Os vícios da vida moderna

0comentário

      O termo vício segrega, marginaliza e não define essencialmente o sentido para o qual é aplicado, muito embora ainda seja muito utilizado em diferentes sentidos e ocasiões. É um termo preconceituoso e excludente do ponto de vista pessoal e social. Em Dicionário Etimológico Nova Fronteira, do Latim, “vitiun”, significa “defeito grave que torna uma pessoa inadequada para certos fins ou funções”. O viciado se inclina para o mal e é considerado desagregado, descontrolado e sua conduta é desaprovada e condenável, sendo ainda considerado por alguns um “devasso licencioso”.

             À luz da Psiquiatria moderna, o termo está em desuso e quando ainda se aplica relaciona-se aos indivíduos com maus hábitos, em especial para usuários de álcool, tabaco e outras drogas. Sobre esses usuários, ainda hoje predomina uma visão moralista sobre o assunto, por isso mesmo eram pessoas, injustamente, alijadas do convívio social. Modernamente, a designação de “viciado” foi substituída por “usuário disfuncional ou dependente”.

            Com o avanço científico e tecnológico, marca indelével da vida moderna, vem surgindo diferentes comportamentos humanos, que do ponto de vista pessoal e social, não são muito diferentes dos que existiam antes do desenvolvimento destas tecnologias. Alguns dos comportamentos da modernidade e da pós-modernidade são bem parecidos aos comportamentos dos “antigos viciados em drogas”. A grande diferença é que no lugar das drogas de abuso, estão presentes os modernos equipamentos tecnológicos desta nova sociedade tecnocrática. Esses “vícios modernos”, produzidos pela era digital e tecnológica, e muitos outros comportamentos originados das modernas tecnologias, passaram a ser denominados vícios eletrônicos”.

            Capitaneando todas estas inovações e redefinido novos paradigmas nas relações humanas, está a internet, um recurso fabuloso inventado pelo homem moderno a partir da grande teia de computadores que está transformando o mundo real em um mundo virtual e o homem em um Cyberman. A internet o deixou menos singular e mais global, menos local e mais telúrico, menos material e mais virtual, mais cético e menos crítico, mais lógico e menos sensível.

            Entre os filhotes dessas tecnologias modernas estão os tabletes, os smartphones, as redes sociais, os computadores modernos, as TVs inteligentes e interativas e muitos outros aparelhos eletrônicos, fabulosos, que conquistaram o homem moderno, definitivamente. Esses compõem a tecnologia digital contemporânea, os quais nos dão tudo que precisamos para viver com o menor esforço possível, o que nos agrada muito.

          Os brinquedos e jogos eletrônicos, o ensino, o conhecimento, o lazer, o trabalho tornaram-se mais simples e fáceis, efetivamente ao nosso alcance. Os avanços prosseguem e a todo instante nos surpreendemos com tantas novidades, descomplicando a vida.  Houve tanta mudança nessa área que hoje namora-se, noiva-se, casa-se, viaja-se, forma-se, estuda-se, sem sair de casa ou do local onde se está.

            As filhotas da internet são as redes sociais. O Brasil detém o terceiro lugar no ranking internacional de acessos às redes sociais, especialmente Faceboock, Instagran, Tweter e Linked-in. Talvez não haja algo mais sedutor e prazeroso do que você falar com todo mundo sem abrir a boca, cumprimentar a todos sem estender as mãos, tornar-se visível ao mundo com um selfie, ir a todos os lugares sem sair de casa.  Amar ou se apaixonar por alguém sem sentir seu cheiro, seu corpo ou sua voz. Seguir ou ser seguido por milhares de pessoas sem conhecê-las, sem apertar suas mãos, ou abraçá-las. De trabalhar, produzir e ganhar dinheiro sem sair de casa. E todos esses comportamentos carregados de muito prazer e contentamento. Que coisa fabulosa! Diante de tudo isso, o que mais queremos para o futuro?

            Todos esses ganhos e benefícios fizeram com que os incautos e exagerados fossem “fundo ao pote”. Mergulharam de cabeça, profundamente, neste mundo virtual, maravilhoso e mágico e perderam os limites. Ficaram doentes e adoeceram suas famílias. Esta é a mais nova categoria de doentes mentais que se insurge nos tempos modernos, produzidos pela era eletrônica, ou seja, os dependentes em eletrônicos.

            O perfil epidemiológico dessas pessoas, dependentes de redes sociais, smartphones, tabletes, WhatsApp, e outros meios e equipamentos tecnológicos, está sendo construído, acredito que em um futuro próximo se possa saber melhor psicopatologicamente quem são esses “viciados em tecnologias”. Por enquanto, de oficial, somente os dependentes de jogos eletrônicos estão incluídos na nosologia psiquiátrica pela Organização Mundial da Saúde – OMS. São enfermos tão graves quanto os dependentes de álcool e de outras drogas, pois se revelam de forma sutil, progressiva e insidiosamente e vão evoluindo lentamente. Quando menos se espera, já apresentam distúrbios comportamentais, emocionais, afetivos e relacionais graves, acompanhados de desadaptação psicossocial, ocasionados pelo apego disfuncional aos eletrônicos e redes sociais.

            Para agravar mais ainda essa situação,  a “enfermidade eletrônica” revela-se não somente pelo apego doentio a esses sistemas, apresentam também profunda solidão, não conseguem viver sem esses equipamentos ou redes sociais, referem ansiedade e desprazer. Ao não ter acesso aos mesmos, isolam-se de todos, passam mal, tornam-se desadaptados, abandonam outras atividades que lhes são importantes, desrealizam-se, apresentam medos na convivência, tornam-se desconfiados, inseguros e depressivos. Esses, sãoalguns dos atributos psicopatológicas encontrados nessas personalidades.

            Do ponto de vista médico, o diagnóstico e o tratamento desses enfermos se constituirá como um dos mais importantes desafios para a Psiquiatria moderna, para a Psicologia e para a saúde mental, pois o número deles é cada vez maior e os danos à saúde mental e social são avassaladores.

sem comentário »

As múltiplas facetas do descuido – III

0comentário

                      

           Conforme anunciei anteriormente, esse é o terceiro e último artigo em que trato das questões familiares e do processo de educação dos filhos. Nos dois artigos anteriores procurei tratar de fatores da vida moderna, tais como: a necessidade premente de ambos os pais se ocuparem muito no dia-a-dia; a dificuldade de estabelecerem limites na educação das crianças; a falta de autoridade de ambos os pais; a falta de diálogo e de convivência entre pais e filhos; a violência doméstica; bullying na família e, fundamentalmente, o silêncio categórico que vigora atualmente dentro de casa. Estes são considerados, na atualidade, os mais importantes fatores predisponentes ao desenvolvimento de inúmeros problemas psiquiátricos, psicológicos e psicossociais na população infanto-juvenil.

            Tenho dito que, em grupo ou isoladamente, esses fatores elencados funcionam de forma decisiva para gerar problemas de caráter ou de personalidade nas crianças. Portanto, tais situações constituem-se como graves ameaças à saúde mental, emocional ou social dessa população, que por natureza e/ou por idade já são vulneráveis.

