Artigo de Mestre Falcão: “Capoeira contemporânea”, ou a contemporaneidade na capoeira?

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Capoeira e contemporaneidade

Artigo de Mestre Falcão: “Capoeira contemporânea”, ou a contemporaneidade na capoeira?

José Luiz Cirqueira Falcão[1]

Santa Catarina – Abril/2005

 

Atualmente fala-se muito no surgimento da “capoeira contemporânea”. Muitas polêmicas gravitam em torno dessa questão. Será que é mesmo possível falar de uma “capoeira contemporânea”, ou de aspectos da contemporaneidade na capoeira?

É importante considerar que os discursos e teorias sempre estão situados no âmbito de um jogo político que vem mostrando claramente a insustentabilidade de posturas puristas, classificatórias, no contexto das manifestações culturais. É preciso compreender que os cruzamentos sócio-culturais, em que o tradicional, o moderno, o popular e o erudito, muitas vezes vistos de forma hierarquizada e  compartimentalizada, se misturam e consolidam um processo que vem sendo chamado de “hibridação cultural”.

O antropólogo mexicano, Nestor Garcia Canclini, chama a atenção para a preferência deste termo (hibridação) em detrimento de sincretismo, mestiçagem e outros, pelo fato do mesmo abranger “diversas mesclas interculturais não apenas as raciais, às quais costuma limitar-se o termo “mestiçagem” – e porque permite incluir as formas modernas de hibridação melhor do que “sincretismo”, fórmula que se refere quase sempre a fusões religiosas ou de movimentos simbólicos tradicionais” (Canclini, 1997, p 19).

O movimento concreto de desenvolvimento da capoeira vem demonstrando que, a despeito de barreiras políticas e econômicas, os seres humanos, através de suas práticas significativas, destroem fronteiras e edificam um mundo onde, simbolicamente, tudo são margens, onde não há centro. Com isso, ele aponta novas perspectivas capazes de incorporar as mobilidades e os fluxos transnacionais que aproximam os povos em torno de projetos solidários de construção da felicidade humana.

A capoeira na contemporaneidade contém, inequivocamente, esses traços de mobilidade e transnacionalidade. Ao considerar que ela está inserida nessas lógicas, fica fácil aceitar e entender melhor os encontros e desencontros entre o arcaico e a vanguarda. Nos permite compreender melhor o encontro do artesanato capoeirano com os catálogos impressos a laser sobre os stands dos grandes eventos. Nos permite ainda compreender a coexistência de equipamentos eletrônicos sofisticadíssimos de um estúdio de gravação com berimbaus e atabaques de fabricação artesanal, de cuja hibridação resultam compact discs que posteriormente servirão como instrumentos pedagógicos nas aulas de capoeira, tanto das academias das grandes cidades como nas de fundo de quintal. Nos permite, por fim, compreender a música nativa se cruzando sincreticamente com as novas tecnologias, oferecendo panoramas sonoros totalmente surpreendentes e sedutores.

Entretanto, para alcançarmos esse nível de entendimento torna-se necessário demolir não só os conceitos cristalizados, “in vitro”, mas também as estruturas sob as quais os mesmos foram implementados e defendidos como verdades absolutas. É impossível defender que existam conceitos imunes ao tecido social. Afinal, a base da sociedade contemporânea globalizada é, segundo Canevacci (2000), a “metropolização” plural, descentralizada e conflituosa. Nenhuma cultura pode declarar-se fora desta nova lógica, à medida que “não possui os muros limites para constituir a sua identidade fixa no espaço, mas caracteriza-se por um mutante fluxo comunicativo” (Canevacci, 2000, p. 122).

Esta realidade aponta que a capoeira, na contemporaneidade, incorpora, inequivocamente, esses fluxos e essa mobilidade obriga a um respeito mútuo diante das verdades igualmente válidas dos professores, mestres e grupos em relação e nos leva a considerar que toda essa mobilidade promove ressignificações culturais que fogem ao controle dos indivíduos, em particular, e, ao mesmo tempo, os força a se inserirem em suas redes.

A capoeira na contemporaneidade vem adquirindo/conquistando novas roupagens, incrementadas pelo consumo e pelos diversos mecanismos de divulgação e circulação de mercadorias. Esse trânsito do nativo ao metropolitano, e vice-versa, transforma cada capoeira praticante em um mosaico códigos indecifráveis, dissolvendo identidades estáveis e criando produtores de identidades múltiplas. Isso pode ser facilmente verificado no próprio movimento dos grupos de capoeira. Estes vêm demonstrando que, a despeito de cultivarem a “mesma” capoeira, produzem “múltiplas” capoeiras, evidenciando, assim que identidade não é uma entidade absoluta, uma essência que faça sentido em si mesma de forma isolada. A chamada “crise de identidade”, presente também nos grupos de capoeira, está abalando os quadros de referência que davam uma ancoragem estável ao mundo social. As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno até aqui visto como um sujeito unificado. É nesse cenário fragmentado que a capoeira se insere.

A capoeira na contemporaneidade se caracteriza pelo complexo processo de criação de símbolos, de imagens, de memórias, de narrativas, de mitos, seguramente contraditórios, fragmentados e inacabados.

É líquido e certo que o processo de mundialização da cultura vem contribuindo para um certo descentramento das identidades, seja deslocando-as, seja fragmentando-as. O atual movimento do desenvolvimento da capoeira nos mostra a fragilidade de rotulá-la a partir de visões classificatórias, essencialistas, puristas, normatizantes e exotizantes, típicas do começo do século XX, quando a ideologia da purificação da raça e da cultura, a partir da referência eugenística, era fundante.

A capoeira na contemporaneidade vem incorporando sincretismos,  estranhas conexões e diálogos dissonantes. Ela é hoje, sem dúvida, policêntrica e polifônica e não se acomoda às formas de pensamentos maniqueístas (natureza x cultura, o bem x o mal etc.). Nesse fluxo plural de sincretismos e dissonâncias, ela escamoteia elementos “originários” que muitos querem capturar. Ela se manifesta obscura, incerta, opaca, ambígua e contraditória; encaixando-se e desencaixando-se nas fronteiras identitárias, sejam elas raciais, étnicas ou de nação. Se for possível falar de uma “capoeira contemporânea”, seriam esses os traços desta. Os seus significados são tantos quanto às experiências contextuais vividas cotidianamente pelos diferentes grupos a partir dos mais diferentes objetivos. Por isso, ela é múltipla e é nessa multiplicidade que vamos encontrar a força dos seus “fundamentos”.

Neste jogo, o embate entre tradição e modernidade, entre o velho e o novo, constitui-se em uma tática de difícil entendimento, dada a conflituosidade com a qual ela opera. Tradição e modernidade compõem uma densa tessitura de discursos e, freqüentemente, se verifica nestes uma tensão eivada de simbologia e poder.

A capoeira na contemporaneidade tem se afirmado como uma prática de jovens que lhe conferem um certo caráter “tribal”. Mesmo que a figura do “mestre”, via de regra, tenha contribuído para que a mesma angariasse distinção em relação às demais tribos – punks, rokers, skinheads, grafiteiros etc., sua visibilidade se expressa através de um ideário jovem, geralmente associado à liberdade, à beleza, ao vigor físico, à curtição.

A “capoeira contemporânea”, se é que é possível falar dessa forma, constitui-se num amálgama que mistura o formal e o informal, o sagrado e o profano, o científico e o senso comum, o erudito e o popular, o coletivo e o individual, a tradição e a modernidade. Não se trata de um novo “estilo” de capoeira. Trata-se, ao nosso ver, de uma nova forma de conceber e realizar os seus fundamentos. E essa nova forma está amarrada às condições materiais existentes e é condicionada pelo tipo de sociedade na qual está inserida e pelas normas da organização social a qual pertence.

Pelo exposto, é importante considerar que os fenômenos culturais aparentemente “marginais” e específicos expressam, verdadeiramente, a estrutura social global na qual estão inseridos. Nesse sentido, é possível falar de uma “capoeira contemporânea”, justamente porque, enquanto rica e complexa manifestação cultural, ela incorpora os valores e os códigos do seu tempo. E o tempo atual, queira ou não, apresentam-se como tal e qual.

Da mesma forma que podemos falar de uma filosofia contemporânea, é possível falar de uma “capoeira contemporânea” e esta, ao nosso ver, não se constitui numa oposição à Capoeira Angola ou a Capoeira Regional, nem tampouco numa negação ou superação das mesmas, ou de outros supostos estilos. É possível dizer que a Regional e a Angola também se inserem, irremediavelmente, nessa trama contemporânea. Será?

