{"id":1197,"date":"2014-08-04T02:24:17","date_gmt":"2014-08-04T05:24:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogsoestado.com\/joaquimhaickel\/?p=1197"},"modified":"2014-08-04T02:24:17","modified_gmt":"2014-08-04T05:24:17","slug":"gostaria-de-ter-escrito-esse-texto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogsoestado.com\/joaquimhaickel\/2014\/08\/04\/gostaria-de-ter-escrito-esse-texto\/","title":{"rendered":"Gostaria de ter escrito esse texto."},"content":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es de um pai judeu sobre Gaza<\/p>\n<p><em>Gustavo Ioschpe<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/noticia\/internacional\/reflexoes-de-um-pai-judeu-sobre-gaza\">http:\/\/veja.abril.com.br\/noticia\/internacional\/reflexoes-de-um-pai-judeu-sobre-gaza<\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu vou todos os anos para Israel. \u00c9 um pa\u00eds incr\u00edvel. Tem a 25\u00aa mais alta renda per capita do mundo, com 36.000 d\u00f3lares ao ano, \u00e0 frente da m\u00e9dia da Uni\u00e3o Europeia e mais de tr\u00eas vezes superior \u00e0 brasileira (11.000 d\u00f3lares ao ano). J\u00e1 ganhou doze pr\u00eamios Nobel &#8211; tem mais pr\u00eamios Nobel por habitante do que a Alemanha, Estados Unidos e Fran\u00e7a. Israel tem excelentes museus, uma das melhores orquestras filarm\u00f4nicas do mundo, grandes cineastas (Amos Gitai, Dror Moreh, Ari Folman), escritores magistrais (Amos Oz, David Grossman, S.Y. Agnon, A.B. Yehoshua&#8230;), m\u00fasicos fant\u00e1sticos. Apesar do seu tamanho min\u00fasculo, \u00e9 o terceiro pa\u00eds com mais empresas listadas na Nasdaq, a bolsa de empresas de tecnologia, atr\u00e1s apenas dos EUA e da China. O primeiro servi\u00e7o de instant messaging, ICQ, \u00e9 de uma empresa israelense. O Waze tamb\u00e9m. A Teva, maior empresa do mundo de medicamentos gen\u00e9ricos, \u00e9 de l\u00e1. O pa\u00eds tem grandes restaurantes, um Parlamento vibrante, vida noturna intensa. Tel Aviv poderia ser colocada em qualquer pa\u00eds europeu e o turista n\u00e3o saberia a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Que tudo isso tenha sido gerado por um pa\u00eds de 20 mil quil\u00f4metros quadrados (um pouco menor que Sergipe) fundado em 1948 j\u00e1 seria surpreendente; tendo acontecido sob constantes ataques em guerras e atentados terroristas e acolhendo milh\u00f5es de imigrantes ao longo de d\u00e9cadas, \u00e9 algo que aqueles com pendores religiosos poderiam chamar de milagre. Cercado por todas essas opulentas vit\u00f3rias e conquistas, \u00e9 perdo\u00e1vel que os visitantes estrangeiros e os pr\u00f3prios israelenses n\u00e3o consigam fazer o esfor\u00e7o sobre-humano de notar que, mantido o atual caminho, o pa\u00eds ruma para o suic\u00eddio.<\/p>\n<p><strong>Conflito &#8212;\u00a0<\/strong>A atual campanha de Gaza apenas refor\u00e7a alguns pontos nos quais acredito h\u00e1 muitos anos. Primeiro: Israel n\u00e3o pode vencer o conflito com os palestinos militarmente sem que se torne um p\u00e1ria entre as na\u00e7\u00f5es. Porque a \u00fanica maneira militar de acabar com o terrorismo dos radicais do Hamas seria dizimar todo o povo palestino.\u00a0 Algo inconceb\u00edvel. Enquanto houver palestinos vivos, eles v\u00e3o querer ter um Estado \u2013 uma aspira\u00e7\u00e3o que o povo judeu, ap\u00e1trida por dois mil\u00eanios, certamente entende bem, e cuja legitimidade \u00e9 inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eu acompanho esse conflito com lupa h\u00e1 pelo menos vinte anos. J\u00e1 nem me recordo mais a quantidade de vezes que os comentaristas militares israelenses e seus apoiadores disseram que uma certa a\u00e7\u00e3o militar ou o assassinato de um l\u00edder do Hamas (Yehia Ayash, Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi, Salah Shahade, Ahmed Jaabari) daria o \u201cgolpe definitivo\u201d.