O Regresso | Crítica

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O Regresso | The Revenant | 2015 | Duração 2h 36 min | Direção de Alejandro González Iñárritu | Roteiro de Mark L. Smith e Alejandro González Iñárritu baseado em parte do livro de Michael Punke | Com Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Paul Anderson, Kristoffer Joner e Joshua Burge | Estreia nos cinemas em 4 de janeiro de 2016

O Regresso

“O Regresso” é a versão cinematográfica de alguém cuja beleza natural não passaria despercebida, onde quer que estivesse, e encantaria à medida que absorvesse a luz e a irradiasse a todos ao redor. Entretanto, seja por seu ímpeto exibicionista, ou, seja por sua vaidade em querer destacar-se mais, acaba exigindo um olhar analítico, além da paixão que instintiva e imediatamente havia despertado. Assim, o novo trabalho do diretor Alejandro González Iñárritu, vencedor do Oscar por “Birdman”, status que Leonardo DiCaprio passará a ostentar brevemente, é uma obra de arte cinematográfica de beleza e poesia indiscutíveis, apesar de, a cada grandiosa cena de ação, sinta a obrigação de forçar o público a coçar os neurônios enquanto tenta decifrar o ofício e como aquilo a que está assistindo foi produzido, o que, a seu turno, afugenta-o, nem que só de forma momentânea, do universo desolador e violento dos Estados Unidos do início do século XIX.

Mais precisamente em 1822, poucos anos depois de as 13 colônias norte-americanas declararem sua independência da Inglaterra, logo, uma época de incertezas e conflitos frequentes contra os nativos e os franceses, que outrora houveram auxiliado a colônia. Foi durante este período que Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) e seu filho mestiço Hawk (Forrest Goodluck) desbravaram o caminho a fim de que a expedição liderada por Andrew Henry (Domhnall Gleeson) obtivesse peles para comercializá-las durante o inverno rigoroso. Porém, após um encontro violento com a tribo ‘inimiga’ Arikara, a expedição adentra na floresta apenas para Glass ser praticamente trucidado por um urso pardo. À beira da morte, sob os cuidados de John Fitzgerald (Tom Hardy) e do jovem Bridger (Will Poulter), Glass assiste ao assassinato do próprio filho e, abandonado para morrer por aqueles, reúne forças para sobreviver e vingar-se de Fitzgerald.

Ou seja, o roteiro escrito por Mark L. Smith e Iñárritu, baseado em parte do livro de Michael Punke, não oferece nada sinuoso na enésima história de justiçamento e vingança que Hollywood encena. O que não é um grande problema, porque a narrativa investe na pegada metafísica, ou quiça religiosa, em razão das boas escolhas feitas pela direção e do requinte da fotografia de Emmanuel Lubezki (a um Oscar de ser o primeiro a vencer três vezes consecutivas na categoria – ele havia ganho por “Gravidade” e “Birdman”). Há tanto sendo comunicado nas imagens de Lubezki que “O Regresso”, se quisesse, poderia dispensar os diálogos: a montanha de ossos contra a qual Glass se depara reúne todo seu passado de caça, violência e morte, o que justifica a punição da natureza tanto na figura dos obstáculos naturais que enfrenta quanto do enclausuramento por árvores que parecem estender-se até o céu e formar, por causa do uso da lente grande angular, uma espécie de prisão; mais adiante, isso também explica a igreja destruída, mas cujo sino continua a bater incansavelmente, o retrato da redenção tardia do protagonista. E se é capaz de retratar a trajetória dramática de Glass, Lubezki tira de letra sentimentos pontuais, senão responda: a fogueira, que queima enquanto refletida nos olhos do cacique, não é mais do que bastante para compreender a raiva decorrente da humilhante tratativa com os franceses?

Mas se a construção de sentido a partir dessa fotografia exuberante já seria um feito marcante, fazê-lo somente através da iluminação natural tem que ser algum tipo de nirvana que os monges budistas sonham em alcançar. A dificuldade é multiplicada pelo grau de complexidade de sequências de ação – a maioria, sem cortes aparentes – e, sobretudo, pelas peculiaridades dos elementos da natureza, p. ex.: a neve e sua superfície que reflete a luz de forma difusa; as sombras produzidas pela vegetação, sem jamais produzir cenas escuras a ponto de serem irreconhecíveis.

Já Iñárritu, cujo prêmio do Sindicato dos Diretores torna-o favorito ao Oscar da categoria, concilia a temática de vingança, justiça e sobrevivência com os desígnios da natureza, o que, por sua vez, cria também relação com o letreiro ‘somos todos selvagens’ pendurado no corpo morto de um nativo. De fato, assim como a manada de bisões abandona o que está sendo atacado pela matilha de lobos, também Fitzgerald fizera com Glass, o que torna o antagonista tão (ou mais) complexo que o herói. Até porque, por mais que seja um homem cruel e ardiloso, de olhar arregalado e ameaçador, não há como não enxergar a lógica que rege suas ações: a do animal acuado que deseja respeitar seu único sentido de vida, o de sobreviver, e a atuação de Tom Hardy, reconhecida com a indicação ao Oscar, não vacila em demonstrar a dubiedade de Fitzgerald.

Menos dúbio, mas igualmente complexo, é o personagem de Domhnall Gleeson, cuja crença na lei humana confunde-se com imprudência ao ser imposta dentro do cercadinho da protocivilização norte-americana. Por fim, Leonardo DiCaprio trabalha com o que o roteiro lhe oferece e extrai dor e angústia, assim como reafirmação e paz, de algo que é muito mais transcendental do que o mero ato de vingar-se. Entretanto, para quem está se perguntando se DiCaprio merece enfim o Oscar, embora passe, ironicamente, boa parte da produção babando e grunhindo, adianto que atuação não acontece só quando se abre a boca, pelo contrário, é mais desafiadora quando o ator precisa recorrer a todo o arsenal de que dispõe para passar ao público o que o personagem experimenta: por exemplo, tome o olhar revoltado, enfurecido e prostrado de Glass enquanto assiste ao filho morrer sem poder fazer nada, que você terá uma ideia do que DiCaprio alcança.

Por mais que, eventualmente, “O Regresso” esteja mais apaixonado por si próprio do que o público está, não há como desdenhar o bem que produções desafiadoras, intrincadas e virtuosas iguais a esta fazem ao cinema. É arte que reflete sobre a natureza, humana e animal, à luz do amanhecer de uma nova civilização, erguida sobre o sangue de seus verdadeiros proprietários – neste sentido, a morte de Hawk é símbolo de todo o holocausto indígena –, que deixou manchas que sequer a neve, os rios ou a vingança poderiam limpar.

