Batizado e Troca de Cordas da Associação de Capoeira Maragnon (Mestre Ribaldo Branco)

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CONVITE!

Participe do Batizado e Troca de Cordas da Associação de Capoeira Maragnon (Mestre Ribaldo Branco), que será realizado neste domingo dia 20 de julho de 2014.
Local: Sede da Associação Maragnon/ Travessa da Vitória nº 4B – Pedrinhas (Após o viaduto localizado na BR135 entrar na rua a direita e depois entrar novamente a direita).
Horário: 09h:30min 

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CONVITE!</p>
<p>Participe do Batizado e Troca de Cordas da Associação de Capoeira Maragnon (Mestre Ribaldo Branco), que será realizado neste domingo dia 20 de julho de 2014.<br />
Local: Sede da Associação Maragnon/ Travessa da Vitória nº 4B - Pedrinhas (Após o viaduto localizado na BR135 entrar na rua a direita e depois entrar novamente a direita).<br />
Horário: 09h:30min<br />
Mais informações (98) 8784-9342<br />
Contamos com a presença de todos!

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MESTRE PATINHO…

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ê, viva meu mestre!!!!
Mestre Patinho – Essa é Minha Cultura
youtube.com
Diferente do que é praticado na Bahia e no Rio, a capoeira maranhense tem suas características. Grande pesquisador do assunto, Mestre Patinho mostra algumas …

 

Mestre Sapo e Mestre Patinho
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Vimeo is the home for high-quality videos and the people who love them.

 

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“O DONO DA CAPOEIRA” – História do Mestre Sapo que nos anos 60 modificou a Historia da Capoeira no Maranhão.

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CONVITE</p><br />
<p>A Federação Maranhense de Capoeira - FMC tem a honra de convidá-lo (a) para assistir "O DONO DA CAPOEIRA" idealizado pelo Professor Roberto Roberto (Associação de Capoeira Filhos de Aruanda - Mestre Jorge) documentário baseado na História do Mestre Sapo que nos anos 60 modificou a Historia da Capoeira no Maranhão.
CONVITE A Federação Maranhense de Capoeira – FMC tem a honra de convidá-lo (a) para assistir “O DONO DA CAPOEIRA” idealizado pelo Professor Roberto Roberto (As…sociação de Capoeira Filhos de Aruanda – Mestre Jorge) documentário baseado na História do Mestre Sapo que nos anos 60 modificou a Historia da Capoeira no Maranhão.
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MESTRE PATINHO – o novo no velho sem molestar raízes

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Acabo de voltar da rua, e minha visita semanal à Poeme-se – sebo existente no Projeto Reviver (Praia Grande) -; lá adquiri o CD de Mestre Patinho, recém lançado – e que não tive como ir… me desculpe, Mestre. Junto, o livro do Serginho e do Marco Aurélio, sobre Mestre Felipe (Tambor de Crioula)…

Pois bem, assisti ao CD!!! Num dado momento, ao ensinar os fundamentos, um breve aquecimento me vi ministrando as aulas de Atletismo ali na pista do 24 BC, observado pelo Patinho, então professor de Ginástica Olímpica, junto com Juvenal… os mesmos exercícios que utiliza para melhorar a flexibilidade e a elasticidade necessárias à Capoeiragem… Legal, isso!!!

As explicações do Mestre, dentro de uma sequencia pedagógica, tal qual Listello preconizava em seu livro, traduzido pelo Mestre Laércio…  Lembrando que Patinho se iniciara na Capoeira e fora buscado pela Ginástica pelo Dimas… as aulas àqueles jovens atletas de então, ministradas no Costa Rodrigues, buscando formar uma massa crítica para dar continuidade aos projetos do Cláudio Alemão de dotar o Maranhão de um Esporte verdadeiramente voltado para as necessidades dos jovens estudantes de então, participantes dos (Festival Esportivo da Juventude) FEJs, que se tornariam logo a seguir os (Jogos Escolares maranhense) JEMs…

A estratégia do Laércio e do Dimas - secundados pelo Marcão, Sidney, Lino, Horácio, Lopes, depois Biguá e Viché, logo após Zartu, e, embora não fizesse parte deste grupo de ‘paulistas”, eu venho me inserir a partir de 1976, em Imperatriz, e depois de 79, em São Luis… – era de selecionar aqueles jovens atletas que mais se destacassem em suas modalidades e os transformassem em Monitores; enquanto treinavam nas Escolinhas de Esportes que então funcionavam no Ginásio Costa Rodrigues, era-lhes passado ensinamentos sobre pedagogia do esporte, técnicas mais acuradas, táticas de jogo…

E estes jovens eram colocados em várias escolas, para formar as equipes representativas das mesmas, formando uma equipe para disputar os Jogos… Quantas modalidades funcionavam no Costa Rodrigues… as aulas iniciavam a partir das cinco da manhã e iam até por volta da meia-noite; além do Costa Rodrigues, tinha-se o Guioberto Alves, este dedicado apenas ao Futebol de Salão – ainda não era Futsal. E funcionava!!!

A Capoeira tinha a sua Escolinha, também, e o Professor era o Anselmo Barnabé… não sabe quem é o Professor Anselmo? foi o grande professor do Patinho: Mestre Sapo!!! – e Patinho, além da Ginástica Olimpica, se iniciava como Monitor de Capoeira – tornando-se a partir desses ensinamentos um Mestre e hoje uma referencia na Capoeiragem brasileira…

” O verdadeiro Mestre aprende com seus discípulos, com seus alunos, a cada aula…” sábias palavras!!!

O subtítulo de seu CD – ‘o novo no velho sem molestar raízes” bem traduz esses quase 40 anos que conheço Patinho; muito do que traz em seu novo trabalho – didático!!! – já estava em uma entrevista que me concedeu alguns anos, para alimentar a monografia de graduação de minha filha. É o que transcrevo a seguir, e indicando o seu CD - é obrigatório – para TODO professor/mestre – e não só da Capoeiragem – como se transmite CONHECIMENTO:

“CONVERSANDO COM MESTRE PATINHO”

Conversando com Antônio José da Conceição Ramos, o MESTRE PATINHO[1]

Jornal do Capoeira – http://www.capoeira.jex.com.br/ Edição 63 - de 05 a 11/Mar de 2006

 No dia 26 de fevereiro de 2006 estivemos – Loreta e eu – na casa de Mestre Patinho, em plena Madre Deus. Entrevista marcada para as 09:00 horas de la mañana, de um domingo de carnaval! Patinho também: estava chegando da folia. Para quem conhece São Luís do Maranhão, a Madre-Deus (Bairro) e Carnaval de São Luís, sabe o que isso significa. Realmente um grande “sacrifício” do Mestre.

Loreta, minha filha, está se formando em Economia, pela UFMA; como já anunciado, sua monografia de graduação versará sobre Economia e Capoeira: a capoeira como formadora de renda; seu impacto na economia ludovicense (Anexo III). Seu orientador, Felipe de Holanda, ainda não se decidiu se é Capoeira ou se é Economista, ou vice-versa… É aluno de Patinho…

Da mui proveitosa entrevista com Mestre Patinho (foto 1), capturamos o seguinte:

-    Capoeira é um jogo corporal, é um diálogo – a rasteira é um choque, é preciso um corpo rítmico para ser bem dada;

-     Capoeira é fundamento, três alturas, três distancias, três ritmos…

-    Capoeiragem: jogo estratégico para a guerra – é um jogo de xadrez;

-     Quando conheci a Capoeira (anos 60), não era profissão, não havia possibilidade de viver da capoeira; aprendi a capoeira do Rio de Janeiro, com Jessé Lobão, aluno de Djalma Bandeira, e com Sapo, meu Mestre…

-      Bimba não criou um estilo, ele criou um método: para se afirmar na “chamada de Angola” para disfarçar o jogo estratégico – passa-dois, balão cinturado – malícia, jogo de malícia, jogo de transformação, jogo de cintura: oitiva, rústica…

-      Hoje, a Capoeira é uma mesmice, se transformou em uma ginástica coreografada – vi um aulão, com mais de 500 alunos, todos repetindo o movimento… Lembra àquelas aulas de calistenia, aquelas apresentações de ginástica, de antigamente? As aulas de educação física do Exército? Isso não é Capoeira …

-     A Angola… É autodefesa, busca do diálogo corporal, é transformação, jogo de dentro, você encontra a sua altura, o seu jogo, sua dimensão; é diferente da capoeira do pós-modernismo; capoeira é matemática; é história; é geografia… Tem que estar em contato, é comunhão, todo dia…

-     No jogo estratégico, não pode baixar a guarda; deve-se respeitar o oponente; mesmo que o adversário não saiba jogar, o bom Capoeirista joga mesmo com quem não sabe, e o faz jogar, gingar…

-     Maçonaria x Capoeira – 0 a 9, infinita forma.

-     Não existe uma capoeira, Angola, Regional, cada jogador tem a “sua Capoeira”…

-     A Capoeira é uma arte-cultura esportiva que mais representa este País …

-    O Capoeira não procura emprego – procura trabalho, realiza um trabalho…

-     Não consigo sobreviver da Capoeira, sou um artista de rua, sou um mestre, hoje me aceito como mestre, pois estudo os ritmos maranhenses – são 37 … – o boi, o teatro, a ginástica, a educação física, a lateralidade, a psicomotricidade, a música; para ser mestre da capoeira, tem que ser um Doutor…

 

-    Diálogo da Trilogia:

§         Angola – gunga

§         São Bento Pequeno – viola

§         São Bento Grande – violinha

São células na mesma cadência que preenchem o espaço melódico – pulsação;

A roda tem regência…

O Traíra (Mestre), no local de Angola, fazia Santa Maria; quando chega em São Bento grande, fazia cavalaria …

-     A teoria não vale nada, se não inserida na prática…

-     A grande dificuldade é a música, a musicalidade da capoeira; muitos me criticam por ensinar música, teoria musical, para se cantar as ladainhas, as chamadas… Mas é preciso, é necessário entender os toques, saber quando e como entrar, os tons, a harmonia; assim como o texto, saber o que esta cantando, não apenas repetir um som… É necessário entender a letra, o que canta, é preciso ter conhecimento…

-     Capoeira, hoje, é arte de negro, esporte de branco…

Capoeiristicamente,

Leopoldo Vaz, São Luis – Carnaval Maranhense de 2006

Professor de Educação Física

Mestre em Ciência da Informação


[1] São corresponsáveis por este artigo: Loreta Brito Vaz – UFMA, Acadêmica de Economia, Capoeira Angola; Felipe de Holanda – UFMA, Professor de Economia, Capoeira Angola (Orientador)

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CAPOEIRAS DE BARRA DO CORDA ORGANIZAM 5.ª RODA DA AMIZADE COM HOMENAGEM AO ESPORTE AMADOR CORDINO

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CAPOEIRAS DE BARRA DO CORDA ORGANIZAM 5.ª RODA DA AMIZADE COM HOMENAGEM AO ESPORTE AMADOR  CORDINO.
Vai ser a partir das 16 horas, no Arco do Calvário, na Rua Florêncio Brandes, a concentração  que dará  início a  5ª Roda da Amizade que tem como objetivo principal integrar os grupos de capoeira da cidade. Do  Arco, os capoeiras seguem em cortejo de berimbaus  subindo o  Morro do Calvário até a porta da Igreja, ali os capoeiras farão uma grande roda.   Este ano os capoeiras …prestam  homenagens ao Esporte amador  com a  apresentação de uma carta aberta  endereçada  ao  Prefeito de Barra do Corda e ao Secretário Municipal de Esporte e assinada por diversos grupos, times, instituições de ensino e pessoas,  sugerindo a realização de um fórum municipal de esportes e a adoção de políticas públicas  de incentivo e apoio ao esporte amador. A Roda é organizada pelos grupos Angoleiros da Barra, o GABA Capoeira Angola, o Mundo Capoeira e Muzensa de Barra do Corda, capoeiras já chegaram de  Grajaú e Teresina  para participarem da festividade.Ver mais
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Quanto Existe de Educação Física na Capoeira?

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Quanto Existe de Educação Física na Capoeira?  Por

 Gostaria de propor uma troca de conhecimentos a respeito da capoeira, e como esta pode estar presente na escola, visto que é uma prática ainda “marginalizada” por muitos. Que formas devemos buscar para aproximar os alunos, e faze-los entender os valores e a grande “bagagem” cultural que existe por trás dessa simples prática corporal?

“A capoeira, não impõe regras ou limites, as diferenças aproximam, envolvem, caracterizam, e em instância nenhuma separa. ”

Comentários

Por Lindinalvo Natividade
em 18-12-2013, às 21h58.

Olá Mablyni.  muito bom este seu questionamento. apesar de varias pesquisas apontarem os beneficios desta manifestação, ela ainda é marginalizada e por quem talvez devesse abraça-la como um novo instrumento pedgógico, ou seja, a equipe diretiva e pedagogica da escola. mas vamos lá.  acredito que na Capoeira, diferentemente de outras lutas, seus participantes tem a possibilidade de experimentarem diversas situações de interação com o jogo propriamente dito. Na roda, por exemplo, ninguém fica estático. Alguns tocam, outros jogam, enquanto outros batem palmas e cantam atentos ao jogo. Neste momento o capoeira observa, ouve, analisa, interpreta uma dada situação e planeja sua ação.  De acordo com Neira (2003) “o gesto carregado de sentido, significado e intenção assumirá, então um papel fundamental no processo educativo…reunindo em uma mesma ação a dimensão ação cognitiva, e claro motora. Enfim, a Capoeira pode proporcionar aos seus praticantes, vivenciar cada momento e cada movimento não só com músculos, nervos e tendões, mas também primordialmente com “cabeça e coração”.

Além disso, a Capoeira também apresenta uma multiplicidade de facetas inerentes não só ao campo da Educação Física, mas também as disciplinas escolares, nos remetendo a um novo instrumento pedagógico para a formação global do aluno, devido ao seu caráter interdisciplinar. Quem melhor que o professor de HISTÓRIA para abordar a história da Capoeira, nacional, estadual e por cima de tudo local? Para a GEOGRAFIA, a correlação com os locais que esta Capoeira acontecia e os locais que hoje são representados, assim como as características dos capoeiristas baianos, cariocas, paulistas, etc. A LITERATURA pode abordar a riquíssima musicalidade da Capoeira, seus versos e poesias, as obras de Jorge Amado. A RELIGIÃO, a reflexão critica entre a religião e a religiosidade, as diferenças de cada capoeirista e suas respectivas regiões e influencias. A MATEMÁTICA pode explorar a geometria encontrada em uma roda de Capoeira, a quantidade de tempos para se tocar um determinado toque, e as ARTES, os trabalhos de Debret e Carybé dispensam comentários.

envio a vc alguns trabalhos meus sobre capoeira.  o ultimo é a minha dissertação de mestrado. boa leitura e vamos PAPOEIRAR…

 1. NATIVIDADE . Nem tudo que reluz é ouro. Controle, poder, resistência e o jogo de sedução na prática da Capoeira. Revista de Educação Popular (Impresso), v. 11, p. 136-146, 2012. http://www.seer.ufu.br/index.php/reveducpop/article/view/20250   

2. NATIVIDADE . O Discurso Pedagógico na Prática da Capoeira.. Revista Teias (UERJ. Online), v. 12, p. 171-180, 2011. http://www.periodicos.proped.pro.br/index.php/revistateias/article/view/869/737   

3. NATIVIDADE . Um Brasil, várais ‘Capoeiras’. Construindo e afirmando as identidades. Estudos Afro-Asiáticos (UCAM. Impresso), v. 33, p. 105-127, 2011.
 
4.NATIVIDADE . Praxis Capoeirana: um jogo de saberes na formação docente em Educação Física. Revista Urutágua (Online), v. 13, p. 0/13-1, 2007. http://www.urutagua.uem.br/013/13natividade.htm
 
 
5.NATIVIDADE . A Capoeira nas Aulas de Educação Física nas Escolas Municipais de Barra Mansa. Hoje um passo, amanhã uma caminhada.. Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v. 94, p. 94, 2006. http://www.efdeportes.com/efd94/capoeira.htm 
 
6. NATIVIDADE . A Atuação do Profissional de Educação Física em Relação às Lutas no Ambiente Escolar.. Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v. 90, p. 90, 2005. http://www.efdeportes.com/efd90/capoeira.htm  
 
7. NATIVIDADE. CAPOEIRANDO EU VOU: cultura, memória, patrimônio e política pública no jogo da capoeira http://www.lpp-buenosaires.net/ppfh/documentos/teses/lindinalvonatividade.pdf
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CRONICA DA CAPOEIRAGEM – PUNGA DOS HOMENS – ALGUMAS (NOVAS) CONSIDERAÇÕES

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PUNGA DOS HOMENS – ALGUMAS (NOVAS) CONSIDERAÇÕES

A ASSOCIAÇÃO CENTRO CULTURAL DE CAPOEIRAGEM “MATROÁ”, do Mestre Marco Aurélio (São Luis) – em parceria com o MAVAM[1], a SEDEL[2], e patrocínio da SECMA[3] -, realizou no período de 18 a 19 de maio de 2012 o evento “A PUNGA DOS HOMENS NO TAMBOR DE CRIOULA”. O objetivo foi de: “[...] esclarecer se tal expressão corporal é remanescente de uma forma de luta, própria de povos africanos trazidos para o Maranhão e, se há uma relação com a Capoeira, bem como, os motivos pelos quais não se faz presente entre as brincadeiras de tambor de crioula, existentes na capital do estado.” (FOLDER DO EVENTO) [4].   

Segundo Mestre Marco Aurélio[5], o evento deverá propiciar: “[...] o aprendizado, a pesquisa e o debate em torno dessa expressão –[Punga dos Homens] -, que muito embora seja tema de interesse da Capoeiragem, também diz respeito ao público em geral, na medida em que pessoas ligadas à pesquisa, dança, artes cênicas e de lutas, audiovisual, dentre outras, buscam na arte e na cultura popular, elementos de composição para as suas mais diversas expressões.”

 Ainda de acordo com o material de divulgação[6], a “Punga dos Homens” vem carecendo de investigação, pois se apresenta com rara e rasa bibliografia. Ao que parece essa manifestação da lúdica e do movimento remonta à ancestralidade do Tambor de Crioula, haja vista a expressão “quantado a fogo, tocado a muque, e dançado a coice” que tão bem o define: “Genuinamente maranhense e ainda presente em algumas comunidades rurais, a punga dos homens, a depender de uma região para outra, se faz mais, ou menos, vigorosa e não ocorre em todas as brincadeiras de tambor. Acontece ao lado da roda das mulheres, geralmente em areal e quanto mais vigorosa, não é raro ver homens ao chão. Com o avançar das horas, os coreiros intensificam as pungas, preservando-se, contudo, o aspecto lúdico da brincadeira. Ressalte-se, que nessa manifestação, acontece de mulher derrubar homem”.

