Consumo de álcool e outras drogas na pandemia – IV

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               O Brasil figura entre os países que mais bebem no mundo. Os índices são alarmantes e cada vez mais ocorrem problemas advindos desse consumo, no plano da saúde, do social, da segurança, da violência urbana e doméstica e da economia e estes problemas se sobressaem, entre os tantos outros que temos em nosso país, ao ponto dessa questão, ser considerada um problema de saúde pública.

           Em média, cada pessoa no mundo bebe 6,2 litros de álcool puro/ano. Apenas 38,3% da população mundial faz uso dessas bebidas. Isso é, a minoria bebe pela maioria. Os que bebem, na verdade, estão consumindo 17 litros/ano, em média. O alto consumo provoca mais de 3,3 milhões de mortes/ no mundo e por volta de 200 doenças, estão relacionadas direta ou indiretamente ao consumo excessivo de álcool.

              Há em nosso país, um milhão de pontos de venda de bebidas alcoólica, isso corresponde, a mais ou menos, um ponto de venda para cada duas mil pessoas e isso é um número bastante elevado considerando que essa aditividade comercial, colabora bastante para as pessoas beberem. Nosso padrão de consumo de álcool é excessivo regular, isto é, as pessoas em geral bebem de forma exagerada (beber em binge), até se embriagarem, padrão de consumo, nefasto à saúde física, social e mental.

            O álcool etílico, farmacologicamente, é uma substância de múltiplas ações no Sistema Nervoso Central- SNC. Ele, deprime as atividades do cérebro, muito embora, o consumo de baixas doses, é euforizante. Paradoxalmente, em doses baixas, reduz a ansiedade e promove certo relaxamento e bem-estar. Porém, em doses excessivas e regulares, faz o contrário, provoca crises de ansiedade e mal-estar difuso, sono irregular, alterações do apetite, da atenção, da memória de curto prazo e do pragmatismo.

            O álcool é também hedônico (induz ao prazer), pois age, preferentemente, em áreas cerebrais responsáveis pelo prazer humano. Essa área é designada, na nomenclatura científica, como área de recompensa cerebral – ARC ou área do prazer. Justamente, por ser uma região do cérebro altamente rica em DOPAMINA, neurotransmissor cerebral, encarregado, entre outras coisas, de proporcionar prazer. Por isso, o álcool ingerido em pequenas doses, melhora o desejo, o desempenho, o apetite sexual, a disposição, o interesse, a capacidade cognitiva e as relações sociais. Em excesso, é altamente patogênico e faz, justamente, o contrário.

                 Outro dado epidemiológico importante, é que 65% da população brasileira bebe e entre 10 a 13% dessa população são dependentes de álcool (alcoólatras). No Brasil, Quase 3% da população, acima de 15 anos de idade é considerada alcoólatra, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Representa mais de 4 milhões de pessoas, nessa faixa etária. Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (II-LENAD), 32% da população brasileira bebe moderadamente e 16%, bebem de forma nociva.

                Como vimos acima, o uso de álcool ocasiona mais de 3 milhões de mortes por ano no mundo. No Brasil, cerca de 40 mil pessoas morrem por acidente automobilístico e 60 mil por homicídios. Esses dados mostram claramente a relevância desses problemas entre nós, nos chamando a atenção para a gravidade dessas questões.

             A OMS demonstra que o consumo de bebidas alcoólicas em pessoas acima de 15 anos, acelerou na década: em 2006 o consumo per capita/anual, era de 6,2 litros de álcool puro, em 2016 essa média passou para 8,9 litros/ano. O aumento é de 43,5%. Esses índices referendam estudos nos quais constatam que a população jovem brasileira está bebendo muito, ao ponto de, até 17 anos de idade 7% dessa população já serem dependentes de álcool. Isso é um problema muito grave do ponto de vista médico e psiquiátrico, pois todos esses jovens, com esse tipo de doença mental (alcoolismo), irão precisar de ajuda e tratamento profissionais.

             O consumo nacional de álcool está acima da média mundial, que é de 6,4 litros percapta/ano. Além do mais, o Brasil é o terceiro país na América Latina e o quinto em todo o continente com o maior consumo de álcool per capita. O uso de álcool em crianças e adolescentes pode chegar a 7% aos 12 anos e até a 80% aos 18 anos, com riscos de lesões e mortes acidentais, suicídio, gravidez não planejada, sexo não protegido, problemas sociais e escolares, e a longo prazo, maior risco de dependência e lesões estruturais do cérebro.

          Por último, sabe-se que o consumo excessivo do álcool está associado com mais de 60 condições clínicas (agudas e crônicas): entre estas, hipertensão arterial, diabetes e muitas outras doenças agravadas pelo consumo de álcool. Além, evidentemente de todos os outros problemas já citados anteriormente, sobretudo, sociais, como a violência doméstica e urbana, questões laborais, comportamento sexual de risco, entre outros. Sobre isso, o ponto que a OMS mais destaca é o impacto do consumo exagerado de álcool e o sistema imune. E, isso vem ocorrendo nessa época da pandemia do COVI-19. Estudos demonstram que houve um aumento de 50% no consumo de bebidas destilados e de 40% no de bebidas fermentadas.

                Evidentemente, que isso sinaliza para uma situação complicada considerando que o que mais precisamos, no presente momento, é que as pessoas estejam bem de saúde e, sobretudo com seu sistema de defesa arrojado (imunidade pessoal) para se contrapor à infecção pelo Corona vírus, tendo em vista que esse é um sistema é que irá nos defender dessa agressão viral. As angustias individuais, impostas pelas restrições sociais (isolamento social), o medo e pavor das pessoas de se contaminarem pelo vírus, as enormes frustrações por romperem suas atividades sociais e de trabalho, as perdas financeiras, o desemprego e a queda da renda, mortes de parentes e amigos devido a COVID-19. Enfim, todas essas mazelas que estamos passando, são razões suficientes para explicar parte dos motivos das pessoas estarem atualmente bebendo mais.

            Observa-se, que a absoluta maioria dessas pessoas que estão bebendo e usando outras drogas excessivamente, já eram consumidores habituais e a pretexto desses fatores acima, mensionados, aumentaram, sobremaneira, esse consumo. Portanto, não é algo novo ocasionado pela pandemia. Pessoalmente, acredito que os novatos que estão iniciando a beberem agora, são bem menores.

            Outro fato, é que temos um número expressivo de jovens, adultos e da terceira idade, alcoólatras, que se encontram em plena vigência de suas doenças e a maioria deles, sem qualquer tratamento psiquiátrico ou acompanhamento psicossocial, fato esse, os tornam mais vulneráveis às recaídas, tornando-os, portanto, mais propensos a beberem mais.

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A maconha dita medicinal e suas incongruências

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                              A maconha dita medicinal e suas incongruências

                   Um artigo importantíssimo, publicado no dia 18/12/22 no Jornal O Globo, por dois  grandes psiquiatras brasileiros, o Dr Alexander Moreira-Almeida, com pós-doutorado na Duke University (EUA), e professor titular de psiquiatria na Universidade Federal de Juiz de Fora, e Antônio Geraldo da Silva, com doutorado na Universidade do Porto, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria- ABP e membro do comitê permanente de seções científicas da World Psychiatric Association, nos brindaram com esse artigo, atual, oportuno e esclarecedor sobre um assunto polêmico, complexo e abrangente que é a utilização da maconha na perspectiva medicinal e ausência de bases científicas para fazê-lo e por isso mesmo podendo gerar graves problemas na saúde mental.

                O artigo trata de um tema que está na pauta do dia, dos noticiosos nacionais e internacionais e destaca o uso, a legalização e industrialização da maconha para múltiplas finalidades medicinais. O título do artigo é “Debate sobre maconha ignora pesquisas científicas” e informa que não existe evidência consistentes que justifique o uso de canabinoides para tratar qualquer transtorno mental.

                    O debate sobre a legalização do uso recreativo ou medicinal da maconha e de seus derivados é antigo, polêmico e envolve muitas “paixões e interesses políticos e financeiros, nos informa os autores do trabalho”. Os autores dizem ainda: “Impressiona quanto grande parte dos debates é pautada pela indústria da Cannabis ou por grupos de pressão, ignorando fatos oriundos de pesquisas científicas de qualidade e o posicionamento das principais associações médicas e científicas”.

