Preconceitos, formas veladas de violência

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Cada vez mais a sociedade civil deste país se insurge contra as incongruências e a violência contida nos preconceitos e nos estigmas sociais, relacionados com doentes mentais, seus tratamentos e a família desses enfermos. Esses preconceitos são muito antigos e se verificam em de diferentes situações: contra gays, negros, pobres, prostitutas, nacionalidades e entre esses, os doentes mentais. Nesse particular, estes são muitos profundos e mais antigos ainda, pois desde os primórdios da Psiquiatria que se sabe que eles existem, provocando danos e prejuízos irreparáveis a estes doentes, estigmatizando-os, segregando-os e os isolando do convívio social.

Preconceitos e estigmas são na realidade condições pejorativas desvalorativas dirigidas contra alguém ou contra algo que ocorre na realidade. São conceitos, pré-anunciados, antecipados, em torno de algo, alguém ou acontecimento ou sobre o que de fato ocorre, na realidade. Os preconceitos, estão quase sempre inseridos em um contexto social, psíquico ou cultural ou a condições específicas que fazem parte dos indivíduos e de suas relações. Em geral os preconceitos são estigmatizantes e segregacionistas onde indivíduos, práticas sociais, fatos, acontecimentos, eventos ou mesmo condições psicossociais, são desqualificados, mal vistos e desconsideradas, em razão de uma apreciação destorcida dessas realidades, desses fatos ou dessas pessoas ou desses acontecimentos, os quais são postos à margem da realidade. Em princípio, todos os preconceitos são repletos de violências contra o que, ou a quem se dirige.

Particularmente, sobre preconceitos e doença mental a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, há 08 anos, desenvolveu a campanha “A Sociedade Contra o Preconceito”, lançada durante o XXIX Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Essa campanha ganhou notoriedade, nacional e internacional, de tal forma que culminou com o projeto “Psicofobia é um Crime” que, após várias audiências públicas, apresentou emenda ao projeto de reforma do Código Penal, para criminalizar a segregação de portadores de transtornos mentais.

O programa “Psicofobia é um Crime” da ABP, visa institucionalizar nossa luta de combater os preconceitos e os estigmas que ocorrem na psiquiatria, principalmente contra os enfermos psiquiátricos e seus tratamentos. Trata-se de um manifesto consciente, responsável, humanizador, visando extirpar os tais preconceitos e/ou qualquer outra forma de descriminação que exista sobre os doentes mentais. É uma forma de demonstrar nossa indignação e disposição de lutar contra todo tipo de descriminalização que hala, sobretudo a esses enfermos, aos médicos psiquiatras e a psiquiatria como especialidade médica, por reconhecer-se que são práticas nefastas e não ajudam na recuperação nem na inserção social dessas pessoas.

Através deste Programa “Psicofobia é um Crime”, nós psiquiatras já avançamos muito. Artistas, poetas, políticos e escritores, cientistas e pesquisadores já se apresentaram na abertura dos nossos Congressos de Psiquiatria tratando de tais preconceitos, e muitos deles relatando suas próprias experiências como portadores de alguns transtornos psiquiátricos ou de alguns parentes seus. Além disso, redes de tvs e grandes jornais nacionais atualmente se dirigem á ABP para ouvi-la quando o assunto é sobre doença mental, fatos que nunca houve na história da Psiquiatria desse país.

Entre essas figuras de notoriedade pública destacamos o grande humorista Chico Anízio, o narrador e comentarista esportivo Luciano do Vale, o grande poeta maranhense Ferreira Gullar e tantas outras personalidades públicas, que de forma despretensiosa e com elevado espírito de solidariedade humana se dispuseram a realizar esses autos relatos, sobre suas doenças mentais, para ajudar a Psiquiatria a enfrentar esses enormes preconceitos nessa área.

É bom que se diga, que as doenças mentais obedecem às mesmas regras, leis e princípios que regem as demais doenças humanas, só diferindo quanto a forma de se expressarem clinicamente, e nada mais. São doenças que, como muitas outras, se tiverem precocemente um bom diagnóstico e um tratamento adequado terão um prognóstico favorável e muitos desses enfermos se recuperam inteiramente ao ponto de levarem uma vida absolutamente normal, como qualquer um.

A evolução nos critérios de diagnósticos dessas enfermidades, os avanços farmacológicos e outras formas de tratamentos bem como os avanços nos recursos laboratoriais hoje disponíveis são consideradas avanços absolutamente importante no controle clínico e epidemiológico dessas enfermidades. Fatos que vem colaborando sobre maneira para a derrubada dos estigmas aqui encontrados.

De tal forma que essa imagem malévola, demoníaca, amedrontadora, segregacionista bem como de que acreditam que doentes mentais são loucos, violentos, endemoniados, deficiente irrecuperáveis, intratáveis e muitos outros preconceitos é uma tremenda violência praticada contra essas pessoas, pois semelhantemente a muitos outros doentes, esses podem se prevenir, tratar, se recuperar e levar uma vida feliz e tranquila como a de todos. Por extensão, tais preconceitos resvalam para a Psiquiatria, enquanto especialidade médica, para os psiquiatras, para os hospitais psiquiátricos e, sobretudo para os tratamentos aplicados a esses enfermos.

            Para muitos, a Psiquiatria, é uma especialidade que trata de loucos, de malucos, desconhecendo completamente e de forma maldosa o alcance médico, social e humanístico que recaem sobre os ombros desses especialistas. Desconhecendo, o valor e a importância da ciência que há por trás dessa prática médica e desconhecendo, sobretudo o imenso valor social na prática desses médicos.

               Essa uma crença popular antiga, pejorativa, preconceituosa, que até hoje impede de muita gente ir ao psiquiatra para tratar de seus problemas, comportamentais ou emocionais, e deles se livrarem. A doença mental, como outras doenças humanas, quanto mais cedo for diagnóstica e tratada melhor, tanto para os enfermos quanto para seus familiares. Quanto mais tarde, pior. Portanto, lutemos arduamente contra todos esses preconceitos contra os doentes mentais, seus tratamentos e os profissionais que cuidam desses enfermos.

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Internar, um imperativo a favor do paciente.

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Esse é o segundo artigo que trata do assunto, internação em Psiquiatria, embora permaneça sendo amplamente discutido, ainda há uma celeuma, em torno desse assunto. Reconhece-se, que de fato é um tema deveras importante e que devemos realmente discuti-lo, abundantemente, para melhor entender como funciona esse processo.

 Internar alguém por um transtorno médico é um dever profissional e uma prerrogativa ética, moral e legal dos enfermos, em condições especiais no curso de uma doença as quais possam justificar tal indicação. Do ponto de vista médico, nenhum profissional, independente da espacialidade, sugeriria que se hospitalizasse alguém, sem uma base clínica e ética que a justifique. As condições agudas, com risco de morte e comportamentos autodestrutivos ou antissociais (psicóticas) figuram entre as manifestações médicas e psiquiátricas que mais justificam uma internação.

Nessa perspectiva, o uso de álcool e outras drogas representam questões médicas e psicossocial grave, que certamente representa um dos maiores problemas de saúde pública, segurança e bem-estar social, dos últimos anos. Os índices de morbimortalidade devido ao uso de drogas, na prática, superam em muito as estatísticas epidemiológicas de suicídios, homicídios, mortes ocasionadas no transito, canceres, guerras e por muitas outras doenças, que ocupam lugares de destaque nas estatísticas nacionais ou internacionais. Além do mais, a situação se complica, por se saber que o problema não se restringe somente aos usuários, mas às suas famílias, ao trabalho, as escolas e a todos que, de uma forma ou de outa, se relacionam e essas pessoas.

