Consumo de álcool e outras drogas na pandemia – IV

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               O Brasil figura entre os países que mais bebem no mundo. Os índices são alarmantes e cada vez mais ocorrem problemas advindos desse consumo, no plano da saúde, do social, da segurança, da violência urbana e doméstica e da economia e estes problemas se sobressaem, entre os tantos outros que temos em nosso país, ao ponto dessa questão, ser considerada um problema de saúde pública.

           Em média, cada pessoa no mundo bebe 6,2 litros de álcool puro/ano. Apenas 38,3% da população mundial faz uso dessas bebidas. Isso é, a minoria bebe pela maioria. Os que bebem, na verdade, estão consumindo 17 litros/ano, em média. O alto consumo provoca mais de 3,3 milhões de mortes/ no mundo e por volta de 200 doenças, estão relacionadas direta ou indiretamente ao consumo excessivo de álcool.

              Há em nosso país, um milhão de pontos de venda de bebidas alcoólica, isso corresponde, a mais ou menos, um ponto de venda para cada duas mil pessoas e isso é um número bastante elevado considerando que essa aditividade comercial, colabora bastante para as pessoas beberem. Nosso padrão de consumo de álcool é excessivo regular, isto é, as pessoas em geral bebem de forma exagerada (beber em binge), até se embriagarem, padrão de consumo, nefasto à saúde física, social e mental.

            O álcool etílico, farmacologicamente, é uma substância de múltiplas ações no Sistema Nervoso Central- SNC. Ele, deprime as atividades do cérebro, muito embora, o consumo de baixas doses, é euforizante. Paradoxalmente, em doses baixas, reduz a ansiedade e promove certo relaxamento e bem-estar. Porém, em doses excessivas e regulares, faz o contrário, provoca crises de ansiedade e mal-estar difuso, sono irregular, alterações do apetite, da atenção, da memória de curto prazo e do pragmatismo.

            O álcool é também hedônico (induz ao prazer), pois age, preferentemente, em áreas cerebrais responsáveis pelo prazer humano. Essa área é designada, na nomenclatura científica, como área de recompensa cerebral – ARC ou área do prazer. Justamente, por ser uma região do cérebro altamente rica em DOPAMINA, neurotransmissor cerebral, encarregado, entre outras coisas, de proporcionar prazer. Por isso, o álcool ingerido em pequenas doses, melhora o desejo, o desempenho, o apetite sexual, a disposição, o interesse, a capacidade cognitiva e as relações sociais. Em excesso, é altamente patogênico e faz, justamente, o contrário.

                 Outro dado epidemiológico importante, é que 65% da população brasileira bebe e entre 10 a 13% dessa população são dependentes de álcool (alcoólatras). No Brasil, Quase 3% da população, acima de 15 anos de idade é considerada alcoólatra, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Representa mais de 4 milhões de pessoas, nessa faixa etária. Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (II-LENAD), 32% da população brasileira bebe moderadamente e 16%, bebem de forma nociva.

                Como vimos acima, o uso de álcool ocasiona mais de 3 milhões de mortes por ano no mundo. No Brasil, cerca de 40 mil pessoas morrem por acidente automobilístico e 60 mil por homicídios. Esses dados mostram claramente a relevância desses problemas entre nós, nos chamando a atenção para a gravidade dessas questões.

             A OMS demonstra que o consumo de bebidas alcoólicas em pessoas acima de 15 anos, acelerou na década: em 2006 o consumo per capita/anual, era de 6,2 litros de álcool puro, em 2016 essa média passou para 8,9 litros/ano. O aumento é de 43,5%. Esses índices referendam estudos nos quais constatam que a população jovem brasileira está bebendo muito, ao ponto de, até 17 anos de idade 7% dessa população já serem dependentes de álcool. Isso é um problema muito grave do ponto de vista médico e psiquiátrico, pois todos esses jovens, com esse tipo de doença mental (alcoolismo), irão precisar de ajuda e tratamento profissionais.

             O consumo nacional de álcool está acima da média mundial, que é de 6,4 litros percapta/ano. Além do mais, o Brasil é o terceiro país na América Latina e o quinto em todo o continente com o maior consumo de álcool per capita. O uso de álcool em crianças e adolescentes pode chegar a 7% aos 12 anos e até a 80% aos 18 anos, com riscos de lesões e mortes acidentais, suicídio, gravidez não planejada, sexo não protegido, problemas sociais e escolares, e a longo prazo, maior risco de dependência e lesões estruturais do cérebro.

          Por último, sabe-se que o consumo excessivo do álcool está associado com mais de 60 condições clínicas (agudas e crônicas): entre estas, hipertensão arterial, diabetes e muitas outras doenças agravadas pelo consumo de álcool. Além, evidentemente de todos os outros problemas já citados anteriormente, sobretudo, sociais, como a violência doméstica e urbana, questões laborais, comportamento sexual de risco, entre outros. Sobre isso, o ponto que a OMS mais destaca é o impacto do consumo exagerado de álcool e o sistema imune. E, isso vem ocorrendo nessa época da pandemia do COVI-19. Estudos demonstram que houve um aumento de 50% no consumo de bebidas destilados e de 40% no de bebidas fermentadas.

                Evidentemente, que isso sinaliza para uma situação complicada considerando que o que mais precisamos, no presente momento, é que as pessoas estejam bem de saúde e, sobretudo com seu sistema de defesa arrojado (imunidade pessoal) para se contrapor à infecção pelo Corona vírus, tendo em vista que esse é um sistema é que irá nos defender dessa agressão viral. As angustias individuais, impostas pelas restrições sociais (isolamento social), o medo e pavor das pessoas de se contaminarem pelo vírus, as enormes frustrações por romperem suas atividades sociais e de trabalho, as perdas financeiras, o desemprego e a queda da renda, mortes de parentes e amigos devido a COVID-19. Enfim, todas essas mazelas que estamos passando, são razões suficientes para explicar parte dos motivos das pessoas estarem atualmente bebendo mais.

            Observa-se, que a absoluta maioria dessas pessoas que estão bebendo e usando outras drogas excessivamente, já eram consumidores habituais e a pretexto desses fatores acima, mensionados, aumentaram, sobremaneira, esse consumo. Portanto, não é algo novo ocasionado pela pandemia. Pessoalmente, acredito que os novatos que estão iniciando a beberem agora, são bem menores.

            Outro fato, é que temos um número expressivo de jovens, adultos e da terceira idade, alcoólatras, que se encontram em plena vigência de suas doenças e a maioria deles, sem qualquer tratamento psiquiátrico ou acompanhamento psicossocial, fato esse, os tornam mais vulneráveis às recaídas, tornando-os, portanto, mais propensos a beberem mais.

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Novos paradigmas, o cérebro e as doenças mentais

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            A Psiquiatria, ao longo de sua história, sempre tentou localizar no cérebro as origens das doenças mentais ao ponto de, por muitos anos, esta especialidade ter sido designada como Neuropsiquiatria. As contribuições nesse sentido foram muitas, desde a possibilidade de identificar pontos no cérebro responsável por esse ou aquele sintoma ou até mesmo explicar a totalidade das doenças psiquiátricas. Outras áreas do conhecimento, além da área medicina, propriamente dito, como a religião, a psicologia, a filosofia, a antropologia, trouxeram contribuições importantes no sentido de se explicar e se compreender as origens dessas doenças.

Na atualidade, com bases sólidas nos atuais conhecimentos neurocientíficos e baseadas em evidências clínicas e laboratoriais, descobriu-se que as doenças mentais derivam de uma intricada rede de fatores, como os genéticos, a bioquímica, a imunologia, a neurofisiologia, a neuroquímica, o ambiente e as condições sociais, que interligadas umas às outras, colaboram para a expressão final do nosso equilíbrio ou desequilíbrio mental e emocional. Portanto, a saúde e a doença mental em última análise decorrem do equilíbrio desses distintos aspectos, relacionados aos comportamentos humanos.

            Portanto, qualquer fator que ocorra que seja suficientemente capaz de interceder com esse equilíbrio dinâmico ou disfuncionar essas atividades que se materializam no cérebro, por menor que seja, são capazes de provocar respostas psicopatológicas ou transtornos psiquiátricos e emocionais. Há, por outro lado, pessoas que herdam condições geneticamente desfavoráveis, para o desenvolvimento de distintos tipos de doenças mentais com gravidades variáveis, são as chamadas doenças mentais geneticamente determinadas. Por último, há um outro grupo de transtornos psiquiátricos que são ocasionadas, predominantemente, por injunções sociais, ambientais e culturais, desfavoráveis, esses são designados de distúrbios ou transtornos psicossociais.