 

Mestre Falcão

 

Na foto : curso oferecido por Mestre Falcão na Polônia

 

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REFERÊNCIAS

  • CANCLINI, N. G. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 1997.
  • CANEVACCI, M. Diversidade nômade e a mutação cultural. In: TRINDADE, L. Azoilda e SANTOS, R. (org.) Multiculturalismo: mil e uma faces da escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

 

 

[1] –        Mestre de Capoeira, autor do Livro “A escolarização da Capoeira”. Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia , Professor Adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina.

 

Autor: Mestre Falcão

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As (Con)tradições da/na Capoeira, por Mestre Falcão, in Jornal do Capoeira (2005)

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Ainda pensando sobre o encontro de ontem, e a questão das tradições na/da capoeira e a falta de ética – ressaltada ontem… – de alguns que se declaram Mestre Capoeira, fui buscar o artigo abaixo, de Mestre Falcão, e publicdo no Jornal do Capoeira:

Jornal do CAPOEIRA

Jornal Semanal, com nova edição toda segunda-feira
Inserções ocasionais, durante a semana, em caso de matéria urgente


Edição 35 (20 à 26/Junho de 2005)

As (Con)tradições da/na Capoeira
Artigo enviado pelo Mestre Falcão, da Unversidade Federal de Santa Catarina (UFSC), fazendo uma análise sobre as (Con)tradições da Capoeria

José Luiz Cirqueira Falcão[1]

 

Nota do Editor

Cresceu, principalmente nos últimos temos, o uso de alguns chavões no mundo da Capoeira, como “fundamento”, “ritual” e “tradição”. Em mesma – talvez maior – proporção cresceram os questionamentos ao uso adequado de tais termos. Certa feita, em um dos primeiros cursos de Capoeira Angola, um sábio mestre falou: “Onde há evolução, não co-existe tradição“. Aquilo bateu forte, pois o que mais se prega no meio da Capoeriagem é que a Capoeira Angola é, essencialmente, a Capoeira Tradicional e, por via de regra, a Capoeira-referência pra todas as demais formas de sua prática.

Da forma com que tais expressões são passadas, para quem não tem estudado a fundo conhecer os fundamentos e contexto histórico-social da Capoeiragem, pode simplesmente comprar uma idéia de que existe um “encapsuled pack” (pacote fechado) que determina: “isso é a Capoeira do passado, é a fonte para todas as demais capoerias…“. Sabemos que não existe isso, ou seja, é impossível definir algo que vem sendo constituído, de forma dinâmica. Mais uma vez, créditos para Mestre Edson Carneiro em seu livro “A Dinâmica do Folclore”.

A Capoeira não deve, e não pode, ser entendida de forma alienada ao momento sócio-político-cultural de todas as regiões, e momentos, onde se registrou sua prática. Para a surpresa de muitos, e para a agonia de alguns, a Capoeira é, realmente, uma manifestação nacional, cuja maior contribuição se deu, não há dúvida quanto a isto, na Bahia, no Rio de Janeiro e no Pernambuco. Mas como calar a história? Com negar, por exemplo, que a prática Capoeira se deu também no hoje Estado do Maranhão? Com deixar de atentar para o fato da Capoeira, de forma dinâmica, ter resultado em outros Estados manifestações-herdeiras da Capoeiragem? É bem o caso, por exemplo, da própria Pernada Carioca, da Pernada de Sorocaba (interior de São Paulo) e até mesmo da Titirica na Terra da Garoa (décadas dos 30, 40 e 50, principalmente).

Em meio a esse rol de questões, apresentamos a primeira parte do interessante artigo “As Con(tradições) da/na Capoeira”, enviada com exclusividade ao Jornal do Capoeira pelo Mestre Falcão.

Capoeiristicamente,

Miltinho Astronatua

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AS (CON)TRADIÇÕES DA/NA CAPOEIRA

José Luiz Cirqueira Falcão

Após conviver, experimentar, analisar, sistematizar e aprender um pouco com muitos e muito com poucos, seria impossível falar das tradições da/na capoeira sem falar de suas contradições. Aliás, essa exuberante manifestação cultural somente chegou até os dias atuais com toda pujança por força de suas contradições.

Para subsidiar nossas reflexões, resgatamos aqui um aforismo do filósofo jônico Heráclito (575 – 480 a.C.): “a única coisa que permanece é a mudança”. Muitos autores clássicos (Chauí, Canclini, Bakhtin etc.) problematizaram questões acerca das tradições culturais e dos saberes populares, colocando perguntas do tipo: Será que aqueles que são intitulados portadores de saberes tradicionais, antes de produzi-los se perguntam: Será que o meu saber é tradicional ou erudito? Será que eles têm essa preocupação? Será que tudo isso não são ranços dos que se consideram “eruditos”, acadêmicos?

Procuraremos problematizar essa temática das tradições com as seguintes questões: A capoeira é uma tradição? Quais seriam os fundamentos mais tradicionais da capoeira? Tradição teria o mesmo sentido de essência?

Em relação à tão propagada “essência” da capoeira, é interessante notar que esta categoria não é “natural”, impermeável ao tempo e às relações de poder estabelecidas no campo cultural. A capoeira contém uma lógica específica que se expressa pelas suas singularidades, o que a faz diferente de outras manifestações culturais, entretanto, esta lógica não é cristalizada. Ela é dinâmica, pluridimensional e complexa.

A essência da capoeira certamente não está em um determinado tempo/lugar do passado, nem tampouco nas entranhas dos seus rituais, gestos e músicas, mas situa-se no movimento do seu desenvolvimento e é fruto de determinações múltiplas e diversas (nem todas igualmente importantes) que se expressam, sempre contraditoriamente, nas relações concretas dos sujeitos em ação.

Partimos do pressuposto que a essência humana não se encontra nos indivíduos. Sendo assim, defendemos que a essência de uma manifestação não pode ser encontrada em um determinado tempo ou lugar. Daí ser impossível “resgatar” a essência da capoeira de uma determinada época ou lugar, ainda que sob o apelo de discursos ou ações de um determinado “mestre”, dotado de reconhecida experiência. A busca da essência de uma manifestação cultural em uma determinada época, lugar ou sujeito é, sem dúvida, uma aventura insensata e romântica. Entretanto, o que acontece freqüentemente é uma ingênua busca por gestos mais “autênticos”, portanto, mais “puros”, por toques de berimbau mais corretos, por músicas mais tradicionais, por métodos mais fiéis aos seus mentores e outras superfluidades que supostamente se perderam nas brumas do tempo, não de um tempo real, mas de um tempo fictício, idealizado, concebido na perspectiva da linearidade.

Entretanto, sabemos, alicerçados pelos estudos filosóficos e culturais, que toda e qualquer manifestação cultural contém em seu bojo o incomensurável, o incontrolável, o imponderável, e qualquer tentativa que negue essas qualidades pode desembocar em atitudes conservadoras, autoritárias e antidemocráticas.

Se toda tentativa de resgate vem carregada de uma vontade de poder, a pergunta que deveríamos colocar primeiro, em relação ao resgate da essência e a defesa de uma determinada tradição na capoeira, caso isso fosse possível, seria identificar os artífices defensores desta pretensa tradição e dessa pretensa autenticidade que se quer preservar. A que grupos sociais eles se vinculam e a que interesses eles servem? Todas as tradições culturais têm como pano de fundo um universo de envolvimentos políticos, sendo, portanto, fruto de relações de poder que se estabelecem entre sujeitos socialmente determinados.

Nesse sentido, o discurso que defende o resgate e a preservação de uma “autêntica” tradição que teria ficado no passado, parte de três premissas que, segundo Vieira (1989), e também para nós, parecem equivocadas: a) de que seria possível recuperar um passado que teria permanecido intacto e que estaria adormecido em algum lugar, à espera de um dia ser redescoberto; b) de que se tirando ou subtraindo aspectos descaracterizadores da capoeira atual, iríamos chegar numa capoeira mais tradicional e, finalmente, c) a de que os praticantes do passado sabiam exercitar a capoeira de forma correta enquanto os do presente não sabem praticá-la correta e autenticamente e, por isso, precisam “resgatar” suas tradições. Poderíamos acrescentar ainda que as boas intenções são insuficientes para restaurar e também para reparar o passado.

É claro que, ao tentar jogar, hoje, a capoeira do passado, o capoeira não está jogando a “verdadeira” capoeira do passado, mas tentando jogá-la a partir das referências de uma determinada época, vista aos olhos de hoje. Nesse sentido, o passado perpassa o presente, é tensionado por este e é reconstruído em articulação com a perspectiva de futuro. Essa articulação forma o “elo” que, por força da memória, nos lega tradições, sempre eivadas de contradições.