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Os 10 Melhores Filmes de 2015

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A seguir, os melhores filmes inéditos, lançados comercialmente no Brasil em 2015. Portanto, estão no páreo estreias nos cinemas, em home-vídeo, em serviços de streaming e video on demand etc. Estão de fora os filmes lançados apenas em festivais. 

Agradeço a companhia dos leitores neste 2015 um tanto irregular quanto à regularidade das publicações, embora espere que não a respeito da qualidade destas, e desejo um 2016 de grandes realizações e, claro, grandes filmes. 

10. Blind

Esta produção sueca desafia a percepção do espectador, mais habituado a narrativas mastigadas, e confere maleabilidade à linguagem cinematográfica ao brincar com a condição da protagonista Ingrid, que é cega e tem distúrbio associativo, a partir da maneira criativa que ela própria encontra para retardar a evolução da doença e vencer sua repressão sexual.

9. A Terra e a Sombra

Dentro do microuniverso acinzentado e sujo dos boias-frias colombianos, esta narrativa, elogiadíssima na última Mostra de São Paulo dispensa frivolidades e ostentações narrativas em prol da contemplação e do minimalista retrato da dor e da angústia que perpassa todos os personagens.

8. Sicario – Terra de Ninguém

Com sua competência habitual, Denis Villeneuve (‘Os Suspeitos’, ‘O Homem Duplicado’) imerge o espectador nos brutais conflitos entre os cartéis de drogas e a CIA, assim como faz com a forte protagonista interpretada por Emily Blunt, nossos olhos e nosso coração durante toda esta desgastante, mas excepcional narrativa. E olha, que fotografia genial a de Roger Deakins.

7. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Vencedor do Oscar de Melhor Diretor e de Melhor Filme deste ano, este é um daqueles trabalhos que enchem de orgulho o cinéfilo: grandes atuações, direção, montagem e fotografias sensacionais que conferem à narrativa a aparência de ser um grande plano sequência, sem cortes, e uma trilha sonora inquietante em sintonia com o ânimo de um protagonista ofegante e cansado (da arte, da indústria, da vida).

6. Mia Madre

Jamais duvidei do talento do diretor, roteirista e ator Nanni Moretti, embora considere sua vaidade prejudicial a maioria de seus filmes. Mas não desta vez, em que Moretti dá a Margherita Buy a oportunidade de interpretar uma versão de si mesmo e brilhar (Meu Deus, como a esqueci na Lista de Melhores Atrizes?). O resultado desta generosidade é o melhor filme italiano em muito tempo, metalinguístico e autobiográfico, com os nervos a flor da pele sem jamais perder contato com a emoção escondida detrás da atitude decidida, mas fragilizada da protagonista. Bem parecido com amor de mãe.

5. Que Horas ela Volta?

Gosto de pensar que o trabalho da diretora Anna Muylaert, que ratifica a posição de destaque do cinema Pernambucano, nasceu datado, porém de uma boa maneira, pois a nossa sociedade tem avançado a passos firmes em direção ao respeito e à dignidade das relações domésticas entre empregada e empregador. É uma crítica social, além de um filme sobre maternidade, ancorada em ótimas performances, em especial a de Regina Casé.

4. Mad Max: Estrada da Fúria

A ópera do caos do diretor George Miller veio para provocar uma revolução no gênero (não é todo dia que isto acontece): apoteótico, frenético, feminista, anticapitalista, antifundamentalista e dotado de combustível inesgotável, a narrativa leva o espectador na garupa (ou melhor, igual ao Tom Hardy na foto) a bordo de uma perseguição pós-apocalíptica incrível em que muita coisa acontece e, graças à excelente direção, nada é perdido de vista ou deixado para trás.

3. A Gangue

Esta produção ucraniana manuseia a linguagem cinemagráfica para reproduzir o universo diegético de uma comunidade de deficientes auditivos que se comunicam através da linguagem de sinais (logo, sabem mais da trama do que a maioria de nós), mas sofrem com a falta de som (o que nos torna testemunhas de eventos brutais que outros não escutam). A cumplicidade entre o espectador e as imagens e a exploração do experimento narrativo até as últimas consequências dão poder e força à violência e monstruosidade.

2. Vício Inerente

Precisa de alguém como Paul Thomas Anderson (‘Magnólia’, ‘Sangue Negro’, ‘O Mestre’) para ensinar, a partir do próprio trabalho, como adaptar um livro: não é repetir a mesma trama com exatidão de eventos e diálogos, mas reimaginar o que havia dentro da cabeça do autor (aqui, Thomas Pynchon) e tentar reproduzir, a sua forma, na narrativa. A multiplicidade de personagens aliado à entropia paranoica e psicodélica permitem pouquíssima imersão na história… e daí quando se tem uma narrativa tão cheia de atitude e de cenas memoráveis como esta?

1. Divertida Mente

Quando da escuridão surgiu a Alegria ao som do piano de Michael Giacchino, bem, todos já poderiam arriscar antecipar que a Pixar havia retornado à excelência por que era conhecida. Uma animação que funciona para as crianças (é colorida, tem personagens inesquecíveis e bastante ação) e para os adultos, mas de formas totalmente diferentes, ao tocar, com os dedos infantis da curiosidade, a sutileza e economia de imagens e a emoção mais pura, nos sentimentos complexos que habitam dentro de nossas cabeças. 

Outras 20 menções honrosas do cinema em 2015 foram, em ordem alfabética:

14 Estações de Maria
Ano mais Violento, O
Cala a Boca, Philio
Califórnia
Cássia
Clube, O
Colina Escarlate, A
Conto da Princesa Kaguya, O
Corações de Ferro
Dois Dias, Uma Noite
Ex-Machina: Instinto Artificial
Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo
Garotas
Ilha do Milharal, A
Julgamento de Viviane Amsalem, O
Leviatã
Missão: Impossível – Nação Secreta
Perdido em Marte
Sal da Terra, O
Sangue Azul
Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força
Travessia, A
Verdade sobre Marlon Brando, A
Whiplash – Em Busca da Perfeição
Winter Sleep

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Os 10 Melhores Filmes Brasileiros de 2015 | Retrospectiva

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A seguir, os melhores filmes brasileiros inéditos, lançados comercialmente no Brasil em 2015. Portanto, estão no páreo estreias nos cinemas, em home-vídeo, em serviços de streaming e video on demand etc. Estão de fora os filmes lançados apenas em festivais. 