            A visão atual, portanto, mostra que doença mental, seja qual for, nunca será determinada por um único fator, pois se originam de múltiplos fatores: exógenos, endógenos, genéticos e/ou ambientais sociais e culturais onde, em todas essas dimensões, de forma isolada ou conjuntamente, exercerão sua influência direta na origem dessas enfermidades.

            Há um fato que devemos notar, nessa rede complexa de causas dessas doenças, qual seja, em cada pessoa, portadora de uma doença mental, haverá fatores preponderantes, uns sobre os outros em distintas proporções. Por exemplo, as doenças psicóticas, tais como esquizofrenia, transtorno afetivo-bipolar, os transtornos da personalidade, quadros delirantes e alucinatórios e alguns tipos de sociopatias, as causas são, predominantemente genéticas, mesmo assim não se pode descartar a participação de outros fatores, não genéticos, para o aparecimento de tais doenças.  Volto a dizer: não há uma causa única que determine tais doenças, vários fatores contribuem para seu aparecimento.

            Outras doenças mentais, como os transtornos de ansiedade, Síndrome de Burnout, Transtorno de Stress pós-traumático e os diferentes tipos de stress, as depressões situacionais, as angustias existências, que são bastante prevalentes na atualidade, são transtornos predominantemente situacionais, ambientais, sociais e culturais.

             Devido a isso, podemos afirmar com segurança, que a sociedade atual está enferma, mentalmente. As condições gerais de vida da população, as inseguranças porque passamos, as decepções na vida, a violência doméstica, na cidade ou no campo, ou na vida urbana, o desamor, a falta de fé e de compaixão, os medos, a desconfiança nas pessoas, tem favorecido para o surgimento de muitos problemas emocionais, psiquiátricos e comportamentais, que tem como base esses conflitos pelos quais estamos passando nos dias atuais. E, a tendência é que esses transtornos se incrementem cada dia mais, por conta dos avanços da tecnologia (redes sociais), a possibilidade de liberação de drogas (maconha e outras), as questões econômicas e políticas, as anomias do estilo de vida, etc. Todos esses indicadores conflitantes, de qualquer natureza: econômicos, éticos, políticos e, sociais são fatores francamente desfavoráveis à nossa saúde mental.

        Veja por exemplo, a questão do consumo de álcool, tabaco e de outras drogas, que ocorre nos dias atuais. São condições, absolutamente, insalubres que fatalmente colaboram para os índices assustadores de doentes mentais, suicídios, homicídios, feminicídios e muitas outras situações negativas que vem ocorrendo na população em geral.

        Independentemente, de quais sejam os fatores predominantes, na etiopatogenia dessas enfermidades psiquiátricas, há um denominador comum: eles se entrelaçam e interagem uns com os outros para expressarem clinicamente a disfuncionalidade cerebral. O cérebro é, portanto, a sede material dessas doenças, pois é lá que se processa o desfeixe final, quiçá inicial, desses transtornos. É a partir do cérebro que desenvolvemos nossa consciência, nossos pensamentos, nossas emoções, nossos desejos, aspirações e julgamentos. A regulação e o equilíbrio emocional, do humor da nossa memória, do controle dos impulsos e das nossas relações sociais dependem basicamente da atividade cerebral e das nossas relações com os outros e com o mundo. Finalmente, o comportamento, personalidade, a percepção, a atenção, a cognição e muitas outras funções essenciais à vida dependem da atividade do nosso cérebro, ao ponto de. Em havendo disfunção do mesmo todas essas funções e atividades se alterarão.

           Por isso, é que a cada dia se exorta a necessidade de protegermos e tratarmos nosso cérebro com carinho, com zelo, oferecendo-lhe muitas atividades e exercícios, sistemáticos, pois só assim é que iremos garantir nossa longevidade, nossa saúde física, mental e social. Semelhantemente, a outros órgãos e sistemas biológicos humanos, o cérebro tem que ser bem tratado, agredi-lo, sob qualquer forma, é uma temeridade.

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Automutilação, aspectos clínicos e terapêuticos

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               Esse fenômeno é também designado de Transtorno de Escoriação (TE), skin picking, escoriação neurótica (neurotic excoriation), escoriação patológica, dermatotilexomania, acne escoriada (acne excorieé) ou ainda escoriação psicogênica. É uma condição médica e psicossocial que está no âmbito da saúde mental que requer tratamento e medidas preventivas no âmbito da saúde individual e coletiva.

               Sobre a saúde mental da população, estima-se que 50% dos transtornos mentais de adultos tem início antes dos 14 anos de idade e 75%, até 24 anos. Muitos estudos longitudinais demonstram que 40 % dos jovens com até 16 anos apresentam pelo menos um transtorno psiquiátrico na vida. Um, em cada 4 adultos e uma em ada 5 crianças apresenta uma doença mental conforme a OMS.

              Se considerarmos esses indicadores e cruzarmos com suicídio a OMS informa que é ele é a segunda causa de morte entre adolescentes e que mais de 90% dos que cometem suicídio apresentam algum transtorno mental. Entre as causas mais importantes apontadas nas pesquisas, os preconceitos, os estigmas, o retardamento no diagnóstico médico da doença que a ocasionou o suicídio, a busca de culpados, as restrições nas redes de apoio e cuidados a esses enfermos e poucos dispositivos de prevenção, são os fatores predisponentes mais relevantes, no cometimento e suicídio.

            Entre os fatores de risco e os transtornos mentais destacam-se: ambiente familiar disfuncional, dificuldades financeiras, abuso ou violência doméstica, uso de álcool e de outras drogas e tentativas anteriores de suicídio.

             Sobre a automutilação, ela é definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Portanto, suicídio e automutilação são eventos psicopatológicos distintos um do outro. Os atos automutilatórios, geralmente têm como intenção o alívio de sofrimento e tensão emocional. As formas mais frequentes de automutilação, destaca-se: cortar a própria pele, queimar-se, bater em si mesmo, morder-se e arranhar-se e as áreas mais comuns são: braços, pernas, barrigas e peitos.

             O diagnóstico da automutilação de conformidade com o (DSM-5) que é um instrumento de diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana – APA, está incluída no Transtorno de Escoriação- TE é “beliscar a pele de forma recorrente, resultando em lesões; tentativas repetidas de reduzir ou parar o comportamento de beliscar a pele; o ato de beliscar a pele causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento pessoal, social, profissional”.

             Do ponto de vista das ocorrências da automutilação na população em geral, ainda não há um consenso seguro sobre o mesmo. Em nosso país há poucos estudos. Espera-se, que agora com a obrigatoriedade de notificação dessas ocorrências impostas pela nova Lei Federal nº 13.819, de 26 de abril de 2019, sobre suicídio e automutilação, que em breve possamos ter acesso a dados importantes e fidedignos dessas ocorrências em nossa população.

          Sabe-se, que na área da educação essa prática é uma ocorrência, frequente, levando ao aumento da prevalência. Taxas de 26% a 37% foram relatadas para comunidade nos EUA em classe média a alta (9º ao 12º ano) (Yates et al, 2008).  No entanto, a prevalência varia entre amostras e regiões. Estudo em andamento em muitos países, inclusive UNIFESP estudos prevalências variando entre 13% e 23%. (Jacobson & Gould, 2007). A prevalência é maior no final da adolescência na prática cada vez mais precoce.

               Quais são os fatores de risco mais importantes na prática da automutilação? Destacamos: Transtornos Psiquiátricos, sobretudo Transtornos Obsessivo-Compulsivo- TOC Transtornos de Ansiedade, sobretudo Stress pós traumático e Transtorno de Ansiedade Generalizada – TAG. Transtorno do Humor, especialmente, depressão e Transtornos de Personalidade do tipo Boderline. Pacientes limítrofes, com retardo mental e alterações cognitivas, também são apontados como fortes candidatos à automutilação. História de abuso sexual ou físico são ocorrências frequentes entre esses pacientes.

                 Quais os fatores psicossociais relevantes para a automutilação? Eventos estressantes, conflitos interpessoais, perdas afetivas e emocionais significativas, discórdia e conflitos familiares e problemas escolares. Esses são apontados como os fatores mais relevantes. A baixa autoestima, comportamento antissocial, uso de tabaco, álcool e outras drogas, déficits em regulação emocional e outros fatores inter e intrapessoal como necessidade de autopunição, necessidade de relaxar, obter atenção ou ajuda de outras, irritar os outros, puni-los ou exercer controle, distrair pensamentos e sentimentos negativos, sentir algo, mesmo que seja a dor, são também fatores muitos relatados por esses enfermos.

