Crítica | Nerve: Um Jogo sem Regras

0comentário

Nerve: Um Jogo Sem Regras | Nerve | Dirigido por Henry Joost e Ariel Schulman | Escrito por Jessica Sharzer baseado no livro de Jeanne Ryan | Com Emma Roberts, Dave Franco, Emily Meade, Miles Heizer, Kimiko Glenn, Marc John Jefferies, Machine Gun Kelly, Brian ‘Sene’ Marc e Juliette Lewis | Duração: 1h 36 min.

Nerve

3estrelas

É sintomático que a internet ou, mais precisamente, as redes sociais tenham construído o ambiente perfeito para que o ser humano alimentasse certos aspectos de sua personalidade que então eram nutridos por uma dieta a base de pão e água: o desejo de destacar-se diante dos pares, mensurado pelo número de curtidas, retuites e milhares ou milhões de leitores, seguidores ou observadores, interessados no conteúdo que o autor tem a oferecer, ou mesmo na falta dele; a inconformidade reprimida, quiça ódio, em manifestações públicas protegidas por um discurso insustentável e raquítico de liberdade de expressão e pela ingênua certeza de estarem longe dos braços da lei; ou a dependência do arroba que criou para si, ignorante do fato de que construía, na verdade, as grades da própria prisão virtual dentro do seu mundo real. É neste ambiente que é desenvolvida a trama de Nerve: Um Jogo sem Regras.

Um tema que não é novidade para os diretores Henry Joost e Ariel Schulman, responsáveis pelo surpreendente e assustador documentário Catfish, de 2010. Neste, a dupla documentou o relacionamento virtual do irmão de Ariel e alguém, protegida pelo anonimato, que reveleva não ser quem eles esperavam que seria. Aqui, com roteiro de Jessica Sharzer adaptado do livro de Jeanne Ryan, um jogo populariza-se com velocidade por computadores e smartphones de Nova Iorque e envolve completar os desafios propostos aos Jogadores, decididos por Observadores, em troca de dinheiro e popularidade. É nesta enrascada que se mete a careta Vee (Emma Roberts), estimulada pela melhor amiga Sydney (Emily Meade). Em pouco tempo, Vee beija um estranho na boca, Ian (Dave Franco), ajuda-o a dirigir às cegas uma motocicleta em alta velocidade e equilibra-se numa escada enquanto atravessa o vão entre dois prédios. Em troca: novos observadores e mais dinheiro na conta. Evidente que a situação escalará para desafios mais radicais. Inclusive, arriscando a vida dos participantes.

Joost e Schulman são inteligentes. Eles não estão interessados em desenvolver a versão Mark Zuckerberg de Vidas em Jogo, apesar de a associação seja inevitável. Pelo contrário, querem usar a premissa para discutir determinados aspectos da nova internet, como o surgimento de celebridades instantâneas (YouTubers, Snapchaters, Instagramers, esqueci algum?) e os trolls da internet, desprovidos de empatia e que parecem ignorar a existência de seres humanos detrás de avatares. São bem sucedidos nesta tarefa. Do outro lado, quando você esquece a comida tempo demais no fogo, o que acontece? A paciência dos diretores obriga-os a acelar o passo, a fim de introduzir o acontecimento que desencadeia o terceiro ato, quando então a trama bagunça de vez. Também contribui para o gosto amargo a lição de moral, gritada pelo roteiro, antes de entregar-se a um desfecho que exige tantas interações entre personagens que é difícil não o taxar de absurdo. Mas, ok, Vidas em Jogo cometia equívoco idêntico ao atirar da cobertura o plausível pelo cinematográfico.

Enquanto isto não acontece, Nerve preza por uma lógica narrativa admirável: a maioria dos seus personagens está imersa no universo do jogo e fotografada em tons neón, como se existissem em uma realidade alternativa ao mundo em que está Nancy (Juliette Lewis), a mãe de Vee. A trilha sonora tem lógica semelhante, com predominância do eletrônico. Finalmente, a montagem descolada e a utilização de recursos de pós-produção para introduzir elementos do universo internauta dentro da narrativa produzem uma interface interessante com o público-alvo desta produção: o jovem que não desgruda do WhatsApp dentro da sala de cinema, para citar um grupo.

Ao final, Nerve: Um Jogo sem Regras pode parecer um passo atrás dos diretores quando comparado com o escopo temático de Catfish, mas é uma aventura ágil, funcional e pseudo-interativa que provoca reflexões interessantes à geração que mais precisa delas.

sem comentário »

Crítica | Quando as Luzes se Apagam

0comentário

Quando as Luzes se Apagam | Lights Out | Dirigido por David F. Sandberg | Escrito por Eric Heisserer baseado no curta-metragem dirigido por David F. Sandberg | Com Teresa Palmer, Gabriel Bateman, Alexander DiPersia, Billy Burke, Maria Bello, Alicia Vela-Bailey e Andi Osho | Duração: 1h 21 min.

Quando

3estrelas

Dá para entender por que há tantos curtas-metragens de terror assustadores e apavorantes espalhados pela internet: os realizadores atêm-se ao essencial, digo, à mecânica do susto, e fazem isto com criatividade, por causa da falta de recursos (são, em geral, produções caseiras). As premissas costumam ser bem simples, assim como são a inquietação e o medo provocados pelo desconhecido. Afinal, no gênero, como na vida, menos é mais. Quem nos ensina esta lição são os curtas Jogos Mortais, Mama, Monster, Oculus, Alive in Joburg Lights Out, cartões de visita de cineastas estreantes e promissores e, ao mesmo tempo, iscas para fisgar produtores ávidos por ideias originais e econômicas. Não à toa, todos os citados deram origem a longas-metragens, respectivamente: Jogos Mortais, Mama – dã – , The Babadook, Oculus, Distrito 9 e este Quando as Luzes se Apagam, baseado no curta sensação lançado no YouTube.

