APRESENTAÇÃO DE ANDRÉ LACÉ A MEU LIVRO SOBRE CAPOEIRA…

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A FASCINANTE ARTE AFRO-BRASILEIRA DA CAPOEIRAGEM – CURSO-LIVRO – LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ

São Luiz, Maranhão – 6 de agosto de 2014

Apresentação André Luiz Lacé Lopes *

Quilombo do Leblon, 2014

 

Somos conterrâneos do Paraná, eu e Mestre Leopoldo Vaz. Saí de Curitiba, bem criança, fui morar em Fortaleza e, logo depois, viajei para o Rio de Janeiro, onde moro até hoje, com duas longas estadas nos Estados Unidos e constantes viagens.

 

Leopoldo Vaz fez também peregrinação parecida, saindo, embora não tão cedo quanto eu, de Curitiba para o Maranhão.

 

Pronto, temos aí a base para excelente tese doutoral provando e comprovando a tendência nômade de um verdadeiro capoeira.

 

Longas décadas atrás escrevi sobre o tema comparando o capoeira com o “bluseiro” afro-americano, tocador de banjo ou gaita, cantador de blues que saía pelos Estados Unidos, sem rumos, sem endereço, posto que sua verdadeira terra era a África. O capoeira não ficaria atrás, como se pode verificar pelas andanças de vários mestres pelo mundo afora. Tem mais, o “bluseiro” tinha a sua lenda de pacto místico na estrada, garantindo para si extraordinária performance; na Capoeira também temos o “corpo fechado”, o nego mandingueiro. E por aí vai.

 

Onde quero chegar? Muito simples, 3, 4 décadas atrás, muito pouco havia-se publicado sobre a fascinante Arte da Capoeiragem, basicamente, o que existia saía do Rio de Janeiro, então capital federal e corria o Brasil inteiro. Durante muito tempo o Rio foi o grande modelo para o resto do país, como ocorre com toda capital federal.

 

De repente, não mais do que de repente, começaram a proliferar dezenas, centenas de livros sobre o assunto, quase todos professorando, eram e continuam sendo os donos da verdade.

 

“Causos” foram transformados em verdade verdadeira; manchetes de jornais foram apagadas, outras adulteradas ao bel prazer do “pesquisador” de plantão, verdadeiras penas de aluguel.

 

Cristalizou-se, então, grande fantasia como a versão oficial, consagrando longo processo de embranquecimento e aburguesamento da capoeiragem. Processo, diga-se de passagem, já detectável na própria África, especialmente na triste fase dos navios tumbeiros, mas que foi marcantemente acentuado durante os períodos Vargas, onde a liderança negra ou era captada ou era perseguida. Deste processo surgiu uma nova capoeira, que não era barro nem tijolo, não era folclore autêntico, muito menos luta eficaz, mas juravam que era.

 

Dezenas de livros passaram a ser escritos, dezenas de congressos passaram a ser realizados, alardeando essa verdade mentirosa, falseando-se datas e inventando-se teorias.

 

Mais do que nunca fortaleceu-se o capoeira chapa-branca, contraditoriamente vangloriando-se de que a capoeira estava no mundo todo (o que significaria rico mercado para todo mestre) e, ao mesmo tempo, exigindo dos governos todo tipo de ajuda possível, até mesmo uma mesada para todos.

 

Após mais de 20 anos vivendo dessa fantasia começaram a surgir, com mais intensidade, pesquisadores realmente isentos, admiradores da capoeira, mas não ao ponto de negar registros históricos reveladores. Além disso, tais pesquisadores trataram de mergulhar mais nas origens da capoeira.

 

Desses bons pesquisadores, sintomaticamente, a maioria ou é estrangeira ou são brasileiros oriundos de outras áreas (Artes Marciais em geral, jornalistas, professores de educação física etc.). Bom exemplo de “estrangeirismo é o jovem holandês Jeruen Verheul, psicólogo, mais conhecido no mundo da capoeiragem como Professor Rouxinol.

 

Bom exemplo de pesquisador não-capoeira (embora tenha noção prática) é o Professor Leopoldo Gil Dulcio Vaz. Ou melhor, da família-equipe Leopoldo Vaz, uma vez que a sua esposa, Professora Delzuite Dantas Brito Vaz vem publicando excelentes estudos como o ensaio “Introdução ao Esporte Moderno”; da mesma forma, sua filha Loreta Brito Vaz, economista, cuja monografia final do seu curso superior girou sobre o tema “O Esporte e as Atividades Fiscais como geradores de Renda: A Capoeira em São Luís do Maranhão, estudo de caso” (Universidade Federal do Maranhão).

 

Leopoldo Vaz há longas décadas vem sacudindo a mesmice marqueteira imposta por algumas vestais da capoeira.

 

Respeitosamente sem críticas contundentes, apenas demonstrando que a verdadeira História da capoeira é imensamente mais rica e poderosa do que as versões “prêt-à-porter” que empacotaram para fins de exportação comercial. Daí a excelência de suas pesquisas, artigos e “papers” em geral sobre a Punga, o Moringue, o Chaussson, sobre o grande mestre Artur Emídio de Oliveira (que não era nem Angola nem Regional, foi apenas e simplesmente um exímio capoeira…).