                Quais os tratamentos da automutilação? Considerando que a automutilação tem um espectro sindrômico, as recomendações para seu tratamento são amplas, gerais e específicas.  Nessa perspectiva, estão incluídas procedimentos médicos e recomendações psicossociais. Entre as recomendações médicas, destaca-se o uso sistemático e regular de medicamentos que modifiquem as condições gerais de humor, da cognição e da ansiedade desses enfermos. Fármacos como os ansiolíticos e antidepressores bem como os estabilizadores do humor são os fármacos mais prescritos, com resultados muito satisfatórios no manejo clínico desses pacientes.

                Constrangimentos no ambiente familiar e social, bullyings em ambientes escolares devem estar na meta dos psicoterapeutas, considerando que são condições desfavoráveis nessas instâncias, as quais podem funcionar como “gatilhos” nessas pessoas.

                 A psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental – TCC, é considerada um instrumento indispensável para manejo adequado e recuperação desses enfermos. A orientação parental ou familiar, também são instrumentos relevantes no manejo da situação. Técnicas de relaxamento e de atenção plena (Mindfulness), atividades físicas, terapias ocupacionais, são recomendações especiais e importantes no tratamento desses enfermos.

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Remorso

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                Arrependimento, culpa e remorso, são três condições existenciais e psicológicas que, habitualmente, caminham juntas, muito embora, sejam condições autônomas, independentes e de significados distintos. Sobre o remorso, objeto desse artigo, diria que é um fenômeno comportamental comum na condição humana e extremamente importante do ponto de vista existencial.

               Expressões como: “fulano, apesar do que fez, não sente um pingo de remorso”. “Cicrano, não se cansa de dizer que, morrerá de remorso pelo ocorrido”. “Apesar da brutalidade, beltrano, parece frio, insensível no que faz”. São situações, diametralmente opostas, que tem em comum a vivência do remorso. Poderíamos imaginar que entre o sentir e o não sentir remorso, inclui várias condições a ele associadas, conferindo à essa experiencia, diferentes níveis e graus de sentimentos, desde o não sentir ao sentir de forma exagerada.

               Do ponto de vista antropológico e comportamental, sentir remorso é uma possibilidade humana universal. É um traço da sua personalidade, que se manifesta em condições especiais, é uma forma de reagir a eventos. Estima-se, que desde a adolescência, na idade adulta e no curso natural na vida, o sentimento de remorso pode estar presente.

             O remorso revela dor, sofrimento, pesar e tristeza, condições estas com diferentes graus ou intensidade. Pode também gerar sentimento de culpa e arrependimento. Quando isso ocorre, pelo fato da pessoa reconhecer ter feito algo a alguém que a ofendeu, ou gerou dor, sofrimento, prejuízos ou mesmo outros problemas, pode fazer com que essa pessoa tome atitudes de arrepender-se e vir a pedir desculpas.

          O remorso expressa um mal estar difuso, inquietante e angustiante podendo prolongar-se e persistir dilacerando a pessoa. Quando mais grave for o erro ou a falha cometida, mais intenso será o remorso e mais difícil se lidar com ele. O remorso se dá no plano da consciência, da autocrítica e da benevolência, e a pessoa tem plena capacidade de avaliar sobre o que fez. Pode também induzir atitudes de arrependimento, sinalizando nessa perspectiva, dignidade no caráter.

           Em Wikpédia, encontramos os seguintes comentários: “em algum momento da nossa vida sentiremos remorso. Podendo ser um sinalizador de que nos preocupamos ou deveríamos nos preocupar com algo importante que temos a aprender. E assim servir de aprendizado para que possamos fazer melhores escolhas no futuro”.

            Diz ainda: “quando o remorso vira uma sensação de que fracassamos ou quando ficamos desapontados, esse sentimento traz muito sofrimento que pode afetar nossa vida de forma negativa. A tal ponto de nos impedir de vivermos o aqui e agora, o presente. Podemos ficar impotentes para usar nossos recursos internos, impedindo de realizarmos as mudanças positivas em nossa vida”.

            Conclui dizendo “quando o remorso ultrapassa esses limites, ele deixa de ser produtivo e útil. As emoções, tanto negativas quanto positivas sempre servem como aprendizado importante. Porém, quando vão além desse limite e passam a trazer problemas e dificuldades que não conseguimos resolver, indica que está na hora de procurar ajuda profissional”.

              Nas considerações acima, dependendo da forma com o manejamos, pode ou não gera maiores problemas, inclusive de saúde física e mental em quem sente o remorso. Outro aspecto importante, como já vimos, é que o remorso pode induzir ao arrependimento que segundo a Bíblia é o meio através do qual nos libertaremos dos nossos pecados e receberemos o perdão por tê-los cometidos. A Bíblia diz ainda que o pecado atrasa o progresso espiritual e pode até pará-lo completamente. O arrependimento torna possível que cresçamos e nos desenvolvamos espiritualmente de novo.

          Em sendo assim, o arrependimento é o melhor caminho para produzir a reparação dos danos ocasionados por alguém que sente remorso. Da mesma forma como exige da pessoa que praticou, arrepender-se e isso levar a desculpar-se pelos danos ou sofrimentos praticados contra alguém. Em resumo: remorso gera culpa, que gera arrependimento, que gera desculpas, que gera perdão. Nem sempre acontece isso, pois muitos não perdoam o que lhe fizeram.   

               Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa José Pedro Machado, remorso vem do latim “remorsu” – do verbo remordere (remorder) que significa voltar a morder, morder muitas vezes. Segundo Aurélio, remorso é inquietação da consciência por culpa ou crime cometido; mordimento, remordimento; bicho da consciência. Para Michaelis (2021) remorso é aflição ou dor moral decorrente da constatação de um erro ou uma falta que se tenha cometido; remordimento.

                 Para Honoré de Balzac (1799-1850) escritor francês, um dos fundadores da Escola Realista na França, dizia: O remorso é uma impotência, ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo. Como vimos acima o remorso comporta o reconhecimento (consciência) que a pessoa tem sobre o que ela cometeu. Revela-se por um sentimento, desagradável de tristeza, culpa ou lamentação, de diferentes intensidades, que atrapalha o bem estar dessas pessoas em diferentes níveis. Devido a todos esses sentimentos desagradáveis, isso pode levar as pessoas a se arrependerem de ter agido da forma que agiu.

                  O remorso também sinaliza para uma espécie de desapontamento, descontentamento e vergonha da pessoa para consigo mesma o que pode gerar atitudes que reparem essas culpas, por terem praticado algo condenável por si mesmo e pelos outros.

               Há pessoas que são incapazes de experimentarem sentimentos de remorso, dor ou arrependimentos sobre seus atos ao longo da vida, muito embora tenham plena consciência que a atitude que cometera possa ter gerado sofrimento, dor ou problemas para alguém. São pessoas, frias, indiferentes, insensíveis, que não apresentam quaisquer arrependimentos sobre suas atitudes. Esses traços são comuns em pessoas que apresentam problemas no desenvolvimento de suas personalidades os quais recebem a designação de Transtorno de Personalidade Antissocial – TPAS, conhecidos, vulgarmente, como “psicopata”. Esses transtornos atingem 1% das mulheres e 3% dos homens. Trataremos dessa particularidade no próximo artigo.

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A falência da autoridade dos pais II

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             Alguém tem dúvidas, que as relações familiares estão em crise? Os pais estão cuidando de fato de seus filhos? Filhos da modernidade, têm tido respeito por pai ou mãe? Esses filhos reconhecem a autoridade dos pais? Há diálogos, compartilhamento ou companheirismo nas famílias modernas? Nossos filhos estão engajados em alguma atividade social, algum partido político, na comunidade, na igreja, em algum clube de serviço ou esportivo ou em qualquer outra atividade social? Os pais sabem, inteiramente, o que acontece com seus filhos, fora de casa?

              Essas são algumas questões que estão na ordem do dia e devem ser examinadas com rigor e afinco. Pode até parecer que sejam questões duras, incisivas ou inquietantes, mas que devem ser trabalhadas, no dia a dia das famílias, para evitarem maiores problemas nas relações familiares. São situações que fazendo parte das nossas inquietações, do mal-estar geral porque passa a sociedade atual e dos dramas que muitas famílias estão vivendo.