A premissa é a mais simples impossível: um fantasma/monstro/assombração apenas visto na escuridão e inofensivo na luz. Paradoxal e genial. Ele pode estar debaixo da cama, dentro do armário ou nas sombras debaixo do pórtico de entrada da casa, de espreita e aguardando para atacar. Justificar a existência de algo tão absurdo é a tarefa do diretor David F. Sandberg e do roteirista Eric Heisserer, que se inspiram na tal da fotossensibilidade vista no clássico Os Outros para introduzir Diana: uma criança violenta, internada em um hospital psiquiátrico e, literalmente, desintegrada depois de ser submetida a um tratamento heterodoxo para curar sua condição. Mas ela não deseja vingança, apenas reunir-se com a única amiga de infância: Sophie (Maria Bello), agora uma mulher de meia idade e depressiva. A maior vítima disto é o garoto Martin (Gabriel Bateman) que enfrenta a mesma coisa contra a qual sua meia-irmã Rebecca (Teresa Palmer) lutou quando era mais nova.

A narrativa rapidamente desfaz dois portos-seguros que o fã do terror usualmente tem a sua disposição. O primeiro deles é a luz do dia: basta vedar as janelas, desligar os disjuntores ou formar sombras nos cômodos para convidar Diana, que não parece ter limitação do raio de ataque (um tanto incoerente dentro da narrativa, enfim). O outro é a maternidade, e dá para contar nos dedos os filmes de terror em que alguém é vítima de ações ou omissões da própria mãe. Neste sentido, Quando as Luzes se Apagam ganha o espectador logo quando revela Sophie conversando com Diana para desespero de um Martin que não consegue mais dormir, de tão atormentado que está.

E o filme é moderadamente eficiente naquilo que o espectador mais exige: sustos. Tudo dentro da lógica da trama. A alternativa parece fácil – dormir com as luzes acesas -, então, para a narrativa funcionar, Diana deve poder desligar a luz da casa e manusear outras fontes de luz ou mexer com o psicológico de Sophie para que esta faça todo o trabalho. David F. Sandberg não deixa claro se é assim ou assado (sim, vocês leram essa expressão em um texto crítico), o que é decepcionante e, de novo, incoerente. O diretor ainda tropeça no lugar-comum quando apela para a trilha sonora e a mixagem de som a fim de potencializar cenas mal construídas, portanto nem tão assustadoras assim. Ele também erra ao não explorar as possibilidades da premissa além do óbvio, que é crescer em tensão a partir da alternância entre o iluminado e a penumbra.

Contudo, quando falamos de alegoria, a trama saí-se melhor por transformar Diana na materialização da depressão de Sophie. Se de um lado existe uma mãe amorosa que deseja amar Martin e reconstruir os laços maternos partidos com Rebecca, do outro há um ser vil, cruel e impiedoso, que namora a dor e o niilismo e interfere psicologicamente com as melhores intenções daquela. É uma forma de ler a narrativa. Mas, caso você faça assim como eu, Quando as Luzes se Apagam termina de forma desastrada e irresponsável, para dizer o mínimo. Afinal, qualquer trama que se preze jamais deve ignorar a força da própria mensagem, explícita ou não, que aqui apresenta uma forma de “curar” a depressão. Se David F. Sandberg agiu de maneira proposital, foi mau caráter; caso contrário, se acidentalmente provocou minha válida interpretação, isto só revela que o diretor ainda não está preparado para migrar de curtas-metragens que impactam sobretudo pela premissa e execução, para longas que desenvolvem personagens e temas complexos na companhia de sustos.

sem comentário »

Crítica | Perfeita é a Mãe!

0comentário

Perfeita é a Mãe! | Bad Mons | Dirigido e escritor por Jon Lucas e Scott Moore | Com Mila Kunis, Kathryn Hahn, Kristen Bell, Christina Applegate, Jada Pinkett Smith, Annie Mumolo, Oona Laurence, Emjay Anthony, David Walton, Clark Duke, Jay Hernandez e Wendell Pierce | Duração: 1h 40 minutos.

Perfeita e a mae

2estrelas

Se você não aterrisou agora no planeta Terra, deve saber que existe uma bem-vinda demanda por comédias adultas estreladas por mulheres, em que o sexo frágil (refiro-me ao masculino, claro!) é coadjuvante, quando não somente objeto, dos mesmos clichês que seus antepassados ajudaram a construir. Afinal, por que mulheres devem acomodar-se detrás de utilitários despersonalizados em vez de dirigir carros esportivos turbinados, como Mustangs vermelhos? Deste modo, Perfeita é a Mãe! acerta na maneira com que desvirtua, a seu favor, os clichês das comédias masculinas: em certo momento, três mulheres devoram com os olhos um homem sem camisa enquanto este caminha, em câmera lenta, em sua direção (vamos falar sobre a objetificação masculina); noutro, elas enchem a cara, agem imaturamente e, inclusive, urinam escondidas detrás de um carro. Mas independente do fato de ser contemporânea e conveniente, a nova comédia estrelada por Mila Kunis comete um pequeno deslize, dos mínimos e praticamente irrelevantes, que costumam acometer este gênero: não é nem minimamente engraçado.

Escrito e dirigido por Jon Lucas e Scott Moore, a dupla de roteiristas da trilogia Se Beber, não Case! Eu queria ter sua Vida, a trama tem início quando Amy (Kunis) descobre que seu marido tem um relacionamento sexual/virtual fora do casamento. Este é o começo de um daqueles dias ruins em que tudo dá errado e termina com meia-dúzia de copos de shots vazios em cima do balcão de um bar, ao lado de Carla (Kathryn Hahn) e Kiki (Kristen Bell), mães, mas antes disto, mulheres desvalorizadas pelos maridos, filhos e/ou sociedade e sobrecarregadas pela rotina. A amizade entre elas muda a forma com que enxergam a própria imagem e a maneira com que se comportam, e ainda por cima, serve de motivação para que Amy dispute a presidência da associação de pais e mestres da escola contra Gwendolyn (Christina Applegate, uma versão light da Regina George de Meninas Malvadas).