Meu objetivo com esta lista é a de, a partir de grandes filmes de nossa cinematografia, desmistificar o preconceito, quiça viralatismo, de uns ao afirmar que o Brasil produz apenas comédias de gosto duvidoso. Agradeço, publicamente, a todas as distribuidoras que confiaram a mim os screeners de produções, que, por força do sistema cruel do mercado nacional, terminam por terem exibições restritas ao eixo Rio-São Paulo.

10. Obra

O diretor Gregório Graziosi emprega técnicas do expressionismo alemão para narrar a história de um arquiteto, vivido por Irandhir Santos, que, depois da descoberta feita em uma das obras que supervisiona, tem a estrutura emocional e física abalada, condição ilustrada através da prisão de arranha-céus paulistas.

9. Em Três Atos

O florescimento da mente encontra óbice na decadência do corpo em um trabalho poético e experimental que conjuga cinema, dança e teatro, ficção e documentário, com resultados excelentes em uma exposição sobre envelhecimento e morte da competente diretora Lúcia Murat.

8. A História da Eternidade

Produto do novo cinema Pernambucano, o filme de estreia do diretor Camilo Cavalcante contempla, sem julgar, e admira junta a nós – e ao sol – as histórias de amor ocorridas no palco do sertão escaldante, com atuações excelente de todo o elenco.

7. Casa Grande

O primo de Que Horas ela Volta? retrata a decadência econômica e moral de uma família da elite carioca através dos olhos do filho mais velho Jean: imaturo, irresponsável, alienado, desmotivado e despreparado para a vida além dos portões da Casa Grande do título. As observações sociais do diretor, Fellipe Barbosa, apenas não são melhores do que a excepcional atuação de Marcelo Novaes.

6. Branco Sai, Preto Fica

Se Philip K. Dick estivesse vivo, aplaudiria o trabalho do diretor Adirley Queirós, que extraí água de pedra nesta ficção-científica de favela que, de forma inventiva, pinta uma alegoria social da periferia de Brasília em que os moradores das cidades-satélite precisam, inclusive, de passapore para entrar no Plano Piloto. Afora isto, Adirley rememora a memória dos protagonistas, vítimas de um incidente racial (e real) em uma boate local.

5. Olmo e a Gaivota

Co-dirigido por Petra Costa (de ‘Elena’) e Lea Glob, esta co-produção margeia entre ficção e documentário para discutir arte e maternidade, paixões distintas, mas que aprisionam, enlouquecem e enchem de amor e poesia a vida da protagonista Olivia Corsini.

4. Califórnia

A diretora Marina Person convida-nos a embarcar em uma viagem no tempo com recortes autobiográficos e repleta de nostalgia, boas músicas, sensibilidade e apaixonante. 

3. Sangue Azul

Mais uma pérola do cinema Pernambucano, descoberta dentro do fundo do mar da paradisíaca ilha de Fernando de Noronha pelo diretor Lírio Ferreira, que narra a história de um romance proibido e incentuoso cuja poesia somente rivaliza com a fotografia sensacional de Mauro Pinheiro Júnior.

2. Cássia

Documentário biográfico em que o diretor Paulo Henrique Fontenelle devolve a esta artista excepcional, a humanidade que as manchetes de jornal tentaram roubas ao noticiar sua ascensão e morte prematura. E, embora cubra a vida inteira da cantora em ordem cronológica, o documentário é sempre interessante e esclarecedor.

1. Que Horas ela Volta?

Gosto de pensar que o trabalho da diretora Anna Muylaert, que ratifica a posição de destaque do cinema Pernambucano, nasceu datado, porém de uma boa maneira, pois a nossa sociedade tem avançado a passos firmes em direção ao respeito e à dignidade das relações domésticas entre empregada e empregador. É uma crítica social, além de um filme sobre maternidade, ancorada em ótimas performances, em especial a de Regina Casé.

Outras 10 menções honrosas do cinema brasileiro em 2015 foram, em ordem alfabética:

Amor, Plástico e Barulho
Campo de Jogo
Depois da Chuva
Dromedário no Asfalto
Entre Abelhas
Floresta que se Move, A
Hipóteses para o Amor e a Verdade
Insubordinados
Iván
Último Cine Drive-In, O

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Os 10 Piores Filmes de 2015 | Retrospectiva

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A seguir, os piores filmes inéditos lançados comercialmente no Brasil em 2015. Portanto, estão no páreo estreias nos cinemas, em home-vídeo, em serviços de streaming e video on demand etc. Estão de fora os filmes lançados apenas em festivais. 

10. Bem Casados

Não dá para entender como o fotógrafo de casamento Heitor (Alexandre Borges) ainda consegue cobrar cifras gordas para manter seu estilo de vida bonachão, pois, além de ser negligente e incompetente, o sujeito também tem o hábito de guardar a câmera para faturar a primeira solteirona que lhe dá mole, nem que esta seja a surtada Penélope (Camila Morgado), que atravessa a produção como se estivesse a base de potentes psicotrópicos. Pior do que isto, só mesmo o romance falso e esquemático, que piora (como se isto fosse possível) a fórmula batida de Hollywood.

9. A Esperança é a Última que Morre

Da estirpe de filmes que não sabem o que querem ser: como comédia de humor negro, é tão inofensivo e politicamente correto quanto o episódio mais escrachado de Zorra Total; como comédia, bem, sequer arranca risos. Dá até para fazer trocadilhos infames com o título, por exemplo: a esperança é a última que morre, se o tédio não a consumir antes.

8. Voo 7500

Pega uma porção de atores encostados, que você reconhecerá de filmes melhores, e os atira dentro de um avião para interpretar os mesmos estereótipos pelos quais desapareceram anteriormente no ostracismo. Isto somente não é pior do que a ousadia de achar que pode escapar incólume por causa de seu ‘final surpreendente’.  

7. Annie

Um musical sujo que atrai o espectador com grandes celebridades para então disseminar sua mensagem mesquinha e materialista da qual não escapa nem a personagem-título. E se você dá de ombros para a mensagem, então saiba que não há um musical na história do cinema que sobreviveu com canções apáticas e intérpretes envergonhados.

6. Duas Irmãs, Uma Paixão

Como a Alemanha indicou este melodrama grudento para disputar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano? Se você sempre desejou ler uma crítica minha mencionar como defeitos o ritmo arrastado e a duração interminável de uma produção, a esperou enfim acabou.

5. O Que as Mulheres Querem

Um filme com embalagem feminina (dirigido, roteirizado e protagonizado por mulheres) que reduz suas personagens a meras caricaturas grosseiras que nem Adam Sandler faria, mesmo no auge de sua imaturidade machista. Uma ‘comédia’ francesa desprezível e pior do que os pares norte-americanos que parece querer criticar.