              O artigo, tornou-se mais rico ainda pelo fato de os autores terem apresentado um resumo das melhores pesquisas sobre maconha e saúde mental publicadas pelas principais revistas médicas do mundo (para ter acesso a estas pesquisas, acesse: www.abp.org.br/maconha). Segundo os mesmos, “o uso recreativo, segundo dezenas de estudos de alta qualidade, os usuários de maconha têm maior chance de desenvolver tentativas de suicídio (duas a seis vezes mais), depressão (37% a mais), psicose (duas a quatro vezes mais chances de esquizofrenia), pior qualidade de vida, dependência da maconha (16 vezes) e de outras drogas (sete vezes), mortalidade geral (100% de aumento), por overdose (três vezes mais) e por homicídio (três vezes).

               Os autores dizem, ainda: “O uso também gera problemas cognitivos — atenção, motivação, memória, controle de impulsos e menor inteligência — e alterações nas estruturas cerebrais, que tornam três vezes menos provável a conclusão do ensino médio ou da faculdade, com mais chance de dependência de apoio financeiro dos pais ou do governo. Em todos esses efeitos, quanto maior o uso, maior o impacto deletério.

              Sobre as Revisões sistemáticas das pesquisas, referidas no artigo, com um mínimo de qualidade sobre essa temática, concluíram que “não há evidência consistente que justifique o uso de canabinoides para qualquer transtorno mental (incluindo ansiedade, depressão, insônia, autismo etc.) e informaram ainda: A FDA, agência de saúde americana a qual se equivale a ANVISA no Brasil, “não aprovou o uso de Cannabis ou de seus derivados para qualquer quadro psiquiátrico, assim como desconhecemos importantes associações médicas que o tenham feito. Ao contrário, as Associações de Psiquiatria do Brasil e dos EUA publicaram recentemente posicionamentos afirmando que não há indicação como tratamento para nenhum transtorno mental”.

             Os referidos autores deste importante artigo, garantem: as autorizações legais ou judiciais para o uso “medicinal” da Cannabis geralmente têm ocorrido por pressão de grupos, e não por causa de evidências ou solicitação de associações médicas. A pergunta é: por que o uso “medicinal” da maconha e de seus derivados deve ser feito sem os cuidados e pesquisas exigidos para quaisquer outros tratamentos?

               Os autores ainda informam: “Sabe-se que os estados dos EUA que liberaram o uso “medicinal” da Cannabis tiveram aumento do uso recreativo e de dependência de Cannabis em comparação com os que não o autorizaram. A disseminação de seus alegados potenciais terapêuticos gera menor percepção de risco do uso da Cannabis, implicando maior consumo. Nos EUA, pela primeira vez, o uso de maconha ultrapassou o de tabaco”.

            No artigo, duas outras substâncias de uso abusivo nos Estados Unidos, foram citadas à guisa de consubstanciar os argumentos sobre o uso da maconha. “Similar ao que se diz agora sobre a maconha, o uso de opioides e de tabaco também é milenar em contextos terapêuticos e espirituais. Eles foram industrializados e promovidos como inofensivos e terapêuticos. A disseminação de seu uso gerou bilhões em lucro e dezenas de milhões de mortes. A epidemia de opioides nos EUA — que, pela primeira vez, diminuiu a expectativa de vida naquele país — começou nos anos 1990 com seu uso terapêutico para dor crônica, ampla cobertura da mídia e marketing agressivo. Em 2020, mais de 68 mil morreram por overdose de opioides nos EUA (o equivalente à soma das mortes por homicídios e por acidentes de trânsito no Brasil).

             Os autores, destacaram ainda, a corrida desenfreada da indústria do tabaco onde o fator relevante que está sendo o grande declínio da indústria do tabaco, acarretando a busca por novas fontes de renda, como a maconha. Esta, embora menos tóxica que o tabaco para o corpo, é muito mais danosa para a mente e o comportamento de seus usuários.

             Os autores concluíram seu trabalho afirmando: Somos a favor de pesquisas de qualidade sobre os potenciais terapêuticos dos canabinoides, mas não é razoável apoiar a precipitação atual, com indicações amplas e sem avaliação de riscos e benefícios. O sofrimento e a morte gerados pela promoção irrefletida do tabaco e dos opioides deveriam ter nos ensinado mais rigor científico, maior preocupação humanitária, menos precipitação e paixões.

             Como podemos perceber, o problema está posto. Realmente é um assunto abrangente, polêmico e complexo, onde muitos fatores exercem distintas pressões sobre esse assunto. Todavia, manifesto meu total acordo ao que foi posto no artigo referido, considerando, que do ponto de vista da saúde pública, o mais recomendável é que as drogas ao serem liberadas para o uso pela população, seja feito com rigor científico, através de trabalhos e pesquisas científicas que comprovem a utilização eficaz e segura de tais produtos e não por pressões de qualquer natureza ou por grupos que querem descer de goela a baixo uma substância como a maconha, de forma industrial ou “in natura”, em que há décadas já conhecemos de forma consistente, o mal que ela pode fazer a nossa saúde.

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Explode Casos de doenças mentais na população

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             Circulou na Folha está semana uma manchete exaltando a 2ª pandemia’ na saúde mental, com multidão de deprimidos e ansiosos, em nosso país. Para mim pessoalmente não via muita novidade, considerando que há tempos desde 2021, venho chamando a atenção do poder público e a sociedade em geral, sobre esta possibilidade de crescimento de casos de doenças mentais no curso dessa pandemia.

            O consumo de álcool e de outras drogas, episódios de depressão, ansiedade e suicídios e de muitos outros problemas mentais, sobem sem parar, segundo Datasus, e muitos desses problemas matam mais que acidente de moto, na contramão do resto do mundo. Diz ainda a reportagem, que o total de óbitos no país por lesões autoprovocadas dobrou de cerca de 7.000 para 14 mil nos últimos 20 anos, segundo o Datasus, sem considerar a subnotificação. Isso equivale a mais de um óbito por hora, superando as mortes em acidentes de moto ou por HIV.

           Para agravar ainda mais esses problemas a OMS destaca que à pobreza, à desigualdade, à exposição a situações de violência e à ineficiência de planos de prevenção, colaboram, sobremaneira, para piora dessa situação toda, especialmente na América Latina.

          Sobre o suicídio, propriamente dito, suas causas são múltiplas e por se tratar de um fenômeno multifatorial, dificilmente um único fator explicaria a totalidade da conduta autodestrutiva. O que pode ocorrer, como ocorre em muitas situações do ponto de vista médico e psicológico, é uma situação ou outra, ser predominante em relação aos demais fatores causais e este fator pode aparecer como destaque na causalidade do comportamento suicida. Portanto, quando o assunto é causas dos suicídios, destacaremos fatores endógenos (ligados ao sujeito) e fatores exógenos, ligados ao mundo externo à pessoa.

            Neste universo externo, muitos fatores podem colaborara em distintas proporções para o cometimento do suicídio. Fatores psicossociais, culturais, e circunstâncias exercem motivações relevantes na prática autodestrutiva. Assim como fatores genéticos, familiares e psicopatológicos, (doenças mentais), etc., são fatores predisponentes que podem se destacar no âmbito desses comportamentos.

           A reportagem da Folha, cita ainda o exemplo de uma Sra. Que diz: “Tudo é em forma de tentar sair da vida que a gente leva”, afirma Ana Paula da Silva, 39. Ela conta que tem episódios de automutilação e que tentou tirar a própria vida cinco vezes relembrando uma infância de ausências: “Às vezes, a gente só tinha o almoço ou a janta”.

           Começou a trabalhar aos 14 e se prostituiu nas ruas de Venâncio depois que perdeu o pai, alcoólatra. Também se rendeu à cocaína e à bebida. ​Hoje, se sente melhor e tenta recomeçar com as rodas de conversa e a água quentinha do chimarrão de que gosta no Caps (Centro de Atenção Psicossocial).

            Em nosso país, o Rio Grande do Sul ocupa sempre o topo do ranking brasileiro, no cometimento de suicídios, por motivos que ainda não estão plenamente esclarecidos. Há hipóteses que apontam para a cultura herdada da colonização alemã: “No Sul, saúde mental é vista como besteira, como se a pessoa não quisesse trabalhar”, diz coordenadora do comitê, Andréia Volkmer. Outros pesquisadores apontam para intoxicações feitas por agrotóxicos, considerando que o Rio Grande do Sul é um estado fortemente agropecuarista e essas intoxicações (por organofosforados), conduziriam a quadros graves de depressões e isso funcionaria como gatilho para esses índices alarmantes de suicídio.

