Crítica | Jason Bourne

0comentário

Jason Bourne | Dirigido por Paul Greengrass | Roteiro de Paul Greengrass e Christopher Rouse baseado nos personagens criados por Robert Ludlum | Com Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vincent Cassel, Julia Stiles, Riz Ahmed, Ato Essandoh, Scott Shepherd, Bill Campo, Vinzenz Kiefer e Gregg Henry | Duração: 2h 3min.

Jason Bourne

Não é exagero afirmar que a trilogia Bourne (IdentidadeSupremaciaUltimato) revolucionou o cinema de ação: a agilidade e o dinamismo do trabalho de câmera e a montagem furiosa e intransigente, sem abrir mão da coerência, retratam com ímpar eficiência tanto o universo da narrativa, em que diversas fontes de informações interconectadas geram toneladas de bits de dados para quem deve tomar decisões urgentes em mínimas frações de tempo, quanto o amnésico e atormentado protagonista, cuja busca incessante por respostas move a narrativa da mesma maneira que faria um tornado nível 5. Para surpresa, não há nada glorioso, heroíco ou altruísta na trajetória de Jason Bourne: ele não quer desmascarar os programas de supersoldados da CIA, embora termine fazendo-o, e sim descobrir quem é, o que o levou a estar onde está e o que deve fazer para sobreviver. Este cinismo, discreto no original dirigido por Doug Liman e proeminente nas sequências de Paul Greengras (Voo United 93Capitão Phillips), aliado ao estado da arte da tecnologia da informação retratada fazem da franquia uma das mais contemporâneas que há.

Bem sucedida também, razão pela qual os produtores tentaram resetar a série com um novo protagonista no tépido O Legado Bourne, para então optarem pelo retorno de Matt Damon neste novo capítulo, cuja intenção elementar é a de criar um novo arco de histórias para o personagem. Denominada Jason Bourne, um título minimalista e coerente com a etapa de autodescoberta em que o protagonista está, a trama escrita por Greengrass e Christopher Rouse (montador habitual dos trabalhos do diretor e que aqui estreia na função de roteirista) traz a hacker Nicky Parsons (Stiles) com novas informações sobre o passado e o pai de Bourne. Não tarda para que a mira da CIA volte a apontar para sua cabeça, desta vez pelas armas do vingativo assassino interpretado por Vincent Cassel, e volte a vigiar cada um de seus passos com ajuda da analista Heather Lee (Vikander), subordinada ao diretor Dewey (Jones), que ainda precisa conciliar os interesses da CIA e do “povo norte-americano” (entre aspas, para destacar a ironia) com a nova rede social do magnata Aaron Kaloor (Ahmed, um Mark Zuckerberg piorado).

O jogo permanece inalterado: a CIA na figura do seu diretor (que já fora interpretado por Chris Cooper, Brian Cox, David Strathairn e Edward Norton nos episódios anteriores, agora é vivido por Tommy Lee Jones como uma raposa política) realiza uma caçada humana protegida por satélites e múltiplos monitores de computador operados pela recém-vencedora do Oscar Alicia Vikander (cuja personagem, a priori frágil, surpreende por sua ambição), enquanto as equipes de terra (os tais “assets”) tentam interceptar e neutralizar Jason Bourne, mas são, de novo, surpreendidos por sua astúcia e imprevisibilidade. Isto não chega a ser um ponto negativo, afinal, a tensão crescente e as excepcionais cenas de ação (a que passa na Grécia em meio a protestos, uou!) compensam a sensação de “estive lá, vi isto”, ao passo que o ineditismo narrativo está no envelhecimento de Matt Damon, cujos perceptíveis fios de cabelo branco, rugas e rosto cansado vão ao encontro de quem correu e lutou bastante, e agora deseja apenas manter-se fora do sistema.

Por outro lado, esse parece ser o fiapo que desfaz a bem costurada malha da narrativa. Se na trilogia original Bourne estava disposto a encontrar respostas, custe o que custar e doa a quem doer, nesta continuação com toques de reboot como têm sido praxe nas franquias (vide o novo Episódio VII – O Despertar da Força ou Jurassic World), o próprio persoangem afirma estar desmotivado. Ele somente não permanece inerte porque Nicky morre e o roteiro bola um incentivo (eu diria “uma desculpa esfarrapada”) no envolvimento do seu pai em Treadstone, que, a propósito, ainda tenta minar o que havia de melhor em O Ultimato Bourne: o fato de que Jason Bourne não foi coagido nem obrigado mas havia sido voluntário do programa, e isto fazia um caminhão de diferença no desenvolvimento do personagem.

Sorte a minha que não acredito que continuações podem depreciar os antecessores e, sendo assim, durmo tranquilo com a certeza de que a trilogia original permanece um dos pontos-alto cinematográficos da última década. Já Jason Bourne, apesar das limitações da fórmula estabelecida pela série, desponta como um filme de ação competente e bem acima da média. E se não é revolucionário, ao menos oferece 2 horas de intensidade e apreensão bastante bem-vindas.

sem comentário »

Crítica | Mãe só Há Uma

0comentário

Mãe Só Há Uma | Dirigido e escrito por Anna Muylaert | Com Naomi Nero, Daniel Botelho, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Lais Dias, Luciana Paes, Helena Albergaria, Luciano Bortoluzzi, June Dantas, Renan Teca e Clara Gallo | Duração: 1h 22 min.

Mae

3estrelas

Autoralidade pressupõe a rediscussão dos temas que instigam, afligem e inspiram o artista, e a prescindibilidade do aspecto biológico da maternidade é o elo que liga o melhor filme nacional do ano passado, Que Horas Ela Volta?, e este Mãe Só Há Uma, ambos da diretora e roteirista Anna Muylaert. O carinho materno que a empregada doméstica Val sentia pelo filho da patroa, Fabinho, e que a impelia, involuntariamente, a negligenciar a filha biológica, inclusive através da distância física, assemelha-se ao vazio existencial experimentado por Pierre (ou Felipe) após ser separado de Aracy, a mulher que acreditava ser sua mãe biológica, mas que na verdade o sequestrou na maternidade quando ainda era bebê. Ser mãe (ou pai) independe de sangue, genética ou natureza, apenas do destino e de uma cadeia de acontecimentos, quem sabe até criminosos.