\u00a0 Mas o enredo \u00e9 sempre o mesmo: centenas ou milhares de palestinos inocentes s\u00e3o assassinados, casas s\u00e3o destru\u00eddas, m\u00edsseis explodidos, soldados e civis israelenses morrem e, assim que as opera\u00e7\u00f5es acabam, a prepara\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3ximo conflito come\u00e7a. Com um saldo sempre negativo para Israel. A opera\u00e7\u00e3o Chumbo Fundido, de 2008-09, matou entre 1.166 e 1.417 palestinos e treze israelenses.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o atual, no momento em que escrevo essas linhas, j\u00e1 custou a vida de 1.492 palestinos e 66 israelenses, al\u00e9m de um soldado sequestrado. A imagem internacional do pa\u00eds se deteriorou sensivelmente de l\u00e1 pra c\u00e1. Chama a aten\u00e7\u00e3o que os defensores dessa opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o percebam a sua inutilidade: Israel est\u00e1 usando todo o aparato b\u00e9lico de que o s\u00e9culo XXI disp\u00f5e para&#8230;enterrar t\u00faneis (?!). T\u00faneis que podem ser feitos com p\u00e1s e um pouco de cimento e que certamente come\u00e7ar\u00e3o a ser cavados novamente assim que o conflito terminar. \u00c9 \u00f3bvio que Israel precisa se defender dos foguetes e n\u00e3o permitir t\u00faneis adentrando seu territ\u00f3rio, como \u00e9 \u00f3bvio n\u00e3o ser poss\u00edvel elimin\u00e1-los militarmente.<\/p>\n<p><strong>Guerrilha &#8211;<\/strong>&#8211;\u00a0Muito tem se escrito, nos \u00faltimos dias, sobre a indec\u00eancia do comportamento do Hamas, que estaria vitimando seus concidad\u00e3os de prop\u00f3sito para danificar a imagem de Israel. Do outro lado, h\u00e1 aqueles que acusam Israel de \u201cgenoc\u00eddio\u201d e imaginam que o objetivo da a\u00e7\u00e3o \u00e9 matar o maior n\u00famero poss\u00edvel de palestinos. N\u00e3o pretendo me ater a teorias e gostaria de ficar no terreno do que considero obviedades. A primeira \u00e9 que, se os palestinos n\u00e3o podem ter Ex\u00e9rcito e n\u00e3o conseguem obter concess\u00f5es pela via da negocia\u00e7\u00e3o, sua arma ser\u00e1 o terrorismo, por n\u00e3o terem outra. A segunda \u00e9 que terroristas s\u00e3o o que de pior a humanidade produz, e os militantes do Hamas, e sua ideologia, s\u00e3o asquerosos, racistas, desumanos, torpes. A terceira, derivada das duas acima, \u00e9 que um Ex\u00e9rcito nacional n\u00e3o pode lutar contra e vencer uma mil\u00edcia terrorista sem que adote suas t\u00e1ticas, coisa que um Ex\u00e9rcito nacional n\u00e3o pode fazer. \u00c9 por isso que os americanos n\u00e3o ganharam no Vietn\u00e3 nem os franceses na Arg\u00e9lia, e \u00e9 por isso que o ex\u00e9rcito israelense n\u00e3o ganhar\u00e1 em Gaza, se por \u201cvit\u00f3ria\u201d entendermos uma a\u00e7\u00e3o militar que gere uma paz duradoura.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo essas pessoas que ficam apontando as atrocidades do Hamas. Ningu\u00e9m, em s\u00e3 consci\u00eancia, acha que essa \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o digna e honrada. O que essas pessoas esperam? Que ao denunciar as vilezas do Hamas seus militantes comecem a guerrear de acordo com as Conven\u00e7\u00f5es de Genebra?! N\u00e3o vai acontecer. Que a popula\u00e7\u00e3o de Gaza se insurja contra o Hamas e entenda as raz\u00f5es israelenses para matar centenas de mulheres e crian\u00e7as, e aceitem o bloqueio mar\u00edtimo, terrestre e a\u00e9reo que Israel imp\u00f5e a Gaza de maneira resignada? N\u00e3o vai acontecer. Que a comunidade internacional aceite a morte de centenas de inocentes porque os militantes do Hamas est\u00e3o jogando foguetes contra cidades israelenses? N\u00e3o vai acontecer.