Por essa breve sinopse, dá para enxergar que um dos grandes problemas do filme é a falta de objetividade e foco: o início promissor apresenta três mulheres que se revoltam contra o estereótipo da mulher exemplar e responsável que a sociedade machista exige que sejam (“Não é este o seu trabalho?”, vocifera o marido de Kiki), para, logo depois, discutir a questão de maternidade e, então, aprofundar-se na eleição que acaba sendo o acontecimento central do terceiro ato, quando desiste de uma vez da (discreta) ousadia e irreverência e substitui estas qualidades por lições de moral que você escutaria caso assistisse aos programas de Martha Stewart (apresentadora e “comerciante” do estilo de vida doméstico, travestido de feminismo).

Sem sensibilidade e intimidade com assuntos femininos, Jon Lucas e Scott Moore criam momentos embaraçosos (a cena dentro de um supermercado em câmera lenta é o principal deles) em vez de estruturar os conflitos narrativos (plantar um cigarro de maconha força todos os limites da verossimilhança, principalmente quando não há viva alma que acredite no contrário) e ser menos óbvio (o colar de Kiki seria um motivo bastante para demitir o figurinista). Mas o que me incomodou de verdade é como a narrativa não demora a perverter a mensagem materna e feminista: depois de reinventar-se como mãe, Amy recusa-se a preparar o café da manhã ou resolver o dever de casa dos filhos, e ao fazê-lo, termina por ajudá-los a ter iniciativa e a estar preparado para as dificuldades do mundo, até voltar atrás. E mesmo que a conduta de Amy seja um tantinho negligente e irresponsável aqui e acolá, é fato que, sem querer, ela estava no caminho certo.

No final, Perfeita é a Mãe! desperdiça as atuações de Mila Kunis, Kathryn Hahn, Christina Applegate e, sobretudo, Kristen Bell – o ponto alto -, com uma execução pseudo-feminista, moralista e sem graça, que, ao menos, acerta em escancarar quão ridículos e imaturos são os clichês das comédias adultas masculinas a partir do exemplo do gênero oposto.

P.S.: Durante os créditos, as atrizes e suas mães compartilham experiências e histórias emocionantes e engraçadas (mais do que as do filme).

sem comentário »

Crítica | Fome

0comentário

Fome | Dirigido por Cristiano Burlan | Escrito por Cristiano Burlan e Henrique Zanoni | Com Jean-Claude Bernardet, Ana Carolina Marinho, Henrique Zanoni, Juão Nin, Gustavo Canovas, Adriana Guerra, Rodrigo Sanches e Francis Vogner | Duração: 1h 30 mim.

Fome

Pelas ruas de São Paulo, um morador de rua empurra um carrinho de supermercado com todos seus pertences materiais. Noite vira dia, para então cair de novo, mas nada determinante parece acontecer senão encontros casuais que não despertam sentimento algum neste João Ninguém, senão a indiferença, embora cada diálogo proponha um debate interessante sobre a sociedade, a coletividade ou o cinema brasileiro. Dito isto, o novo trabalho do diretor Cristiano Burlan, Fome, não é um filme para todos os públicos: ele não apresenta uma trama bem definida, nem tampouco é coeso o bastante para servir como estudo de personagem; é, na verdade, um ensaio que caminha entre a realidade e a ficção, a linguagem e a metalinguagem, a afirmação e a desconstrução, e aquele que estiver disposto a caminhar por cerca de 90 minutos ao lado do octagenário Jean-Claude Bernardet, que interpreta o protagonista, terá um buffet de ideias para se banquetear ao final.

A primeira pergunta que vem à cabeça é óbvia: por que o protagonista abandonou tudo para morar nas ruas? Do que está tentando fugir ou o que está querendo provar ao se transformar num guerrilheiro das ruas que sobrevive todos os dias a fome e a depressão? Estas questões despertam a curiosidade de uma estudante universitária, que entrevista moradores de rua reais e coleciona suas histórias de vida. Porém, não aquelas a que estamos habituados no cinema brasileiro, cujo retrato da pobreza, por ser tão poético, ignora a questão social e a problemática da desigualdade social com que convivemos diariamente. Aqui não há idealização da miséria, e cada registro obtido pela estudante tem força de proporcionar reflexões sobre a desumanidade do mercado de trabalho capitalista, a humilhação de ser visto como pária da sociedade, a exploração da miséria alheia pelas igrejas e a desesperança humana, que, no final, leva-nos a indagar qual a razão de viver em sociedade se temos integrantes desta desprezados de forma cruel e gratuita.

Se é desagradável, humana e socialmente, os moradores de rua serem peças decorativas do cenário urbano, muito pior quando são explorados por integrantes da classe média e alta para nutrir o próprio ego com supostos gestos de altruísmo e generosidade, que servem somente para ressaltar a distância que existe na pirâmide social entre cada degrau. E mesmo que a mão de Cristiano Burlan pese um tantinho quando tenta comprovar um argumento (ex: ao oferecerem comida de restaurante caro, como insistem em afirmar, um casal chuta o protagonista “delicadamente” para acordá-lo), não há dúvida que o diretor oferece uma reflexão atemporal sobre a questão social que pretende discutir.

Do seu lado, Jean-Claude Bernardet, ator, roteirista, crítico e teórico belga, aproveita a narrativa para descontruir a imagem estetizada e aprazível da pobreza, tão comum no cinema brasileiro. Para seu personagem, morar na rua é uma conquista, uma forma de se desintoxicar de si mesmo e, quem sabe, de ser livre, mas isto não quer dizer que não reconheça a tragédia daqueles que não tiveram o benefício da escolha. Daí porque a fotografia é em preto e branco e a iluminação, natural, de modo a ressaltar o aspecto cru e áspero e conferir a veracidade que está pichada nos muros da cidade logo na cena inicial.

Em Fome, não há espaço para cores, nem tampouco para luzes; a negação da pobreza não é mais uma alternativa ao alcance do realizador, privado de idealizá-la, embora livre para explorar a orla política que margeia este fenômeno do mundo capitalista e reduzir a distância entre o autor e o objeto do estudo. Ao final, trata-se de ensaio, que usa a linguagem cinematográfica não como fim em si mesmo, mas como autêntico instrumento de afirmação e reflexão do tema sobre o qual discorre com propriedade e autoralidade.

sem comentário »

Crítica | Negócio das Arábias

0comentário

Negócio das Arábias | A Hologram for the King | Dirigido e escrito por Tom Tykwer baseado no livro de Dave Eggers | Com Tom Hanks, Alexander Black, Sarita Choudhury, Sidse Babett Knudsen, Tracey Fairaway, Jane Perry, Tom Skerritt, Ben Whishaw e Khalid Laith | Duração: 1h 38 min.