4. Entrando numa Roubada

Um sub-Quentin Tarantino com dengue e Zika vírus que reúne o combo invencível: atuações fraquinhas, roteiro incoerente e direção que despreza as regras básicas de fazer cinema. E como os títulos nacionais gostam de facilitar o trabalho dos críticos: neste, nem preciso de trocadilho.

3. Qualquer Gato Vira-Lata 2

Que ideia estúpida: pegar a premissa de Esposa de Mentirinha e reimaginá-la em uma produção nacional que sequer tem razão de existir, pois todos os conflitos amorosos da personagem de Cléo Pires haviam sido resolvidos no original. Sobram situações exageradas para arrancar risos a força, caricaturas e preconceito.  

2. Mortdecai – A Arte da Trapaça

O objetivo da narrativa é ser ridícula e besteirol, e acerta em cheio. O problema não é nem este, é apenas que, nunca engraçada, e sim embaraçosa, a narrativa traz o mínimo denominador comum em personagens excêntricos vividos por Johnny Depp. Logo um irremediavelmente insuportável que temos que aguentar durante toda a narrativa.

1. 50 Tons de Cinza

Em um ano marcado pelo empoderamento feminino representado por personagens fortes, independentes, decididas e corajosas, é claro que o pior filme do ano tem que ser a antítese disto tudo: misógino, que aposta na objetificação da mulher e de que esta deve satisfazer os prazeres do homem, por mais sádicos que sejam. Sabe qual a cereja do bolo? Despido da repercussão, o filme é simplesmente ruim, banal e frígido, pior que a coletânea de filmes-B eróticos que a Bandeirantes guarda nos porões da emissora.

Outras 10 menções desonrosas em 2015 foram, em ordem alfabética:

Belas e Perseguidas
Busca Implacável 3
Divã a 2
Férias Frustradas
Forca, A
Hitman – Agente 47
Meu Passado me Condena 2
Olhos Amarelos do Crocodilo, Os
Renascida do Inferno
Sexo, Amor e Terapia

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As 10 Melhores Atrizes de 2015 | Retrospectiva

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A seguir, as melhores atuações femininas em filmes inéditos lançados comercialmente no Brasil em 2015. Portanto, estão no páreo estreias nos cinemas, em home-vídeo, em serviços de streaming e video on demand etc. Estão de fora os filmes lançados apenas em festivais.

10. Kristen Stewart, Acima das Nuvens

Kristen Stewart parece ter trocado de agente: em vez do zé mané que lhe ofereceu bombas como A Saga Crepúsculo ou Branca de Neve e o Caçador, está outro que, consciente do alcance dramático da atriz, tem buscado papéis instigantes e desafiadores. É o caso de Acima das Nuvens, em que a admiração e o respeito confundem-se com o romance entre uma atriz bem-sucedida (personagem de Juliette Binoche) e sua assistente pessoal, papel de Stewart, que de forma sensível e sutil apresenta-se como uma das apostas seguras para as cinco indicadas ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

9. Reese Witherspoon, Livre

Cheryl Strayed foi vítima das próprias expectativas e dos vícios oriundos de suas frustrações, e Reese Witherspoon, em um daqueles papéis com que muitas atrizes apenas sonham, comunica isto através dos sulcos do rosto, da forma, despida de qualquer vaidade e idealização, com que enxerga a si própria e, claro, da trilha de 1.100 milhas com que pretende exorcizar o passado. E como Matt Damon, em Perdido em Marte, a atriz transmite felicidade sincera a cada menor vitória no caminho.

8. Ronit Elkabetz, O Julgamento de Viviane Amsalem

Meu elogio à atuação da israelense Ronit Elkabetz é que ela me trouxe à memória toda a angústia e dor transmitidas por Maria Falconetti na atuação lendária de A Paixão de Joana D’Arc. A bem da verdade, ambas são julgadas de forma covarde por homens que abusam de seus poderes legais para aprisionar liberdades individuais, e, embora o que esteja em disputa nos filmes seja totalmente distinto, o sofrimento ilustrado não é. 

7. Julianne Moore, Para Sempre Alice

Todos nós admiramos a entrega desmedida de Julianne Moore a todos os papéis que escolhe, e a atuação pontualmente devastadora e sempre sensível da atriz como uma portadora de Alzheimer é o destaque de um filme que, caso contrário, pareceria um telefilme (na época que este era um adjetivo pejorativo). Nem precisa dizer que o Oscar de Melhor Atriz foi merecido, certo?

6. Emily Blunt, Sicario – Terra de Ninguém

Em Sicario – Terra de Ninguém, Emily Blunt ajuda a coroar um ótimo ano de empoderamento e protagonismo feminino no cinema com uma personagem apta e determinada a infiltrar-se no cartel de drogas mexicano. Mais do que isto, a atriz é a lanterna que conduz, com coragem e humanidade, o espectador pela carnificina realizada pelo mercado bilionário de narcóticos. 

5. Regina Casé, Que Horas ela Volta?

2015 foi um ano em que muita gente, mas muita mesmo, mordeu a língua e enfiou o rabo entre as pernas para aplaudir a atuação de Regina Casé, eu, inclusive. Com um misto de humor e drama, a empregada doméstica Val retrata com enorme verossimilhança tantas outras que saíram novas para trabalhar nas grandes capitais e ajudar a sustentar economica, mas não afetivamente, os filhos. E, como em toda grande atuação, Regina Casé adiciona sinceridade a cada decepção e alegria vividas por Val, tornando fácil sentir e mensurar o drama que ela vive, mesmo detrás do bom humor e da sua inocência.

4. Charlotte Rampling, 45 Anos

A vencedora do Urso de Ouro no Festival de Berlim, ao lado do companheiro Tom Courtenay, Charlotte Rampling tem uma tarefa difícil: batalhar a mágoa e o inconformismo de que os 45 anos (ou melhor, 46) que viveu ao lado do marido podem ter sido mero protocolo ou conveniência por este ter perdido sua verdadeira paixão. E, com enorme habilidade, Kate (sua personagem) disfarça esse sentimento ou, ao menos, distrai-se enquanto organiza a festa de celebração de suas bodas. Uma atuação madura e sutil, mas com um twist intenso na cena final, à altura deste ótimo filme.

3. Marion Cotillard, Dois Dias, Uma Noite

Por causa da depressão, Sandra corre o risco de perder o emprego, caso seus colegas votem a favor de um bônus e não da sua permanência. E Cottilard maneja o inimaginável: derramar e engolir lágrimas, engasgar-se com elas ou sucumbir a elas com idêntica facilidade, sem deixar de lutar, a cada cena, contra a depressão e permanecer na cruzada humilhante de bater, porta a porta, pedindo para que seus amigos reconsiderem seus votos. Como resultado, a atriz tem a solidariedade irrestrita do pública; sua personagem, porém, não..