<\/p>\n<p>O segundo fato, portanto, que essa opera\u00e7\u00e3o deixa claro \u00e9 que o problema israelo-palestino precisa ser resolvido na mesa de negocia\u00e7\u00e3o. Essa, ali\u00e1s, \u00e9 a \u00fanica forma de derrotar o Hamas: mostrar aos palestinos que o terrorismo n\u00e3o leva a nada e que o caminho dos moderados traz resultados. Aqui os defensores de Israel repetem mais uma frase sem sentido, que vem dos partidos da direita israelense: a de que n\u00e3o h\u00e1 parceiro para a paz, de que os palestinos n\u00e3o reconhecem a exist\u00eancia de Israel, de que todos os \u00e1rabes \u2013 ou todo o mundo, dependendo do n\u00edvel de paranoia do interlocutor \u2013 quer jogar os judeus ao mar. Assim sendo, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, al\u00e9m daquilo que os militares israelenses chamam de \u201caparar a grama\u201d: a\u00e7\u00f5es militares peri\u00f3dicas que causam bastante morte e destrui\u00e7\u00e3o e retardam em alguns anos o fortalecimento das mil\u00edcias palestinas. (Esse linguajar desumano, inaceit\u00e1vel, j\u00e1 \u00e9 um ind\u00edcio de uma brutaliza\u00e7\u00e3o da sociedade israelense e de grande parte da comunidade judaica, que comento a seguir).<\/p>\n<p>Pra ser sincero, acho essa vis\u00e3o equivocada. Ela emana do pecado original do sionismo: a ideia, difundida nos prim\u00f3rdios do movimento, de que a cria\u00e7\u00e3o do Estado judeu na Palestina hist\u00f3rica era dar \u201cum povo sem terra para uma terra sem povo\u201d. Ocorre que a segunda metade da frase \u00e9 falsa: havia milhares de palestinos morando, h\u00e1 s\u00e9culos, nas terras sagradas do juda\u00edsmo. Eu entendo perfeitamente que um povo perseguido por mil\u00eanios e tendo recentemente sa\u00eddo do Holocausto n\u00e3o tenha podido demonstrar empatia para com o sofrimento dos palestinos naquela \u00e9poca &#8211; mas n\u00e3o hoje. Tamb\u00e9m entendo que os palestinos n\u00e3o tenham aceitado a presen\u00e7a judaica em terras que percebiam como suas. Como bem disse David Ben-Gurion, primeiro premi\u00ea israelense: \u201cSe eu fosse um l\u00edder \u00e1rabe, eu jamais assinaria um acordo de paz com Israel. \u00c9 normal, n\u00f3s tomamos o pa\u00eds deles. \u00c9 verdade que Deus prometeu-o a n\u00f3s, mas o que eles t\u00eam a ver com isso? Nosso Deus n\u00e3o \u00e9 o deles. O \u00fanico que eles veem \u00e9: n\u00f3s viemos aqui e roubamos o seu pa\u00eds. Por que eles deveriam aceitar isso?\u201d<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria &#8212;\u00a0<\/strong>Os palestinos e os vizinhos \u00e1rabes cometeram um erro hist\u00f3rico ao n\u00e3o aceitar o plano de partilha da ONU em 1947 e declarar guerra a Israel em 1948. Pagaram por esse erro com uma derrota fragorosa, ex\u00edlio e morte, naquilo que chamam de \u201cNaqba\u201d (\u201cCat\u00e1strofe\u201d), e continuam pagando at\u00e9 hoje. Em 1947 eles lutavam por 100% da terra. Agora lutam por apenas 22%, a \u00e1rea correspondente \u00e0 Cisjord\u00e2nia e Faixa de Gaza. \u00a0A ideia de que n\u00e3o h\u00e1 parceiro do outro lado deriva da ideia de que os palestinos rejeitaram ofertas \u201cgenerosas\u201d de Israel, que previam a devolu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 95% dos territ\u00f3rios ocupados. Mas mesmo para os palestinos moderados, qualquer coisa que n\u00e3o seja a totalidade dos 22% que lhes restaram \u00e9 um insulto. N\u00e3o haver\u00e1 paz enquanto todos os territ\u00f3rios n\u00e3o forem devolvidos.