            Por falar nisso, sabe-se que esse assunto de saúde mental, na contemporaneidade, é uma questão absolutamente relevante e de interesse geral. Nunca se adoeceu tanto, mental, emocional e socialmente, quanto hoje. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que vivemos em uma sociedade enferma, complicada, confusa e que funciona sob condições de profundos desajustes, especialmente nas relações pessoais. Ao mesmo tempo, percebe-se que o mundo contemporâneo repleto de perdas profundas de valores, constrangimentos pessoais sucessivos, aborrecimentos pessoais e frustrações constantes, desrealizações sociais e pessoais, fracasso e decepção diante projetos de vida, descrença geral e uma avassaladora insegurança da população, constituem-se como base do mal-estar geral das pessoas, das famílias e da sociedade.

               Como resposta a tudo isso, cresce, assustadoramente, o número de pessoas enfermas psíquicas, desadaptadas sociais, portadores de diversos quadros psicopatológicos. Entre eles, destacam-se: depressões severas em todas as idades, quadros graves de transtornos de ansiedade, consumo cada vez maior de drogas de abuso (sobretudo maconha e cocaína), índices alarmante de suicídio avançando na direção de pessoas de menor idade, homicídio, feminicídio, desagregação familiar e muitos outros problemas de saúde, legais e psiquiátricos.

          E todas essas mazelas psicossociais e médicas, inseridas em profundas transformações socioculturais, éticas e religiosas e permeadas por problemas socioeconômicos (desemprego e subemprego), passam a se constituir como um cenário complexo e desafiador quanto ao modo de viver das pessoas da modernidade.

            Nesse artigo, destacarei um desses fatores, quiçá um dos mais importantes e que fere, profundamente e às vezes de forma mortal uma criança: o silencio (ou distanciamento e a falta de relacionamento que vem ocorrendo nas relações pais-filhos). Vejam esse exemplo, recentemente atendi um jovem de 14 anos, em meu consultório e perguntando-lhe sobre como iam as relações dele com a família, me dissera: “Dr. Quando tento falar com meu pai e não consigo, por ele está sempre muito ocupado, é como se me matasse”. Essa declaração eu ouvi de um adolescente e demonstra, claramente, como um jovem se sente em não ser ouvido, em não poder conversar, dialogar ou mesmo compartilhar algo com os pais. Esse silêncio entre pais e filhos é avassalador, produzem crianças inseguras, amarguradas, infelizes, carentes, desconfiadas, e com uma sensação de profunda desvalia, no mais profundo sentido mais desses termos. O silêncio se materializa, concretamente, pela falta de comunicação que não há entre pais e filhos, pois esses não conversam.

         O silêncio, também se revela através dos maus tratos, do autoritarismo, da desatenção, da falta de um abraço, de um aconchego, de um colo, de um beijo, de uma palavra de carinho, pois esses não têm tempo para os filhos ou para dar-lhes o mínimo de atenção possível.

        Portanto, o silêncio, é algo dinâmico que atinge profundamente a criação dessas crianças, desde a mais tenra idade, até idades posteriores, ele, passa a enfraquecer a alma dessas criaturas, deixando-as isoladas, ensimesmadas e revoltadas e mais voltada para dentro de si mesmas.  Muitas atitudes estranhas, inusitadas, esquisitas, observadas em filhos oriundos dessas famílias não são percebidas nem por pai nem por mãe, devido ao profundo afastamento que há entre eles. Tem pais que descobrem que o filho usa droga aos 17 anos, embora tenha iniciado aos 12 ou 13. Outros, não sabem o ano que o filho está cursando na escola e muitos não sabem nem o dia do seu aniversário dos filhos.

           Muitos pais, por não poderem mudar o seu “modus vivendi”, apesar de reconhecerem-se responsáveis por grande parte dessas dificuldades, passam ser mais muito indulgentes, condescendentes, permissivos e transigentes. Outros perdem o comando e o pulso na educação desses filhos, e se tornam omissos e negligentes. Outros ainda, se tornam autoritários, dominadores e violentos com os filhos que lhes cobram atenção e outros ainda, passam a premiá-los, indevidamente, como se pedissem desculpas por não poder estar ao seu lado ou compensá-los por suas ausências: “mea-culpa, mea- culpa, mea máxima culpa! É o que querem dizer.

           Vejam as criancinhas de hoje que desde muito cedo já carregam um tablet, um smartphone, já acessam jogos eletrônicos, redes sociais, WhatsApp, e-mails e muitos outros recursos e usam esses equipamentos todos os dias e as vezes o dia todo, sem qualquer controle. Não sabendo esses pais que a educação não se dá com permissões exageradas, ou por concessões desmedidas, muito menos com atitudes desmerecidamente indulgentes ou uma criação sem regras, sem controles e sem limites.

            A educação se dá em um clima de conversa, de entendimento, levando-as a respeitarem a autoridade dos pais, as normais e regras vigentes na família, respeitar valores éticos e dar muito amor, atenção e carinho, é através disso que se educa e desde que cheguem ao mundo.  As crianças se alimentam da voz da mãe e do pai, do calor, do aconchego, do abraço, do colo, do carinho, da autoridade, da firmeza, da atenção, da sinceridade, da franqueza e da confiança em seus pais. Se lhes falta isso, tornam-se “desnutridos afetiva, social e psiquicamente e porque não dizer enfermos existenciais”. Serão carentes e vazios e tentarão a vida toda compensar essas deficiências.  

sem comentário »

As múltiplas facetas do descuido – II

0comentário

Semana passada postei aqui, o primeiro de três artigos destinados a examinar as crises que vêm ocorrendo no seio de nossas famílias. A ideia foi relacionar uma série de acontecimentos os quais podem estar contribuindo para graves problemas familiares, especialmente na educação dos filhos.

Neste segundo artigo, tratarei sobre os avanços tecnológicos, internet, redes sociais, entretenimentos (vídeo games etc), equipamentos tecnológicos e a relação disso com a a educação dos filhos, dentro e fora de casa.

         Iniciaria, perguntando: alguém duvida que os avanço tecnológicos, são importantes para a humanidade? Que sua aplicação, em todas as áreas, vem trazendo grandes benefícios? Como trabalharíamos, estudaríamos, nos relacionaríamos, ou garantiríamos nossa sobrevivência, nos dias atuais, sem os recursos dessas tecnologias? Como avançaríamos no rumo do desenvolvimento social, científico e tecnológico sem a interveniência desses recursos? E nossa capacidade produtiva, nossas relações sociais, a segurança, a saúde, as outras áreas humanas, como seriam sem esses dispositivos? O entretenimento mudou ou não mudou com jogos e outras diversões eletrônicas?

        Essas são algumas questões que me parecem relevantes para esclarecer o significado desses avanços tecnológicos na sociedade moderna. O mundo mudou, tornou-se pequeno, as relações humanas não são as mesmas de 30 anos atrás, pois bastam alguns cliques em um teclado para vasculhar o mundo e deixá-lo ao nosso alcance. As distâncias se estreitaram em tempo real, estamos vivendo em múltiplos lugares sem sair do lugar e em qualquer lugar alcançamos tudo em uma velocidade surpreendente.

       Como produto dessas invenções, surgiram as redes sociais, que se abastecem, de tudo o que é bom e do que não presta.  Essas redes virtuais emanam da Sociologia e Antropologia Social, no final do século XX, como um novo paradigma das ciências sociais, aplicada e desenvolvida em disciplinas como a antropologia, a biologia, os estudos de comunicação, a economia, a geografia, as ciências da informação, a psicologia social e, sobretudo, no serviço social. Portanto, as redes sociais virtuais têm bases nas ciências aplicadas.