2. Alicia Vikander, Ex-Machina: Instinto Artificial

Ainda ouviremos bastante o nome desta atriz sueca que, além de se destacar em A Garota Dinamarquesa – pelo qual deve ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz (Coadjuvante?, argh!) -, tem uma atuação hipnotizante como Ava, androide que hospeda a mais recente tecnologia em inteligência artificial. Robótica quando a cena lhe exige isto, embora mais humana do que aqueles com que interage no restante do tempo, Ava busca somente o que todos nós desejamos: sobreviver. 

1. Charlize Theron, Mad Max: Estrada da Fúria

Antes de iniciar a sessão, estava animado para assistir à continuação de uma das trilogias mais badass da década de 80, estrelada pelo também badass Max Rockatansky – outrora vivido por Mel Gibson e agora por Tom Hardy; após a sessão, estava só boquiaberto e exultante não por causa do personagem-título, e sim da protagonista: a Imperatriz Furiosa, que, não dá para ser diferente, é imortalizada por Charlize Theron. No ano em que as mulheres tomaram para si os principais papéis do ano, nada mais irônico do que a campeã fazê-lo no gênero mais masculino que há, e, como resultado, terminar por reinventá-lo.

Outras 10 atuações femininas de destaque em 2015 foram, em ordem alfabética:

Amy Adams, Grandes Olhos
Hilary Swank, Dívida de Honra
Jessica Chastain, A Colina Escarlate
Jessica Chastain, O Ano Mais Violento
Julianne Moore, Mapas para as Estrelas
Lindsay Duncan, Um Fim de Semana em Paris
Maeve Jinkins, Amor, Plástico & Barulho
Nina Hoss, Phoenix
Shailene Woodley, Pássaro Branco na Nevasca
Solange Couto, Metanoia

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Os 10 Melhores Atores de 2015 | Retrospectiva

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A seguir, as melhores atuações masculinas em filmes inéditos lançados comercialmente no Brasil em 2015. Portanto, estão no páreo estreias nos cinemas, em home-vídeo, em serviços de streaming e video on demand etc. Estão de fora os filmes lançados apenas em festivais.

10. Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo

Eddie Redmayne venceu o Oscar de Melhor Ator em 2015 com uma performance cujo atributo de destaque é o empenho físico do ator em sua transformação no físico Stephen Hawking, mas sem esquecer de desenvolver também o que há de mais marcante: sua alegria de viver.

9. Benício Del Toro, Sicario – Terra de Ninguém

Durante Sicario – Terra de Ninguém, não se questiona a eficiência do ex-promotor e agora colaborador da CIA Alejandro nem de que lado da guerra contra o tráfico ele está. A questão que a atuação fria e calculada de Del Toro posa antecede isto: quais as consequências que dançar com o diabo na fronteira entre México e os Estados Unidos provocaram no anti-herói?

8. Mark Ruffalo, Foxcatcher – Uma História que chocou o Mundo

Entre a truculência de Channing Tatum e a composição de Steve Carrell (mais adiante), seria fácil desaparecer, pelo menos se não houvesse alguém talentoso como Mark Ruffalo para ser o argumento racional, a voz mansa e a atuação minimalista tão encantadora nesta narrativa que, sim, chocou o público.

7. Oscar Isaac, O Ano mais Violento

Oscar Isaac está em ascensão: ano passado esteve neste mesmo Top 10 com a performance em Inside Llewyn Davies dos irmãos Coen, este ano teve ótimas participações em Deus Ex Machina Star Wars: Episódio VII, mas é como o imigrante Abel que o ator se destaca. Uma versão do Serpico do mundo empresarial, pela maneira com que tenta alcançar o sonho americano de acordo com as regras contra jogadores corruptos, amorais e violentos, e também pela semelhança não só física com Al Pacino. E qual melhor elogio para um ator do que ser comparado com Pacino?

6. Michael Keaton, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

O retorno de Michael Keaton ao primeiro time de Hollywood pareceu bastante com o esforço idêntico de Mickey Rourke feito em O Lutador: uma atuação reflexiva, ancorada em aspectos autobiográficos e na bravura do intérprete em se despir das vaidades e rótulos e imergir de cabeça no papel, tal como faz o próprio personagem. E só quem ganha com esta promiscuidade entre arte e realidade e as consequentes nuances reveladas é o espectador.

5. Mark Rylance, Ponte de Espiões

Embora desconhecido do mundo cinematográfico, Mark Rylance carrega consigo louros e prêmios do teatro britânico, e investe seu talento para roubar o filme que deveria ser de Tom Hanks, interpretando um espião soviético inteligente e sereno por quem é facílimo torcer a favor. É um dos nomes garantidos (pode anotar e apostar) na lista dos indicados ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

4. Steve Carell, Foxcatcher – A História que Chocou o Mundo

Mesmo debaixo de maquiagem, o comediante Steve Carell – qualifico e enfatizo porque o cinema deu muitos exemplos de que retirar humoristas da zona de conforto rende ótimos resultados – desperta nossa insegurança com seu complexo de inferioridade influenciado pela figura materna controladora e sua personalidade bem desenvolvida pelo ator não apenas com base nas cenas do roteiro, mas sobretudo nos detalhes, gestos e olhares que acrescenta ao bilionário John Du Pont.

3. Michael Fassbender, Frank

Michael Fassbender também estava no Top 10 do ano passado e tem, neste ano, outra atuação marcante na adaptação de William Shakespeare Macbeth: Ambição e Guerra – sem contar a cinebiografia de Steve Jobs que estreia no Brasil em 2016, e, por Frank, eu poderia indicá-lo apenas pela cena doída em que canta uma canção sem a ‘cabeça’ que o protege do mundo. Claro que não é este o único mérito do ator, e sim o de conferir humanidade e profundidade mesmo privado dos principais recursos de atuação (os olhos e a face). 

2. J. K. Simmons, Whiplash – Em Busca da Perfeição

Depois do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, podemos refletir com prudência no lugar da paixão por que Fletcher, personagem vivido por J. K. Simmons, não é apenas a intensidade e incisão que o ator habitualmente traz a seus papéis (vide J. Jonah Jameson da trilogia Homem-Aranha): o mérito do ator é fazer com que Fletcher não seja meramente o vilão que pratica bullying contra seus alunos, mas um professor que realmente acredita que a postura nada ortodoxa, cruel e até vingativa é necessária para extrair o som mais sublime do coração de músicos talentosos. 