 Quero deixar registrado que desde 2005 se vem discutindo a Punga dos Homens: “Hoje, 29/07, fui [o Autor] ao Centro Histórico me informar sobre o Tambor-de-Crioula e a Punga, movido pela curiosidade de um artigo do Jornal do Capoeira – Capoeira em Sorocaba – em que é mencionado pelo Autor, Carlos Carvalho Cavalheiro, em que no Maranhão a Capoeira receberia também o nome de “Punga”, ligado àquela dança… “[7]

          Dizia Mestre Cavalheiro: “Das diversas lutas/jogos afro-brasileiras, tem-se informação das seguintes: Em Alagoas foi chamada de bate-coxa; em Pernambuco transformou-se no passo do frevo; na Bahia era a capoeira Angola e o batuque; samba de aboio em Sergipe; samba-de-roda no interior fluminense; pernada no Rio de Janeiro; punga no Maranhão; tiririca na capital paulista e pernada no interior de São Paulo. Isso não significa que não se encontrasse o nome genérico de capoeira nessas localidades. Em 1833, por exemplo, o Presidente da Província de São Paulo, Cel. Rafael Tobias de Aguiar, enviou para a Assembleia da Província uma Postura proibindo o jogo da capoeira.”[8] (grifos nossos)

 Achei estranho, pois nunca ouvira falar nisso… Dei uma olhada no material que tenho sobre folclore maranhense e achei em Reis (1999) [9]: “Caracteriza-se [o tambor de crioula] pela PUNGA ou UMBIGADA, onde é verdadeiramente observada em sua coreografia  a participação destacada da mulher”.

 Dançam o Tambor-de-Crioula, apenas mulheres cabendo aos homens a percussão dos tambores.

Nada relacionado com a Capoeira…

Procurei em outros autores alguma relação entre “punga” e “capoeira”, e não achei nada. Então fui ao Centro de Cultura Popular “Domingos Vieira Filho”, procurar alguns pesquisadores que pudesse me dar alguma informação. Também lá não se ouvira falar de que a Capoeira, enquanto manifestação cultural fosse chamada de “punga”, conforme informa o ilustre pesquisador sorocabano.

Conforme já publicado no nosso Jornal do Capoeira, havia o uso de “capoeira” ou “carioca”, e estamos buscando ainda o que seria a “carioca”. Foi quando ouvi um toque de berimbau vindo de um sobrado, e a placa “Escola de Capoeira Angola ‘Mandingueiros do Amanhã’. Lá, encontrei Mestre Bamba e aproveitei a oportunidade de uma conversa – mais de duas horas – e perguntei se sabia alguma coisa sobre “uma capoeira” denominada “punga”. “Já ouvi falar …” foi a resposta.

Falou-me Mestre Bamba – Kleber Umbelino Lopes Filho, nascido na Madre Deus, bairro de São Luís, desde os doze na Capoeira, nove ensinando, e um como Contramestre [10]: “[...] dá aulas em um “Projeto Ago”, do grupo G-DAM, no município de Itapecurú-Mirim, junto a remanescentes quilombolas; no Povoado de Santa Maria dos Pretos encontrou uma variação do Tambor-de-Crioula em que os homens participam da roda de dança – Punga dos Homens – em que utilizam movimentos semelhantes ao da capoeira -; no entendimento de Mestre Bamba, esses movimentos foram descritos por Mestre Bimba; os “desafiantes” ficam dentro da roda, um deles agachado, enquanto o outro gira em torno, “provocando”, através de movimentos, como se o “chamando”, e aplica alguns golpes com o joelho – a punga.”[11](grifos meus)

 Na edição seguinte do Jornal do Capoeira (2005)[12] publiquei: o Confrade Carlos Carvalho Cavalheiro mandou-me alguns sítios sobre a capoeira, a punga, e o tambor-de-crioula. Interessante, e instigante. Especialmente quando se refere às varias manifestações, em seus comentários, que são identificadas com/como Capoeira.

 Passemos a Luís da Câmara Cascudo e seu “Dicionário do Folclore Brasileiro [13], obra obrigatória – primeira edição de 1954, a segunda de 1959 – e, a terceira que estou usando, de 1972. Registra a página 148, o termo “Bate-coxa”, manifestação das Alagoas, uma dança ginástica: “a dança do bate-coxa não se confunde com a capoeira. Os praticantes são da mesma origem, descendentes de escravos“.

Acredita Câmara Cascudo que o bate-coxa seja mais violento, onde os dois contendores, sem camisa, só de calção, aproximam-se, colocando peito a peito, apoiando-se só nos ombros, direito com direito. Uma vez apoiados os ombros, ao som do canto de um grupo que está próximo, ao ouvir-se o ê boi, ambos os contendores afastam a coxa o mais que podem e chocam-se num golpe rápido. Depois da batida, acoxa direita com a coxa direita, repete à esquerda, chocando-se bruscamente ao ouvir o ê boi do estribilho. A dança prossegue até que um dos contendores desista e se dê por vencido.

É descrita por Edson Carneiro (Negros Bantos) [14] – a luta mobilizava um par de jogadores, de cada vez; dado o sinal, uniam as pernas firmemente, tendo o cuidado de resguardar o membro viril e os testículos. Dos golpes, cita o encruzilhada, em que o lutador golpeava coxa contra coxa, seguindo o golpe com uma raspa, e ainda o baú, quando as duas coxas do atacante devam um forte solavanco nas do adversário, bem de frente. Todo o esforço dos lutadores era concentrado em ficar de pé, sem cair. Se, perdendo o equilíbrio, o lutador tombasse, teria perdido a luta. Por isso mesmo, era comum ficarem os batuqueiros em banda solta, equilibrando-se em uma única perna, e outra no ar, tentando voltar a posição primitiva.

Do vocábulo “batuque-boi”, registra ainda Câmara Cascudo (1972): espécie de Pernada. Bahia. Voltemos a Pernada. Informa que assistiu a uma pernada executada por marinheiros mercantes, no ano de 1954, em Copacabana, Rio de Janeiro; Diziam os marinheiros que era carioca ou baiana. É uma simplificação da capoeira. Zé da Ilha seria o “rei da pernada carioca”; é o bate-coxa das Alagoas.

Ainda Edson Carneiro (Dinâmica do Folklore, 1950) [15] informa ser o batuque ou pernada, bem conhecido na Bahia e Rio de Janeiro, não passa de uma forma complementar da capoeira. Informa, ainda, que na Bahia, somente em arraiais do Recôncavo  se batuca, embora o bom capoeira também saiba largar a perna

No Rio de Janeiro já se dá o contrário – a preferência é pela pernada, que na verdade passou a ser o meio de defesa e ataque da gente do povo. O batuque na Bahia se chama batuque, batuque-boi, banda, e raramente pernada – nome que assumiu no Rio de Janeiro…

No verbete “punga”, Câmara Cascudo[16] se refere à dança popular no Maranhão, capital e interior; que é a mesma “dança do tambor”. A punga é também chamada “tambor de crioula”. Há também referencia a grafia “ponga”, que como se sabe é um jogo. Crê que punga é um termo em uso apenas no Maranhão e significa, na dança em questão, a umbigada, a punga. A punga seria uma dança cantada, mas sem versos próprios, típicos. Geralmente são improvisados na hora, quando as libações esquentam a cabeça e despertam a “memória” do “tiradô” de versos. Após descrever o que seria a dança do tambor de crioula, informa que pong provirá do tupi “soar, bater, ou antes, soar por percussão. “O que fervia era o lundum, e estalavam as umbigadas com o nome de “pungas”” (p. 742-743). Remete a Tambor:

  “… mas a autonomia dos tambores indígenas e sua existência pré-cabralina parecem-me indiscutíveis no Brasil. Dança do Tambor, Tambor de Mina, Tambor de Crioulo. As danças denominadas “do Tambor” espalham-se pela Ibero América. No Brasil, agrupam-se e são mantidas pelos negros e descendentes de escravos africanos, mestiços e crioulos, especialmente no Maranhão. [grifos meus]. Conhece-se uma Dança do Tambor , também denominada Ponga ou Punga que é uma espécie de samba, de roda, com solo coreográfico, e os Tambor de Mina e Tambor de Crioulo, [chamo atenção novamente para a grafia, em masculino], série de cantos ao som de um ferrinho (triangulo), uma cabaça e três tambores, com danças cujo desempenho ignoro.” (p. 850-851).

Informa o ilustre pesquisador, ainda, que uma missão cultural colheu exemplos das músicas utilizadas tanto no Tambor de Mina quanto no de Crioulo, em 1938. Estão ligados esses tambores de mina e de crioulo às manifestações religiosas dos “terreiros”, ao passo que:  “… a punga (dança e batida) parecem alheias ao sincretismo afro-brasileiro na espécie… o Tambor-de-Crioula  é o Bambelô do Maranhão, mas com a circunstância de que só dançam as mulheres. Passa-se a vez de dançar com a punga, que é um leve bater de perna contra perna. Punga é também espécie de pernada do Maranhão: batida de perna contra perna para fazer o parceiro cair.. às vezes o Tambor-de-Crioula termina com a punga dos homens.”. (p. 851).

           Por “Punga”, registra: jogo ginástico, brincadeira de agilidade, entre valentões, malandros e capadócios. É uma simplificação da capoeira… Sua descrição assemelha-se à da “punga dos homens”, do Tambor de Crioulo (a) (p. 709). Já “bambelô” é descrito como samba, côco de roda, danças em círculo, cantada e acompanhada a instrumentos de percussão (batuque), fazendo figuras no centro da roda um ou dois dançarinos, no máximo. O ético é o vocábulo quimbundo mbamba, jogo, divertimento em círculo (p. 113).

Marco Aurélio Haikel[17], falando sobre o Tambor de Crioula, esclarece: “Conforme o lugar, a exemplo de São Luís, a dança é exclusividade das mulheres, há, no entanto, homens que dançam, mas neste caso, requer usarem saia. A dança das mulheres se reveste de pura sensualidade e com belas evoluções, onde o ápice acontece quando a mulher, após saldar os tambores menores dançando, mostra-se de frente ao tambor grande, e os dois como que numa simbiose evoluem desafiando-se, até realizarem a punga. O toque dos tambores é predominantemente realizado por homens, apesar de que em alguns lugares a mulher toca, porém, quando se trata de tocar o tambor grande, aquela o faz ao lado deste, nunca sobre, mas, é na capital, onde já há grupos constituídos exclusivamente por jovens, que as mulheres se fazem mais presentes na batida dos tambores.”

 Sobre a Punga, afirma: “A punga dos homens, ao contrário da punga das mulheres (umbigada), não acontece em todas as “brincadas de tambor”, sendo encontrada mais comumente em comunidades rurais. Acontece ao lado da roda das mulheres, geralmente em areal, e conforme o lugar é aplicada com mais ou menos intensidade, quando mais vigorosa, não é raro ver homens ao chão, com menos vigor, acontece somente um leve bater de coxas, no entanto, vale ressaltar que nos lugares onde ocorrem as derrubadas, com o avançar das horas, os coreiros já sob os efeitos da cachaça, intensificam-nas em quantidade e vigorosidade, sem que haja no entanto, qualquer incidente grave.”

           Publiquei a seguir[18] que Mestre Marco Aurélio (Marco Aurélio Haickel) [19] em correspondência pessoal acerca da “Punga dos Homens” [Jornal do Capoeira] esclarece que, antigamente, a Punga era prática de homens; que após a abolição e a aceitação da mulher no convívio em sociedade, que passa a ser dançada por mulheres, apenas. Mas desde 1820 há referencia à Punga, com a participação unicamente de/por homens:  “Há registro da punga dos homens, nos idos de 1820, quando mulher nem participava da brincadeira sendo como movimentos vigorosos e viris, por isso o antigo ditado a respeito: ‘quentado a fogo, tocado a murro e dançado a coice’” [20]

 Próximo a essa data referida por Mestre Marco Aurélio encontrei uma referencia à umbigada (punga), relatada pelo naturalista alemão George Wilhelm Freyreiss[21], que faleceu no sul da Bahia. Em uma viagem a Minas Gerais em 1814 -1815, em companhia do barão de Eschwege [22], assistiu e registrou um batuque, e ao descrever a dança, fala da umbigada [punga]: “Os dançadores formam roda e ao compasso de uma guitarra (viola), move-se o dançador no centro, avança, e bate com a barriga na barriga de outro da roda (do outro sexo). No começo o compasso é lento, depois pouco a pouco aumenta e o dançador do centro é substituído cada vez que dá uma umbigada. Assim passam a noite inteira. Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta. Razão pela qual tinha muitos inimigos, principalmente os padres.” [23] (Grifos nossos)

Encontramos em Angola um estilo musical popular – O Semba[24], que significa ‘umbigada’ em quimbundo – língua de Angola. Foi também chamado ‘batuque’, ‘dança de roda’, ‘lundu’, ‘chula’, ‘maxixe’, ‘batucada’ e ‘partido alto’, entre outros, muitos deles convivendo simultaneamente! O cantor Carlos Burity defende que a estrutura mais antiga do semba situa-se na ‘massemba’ (umbigada), uma dança angolana do interior caracterizada por movimentos que implicam o encontro do corpo do homem com o da mulher: o cavalheiro segura a senhora pela cintura e puxa-a para si provocando um choque entre os dois (semba). Jomo explica que o semba (gênero musical), atual é resultado de um processo complexo de fusão e transposição, sobretudo da guitarra, de segmentos rítmicos diversos, assente fundamentalmente na percussão, o elemento base das culturas africanas.

O lundu ou lundum[25] é um gênero musical contemporâneo e uma dança brasileira de natureza híbrida, criada a partir dos batuques dos escravos bantos trazidos ao Brasil de Angola e de ritmos portugueses. Da África, o lundu herdou a base rítmica, certa malemolência e seu aspecto lascivo, evidenciado pela umbigada, os rebolados e outros gestos que imitam o ato sexual. Da Europa, o lundu, que é considerado por muitos o primeiro ritmo afro-brasileiro, aproveitou características de danças ibéricas, como o estalar dos dedos, e a melodia e a harmonia, além do acompanhamento instrumental do bandolim. O lundu veio para o Brasil com os negros de Angola, por duas vias, passando por Portugal, ou diretamente da Angola para o Brasil.

Voltemos às informações de Mestre Marco Aurélio. Onde encontrou as informações? Informa que há uma referência em Dunshee de Abranches[26]… Buscamos em “O Captiveiro”, de 1941. “O Captiveiro”, não é apenas um livro de memórias; escrito em 1938, para comemorar o cinquentenário da abolição da escravatura e o centenário da Balaiada, trata-se de registros de acontecimentos políticos e sociais do Maranhão (GASPAR, 1993) [27]. Numa de suas passagens, descreve as lutas entre brasileiros (cabras) e portugueses (puças), republicanos e monarquistas, abolicionistas e negreiros, que para defenderem seus ideais, passam a criar periódicos e grêmios recreativos de múltiplas denominações para defesa de seus ideais. Dessa mania surge a “Arcadia Maranhense”, e de uma sua dissidência, a “Aurora Litteraria”. Para ridicularizar os membros desta última, aparece um jornaleco denominado “Aurora Boreal”: “… só faltava fundar-se o Club dos Mortos. E justificou [Raymundo Frazão Cantanhede] tão original proposta dizendo que, se tal fizéssemos, iríamos além dos positivistas: ficaríamos mortos-vivos e assim seríamos governados por nós mesmos”. (ABRANCHES, 1941:174) [28]. O Clube dos Mortos reunia-se no porão da casa dos Abranches, no início da Rua dos Remédios, conforme relata Dunshee de ABRANCHES (1941) em suas memórias:

 “E como não era assoalhado nem revestido de ladrilhos, os meus paes alli instalaram apparelhos de gymnastica e de força para exercícios physicos (…) E, não raras noites, esse grupo juvenil de improvisdos athletas e plumitivos patriotas acabava esquecendo os seus planos de conjuração e ia dansar na casa do Commandante Travassos…” (p. 187-188).

            O “Club dos Mortos” envolveu-se, ainda, nas disputas entre caixeiros e estudantes por causa de duas artistas de um circo, instalado no Tívoli. Para enfrentar os empregados do comércio, na sua maioria homens feitos, os preparatorianos (estudantes do Liceo) reuniram-se no pátio do colégio para selecionar os melhores atletas para a defesa. Fundaram, assim, o Club Roncador, que guardavam suas armas na casa dos Abranches:  ”… veio dahi uma grande amizade dos campeões dos murros e dos cambitos (synonimo de rasteira naquella época) pelo Club dos Mortos“. (p. 190-191). (grifos meus).

           Rasteira? Seria a capoeira? Nada sobre o Tambor-de-crioula e a punga dos homens, nada em “A Setembrada”, nem n’”A Esfinge do Grajaú”…

            Para Ferreti (2006) [29], a umbigada ou punga é um elemento importante na dança do Tambor de Crioula[30]. No passado foi vista como elemento erótico e sensual, que estimulava a reprodução dos escravos. Hoje a punga é um dos elementos da marcação da dança, quando a mulher que está dançando convida outra para o centro da roda, ela sai e a outra entra. A punga é passada de várias maneiras, no abdome, no tórax, nos quadris, nas coxas e como é mais comum, com a palma da mão.

            Em alguns lugares do interior do Maranhão, como no Município de Rosário, ou em festas em São Luís, com a presença de grupos de tambor de crioula, costuma ocorrer a “punga dos homens” ou “pernada”, cujo objetivo é derrubar ao solo o companheiro que aceita este desafio. Algumas vezes a punga dos homens atrai mais interesse que a dança das mulheres.

Em reunião no Matro-á, escola de capoeira de Mestre Marco Aurélio, Mestre Patinho presente, assim como Mestre Didi[31]: uma verdadeira aula de cultura maranhense. Presentes, também, Domingos de Deus, Luis Senzala, Bamba, Vespasiano… Conversas sobre os artigos do Jornal do Capoeira, sobre a Punga dos Homens, e novas informações e esclarecimentos… Desafiados para colocarem no papel suas pesquisas – mais de oito anos – sobre essa manifestação:  “Há cerca de oito anos (1997), eu e mais outros capoeiras estamos pesquisando a punga, e posso lhe afirmar que apesar da correlação de alguns golpes com a capoeira, esta pode até ter similaridade, mas daí afirmar que é capoeira é outra coisa.” (in correspondência pessoal, de 10 de agosto de 2005).