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias propostas na mesa que chegam muito perto do fim do conflito, como o que foi negociado em Taba em 2001, a Iniciativa de Genebra de 2003, a proposta da Liga \u00c1rabe de 2002. Creio que um governo israelense com respaldo popular para chegar a um acordo conseguiria conclu\u00ed-lo em poucos meses de negocia\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o que parece mais espinhosa \u00e9 provavelmente o direito de retorno dos refugiados palestinos, mas ao contr\u00e1rio do que os radicais israelenses espalham, 90% dentre eles n\u00e3o querem voltar para o Estado judeu, e sim para um eventual Estado palestino. Se voc\u00ea tem d\u00favida sobre a confiabilidade da informa\u00e7\u00e3o, vale dizer que ela foi auferida por um pesquisador palestino que, ao divulg\u00e1-la, teve seu escrit\u00f3rio depredado por seus conterr\u00e2neos radicais (esse dado, assim como todos os outros mencionados ao longo deste artigo, est\u00e3o dispon\u00edveis em twitter.com\/gioschpe).<\/p>\n<p><strong>Cen\u00e1rio &#8212;\u00a0<\/strong>Creio que a maior oposi\u00e7\u00e3o a um acordo justo e duradouro venha do atual governo israelense, que acredita na manuten\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>status quo<\/em>, talvez desejando que em algum momento os palestinos desistam de suas aspira\u00e7\u00f5es ou que alguma mudan\u00e7a radical aconte\u00e7a no Oriente M\u00e9dio (muitos ainda imaginam que algum dia ser\u00e1 poss\u00edvel fazer um Estado palestino na Jord\u00e2nia&#8230;). Creio que quem analisa os dados friamente, e n\u00e3o atrav\u00e9s do prisma do pensamento m\u00e1gico, haver\u00e1 de concluir que a passagem do tempo \u00e9 altamente contr\u00e1ria ao interesse israelense. Por quatro motivos: demogr\u00e1fico, geopol\u00edtico, sociol\u00f3gico e de rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Demogr\u00e1fico: em Israel, hoje, aproximadamente 75% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 judia e 21% \u00e9 \u00e1rabe. Dentro da popula\u00e7\u00e3o judia, os ortodoxos representam 10% do total. Mas, devido ao diferencial de fertilidade \u2013 7 filhos por mulher ortodoxa versus 2,3 para as judias n\u00e3o-ortodoxas \u2013 hoje os religiosos s\u00e3o 20% da popula\u00e7\u00e3o judia com menos de 20 anos. Em 2050, a proje\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica \u00e9 de que os religiosos representem 30% da popula\u00e7\u00e3o judia. Os \u00e1rabes israelenses tamb\u00e9m t\u00eam fertilidade mais alta do que os judeus n\u00e3o-religiosos: 3,5 filhos por mulher, versus 3,0 para a popula\u00e7\u00e3o judia como um todo. Ou seja, a propor\u00e7\u00e3o de \u00e1rabes e ortodoxos aumenta e a de judeus n\u00e3o-religiosos diminui. Se j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil chegar a um consenso hoje, imagine quando talvez a maioria da popula\u00e7\u00e3o for composta de judeus ortodoxos e \u00e1rabes. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o palestina nos territ\u00f3rios ocupados. Se a incluirmos, hoje temos aproximadamente 12 milh\u00f5es de pessoas vivendo entre o rio Jord\u00e3o e o Mediterr\u00e2neo. 52% desses s\u00e3o judeus e 45% \u00e1rabes. Segundo o dem\u00f3grafo Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica de Jerusal\u00e9m, essa propor\u00e7\u00e3o se inverte em poucos anos; em 2030 os palestinos representar\u00e3o 56% da popula\u00e7\u00e3o. Imagine se a Autoridade Palestina se dissolver e Israel voltar a ter controle legal sobre toda essa popula\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Geopol\u00edtico: hoje Israel consegue manter o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0porque os Estados Unidos oferecem apoio diplom\u00e1tico \u2013 vetando san\u00e7\u00f5es no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, por exemplo \u2013 e militar. Com o fim da Guerra Fria, caiu a raz\u00e3o estrat\u00e9gica para o apoio americano. Com a descoberta do g\u00e1s de xisto americano e a reduzida depend\u00eancia deste pa\u00eds do petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio, a raz\u00e3o econ\u00f4mica tamb\u00e9m se enfraqueceu. Resta a motiva\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica interna, com a press\u00e3o