Uma conclusão óbvia, saliento, razão pela qual Anna Muylaert desloca o eixo narrativa para o processo de construção da identidade pessoal. É o caso de Pierre (Nero), adolescente que está no início do processo de autodescoberta: ele transa com garotas, usa batom e veste-se com o vestido da mãe e beija um dos integrantes da banda de rock ‘roll da qual participa. Em sua indiferença, introversão e distanciamento existe o grito universal por identidade e liberdade de ser, direitos postos em cheque depois da ruptura provocada pela narrativa, que exterioriza o drama interno vivido pelo rapaz. A pergunta “Quem eu sou?” ganha contornos explícitos na perda legal do próprio nome e no reencontro com a família biológica, composta por Glória (Nefussi), Matheus (Nachtergaele) e Joca (Botelho).

Anna Muylaert aproxima-nos deles, tão vítimas, quanto Pierre, das ações de Aracy (Nefussi, daqui a pouco explico): a profundidade do campo é rasa, deixando o espectador em contato próximo com os personagens; a fotografia é crua e o grão mais grosso, o que desglamouriza a difícil realidade; e a montagem é afrouxada, substituindo a construção de sentido pela registro do cotidiano dos personagens. Não é raro, por exemplo, que Anna Muylaert corte (ou melhor arranque) o cordão umbilical de certos personagens, às vezes abrupta e violentamente, de forma que o choque ilustre o sentimento de Pierre, que de um instante ao outro, perde a mãe, a irmã, a tia e toda a vida que tinha.

Mas, por mais que essa decisão de Anna Muylaert esteja apoiada na trama, existe um custo implícito nela: senti certa frustração ao despedir-me forçadamente de personagens em cujas ações e reações construi, no decorrer da narrativa, alguma expectativa (não confundir com ideias preconcebidas). A casualidade de determinados acontecimentos e a falta de ressoluções concretas também me incomodaram: faltou o retorno a quem investiu algo na paixonite de Joca ou, principalmente, na trajetória de Pierre, cujas escolhas feitas no terceiro ato ou o extravaso dos seus sentimentos nem sequer assemelham-se à ressolução do drama (evidentemente que, em menos de 85 minutos, ninguém poderia exigir que todos os problemas fossem solucionados, apenas que o barco fosse apontado na direção correta).

Há decisões acertadas, tais como o duplo papel de Daniela Nefussi, que interpreta Aracy, a mãe sequestradora e bem quista, e Glória, a mãe biológica rejeitada, um ousado casting que, cinematograficamente, propõe múltiplas opiniões e interpretações: a idealização do rosto da figura materna por parte de Pierre ou mesmo sua responsabilização em não se entrosar (isto trouxe-me a mente Esse Obscuro Objeto do Desejo, em que Ángela Molina e Carole Bouquet interpretam um mesmo papel, mas neste caso, Luís Buñuel deseja expressar, através de personalidades diferentes, comportamentos idem). Também há vazios incontornáveis, que tornam a experiência de assistir à Mãe Só Há Uma em algo mais analítico e racional em vez de envolvente e reflexivo.

sem comentário »

Crítica | A Lenda de Tarzan

0comentário

A Lenda de Tarzan | The Legend of Tarzan | Dirigido por David Yates | Roteiro de Adam Cozad e Craig Brewer baseado nas histórias de Edgar Rice Burroughs | Com Alexander Skarsgård, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Osy Ikhile, Casper Crump, Djimon Hounsou, Ben Chaplin e Jim Broadbent | Duração: 1h 50min.

Tarzan

3estrelas

Existe algo em comum entre John Carter: Entre Dois MundosO Cavaleiro SolitárioA Lenda de Tarzan além do fato de todos serem blockbusters decentes, mas que fracassaram nas bilheterias e enterraram consigo a promessa de franquias bilionárias: a catarata. Não aquelas quedas d’água enormes que você pode observar nos planos abertos das selvas do Congo, refiro-me à lesão dos olhos que impediu os realizadores de enxergar o mercado cinematográfico de aventuras, saturado de super-heróis em universos compartilhados, robôs e monstros gigantes, adaptações de livros para os chamados “jovens adultos”, continuações, refilmagens ou reboots. Afinal, quais chances John Carter, o Lone Ranger e Tarzan, personagens corretos ou quadrados ou caretas ou aborrecidos têm contra, bem, tudo isso que eu acabei de citar?

Quase nenhuma.

Assim, esta nova adaptação das histórias de Edgar Rice Burroughs – que também era autor da série de livros de John Carter – leva-nos à Inglaterra do fim do século XIX quando o recivilizado John Clayton III (Skarsgård) e Jane (Robbie) são enviados, pelo Parlamento Britânico, ao Congo, onde John fora criado por gorilas e era conhecido como Tarzan. Lá, junto com George Washington Williams (Jackson), são emboscados pelos mercenários contratados por Leon Rom (Waltz), autodenominado homem do futuro que pretende trocar, com o chefe Mbonga (Hounsou), Tarzan por um baú de diamante com o qual pretende comprar o selo de realeza junto ao famigerado rei belga Leopoldo II, que, no mundo real, patrocinou o holocausto negro no Congo. Como falha na missão, Rom rapta Jane na esperança de recapturar Tarzan e honrar seu acordo.

Pela breve sinopse, não dá para ignorar que o roteiro escrito por Adam Cozad (de Operação Sombra – Jack Ryan) e Craig Brewer (de, hum, Footloose?) parece haver sido escrito há, no mínimo, 4 décadas, com exceção das referências esporádicas à autonomia e à independência de Jane (a rigor, a típica donzela em perigo): seus personagens estão presos a toda sorte de maniqueísmo (o herói incorruptível, o vilão maquiavélico, a civilização amistosa e receptiva da África etc), seu enfoque ambientalista e humanitário, embora admirável, está ultrapassado; seus conflitos e soluções respectivas, desgastados e não revelam a menor aspereza de comportamento ou personalidade a que os espectadores atuais estão acostumados. Seu texto é o de uma aventura clássica, no mau sentido.

Sua narrativa, salvo os efeitos especiais, também. Sobre estes, antes, é oportuno ressaltar que, em comparação com Mogli, Tarzan está alguns anos atrás. Enquanto a interação entre o protagonista, os animais e a selva parecia tão real naquele (não é a toa que, há 5 meses do fim do ano, Mogli desponta como franco-favorito para a categoria), aqui nem tanto. Para tanto, repare a artificialidade da cena em que Tarzan e George Washington caminham sobre troncos de árvores com a floresta debaixo de si. Até o rejuvenescimento dos atores é problemático, e prova disto é que o diretor David Yates usa o recurso com bastante timidez, escondido literalmente detrás da vegetação ou da escuridão, para às vezes arriscar um plano frontal sem bons resultados.