          Fatores psicopatológicos como as depressões é comum coexistirem sentimentos de angústia, desesperança, desânimo, desinteresse,  desamor, desamparo e desespero, são entre outros sentimentos, muito presentes em comportamentos suicidas. A própria depressão, do ponto de vista epidemiológico aparece como o diagnóstico mais frequente para o cometimento de suicídio, entre as mais de 300 doenças mentais na lista das doenças mentais em Psiquiatria. Prevenir o suicídio, entre outras medidas é, então, prevenir o sofrimento psicológico dessas pessoas em diferentes momentos de suas vidas.

           Os transtornos de ansiedade foram os mais encontrados nessas diversas ondas da pandemia do Covid -19. Um levantamento da OMS em 2017 apontou o Brasil como o país com o maior índice de ansiosos do mundo (9,3% ou 18 milhões de pessoas) e o terceiro maior em depressivos (5,8% ou 11 milhões), muito próximo dos EUA e da Austrália (5,9%) —a entidade pondera que não se pode falar em ranking, porque são estimativas.

           Hoje, porém, esses números já estão longe da realidade. Os efeitos do luto, do medo e do isolamento social pela Covid-19, as restrições socias, perdas de trabalho e outras privações sociais, culturais e de lazer, foram alterações significativas na vida das pessoas  nos últimos dois anos, os quais influenciaram nessa elevação de doenças mentais na população geral.

           A reportagem da Folha cita ainda a última pesquisa mais abrangente, da Vital Strategies e da Universidade Federal de Pelotas, a qual mostrou que os que dizem ter sido diagnosticados com depressão subiram de 9,6% antes da pandemia para 13,5% em 2022. A Associação Brasileira de Psiquiatria cita que um quarto da população tem, teve ou terá depressão ao longo da vida.

           “Estamos saindo da pandemia de coronavírus e entrando numa pandemia de saúde mental”, diz Nogueira. “No auge da Covid, nós íamos atender os pacientes em casa e eles diziam: ‘doutor, pelo amor de Deus, abram os bares, porque aí pelo menos paramos de beber quando eles fecham’.”

            Enquanto os bares fechavam, por recomendações sanitárias o mesmo acontecia com serviços de saúde mental, o que reprimiu a demanda e fez os pacientes em crise aumentarem. No Caps da Restinga, extremo sul de Porto Alegre, por exemplo, os 3.000 atendimentos mensais de dependentes químicos viraram 14 mil, incluindo mais mulheres e pessoas de classe média. Nesse sentido, estudos mostram o aumento substancial do consumo de álcool e de outras drogas no curso natural da pandemia.

            Além de todos esses transtornos citados acima e outros como Síndrome de Burnout, Esquizofrenia, surtos psicóticos agudos, comportamento violento, transtornos de conduta em crianças e adolescentes e transtornos de personalidade tipo Borderline, são os mais citados nas pesquisas examinando a explosão dos transtornos mentais nesses mais de dois anos de pandemia. No entanto, pouco se aprofundou na capacidade do sistema público de saúde mental, que vem tentando receber essa demanda aumentado de ocorrências psiquiátricas em nossa população, é hora de repensarmos esses modelos de atenção para melhor atender essa demanda especial desses enfermos mentais.

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Os “cídios” da vida moderna

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                 Homicídios, suicídios, feminicídios, filicídios, parricídios, infanticídios passaram a ser ocorrências regulares anunciadas nos grandes noticiosos locais e nacionais. São comportamentos, em geral criminosos, em que o sufixo “cídio” ou “cida”, de origem latina caedere, significa “matar, imolar, derrubar” e, ao se justapor a cada palavra, especificamente, define o significado de cada uma dessas atitudes.

        Atualmente, raros são os dias em que não se ouve notícias sobre esses acontecimentos. Além do mais, o que mais nos chama atenção é que essas ocorrências são revestidas de muita perversidade, crueldade e impiedade inomináveis.

                 O feminicídio, por exemplo, apesar de ser um crime hediondo e chocante, do ponto de vista humanístico e antropológico-social, está entre os mais comumente praticados e anunciados nas mídias nacionais. Infelizmente um número grande de mulheres, adolescentes, jovens, adultas e crianças são submetidas a alguma forma de tortura ou violência em nosso país: assédios, exploração sexual, estupro, violência psicológica, agressões sociais ou domésticas praticadas por parceiros ou familiares ou terceiros. A violência de gênero, outro crime recorrente, se perpetua nos espaços públicos e privados, encontrando nos assassinatos a sua expressão maior entre todas essas barbaridades.

                  O documento “Dossiê Feminicídio”, do Instituto Patrícia Galvão, informa que ocorre em nosso país um estupro a cada 11 minutos, que uma mulher é assinada a cada 2 horas, que 503 mulheres são vítimas de agressão a cada horas, que 5 mulheres são espancadas a cada dois minutos. São números inaceitáveis, que mostram o tamanho e a gravidade desse problema.

         O Brasil é o 5º país no ranking internacional de homicídios de mulheres. Constata-se, ainda, que a violência doméstica fatal é praticada com requintes de crueldade. Homicídios de mulheres negras aumentaram 54% em 10 anos e as mulheres jovens correm mais risco de serem assassinadas.

            As taxas de suicídios, outra ocorrência lamentável entre nós, aumentaram nos últimos anos. São praticados 114 mil suicídios, anualmente, em nosso país. E o mais preocupante é que os maiores índices de suicídio ocorreram entre 14 e 29 anos de idade, mortes essas que ocorreram no apogeu da juventude, da capacidade laborativa e do esplendor da vida. Sobre os homicídios, são também graves e elevadas as taxas em nosso território nacional. Atingiu-se o índice de 20.126 assassinatos, por ano, segundo o Mapa da Violência em 2021.

                  Por serem diferentes tipos de crimes, esses fenômenos, do ponto de vista da justiça, da moral e psicossocial, têm diferentes formas de interpretação e manejo. Por outro lado, sabe-se que se trata, realmente, de comportamentos altamente complexos, desumanos e reprovados em todos os sentidos. São comportamentos e atitudes baseadas em múltiplas causalidades, considerando-se a complexidade e motivacionalidade de cada um deles.

                  O suicídio, o homicídio, feminicídio, etc, não poderiam ser explicados por um único fator, por mais significantes que possam parecer. Da mesma forma, filicídios ou parricídios, todos do ponto de vista fenomenológico, terão ocasionados por múltiplos fatores causais, os quais justapostos, colaborarão para suas expressões finais. A diversidade de fatores causais e a preponderância de cada um é que resultarão na expressão dessas atitudes e conferirão a dimensão ultracomplexa e epifenomênica a esses comportamentos criminosos.

                Na perspectiva dessa complexidade motivacional criminogênica, destacaria como um importante aspecto o transtorno mental, em que fatores psicopatológicos graves podem colaborar para a materialidade desses comportamentos. A crueldade, a perversidade e a brutalidade com que esses crimes ocorrem são chocantes e quando associados à frieza emocional, ao indiferentismo, à ausência de piedade, de culpa ou remorso do praticante, confirmam que os mesmos são, preponderantemente, baseados ou influenciados por fatores associados a transtornos psiquiátricos ou comportamentais, com graus distintos de gravidade psicopatológicas, tão bem descritas pela Psiquiatria Forense.

                 Ao mesmo tempo, não podemos desconsiderar que outros fatores psicodinâmicos, socioeconômicos e comportamentais, podem, de forma estrutural ou conjuntural, influenciar, decisivamente, a expressão final esses “cídios”.  A pobreza, a falta de emprego, falta de habitação condigna, o acesso precarizado ao ensino e a educação, as restrições alimentares, a fome, a falta de lazer, de ocupação, de atividades sociais e lúdicas, o uso de álcool e de outras drogas, as desigualdades sociais, são todos fatores, absolutamente relevantes que podem estar nas bases desses fenômenos criminogênicos. As questões políticas, as injustiças sociais, as discriminações de raça e gênero, os preconceitos podem também ser fatores relevantes para influenciar, sobremaneira, tais comportamentos abomináveis.

                  Na realidade, vivemos em um momento complicado de nossa história. Paradoxalmente a toda evolução que alcançamos nas últimas décadas, vive-se, predominantemente, sob a égide do ódio, da indiferença aos outros e da insegurança social e pessoal. Esses fatos, justapostos, influenciam negativamente a vida e o bem-estar da população.

