Cristiano Sardinha: “Por que mataram Jesus?”

Não há dúvida que Jesus promoveu uma revolução no coração das pessoas e na sociedade da sua época

Os que buscavam a morte de Jesus estavam submissos às leis romanas e não detinham autonomia para executar a pena capital, por isso, foram até o palácio onde o governador Pôncio Pilatos se hospedava durante a Páscoa. Na ocasião, afirmaram que Jesus pervertia a nação, impedia o pagamento de tributos a César e desejava se fazer rei, o que era gravíssimo, pois afrontava a autoridade do Imperador romano.

Não há dúvida que Jesus promoveu uma revolução no coração das pessoas e na sociedade da sua época. No entanto, foi um tipo de revolução comportamental e na forma de enxergar o outro, que nada tinha a ver com a acusação de “perverter a nação”. As ideias propagadas pelo Nazareno contribuíam para a difusão do amor, da paz e de uma felicidade que fosse imperturbável, mesmo diante de fatores externos adversos.

Ocorre que os acusadores estavam imersos em um mar de ambição desvairada e luta pelo poder que prevalecia no meio social em que estavam inseridos, razão pela qual foram incapazes de compreender ou aceitar o conteúdo da mensagem de Cristo. Temiam o que não entendiam, enxergando “perversão” e “agitação” em tudo aquilo que fosse diferente do mundo que conheciam.

Quanto à segunda acusação, de impedir o pagamento de tributos a César, tratou-se de outra afirmação inverídica e ardilosa, pois quando Jesus foi publicamente questionado sobre o tema, não negou o direito do Imperador de cobrar tributos e disse para que todos ouvissem: “Dai, pois, a César as coisas que são de César, e a Deus as coisas que são de Deus.”

A resposta foi objetiva: não se pode confundir o reino de Deus com os interesses e deveres mundanos. Em outras palavras, Jesus explicou que sua mensagem não dependia dos poderosos, nem mesmo do maior de todos os Imperadores da época.

A terceira e última das acusações era a mais grave e absurda, pois partia do pressuposto de que o Nazareno queria se fazer rei dos judeus e ameaçava a autoridade do Imperador romano. Ocorre que Jesus falava de um reino de outro mundo, algo que não competia com a autoridade do Império Romano nem de qualquer outro.

Ora, um reino de outro mundo não poderia ameaçar as instituições e a estabilidade romana. Seguindo essa premissa, Pilatos concluiu que Jesus era inocente e que não havia qualquer delito. Contudo, para se livrar da incômoda insistência dos acusadores, Pilatos tentou transferir a obrigação de julgar o caso para Herodes Antipas, governante da Galileia, visto que o acusado era originário dessa região.

Herodes também interrogou Jesus, mas não encontrou motivos ou fundamentos para condená-lo. Dessa maneira, a única solução encontrada foi devolver o acusado para a corte de Pilatos. Uma vez mais, o governador romano decidiu pela inocência do Nazareno, porém, a fúria dos acusadores era retumbante e induziu o povo a clamar por sangue.

Pilatos perguntou: “Então o que quereis que eu faça daquele a que chamais de Rei dos Judeus?”

A resposta do povo foi: “Crucifica-o”.

Pilatos insistiu: “Por quê? Que mal ele fez?”

A resposta dessa vez foi avassaladora, e os gritos de “Crucifica-o” ecoavam ao longe. Os principais sacerdotes disseram: “Nós não temos rei, senão César”.

O ato de Pilatos “lavar as mãos” entrou para a história como símbolo da omissão humana diante das injustiças. Ainda nos dias de hoje, acontecem inúmeros casos em que juízes e tribunais publicam decisões equivocadas por causa de comodismo ou por conta da pressão pública e dos meios de comunicação, gerando graves prejuízos à vida de outras pessoas.

Sobre o assunto, Rui Barbosa enfatizou:
“De Anás a Herodes o julgamento de Cristo é o espelho de todas as deserções da justiça, corrompida pelas facções, pelos demagogos e pelos governos.”

Fica a pergunta: Por que mataram Jesus?

Sabe-se que a escalada de tensão entre os líderes religiosos e Jesus alcançou o ápice quando o Nazareno, montado em um jumentinho, adentrou de maneira triunfal na cidade de Jerusalém, sendo acompanhado pela multidão que o admirava e louvava.

Na ocasião em que Jesus se revoltou com os que praticavam comércio dentro do templo e os criticou publicamente, acabou irritando os sacerdotes que obtinham elevados lucros com as oferendas feitas pelo povo. Durante os festivais religiosos, eram estipulados preços exorbitantes pelos animais que eram dados em sacrifício. Uma pomba chegava a valer até cem vezes mais o preço que normalmente era praticado.

A grande verdade é que as pregações e o comportamento de Jesus representavam uma afronta direta às autoridades religiosas, aos sedentos pelo poder, aos intolerantes e a todos aqueles que se apegavam ao materialismo, individualismo e egocentrismo.

Passados mais de dois mil anos do julgamento de Cristo, a dureza do coração humano permanece, o culto ao materialismo e aos comportamentos individualistas e extremistas alcançaram patamares estratosféricos. Por mais difícil que seja admitir, caso alguém se comportasse de maneira similar ao Nazareno em nossa época, teria grandes chances de também sofrer humilhações, torturas e a própria morte.

*(Esse texto faz parte do livro “JESUS CRISTO E OS DIREITOS HUMANOS”, de Cristiano Sardinha e Vítor Sardinha, publicado pela Editora Juruá).

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Cristiano Sardinha é escritor, professor e tabelião, graduado em Direito, Filosofia e História, Mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA, Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais pela UMSA e Doutor em Direito Constitucional pela UNIFOR.

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QUEM SOU EU

Jornalista profissional formado pela Universidade Federal do Maranhão e que há mais de 20 anos integra o staff do Grupo Mirante, Evandro Júnior é do Imirante.com, titular da coluna Tapete Vermelho, dentro do Caderno PH Revista, e coordenador e colaborador diário e interino da coluna de Pergentino Holanda (PH) no Imirante.com. A proposta é trazer informações sobre generalidades, com um destaque especial para as esferas cultural, empresarial e política.

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