           Quando o assunto é educação familiar, em qualquer roda de conversa, na escola, na universidade, na comunidade, nas ruas, no trabalho ou mesmo dentro da própria família, a percepção de todos é que essa situação vai muito mal e a constatação é a sempre a mesma: a família está se perdendo e não sabem que rumo toma. Parece haver um caos total nesse sentido e isso não é explicado não por um único fator e sim por múltiplos fatores que se interagem, provocando a situação como essa que está aí.

           Portanto, é um tema bastante complexo exige tempo e muito trabalho para mudar a situação e ao se contratar que o problema existe, haveremos de adotar medidas adequadas para mudar o cenário da educação dos filhos e isso exigirá tempo e esforço de todos: do estado, da família, da comunidade e

        Entre os fatores, destaca a visível falência da autoridade dos pais na relação com seus filhos. É uma situação grave pois colabora, sobremaneira, para gerar graves conflitos familiares. Nos dá a impressão que os pais estão perdendo o comando, o controle, as rédeas, a autoridade na educação dos filhos e não é de hoje que isso vem ocorrendo. A impressão é que os pais vêm se tornando reféns dos filhos e estão atônitos sem saber o que fazer.

         Essa falência da autoridadeé demonstrada através de várias maneiras. Uma delas, é se perceber que filhos, cada vez com menos idade, demonstram ter vida própria, independência e autonomia e tocam suas vidas, quase por conta própria. Sabe-se, que os filhos dependem dos pais, se protegem nos pais, se espelham nos pais e se nutrem dos pais, em todos os sentidos e isso vai fomento o crescimento dos mesmos ao longo da vida. Atualmente, percebe-se que esses filhos, desde muito cedo “vão pondo as unhas para fora” e os pais por outro lado se sentem submissos e temerosos ante os mesmos. O comportamento, opositor, desafiador dessas crianças, mesmo muito pequenas, põem em risco a disciplina, o controle das regras, das normas de convivência familiar, indispensáveis, para uma boa educação.

           As crianças estão agindo precocemente, como se fossem autônomos, independentes, cheios de vontade e donos de si e de todos ou como se fossem adultos pequenos. Fazem o que querem, fora e dentro de casa, dão as ordens na casa dos pais, e esses, progressivamente, vão se tornando refém, submissos e receosos, sem força para mudar a situação e isso acaba deixando os filhos tomarem conta da casa, um barco à deriva, sem saber que rumo tomar. Esse é um fato terrível na educação dessas crianças pois muitos pais passam a se acusarem, mutuamente sobre o que está ocorrendo e a situação vai se permanecendo. É um momento de acusações mútuas, atritos, e até embates corporais e de “busca dos culpados”, enquanto o isso, o filho reina sozinho.

         A falência da autoridade dos pais, se revela, também, quando esses adotam atitudes autoritárias, dominadoras, violentas, agressivas e cruéis ou quando adotam comportamentos de indiferença quanto aos filhos, gerando um clima de estranheza e anonimato familiar. Indiferentismos, maus tratos, negligencia, descuidos na segurança e cuidados a esses filhos, são situações que ferem, profundamente, a alma dessas crianças e a hegemonia familiar, provocando enormes alterações emocionais, afetivas, comportamentais e de caráter, na vida desses filhos.

            A falência da autoridade dos pais se revela também quando na família não houver mais diálogo, quando se silenciam mutuamente e quando um, não sabe mais sobre o outro. Esse anonimato familiar, produz monólogos e silencia a todos. O silêncio é um veneno e quando impera entre pai e mãe, entre irmãos, entre os pais e filhos, é a derrocada total e muitos pais tornam-se permissivos, frouxas e sem autoridade e com medo de dizer não e de cobrá-los. Se sentem endividadas e submissos. A falta de limites, das normas e regras da casa, também expressa essa falência.

          Muitas vezes, para encobrir esses conflitos, os pais apresentam desculpas, ora esfarrapas ora convincentes sobre tudo isso, sendo a mais comum, a falta de tempo para se dedicarem mais aos filhos, pois os compromissos no trabalho ou a corrida frenética por dinheiro, não permitem que esses pais estejam mais presentes em casa. Outros, atribuem essas tarefas, exclusivamente às mães, como se estas fossem as únicas a educarem os filhos, outros ainda atribuem à correria do dia a dia, (pagar as contas) e quando não, atribuem à internet, às redes sociais, aos games etc. os motivos para tantos descuidos na educação dos filhos.

          A internet, os games, as redes sociais e outros entretenimentos via online passaram a ser a “bola da vez”, para explicar conflitos familiares. Todos esses recursos eletrônicos são próprios da vida moderna e instrumentos no dia a dia das pessoas. O que pode estar em jogo é a forma inadequada de utilização desses instrumentos e não eles em si mesmos. Atribuir aos mesmos a responsabilidade dos problemas familiares, é não querer ver a realidade ou tentar tapar o sol com a peneira, isso não me convence. O uso desses instrumentos, por crianças e adolescentes, deverá ser feito com regras e disciplinas para o bom uso dos mesmos. De tal forma, que o abuso ou uso indiscriminado e sem controle que ocorre dentro e fora de casa por crianças e adolescentes, às vezes, incentivados pelos próprios pais, já podem por si só, serem sinais, inequívocos da desagregação profunda porque passa essa família.

             Portanto, fiquemos atentos aos fatos que ocorrem em nossas famílias com vista a garantirmos sua sagada missão de assegurar a saúde, a segurança e o bem social e o pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes.

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A ganância na sociedade moderna

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           A ganância é um sentimento, caracterizado pela volúpia incontida, pela vontade incontrolável de possuir tudo, especialmente o que essas pessoas admiram para si próprio. É ambição desmedida, é a avidez por algo, é a cobiça, a avareza, a concupiscência, a usura e a cupidez. É a vontade exagerada, incontrolável e apetitosa de possuir as coisas. É um desejo excessivo direcionado principalmente à riqueza material, qual seja, o dinheiro. Quase sempre realizam ganhos ilícitos, ou estão sempre atras de outras formas de poder, onde os gananciosos influenciam outras pessoas a se deixarem corromper, manipular e a enganar para garantir suas intenções.

           Em Aurélio, a palavra ganância vem do espanhol, ganancia, esp. Ganar, ganhar, significa ambição de ganho, ganho ilícito, usura, ambição desmedida. Em Michaelis trata-se de uma ambição desmedida de ganho, ou lucro, ambição, avidez, cupidez. Em Dicio dicionário online, ganância é ambição, cobiça ou desejo intenso, imoderado por bens e riquezas. É busca incessante pelo lucro; agiotagem, usura. Vontade intensa e permanente de possuir ou de ganhar mais do que os demais.

            Para Charles Caleb Colton (1780 – 1832) clérigo inglês “a ambição comete, em relação ao poder, o mesmo erro que a ganância em relação a riqueza: começa a acumulá-la como meio de felicidade e acaba a acumulá-la como objetivo”. É o que ocorre na prática dos ambiciosos.

             A ganância, portanto, é um traço abominável da condição humana. Ela nasce com o homem, é um traço de sua personalidade, desde cedo aparece na vida das pessoas e pode prosseguir com ela a vida toda. Muitos podem nascer com esse traço, porém, ao longo da vida, pode se desfazer dele. É uma condição humana, comportamental, trans-histórica e transcultural.

              A ganância é e já foi objeto de muitos estudos e especulações, sobretudo do ponto de vista psicossocial e sócio antropológico. Entre os católicos, é um dos sete maiores pecados humanos, já identificados desde o final do século VI no Papado de Gregório Magno e aqui, a ganância se confunde com avareza.

            Gananciosos são figuras insaciáveis, têm um apetite voraz por tudo, especialmente por dinheiro e poder. São avaros e nada os satisfaz, sempre querem mais e mais, de forma desenfreada. Agem compulsivamente atrás de ganhos e dificilmente se desfazem do que têm.

          Na história recente de nosso país, por ocasião da Lava-Jato, assistíamos, frequentemente, pela grande mídia, casos notórios de grandes gananciosos serem denunciados ao Ministério Público, devido a uma intensa roubalheira ao erário. Eram pessoas que exerciam papéis importantes no cenário das atividades pública e política, e se comportavam como agentes insaciáveis na obtenção do dinheiro, mesmo por meios ilícitos. Os bandidos se organizavam em quadrilhas, regidas por meios sofisticados de cometem esses crimes e o faziam de forma absolutamente natural, na cara limpa, sem qualquer remorso, pudor ou arrependimento por estarem roubando o que era do povo. Eram gananciosos.

