
São Luís – A vida de Michael Jackson foi cercada de muitos mistérios, polêmicas e traumas mal resolvidos. Contudo, algo não pode ser negado: tratou-se de um artista carismático, com estilo próprio, capaz de marcar gerações através de suas músicas e coreografias. Ainda lembro quando estava no recreio da escola e um colega me emprestou o walkman para eu ouvir: “Thriller”, “Billie Jean” e “Beat It”. Aquele som parecia algo mágico e além do seu tempo.
As salas de cinema estão sendo tomadas pela euforia do público, que canta, dança e se emociona com o filme “Michael”. A cinebiografia conta parte da história de uma das figuras culturais mais importantes do século XX, consagrado como “O Rei do Pop”.
Os fãs ignoraram as avaliações mornas da crítica especializada e fizeram “Michael” alcançar um novo patamar dentro da indústria cinematográfica, batendo recordes e arrecadando cerca de 217,4 milhões de dólares em seu primeiro final de semana.
O que particularmente mais me chamou atenção na película foi a relação conturbada entre Michael Jackson e seu pai, Joseph Jackson. Em vez de uma figura paterna disposta a dar carinho e segurança ao filho, Joseph agia como um verdadeiro carrasco: exigia que treinasse até a exaustão absoluta, explorava-o financeiramente e o espancava quando se sentia minimamente contrariado.
Joseph alegava que a disciplina severa era a única forma de garantir o sucesso e a sobrevivência da família, evitando o envolvimento com a criminalidade. O pai repetia incessantemente aos filhos que, por terem nascido pobres e negros em um país racista, precisavam se dedicar mais do que as outras pessoas, pois somente existem os derrotados e os vitoriosos.
Por conta de seus métodos cruéis, houve quem o enxergasse como um vilão na vida real, e assim ele foi retratado no filme. Apesar disso, uma reflexão incômoda vem à tona: sem o pai, Michael Jackson teria alcançado o mesmo sucesso? A resposta é que provavelmente não. Foi Joseph quem ensinou ao filho o hábito de treinar até os pés sangrarem, confirmando que talento não é nada sem esforço.
O sucesso cobra caro e há preços que não valem a pena. Os bons momentos da infância acompanham a pessoa por toda a vida. Nada compensa a inocência roubada de uma criança.
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Cristiano Sardinha é escritor, professor e tabelião