O medo e o sapo

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A primeira coisa que existiu no mundo foi o medo.

Na expressão dos romanos Petronius, autor do célebre Satyricon, o primeiro romance, e Statius, “dolce poeta”, segundo Dante, “primus in orbe deos fecit timor” (no mundo o medo criou primeiro os deuses). Dizia Bergson, o grande filósofo, comentando esta frase, que “a religião vem menos do medo do que de uma reação contra o medo”.

O medo de que quero falar não é o filosófico, mas o real, principalmente na política maranhense, onde ele atualmente cresceu e muito, conforme afirmou em sua vigorosa entrevista a O Estado do Maranhão e à Rádio Mirante o Senador Roberto Rocha, candidato a Governador.

Além do interventor nos anos 30 do século passado, Martins de Almeida, o chamado Bala na Agulha, quando se formou um bando de capangas, conhecido de Turma do Papai Noel, que fez atrocidades, como invadir a Associação Comercial e dissolver uma reunião a chibata, quero lembrar João Lisboa, que no Jornal de Timon, ao tratar de Partidos e Eleições no Maranhão, já relatava a promiscuidade entre o medo e a política. Era Donana Jansen, tatibitate, dizendo “cute o que cutá meu filho Manezinho tem que ser deputá” — e haja cacete nas seções eleitorais, e deportações, como a de Candido Mendes de Almeida, embarcado à força num patacho para fora de sua terra. Há menos tempo, Neiva Moreira e Erasmo Dias apanharam na praça João Lisboa.

Se fazia o diabo na política do Maranhão, não só a agressão física, mas a coação moral, a compra de votos, e as demissões em massa.

Os comerciantes eram proibidos de embarcar mercadorias para transporte na Estrada de Ferro de quem não desse o apoio “certo”, como aconteceu com a grande firma Lages & Cia., que faliu vítima desse método. Hoje existe a quebra dos pequenos comerciantes, com os impostos que não podem pagar, além dos carros e motos apreendidos.

Eu, quando fui Governador, acabei com isso. Foi um período de paz duradoura que sobreviveu até recentemente. Não demiti ninguém, acabei com a nomeação e perseguição política do cobrador de imposto. Meu temperamento sereno, paciente, aberto ao diálogo, funcionou.

Agora, o medo está aí. É medo de bandido, de bala perdida, de perder o emprego, de sofrer perseguição, da violência que campeia solta. Só num dia tivemos cinco homicídios na cidade.
Quando eu era menino tinha um medo danado de alma, da Manguda, uma visagem que aparecia nas noites de lua, e de sapo.

Hoje o mundo político está sem medo de alma nem de sapo. Mas haja medo de perseguição, de perder asfalto, de receber desaforos e de ter as emendas orçamentárias para obras em seus municípios suspensas.

Mas eu continuo com medo de mau-olhado e de olhos excomungados. Inveja e ódio.
O Maranhão precisa de grandeza de espírito e de paz e segurança, de ser como sempre foi, uma família sem ódio e sem medo de perseguição.

Coluna do Sarney

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Roseana assegura fim do ‘medo e perseguição’

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“Quero voltar a governar porque amo o Maranhão e os maranhenses, e não posso deixar meu povo refém do medo e da perseguição”, afirmou a candidata a governadora Roseana Sarney na noite de sábado (19) no Anjo da Guarda, para um público que a recebeu com muito carinho e empolgação. Ao lado da ex-prefeita de São Luís, Conceição Andrade, e do líder comunitário Sebastião Santos, Roseana arrancou aplausos dos moradores ao dizer que, se eleita, retomará os programas sociais e de desenvolvimento econômico do estado, sem massacrar o povo com o aumento de impostos e o desemprego.

“Nós não vamos perseguir os pobres e trabalhadores, tomando carros e motos de pessoas que já estão sofrendo com o desemprego. Ao contrário, retomaremos os programas sociais do nosso governo, como o Viva Água e o Viva Luz, que tanto ajudaram as famílias mais carentes. E apoiar os micro e pequenos empresários, para que possam desenvolver seus negócios e dar oportunidade de emprego aos jovens”, afirmou Roseana, sob aplausos dos moradores do Anjo da Guarda.