           Essas figuras, em geral, são disfarçadas, insensatos, arrogantes e indiferentes, são dissimulados. sentem-se sempre acima de tudo. São indiferentes e se apropriam indiferentemente do erário público de forma natural e tergiversam dentro das circunstâncias que vivenciam.

           São também evasivas. Quando são pegos, se sentem injustiçados ante tais medidas. A maioria sequer manifesta arrependimento e sempre procura explicar seus atos. São indiferentes aos danos cometidos pelos seus crimes. Avidez por ganho, lucros, vantagens, tanto por via lícita quanto ilícita são de valores enormes, incalculáveis. É a ganância se revelando em cada uma dessas pessoas. Tornam-se cegos e avaliam mal as consequências de seus atos. Esquecem-se da ética, dos sentimentos de dó e piedade, do dever e da cidadania. Esquecem-se que têm filhos, esposas, amigos e que ainda há quem sinta vergonha no mundo. Seus atos revelam uma disposição desmedida de ter, possuir, dispor de algo, e o pior, que não lhes pertence. É um egoísmo excessivo, inconsequente e incomensurável.

             Vejam o que ocorreu com os ladrões da Lava-Jato, a volúpia por dinheiro era suas grandes marcas. Em condições normais de vida, jamais gastariam todo dinheiro que roubaram, a não ser em extravagâncias e na perspectiva de uma vida desmedida, mesmo assim roubaram compulsivamente.

            A ganância, como outros comportamentos humanos, é muito influenciada pela cultura e pelo ambiente onde se vive. Vive-se em uma cultura e em uma sociedade que incentiva e estimula a prática da ganância. O egocentrismo, a vaidade, a insinceridade, a superficialidade nos comportamentos pueris são comportamentos comuns na sociedade atual, gerando pessoas arrogantes, presunçosas, desumanas, blasfemadoras e desrespeitosas. E tudo isso acaba por incentivando gananciosos a pretender se dar bem na vida.

            O ambicioso, dificilmente, estabelece relações seguras e confiáveis com alguém, pois suas motivações, nas relações interpessoais, são sempre interesseiras, pragmáticas e visam ganhos. São pessoas envolventes e sedutoras e sempre tem na cabeça “dá o golpe” com o intuito de atingir seus objetivos, quaisquer que sejam eles, independente se suas atitudes mesmo que isso possa gerar problemas para alguém, para a comunidade ou para a sociedade. Para os gananciosos a vida e todas as suas relações são inspiradas em um balcão de negócios, por isso mesmo estão sempre atentas as vantagens que pode extrair em suas atividades.

              A ganância, está diretamente relacionado com transtornos de personalidade antissocial, isto é um traço forte dos psicopatas, pelo seu absoluto indiferentismo, ausência de sentimentos de culpa ou remorso oriundos de suas atitudes. São figuras malévolas, frias e e insensíveis, sem remorsos, culpa ou arrependimentos, portanto “temos que ter sempre um pé atrás com essas pessoas” pois você pode representar um trampolim para essas maus-caracteres alcançarem seus cruéis objetivos.

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A ganância na sociedade moderna

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           A ganância é um sentimento, caracterizado pela volúpia incontida, pela vontade incontrolável de possuir tudo, especialmente o que essas pessoas admiram para si próprio. É ambição desmedida, é a avidez por algo, é a cobiça, a avareza, a concupiscência, a usura e a cupidez. É a vontade exagerada, incontrolável e apetitosa de possuir as coisas. É um desejo excessivo direcionado principalmente à riqueza material, qual seja, o dinheiro. Quase sempre realizam ganhos ilícitos, ou estão sempre atras de outras formas de poder, onde os gananciosos influenciam outras pessoas a se deixarem corromper, manipular e a enganar para garantir suas intenções.

           Em Aurélio, a palavra ganância vem do espanhol, ganancia, esp. Ganar, ganhar, significa ambição de ganho, ganho ilícito, usura, ambição desmedida. Em Michaelis trata-se de uma ambição desmedida de ganho, ou lucro, ambição, avidez, cupidez. Em Dicio dicionário online, ganância é ambição, cobiça ou desejo intenso, imoderado por bens e riquezas. É busca incessante pelo lucro; agiotagem, usura. Vontade intensa e permanente de possuir ou de ganhar mais do que os demais.

            Para Charles Caleb Colton (1780 – 1832) clérigo inglês “a ambição comete, em relação ao poder, o mesmo erro que a ganância em relação a riqueza: começa a acumulá-la como meio de felicidade e acaba a acumulá-la como objetivo”. É o que ocorre na prática dos ambiciosos.

             A ganância, portanto, é um traço abominável da condição humana. Ela nasce com o homem, é um traço de sua personalidade, desde cedo aparece na vida das pessoas e pode prosseguir com ela a vida toda. Muitos podem nascer com esse traço, porém, ao longo da vida, pode se desfazer dele. É uma condição humana, comportamental, trans-histórica e transcultural.

              A ganância é e já foi objeto de muitos estudos e especulações, sobretudo do ponto de vista psicossocial e sócio antropológico. Entre os católicos, é um dos sete maiores pecados humanos, já identificados desde o final do século VI no Papado de Gregório Magno e aqui, a ganância se confunde com avareza.

            Gananciosos são figuras insaciáveis, têm um apetite voraz por tudo, especialmente por dinheiro e poder. São avaros e nada os satisfaz, sempre querem mais e mais, de forma desenfreada. Agem compulsivamente atrás de ganhos e dificilmente se desfazem do que têm.

          Na história recente de nosso país, por ocasião da Lava-Jato, assistíamos, frequentemente, pela grande mídia, casos notórios de grandes gananciosos serem denunciados ao Ministério Público, devido a uma intensa roubalheira ao erário. Eram pessoas que exerciam papéis importantes no cenário das atividades pública e política, e se comportavam como agentes insaciáveis na obtenção do dinheiro, mesmo por meios ilícitos. Os bandidos se organizavam em quadrilhas, regidas por meios sofisticados de cometem esses crimes e o faziam de forma absolutamente natural, na cara limpa, sem qualquer remorso, pudor ou arrependimento por estarem roubando o que era do povo. Eram gananciosos.

           Essas figuras, em geral, são disfarçadas, insensatos, arrogantes e indiferentes, são dissimulados. sentem-se sempre acima de tudo. São indiferentes e se apropriam indiferentemente do erário público de forma natural e tergiversam dentro das circunstâncias que vivenciam.

           São também evasivas. Quando são pegos, se sentem injustiçados ante tais medidas. A maioria sequer manifesta arrependimento e sempre procura explicar seus atos. São indiferentes aos danos cometidos pelos seus crimes. Avidez por ganho, lucros, vantagens, tanto por via lícita quanto ilícita são de valores enormes, incalculáveis. É a ganância se revelando em cada uma dessas pessoas. Tornam-se cegos e avaliam mal as consequências de seus atos. Esquecem-se da ética, dos sentimentos de dó e piedade, do dever e da cidadania. Esquecem-se que têm filhos, esposas, amigos e que ainda há quem sinta vergonha no mundo. Seus atos revelam uma disposição desmedida de ter, possuir, dispor de algo, e o pior, que não lhes pertence. É um egoísmo excessivo, inconsequente e incomensurável.

             Vejam o que ocorreu com os ladrões da Lava-Jato, a volúpia por dinheiro era suas grandes marcas. Em condições normais de vida, jamais gastariam todo dinheiro que roubaram, a não ser em extravagâncias e na perspectiva de uma vida desmedida, mesmo assim roubaram compulsivamente.

            A ganância, como outros comportamentos humanos, é muito influenciada pela cultura e pelo ambiente onde se vive. Vive-se em uma cultura e em uma sociedade que incentiva e estimula a prática da ganância. O egocentrismo, a vaidade, a insinceridade, a superficialidade nos comportamentos pueris são comportamentos comuns na sociedade atual, gerando pessoas arrogantes, presunçosas, desumanas, blasfemadoras e desrespeitosas. E tudo isso acaba por incentivando gananciosos a pretender se dar bem na vida.