                   O ódio é um dos ingredientes altamente presentes nos “cídios” da vida moderna. Discurso de ódio, crime de ódio, reações de ódio, conflitos por ódio, essas são expressões frequentemente anunciadas na grande mídia nacional. São comportamentos ou reações descontroladas e avassaladoras de fúria de muitas pessoas.

             Na realidade, o ódio é um sentimento devastador, uma reação explosiva emocional, e uma das mais repudiadas reações humanas, por isso mesmo, condenada por todos. O ódio causa repulsa, aversão e medo. Do ponto de vista pessoal, moral e social é uma reação abominável. Está intrinsecamente inserido no amplo repertório das reações afetivas humanas, e entre as mais antigas em nosso desenvolvimento filo e ontogenético. Pode-se perceber sua manifestação em todas as etapas do desenvolvimento humano. As manifestações de ódio estão na base da violência social, dos graves conflitos interpessoais, políticos, familiares, no trabalho, nos negócios, nas relações internacionais, podendo favorecer o cometimento de uma variedade enormes de crimes.

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A arrogância, um veneno da alma

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           Nos bate-papos, nas rodas de conversas, em conversas fortuitas quase sempre, se ouve alguém comentar: “fulano é esnobe, pedante ou ainda: fulano é presunçoso, pretencioso, convencido e insolente, para em seguida, explicam porque pensam assim daquela pessoa. Todos esses adjetivos, são sinônimos de arrogância, um dos traços humanos, mais rechaçados e incomodante que alguém pode ter. Humildade, oposto da arrogância é o que não existe nessas pessoas, embora possam simular que a tenham tal virtude.

          Para Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832) escritor, cientista e filósofo alemão, dizia: Muitos são orgulhosos por causa daquilo que sabem; face ao que não sabem, são arrogantes.

           Para Charles Darwin (1809-1882), naturalista inglês, o pai da “Teoria da Evolução das Espécies”, dizia: O homem, em sua arrogância, pensa de si mesmo como uma grande obra, merecedora da intervenção de uma divindade. Em distintas épocas, pensadores, cientistas e filósofos ao se debruçarem conhecerem melhor esse sentimento de arrogância e manifestavam seus conceitos quase sempre na mesma direção, destacando a arrogância como algo relativa à soberba e a prepotência.

            O arrogante, expressa uma característica marcantes em seu comportamento que que é o culto da superioridade. A rigor, são personalidades prepotentes, convencidas e vaidosas que se sentem melhores em tudo que fazem. À rigor são expertos, hábeis, sedutores e enganadores e isso os fazem sentirem-se melhores em tudo que fazem.

          De modo geral, são soberbos, presunçosos e vaidosos, por isso mesmo, socialmente, acabam tendo má reputação. Essas pessoas, quase sempre se sentem no domínio de tudo e de todos, sendo a presunção, nesses casos, também uma marca forte em seu caráter. Se vangloriam e destacam suas qualidades. São insolentes e desprezam, ostensivamente, opiniões e pontos de vista, contrários aos seus.

           No desenvolvimento emocional e cognitivo, dos arrogantes, há fatos que os tornam gulosos, fominhas e insaciáveis. Querem tudo para si, controlam tudo e comandam tudo. Do ponto de vista do seu crescimento emocional são “crianças grandes, ou adultos que não cresceram, são carentes de si mesmos”. Apresentam, uma necessidade incomum dese sentirem paparicados, bajulados, elogiados e, nessas condições exibem seus dotes e habilidades, presumivelmente, melhores que as dos outros, sobre os quais se se sentem superiores. Sua autoimagem e opiniões que tem sobre si mesmo, são excessivamente boas, e se sentem muito bem com quem as reconheçam.

           Esses traços, descritos acima, já são vistos desde cedo, na infância e prosseguem na adolescência, na vida adulta e daí por diante. Essas características se incorporam em seu ego e se consolidam como algo próprio, levando-os a serem identificados como tal, no convivo social ou familiar. “Fulano, sempre foi assim, desde criança”.

         Os arrogantes, por suas crenças de superioridades, apresentam diferentes graus de dificuldades em seus relacionamentos. Essas dificuldades se revelam de forma notória, quando alguém ameaça a sua supremacia, tornando-os enfurecidos. Essas dificuldades, impõe aos mesmos, preferências nos relacionamentos ou amizades com pessoas com as quais possam empreender seu domínio. A arrogância está no “endos” dessas pessoas e se revelam nas circunstâncias. Esses, quase sempre, buscam posições de mando, ou de liderança, para se firmarem como tal.

          Gostam de ser elogiados, embora digam que não. Suas opiniões deverão sempre prevalecer e serem aceitas e seguidas e não podem ser desprezadas e/ou desconsideradas, pois entendem isso como uma ousadia, desrespeito e desacato a si mesmo.

          Os arrogantes, são ávidos por poder. Essas posições reforçam seu ego inflado e hipertrófico. Essas figuras, ao exercerem funções importantes em qualquer área que atuam, querem mandar. Quando confrontado, (o que é sempre muito difícil pois não deixam que isso ocorra) ou mesmo, diante de outra ameaças se desesperam, se irritam e se desestabilizam, tornando-se agressivos e furiosos como uma criança que perdeu a chupeta.

                 Sua autoestima é sempre elevada, sobretudo, pela vaidade. São eloquentes, pensam rápido e tem resposta para tudo, e se sentem cheio de razão no que fazem. São carentes de si mesmos e extremamente inseguros. Em geral. São inteligentes e percebem as coisas com muita facilidade. A maior dificuldade dessas pessoas é lidar com seu ego frágil e inflado e, às vezes, para compensar essa limitação, costumam, tomar como verdade, uma suposição, algo que ainda não foi confirmado ou comprovado, mas que para esses, não é considerado especulação.

               Do ponto de vista psicopatológico, há relatos de comportamentos arrogantes em alguns grupos de pessoas portadores de Transtornos de Personalidades do tipo Narcísista, um dos 10 tipos referenciados na Classificação Internacional das doenças – CID-10. Nesses, a arrogância, é um traço predominantes em sua personalidade, que está presente com diferentes níveis de intensidade. Em personalidades histriônicas, infantis e portadores de Transtornos de Humor (hipomania e mania franca), é comum observarmos, na vigência desses transtornos, comportamentos arrogantes.

       Por último, cito um relato de um colega, Psiquiatra de Dr. Régis Eric Maia Barros, Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USP, que em uma de suas publicações, relata a definição que um de seus pacientes dissera, sobre os arrogantes: segundo ele “o arrogante é um pobre que se vê rico, um fraco que precisa se vê forte, um ignorante que se acha culto e um ser que não se admira e que precisa forçar a admiração dos outros”.

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A crise, o porvir e a esperança

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                 Haveria algum ponto em comum nessas três condições? Onde, a crise dos indivíduos, o porvir e a esperança se encontram? Ou, o porvir, a esperança e a crise da pessoa, são coisas distintas? Onde se dá cada uma dessas fenômenos? 

                Tres perguntas, tres condições e tres inquietações. A crise, nos remete a uma mudança inesperada, abrupta que altera o desenvolvimento de algo em curso. Onde as expectativas, o medo, as indecisões, as inquietações e a insegurança, tomam conta de cada um, como sinalizadores dessa condição. Essas mudanças podem ser físicas, psíquicas ou simbólicas. As crises são situações complexas de dificil manejo. 

                O porvir, refer-se a nossa temporalidade. Se dá na perspectiva do que pode  acontecer, viver algo ou uma história. Porvir é o que se espera, o que se imagina que venha acontecder, tem haver com o futuro. 

                 Por último,  a esperança. Esssa se inscreve como a “última que morre”, enaltecendo a necessidade da luta em um sentido que se acredita. A esperança é a disposição de interceder, de querer mudar, de ir em frente e de acreditar no possível, tendo-o como o centro dessa luta. A esperança muda rumos, eventos e sentidos, dentro e fora de si mesmo.  

               Todas essas vivências dizem respeito ao homem no mundo. Dizem respeito ao seu “vir a ser” na sociedade e na representatividade social sobre quem recaem as expectativas. Nessa perspectiva, a crise, representa a mudança que se anuncia, em um tempo. E a mudança, é a esperança no porvir. Está em crise é como se encontra o sujeito atual na polis.  A crise poderá definir o que com ele ocorrerá. 

          A crise como experiência indivídual e como vivência universal nos ajuda “a decidir, o rumo que as coisas podem tomar”. Poderia dizer que a crise é a inconformação, dentro de um estado de lucidez de consciência e de autonomia. É ela que nos impulsiona, nos motiva a mudar, nos inquieta, nos movimenta e nos faz avançar, no rumo da perfeição. 

