Crítica | O Contador

0comentário

O Contador | The Accountant | Dirigido por Gavin O’Connor | Roteiro de Bill Dubuque | Com Ben Affleck, Anna Kendrick, J. K. Simmons, Jon Bernthal, Jeffrey Tambor, Cynthia Addai-Robinson, John Lithgow, Jean Smart, Andy Umberger e Alison Wright | Duração: 2 h e 8 min.

O Contador

2estrelas

Matt Damon estava no bar, falastrão e simpático como sempre, depois de ingerir cervejas e shots além do habitual. Ao seu lado, um Ben Affleck enfadado escutava, pela enésima vez, seu melhor amigo gabando-se com a garçonete de haver dado vida a um dos personagens mais célebres do cinema de ação – Jason Bourne – e silenciosamente pensava que um dia interpretaria alguém ainda mais fodão que o amnésico ex-agente da CIA. Passaram-se anos, e este sonho tornava-se uma verdadeira obsessão a cada vez que Damon assinava um novo contrato ou então era içado ao status de herói do gênero. Isto precisava mudar, mas nem terapia tampouco interpretar o Homem-Morcego ajudou Affleck a arrancar aquele desejo enraizado dentro de si. Até que chegou nas suas mãos o roteiro de O Contador.

As primeiras páginas narravam a história de um gênio a serviço do submundo do crime, socialmente atrofiado, mas capaz de eliminar dezenas de inimigos com tiros precisos enquanto resolvia equações complexas na cabeça. Pensou: ora, para quê sofrer de amnésia se tenho a chance de interpretar um assassino/contador fodão, ainda por cima portador de uma espécie de autismo, condição que rendeu o Oscar a Tom Hanks por Forrest Gump, Dustin Hoffman por Rain Man ou mesmo a primeira indicação de Leonardo DiCaprio por Gilbert Grape. “Matt Damon nunca mais vai me humilhar”, gritou entusiasmado enquanto experimentava o novo collant do Batman. Ele apenas esquecera de terminar de ler o roteiro…

… e eu, nos meus anos como crítico, já vi roteiros ótimos transformarem-se em filmes ruins, mas nunca um roteiro ruim ser a semente de um bom filme. O Contador não é exceção. Escrito por Bill Dubuque (de O Juiz), a trama trata de Christian Wolff, contador de organizações criminosas ao redor do mundo, e que mantém um escritório de fachada contratado para prestar serviço ao bilionário Lamar Black (John Lithgow) e encontrar onde estão dezenas de milhões perdidos na contabilidade. Parecia um trabalho rotineiro, especialmente com a ajuda da intrometida e tagarela Dana Cummings (Anna Kendrick), até que um assassino (Jon Bernthal) começa a eliminar as pessoas envolvidas com a fraude. Ao mesmo tempo, o Departamento do Tesouro, na figura dos agentes Ray King (J. K. Simmons) e Medina (Cynthia Addai-Robinson), começa a fechar o cerco ao redor de Wolff.

Vocês notaram que não precisei citar, na sinopse acima, a condição do protagonista, não? Se de um lado é bom que o autismo seja acessório à narrativa, não determinante, pois evita discriminar os portadores da deficiência, do outro levanta a questão se havia a necessidade de introduzi-lo, pois a abordagem narrativa preocupa-se nos excessos, não na essência. Wolff autoflagela-se, atua meticulosa e metodicamente, abraça o distanciamento social e segue regras, imprescindíveis para o desenrolar da narrativa, mas não tão diferentes daquelas que Jason Statham põe em prática nos seus filmes, por exemplo: a indispensabilidade de finalizar trabalhos iniciados. Essa condição dá a oportunidade para que Ben Affleck exiba intensidade dramática, até o momento em que o roteiro quebra a lógica da personalidade do protagonista para introduzir características pontuais destoantes: senso de humor, ironia, sorriso, junto a Dana.

Por falar nela, Dana é uma das muitas personagens da narrativa que servem apenas como artifícios narrativos, e não como personagens tridimensionais. Interesse amoroso e donzela em perigo, Dana serve, precipuamente, para fazer as perguntas sobre o passado de Wolff que a narrativa esqueceu de responder nos excessivos flashbacks trazidos em cena. Sobre isto, o diretor Gavin O’Connor (de Guerreiro) não tem pudor: flashbacks dentro de flashnacks contados de trás para frente até linhas narrativas inteiras que existem não com o fim de opor obstáculos ou conflitos, mas de tão somente introduzir informações sobre o passado de Wolff. Ray King e Medina que o digam.

Depurar o passado de personagens misteriosos exige astúcia e inteligência, especialmente quando os meandros que o fizeram ser quem são beiram o absurdo. Se nem Hannibal Lecter ou Darth Vader resistiram ao escrutínio feito nas prequels cinematográficas, por que com Christian Wolff seria diferente? É difícil entender por que Gavin O’Connor manteria, na sala de montagem, os flashbacks se o que acrescentam fragiliza a narrativa ao transformar Wolff num anti-herói trágico e danificado pelo ensinamento violento do pai e pela perda de figuras paternas, em vez de manter o capuz sobre o, então, enigmático personagem, quase uma força da natureza que recaí sobre seus adversários.

O resultado dessa escolha é um trabalho de ação genérico apesar de moderadamente eficaz, com um roteiro difícil de engolir, sobretudo em matéria de coesão, e vítima de uma reviravolta tão forçada quanto é previsível, de forma que a pergunta feita por um personagem ao final – “por que eu contratei você” – será reinterpretada, jocosamente, por Matt Damon sempre que quisesse tirar sarro de Ben Affleck na mesa do bar.

Sem comentário para "Crítica | O Contador"


deixe seu comentário