Múltiplos fatores, atualmente, colaboram para o expressivo aumento da demanda por álcool e outras drogas. Questões sociais, psicológicas, questões médicas e psiquiátricas, questões familiares, econômicas, desemprego, conflitos sociais, figuram entre as principais. Destacamos, também o incremento do tráfico ilícito de drogas de dimensão internacional e a inexistência de políticas públicas consistentes, eficiente e arrojadas na área da prevenção e do enfrentamento dessas questões.

A sociedade parece parcialmente imobilizada sem saber nem por onde começar para participar adequadamente desta questão, pois como as medidas públicas são insuficientes e fragmentadas isto favorece a desmobilização social para o enfrentamento da situação, adotando conduta meramente contemplativa.  Apesar do tamanho do problema e da imobilização social há atualmente setores da sociedade que se encontram bem engajados nesta luta. Entidades públicas, filantrópicas, privadas, religiosas, comunitárias, empresariais que, congregando pessoas preparadas, fornecem aconselhamento, permitem a troca de experiências e proporcionam tratamento e assistência aos dependentes químicos.

Talvez seja a família, um dos segmentos sociais mais afetadas, pois as mães e pais desesperados batem às portas das instituições públicas, relatando que já perderam tudo: a paz, o sono, a saúde, o patrimônio. Agora, estão prestes a perder a esperança e a vida, devido o comportamento suicida, agressivo, psicótico de um filho (a) ou familiar que adentrou ao uso de drogas e não tem condições para sair sem o devido apoio profissional.

As opiniões sobre a melhor forma de tratar dependente de drogas álcool, são divergentes, embora todas elas possam dá suas contribuições. A dependência química é um transtorno grave que exige tratamento imediato, mesmo à revelia dos enfermos. O sucesso desta iniciativa, como qualquer intervenção médica responsável, depende do acerto entre a medida indicada e as necessidades do paciente. Qualquer atividade de atenção e assistência a esses enfermos devem estar em consonância com os princípios médicos é ticos e legais, é o que estabelece a Lei 11.343/06.

São raros os casos de dependentes de drogas e de álcool, que se recuperam sem o auxílio da família, dos profissionais ou de terceiros, nesse sentido de apoiar esses enfermos. Uma pesquisa americana revelou que 50% dos dependentes químicos apresentam algum tipo de transtorno mental, sendo o mais comum deles a depressão, transtorno de personalidade e outros transtornos mentais. Muitos são inaptos para avaliara a própria doença e a nocividade do seu comportamento, por isto mesmo, não aceitam qualquer tipo de ajuda.  

A Lei Federal, acima citada, busca apoia-lo, protege-lo e dar-lhe seu direitos e garantias e total apoio a suas demandas, médico, sociais e de direito a ele e a suas famílias, procurando garantir-lhe o melhor de uma assistência, ambulatorial ou hospitalar.   

Estudos recentes mostram que o fato de alguém se internar em um hospital para se tratar involuntariamente, voluntariamente ou de forma compulsória não macula o resultado destes tratamentos através dessas modalidades de internação, pois os pacientes podem se beneficiar do que lhe é oferecido através das mesmas. O que não se concebe mais nos dias atuais é esperar que um doente mental grave como são os dependentes de álcool e outras drogas decidam, tão somente, se querem ou não se tratar já que lhes faltam estas prerrogativas em razão de suas doenças.

A dependência química é uma condição médica e psicossocial grave que impõe a esses enfermos, a seus familiares e a sociedade em geral, alterações profundas em seu comportamento pessoal e social. A consciência, a cognição, os afetos, as emoções e o desses enfermos estão comprometidas profundamente, altercando-lhes, por conseguinte sua autocrítica, sua auto avaliação e as capacidade de só se recuperar, havendo, por conseguinte uma necessidade imperiosa de se tratar e muitas das vezes, pelas razões acima, em um ambiente hospitalar.

Em havendo indicação médica especifica, suporte, apoio e autorização familiar para proceder uma internação involuntária que será para proteger esses enfermos de cometerem atos contra si e contra os outros, ameaçando-lhes a própria vida. De tal forma, que não é maldade, violência, ou restrição de direitos humanos nessas internações, involuntárias ou compulsórias (judiciais), pelo contrário, todas estão a serviço da família e dos enfermos.

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Para onde estamos caminhando?

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            São notórias as mudanças que a sociedade vem passando nas últimas duas décadas. Avanços científicos, desenvolvimento tecnológicos, mudanças sociais profundas, políticas públicas em ebulição e muitos outros aspectos que vem influenciando diretamente a saúde, o comportamento, a segurança pública e social e o bem-estar da população.

              Toda essa mudança tem ocasionado impactos enormes na saúde mental da população. Destaca-se o crescimento geométrico de transtornos depressivos e de ansiedade, bem como e de outras doenças mentais na população e surgimento de novas categorias de enfermidades psiquiátricas originárias das novas e modernas tecnologias que tomaram conta do mundo. Uma dessas enfermidades, é a dependência de eletrônicos, também denominados de vícios em internet.

             Muitas dessas dependências, relacionadas ao uso de internet, a bem da verdade, ainda nãos se constituem como “doenças ou enfermidades médicas ou psiquiátricas” oficialmente, porque ainda não figuram nas classificações internacionais das doenças humanas catalogadas pela Organização Mundial da Saúde – OMS. Todavia, centenas de estudos e trabalhos internacionais, apontam que esses exageros e apegos disfuncionais observados em muitas pessoas, no uso dessas ferramentas, estão levando muitos usuários a se comportarem como verdadeiros viciados nessas modernas tecnologias o que tem levado os pesquisadores, do mundo todo, a identificarem esses problemas como os que certamente aparecerão nas próximas edições das classificações internacionais das doenças ou CIDs.

          O termo vício, embora ainda se use muito, permanece muito carregado de segregação e preconceito. Pois é uma condição excludente e marginalizante, do ponto de vista psicológico e social. Significa um defeito grave que torna uma pessoa inadequada para certos fins ou funções. O viciado tem inclinação para prejuízos e são considerados pessoas desagregadas, descontroladas. À luz da Psiquiatria contemporânea, esse termo está sendo substituído amplamente, por dependência e está relacionado aos indivíduos com hábitos disfuncionais ou patológicos, em especial para o consumo de álcool e outras drogas.

            Com a era tecnológica muitos usuários desses sistemas estão apresentando comportamentos disfuncionais, muito parecidos aos dependentes químicos, onde a diferença central é que no caso das teologias digitais, a droga não estar presente e sim os esses modernos meios eletrônicos que fazem parte desta nova sociedade tecnocrática. Estes comportamentos produzidos pela era digital, passou-se a denominar “vícios eletrônicos” ou dependentes virtuais ou dependentes de internet.

            A internet, ponto central dessa nova era, é um conhecimento que veio com força total, desbancando tradições, conhecimentos e atitudes humanas consagradas ao longo da história. Ela conseguiu, a um só tempo, inovar e redefinir novos paradigmas comportamentais, familiares e sociais e construir novos tempos e novas formas de relações humanas. A grande rede de computadores (www) transformou o mundo, o homem e suas relações, cresce a cada dia e seu alcance é inimaginável. A internet, deixou o homem, menos singular e mais plural, menos restrito e mais global, menos voltados para si e mais voltado para o mundo, menos local e mais telúrico, menos real e mais virtual, mais cético e menos crítico, mais lógico e menos sensível. Isto é, provocou mudanças profundas no homem tanto em seu modo de ser, quanto no de existir.

            Filhotes da rede estão os tablets, os celulares, os computadores, os smartfones e outros fabulosos aparelhos eletrônicos que, indiscutivelmente, vieram para ficar e conquistaram o homem por inteiro por atingirem suas aspirações essenciais: como o prazer, o utilitarismo, o imediatismo, a rapidez, a materialidade. A tecnologia digital atende plenamente essas demandas e nos dá tudo que precisamos sem fazer esforços e nos agrada em geral. Os brinquedos eletrônicos, os aparelhos inteligentes, tornaram tudo mais fácil e praticamente tudo ao nosso alcance.    