Yates, que comandou a franquia Harry Potter desde o quinto episódio, A Ordem da Fênix, esforça-se em conferir um dinamismo à narrativa e é bem sucedido nesse intuito: a trama é ágil, igual ao protagonista, e move-se, afora meia-dúzia de flashbacks aqui inofensivos, ali descartáveis, de forma segura e resoluta em direção à conclusão. Talvez até demais, pois não há um instante em que tememos pelo destino do protagonista ou de Jane, e mesmo quando aquele está em desvantagem – como na luta com o irmão gorila Akut – sabemos que nada de grave acontecerá. Afinal, Tarzan é aparentemente indestrutível, insuscetível a dor e conta com o reforço de tribos e animais da selva. Diante dele, Ron é o equivalente a uma formiga contra um elefante (sem a ajuda da fábula clássica).

Vivido por Christoph Waltz, ator que adoro, com o conjunto de recursos aos quais estamos habituados – sarcasmo, cinismo e o sorriso de canto de boca -, Ron não está à altura, literalmente inclusive, de Tarzan: Ron o respeita tanto quanto o teme e, inclusive, demonstra estar tão abalado com a chacina de gorilas quanto Jane, e por mais que estes elementos ajudem, em teoria, a incutir aspectos tridimensionais a sua personalidade, na prática a história é outra e termina por extinguir de vez a fagulha do clímax, que exige um vilão que oponha um desafio quase intransponível ao herói.

Assim, por mais que A Lenda de Tarzan apresente uma fotografia exuberante e eficiente – com diferentes paletas de cores, contrastes entre a luz e os espaços abertos e a escuridão e a densa floresta e outros bons recursos – e atuações competentes de Alexander Skarsgård, Margot Robbie e Samuel L. Jackson (bastante divertido), não é o bastante nem para provocar a gostosa nostalgia das aventuras clássicas, nem para causar empolgação nos espectadores mais afetos à destruição em massa de toda sorte de aventuras contemporâneas.

É, tal como os exemplares citados no primeiro parágrafo, um produto que nasceu extinto.

sem comentário »

Crítica | Julieta

0comentário

Julieta | Dirigido e roteirizado por Pedro Almodóvar | Com Adriana Ugarte, Emma Suárez, Rossy de Palma, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Daniel Grao, Darío Grandinetti, Nathalie Poza, Susi Sánchez, Mariam Bachir, Priscilla Delgado e Joaquín Notario | Duração: 1h 39 min.

Julieta

2estrelas

Poderia afirmar com segurança que Julieta é o melhor filme de Pedro Almodóvar em uma década (o ótimo Vólver era de 2006), mas isto não significaria muito se considerarmos os recentes desastres Abraços PartidosA Pele que HabitoOs Amantes Passageiros. Estes filmes, incluindo em menor grau Julieta, são tiros que saíram tão pela culatra que nem parece serem assinados pelo mesmo autor de Ata-MeTudo sobre Minha Mãe ou Fale com Ela: quando Almodóvar desejou nos fazer chorar, nós sorrimos do melodrama de folhetim; se a sua intenção era de produzir tensão e deixar-nos inquietos, arriamos na poltrona enquanto abrimos o sorriso amarelo de incredulidade; se, entretanto, o objetivo consistia em arrancar gargalhadas, bem, permanecemos com cara de paisagem e contamos o tempo que falta para encerrar o engodo. Sintomas de um diretor que envelheceu mal artisticamente, o que não deixa de ser uma perda enorme para amantes do cinema.

Neste Julieta, Almodóvar conta a história da personagem-título, interpretada por Emma Suárez (pós-50 anos) e Adriana Ugarte (pré-50 anos), por sinal, a cara de Sharon Stone na década de 90. No pouco contato que temos com Julieta, conhecemos uma mulher de meia idade apática, despersonalizada e introvertida, características que o design de produção destaca na composição do apartamento: as cores neutras, os móveis caretas e a pouquíssima informação pessoal, senão um ou outro porta-retrato e livros com que preenche o tempo. O mesmo pode ser dito dos figurinos, que comunicam melhor os sentimentos dos personagens do que fazem palavras: repare nos momentos centrais em que Julieta veste roxo, cor que simboliza a morte. Onde estava? Ah sim, um certo dia, pelas ruas de Madri, Julieta encontra Bea (Jenner), que, quando adolescente, era a melhor amiga de sua filha Antía. A descoberta do paradeiro da filha reacende em Julieta a chama de um trauma antigo, revivido no retorno ao antigo imóvel onde morava e no diário que endereça à filha.

Em seguida, a narrativa retrocede décadas para reencontrar a versão mais jovem de Julieta e mais parecida com suas personagens típicas na forma de se vestir e de se comportar. Impulsiva, Julieta apaixona-se por Xoan (Grao) e viaja para morar com ele apesar da hostilidade da governante Marian (de Palma, uma das atrizes fetiche de Almodóvar). Não demora para que nasça Antía. Mas a felicidade da família esbarra no mar revolto de acontecimentos trágicos. A partir daí que o barco vira, literalmente: o formato em flashback, como canso de afirmar, não costuma me agradar, e piora por ser acompanhado pela narração in off da protagonista, um sintoma da preguiça do autor em encontrar alternativas narrativas melhores. É verdade que a escolha do formato produz um tiquim de suspense e casa bem com as revelações feitas no terceiro ato, que pecam, entretanto, por serem, repito, narradas em vez de solucionadas com o grau de sofisticação possibilitado pelo cinema.

Mas como fazê-lo se o próprio diário de Julieta, naturalmente composto dos eventos capitais de sua vida, resulta, por lógica, em uma trama episódica, que salta entre acontecimentos sem sequer deixá-los amadurecer na nossa cabeça – embora haja uma elipse (a passagem de tempo) envolvendo uma toalha que é de um brilhantismo indescritível. A consequência disso é a superficialidade dos personagens, que encerram arquétipos cinematográficos em vez de seres humanos de carne e osso, e a dificuldade da trama em se comunicar com o espectador, e apesar do sentimentalismo de Almodóvar estar mais contido do que de hábito, ele não se traduz em emoção.