1. Matt Damon, Perdido em Marte

Aceito as críticas de quem julgou a minha escolha final segura, para não dizer covarde. Deixe-me explicar: sem Matt Damon, não existiria o que faz de Perdido em Marte um dos grandes filmes do ano: o elemento humano. Desde cedo na narrativa, o ator desperta uma ligação forte com o espectador, conquistada com um misto de humor autodepreciativo e força de espírito jamais inoportunos para minimizar a enrascada em que se encontra. Sem contar que o ator confere honestidade a todas as vitórias e derrotas durante sua estada no planeta vermelho. É também uma boa aposta (mas não tão segura) para a lista de indicado ao Oscar de Melhor Ator.

Outras 10 atuações masculinas de destaque em 2015 foram, em ordem alfabética:

Daniel de Oliveira, Sangue Azul
Edward Norton, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Jake Gyllenhaal, Nocaute
Jim Broadbent, Um Fim de Semana em Paris
Johnny Depp, Aliança do Crime
Josh Brolin, Vício Inerente
Michael Fassbender, Macbeth: Ambição e Guerra
Richard Gere, O Encontro
Shlomi Elkabetz, O Julgamento de Viviane Amsalem
Tom Courtenay, 45 Anos

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Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força | Crítica

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Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força | Star Wars: The Force Awakens | 2015 | Brasil | 2h15min | Dirigido por J. J. Abrams | Roteiro de Lawrence Kasdan, J. J. Abrams e Michael Arndt baseado nos personagens criados por George Lucas | Com a participação de Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver, Oscar Isaac, Harrison Ford, Mark Hammil, Carrie Fisher, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Domhnall Gleeson, Max Von Sydow, Anthony Daniels, Peter Mayhew e Gwendoline Christie | Estreia nos cinemas em 17 de dezembro de 2015.

Se eu fosse escolher a principal razão por que gostei tanto de “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força”, esta seria a humildade reverente da continuação, que também foi um motivo para o sucesso do reboot de “Star Trek”, o que, por fim, remete à personalidade do diretor, roteirista e produtor J. J. Abrams. Uma edição resumida do Steven Spielberg da década de 80, embora menos autoral, Abrams destaca-se por ser, ele próprio, um geek, portanto, capaz de entender os anseios e as expectativas da base de fãs, além de também um diretor competente, ciente de suas limitações, mas dono de um senso de espetáculo apenas inferior à habilidade de bom marqueteiro que tem. A reunião destas qualidades lhe proporcionou, aqui, a modéstia para não se seduzir e não reinventar a roda; ao invés disto, ele investiu pesadamente nos temas presentes em ambas trilogias, nas transições e elipses características, bem como nos personagens clássicos, que longe de serem meras notas de rodapé para deleite dos fãs, são peças-chave para desenrolar da trama.

Que começa quando Poe Dameron (Oscar Isaac) recebe o mapa para a localização de Luke Skywalker, procurado tanto pela Resistência, quanto pela Primeira Ordem, dividida entre a liderança de Kylo Ren (Adam Driver) e do General Hux (Domhnall Gleeson). Os eventos a seguir reunirão o ex-Stormtrooper Finn (John Boyega), a catadora de lixo Rey (Daisy Ridley que tem diversos trejeitos de outra inglesa: Keira Knightley) e o divertido robô BB-8, com Han Solo (Harrison Ford, como é bom tê-lo de volta) e Chewbacca (Peter Mayhew) em busca do paradeiro de Luke, o que os leva a (re)encontrar a Princesa Leia (Carrie Fisher), a líder da Resistência, e a traçar um plano para impedir o que quer que o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) tem em mente.

Ufa! Com tantos personagens envolvidos, nada mais natural e Hollywoodiano do que uma quantidade proporcional de cenas de ação acomodadas nas mais de 2 horas de duração. E a narrativa, embora exagere no quantum, não decepciona na qualidade das cenas, que, nos melhores momentos, confunde-se com homenagem à trilogia original e, nos piores, é sinal de preguiça para suprir a falta de originalidade. Até que não faltam momentos capitais, nostálgicos, emocionantes ou trágicos (senão, tudo junto), entretanto, diante das lutas com sabres de luz, trocas de tiros com pistolas Blaster e batalhas espaciais entre X-Wing’s e as renascidas TIE’s do Império, o saldo positivo se dilui mais do que o necessário, quase como se Abrams duvidasse do que a trama pudesse oferecer e então apostasse no plano B: inserir tantos eventos em um ritmo acelerado para que o espectador mal possa respirar, relaxar e curtir.

Entretanto, não havia por que duvidar dos temas originais de “Star Wars”: a corrupção do poder, o relacionamento tumultuado entre pais e filhos, a figura central messiânica, todos com alternativas importantes em vez de serem simples repetições. Tome, p. ex., o vilão Kylo Ren: com o desejo de ser igual a Darth Vader – o que o roteiro sabiamente contradiz em um diálogo breve de Rey, como se confessasse não ter a menor pretensão de fazê-lo –, ele não teme ser corrompido pelo lado negro, como aconteceu com Anakin e Luke, e sim de ser atraído pela luz, parecendo acreditar verdadeiramente nos (absurdos) argumentos da Primeira Ordem prol uma espécie de eugenia nazista – um mérito da atuação conflituosa de Adam Driver, ator de quem, até então, não gostava. Esta desvirtuação do discurso, aliás, nos leva à decisão mais lúcida que a produção tomou, e que, conhecendo o conservadorismo dos estúdios e a posterior ‘revolta’ (risos) de meia dúzia de babacas nas redes sociais, não deve ter sido uma vitória fácil: a escolha de uma atriz e de ator afro-americano em vez de um homem branco para o papel de salvador. (Como isto fará bem para as superproduções). Ambos interpretam órfãos – uns lerão, nas entrelinhas, menção a como Hollywood ‘abandonou’ e relegou mulheres e afro-americanos a papéis secundários –, com carisma, presença de cena e sem jamais acusar o peso da responsabilidade que estes papéis representam.

Há outro aspecto muito bem explorado na narrativa: a existência, no meio de reencontros com personagens queridos, de uma aflição latente e crescente, pacientemente construída por Abrams até finalmente ganhar forma e tomar o espectador com (F)orça implacável. E somente um geek/cineasta para saber que o que torna “Star Wars” verdadeiramente marcante não são a mitologia Jedi ou todo o contexto de ficção de ação, mas sim o aspecto humano e os relacionamentos entre os personagens. E investir nisto, apesar dos festins e flares, que torna especial este “O Despertar da Força”, tão apaixonado pelo legado herdado quanto é humilde e competente em criar um novo.