       As filhotas da internet são as redes sociais. Nosso país, a cada dia se notabiliza como um dos mais importantes do mundo entre os países usuários de redes sociais e de equipamentos eletrônicos e já detém o terceiro lugar no mundo de acessos à redes sociais especialmente “Faceboock, Tweter e Linked-in” e Instagram.   

             Nessa perspectiva, as seduções pelas virtualidades se escancararam. Imagine, uma pessoa poder falar com todo mundo sem abrir a boca, sair de casa sem dar um passo, amar sem sentir o corpo e a voz da pessoa amada, se comunicar sem fazer qualquer esforço real, trabalhar sem sair da cama ou da mesa de sua casa, fazer amor, noivar, namorar, se casar, sem nunca ter visto sua cara-metade, ou mesmo ter ouvido sua voz, seu cheiro, seu suor, a consistência de sua tez ou nunca ter sentido um olhar profundo de seu parceiro ou parceira. É fantástico, fabuloso e muitos estão embarcando nisso sem pena e sem piedade. Ante essa coisa maravilhosa o que mais queremos para o futuro?

            Os exageros no uso, as relações desmedidas, a cada dia faz crescer no mundo as ocorrências de pessoas que passaram a apresentar graves distúrbios afetivos, emocionais e comportamentais, associados diretamente ao abuso de internet ou de redes sociais. Vejam, por exemplo, que desde 2017, os jogos eletrônicos já passaram a se constituir como entidade clínica no rol das doenças humanas da OMS, os dependentes de jogos eletrônicos.

            Pessoas outras, que não fazem outra coisa na vida, que não ser se conectar e permanecer ligado ou logado o dia todo com essas atividades ditas virtuais. Outras, deixam de cumprir seus compromissos, seus estudos ou suas relações familiares, de lazer ou mesmo de trabalho para se dedicarem, exageradamente, às redes sociais ou a contatos virtuais.

          Queixas de atritos conjugais, familiares, no trabalho, passaram a ser muito frequentes nos consultórios psiquiátricos. Muitas outras queixas em muitas outras áreas passaram a ser relevantes: casamentos rompidos precocemente, conflitos entre pais e filhos e nas relações amorosas e de trabalho, estão sendo muito influenciados por uso problemático dessas tecnologias. Comportamentos ciumentos doentios, atitudes de hostilidade, sentimentos de possessividade e impulsividade nas relações pessoais, dificuldades nas relações sociais são também muito influenciados pelos mesmos motivos. O fato, é que muitas pessoas desavisadas e incautas estão indo muito fundo ao pote. Mergulham, profundamente, nessas virtualidades, oferecidos por esse mundo mágico e sedutor e se perdem, por prejudicar, formalmente, a necessária noção dos limites e do equilíbrio mental e comportamental, face a essas inovações.

            O perfil clínico e epidemiológico destes “novos doentes” está sendo construído e acredito que em um futuro próximo, possam ser anunciados e passaremos a saber melhor sobre os mesmos. Sabe-se, todavia, que são doentes graves, evoluem de forma sutil, progressiva e insidiosa e quando já são percebidos, já estão muito comprometidos mentalmente.  

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Os vícios da vida moderna

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      O termo vício segrega, marginaliza e não define essencialmente o sentido para o qual é aplicado, muito embora ainda seja muito utilizado em diferentes sentidos e ocasiões. É um termo preconceituoso e excludente do ponto de vista pessoal e social. Em Dicionário Etimológico Nova Fronteira, do Latim, “vitiun”, significa “defeito grave que torna uma pessoa inadequada para certos fins ou funções”. O viciado se inclina para o mal e é considerado desagregado, descontrolado e sua conduta é desaprovada e condenável, sendo ainda considerado por alguns um “devasso licencioso”.

             À luz da Psiquiatria moderna, o termo está em desuso e quando ainda se aplica relaciona-se aos indivíduos com maus hábitos, em especial para usuários de álcool, tabaco e outras drogas. Sobre esses usuários, ainda hoje predomina uma visão moralista sobre o assunto, por isso mesmo eram pessoas, injustamente, alijadas do convívio social. Modernamente, a designação de “viciado” foi substituída por “usuário disfuncional ou dependente”.

            Com o avanço científico e tecnológico, marca indelével da vida moderna, vem surgindo diferentes comportamentos humanos, que do ponto de vista pessoal e social, não são muito diferentes dos que existiam antes do desenvolvimento destas tecnologias. Alguns dos comportamentos da modernidade e da pós-modernidade são bem parecidos aos comportamentos dos “antigos viciados em drogas”. A grande diferença é que no lugar das drogas de abuso, estão presentes os modernos equipamentos tecnológicos desta nova sociedade tecnocrática. Esses “vícios modernos”, produzidos pela era digital e tecnológica, e muitos outros comportamentos originados das modernas tecnologias, passaram a ser denominados vícios eletrônicos”.

            Capitaneando todas estas inovações e redefinido novos paradigmas nas relações humanas, está a internet, um recurso fabuloso inventado pelo homem moderno a partir da grande teia de computadores que está transformando o mundo real em um mundo virtual e o homem em um Cyberman. A internet o deixou menos singular e mais global, menos local e mais telúrico, menos material e mais virtual, mais cético e menos crítico, mais lógico e menos sensível.

            Entre os filhotes dessas tecnologias modernas estão os tabletes, os smartphones, as redes sociais, os computadores modernos, as TVs inteligentes e interativas e muitos outros aparelhos eletrônicos, fabulosos, que conquistaram o homem moderno, definitivamente. Esses compõem a tecnologia digital contemporânea, os quais nos dão tudo que precisamos para viver com o menor esforço possível, o que nos agrada muito.

          Os brinquedos e jogos eletrônicos, o ensino, o conhecimento, o lazer, o trabalho tornaram-se mais simples e fáceis, efetivamente ao nosso alcance. Os avanços prosseguem e a todo instante nos surpreendemos com tantas novidades, descomplicando a vida.  Houve tanta mudança nessa área que hoje namora-se, noiva-se, casa-se, viaja-se, forma-se, estuda-se, sem sair de casa ou do local onde se está.

            As filhotas da internet são as redes sociais. O Brasil detém o terceiro lugar no ranking internacional de acessos às redes sociais, especialmente Faceboock, Instagran, Tweter e Linked-in. Talvez não haja algo mais sedutor e prazeroso do que você falar com todo mundo sem abrir a boca, cumprimentar a todos sem estender as mãos, tornar-se visível ao mundo com um selfie, ir a todos os lugares sem sair de casa.  Amar ou se apaixonar por alguém sem sentir seu cheiro, seu corpo ou sua voz. Seguir ou ser seguido por milhares de pessoas sem conhecê-las, sem apertar suas mãos, ou abraçá-las. De trabalhar, produzir e ganhar dinheiro sem sair de casa. E todos esses comportamentos carregados de muito prazer e contentamento. Que coisa fabulosa! Diante de tudo isso, o que mais queremos para o futuro?

            Todos esses ganhos e benefícios fizeram com que os incautos e exagerados fossem “fundo ao pote”. Mergulharam de cabeça, profundamente, neste mundo virtual, maravilhoso e mágico e perderam os limites. Ficaram doentes e adoeceram suas famílias. Esta é a mais nova categoria de doentes mentais que se insurge nos tempos modernos, produzidos pela era eletrônica, ou seja, os dependentes em eletrônicos.

            O perfil epidemiológico dessas pessoas, dependentes de redes sociais, smartphones, tabletes, WhatsApp, e outros meios e equipamentos tecnológicos, está sendo construído, acredito que em um futuro próximo se possa saber melhor psicopatologicamente quem são esses “viciados em tecnologias”. Por enquanto, de oficial, somente os dependentes de jogos eletrônicos estão incluídos na nosologia psiquiátrica pela Organização Mundial da Saúde – OMS. São enfermos tão graves quanto os dependentes de álcool e de outras drogas, pois se revelam de forma sutil, progressiva e insidiosamente e vão evoluindo lentamente. Quando menos se espera, já apresentam distúrbios comportamentais, emocionais, afetivos e relacionais graves, acompanhados de desadaptação psicossocial, ocasionados pelo apego disfuncional aos eletrônicos e redes sociais.

