alegria constante. Imaginemos nós, perdendo a possibilidade de nos ofender e nos perdoar? Imagine só a falta que nos faria ter uma guerra por findar e corpos dispostos a devorar o outro em sinônimo de devoção e arrependimento? Imagine a calmaria que seria nossos beijos na madrugada, tipo esses de bom dia, que se dá sem tanto vigor. Imagine só perder o furor, a adrenalina, o suor, a serotonina, a mão que aperta às costas e toda a impulsividade que é peculiar aos mortais? Imagine perder horas a fio em busca de uma reconciliação perfeita? Imagine os filmes românticos sem o drama da separação? Imagine a gente num paraíso sem cair em tentação?

Que o paraíso seja um lugar de férias. Desses que a gente vai todo o ano pra descansar. Que o sol que mora lá seque nosso suor mortal e expurgue nossos piores pecados, mas que voltemos a errar e ser perdoados. Que possamos nos sujar na lama das discussões fúteis e brindar com copos descartáveis a futilidade nossa de cada dia. A MORTALIDADE É TANTO PASSAGEM QUANTO BENÇÃO. Sentiremos saudades dos tempos bélicos e de toda nossa humanidade aflorada num beijo visceral. Sentiremos saudades de sermos bichos, de sermos gente, de ser a gente.

O paraíso há de chegar, mas enquanto não chega… me ama errado mesmo, vem cá. 

#DQ203

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Loucuras de amor são subjetivas – DQ 197

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Outro dia, estava assistindo a um filme em que o casal fazia loucuras de amor, como prova de seu sentimento. Eles buscavam sempre a surpresa, e parecia uma competição de quem era mais louco. A loucura era uma espécie de termômetro do sentimento. Quanto mais louco, maior o sentimento. No filme, funciona bem. Os atores nos arrancam gargalhadas, e a gente torce sempre por uma loucura maior. Mas e na vida? Será que a loucura prova algo? Loucura é tudo aquilo que não é comum. Ser louco é tão subjetivo que mal dá pra saber quando a sanidade vira sandices.

Há até um filme que fala que: de médico e louco, todos temos um pouco. —Talvez baseado no yin e yang que equilibra o universo— A verdade é que loucura e sanidade parecem se confundir e se completar em cada casal. É tudo tão peculiar, tão particular que o que era “loucura com fulana” é completamente normal “com ciclana”. Assim, a gente vai oscilando entre altos e baixos, feios e bonitos, médicos e loucos. Deve ser por isso que podemos ir aos mesmos lugares, assistir aos mesmos filmes, dizer eu te amo da mesma forma e fazer as mesmas promessas de amores eternos. Podemos fazer tudo isso que ainda acharemos, pelo menos, naquele momento, que é único.

Dessa forma, a conclusão indene é que loucura não é loucura quando é compartilhada. É o acordo tácito que nos permite baixar as cercas e caminhar por terrenos antes desconhecidos. São as permissões concedidas arbitrariamente. Quem nunca se pegou perguntando, ou pior, sendo questionado— pra não dizer inquirido— por alguém que lhe coloca contra a parede, por você não fazer algo que já fez com um ex? “Mas com fulana, você fazia”.

Sei lá, por que fazia.

Não há lógica na loucura alheia.

#DQ197 #espalheamorporaí <3

 

 

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Quem é você na travessia? |DQ 193

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Você precisa atravessar para o outro lado, mas o gelo é fino demais. O que fazer? Nunca fui bom de Física, mas me lembro de quando o professor perguntou isso em sala, e um amigo disse: “eu passaria o mais lento possível, assim, qualquer estalo eu poderia voltar”. O professor replicou: “se o estalo acontecer exatamente na metade do caminho, fica difícil saber se é melhor voltar ou prosseguir. Concorda?”. Fez-se um silêncio na sala durante alguns minutos, até outro aluno vir com uma segunda teoria: “professor, devemos ver a coloração que o gelo tem e só assim atravessar”. – Ótima análise – disse ele – percebo que você gosta do Discovery Channel. Mas você sabe distinguir as cores? O aluno balançou a cabeça negativamente. Mais um aluno lançou uma teoria: “o segredo está na velocidade. Quando se está sobre uma superfície frágil, devemos atravessá-la o mais depressa possível”. Imediatamente, outro aluno replicou a teoria de seu colega: “atravessar deitado, arrastando-se, é a melhor opção. Quanto maior a área de contato, menor a pressão”.  Mais uma vez, o silêncio tomou conta da turma, e o professor passou a mão no queixo, como que preparando uma resposta que extrapolaria a Física. Parecia vir dali uma lição de vida: “as diferentes respostas compreendem mais que sua interpretação da Física. Todos nós temos nossas teorias sobre como enfrentar situações adversas”, ele afirmou. A primeira teoria diz respeito àqueles que ficarão tão atemorizados com a possibilidade de afundar que, ao primeiro estalo, correrão para a margem. Essas pessoas estão sempre inventando desculpas para se negar a travessia. Usam como subterfúgio o excesso de cuidado, porém nada mais é do que um eufemismo para covardia. São bons amantes, podem topar uma travessia e correr riscos controlados, mas, ao som do primeiro estalo, abandonarão a travessia e voltarão para seu estado inerte.