 Uma certeza: punga não é capoeira, embora alguns movimentos se assemelhem…

Informa Marco Aurélio:  “Ano passado (2004), participei em Salvador, de um Encontro Internacional de capoeira “GINGAMUNDO”. onde coordenei um grupo do Maranhão, com 25 (vinte e cinco) pessoas entre estas, o Mestre Felipe e outros pungueiros, entre pessoas de um Povoado de Rosário e mais outros coreiros e coreiras, algumas capoeiras angola. Lá, estavam presentes representantes de outras lutas de origem africana, de países como Angola e Madagascar, porém, a grande vedete do encontro foi a Punga dos Homens… Estavam presentes neste encontro, além de mestres antigos, tais como João Pequeno, João Grande, Mestre Boa Gente, também haviam pesquisadores de renome como Jair Moura, Carlos Líbano Soares, Fred Abreu, Mathias Röhring Assunção, etc”.(in correspondência pessoal).[32]

“A PUNGA DOS HOMENS NO TAMBOR DE CRIOULA” – 18-19/05/2012[34]

           É natural, portanto, que um evento que iria tratar da Punga dos Homens atraísse minha atenção; mais, promovida por Mestre Marco Aurélio e Mestre Serginho; e havendo uma mesa redonda reunindo os Mestres Patinho e Euzamor, com o tema “aspectos de semelhança da punga dos homens com a capoeira”.

            Mestre Marco Aurélio, como já dito, abriu o encontro, apresentando o que o motivou a apresentar projeto junto à SECMA. Disse dos objetivos. A seguir houve a exibição de documentário do cineasta Murilo Santos – Tambor de Crioula – filmado ainda no final dos anos 70, onde identifica alguns movimentos da punga; para, a seguir, uma roda de tambor de crioula.

            Na etapa seguinte – duas horas de atraso para seu inicio – o pesquisador João Batista Gomes Santos Junior – Jonero – pungueiro do Centro Grande, município de Axixá iria discorrer sobre “Ontem e hoje – refletindo a respeito da punga dos homens. Pela demora em seu inicio – marcada para as 08:30 do dia 19/05, iniciada as 10:20 – me permitiu, nesse tempo de espera, uma conversa. Comecei por perguntar se já ouvira falar de ‘tarracá’, termo usado por Mestre Zulu, e na região da Baixada encontrando-se: “atarracado”, “atarracar’; e na região de Barreirinhas, conhecida como ‘queda”  [35]; informou que no Munin se usava do termo “queda” para o “atracamento” ou “atracado”; que se costuma praticar quando do “tapamento de palha” – da cobertura das casas -, em mutirão; assim como a punga, corre solta nestas ocasiões, já com os participes ‘tomados’ da cachaça ou “cervejinha”, e embalados pelos “cantos dos velhos” passam a desenvolver ‘as brincadeiras’: punga, atracado – ligado ou solto -, cangapé[36], e às vezes o futebol.

Jonero se refere às várias brincadeiras que realizam, além das citadas: Jaó, que é a pegada dentro da água, pegador, onde se suja a água e se mergulha aparecendo por detrás do oponente, subindo no mesmo; geralmente é ‘brincadeira’ de pescador, realizado nas crôas ou lavada, assim como o cangapé. Praticava-se também o ‘cacete’.

Outras brincadeiras, que hoje estão praticamente desaparecidas, danças, como o Pela-porco e a Caninha Verde.

            Informa que essas brincadeiras vêm do ‘tempo do cativeiro’, como é o exemplo da Punga; sua organização, na região do Munin, se dava nos quilombos, e havia uma relação com os Terreiros de Mina. Praticavam-se três tipos de lutas: a punga, atracamento[37], cangapé, sendo que a punga acontecia fora do tambor de crioula, na ‘área da punga’.

            Da participação de ‘Seu” Miguel, de Arari, e do Mestre José Ribeiro, estes pungueiros, não ‘conhecem’ capoeira, tanto que pediram para ver uma roda, já que se estava tratando da punga como uma capoeira primitiva. Punga, como dito, tem significado de ‘pungar tambor’, isto é, a punga dos homens, que acontece ao lado da roda do tambor de crioula, esta das mulheres.

            Algumas expressões usadas por esses Mestres de Punga dos Homens, que chamam atenção, como ‘queda sem cair’, e o acordo que precede a entrada na roda – bater sem machucar. No tempo do cativeiro negro saia para as brincadeiras, mas não podia voltar machucado, pois o patrão não deixaria sair novamente, dai que vêm “os acordos”, de como será o combate. Caqueado, outro termo usado, é o aviso de que vai bater, onde vai bater – se na coxa, ou se vai ser no pé – rasteira: cambito!! – Em Arari, se bate só na coxa, e a alegria é cair junto: queda dos dois. Deixaram bem claro: não se punga em solo duro ou no cimento – só na areia.

            Pois bem, arma-se nova roda, esta de Capoeiras: Mestre Patinho[38], Mestre Euzamor[39], Mestre Serginho, Mestre Vânio[40], Mestre Pezão[41], Mestre Luis Senzala[42], Mestre Baé[43], Mestre Mizinho[44], além dos Mestres pungueiros José Ribeiro e Miguel (de Arari). O tema “aspectos de semelhança da punga dos homens com a capoeira”.

            Patinho entre na Roda e apresenta seu caqueado: aos 9 anos, ouvia na noite o bater dos tambores. Sentia medo! Seu pai, um dia, para que perdesse esse medo, levou-o para ver de onde vinha e o que acontecia – conhece a Punga, dançado pelos homens.

Passa a discorrer sobre a Punga e fala da “Punga de Peito”, em que os contendores saltam e batem de peito – feito no tempo da batida dos tambores para fazer a punga: ritmo.  Faz uma correlação entre a Capoeira e a Punga, tomando por base o ritmo e o movimento, apresentando que a base é a mesma – triangulo isóscele – três lados iguais – e que na capoeira a base se apresenta com os dois pés paralelos, com a mudança para três – vértice – a mudança de passo (base) se dá movimentando-se para trás; na punga há inversão, em que a base fica atrás e o movimento se faz para a frente. Vê semelhança no ritmo de executar o movimento – se refere à pernada e alguns movimentos como o rabo de arraia, cangapé.

Para Mestre Euzamor – Alberto Pereira Abreu – nos passeios que a família fazia para a Ponta D´Areia, nos finais de semana, ainda nos anos 60, ao final da tarde via as rodas de Tambor de Crioula e em dado momento os homens entravam na roda com o Jogo do Cacete; quando se tornou Capoeira, começou a perceber a semelhança da Capoeira de Mestre Sapo com aquelas lembranças de criança; Sapo falava de ritmo e movimento do cabloco de pena com a movimentação da capoeira; aprendeu, então, a jogar o cacete; acredita que a origem da capoeira do Maranhão esteja no Tambor de Crioula e no Bumba-Boi; fala sobre o jogo do cacete, e de como treinava.

Houve intervenções dos Mestres pungueiros, reafirmando o que vinham falando nesses três encontros – ressaltando-se que Punga era ‘brincadeira’.

Mestre Patinho pergunta-me por que não houve capoeira no Ceará. Respondo: houve, mas com outro nome, como aqui recebia a denominação de ‘carioca’, ou mesmo ‘punga’, capoeiras primitivas. Carlos Cavalheiro[45], de Sorocaba afirma: “Cai por terra a teoria de que São Paulo conheceu capoeira somente no século XX. É preciso ter claro na mente como se desenvolveu a capoeira e separar em dois momentos históricos: o da informalidade e o da formalidade dessa prática. Primeiramente, devemos entender que a mesma apareceu entre os negros escravos de Angola e os primeiros registros dão conta de que se tenha desenvolvido entre os quilombolas de Pernambuco. Posteriormente, essa luta encontrou em todos os rincões do Brasil suas formas regionais: a capoeira Angola e a pernada no Rio de Janeiro, a punga no Maranhão, o bate-coxa em Alagoas, o cangapé ou cambapé no Ceará, a tiririca ou pernada em São Paulo, a capoeira de Angola (e posteriormente a Regional Baiana) na Bahia.

“Notícias diversas também se tem do pessoal da pernada, a capoeira paulista simplificada. Em São Paulo, segundo Nenê da Vila Matilde e Geraldo Filme, era conhecida por tiririca. É a mesma pernada carioca. Sebastião Bento da Cunha, conhecido por “Carioca”, residente no bairro Santa Terezinha, em Sorocaba, alega que conheceu esse jogo com o nome de samba-de-roda, praticado em Valença e Barra Mansa, no estado do Rio de Janeiro. No Maranhão é conhecida por punga e está ligada ao Tambor de Crioula. Marcelo Manzatti fala da tiririca como sendo forma primitiva de Capoeira ou Pernada, praticada ao som do samba, sendo os golpes desferidos em meio aos passos da dança.”(grifos meu).

 Mas vamos prosseguir com Mestre Cavalheiro, em correspondência pessoal (04/02/2006) quando me pergunta se ainda estou interessado na Punga; informa, então: Encontrei outra referência: “A punga entre homens não tem características de convite à dança como entre as mulheres. É uma espécie de briga que se assemelha, ligeiramente, à capoeira, onde o objetivo de cada um é derrubar o companheiro. Isto faz lembrar a hipótese de que o Tambor de Crioula inicialmente era um exercício de luta como a Capoeira. É aplicada no joelho ou dada em forma de rasteira nos pés. [...]“. Há um pouco mais de informações, mas isto é o essencial. A referência? FERRETTI, Sérgio et al. TAMBOR DE CRIOULA, Cadernos de Folclore n. 31. RJ: Funarte/MEC, 1981, pp. 08 – 11.


 

[1] Museu de Artes Visuais do Maranhão

[2] Secretaria de Estado de Esportes e Lazer do Maranhão

[3] Secretaria de Estado de Cultura do Maranhão, projeto de 2009, aprovado em 2010, e recursos liberados no final de 2011, realizado neste ano de 2012

[4] ASSOCIAÇÃO CENTRO CULTURAL DE CAPOEIRAGEM “MATROÁ. A PUNGA DOS HOMENS NO TAMBOR DE CRIOULA. São Luís, 2012. Folder de divulgação do evento.

[5] HAIKEL, Marco Aurélio. A PUNGA DOS HOMENS NO TAMBOR DE CRIOULA. Conferencia de abertura do evento A PUNGA DOS HOMENS NO TAMBOR DE CRIOULA. São Luís, 18 de maio de 2012.

[6] ASSOCIAÇÃO CENTRO CULTURAL DE CAPOEIRAGEM “MATROÁ, 2012”. Folder de divulgação do evento, verso.

[7] VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Pungada dos Homens & A Capoeiragem no Maranhão: MESTRE BAMBA, do Maranhão. In JORNAL DO CAPOEIRA, 30 de julho de 2005, disponível em http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/pungada+dos+homens+a+capoeiragem+no+maranhao

Ver também

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio; VAZ, Delzuite Dantas Brito.  A INTRODUÇÃO DO ESPORTE (MODERNO) EM MARANHÃO – A CAPOEIRA. In REVISTA “NOVA ATENAS” DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA, Volume 05, Número 01, jan/jun/2002 (Disponibilizado em dezembro de 2006)

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio; PUNGA DOS HOMENS / TAMBOR-DE-CRIOULO (A) -“PUNGA DOS HOMENS”. In REVISTA “NOVA ATENAS” DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA. Volume 09, Número 02, jun/dez 2006

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Capoeira/Capoeiragem no Maranhão. In DaCOSTA, Lamartine PEREIRA. ATLAS DO ESPORTE NO BRASIL. Rio de Janeiro: CONFEF, 2006, disponível em WWW.atlasdoesportebrasil.org.br

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Punga dos Homens e Capoeira no Maranhão. In DaCOSTA, Lamartine PEREIRA. ATLAS DO ESPORTE NO BRASIL. Rio de Janeiro: CONFEF, 2006 disponível em WWW.atlasdoesportebrasil.org.br

HAIKEL, Marco Aurélio. Tambor-de-Crioulo(a) no Maranhão. In DaCOSTA, Lamartine PEREIRA. ATLAS DO ESPORTE NO BRASIL. Rio de Janeiro: CONFEF, 2006 disponível em WWW.atlasdoesportebrasil.org.br

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio.  A CAPOEIRA NO/DO MARANHÃO: ALGUMAS QUESTÕES PARA REFLEXÃO. In REVISTA “NOVA ATENAS” DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA, Volume 10, Número 01, jan/jun/2007

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio.  CAPOEIRA/CAPOEIRAGEM NO MARANHÃO In REVISTA “NOVA ATENAS” DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA Volume 10, Número 02, jul/dez/2007 (Disponibilizado em Fevereiro de 2008)

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio.  CAPOEIRA(GEM) EM SÃO LUIS DO MARANHÃO – NOVOS ACHADOS… In REVISTA “NOVA ATENAS” DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA Volume 11, Número 01, jan/jun 2008

[8]CAVALHEIRO, Carlos Carvalho. Pernada de Sorocaba. In JORNAL DO CAPOEIRA, 29.04.2004, Disponível em http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/pernada+de+sorocaba

[9]Reis, José Ribamar Sousa dos. Tambor-de-Crioula. In Folclore Maranhense, Informes. 3 ed. São Luís : (s.e.), 1999, p. 35

[10] em entrevista no ano de 2005

[11] VAZ, 2005, obra citada

[12] VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Ainda sobre a Punga dos Homens – Maranhão. Jornal do Capoeira – Edição 44: 22 a 28 de Agosto de 2005, EDIÇÃO ESPECIAL estendida – CAPOEIRA & NEGRITUDE, disponível em http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/ainda+sobre+a+punga+dos+homens+-+maranhao

[13] CAMARA CASCUDO, 1972, obra citada..

[14] Citado por Câmara Cascudo, 1972

[15] Citado por Câmara Cascudo, 1972

[16] CAMARA CASCUDO, 1972, obra citada.

[17] HAIKEL, Marco Aurélio. Breves Observações Sobre Tambor de Crioula. In Jornal do Capoeira – Edição 43: 15 a 21 de Agosto de 2005, EDIÇÃO ESPECIAL- CAPOEIRA & NEGRITUDE, disponível em http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/breves+observacoes+sobre+tambor+de+crioula.

[18] VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Notas sobre a Punga dos Homens – Capoeiragem no Maranhão. In JORNAL DO CAPOEIRA, Edição 43: 15 a 21 de Agosto de 2005, EDIÇÃO ESPECIAL- CAPOEIRA & NEGRITUDE, disponível em  http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/notas+sobre+a+punga+dos+homens+-+capoeiragem+no+maranhao

[19] Marco Aurélio Haikel é Mestre e grande estudioso da Capoeira; é líder do Grupo Matroá e discípulo de Mestre Patinho, além de exercer a profissão de advogado, em São Luis do Maranhão-MA

[20] Mestre Marco Aurélio, em correspondência eletrônica, em 10 de agosto de 2005.

[22] PRINZ MAXIMILIAN VON WIED (1782-1867) – VOYAGE AU BRÉSIL, DANS LES ANNÉES 1815, 1816, ET 1817 Paris: A. Bertrand, 1821-1822 (http://www.museunacional.ufrj.br/MuseuNacional/Principal/Obras_raras.htm)

[23] D´ÁVILA, 2006, obra citada. disponível em http://encipecom.metodista.br/mediawiki/images/3/34/GT2-_FOLKCOM-_04-_Fundamentos_da_Cultura_Musical_-_Nicia.pdf

Ver também:

CÂMARA CASCUDO, Luis da: Folclore do Brasil (pesquisas e notas). Rio de Janeiro, São Paulo, Fundo de Cultura, 1967 http://www.historiaecultura.pro.br/modernosdescobrimentos/desc/cascudo/ccrdfolclorenobrasil.htm)

[26] João Dunshee de Abranches Moura nasceu à Rua do Sol, 141, em São Luís do Maranhão. Advogado, polimista, historiador, sociólogo, crítico, romancista, poeta, jornalista, parlamentar e internacionalista. Dentre seus escritos, destaca-se a trilogia constituída pelo “A Setembrada”, “O Captiveiro”, e “A Esfinge do Grajaú”. In VAZ, Leopoldo Gil Dulcio e VAZ, Delzuite Dantas Brito. CONSTRUÇÃO DE UMA ANTOLOGIA DE TEXTOS DESPORTIVOS DA CULTURA BRASILEIRA: PROPOSTA E CONTRIBUIÇÕES. In VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA, ESPORTES, LAZER E DANÇA, Gramado-RS, 20/05 a 1º/06 de 2000.

[27]GASPAR, Carlos. DUNSHEE DE ABRANCHES. São Luís: (s.e.), 1993. (Discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, a 28. jul.92).

[28] DUNSHEE DE ABRANCHES MOURA, João. O CAPTIVEIRO. São Luís, (s.e.), 1941

[29] FERRETI, Sérgio. Mário De Andrade E O Tambor De Crioula Do Maranhão. (Trabalho apresentado na MR 07 – A Missão de Folclore de Mário de Andrade, na VI Reunião Regional de Antropólogos do Norte e Nordeste, organizada pela Associação Brasileira de Antropologia, UFPA/MEG, Belém 07-10/11/1999. In REVISTA PÓS CIÊNCIAS SOCIAIS – São Luís, V. 3, N. 5, Jan./Jul. 2006, disponível em http://www.pgcs.ufma.br/Revista%20UFMA/n5/n5_Sergio_Ferreti.pdf

[30] O Tambor de Crioula é uma dança de origem africana praticada por descendentes de negros no Maranhão em louvor a São Benedito, um dos santos mais populares entre os negros. É uma dança alegre, marcada por muito movimento dos brincantes e muita descontração. Os motivos que levam os grupos a dançarem o tambor de crioula são variados podendo ser: pagamento de promessa para São Benedito, festa de aniversário, chegada ou despedida de parente ou amigo, comemoração pela vitória de um time de futebol, nascimento de criança, matança de bumba-meu-boi, festa de preto velho ou simples reunião de amigos. Não existe um dia determinado no calendário para a dança, que pode ser apresentada, preferencialmente, ao ar livre, em qualquer época do ano. Atualmente, o tambor de crioula é dançado com maior freqüência no carnaval e durante as festas juninas. Em 2007, o Tambor de Crioula ganhou o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Obtido em “http://pt.wikipedia.org/wiki/Tambor_de_crioula“.

[31] 10 de agosto de 2005

[33] Diamanga é herdado de nossos ancestrais como os malaios, que importou os estilos” Pencak, ber-silat, calazar e Sikaran “budistas e indianos que impuseram” Kalaripayat. A pesquisa conduzida pela “Fototra Diamanga malgaxe” não ficar lá, parte histórica e filosófica já está concluída através de um manuscrito do livro. Mesmo se uma lista de diferentes estilos de técnicas “Diamanga” também já está estabelecido língua nacional da associação, esta continuará a ser procurado exaustivamente. http://www.madatsara.com/articles/detail-article/article/le-diamanga-fera-partie-des-arts-martiaux-pratiques-a-madagascar-2/rubrique/sports/news-browse/1/

[36] CangapéSinônimos:  cambalhota aquática    Ato de mergulhar e dar uma cambalhota com uma das pernas batendo sobre a superfície da água.  http://www.dicionarioinformal.com.br/cangap%C3%A9/

s.m. Pop. Ato de meter as pernas por entre as de outra pessoa para fazê-la cair. Rasteira. Fig. Laço, tramóia.