Ela lembrou dos benefícios que levou para a área Itaqui Bacanga, como o asfaltamento de ruas e a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), e garantiu que fará muito mais por aquela comunidade. “O Maranhão tem hoje mais famílias na pobreza, mais pessoas desempregadas, mais violência e medo. Com o apoio de vocês, serei governadora novamente, para o nosso estado voltar a se desenvolver e o maranhense voltar a sorrir”, finalizou ela.

Foto: Divulgação

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O medo como intimidação

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Coluna do Sarney publicada em O Estado

Coluna do Sarney publicada em O Estado

Coluna do Sarney

Já citei muitas vezes o aforismo greco-romano de que “primeiro no mundo o medo criou Deus”. O medo é um sentimento que nos une aos animais e está relacionado com o conhecido e o desconhecido. Sabemos o que podemos sofrer e imaginamos o que podemos sofrer.

Com a vida social, o homem foi se libertando do medo. O Leviatã nos explica que o medo da morte leva o homem a buscar a paz que só a sociedade pode garantir. Mas à paz se opõe o desejo de poder. A busca de poder desequilibra a harmonia social e reintroduz o medo.

Se no começo o medo era simples – de animais, de fenômenos naturais ou do vizinho -, hoje, sem abandonar essas sensações atávicas, inclusive a visão do lobisomem e do bicho papão, ele tornou-se muito complexo. Sabemos que existe um arsenal nuclear que pode destruir, várias vezes, a vida sobre a terra; ou podemos ter o mesmo resultado se não formos capazes de reverter a marcha do aquecimento global – que Deus dê ao Trump o bom senso que ele não parece ter! E conhecemos as guerras, as mais midiáticas, como as da Síria e do Iraque, ou as mais escondidas, como a do Sudão do Sul, que tomam a forma do genocídio. E a fome, que tanta gente passa, e é outra maneira de morrer.

Quem não tem medo da violência, seja a das armas, que mantém o Brasil numa triste liderança mundial, e que chegou ao Maranhão com a sua brutalidade, seja a dos acidentes de trânsito, com a legião de vítimas aumentando agora pelo uso do smartphone? Ou de perder o emprego, de não poder ganhar o pão nosso de cada dia? Ou de ficar doente, e não ter socorro, tal é o estado de calamidade em que está a rede de saúde? E a ideia de aprender, da educação melhorar a vida das gentes, que vai por água abaixo?

Michel de Montaigne, que viveu em época de guerra de religiões, quando bastava uma suspeita para um massacre, escreveu um dos capítulos de seus Ensaios sobre o medo. Ele lembra que “aqueles que têm um medo forte de perder seus bens, de ser exilados, de ser subjugados, vivem em completa agonia, sem conseguir beber, comer e repousar, enquanto os pobres, os banidos, os criados vivem frequentemente em completa alegria. E tantas pessoas que, na impaciência causada pelo medo, se enforcaram, afogaram e precipitaram, nos ensinando que o medo é ainda mais insuportável que a morte.” E tem uma frase definitiva: “O de que tenho mais medo é do medo.”

É que o medo é escorregadio, ele se insinua nos espíritos e coloca as pessoas fora de si, capazes de fazer o que não fariam – contra o próximo e contra si mesmo. Voltando ao que Hobbes colocou no Leviatã, pior que o medo é o uso do medo como instrumento do poder.

No Maranhão hoje o medo é esse instrumento, utilizado politicamente. Todos têm medo: os comerciantes têm medo das fiscalizações dirigidas; os políticos têm medo das comissões de inquérito, semelhantes às da Inquisição, que levavam às fogueiras; os funcionários têm medo das ameaças e das demissões; cada cidadão tem medo de uma forma de perseguição. Uma denúncia aqui, uma demissão acolá, uma ameaça mais além, chantagens, pressões, insinuações, calúnias, difamações, falsidades… Tudo isso rasga a coesão social, rompe a vida das famílias, mina o futuro.

A ideologia semeia os dogmas – e ai daqueles que não acreditem. Hoje ela desapareceu, tornou-se retórica antiquada; só fez mal à humanidade. Nada fez mais medo, nem a guerra nuclear, que o regime encarnado em Stalin, que matou mais de 30 milhões de pessoas. Será que alguém pensa que o comunismo pode renascer no Maranhão?

Que saudade do medo simples de minha infância, quando – é minha primeira memória – eu e meus irmãos espiávamos, de detrás da porta, os índios que entravam na cidade em fila!

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