A segunda teoria pertence aos metódicos. Eles farão a boa e velha balança dos prós e contras ou, pelo menos, acham que estão fazendo isso. Essas pessoas têm a necessidade de calcular até mesmo o imponderável. Seus referenciais chegam a ser tão rasos quanto a espessura do gelo. Não sabem distinguir qual coloração é a ideal. Não sabem o que realmente precisa ser analisado e, geralmente, afundam em suas próprias convicções. De que vale a análise se não se entende os parâmetros? Ora desistem, ora afundam, dependendo mais da sorte do que da lógica, que tanto se gabam. A terceira teoria nada mais é do que o reflexo de um grupo de pessoas que assume riscos desnecessários. Em contraponto ao primeiro, que a qualquer estalo se volta para a margem, esses estão tão preocupados em concluir a missão que esquecem que o maior desafio não está na chegada, e sim no caminho. Adoram atalhos e costumam se perder do caminho.

Algumas vezes, culpa da velocidade. Outras, culpa dos próprios atalhos. Essas pessoas têm um instinto natural em superar desafios, são ótimas competidoras e se dão melhor com pessoas iguais. Estão sempre motivando seus parceiros a correr riscos, vivem de uma vez a adrenalina de toda uma travessia. Sempre precisam de mais, desconhecem o que é satisfação e precisam estar sempre diante de novas travessias. A quarta teoria é bem interessante, pois, ao contrário da segunda, sabe o que está analisando. Realmente, há uma lógica bem mais coerente, se aumentar a área de contato quando o objetivo é diminuir a pressão. Mais interessante ainda é que, apesar da variabilidade das teorias aqui levantadas, todas têm um ponto em comum: não param para pensar no problema. A segunda até tenta entender, mas não se relaciona com ele. Parte por não querer, parte por não entender. Por muitas vezes, adiamos soluções por estarmos muito fechados em nossas convicções. Afinal, entender o mundo alheio é um importante ponto de vista. A quarta teoria não só tenta entender, como, literalmente, ABRAÇA o problema. Sente o frio dele cortar a pele, mas, dessa forma, consegue aliviar a pressão.  E chegar ao outro lado da margem, agora, é apenas uma questão de tempo.

 

 

#DQ193

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A paz que mora no esquecimento | DQ 178

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Trilha: 

O amor reside nas memórias. Mas é um inquilino tão folgado que se hospeda, ou melhor, apossa-se de nossas lembranças, de forma que todos os momentos são tatuados na região do cérebro mais protegida —ou seria escondida? Daí, quando a gente ama, parece um gravador de histórias. E se lembra de cada coisa, que faria qualquer sociopata parecer alguém normal. Lembrar o primeiro beijo…Normal. Mas a gente fica tão viciado nisso, que se lembra da música que tocava no som do carro, no caminho de volta ao trabalho  ̶  Mas, peraí, vocês não se beijaram na praia?  ̶  Sim, mas se naquele dia você saiu do trabalho pra encontrá-la na praia e se lembra até da placa do carro, avalie o restante…

Assim, quando amamos alguém, passamos a grifar cada detalhe, ainda que insignificante, de modo que tudo é guardado compulsoriamente, eu diria. Acumuladores compulsivos, passamos a reter tudo que nos diz respeito, ainda que indiretamente, de quem amamos. Deve ser por isso que casais se separam com a sensação de que estão “cheios um do outro”, como se estar cheio de quem se ama (lê-se: amou) fosse um motivo para deixar de amar. Ou seria?

Lembra que eu falei de maximizar tudo e grifar cada detalhe? Pois bem, é bem aí que mora o perigo. Guardamos tudo, independente de filtro. Guardamos, inclusive, sem perceber, até as brigas e as cinzas de desavenças passadas. Somos traídos pela compulsão em guardar. Será que o exercício de guardar é uma autodefesa de não esquecer? Será que, no fundo, guardamos por causa da iminente perda? Entretanto, há uma paz pouco falada, chamada esquecimento. É essa a paz que nos permite encarar a rotina dos dias sem fadiga. Que nos manda de volta pra casa numa ansiedade, tal como o primeiro encontro. É a mesma paz que mora nos relacionamentos enrugados e cabelos brancos. Ela, que mais parece dádiva, é presente pra aqueles que se permitem a loucura bonita do viver sempre o último dia. Muita gente acha que amor é feito de lembranças, mas há, na habilidade de esquecer, um bom motivo pra, todos os dias, recomeçar.