            Para agravar mais ainda essa situação,  a “enfermidade eletrônica” revela-se não somente pelo apego doentio a esses sistemas, apresentam também profunda solidão, não conseguem viver sem esses equipamentos ou redes sociais, referem ansiedade e desprazer. Ao não ter acesso aos mesmos, isolam-se de todos, passam mal, tornam-se desadaptados, abandonam outras atividades que lhes são importantes, desrealizam-se, apresentam medos na convivência, tornam-se desconfiados, inseguros e depressivos. Esses, sãoalguns dos atributos psicopatológicas encontrados nessas personalidades.

            Do ponto de vista médico, o diagnóstico e o tratamento desses enfermos se constituirá como um dos mais importantes desafios para a Psiquiatria moderna, para a Psicologia e para a saúde mental, pois o número deles é cada vez maior e os danos à saúde mental e social são avassaladores.

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Síndrome do Pânico 

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Medo e pânico são duas palavras que andam em par, deflagradas sobretudo por crises de insegurança e ansiedade. A primeira é uma reação natural, fundamental para manter a vida e protegê-la. A segunda, uma deformação da primeira, uma anomalia, uma disfunção. A sensação de ambas, todavia, é muito parecida. Deixam o indivíduo em estado amplo de perplexidade, insegurança geral e sempre acompanhada de um mal-estar profuso e inexplicável. Transtorno do Pânico, que é a nomenclatura correta a ser aplicada a essa condição clínica, até bem pouco tempo era conhecida como síndrome do pânico.

               A palavra “pânico” remonta da Grécia antiga, da figura mitológica do Deus Pan. Segundo a mitologia grega, Pan era um Deus extremamente feio (metade homem, metade cabra) vivia isolado entre as montanhas da Arcádia, para não ser visto pelas pessoas. Quando Pan aparecia na Ágora, onde as pessoas se reuniam, elas ficavam horrorizadas e desesperadas com sua presença.  Sentiam muito medo, pavor e muitos se tornavam desesperados, por isso o nome, pânico.

              Nos últimos anos, inúmeros estudos e pesquisas tem sido desenvolvido, no mundo todo, com o intuito de se conhecer melhor a denominada “Síndrome do Pânico”, tanto nos aspectos clínicos, quanto os tratamentos psicológicos, biológicos ou psicossociais realizados para seu controle.

               Historicamente, desde Freud, já havia aportações sobre a natureza dessa doença. Ele procurava analisar casos hoje caracterizados como doença de pânico e já na ocasião descrevia como “ataques de ansiedade”, incluídas na categoria das chamadas neuroses atuais. Em um desses casos, detectou um “retorno de experiência traumática relacionadas com algum acontecimento trágico do passado”. Mas as teorias psicanalíticas, mesmo depois de muito aperfeiçoamento, esbarram em sérias dificuldades para explicar por que os pacientes apresentam tais quadros clínicos.

                Na atualidade, os mais importantes estudos sobre o Transtorno do Pânico ocorrem na área da Psiquiatria e das Neurociências, as quais explicam esse transtorno a partir de disfuncionalidade do sistema nervoso central, do ponto de vista, biológico e neuroquímico. Haveria, por assim dizer, uma disfunção acentuada e específica na regulação da ansiedade, em áreas especiais desse sistema (septo, amigda e hipocampo), que, em se alterando, produziria todos os sintomas hoje conhecidos que fazem parte da doença do Pânico.

                Outra área muito importante que abriu fabulosos caminhos para sua compreensão, são os estudos de psicofarmacologia clínica, um capítulo da farmacologia encarregada dos medicamentos psicotrópicos, ou seja, medicamentos utilizados para o tratamento das doenças mentais, emocionais e comportamentais.

                Outros avanços, importantes dessa matéria, se deram na abordagem psicológica no tratamento desses enfermos. Várias abordagens psicológicas são sugeridas para esse tratamento, no entanto, o que mais tem gerado melhores resultados é a terapia cognitivo-comportamental – TCC, ferramenta muito importante na recuperação desses enfermos, sobretudo quando essa técnica está associada ao tratamento médico. Outras abordagens, como as conductivistas ou comportamentais, behavioristas, psicanalistas, embora tenham suas importâncias não se revelam como as melhores estratégias terapêuticas para se tratar do pânico.                                                

            O Transtorno do Pânico (TP) é descrito como um período de intenso medo ou ansiedade, acompanhado de sintomas somáticos, psíquicos e comportamentais. Tem um início súbito e rapidamente atinge uma intensidade máxima em poucos minutos. A ansiedade, característica de um ataque de pânico, é intermitente, de natureza paroxística. Cada ataque, dura em média entre 25 a 30 minutos e mesmo que não haja uma intervenção, o ataque se encerra. O mal-estar é crescente, a ponto de, em apenas alguns minutos, o mesmo toma conta da pessoa, passando a sentir vários dos sintomas entre os elencados abaixo. Outra particularidade, é que, para se firmar o diagnóstico definitivo de Transtorno de Pânico, esses ataques deverão ocorrer no mínimo uma vez por semana associados aos outros requisitos, apontados acima. Eis, alguns dos seus sintomas:

1) Falta de ar (dispneia) ou sensação de asfixia

2) Vertigem, sentimentos de instabilidade ou sensação de desmaio

3) Palpitações ou ritmo cardíaco acelerado (taquicardia)

4) Tremor ou abalos

5) Sudorese

6) Sufocamento

7) Náusea ou desconforto abdominal

8) Despersonalização ou desrealização

9) Anestesia ou formigamento (parestesias)

10) Ondas de calor ou frio

11) Dor ou desconforto no peito

12) Medo de morrer

13) Medo de enlouquecer ou cometer ato descontrolado.

       Há Transtorno do Pânico com ou sem agorafobia, que é um medo de estar em espaços abertos ou no meio de multidões. Agorafobia, muitas das vezes, é consequência de sucessivos tratamentos malsucedidos ou mal orientados, ou por uso inadequado de medicações, ou pelo fato da pessoa não ter tido a oportunidade de procurar   um especialista precocemente, antes mesmo da doença se cronificar.

      Vale a pena lembrar que, para o médico formular o diagnóstico de Transtorno do Pânico de forma definitiva, faz-se necessário, a realização de exames clínicos e laboratoriais, para saber se o paciente não é portador de outras doenças, que podem provocar também ataques de ansiedade aguda.

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As múltiplas facetas do descuido – III

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           Conforme anunciei anteriormente, esse é o terceiro e último artigo em que trato das questões familiares e do processo de educação dos filhos. Nos dois artigos anteriores procurei tratar de fatores da vida moderna, tais como: a necessidade premente de ambos os pais se ocuparem muito no dia-a-dia; a dificuldade de estabelecerem limites na educação das crianças; a falta de autoridade de ambos os pais; a falta de diálogo e de convivência entre pais e filhos; a violência doméstica; bullying na família e, fundamentalmente, o silêncio categórico que vigora atualmente dentro de casa. Estes são considerados, na atualidade, os mais importantes fatores predisponentes ao desenvolvimento de inúmeros problemas psiquiátricos, psicológicos e psicossociais na população infanto-juvenil.

            Tenho dito que, em grupo ou isoladamente, esses fatores elencados funcionam de forma decisiva para gerar problemas de caráter ou de personalidade nas crianças. Portanto, tais situações constituem-se como graves ameaças à saúde mental, emocional ou social dessa população, que por natureza e/ou por idade já são vulneráveis.

