A cidade esquecida

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Por Félix Alberto

Palmira, Menphis, Cartago, Pompeia, Hattusa e Petra são alguns exemplos de cidades esquecidas ao longo da História – ou porque foram abandonadas, saqueadas, ou porque ruíram em disputas políticas e guerras. Alcântara, no Maranhão, é o arquétipo de monumento no Brasil solenemente esquecido pelo establishment. Apesar de invisível aos olhos do poder, ignorada, a cidade, desde meados dos anos 1980, abriga um sítio para experiências espaciais que frequenta, com inquieta regularidade, o noticiário nacional e internacional.

A pauta do momento é o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas que o governo brasileiro ensaia retomar com os Estados Unidos a pretexto da comercialização de satélites de fabricação norte-americana pelo Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Parceria semelhante foi assinada entre os dois países em 18 abril de 2000, mas em 2002 o Congresso brasileiro rejeitou-a alegando ameaça à soberania nacional.

Pelo acordo de 2000, conforme relatório técnico dos parlamentares, os Estados Unidos teriam “o direito” de controlar áreas restritas dentro da base de Alcântara. Para entrar nessas áreas, qualquer brasileiro, inclusive o presidente da República, dependeria de autorização prévia dos norte-americanos. E mais: o Brasil não poderia ter acesso aos contêineres de “equipamentos” desembarcados dos Estados Unidos.

Nem mesmo inspeções alfandegárias seriam permitidas. Os escombros de eventuais lançamentos fracassados não poderiam ser resgatados, estudados ou fotografados pelo governo brasileiro. Ou seja, pelo teor daquele acordo de salvaguardas, Alcântara, com sua localização estratégica, a 2º18′ sul da linha do Equador, de frente para a África Ocidental, facilmente viraria um novo Porto das Pérolas.

As negociações foram suspensas, porém, quando, em 22 de agosto de 2003, uma grande explosão seguida de incêndio na plataforma de lançamento de Alcântara destruiu o foguete VLS-1 e provocou a morte de 21 técnicos civis envolvidos no programa espacial brasileiro.

Somente no ano passado o governo formalizou novo protocolo de intenções com os Estados Unidos para exploração da base maranhense. Em maio último, 15 anos após o acidente, os Estados Unidos retomaram as negociações para uso do CLA, em contraproposta enviada ao Palácio do Planalto. Após as eleições no Brasil, já houve acenos e prévias garantias do presidente eleito Jair Bolsonaro para a efetivação do acordo.

Alcântara não deu certo como cidade antiga. A aristocracia tombou falida e a cidade, com seus andrajos de pedra, casarões silenciosos e fantasmas indolentes, aguarda a visita de quem um dia ainda virá: ou o imperador de fancaria ou um astronauta de faiança ou um turista redentor.

Na Alcântara antiga os escombros gemem na rua da Amargura, idosos protegem a moleira na paisagem desenhada pelo sol intenso, quilombolas de Frechal resistem numa trincheira imaginária e mulheres cozem doces de espécie para transeuntes improváveis. Sob a terra cálida, velhos tupinambás velam o monumento à indiferença coletiva.

Como cidade do futuro, Alcântara ainda não acertou a rota. A parceria com os ucranianos no projeto Cyclone Space resultou em grande prejuízo financeiro ao programa espacial brasileiro e, em 2011, foi parar na teia internacional do WikiLeaks.

Alcântara tenta dar certo agora como o novo Eldorado para os americanos; feito uma Fênix que rapidamente se refaz das cinzas de um foguete; ou – quem sabe! – qual uma Troia e seu grande cavalo escondido entre as ruínas da praça, o presente majestoso pronto a nos surpreender.

Quem, ao fim da próxima corrida espacial, vai lembrar de Alcântara? Talvez uma caixeira branca, de olhos azuis, com seu tarol de ladainhas ao Divino. Em inglês.

Foto: Portal Penaestrada

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