Questionamos aqui, ainda, quais tradições queremos preservar. Muitas referências individuais e coletivas no contexto da capoeira são dignas de valorização e enaltecimento, mas a história está farta de episódios levados a cabo pelos capoeiras que, certamente, causariam temor pela beligerância a que foram submetidos por ocasião de períodos conturbados da história política brasileira, como, por exemplo, as guerrilhas urbanas promovidas pelas maltas no Rio de Janeiro, ou as ações da temível “Guarda Negra”, uma associação de capoeiras, criada em 1888 para defender o Trono da Princesa Isabel. Sob os auspícios de um juramento de morte, em defesa da Redentora, os capoeiras, que eram convencidos (forçados ou não) a apoiar a monarquia, dissolviam comícios públicos e faziam miséria nos combates que travavam com os apoiadores do regime republicano, ocasiões em que deixavam como saldo expressivo número de mortos e feridos. [2]

Vez por outra, somos surpreendidos por atitudes nas rodas de capoeira que procuram resgatar os gestos (às vezes até cacoetes) e expedientes típicos de determinados padrões e contextos particulares. Muitas vezes, esse “resgate” se dá por uma tentativa de reprodução e imitação carregada de forte apelo à preservação de determinadas tradições. Neste caso, estamos diante de clichês que não passam de caricaturas de aspectos da realidade. Vieira (1989) destaca que um clichê é, grosso modo, uma imagem visual ou sonora estereotipada que condensa um conjunto de características valorativas e substitui a crítica por frases e atitudes prontas e feitas. Em outras palavras, ao imitarmos gestos e procedimentos que se padronizaram e se consolidaram em nosso repertório, tendemos a aceitá-los como inquestionáveis. Embora possamos reconstruí-los, ressignificá-los, em geral, acreditamos que eles já foram pensados e resolvidos por alguém mais capaz do que nós. Portanto, não nos cabe discutir, apenas repetir os clichês. Reforçamos o sentimento de sempre estarmos distante do lugar onde se produzem idéias, culturas, gestos e valores, e, além disso, acreditamos que sempre teve ou tem um outro ser mais capaz que deve ser copiado, imitado, reproduzido. Este sentimento de inferioridade não é individual, mas coletivo, muito embora se materialize nas ações individuais. A reprodução de clichês envolve complexos mecanismos psicológicos e sociais. Muitas vezes, ela se dá pela via inconsciente, o que fortalece a sua ação. “Nem sempre se reproduz um comportamento deliberadamente” (VIEIRA, 1989, p. 60).

 

(Final da parte I – a parte final deste artigo será publicada na próxima edição)

Referências

CANCLINI, N. G. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 1997.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. 5. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

PEREIRA, E. A. e GOMES, N. P. M. Inumeráveis cabeças: tradições afro-brasileiras e horizontes da contemporaneidade. In: FONSECA, M. N. S. (Org.) Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, p. 41-59, 2000.

PIRES, A. L. C. S. Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá: três personagens da capoeira baiana. Tocantins/Goiânia: NEAB/Grafset, 2002.

REGO, W. Capoeira Angola: um ensaio sócio-etnográfico. Salvador: Itapuã, 1968.

RICCI, M. L. S. R. Guarda negra: perfil de uma sociedade em crise. Campinas-SP, s. e. 1990.

VIEIRA, L R. Criatividade e Clichês no jogo da capoeira: a racionalização do corpo na sociedade contemporânea. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. v. 11, n. 1, set. 1989.

 

 

[1] Licenciado em Educação Física pela Universidade Católica de Brasília (1982). Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994). Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia (2004). Mestre de Capoeira do Grupo Beribazu. Autor do Livro “A Escolarização da Capoeira”.  Professor Adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina. Integrante do Grupo de Estudos da Capoeira (GECA) e do Núcleo de Estudos Pedagógicos da Educação Física (NEPEF), Sócio Pesquisador do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte. Presidente da Confraria Catarinense de Capoeira (TRIPLO-C).

Email: [email protected]

 

[2] A Guarda Negra era uma associação de negros livres e capoeiras que apoiavam a monarquia e se contrapunham, fundamentalmente, aos republicanos. Defendiam, ferrenhamente, o Trono da Princesa Isabel. Ajoelhados, com a mão direita sob o evangelho e olhos fixos na imagem de Cristo, os capoeiras prestavam o seguinte juramento: “Pelo sangue de minhas veias, pela felicidade de meus filhos, pela honra de minha mãe e pela pureza de minhas irmãs e, sobretudo por este Cristo que tem séculos, juro defender o trono de Isabel, a Redentora”.Ver mais a respeito em Rego (1968, p. 313-317); Ricci (1990).

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ÉTICA NA CAPOEIRA, EXISTE?

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Ontem, durante a reunião no Matro-á, para detalhar-se os procedimentos para o Curso de Formação de Mestres Capoeiras que a UFMA/DEF, SEDEL, e o Fórum da Capoeira estão promovendo, com a participação do Laborarte, muitas discussões acerca da ética na capoeira… muitos mestres presentes se manifestaram… inclusive sobre ‘quem é mestre’, e quem o fez mestre…

Hoje, revisando alguns textos e fazendo algumas buscas, deparei-me com um trabalho publicado em uma revista, em 2012, falando sobre a capoeira maranhense, assinado por dois professores de um determinado curso de educação física daqui da ilha…

Senti uma frustação, grande, ao me deparar com trechos de meus escritos, alguns de mais de 15 anos, ali transcritos, sem a devida referencia… e muitos colocando certas passagens como sendo depoimento de outras pessoas…

Não sou o ‘dono da capoeira’!!! sem o único memorialista da capoeira maranhense… reconheço que muitas do que escrevo é baseado em depoimentos, que ncito os depoentes, e em pesquisas me fontes primárias e secundárias, e, em especial, alguns trabalhos acadêmicos que começam a aparecer… o que é louvável… mas… não reconhecer àqueles que os procedem, ignorando suas contribuições e passando a ideia de que as atos e fatos ali descritos são de sua lavra… é frustrante, especialmente para professores universitários!!!

Um dos ‘escritores’  é  ‘mestre capoeira’…

Colocou por terra toda a minha admiração, aos mestres, do que ouvi ontem… estou pensando se vale a pena…

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A CAPOEIRA NO/DO MARANHÃO: ALGUMAS QUESTÕES PARA REFLEXÃO

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A CAPOEIRA NO/DO MARANHÃO: ALGUMAS QUESTÕES PARA REFLEXÃO
Gostaria inicialmente de agradecer ao convite para estar aqui este dia falando sobre Capoeira.

 

O convite é muito especial para mim; talvez, mais do que ter coisas a falar, eu tenha muito a apreender sobre Capoeira, principalmente com os Mestres, Professores, demais Capoeiras e com o público presente. Tenho a pretensão de levantar algumas questões sobre a Capoeira…

 
Agradeço, então, ao Contramestre Baé e à Federação de Capoeira do Estado do Maranhão. Também gostaria de aproveitar a oportunidade para de público citar alguns Capoeiras que contribuíram para meus estudos sobre essa nobre arte de luta: Índio do Maranhão, Mizinho, Cláudio (meu ex-aluno no CEFET-MA), e claro, Baé, com que tive contato maior e ouvi muito sobre a Capoeira; ao meu Mestre Patinho – meus respeitos e sua licença para me manifestar – com quem tive algumas conversas recentemente e me mostrou que não sabia nada de Capoeira – porque Capoeira é vivência, e eu não vivo a Capoeira; disse-me o Mestre: Capoeira só se aprende na prática. Bela lição para quem tem a pretensão de escrever sobre Capoeira, sem a praticar… Obrigado, Mestre Pato385; ainda, Marco Aurélio386, Domingos de Deus, Acinho, Bamba387, Senzala e, sobretudo, André Lacé (do Rio de Janeiro) e Miltinho Astronauta e o Cavalheiro, ambos de Sorocaba, meus “colegas” do Jornal do Capoeira 388 …

 
Pensei em fazer uma fala que tivesse como preocupação de fundo a atuação e talvez a própria formação dos educadores de capoeira – termo que ouvi de vários Mestres e Professores durante as entrevistas realizadas por meus alunos da UEMA, do Curso de Educação Física, quando estávamos construindo o Livro-Álbum dos Mestres Capoeira do Maranhão – ainda inconcluso389. Compreendi a importância do uso desse termo – educadores de capoeira – para chamar a atenção para a responsabilidade daqueles (as) que ensinam Capoeira390.