                  Nós somos a crise, pois estamos em estado permanente de mudanças.  É dela que estraímos o sentido e a maior razão de vivermos. Nesses tempos modernos, está  abundante e, paradoxalmente, apesar da dor, do sofrimento, das dúvidas e das incertezas que nos assola a todos, eatá aí a esperança, pois estão aí os momentos mais propícios ás mudanças. Contrariamente, ao conformismo, antítese da crises esse é o pior dos estados e dos momentos dos seres humanos. O conformismo nos amordassa, nos imobiliza, nos torna apáticos e indiferentes. Não se evolui no conformismo. 

                 Nos tempos atuais, onde as conturbações políticas, econômicas e sociais dão sinas de fracasso, especialmente, nas tradições, surgem, oportunamente, ideologias soltas e extravagantes de inovação que guadam no fundo o ranço do ignóbil e da perversão e mais do conformismos que de mudanças, onde tais ideiais inovadoras, mas se parecem conservadoras, ferem  formalmente a autonomia, a identidade, a cidadania a liberdad dos sujeitos, nos deixando, a todos enraivecidos, perplexos  e com medo, nos conduzindo em direção ao alheiamento e no anomimato. Eis a inconformação e a luta. 

               Por sua vez, as famigeradas redes sociais, virtuais e fugases incentiva o desengajamento político, o alheiamento social real, nos tolhem e nos amarguram, materializando nossa disposição de fugir e nos incoformar. É isso que vem ocorrendo, hoje. O homem moderno repleto de artefatos, ora reais, ora virtuais, ora bélicos ou ingênuos, produto dessa conturbação, a cada dia se esvazia, se subordina, se escravisa ao material, à vaidade, ao conformismo, a individualidade e isso os impede de avançar e como não consegui,  aos poucos se destroi o mundo. 

                Os tempos modernos, repletos de homens modernos, sem saber realmente para quer ir ou está indo. Descrentes, ireal, imaginário e insignificantes. Incapaz de se vê no futuro, não se ergue e se subtrai da experiência no mundo da realidade. A cada dia se perde umpouco e não se recohece. O outro que seria capaz de me fazer reconhecer-me, também não me faz. Como eu, também é insignificante e fraco. Imaginários.

               Nessa perspectaiva, a crise maior não é da represetnatividade nem da polis é a crise da essensialidade, do sentido, do significado, do valor de si mesmo. Eis o homem solitário e em solidão. Essa é a crise existencial do homem contemporâneo: a solidão e o anônimato. A pior das crise, pois essa contariamente às outras pode sucumbi-lo. Desctruir-se a si mesmo, a terra o planeta e o universo. Acrise as aversas essa maa a esperança. O porvir, sem a esperança é o homem se esvaindo, sem construção pois falta-lhe sentido na vida. 

               Eis o porvir, onde nas condições atuais, em um tempo real so pode vir o inesperado, uma incógnita. Que homem virá com suas contradição atuais, não se sabe. E, mesmo assim, esperemos quem virá, em cada um de nós o que não faltam são os “porvires”. 

               Essas incogógnitas, a crise, o porvir e a esperança seria nossa salvação. É o tempo esperado, o viver determinado na historia de cada um. Somos ao mesmo tempo tudo isso, em diferentes dimensões: o que foi, o agora e o futuro em cada um, em sua existencalidade. O futuro, uma abstração. O presente, a decisão, e a esprarança a maior das nossas contruções, se espera para fazê-la. Eis o homem no mundo e eis o mundo no homem. O que virá disso, não sei!

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Novos paradigmas, o cérebro e as doenças mentais

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            A Psiquiatria, ao longo de sua história, sempre tentou localizar no cérebro as origens das doenças mentais ao ponto de, por muitos anos, esta especialidade ter sido designada como Neuropsiquiatria. As contribuições nesse sentido foram muitas, desde a possibilidade de identificar pontos no cérebro responsável por esse ou aquele sintoma ou até mesmo explicar a totalidade das doenças psiquiátricas. Outras áreas do conhecimento, além da área medicina, propriamente dito, como a religião, a psicologia, a filosofia, a antropologia, trouxeram contribuições importantes no sentido de se explicar e se compreender as origens dessas doenças.

Na atualidade, com bases sólidas nos atuais conhecimentos neurocientíficos e baseadas em evidências clínicas e laboratoriais, descobriu-se que as doenças mentais derivam de uma intricada rede de fatores, como os genéticos, a bioquímica, a imunologia, a neurofisiologia, a neuroquímica, o ambiente e as condições sociais, que interligadas umas às outras, colaboram para a expressão final do nosso equilíbrio ou desequilíbrio mental e emocional. Portanto, a saúde e a doença mental em última análise decorrem do equilíbrio desses distintos aspectos, relacionados aos comportamentos humanos.

            Portanto, qualquer fator que ocorra que seja suficientemente capaz de interceder com esse equilíbrio dinâmico ou disfuncionar essas atividades que se materializam no cérebro, por menor que seja, são capazes de provocar respostas psicopatológicas ou transtornos psiquiátricos e emocionais. Há, por outro lado, pessoas que herdam condições geneticamente desfavoráveis, para o desenvolvimento de distintos tipos de doenças mentais com gravidades variáveis, são as chamadas doenças mentais geneticamente determinadas. Por último, há um outro grupo de transtornos psiquiátricos que são ocasionadas, predominantemente, por injunções sociais, ambientais e culturais, desfavoráveis, esses são designados de distúrbios ou transtornos psicossociais.

            A visão atual, portanto, mostra que doença mental, seja qual for, nunca será determinada por um único fator, pois se originam de múltiplos fatores: exógenos, endógenos, genéticos e/ou ambientais sociais e culturais onde, em todas essas dimensões, de forma isolada ou conjuntamente, exercerão sua influência direta na origem dessas enfermidades.

            Há um fato que devemos notar, nessa rede complexa de causas dessas doenças, qual seja, em cada pessoa, portadora de uma doença mental, haverá fatores preponderantes, uns sobre os outros em distintas proporções. Por exemplo, as doenças psicóticas, tais como esquizofrenia, transtorno afetivo-bipolar, os transtornos da personalidade, quadros delirantes e alucinatórios e alguns tipos de sociopatias, as causas são, predominantemente genéticas, mesmo assim não se pode descartar a participação de outros fatores, não genéticos, para o aparecimento de tais doenças.  Volto a dizer: não há uma causa única que determine tais doenças, vários fatores contribuem para seu aparecimento.

            Outras doenças mentais, como os transtornos de ansiedade, Síndrome de Burnout, Transtorno de Stress pós-traumático e os diferentes tipos de stress, as depressões situacionais, as angustias existências, que são bastante prevalentes na atualidade, são transtornos predominantemente situacionais, ambientais, sociais e culturais.

             Devido a isso, podemos afirmar com segurança, que a sociedade atual está enferma, mentalmente. As condições gerais de vida da população, as inseguranças porque passamos, as decepções na vida, a violência doméstica, na cidade ou no campo, ou na vida urbana, o desamor, a falta de fé e de compaixão, os medos, a desconfiança nas pessoas, tem favorecido para o surgimento de muitos problemas emocionais, psiquiátricos e comportamentais, que tem como base esses conflitos pelos quais estamos passando nos dias atuais. E, a tendência é que esses transtornos se incrementem cada dia mais, por conta dos avanços da tecnologia (redes sociais), a possibilidade de liberação de drogas (maconha e outras), as questões econômicas e políticas, as anomias do estilo de vida, etc. Todos esses indicadores conflitantes, de qualquer natureza: econômicos, éticos, políticos e, sociais são fatores francamente desfavoráveis à nossa saúde mental.

        Veja por exemplo, a questão do consumo de álcool, tabaco e de outras drogas, que ocorre nos dias atuais. São condições, absolutamente, insalubres que fatalmente colaboram para os índices assustadores de doentes mentais, suicídios, homicídios, feminicídios e muitas outras situações negativas que vem ocorrendo na população em geral.