 

Resumindo e terminando, para não abusar do honroso e prazeroso convite que me foi dado para escrever esta Apresentação, afirmo que seria formidável se todos mestres, contramestres e pesquisadores assistissem ao Curso que brevemente será realizado com o Professor Leopoldo Vaz à frente. Mas, na impossibilidade de participar do curso, a leitura do livro feito para o Curso e aprimorado ao longo dele, será missão obrigatória para todo aquele que realmente admira e respeita a extraordinária arte afrobrasileira da Capoeiragem.

 

* André Luiz Lacé Lopes Jornalista e Administrador, com Mestrado em Administração Pública (1970) pela Universidade de Syracuse, New York, USA. Sete livros publicados até agora, sendo quatro sobre Capoeiragem, sobre a qual já escreveu mais de quatrocentas crônicas e artigos publicados no Brasil e no exterior. Entre vários cargos e funções exercidos foi assessor e professor do Instituto Brasileiro de Administração Municipal, Superintendente Administrativo do Clube de Regatas do Flamengo, Diretor da Oficina de Assuntos da Juventude, da Organização dos Estados Americanos (OEA, Washington, D.C.), diretorpresidente da Adplan Juvesporte, consultor da Fundação Roberto Marinho (Área Esportiva) e Chefe de Gabinete da Secretaria Estadual de Esporte do Rio de Janeiro. Alguns prêmios na área da literatura.

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VIVÊNCIA COM MESTRE PATINHO – 28 e 29 de maio em Barra do Corda

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VIVÊNCIA COM MESTRE PATINHO
Nos dias 28 e 29 de maio estará em Barra do Corda, Antônio da Conceição Ramos, o Mestre Patinho. Ele é um dos Mestres de Capoeira mais antigo do Maranhão e fará uma Vivência de Capoeira Angola com capoeiras cordinos. A iniciativa é do Trabalho Educacional Ação Roda Mundo da Secretaria Municipal de Educação, do GABA Capoeira Angola e do Projeto Hobin Hood/ Grão Capoeira Angola, da Associação Santa Vitória, todos coordenados pelo Professor Irapuru.

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Foto de Irapuru Iru.
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Projeto de Lei (PLS 17/2014) que reconhece o caráter educacional da capoeira é aprovado

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A Comissão de Educação aprovou agora há pouco um projeto de Lei (PLS 17/2014) que reconhece o caráter educacional da capoeira e permite que a modalidade seja praticada nas escolas como manifestação cultural.
O Brasil e o mundo já reconhecem a importância da capoeira para a cultura, o esporte e a inclusão, agora reconhecemos seu valor educacional. Este reconhecimento do parlamento é importantíssimo, porque permite a contratação de mestres de capoeira diretamente, pessoas que aprenderam o esporte por ancestralidade, sem frequentar cursos. O relator Otto Alencar fez uma defesa apaixonada do projeto. Ele nos contou a história da capoeira, iniciada como uma técnica de defesa dos negros. Em seguida, ele me presenteou com um berimbau e encantou a todos tocando o instrumento e descrevendo os versos da Ladainha da Libertação. “Bimba dizia que a pior dor do negro, na Bahia, não foi só ter apanhado no pelourinho e ter lutado para se libertar. A pior dor do negro é ter chegado aonde ele chegou, em 1970, e não ter tido a oportunidade de se educar”.
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EM DEFESA DE UMA CAPOEIRA LIVRE… Mestre Haickel

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A Capoeira em São Luís, no Maranhão, no Brasil e, por conseguinte, no mundo, está passando por mais uma das muitas provações, ao longo de sua história! Não é que uns “iluminados” de São Paulo, devidamente vinculados a partidos políticos querem retirar de nossa Arte Guerreira o seu caráter de ofício, e com isso dar as costas aos saberes ancestrais oriundos do seio do povo brasileiro, para torná-la uma profissão?!
Tal ideia, que se encontra materializada em um projeto de lei na Câmara Federal, uma vez exitosa, essa tal regulamentação e profissionalização da Capoeira fará com que os saberes, ofícios e fazeres, ancestralmente passados e repassados por gente do povo, sejam sistematizados e “adaptados” aos moldes do pensamento europeu, pois ao tornarem-se conhecimentos deverão ser adquiridos como em qualquer outra profissão, através de instituições de ensino médio, técnico ou superior, enclausurando-a e tornando-a excludente, definitivamente, pois não sendo mais ofício, já não será mais manifestação popular e, para ensiná-la, haverá de se passar por instituições de ensino devidamente “credenciadas” para tanto, bem como, por meio de professores, os quais nunca vivenciaram o dia-a-dia do que seja adquirir e repassar um saber ancestral, bem como as nuances que tal convivência com um mestre da cultura popular implica. 
Esses professores oriundos de estabelecimentos institucionalizados para o ensino da Capoeira, certamente, nunca haverão de saber ensinar aos seus alunos, a hora de entrar e sair de um ambiente hostil, portanto, incorrendo facilmente em perigos de levarem seus “alunos/as” para um samba-lêlê, onde madeira de dá em doido pode descer até quebrar. Ahh, desculpem-me, lembrei que em tais circunstâncias, a Capoeira já não fará mais parte desses ambientes do povo e do populacho, pois estará segura e resguardada nos salões finos das elites. Por isso, não há com que se preocupar com o fato dos “mestres” não saberem fazer leituras, as quais, só o popular sabe fazê-las! 
E na sequencia de elementos hostis à Capoeira, na medida em que venha se tornar profissão requererá a criação de órgão que a regule, a exemplo da advocacia, engenharia, medicina, etc. Em que pese a força de tal órgão regulador será esse quem ditará as regras retirando a autoridade ancestral dos mestres, cujos saberes irão sucumbir com os mesmos, tendo em vista que será a universidade o gerador de tais conhecimentos e, por conseguinte, quem terá o poder de habilitar os futuros “mestres” de Capoeira.
No entanto, em oposição forte e ferrenha no Brasil inteiro, bem como no exterior, em contraponto a todas essas manobras de enclausuramento e elitização da Capoeira, em que milhares de milhares de capoeiras indignados e não dispostos a fazer prevalecer atos tão ignominiosos estão se articulando para simultaneamente fazerem eventos de repúdio a tais congressos.
Os organizadores desses ditos congressos, sabemos, possuem uma estrutura que implica em muito dinheiro para transporte, alimentação, material didático e até hospedagem de inúmeros capoeiras que estão trazendo para cada uma das capitais dos 27 estados da Federação, com o fito de promover durante dois dias, esses tais congressos. Diremos não a esses atos vis e, de forma pacífica promoveremos, na Praça João Lisboa, a partir das 17h de sexta-feira, 08, um ato de repúdio e de esclarecimento aos capoeiras, da Ilha e do interior do estado. 
Vale ressaltar, que o simples ato de ir a esse congresso, ser fotografado, assinar folha de presença ou se credenciar, independente de quem seja contra, a favor, ou apenas curioso, estará legitimando esse movimento que trai as bases formadoras da nossa Arte Guerreira, pois no fundo, os seus líderes só desejam se apropriar da Capoeira, para dominá-la e enclausurar seus praticantes, dentro de sindicatos ou outras representações que não se coadunam com as manifestações populares. 
Que os/as capoeira pensem bem, em cada movimento que irão fazer, pois a rasteira que nos querem dá pode nos levar a um terrível tombo.