Negocio das Arabias

Saí da sessão de Negócio das Arábias com um espírito leve e a sensação de que parte do negativismo que eu carrego comigo foi retirada das minhas costas. Deve ser assim que os leitores de livros motivacionais devem se sentir depois de terminar um exemplar excepcional, então nada mais justo do que chamar esta nova colaboração entre o diretor alemão Tom Tyker (de Corra, Lola, Corra! A Viagem) e Tom Hanks de uma narrativa de auto-ajuda, com a vantagem de evitar sê-lo através de palavras marteladas à exaustão, e sim da trajetória do seu protagonista.

Escrito pelo próprio Tykwer a partir do livro de Dave Eggers (autor de Onde Vivem os Monstros), o roteiro tem início com a chegada de Alan Clay (Hanks) na Arábia Saudita para, em nome de uma gigante do mercado da tecnologia de informação, apresentar um dispositivo que permite reuniões holográficas ao Rei. Sempre atrasado para seus compromissos, Clay esbarra nas diferenças culturais, se medidas a partir da curtíssima régua norte-americano, na infraestrutura modesta das instalações onde está a sua equipe, conforme as expectativas que havia criado, e nos problemas familiares de quem, à beira de atingir a terceira idade, imaginava estar num status financeiro mais confortável. Na verdade, o que aflige Alan são o comodismo, o hábito de enxergar o copo meio-vazio e o passado, regurgitado diversas vezes ao longo de breves flashbacks e em todas estas vezes, inalterável.

Assim, a impotência sexual, sinônimo da perda da virilidade, está relacionado à imagem derrotista e fracassada que transmite àqueles ao seu redor, apesar dos esforços de esboçar um sorriso amarelo e transmitir a segurança que o tempo tomou de si. Caso pudesse transformar-se, Alan seria capaz de desvincilhar-se do fardo que carrega nas costas (simbolizado por um cisto que o incomoda, mas que mal consegue alcançar), fardo este pesado o bastante para que o faça quebrar todas as cadeiras em que senta (outro símbolo, aliás, a narrativa está cheia deles, com significados variados). A propósito, é brilhante que seu sobrenome seja Clay, argila em português, pois assim como é o material após trabalhado, Alan perdeu a maleabilidade e flexibilidade, igual a tantos acomodados que simplesmente desistiram de viver em vez de reinventar-se.

Em sua jornada nas arábias, Alan relaciona-se com certos personagens que exibem características perdidas pelo jovem que tanto chamara a atenção com uma piada tola, embora contada com ímpar confiança: Hanne (Knudsen) surpreende por sua impulsividade; Karim (Laith), pela firmeza e segurança; Yousef (Black), pela forma alegre e despreocupada com que sobrevive dentro de uma sociedade opressiva e desigual para quem não for membro da família real. E claro, a médica Zahra (Choudhury), que oferece ao protagonista o elemento humano que lhe faltava para superar os vícios de sua personalidade. É quando Tykwer parte para discutir os demais temas da narrativa: os efeitos da globalização em minimizar as diferenças culturais e até aproximar o sol da lua (olha aí, outro símbolo) e a imprescindibilidade do contato humano ainda que, ironicamente, o produto vendido por Alan vá na contramão, possibilitando encontros holográficos impessoais e frios.

Narrativamente, Tykwer mantém um ritmo compassado e agradável mesmo que não haja acontecimentos marcantes ou conflitos explícitos. Faz isto com o apoio de Tom Hanks, que é sempre um ator confiável, de carisma gigantesco, e que confere um senso de humor discreto à narrativa, e da fotografia, eficiente em retratar, visualmente, o desconforto e a pequenez de Alan diante de todo aquele deserto, onde existe a oportunidade de nascer de novo.

Ao final, após “perder” aquilo em que depositava todos seus problemas, Alan vê-se obrigado a enfrentá-los de frente e, em vez de Negócio das Arábias bolar uma solução artificial, oferece ao protagonista as ferramentas necessárias para desenvolver uma nova versão de si próprio.

Quem sabe, inclusive, melhor do que a chinesa.

sem comentário »

Crítica | Esquadrão Suicida

1comentário

Esquadrão Suicida | Suicide Squad | Dirigido e escrito por David Ayer baseado nos quadrinhos da DC Comics | Com Will Smith, Jared Leto, Margot Robbie, Joel Kinnaman, Viola Davis, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Cara Delevingne, Karen Fukuhara, Adam Beach e Scott Eastwood | Duração: 2h 3min.

Esquadrão

cotao01estrelas

Gosto de aproveitar os textos para ensinar aos leitores mais de teoria cinematográfica, esta é uma das funções da boa crítica cinematográfica, e Esquadrão Suicida é a oportunidade para diferenciar heróis, anti-heróis e vilões. A bússola moral é o atributo que melhor os distingue: a do herói funciona como um relógio suíço de tão irritantemente precisa; a do anti-herói, por ter a personalidade dúbia e acizentada, troca o norte pelo sul com a mesma frequência com que age sem piedade, reluta e titubeia para então defender o bem, não importa as razões que o leveram a fazê-lo; e a do vilão? Ele não tem bússola alguma. Não são os laços familiares, a história de origem ou a penitência final as melhores formas de distinção: o Dr. Octopus de Homem-Aranha 2 (um dos melhores vilões das adaptações de HQ) era um cientista gentil e apaixonado pela mulher até tornar-se um monstro que agia de forma egoísta, já o Coringa (a versão de Heath Ledger) era a personificação da maldade sem razão de ser, somente com o desejo de ver o circo pegar fogo. Ficou fácil ver a tênue linha que separa Darth Vader e Voldemort de Magneto ou dos Guardiões da Galáxia?

