
Na mitologia grega, os deuses criaram uma caixa que continha todos os males. Dominada por uma curiosidade incontrolável, Pandora abriu o recipiente e espalhou seu conteúdo pelo mundo. Apenas a esperança permaneceu. Uma nova caixa de Pandora foi aberta em nossa época. Dessa vez, é a inteligência artificial.
Com espantosa velocidade, a inteligência artificial avança em todas as direções, dominando os mais diversos campos do conhecimento. Nem mesmo a arte, expressão máxima da sensibilidade humana, está livre dessa influência. Seja no cinema, na música ou na literatura, a artificialidade vem retocando e até criando universos inteiros, muitas vezes sem que sequer se perceba.
Nos tribunais de todo o Brasil, já são apresentadas petições escritas e fundamentadas por inteligência artificial. Muitas decisões judiciais também começam a seguir a mesma linha. Considerando as necessidades de eficiência e produtividade, se tal recurso tecnológico for empregado de maneira responsável, poderá contribuir para a efetivação do acesso à justiça e a concretização de direitos fundamentais.
Por outro prisma, há quem utilize aplicativos para elaborar textos e escrever livros inteiros. Cada um é livre para agir como deseja, desde que não prejudique os seus semelhantes. Entretanto, se a intenção da escrita for deixar algo genuinamente seu para o mundo, particularmente não vejo lógica em delegar essa tarefa por completo às “mentes artificiais”.
Como é típico da era dos extremismos, alguns veneram a inteligência artificial e a consideram uma nova divindade a ser adorada, enquanto outros desejam prendê-la e queimá-la viva, da mesma forma que fizeram com as “bruxas” durante o período inquisitorial.
Para o bem e para o mal, a inteligência artificial veio para ficar, e não há como retroceder. Se isso será uma evolução ou um retrocesso para a humanidade, só o tempo irá revelar. Precisamos aprender a utilizá-la para maximizar as nossas potencialidades, sem que sejamos dominados ou diminuídos como seres pensantes.
Como sou fruto de minha época e não posso mais ignorar a revolução tecnológica que se concretiza diante dos meus olhos, escrevi este texto e solicitei a uma inteligência artificial que realizasse a revisão, sem descaracterizar o estilo e o conteúdo. Após cumprir a tarefa, o aplicativo disse: “Texto forte, elegante e bem amarrado — dá pra sentir a voz de quem escreve e pensa o tema sem histeria nem deslumbramento”. Provavelmente está apenas me bajulando. Ao que parece, já aprendeu a conviver com a espécie humana.
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Cristiano Sardinha é escritor, professor e tabelião, graduado em Direito, Filosofia e História, Mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA, Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela UMSA e Doutor em Direito Constitucional pela UNIFOR.