            Elas operam em diferentes níveis: relacionamentos (facebook, Orkut, Myspace, Twitter, Instagram, WhatsApp, etc.), profissionais (como Linkedin), comunitárias (redes sociais em bairros ou cidades), aplicadas à saúde, segurança e em muitas áreas. Ganham, a cada dia, mais importância e notoriedade, especialmente devido a sua capacidade de se expandir e compartilhar informações, disseminar conhecimentos, fazer amizades, garantir interesses, estudos, negócios, política, etc.

            E assim a coisa foi se desenvolvendo. Até aí, confesso que não vejo problemas sobre essas redes. Caso as relacionemos com as mazelas sociais e familiares, estamos tentando encontrar um bode expiatório para problemas que estão muito além dessas redes e dessas tecnologias. É bom que se diga que redes sociais, internet, equipamentos eletrônicos e outros ingredientes tecnológicos são meios e não fins em si mesmos.

          O maior sentido e importância de cada um desses elementos está em sua utilização, de tal forma, que não podemos atribuir a qualquer um deles a prerrogativa de fazer bem ou mal às pessoas ou à sociedade. Aventar que jogos eletrônicos, games, redes sociais, internet são causas disso ou daquilo pode ser um sofisma, afirmando que são elas os vilões desses graves problemas familiares, incluindo, certamente, o que vem ocorrendo com a educação dos filhos.

          O que está em jogo, ao meu ver, em matéria dos conflitos na educação dos filhos, são aspectos muito mais profundos e mais complexos. Ocorre que, devido aos alcances e aos enormes benefícios dessas redes, muitas pessoas foram se seduzindo, de forma incontrolável e se entregaram a elas de “corpo e alma”, a ponto de adoecerem, perderem a noção de adequação e racionalidade em seu manejo, em suas diferentes áreas de aplicação: entretenimento, lazer, profissionalismo, negócios, relações amorosas, comunicação, etc.

           Pai e mãe, filhos, irmãos, pais e filhos, amigos, marido e mulher, estão usando esses dispositivos abusivamente, inconsequentemente, obsessiva e descontroladamente, às vezes sacrificando muitas ocasiões de bons relacionamentos, onde poderiam crescer e se desenvolver com bom diálogo. Mas, muitos ficam clicando boa parte do tempo em seu smartphone, tablet, etc., de forma insubstituível, deixando esses grandes momentos de lado pelos cliques nas redes sociais.

           Hoje, dentro e fora de casa, as conversas verdadeiras, afagos, reuniões familiares, entretenimentos, compartilhamentos, em diferentes ocasiões, ocorrem raramente e parecem ser coisas do passado. As relações entre e inter-humanos que são reais e verdadeiras estão se dando de forma também efêmera e virtual e cada vez mais superficiais e quando isso ocorre é por pouco tempo, para logo em seguida as pessoas se recolherem ao seu anonimato e à sua vida solitária. Tem gente que quando acorda já pega seu telefone, tablet ou notebook e vai ver o que está ocorrendo no mundo e só depois, cumprimentam os outros de casa. Acordam os filhos para a escola ou se preparam para o trabalho. Nunca as pessoas se cumprimentaram tanto na vida. Bom dia, boa tarde e boa noite enchem as redes sociais, mas se alguém cruzar com alguém no elevador, na rua ou em qualquer lugar, não abrem a boca, não se cumprimentam, ficam em silêncio clicando nos celulares.

             Quem usa, o que usa e para que usa definirão a utilização dessas tecnologias. Sobre jogos eletrônicos, esses são brinquedos, são entretenimento e lazer, muito embora existam os que não prestam e disseminam o mal. Coisas ruins que circulam na internet e que podem prejudicar a nós e a nossos filhos, são criadas por psicopatas, organizações criminosas, pessoas insensíveis e irresponsáveis, que não têm compromissos sociais.

         As ameaças desses bandidos, criminosos e aliciadores surgem sob qualquer forma, em qualquer tempo ou em qualquer de nossas idades. Tráfico de drogas e de seres humanos e outros crimes cibernéticos deverão fazer parte das atividades de controle dos pais. São eles que deverão controlar esses acessos dos seus filhos. Controlar o tempo de uso, orientá-los sobre as ocasiões em que podem usar tais equipamentos, denunciar bandidos às autoridades policiais competentes, tais atitudes são o mínimo que podemos fazer para proteger nossas crianças das coisas terríveis que circulam na internet.

sem comentário »

As múltiplas facetas do descuido – I

0comentário

                                    

             Alguém tem dúvidas que vivemos dias muitos ruins do ponto de vista das relações familiares? Os pais estão cuidando de fato de seus filhos? Esses filhos, da modernidade, têm respeito por pai ou mãe? Reconhecem a autoridade dos mesmos? Há dialogo, compartilhamento ou companheirismo nas famílias modernas? Nossos filhos estão engajados em alguma questão social, algum partido político, na comunidade, na igreja, em algum clube de serviço ou esportivo ou em qualquer outra atividade social? Os pais sabem, inteiramente, o que acontece com seus filhos, fora de casa?

              Eis, algumas questões que estão na ordem do dia. Pode até parecer que estas perguntas, sejam duras, incisivas ou inquietantes, mas nem todas as famílias estão preparadas para respondê-las. Por outro lado, pode até ser que os pais, me respondam uma atrás da outra, sem titubear, com explicações dignas de nota, mas uma coisa posso garantir-lhes todas essas questões estão fazendo parte das nossas inquietações, do mal-estar geral de muitas famílias.

           Quando se parte para discutir educação familiar, em qualquer ambiente, nas escolas, nas universidades, na comunidade, nas ruas, no trabalho ou dentro da própria família, a percepção de todos é que essa situação vai muito mal e a queixa é a sempre a mesma: a família está perdida e sem saber que rumo tomar.

           Esse é o primeiro de três artigos, que irei dedicar a esse assunto. Sei antecipadamente, da enorme complexidade que recaem sobre o tema, e que para mudar o que está aí, terão que ser adotadas medidas radicais e complexas que exigirão tempo e esforço de todos, inclusive do estado e da própria família, no sentido de readquirirmos a funcionalidades necessária para que as famílias modernas possam viver melhor.

         O primeiro fato que mencionarei, nessa série de artigos, é sobre a falência da autoridade dos pais na condução da educação de seus filhos. Quanto a isso todos sabemos o quão é grave essa situação e que colabora, sobremaneira, para os graves conflitos familiares. Os pais estão perdendo o comando, as rédeas, a autoridade na educação dos filhos, e não é de hoje que eles vêm se tornando reféns dos mesmos e não sabem o que fazer para mudar.

         A falência da autoridade dos pais é demonstrada através de várias maneiras. Uma delas, e uma das que mais nos chama a atenção é vê que filhos, cada vez com menos idade, tenham vida própria, antes do tempo. Todos sabemos, que até certa idade, filhos dependem dos pais, se protegem nos pais, se espelham nos pais e se nutrem dos pais, em todos os sentidos. Porém, isso ocorre, à proporção que vão crescendo e se desenvolvendo na vida. Mas, na atualidade, esses filhos desde muito cedo “vão pondo as unhas para fora” e os pais se tornam submissos aos mesmos. Comportamentos dessas crianças que põem em risco a disciplina, o controle das regras, das normas de convivência familiar, indispensáveis, para uma boa educação.