[37] VER VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. TARRACÁ, ATARRACAR, ATARRACADO. Palestra apresentada no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão em 27 de abril de 2011; publicado na Revista do IHGM 37, março 2011.

[38]MESTRE PATINHO – ANTONIO JOSÉ DA CONCEIÇÃO RAMOS – “Antonio, de Santo Antonio, José, de São José, Conceição, de Nossa Senhora da Conceição, Ramos, de Domingo de Ramos…”. ESTILO: Capoeiragem; Contemporâneo (Josué); MESTRE: Mestre Sapo; NOME: Antonio José da Conceição Ramos; FILIAÇÃO: Djalma Estafanio Ramos e Alaíde Mendonça Silva Ramos; NASCIMENTO: São Luis do Maranhão 14/09/1953; ACADEMIA: Escola Centro Cultural Mestre Patinho.  In VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. CONVERSANDO COM MESTRE PATINHO. Jornal do Capoeira – Edição 63 – de 05 a 11/Mar de 2006 disponivel em  http://www.capoeira.jex.com.br/; Do  LIVRO-ÁLBUM ‘MESTRES CAPOEIRA DO MARANHÃO’,  em construção.

[39] MESTRE EUZAMOR ALBERTO PEREIRA ABREU Estilo ANGOLA Mestre Luciel Rio Branco (falecido em 1984) Mestre Sapo (falecido em 1972) Mestre Rui Pinto Filiação Euzébio Ramos de Abreu – Maria da Conceição Pereira Abreu Local e Data de nascimento São Luis – Ma – 15 de janeiro de 1962. Academia Centro de Artes Japiaçú – Associação Cultural de Capoeira Angola Ludovicence – ACCAL – 60 alunos HISTÓRIA DE VIDA Funcionário público estadual; Concluiu o 2º. Grau na Escola do Comércio Centro Caixeiral; Alberto – Mestre Euzamor recebeu esse título em função de sua irmã que era conhecida pelo seu segundo mestre Anselmo Barnabé Rodrigues – mestre Sapo (falecido em 1972 em envolvimento de acidente automobilístico). Iniciou a capoeira aos 07 (sete) anos de idade na escolinha do Costa Rodrigues, antigo ITA (Instituto Tecnológico de Aprendizagem) depois passando a se chamar Meng, com seu primeiro mestre Luciel Rio Branco (falecido em 1984 vitima de homicídio), depois Mestre Sapo e por último o mestre e irmão Rui Pinto. Mestre Euzamor comenta que até 1930 só existia capoeira ou capoeiragem (palavreado maranhense). Era considerado esporte marginalizado devido à prática e ação de como era jogado. Distingue os tipos de capoeira como: Capoeira Regional que era praticado apenas no estado da Bahia e difundindo-se para as demais regiões, era jogada mais por pessoas que tinham certo poder aquisitivo; a Capoeira de Angola; Memoriza na Capoeira de Angola a existência de três tipos de ritmo mais jogado hoje: Angola (fase de preparação, aquecimento), São Bento Pequeno (fase intermediária) e São Bento Grande (fase de roda). Explica o motivo que levou a esta escolha que foi origem, habitat, vindo do sangue sob o fato de ter nascido num lugar de sobrevivência  cotidiana “Madre Deus”. Com 35 anos dedicado a capoeira, agora e em primeiro momento foi formado o 1º. Mestrando que será chamado futuramente de mestre Cacá (Cláudio Lúcio), não costuma adotar a regra contra-mestre, e sim mestrando. Além desse, formou quatro discípulos. Fala que não vê a Capoeira como coisa aleatória, mas como um todo. Obtém como fonte inspiradora seus mestres: Luciel e Rui, este último como modelo de transparência, lealdade e responsabilidade e fora da Capoeira seu ídolo é o Steve Segal. É viajado pelo mundo afora, onde esteve duas vezes na Itália e duas na França, pretendendo voltar. O primeiro momento da existência na capoeira foi aos sete anos de idade com seu primeiro mestre: Luciel Rio Branco Rosa, depois com Mestre Anselmo Barnabé Rodrigues, vulgo Sapo. E, por último com Mestre Rui Pinto. Ensino médio completo, funcionário público estadual; motivo de escolha foi o sangue sob o fato de ter nascido num lugar de sobrevivência do dia-a-dia, ou seja “Madre-Deus”; até o momento formou um mestrando chamado Cláudio Lúcio, vulgo “Cacá” , além de quatro discípulos, não relacionados. Experiência de 35 anos dedicados a capoeira; distingue a capoeira em Regional (Mestre Bimba), mistura com outras técnicas de outras lutas; a Regional é mais competitiva, mais para lutar, disputar.  Enquanto que a Capoeira Angola (Mestre Pastinha), o objetivo principal é formar cidadãos no todo, melhorar a auto-estima, além de proporcionar resistência muscular, mantendo o corpo com a mesma performance. Ritual da capoeira  Angola ou ritmo: Angola (que é aquecer); São Bento Pequeno (que é a fase de intermédio); e São Bento Grande (que é o momento da roda). O objetivo do mestre em capoeira é deixar fluir o que tem dentro do ser, a fim de que possa identificar-se com o que realmente está querendo. A capoeira já lhe levou 2 vezes a Itália e duas a França, pretendendo voltar. Tem maior inspiração pelo seu irmão de afinidade, o mestre Rui Pinto, devido servir-lhe de modelo na transparência e responsabilidade. Do LIVRO-ÁLBUM ‘MESTRES CAPOEIRA DO MARANHÃO’, em construção.

 

[40] MESTRE VÃNIO Edivan Martins Botão  Estilo  Capoeira. Mestre Raimundão.  Filiação Paulino da S. Botão e Neide M.Botão Local e Data de nascimento São Luis, 23 de julho de 1962 HISTÓRIA DE VIDA Comecei a treinar capoeira no dia 16 de janeiro de 1982,numa sala do Colégio Universitário, no bairro de Vila Palmeira, com o Professor Raimundo, aluno do Mestre Sapo. Fui reconhecido Mestre no ano de 2002 pelo Mestre Ribaldo e reconhecido por outros mestres presentes. Ajudei a organizar o 1º Campeonato Maranhense de Capoeira em 1985; ajudei a organizar primeira federação maranhense de capoeira; ajudei a fundar a segunda federação oficial do estado do Maranhão. Quando ainda professor eu tinha um dos maiores grupos do Maranhão, o Grupo de Capoeira Cascavel. Participei das 1ª., 2ª., e 3ª. Mostra de capoeira, seminários, congressos, etc. Do  LIVRO-ÁLBUM ‘MESTRES CAPOEIRA DO MARANHÃO’,  em construção

 

[41] MESTRE PEZÃO (2) Jadson Werbeth Figueiredo Estilo Regional Mestre Mestre Dedé (Denílson, não era mestre) Mestre Militar Filiação Joana Damasceno Figueiredo Local e Data de nascimento São Luis, 12 de agosto de 1981 Academia União de Moradores do Bairro Areinha, sede; existem mais quatro núcleos em São Luís e três em Axixá. Sempre usando alunos que treinou, pois dá autorização para os alunos dar aulas – tem cerca de 300 alunos HISTÓRIA DE VIDA Começou na capoeiragem, mas atualmente pratica e ensina a Regional, não deixando as raízes da capoeira Angola de lado. Para Pezão, o capoeirista maranhense se vira de acordo com o toque do berimbau. Começou com 10 anos, contra a vontade dos pais, que achavam a capoeira coisa de moleque e muito perigosa, e escondidamente começou a treinar com seu primo Dedé, que não era mestre. Aos 13 anos começou a treinar com o Mestre Betinho,obtendo sua primeira graduação, a corda verde. Com o aprendizado e conhecendo outros  mestres, como Euzamor, Pato, Cibá, Jorge Navalha, Sena, Evandro e o finado Mestre Didi, entre outros. Aos 15 anos obteve sua segunda graduação, a corda amarela e teve a oportunidade de conhecer o Mestre Militar, que foi seu ultimo mestre, chegando com o mesmo a corda azul-amarela; hoje, aos 24 anos encontra-se na corda amarela-branca do Mestrando, aguardando chegar aos trinta anos para ser reconhecido como Mestre. O Mestre Pezão acha importante que por ocasião da iniciação dos seus alunos todos sejam questionados, do por que eles  querem fazer capoeira, o mestre acha que falar da historia da capoeira é extremamente necessário,para que o aluno entenda o valor histórico e conheça suas raízes. Para o Mestre Pezão o verdadeiro capoeirista mostra sempre que é unido com seus companheiros de arte,prima pela história e pela conservação de valores ensinados pelos seus antepassados e antecessores, tirando do senso comum a visão de racismo e marginalidade criada dentro da sociedade em relação a capoeira. ;ao termino da entrevista o Mestre deixa a seguinte mensagem, para você que não admira a capoeira, aprenda sobre ela antes de falar e saiba que dentro de cada brasileiro tem um pouco de capoeirista, pois é herança do sangue dos negros brasileiros correndo na veia.  Do  LIVRO-ÁLBUM ‘MESTRES CAPOEIRA DO MARANHÃO’,  em construção. Há outro Mestre com esse mesmo nome

 

[42] MESTRE LUÍS SENZALA LUÍS AUGUSTO LIMA  Estilo ANGOLA Mestre  MESTRE MADEIRA (CERTIFICADO POR JOÃO PEQUENO) Filiação PAI: AUGUSTO DOS ANJOS LIMA  – MÃE: MARIA MADALENA LIMA Local e Data de nascimento SÃO LUÍS – MA   – 08 / 04 / 1971 Academia ESCOLA ACAPUS   HISTÓRIA DE VIDA  Em 1981, começou com o mestre Madeira, ingressou na capoeira devido as suas raízes e pelo seu interesse as artes marciais. O trabalho na capoeira se voltou para o social, isto é, tirando crianças das ruas  onde já tem 5 anos com esse trabalho. Com a formação desses alunos, houve a divulgação da capoeira nos países da Europa, visando com isso não só expandir a arte como tirar daí seu próprio sustento, fazendo um intercâmbio entre Brasil e Europa. Do LIVRO-ÁLBUM ‘MESTRES CAPOEIRA DO MARANHÃO’,  em construção.

 

[43] MESTRE BAÉ – FLORISVALDO DOS SANTOS MENDONÇA COSTA – Estilo REGIONAL; Mestres *Mestre Alô – José Ribamar Viegas; *Mestre Paturi – Antônio Alberto Carvalho;*Mestre Patinho – Antônio José da Conceição Ramos *Mestre Edy Baiano – Edmundo da Conceição; Filiação Pai – Florisvaldo dos Reis Costa  -  Mãe – Inês da Graça Mendonça; Local e Data de nascimento Penalva – 01 de novembro de 1966 Academia Associação de Cultura Educacional Candieiro da Capoeira HISTÓRIA DE VIDA  Iniciei a capoeira em fevereiro de 1977, na feira do João Paulo com o finado Alô, depois passei a treinar com o mestre Paturi até conhecer o mestre Patinho tendo me afastado devido o mesmo ter se dedicado só à capoeira de angola, e meu objetivo eram me aprofundar mais na capoeira, pois a mesma está no sangue. Em 1989, comecei a praticar e estudar a capoeira regional pelo Brasil inteiro. A partir de 1990, iniciei um trabalho de estudo e pesquisa da capoeira no Brasil. De forma geral, hoje sou mestre de capoeira e amo o que faço. Nasceu em Penalva, estado do Maranhão, no dia 01/11/1966, onde logo depois se mudou para a capital, São Luís. Teve uma infância comum como qualquer outra criança, jogava pelada, bola de gude, soltava pipa. Mas aos 11 anos ingressou na capoeira, mais precisamente no dia 17 de fevereiro de 77, na Feira do João Paulo, bairro popular de São Luís, começou com o já falecido Senhor Alô, que foi policial militar. Em 1980 até meados de 1984, seu mestre foi Paturi, 95 Mestre patinho, 89 Mestre Edy baiano o mesmo que o graduou contra-mestre juntamente com o conselho de mestres. Atualmente Florisvaldo ou Mestre Baé é bombeiro militar. Do LIVRO-ÁLBUM ‘MESTRES CAPOEIRA DO MARANHÃO’,  em construção.

 

[44] MESTRE MIZINHO – ALCEMIR FERREIRA ARAÚJO FILHO; Estilo REGIONAL Mestre: Mestre Evandro; Filiação Alcemir Ferreira Araújo – Amélia Marques; Local e Data de nascimento: São Luís – Ma – 21 de setembro de 1960; Academia Associação Nação Palmares HISTÓRIA DE VIDA Começou na Capoeira aos 12 anos, no PDT no Monte Castelo. É Mestre e tem mais de 500 alunos na Academia, fundada em 1º. de 2000; existem academias em vários bairros e conjuntos de São Luís, tais como Vila Palmeira, Anil, Cidade Operária, Caratatiua, Cohatrac; fazem apresentações me vários pontos da cidade. Aos 11 anos de idade eu praticava judô com um tio; certo dia, me levaram ao Teatro Artur Azevedo e eu fiquei puramente fascinado pela capoeira, mas quando pedi a minha mãe para treinar ela não permitiu, a capoeira era muito marginalizada mas eu tinha um professor particular chamado João Evangelista e minha mãe tinha uma grande confiança nele, ele era capoeirista e eu não sabia, um dia eu olhei ele armando um berimbau e me lembrei do teatro e perguntei para ele o que era aquilo e para que servia, ele me falou tudo, então pedi para ele falar com minha mãe para deixar eu treinar, ele foi e pediu. Minha mãe deixou, com a condição de que ele me levasse e trouxesse   para casa de volta. Iniciei na capoeira aos 12 anos de idade na Rua 24 de Agosto no Bairro do Monte Castelo, São Luís-Ma. Em 1984, quem comandava era o Evandro conhecido hoje como Socó e nessa mesma academia conheci o mestre Evandro com quem eu comecei a treinar, onde treinei até o ano de 2000, onde cheguei até a graduação de mestrando. O seu reconhecimento de Mestre foi dado por um conselho de Mestre pertencente a federação, ou seja, reconhecimento dado pela nossa comunidade capoeirista. A Associação Nação Palmares de capoeira – ANPC – fundada em 1º. De maio de 2000, localizada na Rua Gabriel, 27, Fé em Deus, nasceu de uma junção de idéias de três contra-mestre, Mizinho, J.J. e José Manoel, este último não se faz mais presnete na ANPC, por isso o nome Associação Nação Palmares de Capoeira tem como mestre e coordenador geral o mestre Mizinho e outros professores que também fazem parte da diretoria da ANPC. Atualmente a academia conta com 1 corpo docente 1 mestre, 1 contra-mestre, 3 instrutores e 1 monitor e 11estagiários. A Associação Nação Palmares de Capoeira não se intitula só no estilo Angola e nem no estilo Regional mas sim capoeira, uma capoeira mista que engloba os dois estilos Angola e Regional, respeitando sempre seus seguimentos, fundamentos e tradições de cada uma. Os ensinamentos teóricos e práticos são transmitidos da melhor maneira possível aos seus integrantes, lembrando que este estilo não foi criado por nós sim a preservado do passado com algumas inovações para melhorar e facilitar a aprendizagem dos alunos. E este o estilo de nossa capoeira não é uma sub-diferença da capoeira Angola e Regional, mas é o que chamamos de capoeira Maranhense, deixando como herança dos nossos antepassados. Do  LIVRO-ÁLBUM ‘MESTRES CAPOEIRA DO MARANHÃO’,  em construção.

[45] CAVALHEIRO, Carlos Carvalho. A história da capoeira em Sorocaba.  Disponível em  http://www.anovademocracia.com.br/1828.htm

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CRONICA DA CAPEOIRAGEM – CAPOEIRAS PRIMITIVAS

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CAPOEIRAS PRIMITIVAS

 Muito se discute sobre as origens da capoeira, com as perspectivas do debate atreladas aos diversos discursos que vestem sua imagem moderna, a esportiva: “Parte-se de ideias construídas, e não de práticas sociais espontâneas. Assim, a capoeira carioca está historicamente imbricada às maltas de capoeiras da cidade e à “filosofia da malandragem carioca” dos anos 1800. A baiana, por sua vez, está ligada à cultura negra baiana e especificamente ao candomblé. No Recife, ela se manifesta nas gangues de rua Brabos e Valentões. (CAVALCANTI, 2008)

 Esse autor considera que para a análise da essência da capoeira, tem-se que voltar no tempo e considerar o contexto da realidade sociocultural de espaços com registros identitários e territoriais dela, destacando-se dois loci: Rio de Janeiro e Recife. Estes dois centros urbanos eram, no século XIX, os maiores pontos de comunicação com o resto do mundo, onde mais circulava gente, ideias, comércio. As zonas portuárias permitiam a troca de ideias entre nichos socioculturais semelhantes.

A capoeira do século XIX, no Rio, com as maltas de capoeira , e em Recife, com as gangues de rua dos Brabos e Valentões, foram movimentos muito semelhantes aos das gangues de savate (boxe francês) em Paris e das maltas de fadistas de Lisboa do século XIX. Chama atenção é que os gestuais dessas lutas também são parecidos, ou seja, os golpes usados na aguerrida comunicação gestual eram análogos:

Por outro lado, as perspectivas identitárias e territoriais próprias dão a cada movimento sua sócio-fronteira, com espaços personalizados dos atores em seus próprios contextos sócio-culturais. A capoeira marca sua presença em grupos de sócio-fronteiras a partir de meados do século XIX, no Rio de Janeiro com as maltas e no Recife com as gangues. Nessas cidades, os grupos disputavam os espaços demarcados identitariamente e tinham suas próprias manifestações rítmicas. (CAVALCANTI, 2008)

Fregolão (2008) considera que toda a pluralidade cultural imbricada na constituição destes elementos pode significar manifestações culturais diferentes, conforme a região em que ocorrem.

 Mestre André Lacé , a esse respeito, lembra que a capoeira tradicional, na Bahia e pelo Brasil afora, tinham a mesma convivência com o batuque. Além do mais há registros autorizados jurando que a Regional nasceu da fusão da Angola com os melhores golpes das lutas europeias e asiáticas .

 O batuque, também chamado de pernada, é mesmo, essencialmente, uma divisão dos antigos africanos, com especialidade dos procedentes de Angola. Onde há capoeira, brinquedo e luta de Angola, há batuque, que parece uma forma subsidiária da capoeira .

Para Lacé Lopes (2006) , a origem africana, entretanto, é evidente e incontestável. Comprovada não apenas pelo perfil étnico predominante dos capoeiras brasileiros do passado, mas, sobretudo, pela existência na África, há séculos, de práticas similares. O Moringue no Oceano Índico – Ilha de Reunião, Madagascar, Moçambique etc. – sem dúvida, é um bom exemplo.