Há quem pense em Antía como o exemplo da superficialidade e incomunicabilidade, uma vez que suas ações bruscas e distantes da razoabilidade a afastam radicalmente de nós. Entretanto, até estaria correto quem contrargumentasse ser esta a intenção de Almodóvar, a de cobrir com nuvens escuras seus sentimentos e motivações, de modo que nós sentíssemos o mesmo drama de Julieta: a impossibilidade de compreender a filha senão tardiamente (por este ponto de vista, o desfecho apresenta uma ironia amarga correta). Mas se era para ser assim, por que Almodóvar recheia a narrativa com tantos excessos? Personagens que não desempenham função narrativa alguma (os pais de Julieta), outros que servem um propósito pontual (a melhor amiga de Xoan), e aqueles cujo comportamento é tão esdrúxula que chegamos a duvidar estarmos realmente vendo o que estamos vendo (a governante Marian). Ou então eventos que dialogam com a narrativa de forma rasa, como a morte de um passageiro no trem.

E assim, com pouco tempo para desenvolver de forma apropriada o que existe de mais importante: o relacionamento mãe e filha, Almodóvar tem nas mãos uma obra com potencial, embora narrada de forma a não produzir emoções contundentes. Apenas discreta curiosidade.

sem comentário »

Série | Stranger Things

0comentário

Stranger Things | Série criada pelos irmãos Duffer | Com Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Joe Chrest e Noah Schnapp | 1a Temporada, 8 episódios | Disponível no Netflix.

Stranger Things

Sou filho da década de 80, e passei parte da minha pré-adolescência assistindo aos clássicos do período: E. T. – O ExtraterrestreOs GooniesConta ComigoPoltergeistO Enigma do Outro Mundo, Contatos Imediatos do Terceiro Grau são alguns dos principais exemplares que serviram de inspiração para que os irmão Matt e Ross Duffer desenvolvessem Stranger Things: uma viagem para um tempo em que o cinema não subestimava a capacidade dos mais novos de enfrentar monstros, alienígenas e criaturas fantásticas que representavam, de forma metafórica, o difícil estágio da pré-adolescência. Hoje, é raro assistir nos cinemas a um produto voltado ao público infanto-juvenil – e a nós, jovens adultos – como esta temporada com 8 episódios, disponível no Netflix: assustadora, desafiadora, nostálgica e que mexe em temas delicados sem receio de caminhar sobre ovos e quebrá-los.

O roteiro leva-nos à pacata Hawkins, cidadezinha cinematográfica típica do interior norte-americano, em que os dias são iguais aos outros e nada de grave parece acontecer… ou seja, um ótimo disfarce para uma instalação ultrassecreta do governo norte-americano. Certa noite, o jovem Will desaparece de forma misteriosa e sem deixar vestígios; a mãe, Joyce, entra em desespero e parece perder a cabeça; o delegado Jim, a priori rabugento e calejado por um trauma do passado, anda em círculos e esbarra em portas enquanto monta as pistas do quebra-cabeça do desaparecimento; cabe então aos amigos Mike, Dustin e Lucas a tarefa de assumir a rédea das buscas, sem mencionar isto aos adultos – em quem não confiam, como de praxe – nem desconfiar da ameaça que estão enfrentando, sobretudo depois de encontrarem Onze, uma garota que pode haver fugido de um hospital ou sanatório e possui poderes paranormais, em quem devem decidir confiar ou não.

Amizade e relacionamento pais e filhos, estes são os pilares sólidos sobre os quais a narrativa é erguida e que servem de bússola para guiar a ação de praticamente todos os personagens. Investir nessa fundação é a decisão mais sensata dos irmãos Duffer, afinal, ao fatorar uma complexa trama fantástica, que envolve temas batidos como os testes com LSD patrocinados pela CIA, paranormalidade, monstros, mundos invertidos etc, em um conjunto de relações elementares com as quais nos identificamos de forma instintiva, a dupla de criadores permite que cada ação, por mais absurda que pareça, tenha a força para nos aproximar de personagens muitíssimo bem construídos. É uma receita simples, se você pensar bem, e assusta o fato de que tantas produções terminem por preterir o aspecto humano em favor da ação e de uma estética desacompanhada de susbstância.

É evidente que com isto não quero desmerecer o trabalho do design de produção, que aqui reconstrói a década de 80 inclusive com direito às teorias da conspiração e à paranoia da guerra fria, tão marcantes naquele período. Mas não apenas tematicamente, a própria estética narrativa oitentista pulsa de forma autêntica e reverente: o contraste entre espaços escuros e os fachos de luz, como nos clássicos faróis das bicicletas, a câmera na altura dos olhos das crianças, a fotografia de cores lavadas e apáticas, a trilha sonora eletrônica do período e a arte dos créditos iniciais, cujas letras em neon conectam-se pouco a pouco antes de revelar o título.

Tal como faz a estrutura narrativa, que se subdivide em quatro linhas diferentes – encabeçadas por seus respectivos “protagonistas”: Joyce, Jim, Jonathan e Mike -, cada qual com informações parciais e incompletas, que não deixam enxergar o mosaico como ele verdadeiramente é, mas suficientemente interessantes e bem conduzidas para que seja prazeroso e tenso acompanhá-las. Os irmãos Duffer e Shawn Levy (de Uma Noite no MuseuDoze é Demais), que é quem comanda os episódios 3 e 4, administram as revelações com inteligência e empregam os clichês a seu favor a fim de fazer com que cada porção da temporada traga informações suficientes para que devoremos os oito episódios de uma só vez. Até mesmo o uso exagerado de flashbacks, que na maioria das vezes não são as melhores soluções, serve para justificar as ações e comportamentos dos personagens.

Todos eles, aliás, interessantíssimos. A começar do elenco adulto, com Matthew Modine interpretando um cientista maluco/agente do governo norte-americano de pouquíssimas palavras, Winona Ryder, como uma mãe cujos gritos ecoam o desespero por haver perdido o filho caçula, e David Harbour, que faz o tipo do herói desgastado e hesitante mas movido por um sentimento maior do que altruísmo. Mas é o elenco infanto-juvenil que mais salta aos olhos, e fazer crianças, amadores geralmente, soarem como atores autêntico e em pleno domínio do ofício é um trabalho de grandes diretores: Finn Wolfhard destaca de forma inocente os principais vetores que nos diferenciam, amizade e amor; já Gaten Matarazzo confere enorme lealdade a Dustin, mesmo que ele pareça ser apenas o engraçadinho da turma e fonte de alívio cômico; por fim, Millie Bobby Brown acrescenta dor, sofrimento e esperança a Onza, que, em mãos menos talentosas, poderia soar como uma caricatura.