 
Parto do entendimento de que a Capoeira é uma prática cultural391 no sentido mais dinâmico possível do termo.
Mas, o que é a Capoeira? Como podemos defini-la? Tenho encontrado as mais variadas respostas: capoeira é luta; capoeira é um esporte; capoeira é folclore; outros dizem que é um lazer; é uma festa; é vadiação; é brincadeira; é uma atividade educativa de caráter informal.392.
Não me conformo com essas classificações simplistas e reducionistas; compreendi que a Capoeira é tudo isso… Compreender a Capoeira como sendo uma prática cultural393 representa um salto qualitativo para além das visões essencialistas, que, por vezes, apelam para um mito de origem reivindicando a pureza ou a tradição de certo antigamente da Capoeira.
Quero chamar a atenção para o entendimento de que as práticas culturais, como a Capoeira, não estão paradas no tempo e, por isso mesmo, a transformação constante é inevitável. As necessidades e os problemas dos (as) Capoeiras de outrora não são os mesmos de hoje. A cada dia se joga uma Capoeira diferente. A Capoeira de hoje é diferente da Capoeira de ontem e da de amanhã – esse exemplo de constante transformação demonstra suficientemente bem que a cultura está em permanente mudança.
Assim, práticas culturais são aquelas atividades que movem um grupo ou comunidade numa determinada direção, previamente definida sob um ponto de vista estético, ideológico, etc. 394.

O que importa é dizer que seja qual for a forma de entendermos a Capoeira, seja como luta, esporte, dança ou outra maneira aqui não pensada, um ponto fundamental pode estar na relação dessas idéias com a prática da Capoeira.
O que quero questionar é o seguinte: quais conseqüências uma Capoeira compreendida como esporte, como luta pode ter para seu ensino?395 Ou quais conseqüências a capoeira entendida como cultura, como vadiação pode ter para o seu ensino e para sua prática? Ou melhor, qual dessas opções queremos?
Essas questões estão relacionadas com a defesa de uma capoeira enquanto prática cultural e tem a ver com um pensamento que procura chamar atenção para a necessidade de diálogo com as diferenças. Nesse sentido, até poderíamos falar da existência não de uma capoeira, mas de capoeiras: capoeiras danças; capoeiras lutas; capoeiras esportes; capoeiras culturas; capoeiras angolas, regionais, contemporâneas e assim por diante396.
Assim como Corte Real397, devemos adotar a noção de interculturalidade ao se tratar da Capoeira. A educação intercultural é uma forma de educação que: “requer que se trate nas instituições educativas os grupos populares não como cidadãos de segunda categoria, mas que se reconheça seu papel ativo na elaboração, escolha e atuação das estratégias educativas”. A mesma visa a promover processos integradores que conciliem os direitos de igualdade dos cidadãos e o direito de diferenças das culturas 398. Pergunta, então Corte Real: “será que uma roda de capoeira não é um bom exemplo de processo integrador, no qual todos são iguais no direito à participação, como no direito à diferença de ter seu jeito próprio de vadiar?”.

Nesses mais de dois anos que tenho me dedicado mais a fundo ao estudo da Capoeira maranhense, tenho visto algumas experiências no contexto da capoeira que mostram a possibilidade da construção de projetos coletivos baseados na participação solidária próxima à essa visão de educação intercultural, caracterizadas como a troca de saberes entre universidade/capoeira.
Trago aqui exemplos dessa interação: Primeiro, o Convênio entre UFMA e uma universidade espanhola – Universidad de Múrcia – que realizaram um encontro de Capoeiristas em São Luís, no ano de 2002 – o I Encontro Maranhão-Múrcia de Capoeira Angola (EMAMUR) que aconteceu em setembro daquele ano. Vocês tomaram conhecimento? Foi firmado convênio entre as duas universidades.
Participaram do encontro o professor doutor Jesus Molina Saorín, da Universidade de Múrcia, e mais sete acadêmicos e profissionais espanhóis das áreas de Serviço Social, Educação Física, Educação Musical, Psicologia e Direito, todos adeptos da Capoeira Angola. Eles integram o Grupo de Pesquisa na Diversidade numa Perspectiva Transdisciplinar, daquela universidade. Realizado através do Núcleo de Estudo/Pesquisa e Análise Social do Movimento Humano (Nepas), ligado ao Departamento de Educação Física da UFMA, o I Emamur consiste na primeira dentre muitas outras atividades a serem desenvolvidas pelo convênio. O objetivo deste acordo é estabelecer o intercâmbio entre as duas universidades para qualquer área do conhecimento.
Não se tem notícias de houve continuidade…
Outro exemplo foi a defesa de duas monografias de graduação em áreas distintas de conhecimento:
– a de Mestre Nelsinho, em Educação Física, que resgata a importância de Mestre Sapo na implementação da Capoeira baiana no Maranhão e resgata parte da história da Capoeira maranhense. Esse trabalho de Nelsinho tem que ser divulgado entre todos os que amam a Capoeira, pois se trata de uma pesquisa de suma importância que deve extrapolar os muros da Universidade;
– o outro, na área da Economia, me é especialmente caro: a monografia de minha filha, Loreta Brito Vaz, que estudou a capoeira na perspectiva de fonte de renda e emprego em São Luis. Acredito que muitos de vocês foram participantes-respondentes da pesquisa que empreendeu.
Tenho notícias que outras duas pesquisa foram feitas, uma na área de História, também relatando a vida de Mestre Sapo – ainda não consegui cópia – e outra, em Educação Física, aprovada junto ao colegiado do curso, que estava se iniciando.
Com isso, gostaria de colocar a questão sobre qual poderia ser a contribuição da relação universidade – especialmente de pesquisadores concreta e politicamente envolvidos – com a Capoeira? E mais, qual a contribuição de momentos como este que estamos vivendo hoje aqui? Qual a importância da Capoeira estar dentro do espaço acadêmico? E indo mais longe, por que a Capoeira não tem sido objeto de estudo de nossas universidades?
Outra questão que gostaria de levantar, diz respeito à música… Mestre Patinho chamou-me a atenção para o aspecto educacional que a música tem dentro da Capoeira. Para ser, realmente, um Capoeira, a musicalidade deve ser desenvolvida, não apenas através do saber executar as ladainhas, os cantos, as chamadas, mas de saber os seus significados, o que dizem… Mais, aprender a executar os instrumentos, a cantar, o ritmo… Tudo é questão de ritmo, e é o ritmo que determina os movimentos; se você não dominar o ritmo, não executará os movimentos…
Temos observado que a música, na Capoeira, tem assumido um caráter de protesto e contestação social; observamos que as músicas são sempre improvisadas, e em geral falam do negro na senzala, do negro livre, da religião, da comunidade, seus hábitos, seus feitos, etc., algumas vezes são cantos de louvor, tristeza, revolta, desafio399
A musica organiza uma série de práticas educativas informais na Capoeira ao ditarem normas da dinâmica do jogo; e ao assumirem a narrativa das lutas da cultura popular, especialmente negra. Como Mukuna (1980) 400, a capoeira hoje reivindica ser patrimônio da cultura brasileira, podemos afirmar que essa prática cultural ainda potencializa uma dimensão crítica de protestos e contestação social? Qual é ou qual tem sido o papel da musica na atuação dos educadores de capoeira? A musica é um saber que está ao alcance de todos e todas na capoeira? As temáticas tratadas nas musicas tem favorecido idéias comunitárias?
E por fim, outro questionamento seria sobre a atuação daqueles que são responsáveis por aquilo que se constitui um conjunto de práticas educativas informais, ou seja, aqueles que chamamos de professores e professoras ou para lembrar educadores de capoeira. Como esses educadores desenvolvem informalmente seus processos de formação? Como desenvolvem estratégias de organização educativa, por exemplo, mediadas pela musica? Quais são as suas visões e opiniões sobre as atuais discussões sobre a regulamentação dos profissionais da capoeira?
Gostaria de concluir – com Corte Real -, fazendo um balanço das idéias e questões levantadas401. Penso que seja válida a visão da capoeira como sendo dinâmica, inserida no processo histórico e em constante transformação. Portanto, como uma prática cultural, que engloba os aspectos de arte, luta, dança, esporte, educação, resistência entre outros.
Lembrar também da possibilidade de compreender a capoeira na perspectiva intercultural da educação significa reconhecer a riqueza dessa prática cultural em suas múltiplas formas. Por isso mesmo, a perspectiva intercultural chama atenção para necessidade de reconhecimento das diferentes formas de manifestação da capoeira.
Necessidade também de reconhecer a individualidade de cada pessoa e sua contribuição, seja para realização de uma roda de capoeira, seja na luta por seu reconhecimento. Mas, sobretudo, a ideia de intercultura chama atenção para necessidade de lidarmos com todos os tipos de conflitos presentes numa prática cultural como a capoeira que mostram que a capoeira é, de fato, uma luta, assim como a cultura é um campo de lutas sociais.
Termino, então, com as questões: Quais consequências de compreender a capoeira como prática cultural em transformação que engloba esporte, luta, arte, resistência, educação entre outros aspectos? Quais opções dessas queremos? Até que ponto a roda ou a capoeira como um todo é um exemplo de educação intercultural? Ou seja, a capoeira pode ser um espaço de participação de pessoas diferentes unidas por objetivos comuns? Qual pode ser a contribuição da relação da universidade com a capoeira? Acadêmicos e capoeiras podem ter algo a aprender juntos? Qual tem sido o papel da música na atuação e formação dos educadores de capoeira?