Ok, no que isto vai ajudar a explicar aquela estrela solitária de Esquadrão Suicida? Com exceção do Pistoleiro, que não mata mulheres e crianças, logo tem uma bússola moral, estamos falando de supervilões, e deles esperamos o que há de pior: ações cruéis e desumanas para atingir o objetivo que desejam, não importa o que seja necessário ou quem esteja no caminho, caso contrário, se fosse para agir como (anti-)heróis, então melhor montar uma equipe diferente. Esta adaptação da DC, escrita e dirigida por David Ayer (dos ótimos Corações de Ferro, Marcados para MorrerOs Reis da Rua) enxerga vilões de forma distorcida: como párias e vítimas da sociedade que os condenou a afastar-se do que mais amam. Nada errado com isso – inclusive, adoro a descrição sucinta do Crocodilo (“Ele parecia um monstro, foi tratado como um monstro e então se tornou um monstro”) -, desde que não seja adoçado com sentimentalismo e pieguice em demasia, o que a narrativa faz como se sua existência dependesse disso: durante uma sequência na chuva, embalada por uma trilha sonora saída de adaptação de Nicholas Sparks, os personagens enfrentam crises de consciência, memórias dolorosas em flashbacks idem e bastante chororô (“Eu perdi uma família; não perderei outra” ilustra a mancada do filme sem margem de erro), interrompidos pela tentativa frustrada de reafirmarem-se como os vilões que deveriam ser quando somente conseguem ser uma versão live-action do Gru, de Meu Malvado Favorito.

O culpado disso é David Ayer, cujo roteiro é uma hecatombe: o primeiro ato é dedicado a apresentar os personagens (e seus dramalhões), sobretudo os do Pistoleiro (Will Smith) e da Arlequina (Margot Robbie), para em seguida soltá-los nos escombros da Nova Iorque destruída pela vingança de um supervilão (não darei spoiler, ok?) e empurrá-los adiante, uma cena de ação de cada vez entrecortada por blá blá blá e pelo humor irreverente da Arlequina, até atingirem seu objetivo. No ínterim, os vilões sentem-se traídos (curioso, para quem o ganha pão é a dissimulação) quando descobrem as informações sonegadas por Rick Flag (Joel Kinnaman) e Amanda Waller (Viola Davis) – que os espectadores já conheciam – e precisam enfrentar sua essência para cumprir a missão. Isto acontece de forma repetitiva, higienizada, pois o supervilão monstrifica sua tropa, então a violência perde o sentido de ser nos efeitos especiais e no escuro acentuado pelo péssimo 3D, com cortes rapidíssimos que exigem câmeras-lentas para pontuar a ação individual de cada integrante, e a incapacidade de usar seus poderes ou habilidades de maneira minimamente criativa.

Não, o melhor que Ayer faz é por o Pistoleiro disparando tiros como fizera Legolas em Senhor dos Anéis ou El Diablo (Jay Hernandez) estourando em chamas, literalmente, enquanto minimiza a participação do Capitão Bumerange (Jai Courtney) e Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje). Já Amarra (Adam Beach) é usado como desculpa narrativa para demonstrar algo, algo tão decepcionante quanto é previsível, e Rick Flag é o engodo azedo que todos devem engolir. Finalmente, se Arlequina rouba o filme para si com seu humor doentio, Katana (Karen Fukuhara) não tem chance ou oportunidade de sequer ter um arco dramático senão uma conversa com a própria espada. Quanto ao Coringa de Jared Leto, a criação (ou “criação”) do ator está entre as interpretações de Jack Nicholson e Heath Ledger: deste, a sonoridade enfática e ameaçadora, a falta de foco e a facilidade em fascinar-se com à própria insanidade; daquele, a teatralidade do alter-ego, a pose de gângster e a origem nos tanques químicos. Eu usei as aspas porque, no final das contas, o que Leto acrescenta ao palhaço do crime é idêntico ao que Wesley Safadão traria caso desejasse fazer um cosplay ostentador que não é assustador ou incômodo, nem tampouco relevante para o desenrolar da narrativa, podendo ser descartado (como foi, em muitos momentos) sem prejuízo algum.

Presente num multiuniverso, como os filmes da Marvel, e tendo diante de si uma ameaça espetacular, mas retratada de forma patética (o gingado do quadril, o que é aquilo?), resta a pergunta: por que Batman, Mulher-Maravilha ou Flash, assistindo à destruição de Nova Iorque e do mundo não ajudaram em absolutamente nada quando poderiam estar lá em questão de horas (ou minutos)?

Mas eu não espero que um filme que não saiba retratar vilões pelo que são seja capaz de responder esta pergunta.

1 comentário »

Crítica | O Bom Gigante Amigo

1comentário

O Bom Gigante Amigo | The BGA | Dirigido por Steven Spielberg | Roteiro de Melissa Mathison baseado no livro de Roald Dahl | Com Mark Rylance, Ruby Barnhill, Penelope Wilton, Jermaine Clement, Rebecca Hall, Rafe Spall e Bill Hader | Duração: 1h 57 min.

BFG

3estrelas

Toda obra artística traz consigo partes do autor, umas mais do que outras ou de formas mais expressivas e explícitas. Dito isso, afirmo com segurança que Steven Spielberg deve ter enxergado a si próprio no reflexo distorcido daqueles espelhos de circos, que nos achatam, deformam e, neste caso particular, agigantam. Esta deve ser a explicação mais coerente por que o septuagenário diretor tenha insistido em reprisar grande parte de seu maior clássico infantil, E. T. – O Extraterreste, nesta adaptação da história de Roald Dahl (autor de A Fantástica Fábrica de ChocolatesMatilda e James e o Pêssego Giante), intitulada, de modo bem cafona, O Bom Gigante Amigo, e que inclusive é assinada pela mesma Melissa Mathison, autora do roteiro de E. T..

Antes, porém, de descascar o que acabei de dizer, abramos um parêntese para a sinopse.

A trama é ambientada na Inglaterra em meados dos anos 70 (não fica claro, embora a idade da rainha seja uma boa pista), quando a insone Sophie (Barnhill), enquanto perambula pelos corredores do orfanato onde vive, surpreende o BGA (usarei o acrônimo a partir de agora). Receoso de que Sophie vá revelar sua existência ao mundo, BGA a rapta e a leva a sua caverna na terra dos gigantes, onde também habitam 9 criaturas ameaçadoras e devoradoras de crianças. Como de praxe neste tipo de história, um encontra no outro a peça que faltava em si próprio (para o BGA, coragem; para Sophie, magia) e isto leva a uma amizade ameaçada pelos seus pares (sobretudo os gigantes).