            O ambicioso, dificilmente, estabelece relações seguras e confiáveis com alguém, pois suas motivações, nas relações interpessoais, são sempre interesseiras, pragmáticas e visam ganhos. São pessoas envolventes e sedutoras e sempre tem na cabeça “dá o golpe” com o intuito de atingir seus objetivos, quaisquer que sejam eles, independente se suas atitudes mesmo que isso possa gerar problemas para alguém, para a comunidade ou para a sociedade. Para os gananciosos a vida e todas as suas relações são inspiradas em um balcão de negócios, por isso mesmo estão sempre atentas as vantagens que pode extrair em suas atividades.

              A ganância, está diretamente relacionado com transtornos de personalidade antissocial, isto é um traço forte dos psicopatas, pelo seu absoluto indiferentismo, ausência de sentimentos de culpa ou remorso oriundos de suas atitudes. São figuras malévolas, frias e e insensíveis, sem remorsos, culpa ou arrependimentos, portanto “temos que ter sempre um pé atrás com essas pessoas” pois você pode representar um trampolim para essas maus-caracteres alcançarem seus cruéis objetivos.

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Doença mental não é um bicho de sete cabeças

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            Maluquice, médico de doido, fulano é louco, essas são, entre tantas outras, expressões preconceituosas sobre as doenças e os doentes mentais. E, não é de hoje que isso ocorre, há séculos que convivemos com tais expressões pejorativas, as quais só trazem prejuízos para os próprios pacientes, para seus familiares, para os psiquiatras e para todos que lidam com esses enfermos.

           Essas expressões escondem os tremendos preconceitos sociais que sempre houve e ainda há pairando sobre esses seguimentos de tal forma que o preço que se paga é enorme. Como todos sabem, preconceitos são práticas cruéis, massacrantes, utilizadas para discriminar, segregar alguém ou um grupamento de pessoas. É uma prática discriminatória e uma violência inominada, qualquer que seja a sua forma de expressão, pois todos eles segregam, geram intolerâncias, rejeições e repúdios.

           As atitudes preconceituosas se manifestam de diferentes maneiras: por gestos, atitudes, palavra, na escrita, no olhar e na forma de agir, etc. Todas essas formas vão em um único sentido, qual seja, o de marginalizar, criar estereótipos sobre ao que ou a quem é dirigido. O resultado final na vigência de qualquer preconceito é produzir sentimentos de hostilidade, implicância e exclusão, por isso mesmo, afastam as pessoas do convívio pessoal, social ou familiar.

            Os preconceitos, são evidenciadas nas relações humanas, pessoal e social os quais não permitirem que outros vejam os fatos como são. Para Aurélio, preconceitos são conceitos antecipados sem maiores ponderações ou conhecimentos dos fatos sobre os quais as pessoas são envolvidas. São ideias preconcebidas. Pode também ser considerado um julgamento ou opinião formada sem se levar em conta os fatos que os contestem.  Para Voltaire (1694 – 1778), poeta, dramaturgo, historiador e filósofo iluminista francês, dizia “preconceito é opinião sem conhecimento”.

          Por outro lado, por conceito, entendemos que é a representação do objeto pelo pensamento por meio de suas caraterísticas gerais. É a ação de formular uma ideia por meio de palavras, é definir, é caracterizar. O conceito nos aproxima daquilo sobre o qual estamos tratando e o preconceito nos afasta. Também consideramos conceito como sendo uma concepção, uma ideia ou a caracterização de algo ou alguém.

         Nos dias atuais, os movimentos políticos, humanísticos, sociais, institucionais, jurídicos e culturais estão mais bem motivados para o enfrentamento dos preconceitos, em todos os sentidos. A luta é ferrenha para desnudar-nos dessas pechas preconceituosas, que não nos levam a quaisquer lugares ao mesmo tempo não colaboram para as boas práticas sociais e humanas. Por serem fenômenos históricos, os preconceitos estão incrustrados, psicológico e socialmente, em toda sociedade, por isso mesmo é muito difícil o seu enfrentamento.

              Albert Einstein (1879 – 1955) físico e humanista alemão, autor da teoria da relatividade, e Prêmio Nobel de Física de 1921, reconhecendo as dificuldades de se demolir os preconceitos dizia: “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.

           Há vários tipos de preconceitos: de gênero (sexismo), de cor (racismo), de idade (criança, idoso), intolerância religiosa, de nacionalidade (xenofobia), de condição social e econômica, de enfermidades (ex. doença mental), culturais e de tudo que diga respeito ao estar do homem no mundo. Em qualquer das situações, o legado principal é a opressão, a discriminação, estereotipagem, a segregação de pessoas ou grupos sociais vítimas dos mesmos. O processo de marginalização imposto pelos preconceitos é algo abominável e o sofrimento vivido por suas vítimas, é atroz. 

         Do ponto de vista médico, os preconceitos aplicados às doenças mentais, podem ser considerados os piores entre os que existem. Os doentes mentais foram atingidos, em cheio ao longo da história e os mesmos são seculares. As consequências foram enormes e ainda são até hoje, interferem, fortemente, nos tratamentos e na recuperação desses pacientes, nas relações sociais (exclusão), familiares, em políticas públicas, nas medidas de prevenção dessas doenças, na imagem social dos enfermos, em seus direitos civis e humanos, na acessibilidade a serviços médicos especializados e em tudo mais, que giram em torno a esses transtornos.

            Paradoxalmente, nos últimos 30 anos avançou-se muito no manejo e entendimentos sobre essas doenças. Houve uma verdadeira revolução no pensamento psiquiátrico ou científico sobre essas doenças em diferentes aspectos, fato que ajudou muito no enfrentamento desses preconceitos. Hoje, sabe-se bastante sobre as bases fisiopatológicas das doenças mentais, fato que também aproximou a Psiquiatria das outras especialidades médicas, pois em todas essas doenças, indistintamente, apresentam: uma fisiopatologia (causa), um quadro clínico, uma evolução (curso), um diagnóstico, um prognóstico e um tratamento, sem qualquer distinção entre as mesmas.

              O surgimento de modernos fármacos para o tratamento dessas enfermidades é outro avanço histórico na Psiquiatria moderna. Surgiram medicamentos, altamente eficazes no tratamento e na prevenção dessas doenças, possibilitando melhorias na recuperação e prevenção de recaída nesses enfermos. O aperfeiçoamento de técnicas em psicoterapia corresponde a outro aspecto, altamente evolutivo na prática médica e psicológica. São recursos, indispensáveis do ponto de vista terapêutico, que associados às boas práticas medicas, auxiliam milhares de enfermos no manejo de seus problemas emocionais e psiquiátricos.

          Devido a todos esses avanços, aperfeiçoaram-se os critérios diagnósticos dessas enfermidades, tornando-os mais fidedignos e seguros. Todos esses avanços tem favorecido o enfrentamento dos preconceitos em Psiquiatria e em saúde mental.

           Temos no Brasil, uma das mais importantes campanhas contra os preconceitos aos portadores de transtornos e deficiências mentais, qual seja a PSICOFOBIA. Ela foi implementada pela Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, em 2014. Hoje, a Psicofobia, internacionalizou-se e já existe uma legislação federal que criminaliza qualquer prática preconceituosa contra esses enfermos. É preciso que o cidadão, os familiares, os próprios doentes mentais, a classe médica e todos os profissionais da área, colaborem para assegurar melhores condições de assistência a esses enfermos.

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Saúde mental, alcoolismo e suicídio

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                              Dados da Organização Mundial da Saúde – OMS (2016), dão conta que há no mundo 3 milhões de mortes ocasionadas pelo consumo de álcool e esse número corresponde a 1 em cada 20 mortes. 28% destas, estão relacionadas a acidentes de trânsito, violência, suicídios e outros atos violentos; 21%, a distúrbios digestivos e 19%, a doenças cardiovasculares.

           Entre todas as mortes no mundo 5,3% estão relacionadas ao consumo de álcool. Entre os mais jovens, na faixa entre 20 e 29 anos, essa taxa é de 13,5%. Muitos fatores tem contribuído para redução dessas ocorrências na atualidade, entre estas, destaca-se leis de trânsito mais rigorosas, ações efetivas das campanhas sobre álcool e direção e os pesados custos das multas aplicada à motoristas transgressores. Graças a todas essas medidas, no Brasil, entre os anos de 2010 a 2016 o consumo de álcool diminuiu de 8,8 litros para 7,8 litros per capta/ano e no mundo, o consumo médio à época, era de 6,4 litros. Sabe-se que esses índices poderão aumentar até 2025.