 O mesmo raciocínio pode ser ajustado ao berimbau africano, instrumento musical que, no Brasil, acabou fortemente associado ao jogo da capoeira. Cada vez menos, mestres de capoeira e pesquisadores tendem a divergir quanto a esses aspectos. Da mesma forma que está surgindo um consenso sobre a utilização do nome “capoeira” para rotular o ensino e a prática do jogo com acompanhamento musical (cantoria e ritmo: berimbau, pandeiro, caxixi, reco-reco, agogô, atabaque), e a utilização do nome “capoeiragem” para a prática da capoeira como uma espécie de briga abrasileirada de rua, em desuso, na qual, no máximo, batiam-se palmas e cantavam-se versos curtos (samba duro, pernada carioca etc.).

Já em Portugal encontrou-se o chamado fado batido, que surgiu no início do século XIX como dança de umbigadas semelhante ao lundu. Popularizou-se primeiro no Rio de Janeiro e depois na Bahia. Na década de 1830, já existiam em Lisboa inúmeras casas de fado, onde moravam as fadistas, jovens que cantavam, tocavam e “batiam” o fado num ambiente de bordel. Por volta de 1840, o canto ganhou especial importância, o que parece haver coincidido com a substituição da viola pelo violão .

 José Ramos Tinhorão (2001), no capítulo “Os negros na origem do fado-canção em Lisboa” revela ter havido rodas de fado que funcionavam como as rodas de pernada dos crioulos do Brasil: era o chamado ‘fado batido’, clara referência à antiga umbigada africana e em que um dançarino ‘batia’ (aplicada a pernada) e o outro ‘aparava’ (procurava neutralizar o golpe para não cair).

Fregolão (2008) informa que na página 61 dos Códigos de Posturas da Câmara Municipal da cidade de Desterro [Florianópolis], de 10 de maio de 1845 no artigo 38 há a proibição dos ajuntamentos de escravos ou libertos para formarem batuques, sob pena de castigos conforme a lei para os cativos e para os libertos multa ou cadeia. O código de posturas da cidade de Salvador proibia “os batuques, danças e ajuntamentos em qualquer hora e lugar sob pena de prisão”. A expressão “batuque”, repleta de significados, podia representar diversas expressões culturais.

 Câmara Cascudo registra por “Batuque” a dança com sapateados e palmas, ao som de cantigas acompanhadas só de tambor quando é de negros ou também de viola e pandeiro “quando entra gente mais asseada”. Batuque é denominação genérica de toda dança de negros na África.

Batuque é o baile, conforme descrição de um naturalista alemão, George Wilhelm Freyreiss que faleceu no sul da Bahia, em uma viagem que fez a Minas Gerais em 1814 -1815 em companhia do barão de Eschwege . Assistiu e registrou um batuque, e ao descrever a dança, fala da umbigada [punga]:

“Os dançadores formam roda e ao compasso de uma guitarra (viola), move-se o dançador no centro, avança, e bate com a barriga na barriga de outro da roda (do outro sexo). No começo o compasso é lento, depois pouco a pouco aumenta e o dançador do centro é substituído cada vez que dá uma umbigada. Assim passam a noite inteira. Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta. Razão pela qual tinha muitos inimigos, principalmente os padres.”

 De acordo com D´Ávila (2006) , no século XVIII, constituído de instrumentos de percussão (membranofones, idiofones), o Batuque surgiu com esta designação, em conseqüência da homologação entre os atos do “bater”, verificados, tanto na forma primitiva do candomblé – o batucajé na Bahia, dança religiosa de negros (onde os atabaques marcam o ritmo para o contato com as divindades), quanto numa modalidade de capoeira, o famoso batuque-boi ou pernada (ou batuque), luta popular de origem africana muito praticada nos municípios de Cachoeira, Santo Amaro e Salvador, acompanhada de pandeiro, ganzá, berimbau (o único cordofone + idiofone, como exceção), e cantigas. É de procedência banta como a capoeira.

 Segundo João Mina (citado por D´ÁVILA, 2006) , grande batuqueiro e capoeirista baiano que se mudou para o Rio de Janeiro: “o Batuque era praticado por negro macumbeiro, bom de santo, bom de garganta e principalmente bom de perna para tirar o outro da roda”. Todos os dias no Morro da Favela (onde nasceu o samba, no Rio) havia Batuque, pernadas, pessoas caídas no chão até que surgisse a polícia. Na chegada dela, o batuque rapidamente virava meio dança lenta, meio ritual. As mulheres dos batuqueiros, para disfarçar, entravam na roda (tal qual a gira dos candomblés) e, num batuque mais lento, mole, com remelexos, trejeitos sensuais e umbigadas (= semba, em Luanda) no sexo oposto, – sendo estas consideradas o ponto culminante da dança -, demonstravam estar se divertindo. Segundo Elias Alexandre da Silva Correia, “o batuque é uma dança indecente que finaliza com umbigadas”.

Conforme citação de M. de Araújo (citado por D´ÁVILA, 2006) , os fazendeiros que também viam no Batuque uma dança ritual da procriação, “fingiam que não viam, pois tinham grande interesse em aumentar o número de escravos”.

Assim nasceu o samba-de-roda na Bahia. Mistura de um batuque com as mulheres das rodas dos candomblés, com outro batuque representado pelos homens das capoeiras. É em virtude desta fusão que, ainda nos dias atuais, verificamos ser o samba-de-roda a única modalidade de samba em que a presença do berimbau se faz notar e é tocado, tradicionalmente, quando há mulheres presentes na roda. Quando a polícia se retirava, recomeçava o batuque bravo quando caprichavam na capoeiragem, com pernadas violentas, soltando “baús”, “dourado”, “encruzilhada”, “rabo-de-arraia”, que tiravam os conflitantes da roda. Corte difícil de defender para um batuqueiro era o da “tiririca” com o seguinte canto puxado pelo mestre: “tiririca é faca de cortar / quem não pode não intima /deixa quem pode intimá”. Um pé ficava no chão e o outro com violência, no pé do ouvido do adversário. Em consequência da tiririca = faca, surgiu no samba-de-roda o raspado de prato e “faca”, do modo dos reco-recos raspados nas batucadas (D´ÁVILA, 2006) .

Edison Carneiro ao fazer uma espécie de etimologia do batuque, cita que Macedo Soares considerava a palavra produto do verbo bater, mas cita também: “Esta palavra, na sua acepção mais lata no Brasil, aplica-se ao conjunto de sons produzidos por instrumentos de percussão, em especial se considerados desarmônicos ou ensurdecedores. Também em sentido lato, a toda e qualquer dança ao som de atabaques dá-se, depreciativamente, o nome de batuque. Especificamente, batuque designa um jogo de destreza da Bahia, uma dança de umbigada de São Paulo – que se filia ao batuque africano – e dois tipos de cultos de origem africana correntes na região amazônica e do Rio Grande do Sul.”

José Ramos Tinhorão (1988) aponta para o problema do uso genérico do termo batuque: Na verdade, tal como o exame mais atento das raras informações sobre essas ruidosas reuniões de africanos e seus descendentes crioulos deixa antever, o que os portugueses chamaram sempre genericamente de batuques não configurava um baile ou um folguedo, em si, mas uma diversidade de práticas religiosas, danças rituais e formas de lazer.

Com o nome de “batuque” ou “batuque-boi” há uma luta popular, de origem africana, muita praticada nos municípios de Cachoeira e Santo Amaro e capital da Bahia, uma modalidade de capoeira. A tradição indica o batuque-boi como de procedência banto, tal e qual a capoeira, cujo nome tupi batiza o jogo atlético de Angola.

 Encontramos em Angola um estilo musical popular – O Semba -, que significa ‘umbigada’ em quimbundo – língua de Angola. Foi também chamado ‘batuque’, ‘dança de roda’, ‘lundu’, ‘chula’, ‘maxixe’, ‘batucada’ e ‘partido alto’, entre outros, muitos deles convivendo simultaneamente! O cantor Carlos Burity defende que a estrutura mais antiga do semba situa-se na ‘massemba’ (umbigada), uma dança angolana do interior caracterizada por movimentos que implicam o encontro do corpo do homem com o da mulher: o cavalheiro segura a senhora pela cintura e puxa-a para si provocando um choque entre os dois (semba). Jomo explica que o semba (gênero musical), atual é resultado de um processo complexo de fusão e transposição, sobretudo da guitarra, de segmentos rítmicos diversos, assente fundamentalmente na percussão, o elemento base das culturas africanas.

 É descrita por Edson Carneiro (Negros Bantos): a luta mobilizava um par de jogadores, de cada vez; dado o sinal, uniam as pernas firmemente, tendo o cuidado de resguardar o membro viril e os testículos. Dos golpes, cita o encruzilhada, em que o lutador golpeava coxa contra coxa, seguindo o golpe com uma raspa, e ainda o baú, quando as duas coxas do atacante devam um forte solavanco nas do adversário, bem de frente. Todo o esforço dos lutadores era concentrado em ficar de pé, sem cair. Se, perdendo o equilíbrio, o lutador tombasse, teria perdido a luta. Por isso mesmo, era comum ficarem os batuqueiros em banda solta, equilibrando-se em uma única perna, e outra no ar, tentando voltar à posição primitiva.

 Catunda (1952) ressalta que na capoeira baiana [...] Não é como a capoeira carioca, na qual um dos comparsas se mantém imóvel, em atitude de defesa, enquanto só o outro ataca, dançando em volta do inimigo, assestando-lhe golpe sobre golpe. Em comentário de pé-de-página consta o seguinte: “A descrição da capoeira do Rio relembra a do batuque ou da pernada carioca por Edison Carneiro 1950 , [...] Edison Carneiro descreveu a capoeira bahiana em Negros Bantus em 1938”.

Câmara Cascudo informa que assistiu a uma pernada executada por marinheiros mercantes, no ano de 1954, em Copacabana, Rio de Janeiro. Diziam os marinheiros, que era carioca ou baiana. É uma simplificação da capoeira. Zé da Ilha seria o “rei da pernada carioca”; é o bate-coxa das Alagoas.

Em “Dinâmica do Folklore” (1950) Edson Carneiro afirma que o batuque ou pernada, bem conhecido na Bahia e Rio de Janeiro, não passa de uma forma complementar da capoeira. Informa, ainda, que na Bahia, somente em arraiais do Recôncavo se batuca, embora o bom capoeira também saiba largar a perna. No Rio de Janeiro já se dá o contrário – a preferência é pela pernada, que na verdade passou a ser o meio de defesa e ataque da gente do povo.

Já Corte Real (2006) referindo-se ao batuque afirma que o mesmo foi uma prática competitiva presente nas festas de largo da Bahia. Como a capoeira, teria sido perseguido pela repressão policial decorrente do código penal de 1890.

Vieira (1995, p.135) informa mais detalhadamente que: “São raras e geralmente muito vagas as referências a essa instituição na literatura especializada nas tradições nordestinas. Segundo Édison Carneiro (1812: 111- 112), trata-se de um jogo praticado ao som de berimbaus e outros instrumentos, em que o objetivo é derrubar o adversário com o uso de golpes de perna, como rasteiras e joelhadas. Formado um círculo, um dos participantes entra na “roda” e dirige o desafio a outro jogador, enquanto o grupo acompanha o ritmo dos instrumentos com palmas e cânticos. Édison Carneiro afirma, ainda, que o batuque teria sido incorporado à capoeira, inexistindo atualmente como tradição isolada.”

 Apesar da referência às fontes esparsas, Reis (1997) informa que: O batuque baiano, segundo Câmara Cascudo (1988), era uma modalidade da capoeira. O acompanhamento musical assemelhava-se ao dela, com utilização de pandeiros, berimbaus e ganzás, além do que entoavam-se cantigas. A luta envolvia dois jogadores por vezes, os quais deveriam unir as pernas com firmeza e aplicar rasteiras um no outro. O principal era evitar cair e “por isso mesmo era comum ficarem os batuqueiros de banda solta, isto é, equIlibrado numa única perna, a outra no ar, tentando voltar à posição primitiva (…).”(p.129 – nota de número 12)

O batuque na Bahia se chama batuque, batuque-boi, banda, e raramente pernada – nome que assumiu no Rio de Janeiro… Ficaram famosos como mestres na arte do batuque, Angolinha, Fulo, Labatut, Bexiga Braba, Marcelino Moura…

Grande batuqueiro da época foi Tibúrcio José de Santana (década de 50, em Jaguaripe) quando, em entrevista, confirmou o nome de batuqueiros famosos com os quais conviveu e lutou: Lúcio Grande (Nazaré das Farinhas), Pedro Gustavo de Brito, Gregório Tapera, Francisco Chiquetada, Luís Cândido Machado (pai de Bimba), Zeca de Sinhá Purcina, Manoel Afonso (de Aratuípe), Mansú Pereira, Pedro Fortunato, Militão, Antônio Miliano, Eusébio de Tapiquará (escravo da família Abdom em Jaguaripe) . Segundo Édison Carneiro:

“[...] a competição mobilizava um par de jogadores de cada vez. Havia golpes como a encruzilhada em que o atacante atirava as duas pernas contra as pernas do adversário, a coxa lisa, em que o jogador golpeava coxa contra coxa, acrescentando ao golpe uma raspa, o baú, quando as coxas do atacante davam um forte solavanco nas do adversário, bem de frente.” (citado por D´ÁVILA, 2006)9

Do vocábulo “batuque-boi”, registra: espécie de Pernada. Bahia. A orquestra das rodas de batuque era a mesma das rodas de capoeira – pandeiro, ganzá, berimbau.

Pavão (2004) citando Hiram Araújo (2000) apresenta o cenário das chamadas rodas de batuque, populares entre as classes pobres do Rio de Janeiro: “De repente, era uma navalha que brilhava a luz dos lampiões e um batuqueiro que caía ensanguentado, enquanto o coro abafava os gemidos da vítima cantando: ‘pau rolou… caiu! Lá nas matas ninguém viu… ’ (pg.148)”.

Continuando, as rodas de batucada, é divertimento associado à violência. Para Sandroni esta prática: “[...] um jogo de destreza corporal, variante da capoeira, que foi popular no Rio de Janeiro. Pode ser considerada também como uma variante do samba de umbigada definido por Carneiro, pois consistia numa roda, como os usuais cantos responsoriais e palmas dos participantes, onde a umbigada era substituída pela pernada, golpe com a perna visando derrubar o parceiro, o qual, se conseguisse se manter de pé, ganhava o direito de aplicar a próxima pernada no parceiro que escolhesse. A batucada se diferencia dos outros sambas de umbigada por sua componente violenta (2001:103”).

 Mais adiante, esses confrontos aparecem, por exemplo, quando analisamos as famosas rodas de batuqueiro, como Candeia Filho (1978) nos mostra: ”O samba duro é um tipo de samba partido alto. Caracteriza-se pela violência em suas apresentações. Formavam-se círculos com o ritmo marcado pela palma da mão. O mais importante não era o samba de partido alto cantado, mas sim, a ginga do malandro, a rasteira ou pernada surgida da brincadeira. O samba duro também chamado de roda de “batuqueiros” existia na Balança (Praça Onze), nas festas da Penha (1978:57)”.

Nas “rodas de batuqueiro”, assim como nas demais manifestações da Praça Onze, o “desafio” se fazia presente como forma de disputa entre amigos, muitas vezes através da violência. O confronto revelava atributos destacados da personalidade, propiciando a valorização de aspectos como valentia, coragem, força e outros valores.

Ari Araújo, por sua vez, apresentou um pouco do que acontecia nas antigas disputas entre batuqueiros: “O ponto de honra era não cair. Era tornar-se conhecido como perna santa, ou seja, aquele a quem ninguém consegue derrubar venha como vier: de banda de frente, banda jogada, banda de lado, etc.” (1978:27).

Em conferência intitulada “Batuque, samba e macumba” Cecília Meireles assim se manifesta: “Do batuque derivou-se a roda de ‘capoeiragem’ que vem a ser uma espécie de ‘jiu-jítsu’, de efeitos muito mais extraordinários, na opinião dos entendidos”.

O batuque é a essência da cultura . Esta é a definição de batuque que consta de uma placa comemorativa exposta no Parque Memorial Quilombo dos Palmares: “Os sons dos tambores, berimbaus, adufés (pandeiro) e agogôs, levam homens e mulheres a sintonizar profundamente com seus corpos e espíritos, através da ginga da capoeira, da congada, do maracatu e do samba. Os acontecimentos da vida cotidiana, como nascimentos, mortes, plantios, colheitas, vitórias e manifestações da natureza, eram comemorados comunitariamente com danças, músicas e baticuns. Antigamente, os toques eram também um precioso meio de comunicação entre os guerreiros e entre o divino e o profano.”

O batuque (batuku ou batuk em crioulo cabo-verdiano) é um gênero musical e de dança de Cabo Verde. Como dança, o batuque tradicional desenrola-se segundo um ritual preciso. Numa sessão de batuque, um conjunto de intérpretes (quase sempre unicamente mulheres) organiza-se em círculo num cenário chamado terreru. Esse cenário não tem de ser um lugar específico, pode ser um quintal de uma casa ou no exterior, numa praça pública, por exemplo. A peça musical começa com as executantes (que podem ou não ser simultaneamente batukaderas e kantaderas) desempenhando o primeiro movimento, enquanto que uma das executantes dirige-se para o interior do círculo para efetuar a dança. Neste primeiro movimento a dança é feita apenas com o oscilar do corpo, com o movimento alternado das pernas há marcar o tempo forte do ritmo. No segundo movimento, enquanto as executantes interpretam o ritmo e o canto em uníssono, a executante que está a dançar muda a dança. Neste caso, a dança (chamada da ku tornu) é feita com um requebrar das ancas, conseguido através de flexões rápidas dos joelhos, acompanhando o ritmo. Quando a peça musical acaba, a executante que estava a dançar retira-se, outra vem substituí-la, e inicia-se uma nova peça musical. Estas interpretações podem arrastar-se por horas.

 O batuque, também chamado de pernada, é mesmo, essencialmente, uma divisão dos antigos africanos, com especialidade dos procedentes de Angola. Onde há capoeira, brinquedo e luta de Angola, há batuque, que parece uma forma subsidiária da capoeira •.

Letícia Vidor de Souza Reis , baseada em Câmara Cascudo, afirma que o “batuque baiano” era uma modalidade de capoeira que irá influenciar muito Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, na elaboração da Capoeira Regional Baiana : FOTO: Bimba y Cisnando – Nascido Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba (1900-1974) era filho de Luís Cândido de Machado, caboclo de Feira de Santana, e Maria Martinha do Bonfim, negra do Recôncavo. Segundo Héllio Campos, Bimba deu os primeiro passos na capoeira aos 14 anos, com o pai, que foi campeão de batuque, e com Mestre Bentinho, africano que era capitão da Companhia de Navegação Baiana.“

 Mestre André Lacé lembra que a capoeira tradicional, na Bahia e pelo Brasil afora, tinham a mesma convivência com o batuque. Além do mais há registros autorizados jurando que a Regional nasceu da fusão da Angola com os melhores golpes das lutas européias e asiáticas .