da comunidade judaica e, em menor escala, evang\u00e9lica em favor de Israel. Mas, como mostram cr\u00edticos como Peter Beinart, o apoio da juventude judaica americana a Israel \u00e9 menor do que a da gera\u00e7\u00e3o de seus pais. Mas mesmo que, apesar de todos esses fatores, o apoio americano continue firme e forte (o que me parece improv\u00e1vel), \u00e9 dif\u00edcil que ele seja suficiente em um mundo que caminha para a bipolaridade, com a China ocupando o posto de maior economia mundial. A China n\u00e3o tem, nem nunca teve, uma comunidade judaica expressiva. N\u00e3o \u00e9, nem nunca foi, uma democracia. Com 69 carros por 1.000 habitantes (vs. 786 nos EUA)\u00a0e poucas reservas de petr\u00f3leo, \u00e9 dif\u00edcil de se imaginar que a China ir\u00e1 se alinhar com Israel e n\u00e3o os pa\u00edses \u00e1rabes. No pr\u00f3prio Oriente M\u00e9dio, a Primavera \u00c1rabe foi mais um sinal de alerta. Quando as popula\u00e7\u00f5es \u00e1rabes depuseram seus ditadores militares, em alguns casos escolheram movimentos radicais isl\u00e2micos em seus lugares. Quando o Egito foi governado pela Irmandade Mu\u00e7ulmana, houve grande cumplicidade entre o presidente Mursi e o Hamas, incluindo o tr\u00e1fico de armas. Se a situa\u00e7\u00e3o de hoje \u00e9 dif\u00edcil, o que acontecer\u00e1 se o Egito voltar a ser governado pela Irmandade, o L\u00edbano pelo Hezbollah, a S\u00edria e o Iraque pelo Isis?<\/p>\n<p>Sociol\u00f3gico: a ocupa\u00e7\u00e3o militar de outro povo corr\u00f3i uma na\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. \u00c9 dif\u00edcil se imaginar que um jovem israelense passe tr\u00eas anos (o per\u00edodo do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio para os judeus israelenses; mulheres servem dois anos) suprimindo a liberdade alheia e depois transforme-se em um democrata exemplar. O fil\u00f3sofo israelense Yeshayahu Leibowitz escreveu essas palavras prof\u00e9ticas em um ensaio de 1968, enquanto a popula\u00e7\u00e3o israelense ainda estava embevecida com as conquistas territoriais do ano anterior: \u201cUm Estado dominando uma popula\u00e7\u00e3o hostil de [\u00e0 \u00e9poca] 1,5 a 2 milh\u00f5es de estrangeiros necessariamente se tornar\u00e1 um Estado policialesco, com todas as consequ\u00eancias que isso traz para a educa\u00e7\u00e3o, liberdade de express\u00e3o e institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. A degenera\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica de todo regime colonial tamb\u00e9m prevalecer\u00e1 no Estado de Israel.\u201d Assim est\u00e1 sendo. Atualmente, manifestantes contr\u00e1rios \u00e0 campanha de Gaza t\u00eam sido espancados por militantes de direita e at\u00e9 presos pela pol\u00edcia. Os apoiadores da a\u00e7\u00e3o militar v\u00e3o \u00e0s ruas cantando, abertamente, \u201cMorte aos \u00e1rabes!\u201d e \u201cMorte aos esquerdistas!\u201d. N\u00e3o \u00e9 preciso um PhD em Ci\u00eancia Pol\u00edtica para saber que esse \u00f3dio e sectarismo s\u00e3o sinais de uma profunda fal\u00eancia democr\u00e1tica, normalmente vista apenas em per\u00edodos pr\u00e9-convuls\u00e3o civil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Heitor Feitosa\/VEJA.com\/VEJA.com<\/p>\n<p>O economista Gustavo Ioschpe<\/p>\n<p><strong>Comunidade internacional &#8212;<\/strong>\u00a0Por \u00faltimo, e talvez mais importante, Israel est\u00e1 virando um p\u00e1ria aos olhos da comunidade internacional. \u00c9 o \u00fanico pa\u00eds que domina outra popula\u00e7\u00e3o, e \u00e9 a \u00fanica democracia ocidental que desrespeita leis internacionais, imp\u00f5e bloqueios a outro povo, causando enormes dificuldades e sofrimento desde 1967. Muitos judeus veem nesses ataques da opini\u00e3o internacional o espectro do antissemitismo e at\u00e9 do nazismo, como se criticar o governo israelense fosse sempre uma vers\u00e3o sublimada de \u00f3dio antissemita. Discordo, mas n\u00e3o vou entrar nessa discuss\u00e3o. Atenho-me ao fato: a percep\u00e7\u00e3o de Israel na comunidade internacional est\u00e1 em queda livre desde a segunda intifada. J\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios pa\u00edses, ONGs, universidades e igrejas que boicotam o pa\u00eds e incentivam seus membros a n\u00e3o comprar produtos ou a\u00e7\u00f5es de companhias israelenses.