Parênteses fechados. Goste ou não da nova versão dessa fórmula batida, não dá para ignorar nem as mensagens nem a autoimagem Spielberguiana refletida na narrativa e no BGA, que não deixa de ser o alter-ego do diretor: amistoso e afeto a crianças, o BGA passa o dia coletando fagulhas de uma árvore mágica e fabricando sonhos (leia-se: histórias) que sopra na imaginação enquanto perambula pelas ruas de Londres. Nada diferente do que faz o diretor de cinema, ou, para ser justo, o contador de histórias. Mas tem mais. Se no começo da narrativa, o BGA não titubeia e oferece a Sophie um pesadelo terrível (como fez o mestre Spielberg das décadas de 70/80, quando não subestimava o intelecto dos menores), com o seu desenrolar, ele simplesmente acovarda-se, de modo que quando Sophie exige coragem do gigante, não há como não sorrir da irônica armadilha que Spielberg preparou para si. Estamos falando não mais do cineasta destemido de outrora, um que não tinha medo de tocar em temas difíceis e ilustrá-los pelo que eram, ainda que camuflados em símbolos, e sim daquele que, na versão comemorativa de E. T., substituiu, digitalmente, as armas dos policiais por lanternas, julgando que aquelas eram assustadoras demais para crianças.

O que poderia não aterrorizar os menores? Flatulências, apresentadas aqui em duas sequências infames que devem ser o ponto mais baixo da carreira do diretor.

Mas O Bom Gigante Amigo tem lá seus méritos: a direção de fotografia de Janusz Kaminski (colaborador habitual de Spielberg) encontra nas sombras e meia-luz, suas especialidades, um contraponto interessante às cores fluorescentes que simbolizam os sonhos, enquanto confere ritmo e fluência a sequências-chave, aproveitando a fotografia digital, como é caso da destruição do laboratório do BGA ou a cena final. Por sua vez, os efeitos especiais combinados com a a técnica de captura de performance do ator vencedor do Oscar Mark Rylance (que trabalhou com Spielberg em “Ponte de Espiões”) conferem ao BGA emoções visíveis e olhar humano, e se você criticar que é o mínimo exigido de uma produção de US$ 140 milhões, bem, A Lenda de Tarzan mal conseguiu criar selvas convincentes.

Enquanto isso, a amizade entre Sophie e o BGA, aspecto central, funciona mais por nossa experiência de cinema do que pela narrativa, embora haja pistas da solidão provocada pela perda dos pais (tema recorrente na filmografia de Spielberg) na falta de interação dentro do orfanato e na ausência de personagens humanos, ao menos até o fimzinho do segundo ato. É neste momento que o filme desanda graças à infeliz decisão de Sophie e BGA para se livrarem dos gigantes maus, sobretudo considerando haver uma solução não militar e beligerante – quem viu o filme sabe do que estou falando.

Ainda assim, O Bom Gigante Amigo é uma obra que dialoga bastante com a carreira de Steven Spielberg, por bem ou por mal, e revela com nitidez tanto as facetas iluminadas quanto escuras deste icônico diretor.

1 comentário »

Crítica | Jason Bourne

0comentário

Jason Bourne | Dirigido por Paul Greengrass | Roteiro de Paul Greengrass e Christopher Rouse baseado nos personagens criados por Robert Ludlum | Com Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vincent Cassel, Julia Stiles, Riz Ahmed, Ato Essandoh, Scott Shepherd, Bill Campo, Vinzenz Kiefer e Gregg Henry | Duração: 2h 3min.

Jason Bourne

Não é exagero afirmar que a trilogia Bourne (IdentidadeSupremaciaUltimato) revolucionou o cinema de ação: a agilidade e o dinamismo do trabalho de câmera e a montagem furiosa e intransigente, sem abrir mão da coerência, retratam com ímpar eficiência tanto o universo da narrativa, em que diversas fontes de informações interconectadas geram toneladas de bits de dados para quem deve tomar decisões urgentes em mínimas frações de tempo, quanto o amnésico e atormentado protagonista, cuja busca incessante por respostas move a narrativa da mesma maneira que faria um tornado nível 5. Para surpresa, não há nada glorioso, heroíco ou altruísta na trajetória de Jason Bourne: ele não quer desmascarar os programas de supersoldados da CIA, embora termine fazendo-o, e sim descobrir quem é, o que o levou a estar onde está e o que deve fazer para sobreviver. Este cinismo, discreto no original dirigido por Doug Liman e proeminente nas sequências de Paul Greengras (Voo United 93Capitão Phillips), aliado ao estado da arte da tecnologia da informação retratada fazem da franquia uma das mais contemporâneas que há.

Bem sucedida também, razão pela qual os produtores tentaram resetar a série com um novo protagonista no tépido O Legado Bourne, para então optarem pelo retorno de Matt Damon neste novo capítulo, cuja intenção elementar é a de criar um novo arco de histórias para o personagem. Denominada Jason Bourne, um título minimalista e coerente com a etapa de autodescoberta em que o protagonista está, a trama escrita por Greengrass e Christopher Rouse (montador habitual dos trabalhos do diretor e que aqui estreia na função de roteirista) traz a hacker Nicky Parsons (Stiles) com novas informações sobre o passado e o pai de Bourne. Não tarda para que a mira da CIA volte a apontar para sua cabeça, desta vez pelas armas do vingativo assassino interpretado por Vincent Cassel, e volte a vigiar cada um de seus passos com ajuda da analista Heather Lee (Vikander), subordinada ao diretor Dewey (Jones), que ainda precisa conciliar os interesses da CIA e do “povo norte-americano” (entre aspas, para destacar a ironia) com a nova rede social do magnata Aaron Kaloor (Ahmed, um Mark Zuckerberg piorado).