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Instrutor de capoeira não precisa ser profissional de educação física

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Instrutor de capoeira não precisa ser profissional de educação física

A Quarta Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) manteve decisão da 22ª Vara Federal que assegurou a um instrutor de capoeira o direito de exercer sua atividade independentemente de matrícula em curso de nivelamento.


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A Quarta Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) manteve decisão da 22ª Vara Federal que assegurou a um instrutor de capoeira o direito de exercer sua atividade independentemente de matrícula em curso de nivelamento.

O Conselho Regional de Educação Física do Estado de São Paulo (CREF4) alegava que a atividade em questão compreende as atividades próprias do profissional de educação física, com base no artigo 3º da Lei nº 9.696/98, e que qualquer treinamento na área de desporto deve ser ministrado por este profissional.

Afirmou ainda que a Resolução nº 07/2004 do Conselho Nacional de Educação dispõe que luta e artes marciais compreendem atividades próprias do profissional de educação física, e que, nos termos da Resolução CONFEF Nº 45/02, há necessidade de frequência pelo impetrante a curso de Introdução à Educação Física e Caracterização da Profissão para o exercício profissional.

A desembargadora federal Alda Basto, relatora do acórdão, declarou que a Lei nº 9.696/98 não alcança os instrutores de capoeira, cuja orientação tem por base a transferência de conhecimento tático e técnico da referida luta e cuja atividade não possui relação com a preparação física do atleta profissional ou amador, como tampouco exige que eles sejam inscritos no Conselho Regional de Educação Física.

“Dessa forma, qualquer ato infralegal no sentido de exigir a frequência a curso de nivelamento como condição para obter registro no indigitado Conselho Profissional para poder exercer sua atividade profissional padece de ilegalidade”, afirmou a desembargadora.

Ela citou ainda precedentes dos tribunais superiores: “Quanto aos artigos 1º e 3º da Lei nº 9.696/1998, não se verificam as alegadas violações, porquanto não há neles comando normativo que obrigue a inscrição dos professores e mestres de danças, ioga e artes marciais (karatê, judô, tae-kwon-do, kickboxing, jiu-jitsu, capoeira etc) nos Conselhos de Educação Física, porquanto, à luz do que dispõe o art. 3º da Lei n. 9.696/1998, essas atividades não são caracterizadas como próprias dos profissionais de educação física”. (STJ – Resp 1012692/RS).

A desembargadora federal também explicou que o próprio TRF3 já havia decidido caso semelhante: “Os artigos iniciais da Lei nº 9.696/98 preveem quais são as atividades em que persiste a obrigatoriedade de inscrição junto ao Conselho. Equivocado o entendimento no sentido de que todas as atividades que envolvam exercícios práticos corporais devam ser fiscalizadas pelo CREF. Os denominados cursos livres, ou seja, aqueles não submetidos às dizeres da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n. 9.394/96), estão fora do âmbito de atuação privativa do profissional de educação física.”. (TRF3 – AC 200961000150920)

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EM DEFESA DA CAPOEIRAGEM – by Mestre Marco Aurélio

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Peço licença ao capoeira e pesquisador, Paulo Magalhães, para compartilhar o seu excelente e esclarecedor texto/denúncia, para que amigo/as em geral, e, em particular, o/as capoeiras, tenham noção de como se subverte valores. Ainda bem que a Capoeira foi alçada Patrimônio Cultural Imaterial do Povo Brasileiro, de tal forma, que por mais que espertalhões venham a manobrar e disso lhe tirar proveito, não conseguirão torná-la nicho único de suas pretensões.