            Por falar nisso, sabe-se que esse assunto de saúde mental, na contemporaneidade, é uma questão absolutamente relevante e de interesse geral. Nunca se adoeceu tanto, mental, emocional e socialmente, quanto hoje. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que vivemos em uma sociedade enferma, complicada, confusa e que funciona sob condições de profundos desajustes, especialmente nas relações pessoais. Ao mesmo tempo, percebe-se que o mundo contemporâneo repleto de perdas profundas de valores, constrangimentos pessoais sucessivos, aborrecimentos pessoais e frustrações constantes, desrealizações sociais e pessoais, fracasso e decepção diante projetos de vida, descrença geral e uma avassaladora insegurança da população, constituem-se como base do mal-estar geral das pessoas, das famílias e da sociedade.

               Como resposta a tudo isso, cresce, assustadoramente, o número de pessoas enfermas psíquicas, desadaptadas sociais, portadores de diversos quadros psicopatológicos. Entre eles, destacam-se: depressões severas em todas as idades, quadros graves de transtornos de ansiedade, consumo cada vez maior de drogas de abuso (sobretudo maconha e cocaína), índices alarmante de suicídio avançando na direção de pessoas de menor idade, homicídio, feminicídio, desagregação familiar e muitos outros problemas de saúde, legais e psiquiátricos.

          E todas essas mazelas psicossociais e médicas, inseridas em profundas transformações socioculturais, éticas e religiosas e permeadas por problemas socioeconômicos (desemprego e subemprego), passam a se constituir como um cenário complexo e desafiador quanto ao modo de viver das pessoas da modernidade.

            Nesse artigo, destacarei um desses fatores, quiçá um dos mais importantes e que fere, profundamente e às vezes de forma mortal uma criança: o silencio (ou distanciamento e a falta de relacionamento que vem ocorrendo nas relações pais-filhos). Vejam esse exemplo, recentemente atendi um jovem de 14 anos, em meu consultório e perguntando-lhe sobre como iam as relações dele com a família, me dissera: “Dr. Quando tento falar com meu pai e não consigo, por ele está sempre muito ocupado, é como se me matasse”. Essa declaração eu ouvi de um adolescente e demonstra, claramente, como um jovem se sente em não ser ouvido, em não poder conversar, dialogar ou mesmo compartilhar algo com os pais. Esse silêncio entre pais e filhos é avassalador, produzem crianças inseguras, amarguradas, infelizes, carentes, desconfiadas, e com uma sensação de profunda desvalia, no mais profundo sentido mais desses termos. O silêncio se materializa, concretamente, pela falta de comunicação que não há entre pais e filhos, pois esses não conversam.

         O silêncio, também se revela através dos maus tratos, do autoritarismo, da desatenção, da falta de um abraço, de um aconchego, de um colo, de um beijo, de uma palavra de carinho, pois esses não têm tempo para os filhos ou para dar-lhes o mínimo de atenção possível.

        Portanto, o silêncio, é algo dinâmico que atinge profundamente a criação dessas crianças, desde a mais tenra idade, até idades posteriores, ele, passa a enfraquecer a alma dessas criaturas, deixando-as isoladas, ensimesmadas e revoltadas e mais voltada para dentro de si mesmas.  Muitas atitudes estranhas, inusitadas, esquisitas, observadas em filhos oriundos dessas famílias não são percebidas nem por pai nem por mãe, devido ao profundo afastamento que há entre eles. Tem pais que descobrem que o filho usa droga aos 17 anos, embora tenha iniciado aos 12 ou 13. Outros, não sabem o ano que o filho está cursando na escola e muitos não sabem nem o dia do seu aniversário dos filhos.

           Muitos pais, por não poderem mudar o seu “modus vivendi”, apesar de reconhecerem-se responsáveis por grande parte dessas dificuldades, passam ser mais muito indulgentes, condescendentes, permissivos e transigentes. Outros perdem o comando e o pulso na educação desses filhos, e se tornam omissos e negligentes. Outros ainda, se tornam autoritários, dominadores e violentos com os filhos que lhes cobram atenção e outros ainda, passam a premiá-los, indevidamente, como se pedissem desculpas por não poder estar ao seu lado ou compensá-los por suas ausências: “mea-culpa, mea- culpa, mea máxima culpa! É o que querem dizer.

           Vejam as criancinhas de hoje que desde muito cedo já carregam um tablet, um smartphone, já acessam jogos eletrônicos, redes sociais, WhatsApp, e-mails e muitos outros recursos e usam esses equipamentos todos os dias e as vezes o dia todo, sem qualquer controle. Não sabendo esses pais que a educação não se dá com permissões exageradas, ou por concessões desmedidas, muito menos com atitudes desmerecidamente indulgentes ou uma criação sem regras, sem controles e sem limites.

            A educação se dá em um clima de conversa, de entendimento, levando-as a respeitarem a autoridade dos pais, as normais e regras vigentes na família, respeitar valores éticos e dar muito amor, atenção e carinho, é através disso que se educa e desde que cheguem ao mundo.  As crianças se alimentam da voz da mãe e do pai, do calor, do aconchego, do abraço, do colo, do carinho, da autoridade, da firmeza, da atenção, da sinceridade, da franqueza e da confiança em seus pais. Se lhes falta isso, tornam-se “desnutridos afetiva, social e psiquicamente e porque não dizer enfermos existenciais”. Serão carentes e vazios e tentarão a vida toda compensar essas deficiências.  

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As múltiplas facetas do descuido – II

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Semana passada postei aqui, o primeiro de três artigos destinados a examinar as crises que vêm ocorrendo no seio de nossas famílias. A ideia foi relacionar uma série de acontecimentos os quais podem estar contribuindo para graves problemas familiares, especialmente na educação dos filhos.

Neste segundo artigo, tratarei sobre os avanços tecnológicos, internet, redes sociais, entretenimentos (vídeo games etc), equipamentos tecnológicos e a relação disso com a a educação dos filhos, dentro e fora de casa.

         Iniciaria, perguntando: alguém duvida que os avanço tecnológicos, são importantes para a humanidade? Que sua aplicação, em todas as áreas, vem trazendo grandes benefícios? Como trabalharíamos, estudaríamos, nos relacionaríamos, ou garantiríamos nossa sobrevivência, nos dias atuais, sem os recursos dessas tecnologias? Como avançaríamos no rumo do desenvolvimento social, científico e tecnológico sem a interveniência desses recursos? E nossa capacidade produtiva, nossas relações sociais, a segurança, a saúde, as outras áreas humanas, como seriam sem esses dispositivos? O entretenimento mudou ou não mudou com jogos e outras diversões eletrônicas?

        Essas são algumas questões que me parecem relevantes para esclarecer o significado desses avanços tecnológicos na sociedade moderna. O mundo mudou, tornou-se pequeno, as relações humanas não são as mesmas de 30 anos atrás, pois bastam alguns cliques em um teclado para vasculhar o mundo e deixá-lo ao nosso alcance. As distâncias se estreitaram em tempo real, estamos vivendo em múltiplos lugares sem sair do lugar e em qualquer lugar alcançamos tudo em uma velocidade surpreendente.

       Como produto dessas invenções, surgiram as redes sociais, que se abastecem, de tudo o que é bom e do que não presta.  Essas redes virtuais emanam da Sociologia e Antropologia Social, no final do século XX, como um novo paradigma das ciências sociais, aplicada e desenvolvida em disciplinas como a antropologia, a biologia, os estudos de comunicação, a economia, a geografia, as ciências da informação, a psicologia social e, sobretudo, no serviço social. Portanto, as redes sociais virtuais têm bases nas ciências aplicadas.

            Elas operam em diferentes níveis: relacionamentos (facebook, Orkut, Myspace, Twitter, Instagram, WhatsApp, etc.), profissionais (como Linkedin), comunitárias (redes sociais em bairros ou cidades), aplicadas à saúde, segurança e em muitas áreas. Ganham, a cada dia, mais importância e notoriedade, especialmente devido a sua capacidade de se expandir e compartilhar informações, disseminar conhecimentos, fazer amizades, garantir interesses, estudos, negócios, política, etc.