Estrelada por personagens com os quais podemos nos relacionar e preocupar, em uma trama que não os menospreza somente por serem crianças nem subestima o espectador, a primeira temporada de Stranger Things reúne as qualidades que fizeram o nome de Steven Spielberg e que transformaram os anos 80 em uma década profícua de clássicos da ficção e do terror. Quanto a crise de abstinência, bem, os irmãos Duffer já anunciaram o desenvolvimento da segunda temporada. Resta esperar!

sem comentário »

Crítica | Caça-Fantasmas

1comentário

Caça-Fantasmas | Ghostbusters | Direção de Paul Feig | Roteiro de Katie Dipold e Paul Feig baseado no filme de 1984 dirigido por Ivan Reitman e escrito por Dan Aykroyd e Harold Ramis | Com Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Kate McKinnon, Leslie Jones, Chris Hemsworth, Bill Murray, Dan Aykroyd, Sigourney Weaver, Ernie Hudson e Neil Casey | Duração 1h 56min.

Caça-Fantasmas

3estrelas

A internet é uma lagoa suja e pegajosa onde habitam sapos, aranhas e serpentes camuflados sob a névoa venenosa e pútrida, à espera de transeuntes perdidos: seu banquete. Ao menos isto poderia explicar por que, mesmo antes de estrear comercialmente, Caça-Fantasmas (que mancada imperdoável da Sony não haver incluído o artigo “As” antes do título) desfilava com notas baixíssimas no iMDb (o banco de dados de filmes da internet) e comentários ofensivos em potencialmente todo fórum ou rede social que se preze a divulgar os lançamentos e abrir espaço para “opiniões”. E se algum dia você esteja caçando o que fazer e desejar ler o que há de pior no esgoto da internet, convido-o a visitar a sessão de comentários do primeiro trailer do filme no YouTube, será pior que ver uma alma penada na sua frente.

Mas este reboot do clássico oitentista não é a primeira, nem tampouco será a última vítima desses trolls machistas e intolerantes, “xatiadinhos” por que substituíram o elenco masculino por um feminino, até porque, quem disse que mulheres não podem caçar fantasmas? O reboot, co-escrito por Katie Dippold e Paul Feig, refaz os passos do original e apresenta uma Nova Iorque à beira de ser invadida por fantasmas, que chegam a este plano de existência através de portais abertos por um sujeito amargurado (North), inspirado pela obscura publicação de Erin Gilbert (Wiig) e Abby Yater (McCarthy). As autoras, depois de resolveram suas diferenças, reúnem-se em torno de um assunto pelo qual são apaixonadas e formam, com a ajuda de Holtzmann (McKinnon) e Patty (Leslie Jones), o quarteto que você chamará se houver algo estranho na sua vizinhança.

Dirigida por Paul Feig, de “Missão Madrinha de Casamento”, “As Bem-Armadas” e “A Espiã que Sabia De Menos”, esta comédia de aventura, assim como o original, preocupa-se em estabelecer suas personagens e seu contexto perto do icônico, mas não a ciência (ou “ciência”) acerca de ectoplasmas, mochilas de prótons etc. Chega a ser uma piada interna a quantidade de teorias, termos complicados e equipamentos que brotam no roteiro sempre que as caça-fantasmas precisam jogar luz em algum evento ou demonstrar a funcionalidade de uma nova arma ao espectador. É bom que seja assim, por motivos óbvios de não cair no ridículo – alô, as quatro carregam armas nucleares nas costas! -, mas sobretudo para ajudar a aliviar o estresse do cinema contemporâneo que sente uma urgência patologicamente nolaniana de encontrar explicações plausíveis ao custo da magia que o cinema antigamente proporcionava.

Assim, Caça-Fantasmas é como um retorno à década de 80, quando, em vez de perguntar-se como Holtzmann bola soluções a cada nova cena e com quais recursos Abby pode conduzir a investigação no laboratório de uma faculdade, o foco resume-se à ação, à reação e à interação do quarteto e à surrealidade da premissa. O que, de certa maneira, é traduzido no hilário personagem de Chris Hemsworth, uma sátira à secretária “loira burra” para quem a profissão de caça-fantasmas nada parece ter de tão extraordinário. Este é o universo do fantástico e as regras, menos rígidas que as do mundo real, o que deixa mais espaço para o elenco brilhar: Kristen Wiig e Melisa McCarthy, mais familiares ao público, permitem que McKinnon e Jones destaquem-se pelo fator novidade: esta, com seu estilo expansivo, aquela, por parecer uma versão do Dr. Emmett Brown após ingerir meia dúzia de quaaludes surrupiadas do Lobo de Wall Street. A propósito, a sexualidade de Holtzmann é discutida com bom humor e naturalidade em flertes casuais a Erin que, infelizmente, não consegue ser a Dr. Venkman, o personagem de Bill Murray, desta versão.

Por falar em Murray, o ator, assim como os caça-fantasmas originais, inclusive o falecido Harold Ramis, surgem em figurações divertidas. Porém esta não é a única forma de reverenciar o original: Geleia, o monstro de marshmallow Stay Puft e até Zuul são reapresentados de forma orgânica na narrativa que, visualmente, não reinventou a roda mas manteve inalterada a concepção dos raios de prótons ou dos ectoplasmas, com auras de um verde ou azul estridente.

Entretanto, o custo dos U$ 150 milhões pesa na conta e Caça-Fantasmas deve, no terceiro ato, ser o blockbuster que parte do público deseja: muita ação, efeitos especiais, destruição em massa etc, aspectos em que Paul Feig não é tão especialista para evitar a sensação de “estive aqui, vi isto”. Ainda assim, o resultado é um reboot divertido, que honra a reputação da franquia e apresenta grandes personagens. Atrizes engraçadas e cheias de personalidade para livrar Nova Iorque de fantasmas e, quem sabe, caçar os trolls desse pântano chamado internet.

1 comentário »

Crítica | Paulina

0comentário

Paulina | La Patota | Direção de Santiago Mitre | Roteiro de Santiago Mitre e Mariano Llinés baseado no roteiro original de Eduardo Borrás e Daniel Tinayre | Com Dolores Fonzi, Oscar Martínez, Esteban Lamonthe, Cristian Salguero, Laura Lopez Moyano, Andrea Quattrocchi, Veronica Llinás, Ezequial Diaz e Silvina Satander | Duração: 1h 43min | Em exibição nos cinemas e disponível no catálogo do NOW.