           Filhos, dependem dos pais, de tudo por tudo, até que adquiram autonomia e independência e a partir de então, adotarão o estilo de vida que lhes convier. Hoje, todavia, não é o que se vê. Eles agem desde cedinho como se fossem autônomos, independentes, cheios de vontade e donos de si e de todos. Fazem o que querem, fora e dentro de casa, dão as ordens na casa dos pais, e esses, progressivamente, vão se tornando refém, submissos e dependentes dos mesmos e sem força para contestar e comandar a p processo de educação. Não se posicionam em nenhum sentido, deixam os filhos tomarem conta da casa, um barco à deriva, sem saber que rumo tomar. Esse é um momento terrível na educação desses filhos, pois regra geral, um dos pais, passa a acusar o outro dessa perda de autoridade e desse fracasso. É um momento de acusações mútuas, atritos, e até embat4es corporais e de “busca dos culpados”, enquanto o isso, o filho reina sozinho.

         A falência da autoridade dos pais, se revela quando esses pais adotam atitudes autoritárias, dominadoras, violentas, agressivas e cruéis. Maus tratos, negligencia na educação, falta da segurança e dos cuidados a esses filhos, ferem, profundamente, a alma dessas crianças e provocam profundas alterações emocionais, de caráter, comportamentais e afetiva, na vida futura desses filhos. Quando os pais substituem esses comportamentos por uma relação harmoniosa e fraterna, regada com diálogos e companheirismo, os filhos se tornam mais saudáveis, seguros e gratos.

            A falência da autoridade dos pais se dá quando não há mais diálogo, não se conversam mais, se silenciam mutuamente e quando um não sabe sobre o outro. Essa estranheza domiciliar, gera monólogo e silencia todos. O silêncio impera entre Pai e mãe, entre irmãos, entre os pais e filhos, é a derrocada total. A falência da autoridade, nessas condições, é quando o silêncio ocorre, quando não se tem o mais que falar, ou quando os pais, por se sentirem culpados por os abandonarem, passam a ser permissivos, frouxas e sem autoridade e com medo de dizer não e de cobrá-los. Se sentem endividadas e submissos. A falta de limites, de ordem e de controle nas normas de funcionamento da casa, também expressa a falência da autoridade dos pais, condição fundamental para o desenvolvimento dessas crianças.

          Às vezes, para encobrir tudo isso, são apresentadas desculpas esfarrapadas: uns, apontam a falta de tempo, para estarem com os seus filhos, devido aos compromissos, ao trabalho e isso nãos os deixam estarem mais presentes em casa e perdem o precioso tempo de verem esses filhos crescerem e se desenvolvem nas etapas da vida. Outros, atribuem a correria do dia a dia, porque têm que trabalhar, ganhar dinheiro e pagar as dívidas, outros ainda, atribuem à internet, às redes sociais, aos games etc. Explicações sobre esses desleixos não faltam.

          Quanto a isso, a internet, os games, as redes sociais e outros entretenimentos online são a “bola da vez”, para explicar tais tragédias. O que houve em Suzano, foi atribuído, intensamente, a influência dos games violentos, os quais são hoje considerados os grandes vilões de muitas tragédias. Todos esses recursos eletrônicos e cibernéticos são hoje um importante meio de influenciar comportamentos humanas, sobre isso não há dúvida, mas dizer que os mesmos, são os grandes motivadores desses problemas familiares, não me convence. De tal forma, que o apego doentio, o uso compulsivo ou patológico de games, o uso indiscriminado e sem controle que ocorre dentro e fora de casa por crianças e adolescentes, às vezes, incentivados pelos próprios pais, já podem por si só, serem sinais inequívocos da desagregação profunda porque passa essa família.

             Portanto, fiquemos atentos aos fatos que ocorrem em nossas famílias com vista a garantirmos sua sagada missão, qual seja, a de assegurar a saúde, a segurança e o bem social e o pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes.

sem comentário »

Dependência de celulares

2comentários

      

          Semana passada, anunciaram na grande imprensa, uma pesquisa importante, realizada em todo território nacional, envolvendo o uso de telefone celular. E, alguns achados da pesquisa, demonstram uma situação muito complicada e preocupante entre as pessoas e o uso desses aparelhos.

           Os pesquisadores, descobriram que 15% dos brasileiros entrevistados, não conseguem ficar 1 minuto sequer sem o telefone celular; 7% deles, por só por 2 horas; 11% só conseguem ficar sem ele, por 6 horas, e 8% por apenas 1 hora. Sinais de inquietação, taquicardia, falta de ar, apreensão e inquietação por nãos disporem dos aparelhos ou por não terem acesso às suas funções, podem ser prenúncios de dependência. 27% dos entrevistados afirmaram que o uso do celular atrapalha a hora de dormir; 23% afeta a relação com outras pessoas e outros 23% informam que o celular tira a tenção nas tarefas diárias. Esses números são estarrecedores.

            Sabe-se que desde a metade dos anos 1990, o uso de aparelhos eletrônicos tem aumentado exponencialmente. Segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), Agência do Sistema das Nações Unidas, dedicada a temas relacionados às Tecnologias da Informação e Comunicação, já são mais de 7 bilhões de aparelhos celulares em uso no mundo, isso corresponde, a mais ou menos, um aparelho para cada ser humano na face da terra.

           Com o aperfeiçoamento progressivo desses aparelhos, chegou-se a era dos aparelhos inteligentes: Tvs, carros e fones inteligentes, ou smartphones, equipamentos dotados de múltiplas funções:   câmera fotográfica, filmadora de alta resolução, ampla acessibilidade a e-mails e redes sociais, pesquisas on-line, visualização de filmes e programas de TV, músicas, realização de transações financeiras, estudos e diversas outras possibilidades, além, evidentemente, do contato telefônico propriamente dito. Os smartphones vieram para ficar e sua chegada provocou, grandes transformações nos meios de comunicação.

         Como já era de se esperar, as pessoas foram com sede ao pote, no rumo desses equipamentos, pois afinal de contas, nãos se tratava, tão somente, de um telefone e sim de algo que nos dava um “plus” a mais, em nosso modo de viver.  O aparelhinho, deixa o mundo inteiro, literalmente, ao nosso alcance, bastando para tanto alguns “cliques” em seus teclados e, em poucos segundo as coisas mudam. Tem havido tanta evolução, que raras são as vezes que se vê alguém sem portar um celular, ou nas mãos, nos bolsos, nas bolsas e em todo lugar que se pode imaginar.

             Com o aperfeiçoamento dos aparelhos, surgiram novos hábitos e novas formas das pessoas se comportarem no mundo, ao ponto de muito delas perderem completamente a noção de adequação do seu uso. Passaram a usá-los de forma estranha, disfuncional e desvinculada das finalidades para as quais os mesmos foram inventados. A situação foi tão alarmante que no Reino Unido, a uns anos atrás, passou-se a designar esse apego patológico aos celulares de nomofobia (abreviação, do inglês, para: no-mobile-phone phobia), para descrever o pavor, o mal-estar, o estado de apreensão e todo uma angustia que urge nessas pessoas quando o telefone celular não estar disponível. Esse termo tem também sido muito utilizado para descrever a dependência ou uso compulsivo desses aparelhos.

             As taxas estimadas de dependência de celular podem chegar até a 60% entre os usuários. Um estudo brasileiro realizado pela pesquisadora Anna Lúcia King, da UFRJ, verificou que 34% dos entrevistados afirmaram ter alto grau de ansiedade sem o telefone por perto.