           O consumo do álcool é responsável pelo menos por 200 doenças, especialmente, em condições de abuso (uso nocivo) e mata mais pessoas do que a Aids, a tuberculose e a violência, combinadas. Em geral, 5,1% da carga mundial de doenças e lesões são atribuídas ao consumo de álcool.

           Segundo a OMS, cerca de 2,3 bilhões de pessoas no mundo consomem bebidas alcoólicas. No Brasil, segundo o II – LENAD, 2012, cerca de 65% da nossa população faz uso de bebidas alcoólicas e em torno de 10 a 13% são dependentes. O alcoolismo é uma doença mental, com graves repercussões psicológicas, comportamentais e socias, provocando prejuízos severos na capacidade laborativa, cognitiva, executiva dos usuários. O consumo médio diário de álcool é de 33 gramas de álcool puro, o equivalente a dois copos de vinho (150 ml cada), a uma garrafa de cerveja (750 ml), ou a duas “doses” de destilado (40 ml cada).

            Entre os transtornos de saúde, ocasionados pelo consumo de álcool, as doenças mentais se destacam, entre estas, a própria dependência do álcool. O alcoolismo é de fato, é um grande problema de saúde pública no Brasil e no mundo, tanto por sua elevada morbidade quanto pela sua mortalidade. Trata-se de uma doença crônica que se instala sorrateiramente de forma insidiosa e progressiva e vai tomando conta das pessoas e de suas relações sociais. O consumo de álcool em nosso país inicia-se por volta dos 12,5 anos e progressivamente essa prática vai se incorporando na vida das pessoas de forma habitual e sistemática até que em um futuro incerto a pessoa passa a apresentar comportamentos indicativos da doença alcoólica.

          Entre os principais sintomas da dependência, destacaria: 1desejo incontrolável de ingerir bebidas alcoólicas, onde a pessoa que vai adentrando à doença sente-se compelido a usá-la. 2Dificuldades de parar de beber ou de diminuir o consumo, quando começam a beber não param mais. Costumeiramente, se embriagam, devido a esse motivo. 3Aumento progressivo da quantidade de álcool consumido. Iniciam bebendo pouco e tempos depois passam a beber grandes quantidades de álcool, na busca do mesmo prazer ocasionados por quantidades menores. 4 – Prioridade ou relevância no beber. Dependentes de álcool priorizam o fato de beberem em detrimentos de outras atividades que lhes haviam sido importantes. Abandonam compromissos (trabalho, famílias, esportes, atividades culturais e sociais, etc.) e vão priorizando a ingesta de álcool. 5 – Passam mal (abstinência) sempre que diminuem a quantidade ou param de beber, sintomas como: suor intenso no corpo ou em partes do corpo; tremores no corpo; mal estar difuso; inquietação; nervosismo; angústia; náusea e vômitos; irritabilidade; impaciência; agressividade e explosividade; dificuldades na concentração; instabilidade emocional e assim por diante. 6 – Recaída após abstinência. Mesmo que parem de beber por longos anos, ao retornar ao consumo, tudo volta ao que era antes (recaída). Estas são algumas características do alcoolismo.

         O alcoolismo tem níveis de gravidade variando de leve, moderado e gravemente dependente e de conformidade com a avaliação médica e psicossocial esses enfermos receberão recomendações diferentes.

          O suicídio é outra condição que pode estar presente no alcoolismo. Estima-se que 10% dos dependentes de álcool se suicidam. Segundo a OMS os transtornos por uso de substâncias -TUS, responde por 22,4% dos suicídios no mundo, se constituindo o segundo maior fator predisponente para o cometimento do suicídio. Se o alcoólatra apresentar quadros depressivos (que é comum), a doença se torna mais grave, pois aumenta o risco de suicídio (comorbidade). Estima-se que 70% dos suicidas têm depressão maior e 15% das pessoas hospitalizadas por transtorno depressivo cometam suicídio. O abuso de álcool e a depressão têm sido associados a maior risco de comportamento suicida tanto em adolescentes como em adultos.

            Outros transtornos psiquiátricos e psicossociais, podem também associar-se ao alcoolismo. Transtorno de ansiedade (pânico, TAG, stress pós traumático, fobias), TOC e outras dependências como o tabagismo e a dependência de outras drogas. Além, evidentemente, de comportamento violento no trânsito, violência doméstica, feminicídios, homicídio e muitos outros problemas relacionados ao controle do impulso.

             Outro fato notório é que no curso vigente da pandemia, as condições psicoemocionais da população foram drasticamente afetadas. Stress prolongado, ansiedade descontrolada, episódios depressivos graves, lutos imprevistos, perdas de emprego, dificuldades financeiras da população, medidas de isolamento social, medos da morte pela doença, privações nas atividades sociais e tudo isso fez com que houvesse aumento do consumo de álcool, fazendo com que todos os problemas relacionados ao consumo do álcool, também se destacassem.

              Devemos ficar mais atentos a todos esses fatos para proteger mais ainda nossa população e possamos permanecer lutando para restabelecermos padrões sociais e comportamentais mais saudáveis.

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O Pânico em época de pandemia

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              Pouco tempo depois que a OMS anunciou a pandemia da COVID 19, em abril deste ano, em maio passou-se a falar sobre as “ondas” que poderia ocorrer na disseminação dessa doença. E, as ondas, nada mais seriam que as flutuações epidemiológicas que ocorreria no curso natural da pandemia.  Destacava-se, quatro grandes “ondas”, sendo que a quarta onda, corresponderia ao incremento de doenças emocionais, mentais e comportamentais que surgiriam no curso natural da pandemia.

              A OMS estava certa. De fato, o que houve foi um gigantesco incremento de ocorrências psiquiátricas, emocionais e comportamentais de diversos aspectos clínicos e diagnósticos que surgiram no curso da pandemia. Os transtornos de ansiedade são as ocorrências mais frequentes no conjunto desses fatos, especialmente o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), o transtorno de ansiedade generalizada (TAG), a síndrome do pânico e outros transtornos mentais. Na sequência, houve o incremento de transtornos do humor, especialmente a depressão, de bipolaridade e abuso de álcool e de outras drogas. Além de todas essas ocorrências não podemos deixar de destacar no espectro desses transtornos o aumento do número de suicídios, de feminicídio, de violência doméstica, de separação conjugal e muitos outros problemas na área criminológica e social.

               Nesse artigo tratarei, especificamente, da síndrome, ou doença ou ainda transtorno do pânico, uma condição absolutamente desagradável, ameaçadora e angustiante que algumas pessoas apresentam na vida. Ressalta-se, que a palavra “pânico” remonta da Grécia antiga, da figura mitológica do Deus Pan. Segundo a mitologia grega, Pan era um Deus extremamente feio (metade homem, metade cabra) vivia isolado entre as montanhas da Arcádia (província da Grécia antiga), para não ser visto pelas pessoas. Quando Pan aparecia em Ágora (um local ou espécie de praça pública) onde as pessoas se reuniam, elas ficavam horrorizadas, assustadas, desesperadas com a presença horripilante do Pan.  Sentiam verdadeiro horror e pavor, e procuravam se afastar de lá imediatamente, por isso o nome, pânico.

              Nos últimos anos, inúmeros estudos e pesquisas tem sido desenvolvido, no mundo todo, com o intuito de se conhecer melhor a denominada “Síndrome do Pânico”, tanto nos aspectos clínicos, quanto os tratamentos psicológicos, biológicos ou psicossociais realizados para seu controle.

               Historicamente, desde Freud, já havia referências sobre essa doença. Na época ele analisava pessoas que apresentavam sintomatologia da doença de pânico, muito embora, na ocasião, as descreviam como portadoras de “ataques de ansiedade”, incluídas na categoria das chamadas neuroses atuais. Em um desses casos, detectou um “retorno de experiência traumática relacionadas com algum acontecimento trágico do passado”. Mas as teorias psicanalíticas, mesmo depois de muito aperfeiçoamento, esbarram em sérias dificuldades para explicar por que os pacientes apresentam tais quadros clínicos.

                Na atualidade, os mais importantes estudos sobre o Transtorno do Pânico ocorrem na área da Psiquiatria e da Neurociência, as quais explicam esse transtorno a partir de disfuncionalidade do sistema nervoso central- SNC, do ponto de vista, biológico e neuroquímico. Haveria, por assim dizer, uma disfunção acentuada e específica na regulação da ansiedade, em áreas especiais desse sistema (septo, amigdala e hipocampo), levando a produção dos sintomas hoje conhecidos que fazem parte da doença do Pânico.