O jogo permanece inalterado: a CIA na figura do seu diretor (que já fora interpretado por Chris Cooper, Brian Cox, David Strathairn e Edward Norton nos episódios anteriores, agora é vivido por Tommy Lee Jones como uma raposa política) realiza uma caçada humana protegida por satélites e múltiplos monitores de computador operados pela recém-vencedora do Oscar Alicia Vikander (cuja personagem, a priori frágil, surpreende por sua ambição), enquanto as equipes de terra (os tais “assets”) tentam interceptar e neutralizar Jason Bourne, mas são, de novo, surpreendidos por sua astúcia e imprevisibilidade. Isto não chega a ser um ponto negativo, afinal, a tensão crescente e as excepcionais cenas de ação (a que passa na Grécia em meio a protestos, uou!) compensam a sensação de “estive lá, vi isto”, ao passo que o ineditismo narrativo está no envelhecimento de Matt Damon, cujos perceptíveis fios de cabelo branco, rugas e rosto cansado vão ao encontro de quem correu e lutou bastante, e agora deseja apenas manter-se fora do sistema.

Por outro lado, esse parece ser o fiapo que desfaz a bem costurada malha da narrativa. Se na trilogia original Bourne estava disposto a encontrar respostas, custe o que custar e doa a quem doer, nesta continuação com toques de reboot como têm sido praxe nas franquias (vide o novo Episódio VII – O Despertar da Força ou Jurassic World), o próprio persoangem afirma estar desmotivado. Ele somente não permanece inerte porque Nicky morre e o roteiro bola um incentivo (eu diria “uma desculpa esfarrapada”) no envolvimento do seu pai em Treadstone, que, a propósito, ainda tenta minar o que havia de melhor em O Ultimato Bourne: o fato de que Jason Bourne não foi coagido nem obrigado mas havia sido voluntário do programa, e isto fazia um caminhão de diferença no desenvolvimento do personagem.

Sorte a minha que não acredito que continuações podem depreciar os antecessores e, sendo assim, durmo tranquilo com a certeza de que a trilogia original permanece um dos pontos-alto cinematográficos da última década. Já Jason Bourne, apesar das limitações da fórmula estabelecida pela série, desponta como um filme de ação competente e bem acima da média. E se não é revolucionário, ao menos oferece 2 horas de intensidade e apreensão bastante bem-vindas.

sem comentário »

Crítica | Mãe só Há Uma

0comentário

Mãe Só Há Uma | Dirigido e escrito por Anna Muylaert | Com Naomi Nero, Daniel Botelho, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Lais Dias, Luciana Paes, Helena Albergaria, Luciano Bortoluzzi, June Dantas, Renan Teca e Clara Gallo | Duração: 1h 22 min.

Mae

3estrelas

Autoralidade pressupõe a rediscussão dos temas que instigam, afligem e inspiram o artista, e a prescindibilidade do aspecto biológico da maternidade é o elo que liga o melhor filme nacional do ano passado, Que Horas Ela Volta?, e este Mãe Só Há Uma, ambos da diretora e roteirista Anna Muylaert. O carinho materno que a empregada doméstica Val sentia pelo filho da patroa, Fabinho, e que a impelia, involuntariamente, a negligenciar a filha biológica, inclusive através da distância física, assemelha-se ao vazio existencial experimentado por Pierre (ou Felipe) após ser separado de Aracy, a mulher que acreditava ser sua mãe biológica, mas que na verdade o sequestrou na maternidade quando ainda era bebê. Ser mãe (ou pai) independe de sangue, genética ou natureza, apenas do destino e de uma cadeia de acontecimentos, quem sabe até criminosos.

Uma conclusão óbvia, saliento, razão pela qual Anna Muylaert desloca o eixo narrativa para o processo de construção da identidade pessoal. É o caso de Pierre (Nero), adolescente que está no início do processo de autodescoberta: ele transa com garotas, usa batom e veste-se com o vestido da mãe e beija um dos integrantes da banda de rock ‘roll da qual participa. Em sua indiferença, introversão e distanciamento existe o grito universal por identidade e liberdade de ser, direitos postos em cheque depois da ruptura provocada pela narrativa, que exterioriza o drama interno vivido pelo rapaz. A pergunta “Quem eu sou?” ganha contornos explícitos na perda legal do próprio nome e no reencontro com a família biológica, composta por Glória (Nefussi), Matheus (Nachtergaele) e Joca (Botelho).

Anna Muylaert aproxima-nos deles, tão vítimas, quanto Pierre, das ações de Aracy (Nefussi, daqui a pouco explico): a profundidade do campo é rasa, deixando o espectador em contato próximo com os personagens; a fotografia é crua e o grão mais grosso, o que desglamouriza a difícil realidade; e a montagem é afrouxada, substituindo a construção de sentido pela registro do cotidiano dos personagens. Não é raro, por exemplo, que Anna Muylaert corte (ou melhor arranque) o cordão umbilical de certos personagens, às vezes abrupta e violentamente, de forma que o choque ilustre o sentimento de Pierre, que de um instante ao outro, perde a mãe, a irmã, a tia e toda a vida que tinha.

Mas, por mais que essa decisão de Anna Muylaert esteja apoiada na trama, existe um custo implícito nela: senti certa frustração ao despedir-me forçadamente de personagens em cujas ações e reações construi, no decorrer da narrativa, alguma expectativa (não confundir com ideias preconcebidas). A casualidade de determinados acontecimentos e a falta de ressoluções concretas também me incomodaram: faltou o retorno a quem investiu algo na paixonite de Joca ou, principalmente, na trajetória de Pierre, cujas escolhas feitas no terceiro ato ou o extravaso dos seus sentimentos nem sequer assemelham-se à ressolução do drama (evidentemente que, em menos de 85 minutos, ninguém poderia exigir que todos os problemas fossem solucionados, apenas que o barco fosse apontado na direção correta).