             Uma outra particularidade, ao meu ver, ainda mais preocupante é a utilização em massa desses aparelhos, especialmente fones e tabletes, por crianças e adolescentes, pois isso fatalmente irá provocar, desde cedo, comportamentos exagerados e descontrolados, próprios dos usuários disfuncionais. Milhões de crianças, com idades que variam ente dois ou três anos e adolescentes, com acesso livre, total, irrestrito e sem qualquer controle por parte dos pais e professores. O pior, é que essa prática é incentivada pelos próprios pais, não existindo qualquer disciplinamento sobre seu uso e nas escolas sem qualquer controle.

             Qual a perspectiva diante dessa situação? Uma delas, certamente, é o aumento de pessoas, precocemente, afetadas, emocional e psiquicamente, pelo uso disfuncional e desses aparelhos. A outra consequência direta, é o afastamento, lento e progressivo dessas pessoas da sua realidade. Isto é, as pessoas vão deixando de viver em seu dia a dia, suas responsabilidades, seus deveres, seus estudos e outros interesses para se fixarem ao telefone.

          As pessoas já afetadas pela nomofobia, já esboçam sinais de perda das habilidades psíquicas e sociais nos relacionamentos interpessoais, pois passam a ter dificuldades em estabelecer vínculos de amizade plenos e duradouros. Se tornam utilitárias, mediocrizadas e sem profundidade em nada que fazem e perdem a capacidade de se comunicarem.  

         A priorização do uso desses equipamentos, em detrimento de outros interesses é outro problema grave. As pessoas tornam-se fixadas nos celulares e deixam para trás todos os outros interesses, como estudos, trabalhos, atividades físicas e outras ocupações salutares. Passaram a desenvolver tolerância, que é aumentar progressivamente, o tempo de uso desses aparelhos e a apresentarem abstinência que é o fato de passarem mal pela falta dos mesmos, esses dois fenômenos são indicadores importantes para o diagnóstico da dependência.

             Os abusadores de celulares e outros equipamentos eletrônicos, têm maior chance de desenvolverem transtornos psiquiátricos como os da ansiedade, do humor (depressão) da impulsividade, que outros usuários que não estão nessa conjuntura. Problemas físicos, incluindo fadiga, patologia ocular, dores musculares, tendinites, cefaleia, distúrbios do sono e sedentarismo, são também sintomas relatados pelos dependentes. Além disso, esses usuários compulsivos apresentam maior propensão para acidentes automobilísticos ou quedas.

          Nessa perspectiva, outros médicos como os oftalmologistas tem demonstrado que crianças expostas a luminosidade contínua e excessiva, oriundas dos celulares, tabletes e computadores, poderá prejudicá-los, precocemente, com miopias e astigmatismo.  Portanto, os pais devem ficar mais atentos na relação com seus filhos com e os equipamentos eletrônicos, pois esses limites que tem que estabelecer são eles.

2 comentários »

Descontinuação dos tratamentos em Psiquiatria

0comentário

                  No universo dos tratamentos médicos, várias questões sempre são consideradas quando alguém procura um profissional para fazê-lo. Quando a busca do tratamento é na psiquiatria, as coisas se complicam um pouco mais. A pessoa que necessita desse tratamento, e em geral, também sua família, encaram isso como um fato especial na vida dessas pessoas, pois em geral para irem na busca desse apoio, fazem muito esforço para se superarem os enormes preconceitos que ainda há, quando alguém se decide a se tratar com um médico dessa área. Sem contar, que muitas doenças mentais, impedem senso de autocrítica que lhes permitiria perceber, que de fato, eles necessitem de um tratamento. Isto é, muitas dessas doenças mentais acabam dificultando que a própria pessoa reconheça a necessidade de se tratar, a doença não deixa claro em sua mente essa consciência a real da necessidade de buscar um tratamento psiquiátrico.

             Para tanto, várias outras etapas deverão ser percorridas até que se chegue ao tratamento propriamente dito. Um fato inicial, sumamente importante por parte do médico é buscar a confiança do paciente e dos familiares para a realização do tratamento propriamente dito e isso se adquire, entre outras coisas, estabelecendo-se um bom relacionamento médico-paciente e com a família do enfermo para deslanchar as propostas terapêuticas.

           Em um segundo momento, vem a expertise, a experiência e o necessário conhecimento médico e técnico do profissional para formulação de possível diagnóstico sobre o que se passa com esse enfermo. A colaboração da família e do próprio paciente, nessa etapa de investigação clínica é fundamental, pois muitas informações deverão ser solicitadas pelos mesmos para essa finalidade. Em geral, alguns procedimentos médicos e as solicitações de exames laboratoriais são relevantes para o fechamento do diagnóstico. Uma boa, competente a cuidadosa anamnese, o exame físico e a solicitação de exames laboratoriais, colaboram muito para fundamentar a proposta diagnóstica.

            Em um terceiro momento, após percorrido essas duas etapas anteriores e já tendo o diagnóstico em mãos, o psiquiatra irá formular o projeto terapêutico a esse paciente. Esse projeto terapêutico, nada mais é, que um conjunto de recomendações éticas técnicas que o profissional recomenda ao enfermo e a sua família, para tratar, prevenir ou reabilitá-lo, na totalidade de suas queixas e de seu sofrimento.  O projeto terapêutico, contempla todas as medidas que devem ser tomadas em bloco para o tratamento dessa pessoa e deve respeitar as particularidades de cada paciente e de sua condição social.

           Atualmente denomina-se, Projeto Terapêutico Singular – PTS, à rigor não se realiza, tão somente, pela participação só do médico, outros profissionais da saúde têm papeis relevantíssimos na consecução dos tratamentos. O médico, tem a responsabilidade de elaborar PTS, especialmente quanto sua execução e a supervisão. É no PTS que iremos definir um tratamento específico para cada pessoa, respeitando suas caraterísticas e particularidades biológicas, psicológicas, pessoais, sociais e culturais formulando-lhe uma atenção terapêutica especifica dentro dessas caraterísticas. Esse programa se aplica tanto em condições ambulatoriais quanto aos pacientes tratados em regime de internação hospitalar.

           E, é justamente no tratamento proposto que começam a surtir os problemas mais relevantes na área da assistência psiquiátrica. Pois muitos enfermos, lamentavelmente, não conseguem prosseguir um tratamento a contento pelo tempo necessário por descontinuá-lo, indevidamente, em qualquer das etapas que o mesmo se encontre.

         Hoje a descontinuação dos tratamentos em psiquiatria é um dos assuntos mais debatidos em rodas de conversas entre médicos e entre outros distintos profissionais da área da saúde se constituindo um dos temas mais relevantes que há na prática médica. Um complicador para isso, já vimos acima, é a ausência de autocritica, por parte do doente mental, sobre a própria necessidade de tratar sua doença e isso é próprio de algumas doenças psiquiátricas. Outro fator relevante é a inacessibilidade aos serviços da saúde mental em nosso meio e em nosso país. São muito poucos os profissionais dedicados a essa área, prestando assistência a muita gente que precisa desses cuidados. Nunca se adoeceu, mentalmente, tanto quanto se adoce hoje e os servidiços de saúde essa área, não acompanharam essa demanda.