Na condição de artista popular – capoeira, tambozeiro e dançarino – militante do Movimento Cultural, conselheiro municipal de cultura de São Luís/MA e advogado popular, me sinto impelido a me manifestar, no que faço uso do texto de Paulo, com a pretensão de que o mesmo sirva de esclarecimento, para que pessoas de boa-fé, tolamente, não venham se aliar aos discursos ilusórios daqueles, para juntos comporem lobbies, com vistas a pressionar membros do Congresso Nacional, a encaminharem “projetos de lei” visando, unicamente, reservas de mercado, a exemplo do que pretendeu e não logrou êxito há um tempo atrás, o Conselho Federal de Educação Física, ao pretender encampar a nossa Arte, a fim de ditar normas com vistas a quem seria capacitado a dar aulas de Capoeira, como se a mesma não fosse arte e cultura popular, e assim, do seio do povo, portanto, livre, para quem dela queira beber nas suas mais diversas fontes e seguir pelo seu mundo mágico, de ensino/aprendizagem.


Por outro lado, é certo que tais projetos, uma vez tornando-se leis, tais agrupamentos – travestidos da legalidade – poderão angariar recursos federais, estaduais e municipais. E o pior, é que pela maneira como segue a carruagem neste país, frente à degradação ética e moral por qual passa imensa gama de autoridades fincadas nos três poderes, não faltarão instituições a apoiá-los liberando recursos públicos, em detrimento de políticas públicas capazes de alcançar uma grande maioria de praticantes, entre crianças e jovens que vivem nos confins urbanos e rurais e têm na Capoeira momentos de cultura, lazer, diversão e camaradagem, ao mesmo tempo que lhes serve de bastião livrando-os de viverem à margem da lei.


É com esse intuito, que chamo a atenção de amigo/as, lideranças capoeiras de São Luís, para que tenham cuidado e não se deixem levar por conversas fáceis, servindo unicamente de massa de manobra, a apoiarem atos que vão contra os interesses reais da Capoeira e de todo/as o/as capoeiras.


Falo, não na condição de angoleiro, mas, sobretudo, de capoeira, uma vez que em São Luís do Maranhão existem laços fraternos, indistintamente, entre angoleiros, regionaleiros e demais estilos de prática da Capoeira, os quais vêm se unindo há muito tempo, na busca de melhores condições e políticas públicas para a nossa Arte, muito embora soframos com a visão tacanha de autoridades que não conseguem vislumbrar o conteúdo e o alcance pedagógico da Capoeira.


Abaixo, o texto de Paulo Magalhães, para ler e refletir:


“Mais uma tentativa de nos acorrentar.”


Vale a pena ler cada linha… Paulo Magalhães (Sem Terra)

O Painel do Senado promovido pela Senadora Lídice da Mata no dia 6 de dezembro de 2013 em Salvador se constituiu em um palco privilegiado para mais um grito de resistência da capoeira baiana, que já havia se pronunciado no dia 25 de outubro no Forte Santo Antônio. Tema? O projeto de lei que regulamenta a profissão de capoeirista e vem provocando polêmicas e protestos indignados por todo o país.


Na verdade, o debate se dá em torno de três versões distintas de um mesmo projeto. O Projeto de Lei 31/2009, do deputado Arnaldo Faria de Sá, abre esse debate. Trata-se de um projeto fraco e vago, com apenas dois artigos. Um reconhece a prática da capoeira como “profissão, na sua manifestação como dança, competição ou luta”, mas o outro diz respeito apenas ao atleta profissional, definido como “o capoeirista cuja atividade consista na participação em eventos públicos ou privados de capoeira mediante remuneração”. Ou seja, o projeto, apesar de vago e mal escrito, já deixa entrever do que trata essa articulação: uma institucionalização da capoeira através do segmento capoeira-esporte e seus “atletas profissionais”. O PL está aqui: http://legis.senado.leg.br/mate…/arquivos/mate-pdf/56450.pdf


O PL 2858/2008, do deputado Carlos Zarattini (que foi/está sendo apensado ao primeiro), avança em detalhamento, e mostra claramente o ataque absurdo que está sendo tramado contra a capoeira. Primeiro ele reconhece a atividade de capoeirista, afirmando que “aplica-se a todas as modalidades em que a capoeira se manifesta, seja como esporte, luta, dança, cultura popular e música”. Depois escreve bobagem ao dizer que “ficam reconhecidos como Contramestre e Mestre os profissionais com dez anos ou mais na profissão”. Quer dizer que eu já era mestre e não sabia… Mas o golpe vem em seguida, ao afirmar que “ficam reconhecidas como profissão as atividades de capoeira nas modalidades luta e esporte”, e ao especificar o que é privativo do capoeirista profissional. Ou seja, apenas os atletas seriam profissionais da capoeira, e os demais, amadores. E somente o atleta poderia dar aulas em escolas, academias…. todos os outros capoeiristas seriam meros amadores. Todos os capoeiristas que não se identificam com o modelo capoeira esporte para competição seriam então excluídos e postos à margem do sistema, incluindo os mestres antigos, a capoeira angola, a capoeira de rua, a capoeira show e diversos setores das capoeiras regional e contemporânea, incluindo todos os capoeiristas que trabalham a capoeira numa perspectiva de educação. O PL pode ser acessado aqui: http://www.camara.gov.br/…/prop_mostrarintegra;jsessionid=2…


