Psiquiatrização da mordida

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No domingo passado, conversando com alguns amigos sobre os jogos do Brasil dizia que até agora essa seleção do Felipão não me convencera e duvidava muito que chegasse até ao final com esse joguinho inexpressivo, não agressivo e muito pacato. Nessa conversa, disse ainda que duas coisas me chamava a atenção, nesse momento da copa: a canonização do Neymar e a psiquiatrização da mordida do jogador Luis Suaréz.

Sobre o santificação do jogador brasileiro será objeto de outro artigo e sobre a mordida disse: nunca vi uma mordida tão glamorosa, fenomenal, inusitada e tão badalada como essa. Exaltaram tanto a mordida do jogador que passou a ser notícia internacional, nos mais importantes noticiosos. A mordida teve mais repercussão que as que ocorrem com as do Pitibus. Em muitos momentos cheguei a perceber uma clara intensão desvairada de diagnosticar doença na atitude do jogador Luiz Suaréz, tal a avidez ou voracidade da grande mídia em encontrar razões para a tal mordida. Eu pergunto: será que alguém não já mordeu alguém na vida, em qualquer fase da vida, desde a infância até a idade adulta? Quem, no auge de um enlace amoroso, onde o clima afetivo é propício a um relacionamento sexual, docilmente não se mordem se arranham, entre as carícias e, de forma arrebatadora se enlaçam nos braços um do outro?

Quem, em um trânsito caótico e estressante, onde a pessoa tem hora marcada para seus compromissos, tendo dezenas de carros à sua frente, transitando em ruas cheias de buraco que impedem as pessoas se deslocarem, ficam nervosos, esmurram a direção, xingam o prefeito, o pai do prefeito, a mãe do prefeito até mesmo gostariam de jogar seus carros contra o outro, pra esvaziar sua raiva, sua insatisfação por ter um trânsito desse e, sem saídas. (como o nosso). Ou ainda, quem contrariado em seus interesses não esmurra mesa, bate porta, fala palavrões e até esmurra alguém? Quem nunca viu um jogador de tênis jogar a raquete contra o chão por ter perdido uma partida de um campeonato importante? Em todas essas ocasiões, embora bem distintas uma das outras, há muitas coisas em comum: são situações de tensão, de stress ações transitórias, que ocorre sob esse clima emocional, onde passado esse momento, tudo volta ao normal, sem maiores constrangimentos ou consequências.

Nessa circunstância, haveria alguma diferença entre esses fatos e o jogador morder seu adversário? Acho que não. Nesse caso, coloco essa mordida no âmbito das reações humanas, sem qualquer outro fato. Observem que se tratava de um jogo duro, tenso, já no segundo tempo da partida, jogo difícil, angustiante onde o Uruguai lutava ferozmente para não perder. Além do mais, tratava-se de um jogador importantíssimo para seu país, com uma tremenda responsabilidade nos ombros qual seja a de conduzir seu país ao final da copa.

Esse estado emocional certamente influenciou na reação do jogador. Todo esse clima funcionou como um estopim para desencadear uma reação agressiva como muitas outras que se observa em jogos, dentro e fora da copa. Portanto, a meu ver, é natural que ele encontrasse sua válvula de escape diante de tanta tensão, como todos os outros jogadores a encontram: uns usam palavrões, agressões físicas, outros pontapés, ou caneladas, rasteiras, carrinhos, cabeçadas, esmurram, xingam, e assim por diante. Passado o fervor do jogo, tudo normal.

Ao que se sabe, a reação do jogador de morder o adversário ocorreu em três momentos distintos apenas, em tempos e circunstâncias diferentes em outros jogos, portanto, nas mesmas condições de stress e de tensão que esse último.

Do ponto de vista psiquiátrico, esse comportamento isoladamente não sinaliza para nenhuma doença mental, para tanto, teria que haver, ou estar associado, a outros comportamentos significantes, ser regularmente repetitivo, estar presente em muitas outras circunstâncias, e gerar prejuízos, sobretudo pessoal e social ao jogador, ao que parece não ser o caso do Luis Suaréz.

Uma reação emocional é uma reação emocional, tão somente e, não expressa de forma alguma qualquer doença mental. Chegou-se ao ridículo de especular que o jogador era canibal, carnívoro, ou ainda, portador de transtorno no controle dos impulsos, condições graves do ponto da saúde mental, que contra-senso! Não há em psiquiatria nenhuma doença mental que isoladamente seja identificada pelo fato de alguém morder alguém. Temos que ter muito cuidado em afirmar certas coisas, sobretudo à grande mídia, sem se saber bem sobre elas, pois se corre o risco de denegrir a imagem pessoal e social de alguém que não fez nada para tanto, especialmente se tratando de uma pessoa de notoriedade pública, como são os jogadores de futebol ao nível de seleção de um país.

 

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