Se alguma de todas essas palavras que disse conseguiu mexer um pouco com os pensamentos de vocês, assim como o capoeira se mexe quando o berimbau chora, terei cumprido o meu propósito em estar nesta roda.
Segue o jogo.
Obrigado

 

385 VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. CONVERSANDO COM MESTRE PATINHO. Jornal do Capoeira, edição 63, de 05 a 11/mar de 2006, in www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=881
386 VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Notas sobre a Punga dos Homens – capoeiragem no Maranhão. In Jornal do Capoeira, edição 43, 15 a 21 de agosto de 2005, in
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=609
HEICKEL, Marco Aurélio. Breves observações sobre o Tambor de Crioula. In Jornal do Capoeira, edição 43, 15 a 21 de agosto de 2005, in
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=626
387 VAZ, Leopoldo Gil Dulcio Vaz. Punga dos Homens e a capoeira no Maranhão: Mestre Bamba, do Maranhão. In Jornal do Capoeira, julho 2005, in www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=589
388 www.jornalexpress.com.br

389 VAZ, Leopoldo Gil Dulcio Vaz. Capoeiragem no Maranhão – Atlas da Capoeiragem. In www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=342
390 VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. O vôo do Falcão. Jornal do Capoeira, edição 74, de 21 a 27 de maio de 2006, in
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticia=1
391 CORTE REAL, Márcio Penna. A CAPOEIRA NA PERSPECTIVA INTERCULTURAL: QUESTÕES PARA A ATUAÇÃO E FORMAÇÃO DE EDUCADORES(AS). 2004
392 VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Capoeira no Maranhão – afinal, o que é Capoeiragem? In
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=379
VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. O que é a Capoeira ? In
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=675
393 CORTE REAL, 2004, obra citada.
394 COELHO, T. DICIONÁRIO CRÍTICO DE POLÍTICA CULTURAL. São Paulo: Iluminuras, 1999

395 SOUZA, Thiago Vieira de. Aspectos didáticos e metodológicos no processo de ensino aprendizagem da Capoeira. In Lecturas: Educacion Física y Deportes, Revista digital – Buenos Aires – ano 11, no. 96, maio de 2006, disponible em www.efdeportes.com – http://www.efdeportes.com/efd96/capoei;htm
396 VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Capoeira no Maranhão: Angola ou Regional? In
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=425
VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Capoeira no Maranhão: Capoeira Angola In
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=438
VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Capoeira no Maranhão: Capoeira Regional? In
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=498
VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Capoeira no Maranhão: A Capoeira “Carioca” In
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=509
VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Qual Capoeira? In
www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=535
397 CORTE REAL, M.P. INTERCULTURA E DIALOGICIDADE: INVESTIGANDO ESTRATÉGIAS EDUCATIVAS E PRÁTICAS DE RESISTÊNCIA CULTURAL NA CAPOEIRA. Florianópolis: PPGE/CED/UFSC, Projeto de Tese, 2002.
398 FLEURI, R.M. (org). INTERCULTURA E MOVIMENTOS SOCIAIS. Florianópolis: MOVER/NUP, 1998.
FLEURI, R.M. Desafios a educação intercultural no Brasil. Porto Alegre: 2000, III SEMINÁRIO PESQUISA EM EDUCAÇÃO REGIONAL SUL/ANPED

399 In CAPOEIRA: arte marcial do Brasil. Rio de Janeiro: Grupo de Comunicação Três, 1983
400 MUKUNA, K. CONTRIBUIÇÃO BANTÚ NA MUSICA POPULAR BRASILEIRA. São Paulo: Global, [ca. 1980]

401 CORTE REAL, M.P. CÍRCULOS DE CULTURA NA INVESTIGAÇÃO TEMÁTICA DE MUSICAS NEGRAS. PPGE/CE/UFSM, dissertação de mestrado, 2001
CORTE REAL, M.P. A CAPOEIRA PODE TER SEU ESPAÇO NA ESCOLA? Texto apresentado no evento O negro e o currículo escolar. Santa Maria: 8ª. Delegacia de Educação, 1999

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MUDANÇAS DE PARADIGMA NO ENSINO DA CAPOEIRA

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Ontem, participei de uma reunião no Matro-á, centro de capeeira de Mestre Marco Aurélio, ali no Centro Histórico… aproximadamente 20 mestres atenderam ao convite para a reunião, capitaneada pelo Fórum da Capoeira do Maranhão, em conjunto com a UFMA, para tratar do inicio do curso de extensão de Formação de Mestres Capoeira, que será ministrado neste ano, de 2017, após um longo percurso de negociações e, enfim, encampado pela SEDEL…

Não vamos entrar nos desvios e percalços que o DEF/UFMA criou para a realização do curso, que foi apresentado pelo Mestre Tarcício – em educação física e Capoeira. Atendendo uma reinvindicação antiga dos Mestres maranhenses, e uma das primeiras iniciativas do Fórum da Capoeira.

Da reunião, após longas discussões – novamente! – sobre o ‘ser Mestre Capoeira’, e a listagem de mestres indicados pelo Fórum – 30 vagas – deu-se-nos conhecimento de qu o curso iniciará dia 19 de maio, sexta-feira, com a sua abertura oficial e as aulas, dia 23 de março, iniciando por Anatomia…

Ante a heterogeneidade da clientela do curso -os Mestres Capoeira – pergunto-me – e me proponho a questionar – e afirmo, de já aplaudindo a iniciativa de Tarcício!!!!!!!! –  se as mudanças do paradigma  na produção científica acerca da capoeira e seu ensino na escola, de acadêmico que se dedica à discussão da capoeira em sala de aula – Prof. Dr. Falcão, da UFSC – e qual a relevância de tal discussão no ensino da capoeira nos núcleos de prática e de ensino, tendo em vista a baixa escolaridade – quanto muito, ensino médio – desses mestres, contramestres, instrutores e monitores.

 

Abriu-se, na CEVCAPO – lista de discussões sobre a Capoeira do Centro Esportivo Virtual www.cev.org.br – uma polêmica apresentada por Aníbal Brito acerca da produção acadêmica de Mestre Falcão, colaborador de nosso “Jornal do Capoeira”.

“Quem acompanha a produção a respeito da temática capoeira, deve ter lido o artigo do professor Falcão no Livro Didática da Educação Física I, em que o mesmo sistematiza o conhecimento fundamentado na perspectiva crítico-emancipatória; mais recentemente o professor Falcão foi orientado pela prof. Celi Taffarel e aprofunda sua discussão na abordagem critico-superado [ra], fundamentada em princípios marxistas. Gostaria de saber se alguém desse grupo acompanha essa “transição” do pensamento do professor Falcão, ou entende que a discussão de fundo entre crítico-superadora (marxismo)[1] e crítico-emancipatoria (fenomenologia[2]), é menos importante!!! Quais as diferenças entre abordar a capoeira por um ou outro viés???Como deve se dar esse dialogo lá na UFSC, em que se encontra o prof. Falcão e o próprio Kunz?

Alguém da UFSC aí? Quem na escola procura trabalhar com alguma dessas abordagens?”.

 

Eraldo Brito (KPTA) assim se posicionou, em resposta:

 

“Interessante a preocupação do Aníbal sobre a mudança de perspectiva do Professor Falcão. Só não sei se há alguma confusão sobre a sua abordagem estar mais voltada às teorias gerais da educação ou, especificamente, à educação física. Se for o segundo caso, o II SENECA é uma oportunidade ímpar de se questionar ao próprio Falcão como se deu essa mudança e, mais importante, o porquê dela.

Particularmente, não sei se posso classificar nas minhas aulas de educação física, tomando como conteúdo emergente a capoeira, em uma ou outra perspectiva. Trabalho com a capoeira por meio do elemento lúdico, apoiado nas ideias de Paulo Freire sobre autonomia e exercício de liberdade no processo pedagógico, Vygotsky e sua ZDP na aprendizagem infantil e na construção socializada de conhecimento.

A capoeira possui uma infinidade de temas que podem ser trabalhos nas aulas, inclusive extrapolando para fora da escola como: a sua história e identificação importantes para a formação do povo brasileiro e da própria história nacional, a musicalidade e o ritmo, os movimentos e suas possibilidades de superação e interação, o própria dinâmica do jogo da capoeira como expressão de linguagem corporal e comunicação, o jogar ‘com’ e não ‘contra’ etc. etc. etc. São muitas as possibilidades…

Agora, não sei se consigo classificar o método de ensino pelo qual tento materializar conhecimento (capoeira como conceito espontâneo e, na escola, aproximação com o conceito científico) em alguma dessas perspectivas. É só”.