                Outra área muito importante que abriu fabulosos caminhos para desvendar esse transtorno é a psicofarmacologia clínica, capítulo da farmacologia que trata dos psicotrópicos, medicamentos largamente utilizados em psiquiatria e outras especialidades médicas. 

                Outros avanços, verificados nos últimos anos foi na psicoterapia desses pacientes. Entre as várias abordagens psicoterápicas, a mais recomendada atualmente a terapia cognitivo-comportamental – TCC. Os melhores resultados socorrem quando associamos essa terapia com a abordagem médica.

            Os ataques de Pânico (TP) ocorrem de forma súbita, repentina e inesperada, sem motivo aparente, sendo um estado de intensa ansiedade. Nesses momentos os pacientes se sentem apavorados, com um terrível medo de morrer ou ficar “louco”. Esses ataques são acompanhados de sintomas físicos, psíquicos e comportamentais, intensos e difusos. Os enfermos passam mal subitamente, independente de onde estão ou o que estão fazendo, e rapidamente atinge uma intensidade máxima em poucos minutos, pois cada ataque, dura em média entre 25 a 30 minutos e mesmo sem intervenção médica, o ataque se encerra. Os sintomas físicos e psicológicos estão descritos abaixo. Outra particularidade, é que, para se firmar o diagnóstico definitivo de Transtorno de Pânico (TP), esses ataques deverão ocorrer no mínimo uma vez por semana associados aos outros requisitos, apontados acima. Eis, alguns dos seus sintomas:

1) Falta de ar (dispneia) ou sensação de asfixia

2) Vertigem, sentimentos de instabilidade ou sensação de desmaio

3) Palpitações ou ritmo cardíaco acelerado (taquicardia)

4) Tremor ou abalos

5) Sudorese

6) Sufocamento

7) Náusea ou desconforto abdominal

8) Despersonalização ou desrealização

9) Anestesia ou formigamento (parestesias)

10) Ondas de calor ou frio

11) Dor ou desconforto no peito

12) Medo de morrer

13) Medo de enlouquecer ou cometer ato descontrolado.

           Há Transtorno do Pânico com ou sem agorafobia, que é um medo de estar em espaços abertos ou no meio de multidões. Agorafobia, muitas das vezes, é consequência de sucessivos tratamentos malsucedidos ou mal orientados, ou por uso inadequado de medicações, ou pelo fato da pessoa não ter tido a oportunidade de procurar   um especialista precocemente, antes mesmo da doença se tornar crônica.

             Vale a pena lembrar que, para o médico formular o diagnóstico de Transtorno do Pânico, faz-se necessário, a realização de exames clínicos e laboratoriais, para saber se o paciente não é portador de outras doenças, que podem provocar também ataques agudos de ansiedade.

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O Transtorno Afetivo Bipolar em época da pandemia

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            Dia 30 de abril deste ano, comemorou-se o Dia Mundial do Transtorno Bipolar (World Bipolar Day-WBD). A data, é uma iniciativa de três grandes instituições internacionais que tratam desse assunto: a Asian Network of Bipolar Disorder (ANBD), a Fundação Internacional Bipolar (IBPF) e a Internacional Society for Bipolar Disorders (ISBD). Comemora-se essa data desde 2014. E a ideia é informar, esclarecer auxiliar as pessoas e profissionais sobre questões da biporidade.

30 de abril é uma homenagem à Vincente Van Gogh, pois ao que se sabe, era portador do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB). Semelhantemente, a outros transtornos mentais, esse transtorno, é também descriminalizado e estigmatizados, fatos difucltam o manejo e o tratamento adequado dessa doença, bem como a reinserção social desses enfermos.

Sua prevalência, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, varia entre 1 e 2% % na população em geral, podendo atingir até 5%, incluindo, crianças e adolescentes. Está situado entre as 10 principais doenças incapacitantes no mundo. Clinicamente, caracteriza-se por episódios depressivos, alternando-se com outros episódios de euforia, denominados de mania. Ambos os episódios ocorrem em diferentes momentos da vida desses enfermos com graus variados de gravidade clínica. Diferentemente, dos altos e baixos que podem ocorrer, normalmente, no humor de alguém, no seu dia a dia, as variações psicopatológicas do humor, no Transtorno Afetivo Bipolar, são longas no tempo, são graves e podem evoluir de forma desfavorável.

Essas fases ou episódios, ocasionam danos profundos na vida dessas pessoas em vários sentidos: cognitivo, afetivo-emocional, social, laboral, no pragmatismo e na função executiva, além de muitas outras áreas comportamentais.

Vários fatores colaboram para ocasionar o TAB, por isso mesmo, é considerado um transtorno multifatorial. Um desses fatores mais relevantes é a genética, sabe-se que 50% dos portadores de TAB apresentam, pelo menos, um familiar afetado pela doença. Além do mais, filhos desses pacientes apresentam risco aumentado para desenvolverem a doença, quando comparados com a população geral.

O TAB está muito relacionado a incapacitação laboral a mortalidade entre jovens e é elevada as taxas de suicídio. Estima-se que até 50% dos portadores tentam suicídio, ao menos uma vez na vida e 15% efetivamente o cometem.

Há muitos estudos que demonstram que há uma estreita relação entre TB e outras enfermidades médicas como obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares e doenças autoimunes, sendo essas as mais frequentes. A associação de TAB, com abuso de drogas e dependência de álcool, é elevada, atinge 41% de dependentes de álcool e 12% de dependentes de alguma outra droga ilícita. Além do mais, agrava o curso clínico da doença, o tratamento e o prognóstico, além de piorar a adesão ao tratamento.

O início dos sintomas pode ocorrer na infância e na adolescência, em função das caraterísticas dessas idades, o quadro clínico, o diagnóstico e o tratamento tornam-se mais difíceis e o comportamento suicida pode ocorrer em 25% dos adolescentes portadores de TAB.

Essencialmente, a alternância psicopatológica do humor, entre os episódios, depressivos e maníacos, é o que há de mais relevante no diagnóstico. Em muitos casos, o mesmo só será feito depois de anos de evolução e tratamento. Por exemplo, uma pessoa que tenha tido um episódio depressivo e receba o diagnóstico de depressão unipolar e anos depois, apresente um episódio maníaco ou hipomaníaco, tem na verdade Transtorno Afetivo Bipolar, pois até que o outro episódio surgisse, não seria possível se saber o diagnóstico definitivo.

Na fase de euforia (maníaca), predominam: energia excessiva, hiperatividade, inquietação, humor elevado, euforia, irritabilidade, pensamento e fala, acelerados, atenção flutuante (distraibilidade), insônia, autoconfiança exagerada, baixa autocrítica; gastos excessivos, aumento do impulso sexual, abuso de álcool e outras drogas, agressividade e comportamento violento, irritabilidade exagerada, instabilidade emocional e desestabilidade psíquica e social.

Na fase depressiva, predominam: tristeza persistente, desinteresse, apatia, retraimento social, ansiedade, desesperança, pessimismo, sentimento de culpa, remorso, arrependimento e de menos valia, sensação de impotência ou incapacidade sexual, perda do interesse ou prazer em atividades lúdicas, diminuição da energia, queixas frequentes de fadiga, dificuldade na concentração e na memória, fala lenta, dificuldades em tomar decisões, inquietação, irritabilidade, dorme demais (hipersonia), ou não consegue dormir (insônia), falta de apetite com perda ou ganho excessivos, apatia, pensamentos suicidas e sensação de desvalia.

No bojo da pandemia, fala-se, atualmente, em 4° onda de eventos, relacionados a pandemia e essa “nova onda” refere-se ao incremento de casos de doenças mentais na população em geral. Tais informes já vêm sendo largamente anunciados pela Organização Mundial da Saúde – OMS em seus informes e notas técnicas. Em razão disso, estamos chamando a atenção dos próprios enfermos, dos familiares e os órgãos encarregados da saúde pública para se precaverem e adotarem medidas profiláticas antes que isso possa afetar, mais ainda, a população do mundo e do nosso país em particular.

  Portanto, permaneçam, em seus tratamentos, façam uso regular dos seus medicamentos e mantenham-se fies às suas prescrições. O pior momento para se ter uma crise psiquiátrica é esse de agora, pelas restrições de serviços psiquiátricos, as dificuldades de acesso aos mesmos e na obtenção dos medicamentos dessa área. portanto se cuidem. Caso seja necessário utilizar antivirais e outros fármacos para a Covid -19, fale com seu médico para orientações.

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