            E assim a coisa foi se desenvolvendo. Até aí, confesso que não vejo problemas sobre essas redes. Caso as relacionemos com as mazelas sociais e familiares, estamos tentando encontrar um bode expiatório para problemas que estão muito além dessas redes e dessas tecnologias. É bom que se diga que redes sociais, internet, equipamentos eletrônicos e outros ingredientes tecnológicos são meios e não fins em si mesmos.

          O maior sentido e importância de cada um desses elementos está em sua utilização, de tal forma, que não podemos atribuir a qualquer um deles a prerrogativa de fazer bem ou mal às pessoas ou à sociedade. Aventar que jogos eletrônicos, games, redes sociais, internet são causas disso ou daquilo pode ser um sofisma, afirmando que são elas os vilões desses graves problemas familiares, incluindo, certamente, o que vem ocorrendo com a educação dos filhos.

          O que está em jogo, ao meu ver, em matéria dos conflitos na educação dos filhos, são aspectos muito mais profundos e mais complexos. Ocorre que, devido aos alcances e aos enormes benefícios dessas redes, muitas pessoas foram se seduzindo, de forma incontrolável e se entregaram a elas de “corpo e alma”, a ponto de adoecerem, perderem a noção de adequação e racionalidade em seu manejo, em suas diferentes áreas de aplicação: entretenimento, lazer, profissionalismo, negócios, relações amorosas, comunicação, etc.

           Pai e mãe, filhos, irmãos, pais e filhos, amigos, marido e mulher, estão usando esses dispositivos abusivamente, inconsequentemente, obsessiva e descontroladamente, às vezes sacrificando muitas ocasiões de bons relacionamentos, onde poderiam crescer e se desenvolver com bom diálogo. Mas, muitos ficam clicando boa parte do tempo em seu smartphone, tablet, etc., de forma insubstituível, deixando esses grandes momentos de lado pelos cliques nas redes sociais.

           Hoje, dentro e fora de casa, as conversas verdadeiras, afagos, reuniões familiares, entretenimentos, compartilhamentos, em diferentes ocasiões, ocorrem raramente e parecem ser coisas do passado. As relações entre e inter-humanos que são reais e verdadeiras estão se dando de forma também efêmera e virtual e cada vez mais superficiais e quando isso ocorre é por pouco tempo, para logo em seguida as pessoas se recolherem ao seu anonimato e à sua vida solitária. Tem gente que quando acorda já pega seu telefone, tablet ou notebook e vai ver o que está ocorrendo no mundo e só depois, cumprimentam os outros de casa. Acordam os filhos para a escola ou se preparam para o trabalho. Nunca as pessoas se cumprimentaram tanto na vida. Bom dia, boa tarde e boa noite enchem as redes sociais, mas se alguém cruzar com alguém no elevador, na rua ou em qualquer lugar, não abrem a boca, não se cumprimentam, ficam em silêncio clicando nos celulares.

             Quem usa, o que usa e para que usa definirão a utilização dessas tecnologias. Sobre jogos eletrônicos, esses são brinquedos, são entretenimento e lazer, muito embora existam os que não prestam e disseminam o mal. Coisas ruins que circulam na internet e que podem prejudicar a nós e a nossos filhos, são criadas por psicopatas, organizações criminosas, pessoas insensíveis e irresponsáveis, que não têm compromissos sociais.

         As ameaças desses bandidos, criminosos e aliciadores surgem sob qualquer forma, em qualquer tempo ou em qualquer de nossas idades. Tráfico de drogas e de seres humanos e outros crimes cibernéticos deverão fazer parte das atividades de controle dos pais. São eles que deverão controlar esses acessos dos seus filhos. Controlar o tempo de uso, orientá-los sobre as ocasiões em que podem usar tais equipamentos, denunciar bandidos às autoridades policiais competentes, tais atitudes são o mínimo que podemos fazer para proteger nossas crianças das coisas terríveis que circulam na internet.

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As múltiplas facetas do descuido – I

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             Alguém tem dúvidas que vivemos dias muitos ruins do ponto de vista das relações familiares? Os pais estão cuidando de fato de seus filhos? Esses filhos, da modernidade, têm respeito por pai ou mãe? Reconhecem a autoridade dos mesmos? Há dialogo, compartilhamento ou companheirismo nas famílias modernas? Nossos filhos estão engajados em alguma questão social, algum partido político, na comunidade, na igreja, em algum clube de serviço ou esportivo ou em qualquer outra atividade social? Os pais sabem, inteiramente, o que acontece com seus filhos, fora de casa?

              Eis, algumas questões que estão na ordem do dia. Pode até parecer que estas perguntas, sejam duras, incisivas ou inquietantes, mas nem todas as famílias estão preparadas para respondê-las. Por outro lado, pode até ser que os pais, me respondam uma atrás da outra, sem titubear, com explicações dignas de nota, mas uma coisa posso garantir-lhes todas essas questões estão fazendo parte das nossas inquietações, do mal-estar geral de muitas famílias.

           Quando se parte para discutir educação familiar, em qualquer ambiente, nas escolas, nas universidades, na comunidade, nas ruas, no trabalho ou dentro da própria família, a percepção de todos é que essa situação vai muito mal e a queixa é a sempre a mesma: a família está perdida e sem saber que rumo tomar.

           Esse é o primeiro de três artigos, que irei dedicar a esse assunto. Sei antecipadamente, da enorme complexidade que recaem sobre o tema, e que para mudar o que está aí, terão que ser adotadas medidas radicais e complexas que exigirão tempo e esforço de todos, inclusive do estado e da própria família, no sentido de readquirirmos a funcionalidades necessária para que as famílias modernas possam viver melhor.

         O primeiro fato que mencionarei, nessa série de artigos, é sobre a falência da autoridade dos pais na condução da educação de seus filhos. Quanto a isso todos sabemos o quão é grave essa situação e que colabora, sobremaneira, para os graves conflitos familiares. Os pais estão perdendo o comando, as rédeas, a autoridade na educação dos filhos, e não é de hoje que eles vêm se tornando reféns dos mesmos e não sabem o que fazer para mudar.

         A falência da autoridade dos pais é demonstrada através de várias maneiras. Uma delas, e uma das que mais nos chama a atenção é vê que filhos, cada vez com menos idade, tenham vida própria, antes do tempo. Todos sabemos, que até certa idade, filhos dependem dos pais, se protegem nos pais, se espelham nos pais e se nutrem dos pais, em todos os sentidos. Porém, isso ocorre, à proporção que vão crescendo e se desenvolvendo na vida. Mas, na atualidade, esses filhos desde muito cedo “vão pondo as unhas para fora” e os pais se tornam submissos aos mesmos. Comportamentos dessas crianças que põem em risco a disciplina, o controle das regras, das normas de convivência familiar, indispensáveis, para uma boa educação.

           Filhos, dependem dos pais, de tudo por tudo, até que adquiram autonomia e independência e a partir de então, adotarão o estilo de vida que lhes convier. Hoje, todavia, não é o que se vê. Eles agem desde cedinho como se fossem autônomos, independentes, cheios de vontade e donos de si e de todos. Fazem o que querem, fora e dentro de casa, dão as ordens na casa dos pais, e esses, progressivamente, vão se tornando refém, submissos e dependentes dos mesmos e sem força para contestar e comandar a p processo de educação. Não se posicionam em nenhum sentido, deixam os filhos tomarem conta da casa, um barco à deriva, sem saber que rumo tomar. Esse é um momento terrível na educação desses filhos, pois regra geral, um dos pais, passa a acusar o outro dessa perda de autoridade e desse fracasso. É um momento de acusações mútuas, atritos, e até embat4es corporais e de “busca dos culpados”, enquanto o isso, o filho reina sozinho.