Mas o pior está por vir. A terceira versão deste projeto, elaborada por segmentos da capoeira contemporânea do sudeste e articulada pelo Sr. Jairo Júnior, do III Congresso Nacional Unitário de Capoeira, com apoio de setores da Fundação Palmares, é ainda mais nefasta e representa um verdadeiro tiro de misericórdia nas tradições e fundamentos da capoeira. Esse substitutivo do projeto de lei é tão absurdo que não tiveram coragem de protocolá-lo no Congresso Nacional nem disponibilizá-lo pela internet à comunidade da capoeira. Ele foi entregue nas mãos da Senadora Lídice da Mata, que prontamente o socializou com a capoeiragem baiana. Trata-se de uma reedição do projeto de lei do sistema CREF/CONFEF, que queria criar uma reserva de mercado para os profissionais de educação física, estabelecendo que só poderia ensinar capoeira quem tivesse o referido diploma. Mas desta vez, o diploma em questão não seria o de Educação Física, mas o certificado da CBC – Confederação Brasileira de Capoeira, ou outro órgão semelhante a ser criado pelo grupo do Sr. Jairo.


O projeto já começa classificando a capoeira como “desporto de criação nacional” (ou seja, a capoeira angola, como manifestação cultural afro-brasileira, está excluída e só poderia ser praticada de forma não profissional, uma vez que nem é desporto nem é de criação nacional). Em seguida, divide a capoeira em prática desportiva formal (regulada por normas nacionais e internacionais e pelas regras de prática desportiva) e prática desportiva não-formal. Ou seja, além de ser todo mundo atleta, desportista, só pratica a capoeira “formalmente” quem se submeter às regras e normas ditadas pelo “sistema de organização da capoeira”. Todos os outros são informais.


A próxima parte do projeto é pior, uma vez que afirma que a capoeira pode ser organizada e praticada de modo profissional, e de modo não-profissional, e estabelece como obrigatório para registro da “Atividade do Profissional da Capoeira” a apresentação de diploma de conclusão do ensino médio e “atestado de capacitação fornecido pela entidade de administração da capoeira legalmente constituída e formalizada”. Ou seja, para trabalhar com capoeira, além de ter que passar obrigatoriamente pela escola (já excluindo os velhos mestres que aprenderam na universidade da vida) todos os capoeiristas teriam que fazer um curso com a CBC ou entidade semelhante, para serem reconhecidos como profissionais da capoeira! Toda a capoeira do Brasil seria controlada, regulada, normatizada e padronizada por uma pequena casta instalada em São Paulo, os novos capitães do mato, “donos da capoeira”! Os antigos mestres, assim como seus discípulos formados pela capoeira e reconhecidos pela comunidade, teriam que ir ao sudeste fazer cursos com os “donos da capoeira”, pagar mensalidades e se submeter ás suas regras e normas, padronizando a capoeira e extinguindo toda uma diversidade de estilos e linhagens que fazem ser tão rica essa herança ancestral.


O projeto segue amarrando uma “Organização Nacional da Capoeira”, liderada por “entidades nacionais de administração da capoeira”. Essas entidades concentrariam repasses de recursos dos governos federal, estaduais e municipais, além de “recursos transferidos pelo Comitê Olímpico Brasileiro”, o pote de ouro almejado pelos atletas da capoeira, em um processo de articulação política que passa pelo Ministério dos Esportes (será coincidências que todos esses articuladores sejam do mesmo partido?). Quer dizer, se os recursos para a capoeira, distribuídos através de projetos e editais, já são poucos, o que aconteceria se todos os recursos fossem concentrados nas mãos de uma única entidade, controlada por uma panelinha?


A capoeira não tem dono. É livre, tem seus fundamentos herdados dos que nos antecederam, e uma lógica de organização própria. Sua organização se dá de dentro pra fora, de baixo pra cima, e foi contra a normatização do Estado que ela sempre lutou. Por isso a capoeira baiana dá o seu grito de resistência e liberdade. Outros estados vêm se posicionando, como Minas Gerais, que no dia 20/12 fez um “Berimbausaço” em plena Praça 7, no centro de Belo Horizonte. Que outros estados se incorporem a este debate e façam valer sua força!


Iê vamos’imbora, camaradas!!!


Paulo Magalhães, ou Sem Terra, é jornalista e mestre em ciências sociais, autor do livro “Jogo de Discursos: A disputa por hegemonia na tradição da capoeira angola baiana” (Salvador: EDUFBA, 2012).


Coordena o Coletivo Ginga de Angola (Escola de Dança da UFBA), é membro do Coletivo Capoeira e Militância, do Fórum de Cultura da Bahia e do Colegiado Setorial de Culturas Populares do Estado da Bahia.
O que mais me entristece é que, por detrás de tais idéias, existem capoeiras apoiadores de tais absurdos.


E da Fundação Palmares, o que se pode falar é o mesmo do que se fala de sindicatos: defensores dos direitos dos seus, trampolins pra política.”


legis.senado.leg.br

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Tocantins & Atlas da Capoeira

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Tocantins & Atlas da Capoeira

Jornal do Capoeira – www.capoeira.jex.com.br

Edição 73 – de 14 a  20 de Maio de 2006

 

Danillo César – Tocantins

www.jornalmundocapoeira.com

– 14 de Maio de 2006 –

 

Camaradas das capoeiras do Estado de Tocantins. Estamos também entrando na Roda do Diagnóstico, ou seja, estamos nos organizando para também compor o time que participará dos levantamentos estaduais do “Estado da Arte” de nossa capoeira e capoeiragem. De pronto, certamente alguém poderá se perguntar “Mas quem está a frente deste projeto”… e mais adiante perguntará também “Quem está definindo quem representará cada Estado”.  Vou responder com estou vendo este processo.