        Independentemente, de quais sejam os fatores predominantes, na etiopatogenia dessas enfermidades psiquiátricas, há um denominador comum: eles se entrelaçam e interagem uns com os outros para expressarem clinicamente a disfuncionalidade cerebral. O cérebro é, portanto, a sede material dessas doenças, pois é lá que se processa o desfeixe final, quiçá inicial, desses transtornos. É a partir do cérebro que desenvolvemos nossa consciência, nossos pensamentos, nossas emoções, nossos desejos, aspirações e julgamentos. A regulação e o equilíbrio emocional, do humor da nossa memória, do controle dos impulsos e das nossas relações sociais dependem basicamente da atividade cerebral e das nossas relações com os outros e com o mundo. Finalmente, o comportamento, personalidade, a percepção, a atenção, a cognição e muitas outras funções essenciais à vida dependem da atividade do nosso cérebro, ao ponto de. Em havendo disfunção do mesmo todas essas funções e atividades se alterarão.

           Por isso, é que a cada dia se exorta a necessidade de protegermos e tratarmos nosso cérebro com carinho, com zelo, oferecendo-lhe muitas atividades e exercícios, sistemáticos, pois só assim é que iremos garantir nossa longevidade, nossa saúde física, mental e social. Semelhantemente, a outros órgãos e sistemas biológicos humanos, o cérebro tem que ser bem tratado, agredi-lo, sob qualquer forma, é uma temeridade.

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Automutilação, aspectos clínicos e terapêuticos

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               Esse fenômeno é também designado de Transtorno de Escoriação (TE), skin picking, escoriação neurótica (neurotic excoriation), escoriação patológica, dermatotilexomania, acne escoriada (acne excorieé) ou ainda escoriação psicogênica. É uma condição médica e psicossocial que está no âmbito da saúde mental que requer tratamento e medidas preventivas no âmbito da saúde individual e coletiva.

               Sobre a saúde mental da população, estima-se que 50% dos transtornos mentais de adultos tem início antes dos 14 anos de idade e 75%, até 24 anos. Muitos estudos longitudinais demonstram que 40 % dos jovens com até 16 anos apresentam pelo menos um transtorno psiquiátrico na vida. Um, em cada 4 adultos e uma em ada 5 crianças apresenta uma doença mental conforme a OMS.

              Se considerarmos esses indicadores e cruzarmos com suicídio a OMS informa que é ele é a segunda causa de morte entre adolescentes e que mais de 90% dos que cometem suicídio apresentam algum transtorno mental. Entre as causas mais importantes apontadas nas pesquisas, os preconceitos, os estigmas, o retardamento no diagnóstico médico da doença que a ocasionou o suicídio, a busca de culpados, as restrições nas redes de apoio e cuidados a esses enfermos e poucos dispositivos de prevenção, são os fatores predisponentes mais relevantes, no cometimento e suicídio.

            Entre os fatores de risco e os transtornos mentais destacam-se: ambiente familiar disfuncional, dificuldades financeiras, abuso ou violência doméstica, uso de álcool e de outras drogas e tentativas anteriores de suicídio.

             Sobre a automutilação, ela é definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Portanto, suicídio e automutilação são eventos psicopatológicos distintos um do outro. Os atos automutilatórios, geralmente têm como intenção o alívio de sofrimento e tensão emocional. As formas mais frequentes de automutilação, destaca-se: cortar a própria pele, queimar-se, bater em si mesmo, morder-se e arranhar-se e as áreas mais comuns são: braços, pernas, barrigas e peitos.

             O diagnóstico da automutilação de conformidade com o (DSM-5) que é um instrumento de diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana – APA, está incluída no Transtorno de Escoriação- TE é “beliscar a pele de forma recorrente, resultando em lesões; tentativas repetidas de reduzir ou parar o comportamento de beliscar a pele; o ato de beliscar a pele causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento pessoal, social, profissional”.

             Do ponto de vista das ocorrências da automutilação na população em geral, ainda não há um consenso seguro sobre o mesmo. Em nosso país há poucos estudos. Espera-se, que agora com a obrigatoriedade de notificação dessas ocorrências impostas pela nova Lei Federal nº 13.819, de 26 de abril de 2019, sobre suicídio e automutilação, que em breve possamos ter acesso a dados importantes e fidedignos dessas ocorrências em nossa população.

          Sabe-se, que na área da educação essa prática é uma ocorrência, frequente, levando ao aumento da prevalência. Taxas de 26% a 37% foram relatadas para comunidade nos EUA em classe média a alta (9º ao 12º ano) (Yates et al, 2008).  No entanto, a prevalência varia entre amostras e regiões. Estudo em andamento em muitos países, inclusive UNIFESP estudos prevalências variando entre 13% e 23%. (Jacobson & Gould, 2007). A prevalência é maior no final da adolescência na prática cada vez mais precoce.

               Quais são os fatores de risco mais importantes na prática da automutilação? Destacamos: Transtornos Psiquiátricos, sobretudo Transtornos Obsessivo-Compulsivo- TOC Transtornos de Ansiedade, sobretudo Stress pós traumático e Transtorno de Ansiedade Generalizada – TAG. Transtorno do Humor, especialmente, depressão e Transtornos de Personalidade do tipo Boderline. Pacientes limítrofes, com retardo mental e alterações cognitivas, também são apontados como fortes candidatos à automutilação. História de abuso sexual ou físico são ocorrências frequentes entre esses pacientes.

                 Quais os fatores psicossociais relevantes para a automutilação? Eventos estressantes, conflitos interpessoais, perdas afetivas e emocionais significativas, discórdia e conflitos familiares e problemas escolares. Esses são apontados como os fatores mais relevantes. A baixa autoestima, comportamento antissocial, uso de tabaco, álcool e outras drogas, déficits em regulação emocional e outros fatores inter e intrapessoal como necessidade de autopunição, necessidade de relaxar, obter atenção ou ajuda de outras, irritar os outros, puni-los ou exercer controle, distrair pensamentos e sentimentos negativos, sentir algo, mesmo que seja a dor, são também fatores muitos relatados por esses enfermos.

                Quais os tratamentos da automutilação? Considerando que a automutilação tem um espectro sindrômico, as recomendações para seu tratamento são amplas, gerais e específicas.  Nessa perspectiva, estão incluídas procedimentos médicos e recomendações psicossociais. Entre as recomendações médicas, destaca-se o uso sistemático e regular de medicamentos que modifiquem as condições gerais de humor, da cognição e da ansiedade desses enfermos. Fármacos como os ansiolíticos e antidepressores bem como os estabilizadores do humor são os fármacos mais prescritos, com resultados muito satisfatórios no manejo clínico desses pacientes.

                Constrangimentos no ambiente familiar e social, bullyings em ambientes escolares devem estar na meta dos psicoterapeutas, considerando que são condições desfavoráveis nessas instâncias, as quais podem funcionar como “gatilhos” nessas pessoas.

                 A psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental – TCC, é considerada um instrumento indispensável para manejo adequado e recuperação desses enfermos. A orientação parental ou familiar, também são instrumentos relevantes no manejo da situação. Técnicas de relaxamento e de atenção plena (Mindfulness), atividades físicas, terapias ocupacionais, são recomendações especiais e importantes no tratamento desses enfermos.

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Remorso

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                Arrependimento, culpa e remorso, são três condições existenciais e psicológicas que, habitualmente, caminham juntas, muito embora, sejam condições autônomas, independentes e de significados distintos. Sobre o remorso, objeto desse artigo, diria que é um fenômeno comportamental comum na condição humana e extremamente importante do ponto de vista existencial.

               Expressões como: “fulano, apesar do que fez, não sente um pingo de remorso”. “Cicrano, não se cansa de dizer que, morrerá de remorso pelo ocorrido”. “Apesar da brutalidade, beltrano, parece frio, insensível no que faz”. São situações, diametralmente opostas, que tem em comum a vivência do remorso. Poderíamos imaginar que entre o sentir e o não sentir remorso, inclui várias condições a ele associadas, conferindo à essa experiencia, diferentes níveis e graus de sentimentos, desde o não sentir ao sentir de forma exagerada.

               Do ponto de vista antropológico e comportamental, sentir remorso é uma possibilidade humana universal. É um traço da sua personalidade, que se manifesta em condições especiais, é uma forma de reagir a eventos. Estima-se, que desde a adolescência, na idade adulta e no curso natural na vida, o sentimento de remorso pode estar presente.

             O remorso revela dor, sofrimento, pesar e tristeza, condições estas com diferentes graus ou intensidade. Pode também gerar sentimento de culpa e arrependimento. Quando isso ocorre, pelo fato da pessoa reconhecer ter feito algo a alguém que a ofendeu, ou gerou dor, sofrimento, prejuízos ou mesmo outros problemas, pode fazer com que essa pessoa tome atitudes de arrepender-se e vir a pedir desculpas.