Star 2

Star Wars

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Em Três Atos | Crítica

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Em Três Atos | 2015 | Brasil | 1h16min | Dirigido por Lúcia Murat | Roteiro de Lúcia Murat baseado em textos de Simone Beauvoir e no espetáculo “Qualquer Coisa a Gente Muda” | Com a participação de Nathália Timberg, Andréa Beltrão, Angel Vianna e Maria Alice Poppe | Estreia nos cinemas em 10 de dezembro de 2015.

Em Três Atos

Não pretendo monopolizar o medo da morte, mas, desde que pensei nisto pela primeira vez, por volta dos tempos em que era um pirralho mimado e estimulado pelo falecimento precoce do meu pai, criei um pesadelo mais assustador do que o famoso fade to black ou o fechar das cortinas do teatro: o pesadelo de ‘não ser’ e sequer poder, intelectualmente ou mesmo inconscientemente, reconhecer estar neste estado. Morte é tabu, e a invenção da religião nada mais é do que o primeiro artifício para lidar com a inevitabilidade desse evento, ao passo que cientistas procuram meios de retardá-la ou vencê-la, e espero que não demorem mais tanto porque quero ainda estar vivo neste dia. Confissão feita, vamos à crítica.

“Em Três Atos”, novo filme da diretora Lúcia Murat (de “A Memória que me Contam”), inspirado no texto de Simone Beauvoir e também na peça “Qualquer Coisa a Gente Muda”, é um ensaio poético sobre a morte narrado em dois momentos: o primeiro, a partir do entardecer da velhice, quando a octogenária e inominada personagem interpretada por Nathália Timberg vislumbra o próprio fim mas não sem antes exumar a memória da perda da Mãe, vítima de câncer, quando então dá voz à personagem de Andréa Beltrão, seu-Eu 30 anos mais jovem, o segundo momento. Entre cada monólogo, declamado diretamente ao público, e cada lembrança, a bailarina Angel Vianna participa, mas principalmente assiste à dança artística da ex-aluna Maria Alice Poppe.

Ambos ‘duos’, por assim dizer, comunicam-se de tantas formas que, depois do tempo de adaptação à narrativa, é impossível dissociar um do outro: Maria Alice dança os passos que o corpo envelhecido, embora bastante expressivo de Angel Vianna não podem mais reproduzir, assim como Nathália Timberg, que confessa a perda progressiva da memória, precisa de Andréa Beltrão para enfrentar a alvorada do fim. E estas quatro personagens, que, se você quiser interpretar como eu, podem representar o mesmo indivíduo, distinguem-se somente por habitarem instantes diversos do tempo: as bailarinas, a abstração da dança; Nathália, a atualidade; Andréa, o passado vivo e pungente. Todas, portanto, detêm percepções bem particulares da morte, apesar de, em comum, integrarem a estrutura em três atos que dá nome ao filme e que é adotada largamente na arte em geral: Corpo, Morte e Despedida, ou Introdução, Desenvolvimento e Conclusão.

Relacionar estes atos é trabalho para os letreiros que os antecedem, embora seja mesmo prazerosa a sobriedade poética assim como a identificação das rimas que associam ficção e documentário, dança, cinema e poesia: a mise en scène, ou seja o posicionamento e a movimentação das atrizes e dançarinas em cena, exprime o conceito de complementariedade através da ocupação dos espaços vazios deixados por uma pela outra, p. ex.: se em um momento Andréa caminha em direção ao quarto de hospital onde está internada a Mãe, no outro, Nathália faz o sentido contrário; já Angel e Maria Alice dançam em direção uma da outra. Isto não é por acaso, p. ex.: repare que o caminhar de Andréa indica a recusa das flores vermelhas que Nathália trazia nas mãos, virando-lhe as costas e se afastando, ao passo que Angel recebe de sorriso no rosto o mesmo buquê entregue por Maria Alice.

Parece-me, e de novo isto está aberto a interpretação, que as poesias que afastam Nathália e Andréa aproximam Angel e Maria Alice quando coreografadas. A minha conclusão é esta: o entendimento existente em ideias e palavras tende a amadurecer com o tempo de maneira que a revolta e frustração de Andréa dissolvem-se na serenidade e aceitação de Nathália; por sua vez, a dançarina realiza os movimentos em que está treinada até ser traída pelo corpo. Logo, enquanto a mente floresce, o corpo decaí, e o envelhecimento, em regra precedente a morte, ganha vida e alma na conjugação cinematográfica de poesia e dança. Sobra então alimentar-se das memórias da juventude e, a partir delas, reconciliar-se com o conceito assustador, porque foge do nosso entendimento, embora belissimamente retratado, da finitude.

Em 3 Atos 2

Em 3 Atos

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Indicados ao 22º Screen Actors Guild Awards | Premiações

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SAG

O Sindicato dos Atores, principal termômetro das categorias correspondentes para o Oscar, apresentou hoje pela manhã sua lista de indicados para a cerimônia que acontecerá no dia 30 de Janeiro de 2016. A seguir, os indicados:

Melhor Ator

Bryan Cranston, Trumbo
Johnny Depp, Aliança do Crime
Leonardo DiCaprio, O Regresso
Michael Fassbender, Steve Jobs
Eddie Redmayne, A Garota Dinamarquesa

Melhor Atriz

Cate Blanchett, Carol
Brie Larson, O Quarto de Jack
Helen Mirren, A Dama Dourada
Saorise Ronan, Brooklyn
Sarah Silverman, I Smile Back

Melhor Ator Coadjuvante

Christian Bale, A Grande Aposta
Idris Elba, Beasts of no Nation
Mark Rylance, Ponte de Espiões
Michael Shannon, 99 Casas
Jack Tremblay, O Quarto de Jack

Melhor Atriz Coadjuvante

Rooney Mara, Carol
Rachel McAdams, Spotlight – Segredos Revelados
Helen Mirren, Trumbo
Alicia Vikander, A Garota Dinamarquesa
Kate Winslet, Steve Jobs

Melhor Elenco

Beast of no Nation
A Grande Aposta
Spotlight – Segredos Revelados
Straight Outta Compton – A História do N. W. A.
Trumbo

Beast of no Nation (Netflix), A Dama Dourada (Video on Demand e Locadoras), Straight Outta Compton – A História do N. W. A., Ponte de Espiões e Aliança do Crime (Cinemas) já chegaram ao mercado nacional; todos os demais devem entrar em cartaz nacionalmente nos meses que antecedem a cerimônia do Oscar. Apenas I Smile Back ainda não tem data de estreia prevista, o que deve mudar. 