<\/p>\n<p>Para um pa\u00eds min\u00fasculo em estado de conflagra\u00e7\u00e3o com quase todos os seus vizinhos, \u00e9 imposs\u00edvel para Israel manter o seu n\u00edvel de desenvolvimento caso as san\u00e7\u00f5es da comunidade internacional evoluam para um boicote do estilo imposto \u00e0 \u00c1frica do Sul da \u00e9poca do apartheid. Pode ser que os esfor\u00e7os propagand\u00edsticos do governo israelense surtam efeito, mas eu duvido fortemente que \u2013 por mais que o Hamas seja odiado \u2013 a comunidade internacional tolere a morte e as priva\u00e7\u00f5es que as a\u00e7\u00f5es israelenses v\u00eam impondo aos civis palestinos.<\/p>\n<p><strong>Israel &#8212;<\/strong>\u00a0Quero concluir com uma experi\u00eancia muito pessoal. Nessas f\u00e9rias de julho, minha mulher, israelense, foi com nossos filhos visitar sua fam\u00edlia, perto de Tel Aviv. Eu n\u00e3o pude ir, por motivos de trabalho. Eles chegaram l\u00e1 no segundo dia da opera\u00e7\u00e3o em Gaza e ficaram por duas semanas. Como os que me leem devem saber, considero-me um racionalista, humanista e pacifista. Desde a adolesc\u00eancia. Pois quando minha mulher me contou que teve de ir, junto com os nossos filhos, para um abrigo antia\u00e9reo para se proteger dos foguetes do Hamas, durante algumas horas eu pensei com o f\u00edgado, e tive vontade de que o ex\u00e9rcito israelense despejasse sobre Gaza todo tipo de armamentos, nas quantidades que fossem necess\u00e1rias, para que os foguetes parassem de cair e eu pudesse ter os meus de volta e em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Comecei a sair desse estupor ao ver o indescrit\u00edvel sofrimento de pais e familiares que tiveram seus filhos destro\u00e7ados pelos m\u00edsseis que eu desejara que ca\u00edssem sobre eles. Antes de ser um judeu sionista sou um ser humano, e por ser humano e pai consigo sentir a dor que acomete um pai que precisa viver como realidade aquilo que, como um mero temor, j\u00e1 me causara tamanha ang\u00fastia. Se eu tive esse acesso de bile mesmo morando a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia e tendo familiares no conflito por duas semanas, posso imaginar como se sentem os israelenses que passam por isso, constantemente, h\u00e1 anos. E, ainda mais, o que passa pela cabe\u00e7a dos habitantes de Gaza, cujo sofrimento \u00e9 infinitamente maior. Consolidou-se em mim a cren\u00e7a de que esses dois povos, sozinhos, n\u00e3o conseguir\u00e3o superar seus \u00f3dios e medos e chegar a um acordo de paz justo e duradouro.<\/p>\n<p><strong>Caminhos &#8211;<\/strong>&#8211; Hoje, acredito que Israel tem apenas tr\u00eas alternativas. A primeira \u00e9 seguir o caminho atual, e confiar em sua supremacia militar e na alian\u00e7a com o poder hegem\u00f4nico. Esse \u00e9 um caminho que, no curto prazo, vai levar apenas a mais conflito, mais mortes, mais isolamento externo e rupturas internas. No longo prazo, tende a levar a um segundo Holocausto. Quem conhece Hist\u00f3ria sabe que o atual atraso econ\u00f4mico e militar do mundo \u00e1rabe \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. Enquanto as pot\u00eancias ocidentais de hoje chafurdavam nas trevas da Idade M\u00e9dia, povos \u00e1rabes representavam a vanguarda do conhecimento e da riqueza. Voltemos mais alguns mil\u00eanios no tempo e veremos os judeus como escravos do fara\u00f3 eg\u00edpcio. Em algum momento esse p\u00eandulo h\u00e1 de fazer o movimento inverso; se a vida dos israelenses depende apenas da supremacia tecnol\u00f3gica, o fim desta trar\u00e1 a extin\u00e7\u00e3o daquela.