Concordamos com Almeida e Silva (?) , para quem a história da capoeira é marcada por inúmeros mitos e “semiverdades”, conforme nos esclarece Vieira e Assunção (1998). Esses mitos e estórias dão base às tradições que se perpetuam e proporcionam a continuidade de um passado tido como apropriado. Na capoeira, a narrativa oral das suas “estórias” adquiriu uma força legitimadora tão forte que, por muitas vezes, podemos encontrar discursos acadêmicos baseados nelas .

Castro (2002) nos esclarece esse fato e diz que em todos os casos de fenômenos da cultura corporal existe a tentativa, por parte dos seus atores, de expressar identidade, coesão e estabilidade social em meio a tantas situações de rápida transformação histórica/social, “através do recurso à invenção de cerimônias e símbolos que evocam continuidade com um passado muitas vezes ideal ou mítico” (p.11).

Para Soares (2001) , há todo um debate envolvendo a origem da capoeira, de onde ela veio etc. Embora a capoeira do Século XIX tenha passado por um período fortemente escravista, com uma população africana muito grande, a origem está no século XVIII, nos primórdios da sociedade urbana. A capoeira é um fenômeno urbano, que anuncia uma leitura de negros africanos e crioulos para o mundo urbano colonial. É a partir do início do século XVIII que se dá a formação de uma sociedade urbana colonial pela primeira vez, em Minas e no Rio de Janeiro – a grande cidade do ciclo do ouro era o Rio de Janeiro -, para onde convergiam todas as remessas de ouro que iam para a corte. A cidade cresceu muito, tanto que virou capital da colônia, havendo ali uma espécie de revolução urbana durante o século 18, que com certeza trouxe os africanos, já que até 1700 a população escrava no Rio era quase toda indígena:

“Os africanos vinham de um ponto distante do continente e que não se conheciam originalmente. Eles estavam num ambiente novo, tenso, de concentração, porque a cidade colonial era pequena, mas concentrava uma população densa. Os africanos traziam bagagens culturais diferentes, mas alguns elementos eram mais ou menos articuláveis, a língua, por exemplo. Também a dança foi importante, já que os povos se articularam nesse sentido. A capoeira, então, era uma forma de união desses diversos grupos. O termo capoeira foi dado pela ordem policial. Eles eram identificados assim. Isso cria um problema, já que de certa forma você tem uma identificação grupal que não parte do grupo, mas sim do seu rival. Os termos da documentação são o “jogo do capoeira”. Todos esses povos traziam uma bagagem cultural com diversas danças e artes marciais. Essas danças, por mais diferentes, tinham um ponto comum. Possivelmente essas semelhanças fossem articuladas na América. Capoeira, na hipótese desse autor, nasceu na América.”

Vieira (2004) ensina-nos que, de acordo com os melhores cronistas, a Capoeiragem data de 1770, “[...] quando para cá andou o Vice-Rei Marques do Lavradio. Dizem eles também que o primeiro capoeira foi um tenente chamado João Moreira, homem rixento, motivo porque o povo lhe apelidou de ‘amotinado’. Viam os negros escravos como o ‘amotinado’ se defendia quando era atacado por 4 ou 5 homens, e aprenderam seus movimentos, aperfeiçoando-os e desdobrando-os em outros dando a cada um o seu nome próprio. Como não dispunham de armas para sua defesa uma vez atacados por numeroso grupo defendiam-se por meio da ‘capoeiragem’, não raro deixando estendidos por uma cabeçada ou uma rasteira, dois ou três de seus perseguidores”2. Este texto de Hermeto Lima, se alinha com o de Macedo, que nos afirma que “o Tenente ‘Amotinado’ era de prodigiosa força, de ânimo inflamável, e talvez o mais antigo capoeira do Rio de Janeiro, jogando perfeitamente, a espada, a faca, o pau e ainda de preferência, a cabeçada e os golpes com os pés.”

 Jorge Olimpio Bento, no prefácio do livro de Araújo (1997) , afirma que esse autor, ao procurar esclarecer as origens e evoluções daquela luta ao longo de vários séculos, viu-se forçado a proceder a pesquisas documentais sobre todo o contexto social abrangente. Afirma Bento (p. 6): “não admira assim que na história da capoeira surjam indicações referentes”:

• Ao tráfico negreiro;

• Às manifestações culturais de origem africana dos povos traficados para o Brasil;

• À vida dos negros, quer fossem escravos ou forros, às suas rebeliões e aos seus quilombos;

• Ao período colonial e imperial do Brasil;

• Os fatores político-sociais ligados ao fim do império, ao início da república, à era getulista e há tempos mais recente.

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CRONICA DA CAPOEIRAGEM – “RES PRO PERSONA”

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“RES PRO PERSONA”  [1]

o segredo é o seguinte: não existem factos, só existem histórias[2].

João Ubaldo Ribeiro

 Vamos começar:

A Capoeira é essencialmente dialética e dinâmica; e por ser uma manifestação que se espalhou pelo mundo muito recentemente, recebe milhares de análises em seus diversos aspectos – teórico, técnico, didático, tático, filosófico etc. – e cada uma delas baseada na realidade de cada norteador de um trabalho (entenda-se: Mestre, Professor, Instrutor etc.). Até aqui, vemos a fortaleza da Capoeira: a junção dos diversos pontos de vista que fazem com que ela não seja monopolizada em única verdade; e, sim, descentralizada em diversas faces de uma mesma manifestação. O que não é salutar é a imposição de uma verdade em detrimento de outra, gerando a perda de criatividade e a estabilização dos conhecimentos. Desta forma, é difícil dizer que algo é errado na Capoeira. (Mestre Tuti in Chamada na ‘Benguela’ -17/11/2011) [3]

 Quando do reconhecimento da Capoeira como Patrimônio Imaterial do Povo Brasileiro foi considerada: Arte que se confunde com esporte, mas que já foi considerada luta: Expressão brasileira surgida nos guetos negros há mais de um século como forma de protesto às injustiças sociais, arte que se confunde com esporte, mas que já foi considerada luta, a capoeira foi reconhecida como patrimônio imaterial da cultura brasileira. A decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi concretizada terça-feira (15) [de julho de 2008] no Palácio Rio Branco, em Salvador (BA).[4].

 Sendo definida como uma arte multidimensional, um fenômeno multifacetado – ao mesmo tempo dança, luta, jogo e música – que tem na roda o ritual criado pelos capoeiristas para desenvolver esses vários aspectos.

            Parto do entendimento de que a Capoeira é uma prática cultural[5] no sentido mais dinâmico possível do termo.

Mas, o que é a Capoeira? Como podemos defini-la? Tenho encontrado as mais variadas respostas: capoeira é luta; capoeira é um esporte; capoeira é folclore; outros dizem que é um lazer; é uma festa; é vadiação; é brincadeira; é uma atividade educativa de caráter informal[6].

Não me conformo com essas classificações simplistas e reducionistas; compreendi que a Capoeira é tudo isso… Compreender a Capoeira como sendo uma prática cultural[7] representa um salto qualitativo para além das visões essencialistas, que, por vezes, apelam para um mito de origem reivindicando a pureza ou a tradição de certo antigamente da Capoeira.       

Quero chamar a atenção para o entendimento de que as práticas culturais, como a Capoeira, não estão paradas no tempo e, por isso mesmo, a transformação constante é inevitável. As necessidades e os problemas dos (as) Capoeiras de outrora não são os mesmos de hoje. A cada dia se joga uma Capoeira diferente. A Capoeira de hoje é diferente da Capoeira de ontem e da de amanhã – esse exemplo de constante transformação demonstra suficientemente bem que a cultura está em permanente mudança.

Assim, práticas culturais são aquelas atividades que movem um grupo ou comunidade numa determinada direção, previamente definida sob um ponto de vista estético, ideológico, etc. [8].

            A arte apresenta registros documentais e iconográficos desde o século XVIII.[9]. Passamos a nos servir de Araujo e Jaqueira (2008) [10], em sua análise das pranchas de Rugendas[11], conforme proposto por Rubiera[12]:

Prancha 18 – JOGO DA CAPOEIRA – 1820/1835 – publicada em 1835-

 

Comentário do autor da obra:

“os negros tem ainda um outro folguedo guerreiro mais violento, a ‘capoeira’: dois campeões se precipitam contra o outro, procurando dar com a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar. Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmente hábeis; mas lançando-se um contra o outro mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem-se fortemente cabeça com cabeça, o que faz com que a brincadeira não raro degenere em briga e que as facas entrem em jogo, ensanguentando-a”.(p. 75)[...]

Araújo e Jaqueira (2008) tecem o seguinte comentário:

“Dentro do contexto da luta brasileira, este é a imagem mais referenciada em documentos de origens diversas, talvez por ser a primeira iconografia publicada, mas não a única, que mais explicitamente identificou a presença do jogo denominado Capoeira num dos períodos históricos brasileiros e, igualmente descrita pelo autor com uma série de adjetivações, que vão desde um folguedo guerreiro de cariz violento ou mesmo uma brincadeira e por fim um jogo, o que nos faz refletir sobre as suas possíveis características de expressividade no período colonial do Brasil – luta, jogo, dança”. (p. 75-76)

 Prancha 27 – SÃO SALVADOR – 1820/1835 – publicada em 1835:

 

 “A iconografia denominada São Salvador, apresenta-se como um dado histórico que nos possibilita interpretações de alguns factos dos costumes dos grupamentos marginais da sociedade imperial brasileira, mais concretamente da Capoeira [...] a imagem de Rugendas, busca fundamentalmente retratar uma panorâmica da cidade do Salvador, apresentando-nos em primeiro plano, uma cena característica de um dos costumes baianos, o jogo da Capoeira, tornando esta iconografia de capital importância para a reescrita e/ou reinterpretação da história desta expressão corporal, visto ser este tipo de documento dentre tantos outros, até ao momento, o primeiro, mas não o único que confirma ter existido tal expressão corporal na sociedade soteropolitana, isto para os contextos históricos colonial, imperial e da 1ª república. [...]” (ARAUJO e JAQUEIRA, 2008, p. 69)

 Continuam esses autores:

“Apesar de Rugendas não referir-se explicitamente nesta obra sobre a exercitação da capoeira pelos indivíduos enfocados, não podemos deixar de concluir pela presença de elementos de cariz corporal que bem podem evidenciar na imagem, isto pelos conhecimentos por nós adquiridos sobre esta expressão, trata-se estes, de gestuais específicos da luta, onde a cabeçada, ginga e esquivas se podem visualizar, não nos permitindo inferir acerca da sua forma de emanação – jogo; luta, aprendizagem. Destarte não haver indicações do autor sobre este enfoque, e considerando a sua descrição sobre a iconografia ‘Jogo da Capoeira’, nos conduz na admissão de estarmos na presença de jogo ou de aprendizagem, quando associamos as condutas miméticas de alguns, brejeiro e de admiração de outros personagens presentes na cena.[...] O que mais podemos extrair desta imagem, é a presença de uma movimentação rítmica configurada pelo movimento alternado das pernas e conhecida contemporaneamente por ginga, isto, sem qualquer auxílio de instrumentos musicais para a sua exercitação, indiciando portanto, a  não obrigatoriedade destes no seu contexto de expressividade, e muito menos a subordinação ao berimbau”. (ARAUJO e JAQUEIRA, 2008m, p. 72-73) [13].

             Em nota de pé-de-página, Araujo e Jaqueira (2008) referem-se a outras obras, desse mesmo período, que retratam o movimento identificado como Capoeira no Brasil: “No período de 1820/25 foram igualmente elaboradas mais duas imagens que retratam a prática de uma manifestação de luta dos negros e, posteriormente, identificada como Capoeira em face das movimentações corporal presentes, e sustentadas pelas descrições de Rugendas. Este mesmo artista foi o autor de outra obra em que se pode visualisar (sic) na Bahia, uma forma de expressão corporal, que não identificando-se nominalmente com manifestação da luta brasileira, não nos podemos furtar de assim reconhecê-la. A outra imagem é a denominada “Negros brigando nos Brasis’ de autoria de Augustus Earle”. (ARAUJO e JAQUEIRA, 2008, nota de pé-de-página, fls. 75-76, obra citada).

 PRENCHA 7 – NEGROS BRIGANDO NOS BRASIS (NEGROES FIGHTING, BRAZILS) 1822

Comentário do apresentador da obra[14]:

 “Dois negros moços entregues ao ‘jogo da capoeira’, enquanto outros contemplam de uma casa própria e um policial colonial prepara-se para saltar uma cerca, afim de sustar a luta”

 Negroes fighting, Brazil” c. 1824. Autor Augustus Earle (1793-1838) – Painting by Augustus Earle depicting an illegal capoeira-like game in Rio de Janeiro (1824)

Comentários sobre a obra:

“[...] as figuras apresentadas por Rugendas foram e ainda são as mais representativas para o contexto da capoeira, principalmente aquela que foi acompanhada pela descrição [...] A imagem de Augustuis Earle [...] apesar de ter sido elaborada no mesmo período das iconografias de Rugendas, foi durante muito tempo relegada ao esquecimento [...] Earle retratou uma cena típica dos costumes urbanos da cidade do Rio de Janeiro [...] ao tipo de exercitação visualizada pela imagem [...] entendemos ser esta, manifestadamente, a expressão corporal denominada Capoeira [...] onde depreendemos estarmos diante de dois movimentos conhecidos no contexto atual da luta brasileira, como ginga e benção/escorão/chapa[...]”. (ARAÚJO e JAQUEIRA, 2008, p. 80-87)12

 Araújo e Jaqueira (2008) analisaram também a obra de Frederico Guilherme Briggs – Negros que vão levar “açoutes”, estampa avulsa: tipos de rua e caricaturas. Os autores se valem da obra de TURAZZI (2002) [15], que comenta:

“Se as imagens podem ser tomadas como uma ‘narrativa’, as estampas de tipos de rua da Litografia Briggs nos permitem várias leituras [...] Para tanto, eles adotaram como estratégia uma figura de linguagem empregada com frequência  na fala dos cariocas. Mas a substituição de nome próprio por perífrase (isto é, a designação de alguém ou de algo que dê relevo a uma de suas qualidades, e não por seu nome) tem sido, historicamente, um dos traços mais marcantes da linguagem popular do Rio de Janeiro. Pois é exatamente esse estilo de linguagem, saído das ruas, o recurso adotado pelos litógrafos da oficina Briggs para representar e legendar as figuras de suas estampas”.(TURAZZI, 2002, citada por ARAÚJO e JAQUEIRA, 2008, p. 94-95)

FIGURA 20, OBRA DO ANO DE 1832/1836, PUBLICADA EM 1984:

 

Negros que vão levar açoutes  Briggs del.   Litho. R.B.   Rua do Ouvidor nº 118. Source: Biblioteca Nacional, acervo de gravuras sobre escravatura Negros que vão levar açoutes, 1832/1836, publicada em 1984.

 

O que é ‘capoeira’? [16]  

Verniculização do tupi-guarani caá-puêra: caá = mato, puêra = que já foi[17]; no Dialeto Caipira de Amadeu de Amaral: Capuêra, s.f. – mato que nasceu em lugar de outro derrubado ou queimado.

          Data de 1577primeiro registro do vocábulo “capoeira” na língua portuguesa: Padre Fernão Cardim (SJ), na obra “Do clima e da terra do Brasil”. Conotação: vegetação secundária, roça abandonada (Vieira, 2005) [18].

 

DEBRET – 1816/1831

Capoeira – espécie de cesto feito de varas, onde se guardam capões, galinhas e outras aves (Rego, 1968):

[...] os escravos que traziam capoeiras de galinhas para vender no mercado, enquanto ele não se abria, divertiam-se jogando capoeira. (Antenor Nascimento, citado por REGO, 1968, citados por MANO LIMA – Dicionário de Capoeira. Brasília: Conhecimento, 2007, p. 79).

 Por Capoeira deve-se entender “individuo(s) ou grupo de indivíduos que promovião acções criminosas que atentavam contra a integridade física e patrimonial dos cidadãos, nos espaços circunscritos dos centros urbanos ou área de entorno“? 

Conforme a conceitua Araújo (1997) [19] ao se perguntar “mas quem são os capoeiras? e por capoeiragem como: “a acção isolada de indivíduos, ou grupos de indivíduos turbulentos e desordeiros, que praticam ou exercem, publicamente ou não, exercícios de agilidade e destreza corporal, com fins maléficos ou mesmo por divertimento oportunamente realizado”? (p. 69); e capoeirista, como sendo: “os indivíduos que praticam ou exercem, publicamente ou não, exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidas como Capoeira, nas vertentes lúdica, de defesa pessoal e desportiva”? (p. 70).

Para esse autor, capoeiras era a denominação dada aos negros que viviam no mato e atacavam passageiros (p. 79), em nota registrando a Decisão (205) de 27 de julho de 1831, documentada na Coleção de Leis do Brasil no ano de 1876, p. 152-153; “manda que a Junta Policial proponha medidas para a captura e punição dos capoeiras e malfeitores).

Ou devemos entendê-la como:

“… Desporto de Criação Nacional, surgido no Brasil e como tal integrante do patrimônio cultural do povo brasileiro, legado histórico de sua formação e colonização, fruto do encontro das culturas indígena, portuguesa e africana, devendo ser protegida e incentivada” (Regulamento Internacional da Capoeira);

assim como Capoeira, em termos esportivos, refere-se a

“… um jogo de destreza corporal, com uso de pernas, braços e cabeça, praticado em duplas, baseado em ataques, esquivas e insinuações, ao som de cânticos e instrumentos musicais (berimbau, atabaque, agogô e reco-reco). Enfocado em sua origem como dança-luta acabou gerando desdobramentos e possibilidades de emprego como: ginásticas, dança esporte, arte marcial, folclore, recreação e teatro, caracterizando-se, de modo geral, como uma atividade lúdica”. (Atlas do Esporte no Brasil, 2005, p. 39-40).

        Considera-se como prática do desporto formal da Capoeira sua manifestação cultural sistematizada na relação ensino-aprendizagem, havendo um ou mais docentes e um corpo discente, onde se estabelece um sistema de graduação de alunos e daqueles que ministram o ensino, havendo uma identificação indumentária por uniformes e símbolos visuais, independentemente do recinto onde se encontrarem. 

Considera-se como pratica desportiva não formal da Capoeira sua manifestação cultural, sem qualquer uma das configurações estabelecidas pelo Artigo anterior, e que seja praticada em recinto aberto, eminentemente por lazer, o que caracterizará a liberdade lúdica de seus praticantes.