 

O próprio Falcão entrou na discussão, esclarecendo que “Realmente houve, de minha parte, uma transformação (ampliação, melhor dizendo) na minha perspectiva teórica.”. Ainda mais, esclarece ser:

“…importante dizer que no campo epistemológico se instaura um intenso debate teórico, a partir de diferentes perspectivas que provocam tensão, resultando em conseqüências nem sempre alvissareiras. Dentre os argumentos que propagam a morte do sujeito até os que se apresentam incrédulos em relação as metanarrativas, podemos verificar um certo colapso (crise) de paradigmas, pautado pela fragmentação teórica, cujo relativismo absoluto impossibilita qualquer pretensão de consenso.

Diante desse labirinto epistemológico, tenho adotado a perspectiva gramsciana que  sugere a incorporação, de forma subordinada, das formulações mais elaboradas à “Filosofia da Práxis” (materialismo histórico-dialético[3]). Não se trata de uma mera substituição de uma teoria por outra. A realidade concreta atual vem demonstrando claramente que a perspectiva do conflito no interior da sociedade capitalista continua atual e nos impele a pensar na perspectiva de sua superação. “Daí a pertinência do materialismo histórico-dialético para a explicação e transformação da realidade.”.

 

Eu mesmo respondi à lista, referindo-me à mudança de paradigma[4] – podemos dizer assim? – apontada nos escritos de Falcão devem-se à mudança de orientação acadêmica – Celi é marxista – dai a guinada… [mas lembrem-se, o problema de Marx sempre foi o Capital – melhor dizendo, a falta dele…] não podemos olhar o mundo com os mesmos olhares de sua época; os tempos são outros e, como disse Fukuiama, a historia terminou, o capitalismo triunfou sobre o socialismo e o único estado que conseguiu, sob certa forma, viver em um regime comunista, foi um estado de direita: Israel com seu kibutz…

 

Mas o que tem isso com o ensino da capoeira? já tentaram discutir essas teorias para o ensino da capoeira, com, por exemplo, o formado Donaldson em Maracassumé-MA? ou o professor que ensina capoeira num quilombo, a 18 quilômetros de Guimarães, também no Maranhão?

 

Afinal, de que estamos falando? As teorias referidas são partes da linguagem específica da educação – e da educação física. A grande maioria dos que “militam” na Capoeira como transmissores do conhecimento – mestres, contramestres, instrutores e monitores – nos diversos locais de ensino da capoeira, não são formados nem em educação, muito menos em educação física.

 

A imensa maioria tem como formação acadêmica formal, quanto muito, o ensino médio (antigo segundo grau). Daí levantar uma discussão sobre teorias ou concepções do processo ensino-aprendizagem só tem razão se se der dentro da academia, e excluindo a maioria dos “professores de Capoeira”…  Trata-se, assim, de um processo de exclusão, exclusões daqueles que não tem o conhecimento específico dos que frequentaram a academia e, especificamente, só compreensível pelos da área da educação – o substantivo está acima do adjetivo.

 

Está-se falando das abordagens sobre a cultura no campo da Educação Física. Suas características específicas aparecem nos anos 1980, quando surgem preocupações em analisar como as práticas corporais humanas estão impregnadas de valores hegemônicos que contribuem para a manutenção da sociedade capitalista.

 

O paradigma cultural representou uma tentativa de dar um novo enfoque à Educação Física, executando, ao mesmo tempo, uma ressignificação e a inserção de novas práticas corporais que constituem o universo dos conteúdos a serem trabalhados. O uso da referência cultural abre espaços para que a intervenção da Educação Física se baseie não mais, ou não somente, nos estudos do treinamento esportivo, da aprendizagem motora ou do desenvolvimento humano, mas sim, ou também, como aponta Bracht (1997), nos pressupostos sociofilosóficos da educação crítica. Uma das consequências desse movimento renovador foi a criação de perspectivas pedagógicas preocupadas em fazer uma análise do papel social da educação numa sociedade capitalista.

 

Nesse contexto, as perspectivas crítico-superadora e crítico-emancipatória compreendem que as formas do movimentar-se humano (com destaque para o esporte) reproduzem os valores e princípios da sociedade capitalista (BRACHT, 1999).

 

A Crítico-Superadora tem como referencial teórico o materialismo histórico-dialético e seus autores se identificam como ‘Coletivo de Autores’ – Carmen Lúcia Soares, Micheli Ortega Escobar, Lino Castellani Filho, Elizabeth Varjal, Celi Zülke Taffarel e Valter Bracht – e foi apresentada na obra intitulada ‘Metodologia do Ensino de Educação Física’ (1992); faz uma crítica ao modelo de Educação Física pautada na aptidão física e no tecnicismo com uma postura de forte crítica social; essa teoria defende a formação de sujeitos autônomos e conscientes de sua condição histórica e capaz de interferir na realidade.

 

A teoria crítico-superadora trata da cultura corporal numa proposta que possibilita interpretar e estabelecer relações dos conhecimentos com as possíveis mudanças sociais, do ponto de vista das classes trabalhadoras. Os conceitos fundamentais desta teoria são: identidade de classes, solidariedade substituindo o individualismo, cooperação confrontando a disputa, distribuição em confronto com a apropriação, liberdade de expressão dos movimentos e negação à dominação do homem pelo homem.

 

Já a Crítico-Emancipatória tem como referência Elenor Kunz, e faz uma crítica à Educação Física tradicionalista e está embasada nas ciências humanas e sociais – anos 90. Esta teoria tem como objeto de estudo o movimento humano utilizando-se de uma forma de ensino denominada ‘didática comunicativa’; são conceitos fundamentais desta teoria: subjetividade, a relação identidade pessoal/identidade social, a questão do sentido/significado, a preocupação com a dicotomia mente/corpo e natureza/cultura.

 

Além dessas, existem outras concepções, tais como a Concepção de aulas abertas (Reiner Hildebrandt e Ralf Laging) apresentada no livro Concepções Abertas no Ensino da Educação Física. Esta teoria foi importante, num determinado momento da história do ensino da Educação Física – anos 80 – pois rompeu com a perspectiva metodológica tecnicista e fez uma crítica à aptidão física como única forma de tratar a Educação Física. O aluno ganhou destaque no processo ensino-aprendizagem, enquanto o professor assumia o papel de simples mediador.

 

Na Sistêmica, a referência é Mauro Betti, 2002, fundamentada em um modelo sociológico que apresenta a cultura física como o foco do ensino da área, apresentando uma grande crítica à forma de ensino relacionada à educação do movimento e pelo movimento. O autor apresenta três princípios a serem considerados: (1) Princípio da não exclusão: discute que os conteúdos e métodos da Educação Física devem incluir a totalidade dos alunos, (2) Princípio da diversidade: que os conteúdos do programa de educação física ofereçam variedade de atividades, a fim de permitir ao aluno escolher criticamente, de forma valorativa, seus motivos-fins em relação às atividades da cultura corporal de movimento e (3) Princípio da alteridade: fez com que os pesquisadores de campo se defrontassem com o outro, o diferente, o exótico, o distante.

 

Outra teoria, a Cultural/Plural, que tem como referência Jocimar Daólio, fundamentada na antropologia, influenciados principalmente por Marcel Mauss e Clifford Gueertz, defende que a Educação Física deve se pautar no conceito de cultura, por entender que a cultura representa todas as manifestações corporais humanas e tem significados diversos em cada grupo específico, podendo ser apresentada aos alunos como forma de representação da diversidade cultural. As atividades físicas, por si só, não têm sentido, se não forem analisadas, trabalhadas e criticadas a partir de suas manifestações culturais, relacionadas ao corpo e ao movimento humano. Busca-se uma proposta pedagógica que forme sujeitos capazes de decidir com autonomia, dialogar junto à sociedade com clareza e coerência, refletir sobre sua condição humana e lutar por dignidade e condições melhores de vida.

 

Será que alguém que não esteja “nacademia” pode entrar na discussão? O Laércio já dizia que somente dominaremos uma tecnologia se dominarmos sua linguagem. Na Capoeira, é importante que os ‘de fora’ possam incorporar a linguagem dos ‘de dentro’, mas isso somente acontecerá se, de ambas as partes, houver uma integração e, sobretudo, interesse em ouvir ‘o outro’.

 

Onde você se localiza? Na sua metodologia de ensino, da capoeira – em qual das teorias acima você se enquadra?

