
São Luís – O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor no último dia 1º de maio. A negociação começou em 1999. São 26 anos entre a primeira reunião e a primeira tarifa zerada.
Vinte e seis anos. Quem estava na sala em 1999 talvez não esteja mais viva para ver o resultado. Quem estava começando carreira na época hoje está perto da aposentadoria. Empresas inteiras nasceram, cresceram, foram vendidas e morreram dentro do intervalo entre o início da conversa e o primeiro efeito prático no comércio brasileiro.
E essa é a parte mais importante do acordo. Não as tarifas. Não os 5 mil produtos com acesso imediato. Não os 700 milhões de consumidores no novo bloco. É o tempo.
O Brasil tem um problema crônico de horizonte. Empresário pensa em ciclo de quatro anos, na melhor das hipóteses, porque é o ciclo eleitoral que define regras tributárias, taxa de juros real, ambiente regulatório. Investidor pensa em 12 meses porque o CDI compete com tudo que demora mais para retornar. Político pensa em quatro anos por estrutura, e em dois quando começa a campanha para a reeleição.
Num país onde quase ninguém pensa além de uma década, quem pensa em duas tem vantagem estrutural. E quem pensa em três não tem concorrência.
O acordo Mercosul-UE é prova disso. Ele só existe porque algumas pessoas insistiram durante 26 anos contra todas as razões de curto prazo para desistir — trocas de governo, crises econômicas, pressão de setores agrícolas franceses, exigências ambientais europeias, mudanças de prioridade política em ambos os lados do Atlântico. A cada ciclo, havia justificativa para enterrar o projeto. A cada ciclo, alguém insistiu.
Na lógica brasileira de negócios, isso é quase incompreensível. A gente é cultivada para resultado trimestral, para ROI em 36 meses, para saída em cinco anos. O horizonte do nosso planejamento é sempre o próximo balanço.
Mas as grandes fortunas do Brasil não foram construídas assim. Foram construídas por famílias que pensaram em 50 anos, por empresários que compraram terra na década de 70 e nunca venderam, por construtoras que atravessaram quatro planos econômicos e seis moedas diferentes sem mudar a tese central do negócio. A construção de patrimônio sério neste país sempre foi sobre suportar o tempo, não sobre vencê-lo.
O acordo que entrou em vigor agora vai produzir efeitos por décadas. Os ganhadores reais não serão os que se mexerem em maio. Serão os que começarem a estruturar operação agora pensando em onde querem estar em 2040. Estes são poucos, e por isso ganham.
Quando se observa o mapa dos grandes empresários brasileiros, há um padrão silencioso que poucos comentam. Eles raramente são os mais agressivos no curto prazo. São os mais pacientes no longo. É a paciência que cobra preço de quem não tem, e paga juros compostos para quem tem.
A pergunta que esse acordo deveria provocar, então, não é técnica. É outra.
Qual é o seu horizonte? Você está construindo algo que faz sentido em 12 meses, em 5 anos, ou em 30? Porque o país inteiro está disputando o primeiro horário. Quase ninguém está olhando o terceiro. E é sempre lá que está o espaço vazio.