<\/p>\n<p>Os outros dois caminhos envolvem um acordo de paz sendo imposto pela comunidade internacional. Minha \u00fanica d\u00favida \u00e9 se essa imposi\u00e7\u00e3o vir\u00e1 dos amigos de Israel ou de seus inimigos. Se vier dos inimigos significar\u00e1 que o pa\u00eds foi subjugado pela press\u00e3o\/boicote internacional. Para chegar a esse ponto, significar\u00e1 que Israel perdeu todo seu apoio internacional. O conflito interno ser\u00e1 tremendo, e os termos de um acordo com os palestinos e demais pa\u00edses \u00e1rabes ser\u00e3o francamente desfavor\u00e1veis aos israelenses, talvez exigindo repara\u00e7\u00f5es financeiras exorbitantes, perda de territ\u00f3rio, incorpora\u00e7\u00e3o de refugiados. Talvez nesse cen\u00e1rio o pa\u00eds sobreviva, mas duvido que como uma democracia plena, com pujan\u00e7a econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O terceiro cen\u00e1rio \u00e9 aquele em que um acordo de paz \u00e9 estimulado pelos amigos de Israel, notadamente os Estados Unidos e a comunidade judaica internacional. Esse seria um acordo em uma posi\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, que permitiria um entendimento justo e o fim das hostilidades, e liberaria Israel para continuar seu caminho de desenvolvimento econ\u00f4mico e social. Entendo que muitos judeus e sionistas n\u00e3o-judeus acham que o melhor que podem fazer por Israel \u00e9 dar apoio incondicional a qualquer a\u00e7\u00e3o de qualquer governo. Respeito essa opini\u00e3o, apesar de saber que aqueles que a professam provavelmente n\u00e3o respeitam a minha. Mas gostaria de, respeitosamente, discordar. Pessoas tomam p\u00e9ssimas decis\u00f5es sobre suas vidas, e pa\u00edses, mesmo democr\u00e1ticos, tamb\u00e9m escolhem l\u00edderes errados e pol\u00edticas ineptas. Algumas pessoas acham que os verdadeiros amigos apoiam qualquer sandice e s\u00e3o s\u00f3 elogios. J\u00e1 eu acredito que os verdadeiros amigos s\u00e3o aqueles que criticam quando acreditam que a cr\u00edtica \u00e9 necess\u00e1ria, que falam as verdades duras. Hoje eu acredito que aqueles que apoiam uma pol\u00edtica cujo resultado \u00e9 a in\u00e9rcia diplom\u00e1tica e o crescimento exponencial de cad\u00e1veres de inocentes s\u00e3o os que, inadvertidamente, enterram a paz e levam Israel e os palestinos a um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>Para terminar, preciso confessar que n\u00e3o tenho certezas. Talvez j\u00e1 tenhamos atravessado o Rubic\u00e3o. Talvez os \u00f3dios j\u00e1 sejam insuper\u00e1veis. O que significa dizer que talvez, mesmo depois de conclu\u00eddo um acordo de paz justo, os foguetes continuem a cair em Israel. Talvez esse conflito seja sobre mais do que terra, como quer a direita israelense. Pode ser. Mas prefiro tentar o caminho do entendimento e da justi\u00e7a, que tem alguma chance de fracasso, do que persistir no caminho atual, cuja chance de sucesso \u00e9 zero. E prefiro que os foguetes venham agora, quando Israel e o povo judeu t\u00eam uma capacidade de rea\u00e7\u00e3o que nunca tiveram em toda a sua milenar hist\u00f3ria, do que em um momento em que j\u00e1 n\u00e3o nos restar\u00e1 mais nenhum cartucho, nem nenhum aliado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es de um pai judeu sobre Gaza Gustavo Ioschpe http:\/\/veja.abril.com.br\/noticia\/internacional\/reflexoes-de-um-pai-judeu-sobre-gaza \u00a0 Eu vou todos os anos para Israel. \u00c9 um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1197","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.6 - 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