Capoeira“jogo atlético de origem negra, ou introduzida no Brasil por escravos bantos de Angola, defensivo e ofensivo, espalhado pelo território e tradicional no Recife, cidade de Salvador e Rio de Janeiro, onde são reconhecidos os mestres, famosos pela agilidade e sucessos. Informa o grande folclorista  que, na Bahia, a capoeira luta com adversários, mas possui um aspecto particular e curioso, executando-se amigavelmente, ao som de cantigas e instrumentos de percussão, berimbaus, ganzá, pandeiro, marcando o aceleramento do jogo o ritmo dessa colaboração musical. No Rio de Janeiro e Recife não há, como não há notícia noutros Estados, a capoeira sincronizada, capoeira de Angola e também o batuque-boi. Refere-se, ainda, à rivalidade dos guaiamus e nagôs, seu uso por partidos políticos e o combate a eles pelo chefe de Polícia, Sampaio Ferraz, no Rio de Janeiro, pelos idos de 1890. O vocábulo já era conhecido, e popular, em 1824, no Rio de Janeiro, e aplicado aos desordeiros que empregavam esse jogo de agilidade.” (Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore) [20].

 “Capoeiragem”, de acordo com o Mestre André Lace: ”uma luta dramática” (in Atlas do Esporte no Brasil, 2005, p. 386-388).

   “Carioca” – uma briga de rua, portanto capoeiragem (no sentido apresentado por Lacé Lopes) – outra denominação que se deu à capoeira, enquanto luta praticada no Maranhão, no século XIX e ainda conhecida por esse nome por alguns praticantes no início do século XX.[21].

Para a capoeira, apresentam-se três momentos importantes: finais do século XIX, quando a prática da capoeira é criminalizada; décadas de 30/40, quando ocorre sua liberação; década de 70, quando se torna oficialmente um esporte.

CAPOEIRA ANGOLA – a proposta explícita da capoeira Angola é tradicionalista, no sentido de manter, o quanto possível, os “fundamentos” ensinados pelos antigos mestres. Está intimamente ligada a figura de Mestre Pastinha – Vicente Ferreira Pastinha -; aprendeu a capoeira antes da virada do século XIX (nasceu em 1889) com um velho africano.

CAPOEIRA REGIONAL – é a partir do final da década de 1920 que Mestre Bimba – Manoel dos Reis Machado – desenvolveu na Bahia a sua famosa capoeira Regional, que, apesar do nome, foi a primeira modalidade de capoeira a ser praticada em todo o Brasil e no exterior. Bimba partiu de uma crítica da capoeira baiana, cujo nível técnico considerava insuficiente, sobretudo se confrontado com outras lutas e artes marciais, que começavam a ser difundidas então no Brasil.

CAPOEIRA CONTEMPORÂNEA – o panorama da capoeira no Brasil e no exterior se tornou de tal maneira complexa que é impossível, atualmente, distinguir apenas a capoeira Angola e a Regional, pois surgiram estilos que se pretendem intermediários e que têm sido denominados de “Contemporânea” ou mesmo “Angonal”:

      – CONTEMPORÂNEA – é a denominação dada por Mestre Camisa a capoeira praticada no Grupo Abadá, com sede no Rio de Janeiro;

      – ANGONAL – neologismo que representa uma tendência na capoeira atual que funde elementos da Capoeira Angola com a Capoeira regional, criando um estilo intermediário entre essas duas modalidades; é, também, o nome de um grupo, do Rio de Janeiro – Mestre Boca e outros;

      – ATUAL – denominação que seria usada por Mestre Nô de Salvador, para designar esta terceira via (Vieira e Assunção, 1998).

   Do Atlas do Esporte no Brasil[22]:

Origens e Definições A capoeira é hoje um dos esportes nacionais do Brasil, embora sua origem seja controvertida. Há uma tendência dominante entre historiadores e antropólogos de afirmar que a Capoeira surgiu no Brasil, fruto de um processo de aculturação ocorrido entre africanos, indígenas e portugueses. Entretanto, não houve registro de sua presença na África bem como em nenhum outro país onde houve a escravidão africana. Em seu processo histórico surgiram três eixos fundamentais, atualmente denominados de Capoeira Desportiva, Capoeira Regional e Capoeira Angola, os quais se associaram ou se dissociaram ao longo dos tempos, estando hoje amalgamados na prática. Desde o século XVIII sujeita à proibição pública, ao longo do século XIX e até meados do século XX, ela encontrou abrigo em pequenos grupos de praticantes em estados do sudeste e nordeste. Houve distintas manifestações da dança-luta na Bahia, Maranhão, Pará e no Rio de Janeiro, esta última mais utilitária no século XX. Na década de 1970 sua expansão se iniciou em escala nacional e na de 1980, internacional.

Embora sejam encontrados diversos significados para o vocábulo “capoeira”, cada qual se referindo a objetos, animais, pessoas ou situações, em termos esportivos, trata-se de um jogo de destreza corporal, com uso de pernas, braços e cabeça, praticado em duplas, baseado em ataques, esquivas e insinuações, ao som de cânticos e instrumentos musicais (berimbau, atabaque, pandeiro, agogô e reco-reco). Enfocada em suas origens como uma dança-luta, acabou gerando desdobramentos e possibilidades de emprego como: ginástica, dança, esporte, arte, arte marcial, folclore, recreação e teatro, caracterizando-se, de modo geral, como uma atividade lúdica.” (Sergio Luiz De Souza Vieira In DaCOSTA, Lamartine (Org.). ATLAS DO ESPORTE NO BRASIL. Rio De Janeiro: CONFEF, 2006, p. 1.44-1.45)

        Na pesquisa realizada pelo IPHAN, ela é definida como:  “[...] um fenômeno urbano surgido provavelmente nas grandes cidades escravistas litorâneas, que foi desenvolvido entre africanos escravizados ligados às atividades “de ganho” da zona portuária ou comercial. A maioria dos capoeiras dessa época trabalhava como carregador e estivador, atividades muito ligadas à região dos portos, e muitos realizavam trabalho braçal. [23]

 Seguindo a justificativa do IPHAN, a partir de 1890, quando a capoeira foi criminalizada, através do artigo 402 do Código Penal, como atividade proibida (com pena que poderia levar de dois a seis meses de reclusão), a repressão policial abateu-se duramente sobre seus praticantes. Os capoeiristas eram considerados por muitos como “mendigos ou vagabundos”. Outras práticas afro-brasileiras, como o samba e os candomblés, foram igualmente perseguidas. 37.          

         Mais adiante, durante a República Velha, a capoeiragem era uma manifestação de rua, afrodescendente, e muitos dos seus praticantes tinham ligações com o candomblé, o samba e os batuques. A iniciação dos capoeiras nessas atividades acontecia provavelmente na própria família, no ambiente de trabalho e também nas festas populares.  Ainda sobre o universo das ruas, estudiosos revelam que o cancioneiro da capoeira se enriqueceu dos cantos de trabalho, e que o trabalhador de rua, em momentos lúdicos ou de conflitos, também se utilizava dos golpes e movimentos da capoeira. 37

         Consideram que já na década de 1920, com o apoio fundamental de intelectuais modernistas que procuraram reconstituir as bases ideológicas da nacionalidade, as práticas afro-brasileiras começaram a ser discutidas, e passaram a constituir um referencial cultural do país.  Ao final dos anos 30  a capoeira foi descriminalizada e passou de um extremo a outro, a ponto de ser defendida por historiadores e estudiosos como esporte nacional, considerada a verdadeira ginástica brasileira.  A manifestação já foi apontada como esporte, luta e folguedo, e era praticada por diferentes grupos sociais, principalmente a partir do século XX. 37.

         Assim, em 1937

 “[...] a capoeira começou ser treinada como uma prática esportiva, e não apenas como uma “vadiação” de rua.

Neste mesmo ano Mestre Bimba criou o Centro de Cultura Física e Capoeira Regional da Bahia.

“A capoeira regional nasceu como forma de transformar a imagem do capoeira vadio e desordeiro em um desportista saudável e disciplinado. Ele criou estatutos e manuais de técnicas de aprendizagem, descreveu os golpes, toques, cantos, indumentárias especiais, batizados e formaturas.

 “Em seguida, Mestre Pastinha fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola , em 1941, e assim este estilo passou a ser ensinado através de métodos próprios.

“A ideia da capoeira como arte marcial brasileira criou polêmica, pois era defendida por uns e criticada por outros, principalmente pelos angolanos, que afirmavam a ancestralidade africana do jogo.” [24].

        Na linha do tempo estabelecida pelos estudos do IPHAN, uma grande leva de capoeiristas chegou ao Rio por volta de 1950 oriundos da Bahia [a diáspora da capoeira baiana, no entender de Lacé Lopes]. O mais importante deles foi Mestre Arthur Emídio, que trouxe um estilo de capoeira diferente, de movimentação veloz e marcialmente eficaz, mas que mantinha orquestração musical. Ainda na década de 50 a capoeira passou a ser retratada e divulgada por artistas como Jorge Amado[25], Carybé[26] e Pierre Verger[27], entre outros. Nos anos seguintes, entre 60 e 70, ganhou espaço também nas produções artísticas do Cinema Novo, Tropicália e Bossa Nova. 37

         Para os estudos do IPHAN, foi a partir de 1970 a capoeira se expandiu em larga escala pelo Brasil. A angola deve sua recuperação, em grande parte, à atuação de Mestre Moraes, aluno de Pastinha, a partir de 1980, com a fundação do Grupo Capoeira Angola Pelourinho, que fortaleceu sua prática na Bahia e a disseminou pelo centro-sul do país e no exterior. 37

            Em 1975 o esporte chegou à Nova York, e em 1990, Mestre João Grande inaugurou  a primeira escola de capoeira angola dos EUA: Capoeira Angola Center. 37

“Apesar do fluxo de capoeiristas para a Europa e EUA ter-se iniciado a partir de 1970,  a princípio para a realização de shows, e em seguida para a formação de novos grupos nesses locais, foi a partir dos anos 1990 que o movimento da capoeira se intensificou, alcançando hoje o status de prática cultural realmente globalizada [...]” 37.

           Atualmente a capoeira está presente em mais de 150 países, atraindo praticantes e estudiosos dos cinco continentes do planeta. Sua globalização, feita sem incentivo governamental, ocorreu devido às viagens dos capoeiristas, considerados por muitas autoridades e adeptos como “embaixadores informais” da cultura brasileira37.

            Concordamos com o grupo que elaborou o projeto para o IPHAN, quando afirma que esta expansão significa a possibilidade de congregar povos e propiciar o diálogo intercultural. 37

Outra questão é: quando surgiu? No entender de muitos capoeiristas, quando o primeiro escravo angolano pisou a Terra de Santa Cruz (hoje, Brasil), já o teria feito no passo da ginga e no ritmo de São Bento Grande:

“numa noite escura qualquer, o primeiro negro escapou da senzala, fugiu do engenho, livrou-se da servidão, ganhou a liberdade… escapou o segundo e o terceiro, na tentativa de segui-lo, fracassou. Recapturado, recebeu o castigo dos negros (…) as perseguições não tardaram e o sertão se encheu de capitães-do-mato em busca dos escravos foragidos. Sem armas e sem munições, os negros voltaram a ser guerreiros utilizando aquele esporte nascido nas noites sujas das senzalas, e o esporte que era disfarçado em dança se transformou em luta, a luta dos homens da capoeira. ’A capoeira assim foi criada’. (Jornal da Capoeira, n. 1, 1996)”. (Vieira e Assunção, 1998, p. 83) [28].

 Durante as invasões holandesas – SÉCULO XVII, 1640 – surgem as expressões: ‘negros das capoeiras’, ‘negros capoeiras’, e ‘capoeiras’. (MARINHO, 1982; VIEIRA, 2004, 2005) [29].

Com o advento das invasões holandesas, na Bahia e em Pernambuco, principalmente a partir de 1640, houve uma desorganização generalizada no litoral brasileiro, permitindo que muitos escravos fugissem para o interior do país, estabelecendo-se em centenas de quilombos, tendo como consequência o contato ora amistoso, ora hostil, entre africanos e indígenas. Cabe ressaltar, que nunca houve nenhum registro da Capoeira em qualquer quilombo. (Vieira, 2005) [30]. Tende-se a acreditar que o vocábulo, de origem indígena Tupi, tenha servido para designar negros quilombolas como “negros das capoeiras”, posteriormente, como “negros capoeiras” e finalmente apenas como “capoeiras”. Sendo assim, aquilo que antes etimologicamente designava “mato” passou a designar “pessoas” e as atividades destas pessoas, “capoeiragem”. (Vieira, 2005) [31].

Segundo Coelho (1997, p. 5) [32] o termo capoeira é registrado pela primeira vez com a significação de origem linguística portuguesa (1712), não se visualizando qualquer relação com o léxico tupi-guarani. Em 1757 é encontrada primeira associação da palavra capoeira enquanto gaiola grande, significando prisão para guardar malfeitores. (OLIVEIRA, 1971, citado por ARAÚJO, 1997, p. 5)[33].

             Marcos Carneiro de Mendonça[34], em “A Amazônia na era Pombalina”, traz-nos carta de Mendonça Furtado[35] a seu irmão, o Marques de Pombal – datada de 13 de junho de 1757 -, dando conta da desordem acontecida no Arraial do Rio Negro, com as tropas mandadas àquelas paragens, quando da demarcação das fronteiras entre as coroas portuguesa e espanhola.

Afirma que os dois regimentos que foi servido mandar para guarnição eram compostos daquela vilíssima canalha que se costuma mandar para a Índia e para as outras conquistas, por castigo. A maior parte das gentes que para cá era mandada eram ladrões de profissão, assassinos e outros malfeitores semelhantes, que principiavam logo por a terra em perturbação grande:

“[...] que estava uma capoeira cheia desta gente para mandarem para cá [...] sem embargo de tudo, se introduziram na Trafalha, soltando-se só do regimento de Setúbal, nos. 72 ou 73 soldados, conforme nos diz o Tenente-Coronel Luis José Soares Serrão, suprindo-se aquelas peças com estes malfeitores [...] rogo a V. Exa. queira representar a Sua Majestade que, se for servido mandar algumas reclutas (sic), sejam daqueles mesmos homens que Sua majestade, ordenou já que viesse nestes regimentos, e que as tais capoeiras de malfeitores se distribuam por outras partes e não por este Estado que se está criando  [Capitania do Rio Negro] [...]” (p. 300).(grifos do texto).

 Para Vieira (2004)[36]:

“[...] data a Capoeiragem, de 1770, quando para cá andou o Vice-Rei Marques do Lavradio. Dizem eles também que o primeiro capoeira foi um tenente chamado João Moreira, homem rixento, motivo porque o povo lhe apelidou de ‘amotinado’.”


[1] Por metonímia res pro persona, o nome da coisa passou para a pessoa com ela relacionado.

[2] Jorge Bento, citando João Ubaldo Ribeiro, in ARAÚJO, Paulo Coelho de. ABORDAGENS SÓCIO-ANTROPOLÓGICAS DA LUTA/JOGO DA CAPOEIRA. (Porto): Instituto Superior Maia, 1997, p. 7

[3] To: capoeiranaescola@googlegroups.com Cc: fabiano caviquio ; Marcelo ; jeferson batista ramos ; capoeiramestrepop@gmail.com  Sent: Saturday, September 17, 2011 1:04 AM Subject: Chamada na ‘Benguela’

[4]Capoeira é registrada como patrimônio imaterial brasileiro – África 21 – Da Redação – 16/07/2008 – http://www.cultura.gov.br/site/2008/07/16/capoeira-e-registrada-como-patrimonio-imaterial-brasileiro/

[5] CORTE REAL, Márcio Penna. A Capoeira na perspectiva intercultural: questões para a atuação e formação de educadores(as). 2004

[6] VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Capoeira no Maranhão – afinal, o que é Capoeiragem? In

www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=379

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. O que é a Capoeira ? In

www.jornalexpress.com.br/noticias/detalhes.php?id_jornal=13170&id_noticias=675

[7] CORTE REAL, Márcio Penna. A Capoeira na perspectiva intercultural: questões para a atuação e formação de educadores(as). 2004

[8] COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Iluminuras, 1999

[9] IPHAN, Assessoria de Imprensa do Iphan. A capoeira na história. in REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL, Ed. de Julho de 2008, disponível em http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1871

[10]ARAUJO, Paulo Coelho de; JAQUEIRA, Ana Rosa Fachardo. DO JOGO DAS IMAGENS AS IMAGENS DO JOGO – nuances de interpretação iconográfica sobre a Capoeira. Coimbra – Portugal: Centro de Estudos Biocinéticos, 2008.

[11] Johann Moritz Rugendas (Augsburgo, 29 de março de 1802Weilheim, 29 de maio de 1858) pintor alemão que viajou por todo Brasil durante 1822-1825 e pintou povos e costumes. Rugendas era o nome que usava para assinar suas obras. Cursou a Academia de Belas-Artes de Munique, especializando-se na arte do desenho. Pintor de cenas brasileiras, nasceu em Augsburg, em 29 de março de 1802 e faleceu em Weilheim, em 29 de maio de 1858. De família de artistas, integrou a missão do barão de Georg Heinrich von Langsdorff e permaneceu no Brasil três anos. IN http://pt.wikipedia.org/wiki/Rugendas

[12] Mensagem eletrônica De: Javier Rubiera [capoeira.espanha@gmail.com] Enviado em: domingo, 24 de maio de 2009 12:32 Para: leopoldovaz@elo.com.br Assunto: [SPAM] [Sala de Pesquisa - Internacional FICA] 1834-Capoeira de Rugendas

[13] ARAUJO, JAQUEIRA, 2008, obra citada.

[14] Não foram encontradas descrições de Augustus Earle sobre a obra, mas somente, a denominação atribuída à imagem como sendo; “Negros brigando nos Brasil” – (Negros fighting, Brazils). ARAUJO e JAQUEIRA, 2009, p. 80-81

[15] TURAZZI, Maria Inez (org.). Tipos e cenas do Brasil imperial: a Litografia Briggs na Coleção Geyer. Petrópolis: Museu Imperial, 2002.

[16]VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Jornal do Capoeira http://www.capoeira.jex.com.br/, Edição 47: 30 de Outubro à 05 de Novembro  de 2005

LACÉ LOPES, 2007, obra citada.

LACÉ LOPES, 2006, obra citada.

REIS, Letícia Vidor de Sousa. Capoeira, Corpo e História. In JORNAL DA CAPOEIRA, disponível em www.capoeira.jex.com.br, capturado em 14 de abril de 2005, artigo com base na dissertação de mestrado “Negros e brancos no jogo de capoeira: a reinvenção da tradição” (Reis, 1993).

VIEIRA, 2005, obra citada. p. 39-40.

LIMA, Mano. DICIONÁRIO DE CAPOEIRA. 3ª. Ed. Ver. E amp. Brasília: Conhecimento, 2007

ARAUJO; JAQUEIRA, 2008, obra citada.

[17] MARINHO, Inezil Penna. A GINÁSTICA BRASILEIRA. 2 ed. Brasília, Ed. Do Autor, 1982

[18] VIEIRA,, 2005, , obra citada  p. 39-40.