Paulina

3estrelas

A idealista Paulina (Dolores Fonzi) resolve abandonar o emprego público e o doutorado para, contrariamente ao desejo do pai, o juiz Fernando (Oscar Martínez), assumir o emprego de professora de ciências políticas na escola do vilarejo de uma cidadezinha da Argentina na fronteira com o Paraguai. Alguns dias após estabelecer-se na localidade e ser recebida friamente em sala de aula, Paulina é confundida, atacada e enfim estuprada por uma gangue, liderada por Ciro e formada por alunos seus, inclusive. Dias depois do trauma, e apesar de ser aconselhada a não fazê-lo, Paulina retoma as aulas, descobre estar grávida e enfrenta um embate ideológico consigo própria e com o pai, cujo ponto de vista não é tão reacionário como muitos imaginariam.

A bem da verdade, Paulina é um daqueles filmes que devem dar um nó enorme na cabeça dos esquerdistas e direitistas que não conseguem enxergar além do espectro de suas ideologias políticas. Os temas postos à mesa propõem, isoladamente, debates acalorados ao passo que as reviravoltas da narrativa dão uma rasteira nas ideias preconcebidas de ambos os lados. Isto fica claro logo na cena inicial, quando, em longo plano sem cortes, Paulina e Fernando são postos frente a frente, como se participassem de debate politico, em que aquela parece orgulhar-se do desejo de por em prática sua revolta e seu antagonismo à posição paterna enquanto pronuncia acusações de conservadorismo, elitismo e preconceito social, ao passo que ele esforça-se em administrar a situação detrás do confortável status quo que detém.

Para azar de ambos – especialmente de Paulina, claro! -, nada no mundo real é tão preto e branco quanto parecia ser na teoria. Seria ingênuo crer diferente. Nisto, o maior mérito do diretor e co-roteirista Santiago Mitre está em permitir que as decisões tomadas por Paulina não sejam apenas fruto de teimosia, mas de uma vontade autêntica de não se entregar ao pragmatismo que tanto condena. Para isso ele conta com a presença apaixonada de Dolores Fonzi, que constrói uma personagem forte e corajosa, a princípio, para então revelar traços pontuais de fragilidade, hesitação e instropecção emocional. Mas mesmo vítima da mais inominável violência contra a mulher, Paulina jamais se desgarra do que acredita, pelo contrário, permite que isto amadureça dentro de si a ponto de tornar-se uma mártir em favor da própria causa.

Gosto particularmente quando, depois de Fernando expressar o desejo da filha abortar, Paulina pergunta-lhe se ele pediria a mesma coisa caso o estupro fosse praticado pelo namorado, bêbado. Sem comprometer-se, Fernando devolve a mesma situação hipotética e emenda: você abortaria? Paulina responde afirmativamente, em um instante tão eficiente quanto é revelador: o aborto, neste caso, é usado pela protagonista como moeda política para vender o argumento de que a desigualdade social e a falta de educação que geram a violência. Daí porque punir os criminosos não seria uma demonstração de justiça, e sim de excesso de poder contra uma população marginalizada e miserável. Ou ao menos este é o ponto simplista, bem de esquerda, da protagonista, ao passo que a do pai é a de punir os criminosos, a despeito dos meios necessários para efetivar isso.

Mas se o questionamento moral é oportuno, Santiago Mitre atrapalha-se ao procurar abraçar inúmeras discussões, sem a capacidade de explorá-las de maneira contundente. Evidentemente que o estupro, por mexer com o brio do público, é o tema de destaque, mas isto não afasta do debate assuntos satélite como o altruísmo social, o direito ao aborto, a demonstração de justiça aos pobres, as desigualdades etc. No entanto, o que Mitre termina por fazer é o equivalente a falar de boca cheia, e na pressa de oferecer um contraponto à opinião construída pelo espectador a partir dos fatos em tela, acaba cuspindo comida mastigada, sem discutir razões, e sim oferecendo respostas requentadas.

Certo é que, apesar desse equívoco, significativo se considerados os objetivos da narrativa, Paulina emoldura sua discussão com uma sequência de simbolismo marcante e inconfundível: ao retratar a protagonista caminhando, sozinha, em direção à tela (em direção a nós, portanto) com um misto de insegurança e resolução, Mitre destaca que, no final das contas, pouca importa o que pensamos, já que é Paulina quem deverá percorrer o caminho árido e tortuoso pavimentado com as próprias decisões.

Uma imagem forte que retrata, com o preciosismo cinematográfico que tanto amo, o estigma que milhares de mulheres mundo afora carregam sobre os ombros.

sem comentário »

Crítica | Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo

0comentário

Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo | Dirigido por Afonso Poyart | Roteiro de Afonso Poyart e Marcelo Rubens Paiva | Com José Loreto, Cléo Pires, Jackson Antunes, Cláudia Ohana, Milhem Cortaz, Rafinha Bastos, Thaila Ayala, Rômulo Neto, Paloma Bernardi, Robson Nunes e José Trassi | Duração: 1h 47 min.

Mais forte que o mundo

Menos costuma ser mais na arte, e no cinema isto não é diferente. A discrição costuma ser a melhor abordagem, seja detrás, seja em frente às câmeras, sobretudo em estudos de personagens que encontraram uma forma de extravasar os sentimentos por tanto tempo internalizados. Fugir do autocontrole, geralmente com propósito estilístico, tende a ser uma decisão arriscada, e não a toa diretores como Zack Snyder, Tom Hooper e Danny Boyle atraem o olhar cético por tentarem chamar mais a atenção para si do que para a história que pretendem contar. Isto não quer dizer que os diretores devam abandonar a autoralidade que lhes dá individualidade, mas dosá-la conforme a narrativa. Um bom exemplo? David Fincher, que no início da carreira parecia fascinado com a própria engenhosidade, até submeter seu estilo ao crivo narrativo, e criar obras exemplares como ZodíacoA Rede SocialGarota Exemplar.

No Brasil, Afonso Poyart desponta como o principal exemplo desse grupo de diretores. Após apresentar seu cartão de visita com o moderninho 2 Coelhos (do qual não gosto) e comandar estrelas hollywoodianas no thriller Presságios de um Crime, quando não pode impor, senão raramente, sua assinatura autoral, o diretor lança a biografia do lutador de MMA José Aldo, Mais Forte que o Mundo. Escrito em conjunto com o dramaturgo Marcelo Rubens Paiva, o texto traz como a a válvula dramática da história de superação do oprimido personagem-título (Loreto), o relacionamento com o pai (Antunes), um sujeito castigado pela vida que encontrou escapatória no fundo da garrafa de cachaça, que o torna abusivo e violento. É depois dele espancar Rocilene (Ohana), sua esposa, que José Aldo arruma suas trouxas e viaja ao Rio de Janeiro, onde começa sua trajetória no vale-tudo.