           Outro fator relevante é desconhecimento (baixa formação especializada) de profissionais sobre o manejo adequado desses tratamentos. As dificuldades financeiras, devido o desemprego ou devido a baixa renda da população os impedem de adquirir esses fármacos ou realizar outras formas de intervenção terapêutica, é também um outro grande problema na consecução do tratamento. Enfim, vários fatores colaboram para essa problemática grave, do ponto de vista do tratamento psiquiátrico.

            O fato é que, do ponto de vista médico e psiquiátrico, ao se interromper um tratamento desse tipo, em qualquer uma de sus etapas ou realizá-lo de forma incorreta, as consequências são avassaladoras. A primeira delas é a possibilidade de cornificá-las o que, certamente, acontecerá com as interrupções sucessivas desses tratamentos. Hoje, todos sabemos, que tratar de doenças crônicas é muito mais complicado e de prognóstico sombrio. Sabe-se, que sucessivas interrupções em tratamentos dificultam muito a recuperação plena desses enfermos.  

              A refratariedade aos fármacos é outra possibilidade esperada em interrupções de tratamentos. Isto é, os medicamentos que anteriormente faziam efeitos e nos davam respostas clinicas satisfatórias, passam a não responder plenamente ao tratamento. Em geral, esses enfermos crônicos, passam a precisar de maiores doses dos medicamentos que faz uso ou adicionar outros fármacos para produzir os efeitos esperados. A organização Mundial da Saúde em um documento de 2016 estimou que em torno de 45% das recaídas em quem se trata de depressão foi atribuído à interrupção do tratamento que o paciente vinha fazendo. Isso, demonstra a importância de não interrompermos um tratamento, qualquer que seja ele em qual quer de suas etapas.

            Como podemos notar, a cronificação a refratariedade, as recaídas e o agravamento na evolução clinico dessas enfermidades psiquiátricas, poderia ser evitado caso prosseguíssemos com o tratamento que qualquer uma dessas fizerem jus.

sem comentário »

As meninas estão bebendo muito mais

0comentário

                                

             Sabe-se, modernamente, que as mulheres estão bebendo bem mais e em proporções bem parecidas com a dos homens. A forma como as mulheres estão bebendo se assemelha, também, à forma dos homens beberem. Atualmente, ambos, estão adotando, uma forma de beber que os ingleses chamam de binge drinking, também conhecido, tecnicamente, por “Beber Pesado Episódico – BPE”, que significa consumir 5 ou mais doses de bebida alcoólica, no caso dos homens e 4 ou mais, no caso das mulheres, em uma única ocasião, em um intervalo de 2 duas horas. Esse BPE está relacionado a graves acidentes de todos os tipos e é mais uma forma de expor esses usuários a muitos danos relativos à sua saúde.

          Um estudo global publicado neste mês pela BMJ Open, citado pelo Prof. Dr. Arthur Guerra de Andrade Presidente do International Council on Alcohol and Addictions (ICAA) e Professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, analisou os hábitos de consumo de álcool de 4 milhões de pessoas durante um período de mais de um século, a partir da compilação de dados de 68 pesquisas internacionais publicadas entre 1891 e 2014, e mostrou que a diferença entre homens e mulheres com relação ao consumo de álcool, tem diminuído cada vez mais.

          A BMJ Open, concluiu que os homens nascidos entre 1891 e 1910 apresentaram risco 3 vezes maior de beber de forma nociva e sofrer consequências negativas relacionadas ao álcool do que as mulheres nascidas na mesma época. Diz ainda o psiquiatra, “essa relação de risco diminuiu para 1,2 vez entre aqueles nascidos de 1991 a 2000, ou seja, praticamente não houve diferença entre os gêneros”.

          Observa-se, que essa mudança de padrões de consumo tem ocorrido também entre as adolescentes. Segundo relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2015), entre estudantes com idade de 13 a 17 anos, mais de 20% das meninas e 28% dos meninos relataram já ter sofrido um episódio de embriaguez na vida.

          No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2015 (IBGE, 2016), realizada com 10.926 estudantes nessa mesma faixa etária, também aponta índices semelhantes de episódio desse tipo: 26,9% entre as meninas e 27,5% entre os meninos. Informa, ainda o estudo, que pelo menos 1 em cada 4 estudantes já se expuseram a riscos importantes referindo-se à caso de embriaguez.

           Artur Guerra, cita ainda resultado de outra pesquisa analisada pelo PeNSE, realizada entre alunos do 9º ano do ensino fundamental (entre 13 e 15 anos). Tanto a experimentação quanto o consumo atual de bebidas alcoólicas (nos 30 dias que antecederam a pesquisa) foram maiores entre as meninas: 56,1% versus 54,8% (experimentação) e 25,1% versus 22,5% (consumo atual).

            Uma das conclusões desse estudo, nos permite inferir que as meninas adolescentes querem ser aceitas socialmente e o álcool faz parte desse cenário, pois ajuda a desinibi-las. O consumo do álcool nessa população também está associado às aspirações dessas adolescentes de se tornarem mais independentes, o mesmo que houve quando as mulheres modernas se emancipadas e passaram a ocupar funções de destaque na sociedade contemporânea.

             Um fato notório, importante, é que as mulheres reagem, biologicamente, de forma diferente ao homem, ante a molécula do álcool. Elas são mais sensíveis aos efeitos dessa molécula, por vários motivos. O fato é que elas expostas a um consumo exagerado ou excessivo de álcool as tornam mais vulneráveis para o desenvolvimento de dependências, em se tornando dependentes de álcool, responderem bem menos aos tratamentos para essa situação.

              Outro fato importante, é que o cérebro do adolescente é altamente maleável, é capaz de produzir bilhões de células nervosas (neurônios) nessa faixa de idade e, por sua vez, esses volumes enormes de células nervosas se articulam com outras dezenas de milhares de outras (sinapses), para assegurarem funções realizadas pelo cérebro. Ocorre, que o álcool, por ser uma substância, psicoativa, (age no cérebro), não só impede o nascimento de outros neurônios (neurogênese) quando impede e reorganização da fabulosa rede e interconexões (sinapses), que neurofisiologicamente, iriam ocorrer nesse sistema, prejudicando, sobremaneira, o desenvolvimento e execução de todas as funções regidas por esse órgão. Imaginem, portanto, os graves problemas por que passam essas meninas ao começarem a beber precocemente. 

            Diante dessa situação altamente perigosa, que põe em risco a saúde mental e a segurança desses jovens, é preciso que haja maior disciplina, por parte das famílias, quanto ao maior controle dessas práticas. Uma medida importante, nesse sentido é conversar mais com os filhos, como reforça, Artur Guerra de Andrade, que essa é uma medida recomendável e sempre aconselhável, muito embora seja o que menos se faz na atualidade. Tenho dito sempre, que as famílias já não conversam com seus filhos e filhas. Deixam que esses cresçam e se eduquem por segunda intensão, uma forma de educação negligente e baseada nos eventos naturais da vida, o que nunca deu certo.

             Os adolescentes, quanto menos idades tiverem, mais precisam de pais presentes, atuantes, que conversem com eles, que os abracem, que os ouçam e que os amem. Precisam de pais que exerçam suas autoridades, de forma autentica e fiel e que sejam líderes, em suas casas e de em seu ambiente social. Basta de pais frouxos, medrosos inseguros, submissos aos filhos e que não sabem bem que rumo tomar na educação dos mesmos. Esse tipo de família é um veneno, pois farão muito mal a seus filhos agindo assim. Irão confundir tudo, a formação, a vida e a educação dessas crianças.