 

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Ser frango ou porco? |DQ 176

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Trilha: 

O grande desafio de qualquer relacionamento é equilibrar a balança existente entre as expectativas e a realidade. Todo mundo traz uma bagagem emocional e, com ela, inúmeras expectativas. Com o passar do tempo, vamos vendo que, assim como nas viagens não programadas, em que levamos roupas desnecessárias, o mesmo acontece nos relacionamentos afetivos. Não há como se preparar para todas as diferentes situações que iremos enfrentar. E, pra falar a verdade, ainda bem que não. Algumas pessoas dizem que são mais felizes quando estão apaixonadas. Quando o amor chega, as coisas dão certa esfriada, ou melhor, fica menos intenso. É que o amor tem esse quê de calmaria. Seguindo a lógica dessas analogias, entre frango e porco ,quem você seria?

A pergunta parece meio bizarra, mas entender quem você é pode preveni-lo de frustrações doloridas e evitar algumas separações. Há um dito popular que diz: “Dois bicudos não se beijam”. A compreensão desse dito é de uma simplicidade e verdade absurdas. Essa história de que os opostos se atraem é pura balela da Física. Ninguém se interessa pelo oposto. No máximo, pelo disposto. Acredite. Um barco em que cada um reme para um lado só anda em círculos. Não quero usar nessa crônica o tom professoral, como se eu fosse um ás dos relacionamentos. Considere essas palavras um dialogo e fique com o que achar que vale a pena.

Os frangos são aqueles que se envolvem parcialmente em relacionamentos. Eles têm sempre um pé fora do rio e não ultrapassam a linha da cintura.  Tomam as decisões, sempre analisando o seu lado, o relacionamento não é uma prioridade. Não há unanimidade, porque o seu bem-estar está acima do bem em comum. Frangos só são perigosos quando não admitem ser o que são. Quando fingem estar de cabeça numa relação e permitem que o outro se jogue sem reservas e, depois, simplesmente, voltam para a margem e deixam seu parceiro à deriva. Daí, o que era pra ser o mergulho num mar de amor, passa a ser um naufrágio.

Os porcos são aqueles que se comprometem com a relação totalmente. Eles se jogam de cabeça, pulam no olho do furacão, jogam-se no mar revolto sem colete salva-vidas. Suas decisões estão baseadas no bem em comum. Abrem mão facilmente de suas vontades e têm no altruísmo uma filosofia de vida. São os que mais sofrem e os que são mais felizes. Conseguem extrair o máximo de cada relação. Porcos só são perigosos para si mesmos, eles preferem se machucar a machucar o outro. Por causa dessa constante abnegação são chamados de trouxas, mas o que ninguém vê é a coragem que eles têm para se reconstruir após as frustrações.

Ser frango, pra alguns, é uma escolha de vida, para outros, é algo nato. Da mesma forma, são os porcos. Ovos com bacon é um prato que reflete bem essa diferença entre frangos e porcos. Isso porque ambos estão juntos formando uma combinação deliciosa, porém desarmônica. Para ter bacon, o porco estava tão comprometido que deu a vida pela relação. Ele, literalmente, doou-se em prol do prato (lê-se: relacionamento). Já o frango, está até envolvido na relação, mas colocar ovos não é bem uma troca equivalente. Estar envolvido é muito diferente de estar comprometido. Na amálgama das relações afetivas, não há espaço para meio amor, meio termo, meias verdades. Amar é uma doação voluntária e contínua. Quem ama não se envolve, compromete-se tal como o porco. Portanto, se você for frango, não tenha vergonha disso. E se, por acaso, encontrar um porco por aí, não permita que ele se torne bacon, enquanto tudo que você pode oferecer são ovos. Seja de qual lado você esteja, só não engane a outra pessoa. Não seja a desesperança de alguém. E, muito menos, não permita que alguém seja a sua.

 

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Eu só preciso do Sol| DQ 173

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Tu não precisas ser tudo, mas precisas ser o Sol. O Sol não é tudo. O Sol é parte do todo. A praia não é boa, porque fez um solzão daqueles. A praia fica melhor, porque fez um solzão daqueles. O Sol, sozinho, é possibilidade. O sol, contigo, é certeza. Se Sol tu fores, só não ficas. O resto, eu faço enquanto Sol estiver comigo.
Eu peço-te que sejas como Sol, porque eu temo o frio e a penumbra. Falta-me coragem pra seguir sozinho, mas sobra-me vontade em ir contigo, mas, claro, “solmente” contigo. Dou-te um dia branco, e tu me trazes o Sol, para que não nos falte nada, e nosso amor seja como luz. Anda. Depressa. Corre pro outro hemisfério, de um lado a outro do mundo. Eu te seguiria pra nunca, em hipótese alguma, provar da noite e de toda aquela penumbra. Que nosso amor seja sempre luz e não tenha sombras— muito menos de dúvidas.
Quando precisares sumir, some devagar, pra que eu me acostume ao baixar do brilho e tua distância seja assim como envenenar-se: a conta- gotas. Que tu demores tanto em ir, a ponto de esquecer-se de ir. Fica longe, mas não vás completamente. Fica num ponto em que possas te ver, ainda que nublado ou entre nuvens. O crepúsculo é melhor que qualquer penumbra. Seja o Sol, e o resto, eu consigo. Seja o Sol, e o resto, é comigo. Seja o sol. Apenas, seja o Sol.

 

#DQ173

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