          O remorso expressa um mal estar difuso, inquietante e angustiante podendo prolongar-se e persistir dilacerando a pessoa. Quando mais grave for o erro ou a falha cometida, mais intenso será o remorso e mais difícil se lidar com ele. O remorso se dá no plano da consciência, da autocrítica e da benevolência, e a pessoa tem plena capacidade de avaliar sobre o que fez. Pode também induzir atitudes de arrependimento, sinalizando nessa perspectiva, dignidade no caráter.

           Em Wikpédia, encontramos os seguintes comentários: “em algum momento da nossa vida sentiremos remorso. Podendo ser um sinalizador de que nos preocupamos ou deveríamos nos preocupar com algo importante que temos a aprender. E assim servir de aprendizado para que possamos fazer melhores escolhas no futuro”.

            Diz ainda: “quando o remorso vira uma sensação de que fracassamos ou quando ficamos desapontados, esse sentimento traz muito sofrimento que pode afetar nossa vida de forma negativa. A tal ponto de nos impedir de vivermos o aqui e agora, o presente. Podemos ficar impotentes para usar nossos recursos internos, impedindo de realizarmos as mudanças positivas em nossa vida”.

            Conclui dizendo “quando o remorso ultrapassa esses limites, ele deixa de ser produtivo e útil. As emoções, tanto negativas quanto positivas sempre servem como aprendizado importante. Porém, quando vão além desse limite e passam a trazer problemas e dificuldades que não conseguimos resolver, indica que está na hora de procurar ajuda profissional”.

              Nas considerações acima, dependendo da forma com o manejamos, pode ou não gera maiores problemas, inclusive de saúde física e mental em quem sente o remorso. Outro aspecto importante, como já vimos, é que o remorso pode induzir ao arrependimento que segundo a Bíblia é o meio através do qual nos libertaremos dos nossos pecados e receberemos o perdão por tê-los cometidos. A Bíblia diz ainda que o pecado atrasa o progresso espiritual e pode até pará-lo completamente. O arrependimento torna possível que cresçamos e nos desenvolvamos espiritualmente de novo.

          Em sendo assim, o arrependimento é o melhor caminho para produzir a reparação dos danos ocasionados por alguém que sente remorso. Da mesma forma como exige da pessoa que praticou, arrepender-se e isso levar a desculpar-se pelos danos ou sofrimentos praticados contra alguém. Em resumo: remorso gera culpa, que gera arrependimento, que gera desculpas, que gera perdão. Nem sempre acontece isso, pois muitos não perdoam o que lhe fizeram.   

               Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa José Pedro Machado, remorso vem do latim “remorsu” – do verbo remordere (remorder) que significa voltar a morder, morder muitas vezes. Segundo Aurélio, remorso é inquietação da consciência por culpa ou crime cometido; mordimento, remordimento; bicho da consciência. Para Michaelis (2021) remorso é aflição ou dor moral decorrente da constatação de um erro ou uma falta que se tenha cometido; remordimento.

                 Para Honoré de Balzac (1799-1850) escritor francês, um dos fundadores da Escola Realista na França, dizia: O remorso é uma impotência, ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo. Como vimos acima o remorso comporta o reconhecimento (consciência) que a pessoa tem sobre o que ela cometeu. Revela-se por um sentimento, desagradável de tristeza, culpa ou lamentação, de diferentes intensidades, que atrapalha o bem estar dessas pessoas em diferentes níveis. Devido a todos esses sentimentos desagradáveis, isso pode levar as pessoas a se arrependerem de ter agido da forma que agiu.

                  O remorso também sinaliza para uma espécie de desapontamento, descontentamento e vergonha da pessoa para consigo mesma o que pode gerar atitudes que reparem essas culpas, por terem praticado algo condenável por si mesmo e pelos outros.

               Há pessoas que são incapazes de experimentarem sentimentos de remorso, dor ou arrependimentos sobre seus atos ao longo da vida, muito embora tenham plena consciência que a atitude que cometera possa ter gerado sofrimento, dor ou problemas para alguém. São pessoas, frias, indiferentes, insensíveis, que não apresentam quaisquer arrependimentos sobre suas atitudes. Esses traços são comuns em pessoas que apresentam problemas no desenvolvimento de suas personalidades os quais recebem a designação de Transtorno de Personalidade Antissocial – TPAS, conhecidos, vulgarmente, como “psicopata”. Esses transtornos atingem 1% das mulheres e 3% dos homens. Trataremos dessa particularidade no próximo artigo.

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A falência da autoridade dos pais II

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             Alguém tem dúvidas, que as relações familiares estão em crise? Os pais estão cuidando de fato de seus filhos? Filhos da modernidade, têm tido respeito por pai ou mãe? Esses filhos reconhecem a autoridade dos pais? Há diálogos, compartilhamento ou companheirismo nas famílias modernas? Nossos filhos estão engajados em alguma atividade social, algum partido político, na comunidade, na igreja, em algum clube de serviço ou esportivo ou em qualquer outra atividade social? Os pais sabem, inteiramente, o que acontece com seus filhos, fora de casa?

              Essas são algumas questões que estão na ordem do dia e devem ser examinadas com rigor e afinco. Pode até parecer que sejam questões duras, incisivas ou inquietantes, mas que devem ser trabalhadas, no dia a dia das famílias, para evitarem maiores problemas nas relações familiares. São situações que fazendo parte das nossas inquietações, do mal-estar geral porque passa a sociedade atual e dos dramas que muitas famílias estão vivendo.

           Quando o assunto é educação familiar, em qualquer roda de conversa, na escola, na universidade, na comunidade, nas ruas, no trabalho ou mesmo dentro da própria família, a percepção de todos é que essa situação vai muito mal e a constatação é a sempre a mesma: a família está se perdendo e não sabem que rumo toma. Parece haver um caos total nesse sentido e isso não é explicado não por um único fator e sim por múltiplos fatores que se interagem, provocando a situação como essa que está aí.

           Portanto, é um tema bastante complexo exige tempo e muito trabalho para mudar a situação e ao se contratar que o problema existe, haveremos de adotar medidas adequadas para mudar o cenário da educação dos filhos e isso exigirá tempo e esforço de todos: do estado, da família, da comunidade e

        Entre os fatores, destaca a visível falência da autoridade dos pais na relação com seus filhos. É uma situação grave pois colabora, sobremaneira, para gerar graves conflitos familiares. Nos dá a impressão que os pais estão perdendo o comando, o controle, as rédeas, a autoridade na educação dos filhos e não é de hoje que isso vem ocorrendo. A impressão é que os pais vêm se tornando reféns dos filhos e estão atônitos sem saber o que fazer.

         Essa falência da autoridadeé demonstrada através de várias maneiras. Uma delas, é se perceber que filhos, cada vez com menos idade, demonstram ter vida própria, independência e autonomia e tocam suas vidas, quase por conta própria. Sabe-se, que os filhos dependem dos pais, se protegem nos pais, se espelham nos pais e se nutrem dos pais, em todos os sentidos e isso vai fomento o crescimento dos mesmos ao longo da vida. Atualmente, percebe-se que esses filhos, desde muito cedo “vão pondo as unhas para fora” e os pais por outro lado se sentem submissos e temerosos ante os mesmos. O comportamento, opositor, desafiador dessas crianças, mesmo muito pequenas, põem em risco a disciplina, o controle das regras, das normas de convivência familiar, indispensáveis, para uma boa educação.

           As crianças estão agindo precocemente, como se fossem autônomos, independentes, cheios de vontade e donos de si e de todos ou como se fossem adultos pequenos. Fazem o que querem, fora e dentro de casa, dão as ordens na casa dos pais, e esses, progressivamente, vão se tornando refém, submissos e receosos, sem força para mudar a situação e isso acaba deixando os filhos tomarem conta da casa, um barco à deriva, sem saber que rumo tomar. Esse é um fato terrível na educação dessas crianças pois muitos pais passam a se acusarem, mutuamente sobre o que está ocorrendo e a situação vai se permanecendo. É um momento de acusações mútuas, atritos, e até embates corporais e de “busca dos culpados”, enquanto o isso, o filho reina sozinho.

         A falência da autoridade dos pais, se revela, também, quando esses adotam atitudes autoritárias, dominadoras, violentas, agressivas e cruéis ou quando adotam comportamentos de indiferença quanto aos filhos, gerando um clima de estranheza e anonimato familiar. Indiferentismos, maus tratos, negligencia, descuidos na segurança e cuidados a esses filhos, são situações que ferem, profundamente, a alma dessas crianças e a hegemonia familiar, provocando enormes alterações emocionais, afetivas, comportamentais e de caráter, na vida desses filhos.