           Outras medidas como trabalhar a autoestima dos filhos, desenvolver o senso de responsabilidade social, destacar suas qualidades e estimulá-los à prática de atividades esportivas e de competição sadias e prazerosas, como as no esporte, são práticas que previnem o uso de álcool e outras drogas nessas etapas da vida. Criar condições para que seus filhos se sintam cidadãos, dá bons exemplos, estar sempre ao lado dos mesmos é fundamental. Provocar bons diálogos, fundamentalmente sinceros, favorecerá ao bom relacionamento.

           Essas medidas em bloco auxiliarão o crescimento emocional, afetivo e social dessas crianças e adolescentes, como também construirão barreiras solidas e consistentes de segurança para que esses filhos saiam do “tsunami circunstancial que é começarem a beber com idades muito pequenas”.

sem comentário »

Doenças mentais e o uso de maconha

2comentários

A cada dia reacendem os debates sobre o uso de maconha, no Brasil e no mundo. Motivos para isso é o que não faltam. Os debates são tão acirrados que podemos dizer que se vive em uma grande encruzilhada, entre os que são favoráveis ao uso e comercialização da maconha e os que são contrários à tudo isso. A legalização recente de algumas substâncias da maconha, para finalidades terapêuticas, passou a ser um marco histórico nesse debate. A disponibilidade dessas substâncias, tais como o canabidiol e o Delta-9 tetra hidrocanabinol (Delta- 9 – THC), legitimam esse feito. Para aquecer mais ainda essa situação outras atividades industriais que tem como matéria prima a maconha, entram em cena, fazendo imensa pressão nos estados e países, para promoverem a exploração comercial dessa planta.

Entre essas atividades industriais, destacamos a farmacêutica, a dos alimentos, a de roupas e cordoarias, a de beleza e cosméticos, a de combustíveis e por último a indústria tabaqueira. Todas essas industrias, estão ávidas, saltitantes e muito interessadas na famigerada liberação da maconha para poderem legalmente explorarem-na em suas atividades comerciais. A maconha passou a ser vista com o os “ovos de ouro” dessas indústrias.

Por outro lado, há outros interesses, provavelmente das mesmas indústrias, as quais vêm fazendo enorme pressão para que muitos países promovam a legalização de seu uso para finalidades recreativas, a pretexto, sobretudo, de possibilitar e assegurar o acesso livre dos usuários a erva, sob o suposto controle do estado.  Ambas as situações tanto a utilização para fins medicinais e industriais, quando para fins recreativos, definem as duas formas distintas de se utilizarem a maconha, por distintos interesses econômicos, empresariais e sociais.

Uma terceira via, dessa discussão, muito importante, são os estudos de pesquisa clínica e neurocientíficas, que vem sendo realizado em muitas universidades nacionais e internacionais de notoriedade científica sobre o uso da maconha e o impacto desse uso sobre nossa saúde mental, especialmente, entre adolescentes. Grande parte desses estudos apontam para o fato do uso de maconha determinar problemas psiquiátricos, especialmente se o uso ocorre entre a população de jovens.  

 Um estudo recente, conduzido por pesquisadores da McGill University, no Canadá, publicado pelo JAMA Psychiatry, uma das maiores revistas de psiquiatria do mundo, demonstrou o impacto do uso à longo prazo do uso de maconha. O estudo foi realizado com 23 mil adolescentes. Os resultados foram surpreendentes e reveladores: adolescentes usuários de maconha (em comparação com adolescentes não usuários) tiveram risco de 37% maior de chances de desenvolverem depressão na idade adulta, um risco de 50% de chance de apresentarem maior ideação suicida na idade adulta e um rico risco de tentativa de suicídio triplicado na vida adulta.

Para os autores “a alta prevalência de adolescentes consumindo cannabis gera um grande número de adultos jovens que podem desenvolver depressão e comportamento suicida atribuíveis à cannabis. Este é um importante problema de saúde pública, que deve ser adequadamente abordado pelas políticas de saúde pública”. Enfatizam, ainda que as políticas de prevenção devem “educar os adolescentes a desenvolver habilidades para resistirem à pressão do grupo para usarem drogas”.

Outros estudos, nessa mesma linha, demonstram que adolescentes ao se exporem ao uso de maconha têm 25% de chance de desenvolverem esquizofrenia que adolescentes não usuários.

A maconha contém em suas folhas e flores uma resina com cerca de 60 componentes denominados canabinóides. Entre esses o principal componente é o Δ9-tetrahidrocanabinol (THC). O THC que chega facilmente ao cérebro onde funcionará em locais específicos, isto é, nos receptores próprios do THC.

Usuários crônicos de maconha apresentam déficits cognitivos graves. Alterações eletroencefalográficas, também observadas entre usuários crônicos reforçam a hipótese de que a maconha pode produzir neurotoxicidade. As alterações neuropsicológicas mais consistentemente descritas em usuários crônicos de maconha são déficits em tarefas psicomotoras, atenção e memória de curto prazo. A situação é tão importante e significativa que o DSM-5 colocou a maconha entre as substâncias causadoras de dependência, fato que não havia até então ocorrido.

No cérebro, as áreas preferenciais de ação dos canabinóides são: hipocampo, córtex pré-frontal, gânglios da base e cerebelo.  Todas essas áreas, alteradas pela ação da maconha, promoverão mudanças afetivas, emocionais, cognitivas e comportamentais específicas. Na intoxicação aguda por maconha ocorre sedação, prejuízos cognitivos que envolvem dificuldade de consolidação de memória de curto prazo, alteração na avaliação do tempo, prejuízo nas funções executivas, alterações da senso percepção e alterações na coordenação. Portanto, a maior parte destes sintomas são devidos à ação do THC nesses receptores cerebrais.

 Os dados demonstram que os danos psiquiátricos e comportamentais constatados pelo uso de maconha são enormes e todos são atribuídos diretamente a ação dessas drogas no cérebro. Especialmente, se utilizadas em épocas muito precoce da vida, tais como na infância e na adolescência.

 Dados do II LENAD/2012 mostram que na população adulta brasileira, 5,8% declarou já ter usado maconha alguma vez na vida – ou seja, 7,8 milhões de brasileiros adultos já usaram maconha pelo menos uma vez na vida. Entre os adolescentes, esse número é de 597 mil indivíduos (4,3%) dentre os mais de 14 milhões de adolescentes brasileiros. Analisando o consumo de maconha nos últimos 12 meses (anteriores a pesquisa), 2,5% dos brasileiros adultos declaram ter usado e 3,4% dos adolescentes – representando, portanto, mais de 3 milhões de adultos e 478 mil adolescentes em todo país.

A partir desses dados, imaginem o impacto disso, nessa população jovem do nosso pais. Faço minhas as palavras dos pesquisadores do JAMA, citado acima: ““educar os adolescentes a desenvolver habilidades para resistirem à pressão do grupo para usarem drogas”, deve ser nossa meta. Acrescentaria, ainda: são necessárias políticas públicas mais consistentes para ajudar esses milhões de jovens a levarem uma vida mais saudável.

2 comentários »

Atividade física e saúde mental

0comentário

Atividade física e saúde mental

A cada dia crescem as evidências que o homem contemporâneo, produto de uma era repleta de novos conhecimentos, pode viver mais e melhor. Esta é, certamente, uma das mais importantes informações, que todos nós queríamos ouvir, pois a busca da longevidade e da vida eterna é uma das mais antigas aspirações dos seres humanos e isto está se concretizando a passos largos.