 

Leopoldo

Desde o Maranhão

[1] Marxismo é o conjunto das idéias filosóficas, econômicas, políticas e sociais que Marx e Engels elaboraram e que mais tarde foram desenvolvidas por seguidores. Interpreta a vida social conforme a dinâmica da luta de classes e prevê a transformação das sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Marxismo)

[2] A Fenomenologia, nascida na segunda metade do século XX, a partir das análises de Franz Brentano sobre a intencionalidade da consciência humana, trata de descrever, compreender e interpretar os fenômenos que se apresentam à percepção. O método fenomenológico se define como uma volta às coisas mesmas, isto é, aos fenômenos, aquilo que aparece à consciência, que se dá como objeto intencional.  Seu objetivo é chegar à intuição das essências, isto é, ao conteúdo inteligível e ideal dos fenômenos, captado de forma imediata. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Fenomenologia)

 

[3] Propõem uma história que não mais seja baseada em indivíduos, mas sim nas classes e nos interesses que representam. Bem como a relação destas faz gerar de forma dialética a construção dos novos modelos de sociedade, de produção, de pensamento. Fazer-nos pensar em como estas relações fazem com que grandes homens podem ser consfiderados meros objetos da história e da luta entre classes ao invés do contrário (http://pt.wikipedia.org/wiki/Materialismo_dial%C3%A9tico)

[4] Paradigma é a representação do padrão de modelos a serem seguidos. É um pressuposto filosófico matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico; uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas. Na filosofia grega, paradigma era considerado a fluência de um pensamento, pois através de vários pensamentos do mesmo assunto é que se concluia a idéia, seja ela intelectual ou material, depois dela realizada surgiam outras idéias até chegar a uma conclusão final. Pensar que a idéia inicial, tanto a intelectual como a material, é o paradigma da conclusão final demonstra uma incoerência com o que de fato ocorre, pois não conta com a inspiração e os diversos fluxos de pensamento.Em Lingüística, Ferdinand de Saussure define como paradigma o conjunto de elementos similares que se associam na memória e, assim, formam conjuntos. O encadeamento desses elementos chama-se sintagma. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradigmas)

 

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A AÇÃO SOCIAL NA LIBERDADE

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A AÇÃO SOCIAL NA LIBERDADE

Vimos nesta oportunidade te convidar para participar de uma Ação Social no dia 29 de abril de 2017, de 8h00 as 12h00, a se realizar na Praça Mário Andreazza no (Viva Liberdade), com atendimento cultural e/ou de oficinas ministradas.

O Instituto Officina Affro e a Faculdade Estácio São Luís entendem que a Ação Social é uma prestação de serviço gratuito em que todo comportamento cuja origem depende da reação de outras partes envolvidas, sejam indivíduos ou grupos. É uma atitude sobre a qual recai ao menos um desejo de intercâmbio, de convivência, de relacionamento e de responsabilidade social. Considerando uma atividade muito importante para a comunidade do complexo de bairros da Liberdade e adjacência.

O Instituto Officina Affro e a Faculdade Estácio São Luís realizarão durante a Ação Social as seguintes atividades:

PROGRAMAÇÃO

1.    Atendimento de Saúde – Responsável: Coordenação do Curso de Enfermagem.

2.    Orientação Nutricional – Responsável: Coordenação do Curso de Nutrição.

3.    Teste de Glicemia e Colesterol – Responsável: Coordenação do Curso de Biomedicina.

4.    Atendimento de Ações Judiciais – Responsável: Coordenação do Curso de Direito.

5.    Jogos e Brincadeiras de Origem Africana e Indígena – Responsável: Prof. Zumbi Bahia (Curso de Educação Física).

6.    OFICINAS: Confecção de Brinquedos feitos de materiais recicláveis. Responsável: Profª Maria Isaura (Curso de Biomedicina).

7.    Oficina de Capoeira Oficina de Dança Afro – Responsável: Prof. Zumbi Bahia (Curso de Educação Física).

8.    Emissão de Cartão do SUS.

9. Apresentação/Show: Banda Tambor Falante do Officina Affro do Maranhão.


FAVOR ACUSAR RECEBIMENTO, OBRIGADO PELA GENTILEZA.
Cordialmente,
Mestre Zumbi Bahia
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Capoeira, Maranhão & Agarre Marajoara

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Capoeira, Maranhão & Agarre Marajoara

Atlas da Capoeiragem no Brasil

Maranhão  e o  “Agarre Marajoara”

Nota do Editor:

Sem Diagnóstico não se faz Planejamento sério e eficaz.  Sem diagnóstico, portanto, será temerário lançar um Plano Nacional, muito menos um Plano Mundial para a Capoeiragem.  Salvo se o plano mágico for decidido entre  quatro paredes em função de uns poucos iluminados.

Mas, neste caso, será mais um plano pretensioso, sem representatividade nem legitimidade. Raciocínio que serve, também, para os freqüentes congressos nacionais e internacionais que, em função de um pequeno grupo de vestais, pensam que vão resolver todos os problemas da capoeiragem. Salta aos olhos que, mais do que nunca, é hora de um grande diagnóstico, bairro a bairro, cidade por cidade, estado por estado. Precisamos saber a história e a estória locais, de cada região, precisamos saber ao certo o perfil sócio-econômico dos nossos mestres e contramestres, precisamos descobrir as diversas capoeiras que tenderão a morrer esmagadas pelas grifes mais poderosas.

Não se trata de um sonho impossível, agora mesmo, a Escola e Educação Física e Desporto, da Universidade  Federal do Rio de Janeiro (que vai prestar grande e longa homenagem ao Mestre Artur Emídio de Oliveira)  começa a estudar a viabilidade de assumir um projeto desses em relação ao Estado do Rio de Janeiro.

O melhor exemplo, entretanto, até porque já está em marcha, vem do Maranhão.  Quem já ouviu falar sobre o Agarre Marajoara?

Pois muito bem, informação como esta, valiosa, começa a vir à tona, através do extraordinário trabalho que vem sendo coordenado pelo Professor Leopoldo Vaz, em São Luis do Maranhão.

Daí porque, a seguir,  tomo a liberdade de transcrever o e-mail que dele acabo de receber.

Miltinho Astronauta

 

—– Original Message —–

From: LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ

Subject: CAPOEIRA NO MARANHÃO

Caro Milton Cezar Ribeiro

– Miltinho Astronauta / Jornal do Capoeira

 

Já retornei de Caratupera, região do Alto Turi, fronteira com o Pará … conversei com alguns capoeiras da área – Caratupera e Maracassumé – que estão ligados ao Pará, attravés do Mestre Zeca … não consegui informações, ainda,  sobre a “capoeira carioca”, pois, muito jovens não conhecem a história da região. Turiaçu fica bem próximo de Carutapera, na mesma região do Turi …

 

O grupo de Carutapera denomina-se ACANP – Associação Capoeira Arte Nossa Popular – fundada por Mestre Zeca, de Belém do Pará – Jose Maria de Matos Moraes (33 anos) -, que atua em duas escolas – Escola Valter Leite, do município e outro grupo no Abrigo João de Deus

 

Mantém vários grupos atuando na região do Alto Turi, no Maranhão, e em outras localidades do Pará, alem de Belém.

 

Em Carutapera a ACANP mantém cerca de 40 alunos, de idade entre 05 e 16 anos, liderados pelo Monitor Canela – Donaldo Conceição (27/04/82) – da cidade de Maracassumé, onde mantém outro grupo; em Carutapera, o núcleo foi fundado em 23/03/2002, e é dirigido por Reginaldo Tavares (23/03/76) – Estagiário Verdão – e conta ainda com Jose Nilson da Silva (25/05/78) , na capoeira, Batizado Nanico.

 

A ACANP é filiado aa Federação Paraense de Capoeira – e o estilo praticado é o “Angola com Regional”, estando desenvolvendo, em Maracassumé, e introduzindo em Caratupera, o estilo desenvolvido pelo Mestre Zeca, que denominam de “Onça Pintada” – que seria uma fusão da Regional com o Agarre Marajoara.

 

O pessoal já manteve contato com a federação Maranhense, de Mestre Bae e Mizinho e é visitada por Mestre Índio Maranhão, mas foi recomendado que se mantivessem em contato com o Pará, devido aa distância …

 

De acordo com Álvaro Adolpho, de Belém do Pará, ex-diretor do Departamento de Educação Física do Pará, o “Agarre Marajoara” é uma luta desenvolvida pelos índios da Ilha do Marajó – que guarda uma certa semelhança com o Aku-Aku – havendo registro de sua pratica ha mais de 300 anos. De acordo com o Prof. Álvaro, talvez seja a primeira luta-esporte com registro de sua pratica no Brasil.