            A falência da autoridade dos pais se revela também quando na família não houver mais diálogo, quando se silenciam mutuamente e quando um, não sabe mais sobre o outro. Esse anonimato familiar, produz monólogos e silencia a todos. O silêncio é um veneno e quando impera entre pai e mãe, entre irmãos, entre os pais e filhos, é a derrocada total e muitos pais tornam-se permissivos, frouxas e sem autoridade e com medo de dizer não e de cobrá-los. Se sentem endividadas e submissos. A falta de limites, das normas e regras da casa, também expressa essa falência.

          Muitas vezes, para encobrir esses conflitos, os pais apresentam desculpas, ora esfarrapas ora convincentes sobre tudo isso, sendo a mais comum, a falta de tempo para se dedicarem mais aos filhos, pois os compromissos no trabalho ou a corrida frenética por dinheiro, não permitem que esses pais estejam mais presentes em casa. Outros, atribuem essas tarefas, exclusivamente às mães, como se estas fossem as únicas a educarem os filhos, outros ainda atribuem à correria do dia a dia, (pagar as contas) e quando não, atribuem à internet, às redes sociais, aos games etc. os motivos para tantos descuidos na educação dos filhos.

          A internet, os games, as redes sociais e outros entretenimentos via online passaram a ser a “bola da vez”, para explicar conflitos familiares. Todos esses recursos eletrônicos são próprios da vida moderna e instrumentos no dia a dia das pessoas. O que pode estar em jogo é a forma inadequada de utilização desses instrumentos e não eles em si mesmos. Atribuir aos mesmos a responsabilidade dos problemas familiares, é não querer ver a realidade ou tentar tapar o sol com a peneira, isso não me convence. O uso desses instrumentos, por crianças e adolescentes, deverá ser feito com regras e disciplinas para o bom uso dos mesmos. De tal forma, que o abuso ou uso indiscriminado e sem controle que ocorre dentro e fora de casa por crianças e adolescentes, às vezes, incentivados pelos próprios pais, já podem por si só, serem sinais, inequívocos da desagregação profunda porque passa essa família.

             Portanto, fiquemos atentos aos fatos que ocorrem em nossas famílias com vista a garantirmos sua sagada missão de assegurar a saúde, a segurança e o bem social e o pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes.

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A ganância na sociedade moderna

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           A ganância é um sentimento, caracterizado pela volúpia incontida, pela vontade incontrolável de possuir tudo, especialmente o que essas pessoas admiram para si próprio. É ambição desmedida, é a avidez por algo, é a cobiça, a avareza, a concupiscência, a usura e a cupidez. É a vontade exagerada, incontrolável e apetitosa de possuir as coisas. É um desejo excessivo direcionado principalmente à riqueza material, qual seja, o dinheiro. Quase sempre realizam ganhos ilícitos, ou estão sempre atras de outras formas de poder, onde os gananciosos influenciam outras pessoas a se deixarem corromper, manipular e a enganar para garantir suas intenções.

           Em Aurélio, a palavra ganância vem do espanhol, ganancia, esp. Ganar, ganhar, significa ambição de ganho, ganho ilícito, usura, ambição desmedida. Em Michaelis trata-se de uma ambição desmedida de ganho, ou lucro, ambição, avidez, cupidez. Em Dicio dicionário online, ganância é ambição, cobiça ou desejo intenso, imoderado por bens e riquezas. É busca incessante pelo lucro; agiotagem, usura. Vontade intensa e permanente de possuir ou de ganhar mais do que os demais.

            Para Charles Caleb Colton (1780 – 1832) clérigo inglês “a ambição comete, em relação ao poder, o mesmo erro que a ganância em relação a riqueza: começa a acumulá-la como meio de felicidade e acaba a acumulá-la como objetivo”. É o que ocorre na prática dos ambiciosos.

             A ganância, portanto, é um traço abominável da condição humana. Ela nasce com o homem, é um traço de sua personalidade, desde cedo aparece na vida das pessoas e pode prosseguir com ela a vida toda. Muitos podem nascer com esse traço, porém, ao longo da vida, pode se desfazer dele. É uma condição humana, comportamental, trans-histórica e transcultural.

              A ganância é e já foi objeto de muitos estudos e especulações, sobretudo do ponto de vista psicossocial e sócio antropológico. Entre os católicos, é um dos sete maiores pecados humanos, já identificados desde o final do século VI no Papado de Gregório Magno e aqui, a ganância se confunde com avareza.

            Gananciosos são figuras insaciáveis, têm um apetite voraz por tudo, especialmente por dinheiro e poder. São avaros e nada os satisfaz, sempre querem mais e mais, de forma desenfreada. Agem compulsivamente atrás de ganhos e dificilmente se desfazem do que têm.

          Na história recente de nosso país, por ocasião da Lava-Jato, assistíamos, frequentemente, pela grande mídia, casos notórios de grandes gananciosos serem denunciados ao Ministério Público, devido a uma intensa roubalheira ao erário. Eram pessoas que exerciam papéis importantes no cenário das atividades pública e política, e se comportavam como agentes insaciáveis na obtenção do dinheiro, mesmo por meios ilícitos. Os bandidos se organizavam em quadrilhas, regidas por meios sofisticados de cometem esses crimes e o faziam de forma absolutamente natural, na cara limpa, sem qualquer remorso, pudor ou arrependimento por estarem roubando o que era do povo. Eram gananciosos.

           Essas figuras, em geral, são disfarçadas, insensatos, arrogantes e indiferentes, são dissimulados. sentem-se sempre acima de tudo. São indiferentes e se apropriam indiferentemente do erário público de forma natural e tergiversam dentro das circunstâncias que vivenciam.

           São também evasivas. Quando são pegos, se sentem injustiçados ante tais medidas. A maioria sequer manifesta arrependimento e sempre procura explicar seus atos. São indiferentes aos danos cometidos pelos seus crimes. Avidez por ganho, lucros, vantagens, tanto por via lícita quanto ilícita são de valores enormes, incalculáveis. É a ganância se revelando em cada uma dessas pessoas. Tornam-se cegos e avaliam mal as consequências de seus atos. Esquecem-se da ética, dos sentimentos de dó e piedade, do dever e da cidadania. Esquecem-se que têm filhos, esposas, amigos e que ainda há quem sinta vergonha no mundo. Seus atos revelam uma disposição desmedida de ter, possuir, dispor de algo, e o pior, que não lhes pertence. É um egoísmo excessivo, inconsequente e incomensurável.

             Vejam o que ocorreu com os ladrões da Lava-Jato, a volúpia por dinheiro era suas grandes marcas. Em condições normais de vida, jamais gastariam todo dinheiro que roubaram, a não ser em extravagâncias e na perspectiva de uma vida desmedida, mesmo assim roubaram compulsivamente.

            A ganância, como outros comportamentos humanos, é muito influenciada pela cultura e pelo ambiente onde se vive. Vive-se em uma cultura e em uma sociedade que incentiva e estimula a prática da ganância. O egocentrismo, a vaidade, a insinceridade, a superficialidade nos comportamentos pueris são comportamentos comuns na sociedade atual, gerando pessoas arrogantes, presunçosas, desumanas, blasfemadoras e desrespeitosas. E tudo isso acaba por incentivando gananciosos a pretender se dar bem na vida.

            O ambicioso, dificilmente, estabelece relações seguras e confiáveis com alguém, pois suas motivações, nas relações interpessoais, são sempre interesseiras, pragmáticas e visam ganhos. São pessoas envolventes e sedutoras e sempre tem na cabeça “dá o golpe” com o intuito de atingir seus objetivos, quaisquer que sejam eles, independente se suas atitudes mesmo que isso possa gerar problemas para alguém, para a comunidade ou para a sociedade. Para os gananciosos a vida e todas as suas relações são inspiradas em um balcão de negócios, por isso mesmo estão sempre atentas as vantagens que pode extrair em suas atividades.

              A ganância, está diretamente relacionado com transtornos de personalidade antissocial, isto é um traço forte dos psicopatas, pelo seu absoluto indiferentismo, ausência de sentimentos de culpa ou remorso oriundos de suas atitudes. São figuras malévolas, frias e e insensíveis, sem remorsos, culpa ou arrependimentos, portanto “temos que ter sempre um pé atrás com essas pessoas” pois você pode representar um trampolim para essas maus-caracteres alcançarem seus cruéis objetivos.

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