Há diversas décadas o Mestre André Lace, do Rio de Janeiro – cujo livro acredito que todo vocês já tiveram acesso (Volta ao Mundo da Capoeira) vem alertando às autoridades governamentais sobre a importância de se fazer um diagnóstico de como está a capoeira em nosso Brasil. Mais ainda, com a “explosão” de grupos e academias, que estratégia de políticas públicas e privadas deveriam ser adotadas para proteger e valorizar nossos capoeiras (mestre!) e mesmo nossa capoeira (arte, luta, cultura etc).

Parece que a semente do Diagnóstico está germinando, sendo que alguns estados já estão se organizando e trabalhando em prol dele. Alguém pode também perguntar: “Mas o que o Danillo Canguru está fazendo neste time”. Primeiramente gostaria de esclarecer um outro ponto. Pelo que percebo ainda não existe uma coordenação oficial do processo, mas existe sim um certo consenso se formando para o Mestre Lamartine Pereira da Costa e para o Mestre André Lace encabeçar a coordenação do ATLAS DA CAPOEIRA. Para fortalecer o processo, o Jornal do Capoeira – editado pelo Miltinho Astronauta – está servindo com elo entre os capoeiras representantes dos Estados. Mais ainda, o professor Leopoldo Vaz, do Maranhão, parece que está comandando os “tambores”, à partir de São Luis, e motivando nossos pares. O resultado é que camaradas dos diversos estados estão sendo convidados. E respondendo a pergunta em destaque acima, recebi também este convite especial e estamos entrando para o time de trabalho.

 

O Atlas da Capoeira no Tocantins

 

Há exatamente um mês publicamos a primeira edição do Jornal MUNDO CAPOEIRA, que tem, dentre outros objetivos, o de documentar e divulgar informações sobre as capoeiras no Estado do Tocantins. Já fizemos diversas entrevistas com alguns mestres, contramestres e professores. Nossa intenção, no quando das entrevistas, era a de “alimentar” este nosso Jornal. Mas parece que o projeto está assumindo magnitudes e direções maiores do que pensávamos originalmente. Há começar pelas entrevistas que não serão mais somente para servir de fonte de informação para as matérias, mas sim para construirmos, juntos o ATLAS DA CAPOEIRA NO ESTADO DO TOCANTINS.

Nesta tarefa, todos os mestres, contramestres e professores serão essenciais. Estaremos chamando também para a Roda os historiadores, folcloristas e crônicas de nosso Estado para participarem do processo. Todos serão registrados. Mas para que tenhamos um trabalho representativo, precisamos da colaboração e compreensão de todos.

 

Não será tarefa fácil fazer todo o trabalho a poucas mãos.Todos que tiverem interesse e disponibilidade de participar, solicitamos que entrem em contato conosco, pois juntos poderemos fazer um trabalho mais representativos. Mestres como Fumaça, Soldado, Besouro, Timbal e Gean Surfista  – só para ficar em alguns bons nomes – serão devidamente registrados no Atlas. Nosso Mestre Squisito, é claro, também estará devidamente incluído.

 

Aos Mestres Lamartine, André Lacé (RJ), aos camaradas Miltinho (SP), Leopoldo (MA), Bené Zumbi (PB) desejamos muito sucesso nesta nossa empreitada.

 

Na foto estão Mestre Pombo de Ouro, Mestre Squisito agachado, no pandeiro Mestrando Mafú, berimbaus, Mestres Tambor e Cláudio Danadinho
Atendendo ao chamado do gunga, já estamos na Roda.

Um Axé à todas e à todos.

 

Danillo Canguru – Jornal MUNDO CAPOEIRA

www.jornalmundocapoeira.com

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CEV Novidades – •Educação Física no Maranhão: Morre Mestre Diniz

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CEV Novidades

Link to Centro Esportivo Virtual

Legislação Desportiva – CEVLeis: Teólogo e Apresentador de Tv é Nomeado Novo Ministro do Esporte

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Educação Física e Esporte: Teólogo e Apresentador de Tv é Nomeado Novo Ministro do Esporte

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História da Educação Física e dos Esportes: Morre Mestre Diniz

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Educação Física no Maranhão: Morre Mestre Diniz

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Capoeira: Morre Mestre Diniz

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História da Educação Física e dos Esportes: Revista Licere – V. 17, N. 4 (2014): Dezembro

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MORRE MESTRE DINIZ – OS BERIMBAUS SE CALAM, CHORANDO O ENCANTAMENTO DO VELHO MESTRE CAPOEIRA

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Logo cedo, recebo telefonema de Mestre Baé:

– Mestre, o velho Diniz morreu… ontem à noite; está sendo velado na Pax União, ali no Canto da Fabril. Todos os Mestres Capoeiras estão sendo convocados para prestar-lhe homenagens. O aguardamos por lá, esta manhã…

 

Mestre Firmino Diniz – nascido em 1929 – era o Mestre  mais antigo de São Luís. Teve os primeiros contatos com a capoeira  na infância, através de seus tios Zé Baianinho e Mané. Lembra ainda de outro capoeirista da época de sua infância, Caranguejo.