         A falência da autoridade dos pais, se revela quando esses pais adotam atitudes autoritárias, dominadoras, violentas, agressivas e cruéis. Maus tratos, negligencia na educação, falta da segurança e dos cuidados a esses filhos, ferem, profundamente, a alma dessas crianças e provocam profundas alterações emocionais, de caráter, comportamentais e afetiva, na vida futura desses filhos. Quando os pais substituem esses comportamentos por uma relação harmoniosa e fraterna, regada com diálogos e companheirismo, os filhos se tornam mais saudáveis, seguros e gratos.

            A falência da autoridade dos pais se dá quando não há mais diálogo, não se conversam mais, se silenciam mutuamente e quando um não sabe sobre o outro. Essa estranheza domiciliar, gera monólogo e silencia todos. O silêncio impera entre Pai e mãe, entre irmãos, entre os pais e filhos, é a derrocada total. A falência da autoridade, nessas condições, é quando o silêncio ocorre, quando não se tem o mais que falar, ou quando os pais, por se sentirem culpados por os abandonarem, passam a ser permissivos, frouxas e sem autoridade e com medo de dizer não e de cobrá-los. Se sentem endividadas e submissos. A falta de limites, de ordem e de controle nas normas de funcionamento da casa, também expressa a falência da autoridade dos pais, condição fundamental para o desenvolvimento dessas crianças.

          Às vezes, para encobrir tudo isso, são apresentadas desculpas esfarrapadas: uns, apontam a falta de tempo, para estarem com os seus filhos, devido aos compromissos, ao trabalho e isso nãos os deixam estarem mais presentes em casa e perdem o precioso tempo de verem esses filhos crescerem e se desenvolvem nas etapas da vida. Outros, atribuem a correria do dia a dia, porque têm que trabalhar, ganhar dinheiro e pagar as dívidas, outros ainda, atribuem à internet, às redes sociais, aos games etc. Explicações sobre esses desleixos não faltam.

          Quanto a isso, a internet, os games, as redes sociais e outros entretenimentos online são a “bola da vez”, para explicar tais tragédias. O que houve em Suzano, foi atribuído, intensamente, a influência dos games violentos, os quais são hoje considerados os grandes vilões de muitas tragédias. Todos esses recursos eletrônicos e cibernéticos são hoje um importante meio de influenciar comportamentos humanas, sobre isso não há dúvida, mas dizer que os mesmos, são os grandes motivadores desses problemas familiares, não me convence. De tal forma, que o apego doentio, o uso compulsivo ou patológico de games, o uso indiscriminado e sem controle que ocorre dentro e fora de casa por crianças e adolescentes, às vezes, incentivados pelos próprios pais, já podem por si só, serem sinais inequívocos da desagregação profunda porque passa essa família.

             Portanto, fiquemos atentos aos fatos que ocorrem em nossas famílias com vista a garantirmos sua sagada missão, qual seja, a de assegurar a saúde, a segurança e o bem social e o pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes.

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Dependência de celulares

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          Semana passada, anunciaram na grande imprensa, uma pesquisa importante, realizada em todo território nacional, envolvendo o uso de telefone celular. E, alguns achados da pesquisa, demonstram uma situação muito complicada e preocupante entre as pessoas e o uso desses aparelhos.

           Os pesquisadores, descobriram que 15% dos brasileiros entrevistados, não conseguem ficar 1 minuto sequer sem o telefone celular; 7% deles, por só por 2 horas; 11% só conseguem ficar sem ele, por 6 horas, e 8% por apenas 1 hora. Sinais de inquietação, taquicardia, falta de ar, apreensão e inquietação por nãos disporem dos aparelhos ou por não terem acesso às suas funções, podem ser prenúncios de dependência. 27% dos entrevistados afirmaram que o uso do celular atrapalha a hora de dormir; 23% afeta a relação com outras pessoas e outros 23% informam que o celular tira a tenção nas tarefas diárias. Esses números são estarrecedores.

            Sabe-se que desde a metade dos anos 1990, o uso de aparelhos eletrônicos tem aumentado exponencialmente. Segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), Agência do Sistema das Nações Unidas, dedicada a temas relacionados às Tecnologias da Informação e Comunicação, já são mais de 7 bilhões de aparelhos celulares em uso no mundo, isso corresponde, a mais ou menos, um aparelho para cada ser humano na face da terra.

           Com o aperfeiçoamento progressivo desses aparelhos, chegou-se a era dos aparelhos inteligentes: Tvs, carros e fones inteligentes, ou smartphones, equipamentos dotados de múltiplas funções:   câmera fotográfica, filmadora de alta resolução, ampla acessibilidade a e-mails e redes sociais, pesquisas on-line, visualização de filmes e programas de TV, músicas, realização de transações financeiras, estudos e diversas outras possibilidades, além, evidentemente, do contato telefônico propriamente dito. Os smartphones vieram para ficar e sua chegada provocou, grandes transformações nos meios de comunicação.

         Como já era de se esperar, as pessoas foram com sede ao pote, no rumo desses equipamentos, pois afinal de contas, nãos se tratava, tão somente, de um telefone e sim de algo que nos dava um “plus” a mais, em nosso modo de viver.  O aparelhinho, deixa o mundo inteiro, literalmente, ao nosso alcance, bastando para tanto alguns “cliques” em seus teclados e, em poucos segundo as coisas mudam. Tem havido tanta evolução, que raras são as vezes que se vê alguém sem portar um celular, ou nas mãos, nos bolsos, nas bolsas e em todo lugar que se pode imaginar.

             Com o aperfeiçoamento dos aparelhos, surgiram novos hábitos e novas formas das pessoas se comportarem no mundo, ao ponto de muito delas perderem completamente a noção de adequação do seu uso. Passaram a usá-los de forma estranha, disfuncional e desvinculada das finalidades para as quais os mesmos foram inventados. A situação foi tão alarmante que no Reino Unido, a uns anos atrás, passou-se a designar esse apego patológico aos celulares de nomofobia (abreviação, do inglês, para: no-mobile-phone phobia), para descrever o pavor, o mal-estar, o estado de apreensão e todo uma angustia que urge nessas pessoas quando o telefone celular não estar disponível. Esse termo tem também sido muito utilizado para descrever a dependência ou uso compulsivo desses aparelhos.

             As taxas estimadas de dependência de celular podem chegar até a 60% entre os usuários. Um estudo brasileiro realizado pela pesquisadora Anna Lúcia King, da UFRJ, verificou que 34% dos entrevistados afirmaram ter alto grau de ansiedade sem o telefone por perto.

             Uma outra particularidade, ao meu ver, ainda mais preocupante é a utilização em massa desses aparelhos, especialmente fones e tabletes, por crianças e adolescentes, pois isso fatalmente irá provocar, desde cedo, comportamentos exagerados e descontrolados, próprios dos usuários disfuncionais. Milhões de crianças, com idades que variam ente dois ou três anos e adolescentes, com acesso livre, total, irrestrito e sem qualquer controle por parte dos pais e professores. O pior, é que essa prática é incentivada pelos próprios pais, não existindo qualquer disciplinamento sobre seu uso e nas escolas sem qualquer controle.

             Qual a perspectiva diante dessa situação? Uma delas, certamente, é o aumento de pessoas, precocemente, afetadas, emocional e psiquicamente, pelo uso disfuncional e desses aparelhos. A outra consequência direta, é o afastamento, lento e progressivo dessas pessoas da sua realidade. Isto é, as pessoas vão deixando de viver em seu dia a dia, suas responsabilidades, seus deveres, seus estudos e outros interesses para se fixarem ao telefone.