[19] ARAÚJO, 1997 , obra citada..

[20] CAMARA CASCUDO, Luis da. DICIONÁRIO DO FOLCLORE BRASILEIRO. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1972.

[21] VAZ, Leopoldo Gil Dulcio Vaz. A CARIOCA. in BOLETIM DO IHGM, no. 31, novembro de 2009, edição eletrônica em CD-R (pré-print).

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio Vaz. A Guarda Negra. Palestra proferida no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão em agosto de 2009, publicado no BOLETIM DO IHGM, no. 31, novembro de 2009, edição eletrônica em CD-R (pré-print).

[22] DaCOSTA, 2006, , obra citada. p. 1.44-1.45. Disponível em www.atlasesportebrasil.org.br

[23] IPHAN, Assessoria de Imprensa do Iphan. A capoeira na história. in REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL, Ed. de Julho de 2008, disponível em

 http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1871

[24] VAZ, 2009, , obra citada..

VAZ, 2009, , obra citada.

[25] Jorge Leal Amado de Faria (Itabuna, 10 de agosto de 1912Salvador, 6 de agosto de 2001) foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos.Ele é o autor mais adaptado da televisão brasileira, verdadeiros sucessos como Tieta do Agreste, Gabriela, Cravo e Canela e Teresa Batista Cansada de Guerra são criações suas, além de Dona Flor e Seus Dois Maridos e Tenda dos Milagres.2 A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba por todo o Brasil. Seus livros foram traduzidos em 55 países, em 49 idiomas,3 existindo também exemplares em braille e em fitas gravadas para cegos.  Amado foi superado, em número de vendas, apenas por Paulo Coelho mas, em seu estilo – o romance ficcional -, não há paralelo no Brasil. Em 1994 viu sua obra ser reconhecida com o Prêmio Camões. http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Amado

[26] Carybé, nome artístico de Hector Julio Páride Bernabó (Lanús, 7 de fevereiro de 1911Salvador, 2 de outubro de 1997), foi um pintor, gravador, desenhista, ilustrador, ceramista, escultor, muralista, pesquisador, historiador e jornalista argentino, brasileiro naturalizado e residente no Brasil desde 1949 até sua morte. http://pt.wikipedia.org/wiki/Caryb%C3%A9   

[27] Pierre Edouard Leopold Verger (Paris, 4 de novembro de 1902Salvador, 11 de fevereiro de 1996) foi um fotógrafo e etnólogo autodidata franco-brasileiro. Assumiu o nome religioso Fatumbi. Era também babalawo (sacerdote Yoruba) que dedicou a maior parte de sua vida ao estudo da diáspora africana – o comércio de escravo, as religiões afro-derivadas do novo mundo, e os fluxos culturais e econômicos resultando de e para a África. Após a idade de 30 anos, depois de perder a família, Pierre Verger exerceu a carreira de fotógrafo jornalístico. A fotografia em preto e branco era sua especialidade. Usava uma máquina Rolleiflex que hoje se encontra na Fundação Pierre Verger. Durante os quinze anos seguintes, ele viajou os quatro continentes e documentou muitas civilizações que logo seriam apagadas através do progresso. Na cidade de Salvador, apaixonou-se pelo lugar e pelas pessoas, e decidiu por bem ficar. Tendo se interessado pela história e cultura local, ele virou de fotógrafo errante a investigador da diáspora africana nas Américas. Em 1949, em Ouidah, teve acesso a um importante testemunho sobre o tráfico clandestino de escravos para a Bahia: as cartas comerciais de José Francisco do Santos, escritas no século XIX. http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Verger.

[28] VIEIRA, Luiz Renato; ASSUNÇÃO, Mathias Röhring. Mitos, controvérsias e fatos: construindo a história da capoeira. In ESTUDOS AFRO-ASIÁTICOS, 34, dezembro de 1998, p. 82-118

[29] MARINHO, 1982, obra citada

VIEIRA, Sérgio Luis de Sousa. Capoeira – origem e história. Da Capoeira: Como Patrimônio Cultural. PUC/SP – Tese de Doutorado – 2004. disponível em http://www.capoeira-fica.org/.

VIEIRA, 2005, obra citad  p. 39-40.

[30] VIEIRA, 2005, obra citada p. 39-40.

[31] VIEIRA, 2005, obra citada p. 39-40.

[32] ARAÚJO, 1997, obra citada.

[33] ARAÚJO, 1997, obra citada

[34] MENDONÇA, Marcos Carneiro de. A Amazonia na era pombalina. Tomo III. Brasilia: Senado Federal, 2005, volume 49-C.

[36] VIEIRA, 2004, obra citada. Disponível em http://www.capoeira-fica.org/ .

 

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CRONICA DA CAPOEIRAGEM – O QUE É A CAPOEIRA?

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O QUE É A CAPOEIRA?

 

Aqui, no Maranhão, há uma discussão por parte dos Capoeiras – Angolas e Regionais – se a Capoeira é cultura ou esporte. Os Angolas a querem como cultura – fazem parte da cultura corporal do povo maranhense, e suas apresentações – rodas – devem fazer parte do calendário da Secretaria de Cultura e inseridas nos diversos eventos culturais, inclusive com acesso às verbas e subsídios para esse fim; os Regionais querem-na como Luta, e disputada em Torneios e Campeonatos de Capoeira – roda -, além de – já incluída – nos Jogos Escolares Maranhenses; também reivindicam acesso às verbas da Cultura, além das do Esporte…

Se – e não estou defendendo o Sistema Confef/Cref – for “praticadas com características desportivas e/ou  com o cunho de exercícios, na busca de condicionamento físico então é atividade de Educação Física…” E os seus profissionais devem estar sujeitos às formas da Lei.[1].

E isso vai depender de qual definição para “Capoeira” se adota. Dependendo dela é que se vai caracterizar a CAPOEIRA… 

a) “Desporto de Criação Nacional, surgido no Brasil e como tal integrante do patrimônio cultural do povo brasileiro, legado histórico de sua formação e colonização, fruto do encontro das culturas indígena, portuguesa e africana, devendo ser protegida e incentivada”. Federação Internacional de Capoeira – FICA[2]

b) “um jogo de destreza corporal, com uso de pernas, braços e cabeça, praticado em duplas, baseado em ataques, esquivas e insinuações, ao som de cânticos e instrumentos musicais (berimbau, atabaque, agogô e reco-reco). Enfocado em sua origem como dança-luta acabou gerando desdobramentos e possibilidades de emprego como: ginásticas, dança, esporte, arte marcial, folclore, recreação e teatro, caracterizando-se, de modo geral, como uma atividade lúdica”. (VIEIRA, 2005).[3]

 A “regulamentação” da Capoeira como atividade física – portanto passível de profissionalização – dá-se nas primeiras décadas do século passado.  Segundo Reis (2005) [4] foram nos anos 30 e 40, em Salvador, que se abriram as primeiras “academias” com licença oficial para o ensino da capoeira como uma prática esportiva. Destacando-se dois mestres baianos negros e originários das camadas pobres da cidade, Bimba e Pastinha.

            Mestre Bimba, criador da capoeira Regional Baiana, não verá nenhum inconveniente em “mestiçar” essa luta, incorporando à mesma movimentos de lutas ocidentais e orientais (tais como Box, catch, savate, jiu-jítsu e luta greco-romana).

Por outro lado Pastinha, contemporâneo de Bimba e igualmente empenhado na legitimação dessa prática, reagindo àquela “mestiçagem” da capoeira, afirmando a “pureza africana” da luta, difundindo o estilo da capoeira Angola e procurando distingui-lo da Regional.

            Para Reis (2005), Bimba e Pastinha elaboraram, através da capoeira, estratégias simbólicas e políticas diferenciadas que visavam em última instância, ampliar o espaço político dos negros na sociedade brasileira e propõem dois caminhos possíveis para a inserção social dos negros naquele momento histórico[5]:

A capoeira “mestiça” representada pela capoeira Regional. Embora incorpore elementos de lutas ocidentais, a capoeira Regional guarda elementos que reafirmam a identidade étnica negra nas músicas, nos toques do berimbau e nos próprios movimentos que, conforme depoimento de mestre Bimba são provenientes também do batuque e do maculelê (Rego, 1968:33). Assim, a capoeira Regional, ao colocar em contato sistemas de valores distintos e, portanto, construções corporais distintas (os movimentos corporais brancos e os negros), opera uma mediação, criando um campo simbólico ambíguo e ambivalente: (a) A capoeira Regional seria uma afirmação de identidade que é mais ampla que a da capoeira Angola pois afirma não a existência do negro excluído da sociedade branca mas sua presença enquanto parte da sociedade brasileira e, finalmente, enquanto símbolo da nação como um todo. (b) tem no ecletismo de que faz prova (por exemplo, a incorporação de elementos de outras formas de luta e a nova racionalidade na maximização dos efeitos dos golpes) um elemento de dinamismo que permite a construção de uma nova presença negra no cenário nacional. (c) tem um preço a pagar por tudo isso, no plano político, que significa renunciar à afirmação de uma diferença na “identidade negra”.

“A capoeira Angola, em contrapartida: (a) a capoeira “pura”, como forma inequívoca de afirmação da identidade étnica. A capoeira Angola, em sua própria designação, reafirma peremptoriamente sua origem étnica e, ao “conservar” a construção corporal negra, demarca uma forma culturalmente distinta de jogar capoeira. (b) existindo como resistência no momento de inclusão do negro na sociedade brasileira, só é revalorizada como reafirmação dessa mesma resistência em função da recuperação de uma “identidade negra” específica no cenário nacional, no bojo da construção política (contemporânea) de uma “consciência negra”. (c) essa construção só se torna possível a partir de uma postura “conservadora”, que reinventa a tradição e só se mantém com a recuperação simultânea dos outros elementos que, no plano simbólico, organizam essa “visão de mundo negra” (como por exemplo, a afirmação da origem africana da capoeira a partir do ritual de iniciação denominado dança da zebra ou “N’Golo”).

 Taffarel (2004) [6] levanta como possibilidade histórica a responsabilidade social dos capoeiristas – enquanto produtores associados, intelectuais orgânicos –-, na construção de uma nova cultura – a cultura socialista -, o que exige rigorosa consideração da teoria do conhecimento e teoria pedagógica que subsidia, constrói e consolida a práxis capoeirana, responsável também pela sociabilização da classe trabalhadora.

A Autora traz como dados empíricos da inserção da capoeira em tais complexos econômicos – empresariamento, mercadorização, esportivização, espetacularização, privatização da capoeira – as discussão sobre produção do conhecimento, formação de mestres e professores, políticas públicas e sobre ética e violência, exemplificando a ação do sistema CREF/CONFEF interferindo na cultura e na economia popular contribuindo para a destruição das forças produtivas. Afirma a ilustre Professora-Doutora em Educação Física, manifestando sua contrariedade pela perda que a mercantilização da capoeira representa para os valores culturais da própria Humanidade, justificando sua fala:

“Para contribuir com a reflexão da temática proposta neste ano “Capoeira a Serviço do Social ou do Capital?” apresentei o tema CAPOEIRA E PROJETO HISTÓRICO expondo dados da realidade sobre a destruição das forças produtivas, enquanto tendência do modo do capital organizar a vida e suas expressões na capoeiragem. Levantei a tese de que a capoeira está em franca degeneração e decomposição de seus valores genuínos  – capoeira patrimônio da humanidade – quando subsumida ao modo do capital de produzir mercadorias para usá-las e trocá-las em relações capitalísticas. Procurei demonstrar que as abordagens da questão da capoeira centradas na ética, na ciência, na educação, na compreensão de cultura popular e, na normatização/monitorização  reguladas pelo Mercado, pelo Estado e Comunitária são limitadas quando desprovidas da referencia de um projeto histórico explicito, superador do modo do capital organizar a produção – uso e troca de mercadorias.”.

 Essa Autora levanta algumas teses, com base na economia política, para poder compreender as relações estabelecidas no âmbito da cultura e o processo atual de destruição, decomposição e degeneração da capoeira (primeira hipótese); A segunda hipótese que a Autora levanta é a da destruição das forças produtivas – trabalho, trabalhador, meio ambiente, cultura – dentro do que se localiza a destruição, degeneração, decomposição da capoeira, enquanto uma produção social, historicamente acumulada. A terceira hipótese, é que a maioria dos estudos sobre capoeira faz referência à ética em uma sociedade contraditória e altamente violenta, recorrência esta que necessita ser questionada porque desarticulada do projeto histórico alternativo ao modelo do capital. A quarta hipótese, é de que uma nova cultura capoeirana, uma genuína práxis capoeirana, exige sintonia com uma novo projeto histórico e será reconhecida na organização do trabalho pedagógico de construção da cultura, com nexos e implicações em uma dada teoria do conhecimento e teoria pedagógica e em um projeto histórico superador do projeto capitalista.

Outro autor, Hajime Nosaki (2004) [7], ao tratar das relações de trabalho no campo profissional da Educação Física, dentro do Sistema CONFEF/CREF apresenta elementos acerca do reordenamento do trabalho do professor de educação física, da regulamentação da profissão e da disputa de projetos históricos. A Regulamentação da profissão veio para “regulamentar a terra de ninguém”. Isto significou que o ensino de todas as praticas corporais, entre as quais a capoeira, passou a ser exclusividade de quem tem a carteira do CONFEF. Ou seja, o desenvolvimento de um relevante bem social, a capoeira, passa a ser propriedade privada da educação física.

Com base na analise do mundo do trabalho são apresentados elementos mediadores entre o movimento mais geral do capital e a especificidade do trabalho na educação física e particularmente a questão da regulamentação da profissão, exigência do mercado do trabalho e, portanto, do capital e sua estratégia de reordenamento para manutenção da hegemonia. São apresentados dados concretos sobre o Conselho Federal de Educação Física, resgatando-se elementos históricos desde as primeiras intenções presentes nas Associações de Professores até a legalização dos Conselhos pela aprovação da Lei 9696/98 que encontrou sua base de sustentação na Lei 9649/98 – principalmente em seu artigo 58 que transforma conselhos profissionais em entidades privadas. Hajime nos apresenta dados sobre a ingerência de tais conselhos juntos aos trabalhadores de educação física, aos trabalhadores de outras áreas, tanto na formação quanto na qualificação. A ação inibidora do Sistema CREF/CONFEF está contribuindo para atacar a cultura e destruí-la, tornando a ação de construção da cultura um monopólio exclusivo de professores de educação física. Isto diz respeito à reserva de mercado. Com isto somem culturas, trabalho, trabalhador.

Engels (1977) [8] em “Do socialismo utópico ao socialismo cientifico” (pg.19) já afirmava:

“Quando nos detemos a pensar sobre a natureza, ou sobre a história humana, ou sobre a nossa própria ati­vidade espiritual, deparamo-nos, em primeiro plano, com a imagem de uma trama infinita de concatenações e in­fluências recíprocas, em que nada permanece o que era, nem como e onde era, mas tudo se move e se transforma nasce e morre.”.

 A isto está sujeita a capoeira, enquanto pratica, conhecimento, profissão, formação, mercadoria.

Como Taffarel (2004), aceitamos que a capoeira é um dos fenômenos sócio-culturais da alta relevância no Brasil e constitui o processo civilizatório[9], e que hoje: “… está situado dentro da divisão social internacional do trabalho e portanto, neste momento histórico sofre também o processo de degeneração, decomposição e destruição.” 

Isto é visível quando observamos o empresariamento da capoeira internacionalmente – no sistema de franquias. A mercadorização da capoeira, vista nos empórios e centros turísticos, a espetacularização da capoeira visita na mídia e nos fantasiosos espetáculos. Na esportivização da capoeira, na construção de confederações, federações com finalidades competitivas, necessidade imperiosa do capital.

O que é a Capoeira? Um PRODUTO CULTURAL ou uma MERCADORIA?


[1] PL 7.370/2002 – substitutivo que estabelecia que “Não estão sujeitos à fiscalização dos Conselhos previstos nesta lei os profissionais de dança, capoeira, artes marciais, ioga e método pilates, seus instrutores e academias”. O substitutivo da deputada Alice Portugal aprovado por unanimidade na Comissão de Educação e Cultura  acrescia :” for “praticadas com características desportivas e/ou  com o cunho de exercícios, na busca de condicionamento físico então é atividade de Educação Física … E os seus profissionais devem estar sujeitos às formas da Lei.”; o projeto foi encaminhado à Comissão de Turismo e Desporto, onde o deputado Josué Bengtson (PTB-PA) foi designado relator. 

[2] Aprovados em Assembléia Geral de fundação da Federação Internacional de Capoeira – FICA – ocorrida por ocasião do I Congresso Técnico Internacional de Capoeira, realizado nos dias 03, 04, 05 e 06 de junho de 1999 na Cidade de São Paulo, SP, Brasil, revisados na Assembléia Geral Extraordinária ocorrida na Cidade de Lisboa, Portugal, em 02 de julho de 2001 e pelo II Congresso Técnico Internacional de Capoeira, realizado na Cidade de Vitória, ES, Brasil, nos dias 15, 16 e 17 de novembro de 2001

[3] VIEIRA, Sérgio Luiz de Souza. Capoeira. in PEREIRA DA COSTA, Lamartine (org.). ATLAS DE ESPORTES NO BRASIL. Rio de Janeiro : Shape, 2005, p. 39-40.

[4] REIS, Letícia Vidor de Sousa. Capoeira, Corpo e História. In JORNAL DA CAPOEIRA, disponível em www.capoeira.jex.com.br, capturado em 14 de abril de 2005, artigo com base na dissertação de mestrado “Negros e brancos no jogo de capoeira: a reinvenção da tradição” (Reis, 1993).

[5]In JORNAL DA CAPOEIRA, disponível em www.capoeira.jex.com.br, capturado em 14 de abril de 2005. Grifos meus).

[6] TAFFAREL, Celi Zulke. Capoeira e projeto histórico. In VI SIMPÓSIO NACIONAL UNIVERSITÁRIO DE CAPOEIRA – VI SNUC, Florianópolis-SC – 12, 13 e 14 de novembro 2004, Universidade Federal de Santa Catarina – Temática do evento: Capoeira a Serviço do Social ou do Capital!?

[7] NOZAKY, Hajime. EDUCAÇÃO FÍSICA E REORDENAMENTO NO MUNDO DO TRABALHO: MEDIAÇÕES DA REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO. Tese Doutorado. Universidade Federal Fluminense, 2004.

[8] ENGELS, Friedrich.  Do socialismo utópico ao socialismo cientifico. In MARX, Karl; ENGELS, Friedrich TEXTOS. São Paulo: Edições Sociais, 1977, 6-60. Vol. 1.

[9] ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. DEPORTE Y OCIO EM EL PROCESO DE LA CIVILIZACION. México: Fundo de Cultura Econômica, 1992

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