Mestre Diniz se referia, ainda a outros Capoeiras: Lembra ainda de outro capoeirista da época de sua infância, Caranguejo, apelido vindo de seu trabalho de vendedor dessa iguaria, que costuma tocar berimbau na “venda” de propriedade de sua mãe, localizada no bairro do Tirirical. Viu, algumas vezes, brigas desse capoeirista com policiais. (SOUZA, 2002, citado por MARTINS, 2005, p. 30)[14].

Mestre Diniz teve suas primeiras lições no Rio de Janeiro com “Catumbi”, um capoeira alagoano. Diniz era o organizador das rodas de capoeira e foi um dos maiores incentivadores dessa manifestação na cidade de São Luís.

 

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http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/notas+sobre+a+capoeira+em+sao+luis+do+maranhao

issuu.com/leovaz/docs/cronica_da_capoeiragem_-_leopoldo_g
Quando do “Renascimento” da capoeira em São Luís, com a chegada de ROBERVAL SEREJO no início dos anos 60 e a criação do Grupo “Bantus“, do qual participavam, além de Mestre Roberval Serejo, graduado por Arthur Emídio; Mestre Diniz (aluno de Catumbi, de Alagoas), Mestre Jessé Lobão (aluno de Djalma Bandeira), de Babalú; Gouveia [José Anunciação Gouveia]; Ubirajara; Elmo Cascavel; Alô; Patinho [Antonio José da Conceição Ramos]; e Didi [Diógenes Ferreira Magalhães de Almeida].

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Em setembro de 1996 Mestre Indio do Maranhão sendo Graduado Mestre por Mestre Firmino Diniz.

Em Tradições – Capoeira/capoeiragem no Maranhão Atlas do Esporte do Maranhão. http://cev.org.br/biblioteca/tradicoes-capoeira-capoeiragem-maranhao/

Mestre, Patinho, relata o aparecimento do Grupo Bantus:  “… bem aqui na Quinta, bem no SIOGE. Década de 60 era um grande reduto da capoeira principalmente na São Pantaleão, onde nasci…. Pois bem, um amigo que tinha recém chegado do Rio de Janeiro, Jessé Lobão, que treinou com Djalma Bandeira na década de 60; Babalú, um apaixonado pela capoeira; outro amigo que era marinheiro da marinha de Guerra, também aprendeu com o mestre Artur Emídio do Rio, Roberval Serejo; juntamos Jessé, Roberval Serejo, Babalú, Artur Emídio (sic) e eu formamos a primeira academia de capoeira, Bantú, e estava sem perceber fazendo parte da reaparição da capoeira no Maranhão. Também participaram Firmino Diniz e seu mestre Catumbi, preto alto descendente de escravo. Firmino foi ao Rio e aprendeu a capoeira com Navalha no estilo Palmilhada e com elástico, nos repassando.” (Antonio José da Conceição Ramos – Mestre Patinho – em entrevista concedida a Manoel Maria Pereira) [2]. in http://www.blogsoestado.com/leopoldovaz/2009/12/27/artur-emidio-e-a-capoeiragem-em-sao-luis-do-maranhao/

Em “Memórias da Capoeira do Maranhão” pesquisa de Roberto Augusto A. Pereira, o livro Roda de Rua – Memórias da Capoeira do Maranhão da Década de 70 do Século XX, lançado em dezembro de 2009, em São Luiz, tem como ponto de partida as rodas de capoeira nas ruas de São Luís e, entre os personagens marcantes da capoeira na época, o livro foca especialmente nos capoeiristas Anselmo Barnabé Rodrigues, o Mestre Sapo; Mestre Roberval Serejo e Firmino Diniz, o Mestre Diniz.

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GUARDA NEGRA NO IMPÉRIO – Nenhuma palavra sobre uma Guarda Negra … nem no relatório do suboficial que ordenou o fogo…

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Apresentamos mais informações sobre Guarda Negra e a Capoeiragem
Jornal do Capoeira – http://www.capoeira.jex.com.br/
Edição 54 – de 18/dez a 25/dez de 2005

Leopoldo Gil Dulcio Vaz
São Luis do Maranhão-MA
Dezembro de 2005

Os movimentos pela abolição da escravatura são iniciados a partir de alguns eventos ocorridos: a cessação do tráfico negreiro da África, em 1850; a volta vitoriosa de negros da Guerra do Paraguai, que se estendeu de 1865 a 1870, a promulgação da Lei do Ventre Livre; a criação da Sociedade Brasileira contra a Escravidão (tendo José do Patrocínio e Joaquim Nabuco como fundadores); a Lei Saraiva-Cotegipe (mais popularmente conhecida como a Lei dos Sexagenários).

Dois conceitos históricos são entendidos por abolição da escravatura: o conjunto de manobras sociais empreendidas entre o período de 1870 a 1888 em prol da libertação dos escravos, e a própria promulgação da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, que promove a oficialização da abolição do regime.