 

Existem estudos sobre isso, que ficou de mandar, assim como o grupo de Carutapera ficou de enviar um histórico do grupo,com essa historia da capoeira local …

 

Leopoldo Vaz

Professor de Educação Física do CEFET-MA

…………………………………………………………………………….

 

Ilustrações: http://geocities.yahoo.com.br/terrabrasileira/ritos/kuarup.html & site do Ministério dos Esportes

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wilson(gordinho) – 10.3.2006 13:58:16
zezao eu nao esquesi do grupo.estou meio aperiado mais eu vouto a treina !!!!
nao consigo esquiaser a acanp *é o grupo do meu coraçao*
Francinaldo( mortal) – 5.9.2005 17:19:50
Eu sou o mortal da ACANP, estou desenvolvendo um trabalho em Santa Inês – MA e quero parabenizar o jornal express pela matéria estamos com vocês! obrigado. É ACANP!!!!!!!
E-mail
Fernando Rabelo de Souza – 5.6.2005 22:26:27
A antiga Associação de Capoeira Arte Nossa do Pará – ACANP, que foi precáriamente filiada à Federação Paraense de Capoeira – FEPAC, abriu mão dessa condição de filiada há muitos anos. Continuamos mantendo, todavia, excelente relação de amizade com o Presidente Zeca. Outrossim, durante o tempo em que se manteve filiada não tivemos conhecimento de que desenvolvesse trabalho na linha de fusão entre Capoeira e Agarrada Marajoara.
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Curso de Extensão voltado para mestres de Capoeira

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A Universidade Federal do Maranhão – UFMA, através de seu Curso de Educação Física – e em parceria com a Secretaria de Estado de Esporte e Lazer – SEDEL -,  realizará um

 

Curso de Extensão voltado para mestres de Capoeira.

 


Um momento significativo para a Capoeira, cujo feito é mais uma ação do FÓRUM PERMANENTE DA CAPOEIRA NO MARANHÃO que, desde 2012, vem empreendendo esforços nesse sentido, onde a participação e parceria do Prf. Tarcisio Selektah – membro do Fórum e professor do Curso de Educação Física, da UFMA, foi fundamental.

 


Não foram poucos os percalços para se chegar à vitória.

Desta forma fica convocada uma Reunião no Centro Matroá de Capoeira, segunda-feira, dia 24, a partir das 19:30h.

 

Na oportunidade, o Prf. Dr. Tarcisio Selektah tornará todos informados a respeito do Curso.

 

Assim que o Prf. Tarciso enviar-nos a lista de mestres, já constante do processo referente ao Curso, tornaremos os demais mestres, sabedores.

 

Enquanto isso, os mestres que, porventura lembrarem-se dos demais, por favor repassem a informação conclamando-os para a Reunião.

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CAPOEIRA NA LIBERDADE – MESTRE ZUMBI BAHIA CONVIDA!!!

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SENHORES / SENHORAS

É COM IMENSA SATISFAÇÃO QUE VENHO CONVIDAR PARA VOCÊS PARTICIPAREM DA AÇÃO SOCIAL NO BAIRRO DA LIBERDADE.
POR OBSÉQUIO COLOCA O CARTAZ/CONVITE NOS GRUPOS DE WHATSAPP A TÍTULO DE DIVULGAÇÃO. MUITO AGRADECIDO.

 

FAVOR ACUSAR RECEBIMENTO, OBRIGADO PELA GENTILEZA.
Cordialmente,
Mestre Zumbi Bahia
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“Quentado a fogo, tocado a muque e ‘dançado a coice’.”

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Desde o inici0 dos anos 2.000 venho me dedicando ao resgate da “Punga dos Homens”, quando comecei a escrever o Atlas da Capoeira no Maranhão; antes, ainda, o Livro-Álbum dos Mestres Capoeiras…

Lembro de uma visita ao Mestre Bamba do Maranhão, quando lhe perguntei se conhecia algo da Punga dos Homens, e este me relatou o que sabia, das suas andanças pelo interior do Maranhão; pouco mais tarde, já no Matro-á, de Mestre Marco Aurelio Haikel, pude me aprofundar nesta manifestação corporal do povo maranhense.

Trouxe, na ocasião, o que Câmara Cascudo publicada sobre a Punga, e dizendo ser, ela, manifestação do povo maranhense, e que seria uma forma primitiva de Capoeira…

Tenho falado, desde há muito, acompanhando o pensamento – e os estudos! – de vários Mestres, de que não há “uma” capoeira, mas várias capoeiras… e que, antes da diáspora da Capoeira – melhor, dos Capoeiras – baianos, na década de 60, alguns estados tinham suas próprias manifestações, com características locais, mas com uma identidade única – a manifestação do lúdico e do movimento a que denominamos ‘capoeira’.

Pois bem, ao buscarmos as raízes da capoeiragem -prefiro este termo, do que apenas Capoeira – vamos encontrar, como disse, essas manifestações. Devido ao passado comum, dos vários portos de entrada da escavaria africana – e devo aqui lembrar que, quando se fala em tráfico escravo, devemos ter em conta de que não havia apenas o fluxo África-Brasil-Maranhão, mas que havia um  intenso movimento inter provinciais, o interno… seja por compra-venda direta, seja por contrabando, seja por fugas e capturas…

Quero deixar claro que no período colonial, a partir de 1617-1621 até o advento da Independência, haviam dois estados coloniais português, na América do Sul – o Estado Brasil – que oscilou, seu espaço geográfico – entre Pernambuco para baixo, e mais tarde, incorporando o  Ceará, e por ultimo, o desligamento do Piauí ; e o Estado do Maranhão – que, a principio, a partir do Ceará até o Caribe, e do Atlântico até os contrafortes dos Andes…

O fluxo de escravos obedecia – na época da navegação à vela – o fluxo das ma´res e das correntes marítimas e dos ventos… saindo a Europa – Portugal – seja em direção à África, só havia um caminho… mesma coisa para o continente sul-americano: dois caminhos: ou se vinha para o Maranhão – os portos de São Luis e Belém…- , ou se ia para o Brasil – com os portos de entrada do Recife (Pernambuco), ou do Rio de Janeiro, e algumas vezes, Salvador… A escravaria destinada ao Maranhão, só para o Maranhão – entenda-se, hoje, Maranhão, Pará, Amapá, Amazonas, Tocantins, Mato Grosso, Acre, Rondônia, Roraima…; a destina ao porto de Pernambuco, atingia, a distribuição, Do Ceará até a Bahia e interiorizava-se para o Goiás, em parte, e as Gerais… do Rio de Janeiro, a distribuição para as Gerais e demais estados do hoje sul-sudeste…

Da mesma forma , as correntes marítimas possibilitavam a chegada de determinada região apenas ao Maranhão; de outras regiões, apenas aos portos mais ao sul. A mistura se dá pelo tráfico interno…

Dai a manifestação da capoeiragem ter aparecido, simultaneamente, no Maranhão, no Recife, em Salvador, e no Rio de Janeiro… semelhantes, porém não iguais…

A Capoeira de hoje é resultado, como disse, da diáspora dos mestres baianos, que sepultaram as capoeiras locais… as capoeiras primitivas… São Luis é um exemplo!!!

Olhamos pelos olhos dos outros… aceitamos as histórias dos outros como se fosse as nossas, como se verdadeiras, e nossas, as fossem… Um erro que cometemos, ao aceitá-las e não buscar as nossas raízes.

E aí está a Punga dos Homens… Louvável a iniciativa de Marco Aurélio e Serginho, junto com outros mestres, em buscar a verdadeira capoiragem maranhense… vamos resgatar, agora, a carioca?

 

 

  • Salve a Turma do Quilombo de Miranda do Rosário, sob a liderança do Seu Zé Ribeiro e D. Elza, quando da última versão do “Iê, Camará”, evento da Escola de Capoeira Angola do Laborate.
    Nessa oportunidade a Turma mostrou-nos a Punga dos Homens.
    Essa mesma Turma representou o Maranhão – juntamente com parte da Turma do Mestre Felipe – no Encontro Internacional de Capoeira, coordenado e promovido pelo mestre Sabiá, em Salvador, em 2005, deixando maravilhados mestres da Velha Guarda da Capoeira soteropolitana, presentes ao Encontro.
    No Tambor de Crioula, a punga dos homens ocorre, predominantemente, nas áreas rurais das mais variadas regiões e municípios do Maranhão. Há territórios – que sobrepõem-se aos limites municipais – em que o Tambor é brincado exclusivamente por homens, sendo que os movimentos viris, bruscos, literalmente, da forma como são praticados entende-se com mais facilidade um ditado tão antigo – dizem os mais velhos – quanto o próprio Tambor: “quentado a fogo, tocado a muque e ‘dançado a coice’.”

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