Mas quanto mais tenta afastar-se de seu pai, mais dele se aproxima. Enquanto este doava-se ao álcool, o José Aldo da trama entrega-se a socos e pontapés tão mais poderosos quanto é a raiva que ferve dentro de si, fruto do complexo de inferioridade que sente e também das lembranças amargas da vida que deixou. Assim, bem mais interessante do que assistir à trajetória campeã do lutador, é enxergar a história de um homem que aprendeu a superar si próprio. E o faz isto com o apoio da namorada Vivi (Pires), do apoio do treinador Dedé (Cortaz) e do amigo Loro (Bastos).

Uma história como esta exige muito dos atores, e nenhum deles decepciona: Jackson Antunes transforma Seu Zé em uma figura digna de pena e de raiva, humanizando-o nos momentos-chave, ao passo que Cláudia Ohana carrega o sentimento ambíguo das vítimas de violência doméstica presas à memória de dias melhores e ao desejo de manter a família unida. Já Cléo Pires surge cheia de personalidade e dedicada, mas jamais submissa a José Aldo, enquanto Milhem Cortaz continua a demonstrar verstalidade, agora como um treinador paciente, embora aparente ser durão. Entretanto, é José Loreto que rouba o filme para si com uma atuação espetacular: o ator transformou-se fisicamente e não receou abraçar as arestas mais pontiagudas de José Aldo, usando-as para torná-lo um personagem complexo e nos transformar de espectadores em autênticos torcedores.

Méritos também devem ser dados a Afonso Poyart, cujo ponto forte é a direção de atores, muito embora, no aspecto técnico, tropece com decisões narrativas exageradas. Às vezes por capricho (não é porque você pode por uma câmera na corda de pular que você irá fazer isso), noutras vezes por desconfiança no não-visto, o fora do campo (sabemos o resultado do choque entre um carrinho de bebê e uma churrasqueira, então exibir esse resultado apenas enfraquece a cena além de exigir um efeito especial mal acabado) e no próprio espectador, que havia sacado a interrelação entre José Aldo e o personagem interpretado por Rômulo Neto, bem antes disto ser explicitado em frente a um espelho. A multiplicidade de ângulos de câmera, sem a menor razão de ser, e o consequente emprego de uma montagem agitada com cortes rápidos, acelerações e muita câmera lenta também depõem contra as melhores intenções do diretor em contar a história de um lutador, cujo principal rival vivia dentro de si.

Tais excessos até diluem essa biografia contundente e empolgante, mas felizmente, não o suficiente para afrouxar a pegada deste mata-leão emocional do qual os espectadores não fugirão com facilidade. Quem sabe, com o passar dos anos, Poyart aprenda mais com o exemplo de David Fincher do com o dos demais diretores citados no primeiro parágrafo.

sem comentário »

Crítica | Contrato Vitalício

0comentário

Contrato Vitalício | Dirigido por Ian SBF | Roteiro de Fábio Porchat | Com Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Antônio Tabet, João Vicente de Castro, Luís Lobianco, Thati Lopes, Marcos Veras, Júlia Rabello, Rafael Portugal e Gabriel Totoro | Duração 1h 35 min.

Apesar do drama Entre Abelhas estrelar boa parte do elenco regular da websérie Porta dos Fundos e ser dirigido por Ian SBF, um dos idealizadores do canal do YouTube, apenas com Contrato Vitalício a trupe aterrissa nas telonas com o mesmo estilo de humor crítico, satírico e irreverente com o qual ganharam notoriedade na internet. Os alvos desta vez são a indústria de entretenimento, o fazer cinema e a cultura de celebridades instantâneas.

Tudo começa quando o diretor de cinema Miguel (Duvivier) e o ator Rodrigo (Porchat) viajam ao Festival de Cannes para representar o Brasil e, inesperadamente, tornam-se vencedores do prêmio mais cobiçado: a Palma de Ouro. Embriagado e em êxtase, Rodrigo assina um contrato vitalício que o obrigaria a estrelar em todas as produções dirigidas por Miguel, e vice-versa, sob pena de arcarem com uma multa milionária. Isto se Miguel não desaparecesse supreendentemente após uma inocente ida ao banheiro. 10 anos depois, Rodrigo tornou-se um astro chinfrim, protagonista de produções sem qualquer valor artístico, somente comercial, o que não o impede de ser convidado para estrelar o júri do fatídico Festival de Cannes. É então que Miguel reaparece, afirma ter sido abduzido por extraterrestres que habitam o interior da Terra e pretende contar toda esta história nas telonas. Claro, com Rodrigo no papel principal. E o que a priori parecia ser uma ideia tentadora logo leva o sujeito à beira da loucura.

Despreocupado com a verossimilhança desde a cena inicial, quando Miguel e Rodrigo declamam um agradecimento absurdo ao serem premiados, o diretor Ian SBF sabe onde está pisando: ele não procura explicar o absurdo, embora explore-o com felicidade e bom humor. Como tudo no Porta dos Fundos, os eventos são elevados a enésima potência do exagero a fim de provocar risos e proporcionar uma reflexão crítica, daí o porquê da blogueira, snapchatter e youtuber Fernanda (Thati) ser tão exagerada a ponto de parecer ridícula: afinal, por mais que torçamos o nariz, quem não abre notícias toscas de fofoca nos grandes portais ou passa o tempo assistindo a vídeos da intimidade mais íntima de (sub)celebridades? Onde está o ridículo agora, em quem vende a própria vida e enriquece no processo ou em nós que deixamos de viver a nossa vida para assistir a de outros?

Além disso, Ian SBF sabe apertar os pontos exatos sem ofender (muito) e soar como aqueles chatos rebeldes que criticam a ordem cinematográfica (o establishment). Assim, parte dos vícios da produção nacional estão em tela: o famigerado product placement – a chamada de propaganda no meio da narrativa – é destacado, descascado e zoado em uma cena específica, que, no fim das contas, não deixa de cumprir seu propósito de divulgar a patrocinadora; o modelo de produção ‘entre amigos’, a característica principal da websérie e também de parcela significativa do cinema independente brasileiro, carente de recursos e de incentivos, está no centro dos holofotes com a contratação de um mendigo (o hilário Luciano, personagem de João Vicente de Castro) e outros que mal desconfiam do que estão fazendo.