          As pessoas já afetadas pela nomofobia, já esboçam sinais de perda das habilidades psíquicas e sociais nos relacionamentos interpessoais, pois passam a ter dificuldades em estabelecer vínculos de amizade plenos e duradouros. Se tornam utilitárias, mediocrizadas e sem profundidade em nada que fazem e perdem a capacidade de se comunicarem.  

         A priorização do uso desses equipamentos, em detrimento de outros interesses é outro problema grave. As pessoas tornam-se fixadas nos celulares e deixam para trás todos os outros interesses, como estudos, trabalhos, atividades físicas e outras ocupações salutares. Passaram a desenvolver tolerância, que é aumentar progressivamente, o tempo de uso desses aparelhos e a apresentarem abstinência que é o fato de passarem mal pela falta dos mesmos, esses dois fenômenos são indicadores importantes para o diagnóstico da dependência.

             Os abusadores de celulares e outros equipamentos eletrônicos, têm maior chance de desenvolverem transtornos psiquiátricos como os da ansiedade, do humor (depressão) da impulsividade, que outros usuários que não estão nessa conjuntura. Problemas físicos, incluindo fadiga, patologia ocular, dores musculares, tendinites, cefaleia, distúrbios do sono e sedentarismo, são também sintomas relatados pelos dependentes. Além disso, esses usuários compulsivos apresentam maior propensão para acidentes automobilísticos ou quedas.

          Nessa perspectiva, outros médicos como os oftalmologistas tem demonstrado que crianças expostas a luminosidade contínua e excessiva, oriundas dos celulares, tabletes e computadores, poderá prejudicá-los, precocemente, com miopias e astigmatismo.  Portanto, os pais devem ficar mais atentos na relação com seus filhos com e os equipamentos eletrônicos, pois esses limites que tem que estabelecer são eles.

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Descontinuação dos tratamentos em Psiquiatria

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                  No universo dos tratamentos médicos, várias questões sempre são consideradas quando alguém procura um profissional para fazê-lo. Quando a busca do tratamento é na psiquiatria, as coisas se complicam um pouco mais. A pessoa que necessita desse tratamento, e em geral, também sua família, encaram isso como um fato especial na vida dessas pessoas, pois em geral para irem na busca desse apoio, fazem muito esforço para se superarem os enormes preconceitos que ainda há, quando alguém se decide a se tratar com um médico dessa área. Sem contar, que muitas doenças mentais, impedem senso de autocrítica que lhes permitiria perceber, que de fato, eles necessitem de um tratamento. Isto é, muitas dessas doenças mentais acabam dificultando que a própria pessoa reconheça a necessidade de se tratar, a doença não deixa claro em sua mente essa consciência a real da necessidade de buscar um tratamento psiquiátrico.

             Para tanto, várias outras etapas deverão ser percorridas até que se chegue ao tratamento propriamente dito. Um fato inicial, sumamente importante por parte do médico é buscar a confiança do paciente e dos familiares para a realização do tratamento propriamente dito e isso se adquire, entre outras coisas, estabelecendo-se um bom relacionamento médico-paciente e com a família do enfermo para deslanchar as propostas terapêuticas.

           Em um segundo momento, vem a expertise, a experiência e o necessário conhecimento médico e técnico do profissional para formulação de possível diagnóstico sobre o que se passa com esse enfermo. A colaboração da família e do próprio paciente, nessa etapa de investigação clínica é fundamental, pois muitas informações deverão ser solicitadas pelos mesmos para essa finalidade. Em geral, alguns procedimentos médicos e as solicitações de exames laboratoriais são relevantes para o fechamento do diagnóstico. Uma boa, competente a cuidadosa anamnese, o exame físico e a solicitação de exames laboratoriais, colaboram muito para fundamentar a proposta diagnóstica.

            Em um terceiro momento, após percorrido essas duas etapas anteriores e já tendo o diagnóstico em mãos, o psiquiatra irá formular o projeto terapêutico a esse paciente. Esse projeto terapêutico, nada mais é, que um conjunto de recomendações éticas técnicas que o profissional recomenda ao enfermo e a sua família, para tratar, prevenir ou reabilitá-lo, na totalidade de suas queixas e de seu sofrimento.  O projeto terapêutico, contempla todas as medidas que devem ser tomadas em bloco para o tratamento dessa pessoa e deve respeitar as particularidades de cada paciente e de sua condição social.

           Atualmente denomina-se, Projeto Terapêutico Singular – PTS, à rigor não se realiza, tão somente, pela participação só do médico, outros profissionais da saúde têm papeis relevantíssimos na consecução dos tratamentos. O médico, tem a responsabilidade de elaborar PTS, especialmente quanto sua execução e a supervisão. É no PTS que iremos definir um tratamento específico para cada pessoa, respeitando suas caraterísticas e particularidades biológicas, psicológicas, pessoais, sociais e culturais formulando-lhe uma atenção terapêutica especifica dentro dessas caraterísticas. Esse programa se aplica tanto em condições ambulatoriais quanto aos pacientes tratados em regime de internação hospitalar.

           E, é justamente no tratamento proposto que começam a surtir os problemas mais relevantes na área da assistência psiquiátrica. Pois muitos enfermos, lamentavelmente, não conseguem prosseguir um tratamento a contento pelo tempo necessário por descontinuá-lo, indevidamente, em qualquer das etapas que o mesmo se encontre.

         Hoje a descontinuação dos tratamentos em psiquiatria é um dos assuntos mais debatidos em rodas de conversas entre médicos e entre outros distintos profissionais da área da saúde se constituindo um dos temas mais relevantes que há na prática médica. Um complicador para isso, já vimos acima, é a ausência de autocritica, por parte do doente mental, sobre a própria necessidade de tratar sua doença e isso é próprio de algumas doenças psiquiátricas. Outro fator relevante é a inacessibilidade aos serviços da saúde mental em nosso meio e em nosso país. São muito poucos os profissionais dedicados a essa área, prestando assistência a muita gente que precisa desses cuidados. Nunca se adoeceu, mentalmente, tanto quanto se adoce hoje e os servidiços de saúde essa área, não acompanharam essa demanda.

           Outro fator relevante é desconhecimento (baixa formação especializada) de profissionais sobre o manejo adequado desses tratamentos. As dificuldades financeiras, devido o desemprego ou devido a baixa renda da população os impedem de adquirir esses fármacos ou realizar outras formas de intervenção terapêutica, é também um outro grande problema na consecução do tratamento. Enfim, vários fatores colaboram para essa problemática grave, do ponto de vista do tratamento psiquiátrico.

            O fato é que, do ponto de vista médico e psiquiátrico, ao se interromper um tratamento desse tipo, em qualquer uma de sus etapas ou realizá-lo de forma incorreta, as consequências são avassaladoras. A primeira delas é a possibilidade de cornificá-las o que, certamente, acontecerá com as interrupções sucessivas desses tratamentos. Hoje, todos sabemos, que tratar de doenças crônicas é muito mais complicado e de prognóstico sombrio. Sabe-se, que sucessivas interrupções em tratamentos dificultam muito a recuperação plena desses enfermos.  

              A refratariedade aos fármacos é outra possibilidade esperada em interrupções de tratamentos. Isto é, os medicamentos que anteriormente faziam efeitos e nos davam respostas clinicas satisfatórias, passam a não responder plenamente ao tratamento. Em geral, esses enfermos crônicos, passam a precisar de maiores doses dos medicamentos que faz uso ou adicionar outros fármacos para produzir os efeitos esperados. A organização Mundial da Saúde em um documento de 2016 estimou que em torno de 45% das recaídas em quem se trata de depressão foi atribuído à interrupção do tratamento que o paciente vinha fazendo. Isso, demonstra a importância de não interrompermos um tratamento, qualquer que seja ele em qual quer de suas etapas.

            Como podemos notar, a cronificação a refratariedade, as recaídas e o agravamento na evolução clinico dessas enfermidades psiquiátricas, poderia ser evitado caso prosseguíssemos com o tratamento que qualquer uma dessas fizerem jus.

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