As mudanças ocorridas afetavam diretamente a economia de produção neste período do Brasil. Após as medidas oficiais anti-escravistas determinadas pela Lei Áurea, os senhores escravistas, insatisfeitos com a nova realidade, intencionavam exigir indenizações pelos escravos libertos, não obtendo nenhum aval do Império. Desta forma, surgiram os movimentos republicanos, que foram engrossados com a participação dos mesmos senhores que eram antigos detentores da “mercadoria escrava” e que, descontentes com as atitudes do Império, acabaram por defender um novo sistema de governo, decorrendo daí um dos principais motivos da derrocada final do Império. Por outro lado, a mão de obra proveniente das novas correntes imigratórias passa a ser empregada. Os negros, por um lado libertos, não possuíam instrução educacional ou a especialização profissional que passa a ser exigida, decorrendo destes aspectos a permanência dos negros à margem da sociedade frente à falta de oportunidades a eles oferecidas pelos republicanos. Tivesse sido mantida a Monarquia, a situação dos negros seria outra.

Nesse contexto, a Guarda Negra foi formada por José do Patrocínio em 28 de setembro de 1888, como um movimento paramilitar, composto por negros, que tinha passagem pelo Exército e com habilidade em capoeira. O objetivo dele era demonstrar gratidão à família real pela abolição e intimidar republicanos e tumultuar os comícios. A ação da Guarda Negra travava batalhas com os partidários do fim da Republica, sendo classificados como terroristas.
Muito embora Patrocínio, em virtude da Lei Áurea, seja identificado como monarquista e formado a Guarda Negra para defender a Princesa Izabel, aderiu às idéias republicanas.
O jornalista Renato Pompeu, em “Confissões de um trirracial”, afirma saber que:

“… a República foi proclamada porque o Império, ao proclamar a Abolição, ficou comprometido com o futuro dos negros recém-libertados, como prova o fato de que só guarnições militares compostas de negros, como a Guarda Negra da Princesa Isabel, resistiram ao golpe de Estado de 15 de novembro de 1889. O regime republicano, assim, nasceu, e continua, sem nenhum compromisso maior com as pessoas de pele mais escura.”[5]

• Por essas ações, cada vez mais violentas, houve perseguição aos negros, em sua maioria capoeiras, e ligados a guarda negra, provocando sua marginalização, quando do advento da República, e a conseqüente criminalização do ato de praticar capoeira… (Logo após a Proclamação da República (1889), a capoeira foi proibida pelo Marechal Deodoro, permanecendo nessa situação até 1937 quando Mestre Bimba a tira do código penal e a leva a esporte nacional).

Em São Luís do Maranhão, encontramos um episódio relacionado com a participação dos negros no processo de combate à República recém proclamada. Foi denominado de “o fuzilamento do dia 17″, e ocorreu com uma manifestação de escravos, recém-libertos, contra Paula Duarte, o único republicano no novo governo, conforme informa Mario Meireles, e isso porque se dizia que o novo regime vinha para tornar sem efeito a Lei Áurea. Os manifestantes foram à redação de “O Globo”, jornal republicano, e tentaram o empastelar. A polícia interveio, dispersando-os. Na boca do povo, e naquelas circunstâncias, teria ocorrido um massacre – os fuzilamentos do dia 17. (Meireles, Mário. História do Maranhão. 2 ed. São Luís: Fundação Cultural do Maranhão, 1980, p. 307).

Milson Coutinho, ao descrever os acontecimentos daquele dia 17 de Novembro – Maranhão, 1889: fuzilamentos e torturas.
a percorrer as ruas de São Luís dando vivas à Monarquia.” (p. 18)

Prossegue Coutinho o seu relato, informando que a turba passou em frente à casa do Desembargador Tito de Matos, ainda respondendo pelo Governo da Província: “…estancou a passeata, com a finalidade de cumprimentar o Magistrado, derradeiro lampejo da Monarquia deposta e última esperança da malta enfurecida”. (p. 18-19).

Malta enfurecida? Coutinho a teria usada em que sentido? De identificar os manifestantes com as maltas de capoeira que agiam no Rio de Janeiro, dando vivas à monarquia e contra o novo regime? No-lo sabemos …

Prosseguindo, O Desembargador pediu as massas que aguardassem a ordem, dissolvessem a passeata. Esses acontecimentos se deram pela manhã. Os espíritos serenaram e a tranqüilidade pública volveu à Capital. Mas…

“…por volta das 15 horas do dia 17 os ânimos voltaram a se reacender, com novos grupos de anarquistas a percorrer as ruas e praças da capital, estocando todos os segmentos da balbúrdia em frente ao jornal de Paula Duarte, desaguadouro do contingente de alucinados que para ali convergiam, provindos de quantos becos se contassem, isto já em profusa massa humana.
“O Comandante do 5º. Batalhão de Infantaria destacou, para o local uma força devidamente embalada, tropa essa que se postou em frente à tipografia de Paula Duarte, a partir das 16 horas, a fim de garantir a segurança do jornalista e evitar a depredação do edifício.”.(p. 19, grifos meus).

Os revoltosos debandaram, proferindo gestos coléricos e invulgar alacridade, e assim se passou o resto da tarde, sem outras conseqüências que não o clima de total intranqüilidade reinante.

“Os relógios assinalavam pouco mais das 19 horas, quando a multidão enfurecida e com muitos de seus componentes já armados voltou à carga para tirar a prova de fogo
“Iniciou-se a fuzilaria, de que resultou a morte imediata de três manifestantes, ferimentos em 11 outros, lesões em vários soldados, cabo e sargento do destacamento, vindo a morrer depois, na Santa casa, um dos sediciosos ferido por balaço da tropa.” (p. 20).

Nenhuma palavra sobre uma Guarda Negra … nem no relatório do suboficial que ordenou o fogo…

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