Enquanto isso, o roteiro escrito por Fábio Porchat transforma os ‘desaparecimentos’ em releituras metafóricas do ostracismo de artistas então famosos. O que explica, por exemplo, o visual de Miguel inspirar-se em Stanley Kubrick (barba cheia, cabelo desgrenhado, óculos), diretor habituado a extensos hiatos entre suas produções. Porchat, que como ator está no piloto automático, acerta ainda no texto ao não procurar arredondar e explicar o incidente envolvendo Miguel: primeiro porque não há como fazê-lo de forma racional, sob o risco de parecer tolo, e segundo porque, bem, qual a necessidade de entregar tudo mastigado ao público?

Assim, o que incomoda nem é narrativa mas a trasição do YouTube às telonas: Ian SBF não deixou a estética daquele formato e pouco pode explorar os recursos proporcionados pela linguagem cinematográfica. Ao invés disto, temos os tradicionais planos fechados no rosto dos personagens cortados assim que o diálogo acaba para o interlocutor, sem bastante imaginação ou significado. Os puritanos podem até afirmar tratar-se de levar o Porta dos Fundos ao cinema em toda integridade, mas que melhor jeito de fazê-lo senão conferir autoralidade dentro da estética cinematográfica.

Contrato Vitalício, portanto, é ambivalente: satiriza a mesma ordem cinematográfica da qual faz parte inequivocamente. E o faz sem parecer hipócrita, pois não rejeita a condição de um típico produto brasileiro, porém, um feito com inteligência e perspicácia para sobressair-se no que se espera dele (divertir) e supreender no alcance da sátira que faz. Um bom trabalho de estreia de uma equipe boa de serviço, que poderia, apenas, ser mais caprichado no aspecto técnico como é no narrativo.

P.S.: Tenho lido comentários de quem não foi ver o filme sob pretexto de este ser financiado pela Lei Rouanet, ou dos que comemoram cada crítica negativa e a fria recepção do público, apoiados na mesma desculpa. A estes ‘cidadãos’, sinto informar que vocês não entendem a sistemática da Lei Rouanet para criticá-la, apenas reproduzem inverdades e desinformação. Além disso, boicotar um filme com a desculpa de este estrelar um ou outro ator que tem orientação política distinta da sua apenas reforça o tipo de mau-caráter que você é. Ah, ia esquecendo, a Globo, sob outro nome, captou milhões pela Lei Rouanet, mas você nem ousa desligar sua televisão no Jornal Nacional ou nas novelas, não? Por que será?

sem comentário »

Crítica | Procurando Dory

0comentário

Procurando Dory | Finding Dory | Dirigido por Andrew Stanton e Angus MacLane (co-diretor) | Roteiro de Andrew Stanton, Victoria Strouse, Bob Peterson e Angus MacLane baseado na história de Andrew Stanton | Com as vozes de Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Hayden Rolence, Ty Burrell, Diane Keaton e Eugene Levy | Duração 1h 37 min.

Dory

3estrelas

Por mais bonito e doce que seja, Procurando Dory está a oceanos de distância de marcar a memória do espectador como tão bem fizera Procurando Nemo. Aliás, a melhor maneira de mensurar a qualidade artística do antecessor é verificar como, depois de longos 13 anos, não esquecemos o que tornava a aventura de Marlin, Nemo e Dory tão especial, e assim que o trio surge em cena, sentimos a gostosa sensação de reencontrar personagens queridos, algo que o cinema não consegue nos proporcionar com tanta frequência. Portanto, não se espante (ou se irrite) quando eu digo que o nosso envolvimento com a nova aventura seja parte nostalgia, parte carinho, mas muito pouco decorrente dos esforços próprios dessa continuação.

Que começa com uma bebê Dory (de olhos enormes iguais aos do Gato de Botas, para gerar empatia instantânea, como se ela precisasse), rodeada dos pais superprotetores, pouco antes de perder-se deles e cair na correnteza. Anos depois, no recife, uma série de eventos dispara um flash de memória em Dory, que então parte em busca dos pais, na companhia de Marlin e Nemo. Eles chegam a um instituto de vida marinha, mas se separam após Dory ser capturada por técnicos e levada ao setor de quarentena, onde faz amizade com o polvo Hank, mais interessado em permanecer no aquário do que retornar ao habitat natural. Outros novos personagens também ajudam-na na missão: o tubarão-baleia Destiny e a baleia beluga Bailey.

Mas a rigor, por mais que as dificuldades surjam no caminho de Dory e de Marlin e Nemo, o que o roteiro demonstra é que é mais fácil acessar, passear e escapar de um instituto fortemente vigiado e movimentado do que do aquário de um dentista. E não é apenas isto que enfrace a narrativa, como também as soluções fáceis e repetidas: o surgimento de um personagem, em cima da hora, para resgatar quem esteja em perigo (na maioria das vezes, Hank ou o pássaro Becky), o emprego exagerado das habilidades dos animais marinhos (a camuflagem de Hank desafia o propósito de camuflar-se, ou a ecolocalização de Bailey, uma espécie de beluga Xavier, com o mesmo tique de tocar na cabeça para pegar no tranco) e, sobretudo, a falta de uma ameaça palpável, tanto na presença de um antagonista (não há) quanto nos obstáculos criados e solucionados pela narrativa: um polvo dirigindo um caminhão, sério?

Temer pelo destino dos personagens e sucesso de sua missão é o passo lógico dado por uma narrativa depois de nos cativar (lembram de como Toy Story 3 deixou todos apreensivos na quase-morte de Woody, Buzz e os brinquedos?). Não há esta sensação em Procurando Dory, apesar de o diretor Andrew Stanton ser bem sucedido em reinterpretar frases marcantes do original (“Continue a nadar”, claro) e acrescentar a elas o peso da perda e da saudade de que trata a narrativa. A isto, soma-se o design de produção, de cair o queixo: o detalhismo da Pixar não cansa de nos impressionar, repare nas olheiras de Hank ou na calvície do pai de Dory, ao passo que a narrativa insere aspectos sombrios, impressionando em um plano gêmeo que traz Dory, em duas fases da vida, entre algas enquanto encara a escuridão do desconhecido e da solidão.

Sim, Procurando Dory divertirá os menores porque é colorido, movimentado e engraçado (como não gargalhar com os leões-marinhos?), além de contar com uma das personagens mais adoráveis já criadas pela Pixar, mas, diferente da maioria das animações do estúdio (lembre-se de Divertida Mente), não há o bastante para desafiar ou mesmo entreter os pais. E por mais que a temática familiar seja uma combinação imbatível, não custa nada ir além do piloto automático, aqui equivalente a ser uma animação bonitinha e também esquecível.

Até porque, se eu estivesse verdadeiramente inspirado por um grande filme, você acha mesmo que eu apelaria para o uso desse trocadilho infame?

sem comentário »