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Os 100 Melhores Filmes Brasileiros | Listas

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A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), organização da qual faço parte desde 2013, encarou uma tarefa cascuda: eleger os 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos a partir dos rankings pessoais dos membros da entidade, críticos e jornalistas especializados espalhados ao redor do país. O resultado, ponto de partida do livro “Os 100 Melhores Filmes Brasileiros”, a ser lançado no próximo ano, serve para tirar o ranço amargo deixado por quem acha que o Brasil somente produz(iu) pornochanchadas e comédias besteróis estilo Globo Filmes. Bem, sem maiores delongas, a seguir a lista da entidade (que é a que interessa, afinal de contas), e logo depois a minha humilde seleção.

Lista Abraccine

Limite

Limite (1931), de Mário Peixoto, o melhor filme brasileiro segundo a Associação Brasileira de Criticos de Cinema

1. Limite (1931), de Mario Peixoto
2. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha
3. Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos
4. Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho
5. Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha
6. O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla
7. São Paulo S/A (1965), de Luís Sérgio Person
8. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles
9. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte
10. Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade
11. Central do Brasil (1998), de Walter Salles
12. Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco
13. Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado
14. Eles Não Usam Black-Tie (1981), de Leon Hirszman
15. O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho
16. Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho
17. Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho
18. Bye Bye, Brasil (1979), de Carlos Diegues
19. Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias
20. São Bernardo (1974), de Leon Hirszman
21. Iracema, uma Transa Amazônica (1975), de Jorge Bodansky e Orlando Senna
22. Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri
23. Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra
24. Ganga Bruta (1933), de Humberto Mauro
25. Bang Bang (1971), de Andrea Tonacci
26. A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1968), de Roberto Santos
27. Rio, 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos
28. Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho
29. Memórias do Cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos
30. Tropa de Elite (2007), de José Padilha
31. O Padre e a Moça (1965), de Joaquim Pedro de Andrade
32. Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci
33. Santiago (2007), de João Moreira Salles
34. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha
35. Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010), de José Padilha
36. O Invasor (2002), de Beto Brant
37. Todas as Mulheres do Mundo (1967), de Domingos Oliveira
38. Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), de Julio Bressane
39. Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto
40. Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra
41. O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga
42. A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral
43. Sem Essa Aranha (1970), de Rogério Sganzerla
44. SuperOutro (1989), de Edgard Navarro
45. Filme Demência (1986), de Carlos Reichenbach
46. À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), de José Mojica Marins
47. Terra Estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas
48. A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla
49. Rio, Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos
50. Alma Corsária (1993), de Carlos Reichenbach
51. A Margem (1967), de Ozualdo Candeias
52. Toda Nudez Será Castigada (1973), de Arnaldo Jabor
53. Madame Satã (2000), de Karim Ainouz
54. A Falecida (1965), de Leon Hirzman
55. O Despertar da Besta – Ritual dos Sádicos (1969), de José Mojica Marins
56. Tudo Bem (1978), de Arnaldo Jabor (1978)
57. A Idade da Terra (1980), de Glauber Rocha
58. Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles
59. O Grande Momento (1958), de Roberto Santos
60. O Lobo Atrás da Porta (2014), de Fernando Coimbra
61. O Beijo da Mulher-Aranha (1985), de Hector Babenco
62. O Homem que Virou Suco (1980), de João Batista de Andrade
63. O Auto da Compadecida (1999), de Guel Arraes
64. O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto
65. A Lira do Delírio (1978), de Walter Lima Junior
66. O Caso dos Irmãos Naves (1967), de Luís Sérgio Person
67. Ônibus 174 (2002), de José Padilha
68. O Anjo Nasceu (1969), de Julio Bressane
69. Meu Nome é… Tonho (1969), de Ozualdo Candeias
70. O Céu de Suely (2006), de Karim Ainouz
71. Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert
72. Bicho de Sete Cabeças (2001), de Laís Bondanzky
73. Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda
74. Estômago (2010), de Marcos Jorge
75. Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes
76. Baile Perfumado (1997), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira
77. Pra Frente, Brasil (1982), de Roberto Farias
78. Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1976), de Hector Babenco
79. O Viajante (1999), de Paulo Cezar Saraceni
80. Anjos do Arrabalde (1987), de Carlos Reichenbach
81. Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina
82. O País de São Saruê (1971), de Vladimir Carvalho
83. A Marvada Carne (1985), de André Klotzel
84. Sargento Getúlio (1983), de Hermano Penna
85. Inocência (1983), de Walter Lima Jr.
86. Amarelo Manga (2002), de Cláudio Assis
87. Os Saltimbancos Trapalhões (1981), de J.B. Tanko
88. Di (1977), de Glauber Rocha
89. Os Inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade
90. Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1966), de José Mojica Marins
91. Cabaret Mineiro (1980), de Carlos Alberto Prates Correia
92. Chuvas de Verão (1977), de Carlos Diegues
93. Dois Córregos (1999), de Carlos Reichenbach
94. Aruanda (1960), de Linduarte Noronha
95. Carandiru (2003), de Hector Babenco
96. Blá Blá Blá (1968), de Andrea Tonacci
97. O Signo do Caos (2003), de Rogério Sganzerla
98. O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), de Cao Hamburger
99. Meteorango Kid, Herói Intergaláctico (1969), de Andre Luis Oliveira
100. Guerra Conjugal (1975), de Joaquim Pedro de Andrade (*)
101. Bar Esperança, o Último que Fecha (1983), de Hugo Carvana (*)
(*) Empatados na última colocação, com o mesmo número de pontos.


Lista Pessoal

Deus e o Diabo

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, o melhor filme brasileiro segundo minha humilde opinião


1. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)
2. O Pagador de Promessas (1962)
3. Pixote – A Lei do Mais Fraco (1981)
4. Cabra Marcado para Morrer (1984)
5. Cidade de Deus (2002)
6. Terra em Transe (1967)
7. Memória do Cárcere (1984), ausente na Lista da Abraccine
8. Lavoura Arcaica (2001)
9. Vidas Secas (1963)
10. Ônibus 174 (2002)
11. Tropa de Elite 2 (2010)
12. Central do Brasil (1998)
13. Assalto ao Trem Pagador (1962)
14. Edifício Master (2002)
15. Dossiê Jango (2013), ausente na Lista da Abraccine
16. Limite (1931)
17. São Paulo, Sociedade Anônima (1965)
18. Dona Flor e seus Dois Maridos (1976)
19. Macunaíma (1969)
20. Eles não usam Black-Tie (1981)
21. O Bandido da Luz Vermelha (1968)
22. O Cheiro do Ralo (2007), ausente na Lista da Abraccine
23. O Palhaço (2011), ausente na Lista da Abraccine
24. Tropa de Elite (2007)
25. O Som ao Redor (2012)

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