Há decisões acertadas, tais como o duplo papel de Daniela Nefussi, que interpreta Aracy, a mãe sequestradora e bem quista, e Glória, a mãe biológica rejeitada, um ousado casting que, cinematograficamente, propõe múltiplas opiniões e interpretações: a idealização do rosto da figura materna por parte de Pierre ou mesmo sua responsabilização em não se entrosar (isto trouxe-me a mente Esse Obscuro Objeto do Desejo, em que Ángela Molina e Carole Bouquet interpretam um mesmo papel, mas neste caso, Luís Buñuel deseja expressar, através de personalidades diferentes, comportamentos idem). Também há vazios incontornáveis, que tornam a experiência de assistir à Mãe Só Há Uma em algo mais analítico e racional em vez de envolvente e reflexivo.

sem comentário »

Crítica | A Lenda de Tarzan

0comentário

A Lenda de Tarzan | The Legend of Tarzan | Dirigido por David Yates | Roteiro de Adam Cozad e Craig Brewer baseado nas histórias de Edgar Rice Burroughs | Com Alexander Skarsgård, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Osy Ikhile, Casper Crump, Djimon Hounsou, Ben Chaplin e Jim Broadbent | Duração: 1h 50min.

Tarzan

3estrelas

Existe algo em comum entre John Carter: Entre Dois MundosO Cavaleiro SolitárioA Lenda de Tarzan além do fato de todos serem blockbusters decentes, mas que fracassaram nas bilheterias e enterraram consigo a promessa de franquias bilionárias: a catarata. Não aquelas quedas d’água enormes que você pode observar nos planos abertos das selvas do Congo, refiro-me à lesão dos olhos que impediu os realizadores de enxergar o mercado cinematográfico de aventuras, saturado de super-heróis em universos compartilhados, robôs e monstros gigantes, adaptações de livros para os chamados “jovens adultos”, continuações, refilmagens ou reboots. Afinal, quais chances John Carter, o Lone Ranger e Tarzan, personagens corretos ou quadrados ou caretas ou aborrecidos têm contra, bem, tudo isso que eu acabei de citar?

Quase nenhuma.

Assim, esta nova adaptação das histórias de Edgar Rice Burroughs – que também era autor da série de livros de John Carter – leva-nos à Inglaterra do fim do século XIX quando o recivilizado John Clayton III (Skarsgård) e Jane (Robbie) são enviados, pelo Parlamento Britânico, ao Congo, onde John fora criado por gorilas e era conhecido como Tarzan. Lá, junto com George Washington Williams (Jackson), são emboscados pelos mercenários contratados por Leon Rom (Waltz), autodenominado homem do futuro que pretende trocar, com o chefe Mbonga (Hounsou), Tarzan por um baú de diamante com o qual pretende comprar o selo de realeza junto ao famigerado rei belga Leopoldo II, que, no mundo real, patrocinou o holocausto negro no Congo. Como falha na missão, Rom rapta Jane na esperança de recapturar Tarzan e honrar seu acordo.

Pela breve sinopse, não dá para ignorar que o roteiro escrito por Adam Cozad (de Operação Sombra – Jack Ryan) e Craig Brewer (de, hum, Footloose?) parece haver sido escrito há, no mínimo, 4 décadas, com exceção das referências esporádicas à autonomia e à independência de Jane (a rigor, a típica donzela em perigo): seus personagens estão presos a toda sorte de maniqueísmo (o herói incorruptível, o vilão maquiavélico, a civilização amistosa e receptiva da África etc), seu enfoque ambientalista e humanitário, embora admirável, está ultrapassado; seus conflitos e soluções respectivas, desgastados e não revelam a menor aspereza de comportamento ou personalidade a que os espectadores atuais estão acostumados. Seu texto é o de uma aventura clássica, no mau sentido.

Sua narrativa, salvo os efeitos especiais, também. Sobre estes, antes, é oportuno ressaltar que, em comparação com Mogli, Tarzan está alguns anos atrás. Enquanto a interação entre o protagonista, os animais e a selva parecia tão real naquele (não é a toa que, há 5 meses do fim do ano, Mogli desponta como franco-favorito para a categoria), aqui nem tanto. Para tanto, repare a artificialidade da cena em que Tarzan e George Washington caminham sobre troncos de árvores com a floresta debaixo de si. Até o rejuvenescimento dos atores é problemático, e prova disto é que o diretor David Yates usa o recurso com bastante timidez, escondido literalmente detrás da vegetação ou da escuridão, para às vezes arriscar um plano frontal sem bons resultados.

Yates, que comandou a franquia Harry Potter desde o quinto episódio, A Ordem da Fênix, esforça-se em conferir um dinamismo à narrativa e é bem sucedido nesse intuito: a trama é ágil, igual ao protagonista, e move-se, afora meia-dúzia de flashbacks aqui inofensivos, ali descartáveis, de forma segura e resoluta em direção à conclusão. Talvez até demais, pois não há um instante em que tememos pelo destino do protagonista ou de Jane, e mesmo quando aquele está em desvantagem – como na luta com o irmão gorila Akut – sabemos que nada de grave acontecerá. Afinal, Tarzan é aparentemente indestrutível, insuscetível a dor e conta com o reforço de tribos e animais da selva. Diante dele, Ron é o equivalente a uma formiga contra um elefante (sem a ajuda da fábula clássica).

Vivido por Christoph Waltz, ator que adoro, com o conjunto de recursos aos quais estamos habituados – sarcasmo, cinismo e o sorriso de canto de boca -, Ron não está à altura, literalmente inclusive, de Tarzan: Ron o respeita tanto quanto o teme e, inclusive, demonstra estar tão abalado com a chacina de gorilas quanto Jane, e por mais que estes elementos ajudem, em teoria, a incutir aspectos tridimensionais a sua personalidade, na prática a história é outra e termina por extinguir de vez a fagulha do clímax, que exige um vilão que oponha um desafio quase intransponível ao herói.

Assim, por mais que A Lenda de Tarzan apresente uma fotografia exuberante e eficiente – com diferentes paletas de cores, contrastes entre a luz e os espaços abertos e a escuridão e a densa floresta e outros bons recursos – e atuações competentes de Alexander Skarsgård, Margot Robbie e Samuel L. Jackson (bastante divertido), não é o bastante nem para provocar a gostosa nostalgia das aventuras clássicas, nem para causar empolgação nos espectadores mais afetos à destruição em massa de toda sorte de aventuras contemporâneas.

É, tal como os exemplares citados no primeiro parágrafo, um produto que nasceu extinto.

sem comentário »