Nos últimos 50 anos demos um salto muito grande na qualidade e em nosso estilo de vida atingindo índices de longevidade nunca antes alcançados, pois estamos vivendo mais e melhor. Sabe-se, que para atingirmos isto houve uma coincidência de diferentes fatores que garantiram estas conquistas: os avanços da Nutrologia, da Bioquímica, da Imunologia, da Genética, da Farmacologia de Neurofisiologia e das Ciências Comportamentais. Não se pode também desconsiderar os avanços imprescindíveis no campo da tecnologia médica, os avanços sociais e econômicos e a maior participação de todos na cadeia produtiva e no trabalho.

Por outro lado, há um contrapondo, importante, que se estabelece, contrários aos avanços citados acima.  A Revista Médica Britânica “Lancet”, há alguns anos, publicou artigo mostrando que 5,3 milhões de mortes por ano no mundo estão relacionados ao sedentarismo. Para os pesquisadores, a falta de atividade física diminui a expectativa de vida da mesma forma que o tabagismo e a obesidade. E essa condição, responde por 10% das doenças não transmissíveis, como diabetes, câncer e problemas cardíacos.

Em outro estudo, Pedro Hallal, da Universidade de Pelotas, informa que 30% da população mundial adulta é fisicamente inativa, e que 80% dos jovens entre 13 e 15 anos não se exercitam o suficiente. Outras informações mostram que 49% da população brasileira adulta não praticam atividade física, embora se saiba que o sedentarismo responde por 13% das mortes por infarto, diabetes e câncer de mama e do intestino.

Dados do programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUP, de 2016, nos dão conta que, a cada ano, cerca de 300 mil brasileiros morreram em decorrência de doenças relacionadas à inatividade física. Em outras palavras, o sedentarismo, que como se viu, mata 5,3 milhões de pessoas por ano em todo o mundo, causa no Brasil uma epidemia de doenças relacionadas à inatividade.

Especificamente sobre a saúde mental, um trabalho realizado com um grupo de mais de 700 indivíduos idosos sem demência, desenvolvendo níveis elevados de atividades físicas nas 24 horas, avaliada objetivamente pela actigrafia (que mede o ciclo de atividade/repouso através dos movimentos do pulso), verificaram que estes indivíduos apresentavam um menor risco para o desenvolvimento da doença de Alzheimer, bem como uma taxa mais lenta de declínio cognitivo. Esta descoberta dos pesquisadores apóia os esforços dos mesmos para incentivar a atividade física, mesmo em pessoas muito idosas.

Portanto, a atividade física, diminui o risco de declínio cognitivo e demência. Isto é, uma pessoa com baixa atividade física diária, apresenta um risco 2 vezes maior de desenvolver Doença de Alzheimer (DA), em comparação com um exerça uma atividade física regular. O nível de atividade física cotidiana global está associado com uma taxa mais lenta de declínio cognitivo global, particularmente para a memória episódica, memória de trabalho, velocidade na percepção e habilidades visuais / espaciais. Isto é, todas as funções cognitivas se beneficiam com atividade física regular.

Os estudos também demonstram que não é só através do exercício físico, que se vive bem, o incremento das atividades cognitivas, ocupacionais, a arte, a criatividade, e outras atividades intelectuais, são condições que também estão associadas com um maior desempenho cognitivo e com a qualidade de vida na velhice. Indivíduos mais velhos, para quem a participação no exercício formal esteja limitada por problemas de saúde, pode se beneficiar de um estilo de vida mais proativo através do aumento de todo o espectro de atividades de rotina. Isto é, mesmo que a pessoa não pratique formalmente o exercício, mas se tem uma vida ativa, também se beneficiam evitando muitos transtornos neuropsiquiátricos.

Portanto atividade física é algo adstrito, só a promoção da beleza, mas também e principalmente, a saúde, a vitalidade e a longevidade, pois essas práticas impedem o surgimento de muitos transtornos físicos, psíquicos e sociais graves e avassaladoras, especialmente, em populações de idosos.

Não é de hoje que se sabe que a ocupação é fonte de saúde. Desde que essa ocupação seja inspirada por prazer e disposição. Isto é, exercer atividades prazerosas e que lhe dê contentamentos. Muitas pessoas, equivocadamente, ao se aposentarem de seus trabalhos habituais, ou por tempo de serviço ou por idade, abandonam inteiramente as atividades que lhes eram comuns, e se se entregam a uma vida improdutiva, ociosa, desocupada, achando que já trabalhou muito e, portanto, deve “ficar sem fazer nada”. Vejo nisso um tremendo equívoco de avaliação. Essas pessoas ao se aposentarem, o fizeram, de uma atividade formal, regular e corriqueira, porém a vida de cada uma prossegui, continua, sem interrupção e isso vai permanecer, aposentado ou não.

A vida permanece, o cérebro permanece os órgãos estão ávidos por atividades e quando se tornam impedidos disso, essas pessoas pagarão um preço caro com o surgimento de muitas doenças originarias dessa inatividade.

           Entre as doenças neuropsiquiátricas e emocionais muito comuns nessas condições, encontra-se quadros depressivos graves e outros transtornos emocionais, sobretudo, transtornos ansiosos por desadaptação ou disfuncionalidade, justamente, por se estregarem, entre outras coisas, a um sistema de vida ocioso e sedentário, duas condições absolutamente contrárias a saúde plena.

Ainda do ponto de vista da saúde mental e psiquiátrico, sabe-se, que ao nos exercitarmos, estimulamos a funcionalidade de uma rede enorme de neurotransmissores cerebrais, substâncias imprescindíveis à nossa saúde global (física, psíquica e social), sem os quais, dificilmente, desfrutaríamos com plenitude de saúde e bem-estar. São substância proteicas, vitais para garantir as funções do cérebro e de muitos outros órgãos indispensáveis à saúde.

Nossa vitalidade e nosso comportamento, depende da funcionalidade do cérebro e dos neurotransmissores cerebrais, os quais, resumidamente, são eles quem nos darão o equilíbrio necessários para vivermos plenamente. Eles garantem o que fazemos, o que pensamos, sentimos, reagimos, e nos comportamos. A atividade física, regular, sob orientação profissional, nos dá isso de graça, daí porque, quem pratica um esporte, sabe que depois de uma boa sessão de academia, uma boa caminhada, uma bela natação e ou outras práticas esportivas, você se sente relaxado, tranquilo, satisfeito, sorridente e pronto para o dia a dia.

 

sem comentário »

Aposentar-se da vida ou do trabalho?

0comentário

Uma questão que me parece absolutamente relevante e que vem merecendo pouca atenção, por parte do estado e de muitas empresas empregadoras nesse país, é o destino de muita gente que, ao se aposentar, passam a apresentar graves problemas emocionais, comportamentais e sociais, em razão direta da aposentadoria.

Para muitos, aposentar-se ao invés de representar uma conquista, um novo e agradável modo de vida, uma oportunidade a mais de ser feliz ou de virem a realizar planos saudáveis na vida, a aposentadoria representa um “inferno” uma tortura ou uma coisa muito ruim. Muitos ficam à deriva, sem saber o que fazer, sem saber para onde ir, sem fazer nada e à margem das atividades sociais e ocupacionais. Outros, torna-se ansiosos, depressivos, fóbicos, inseguros, retraídos, ocasionado pela mudança abrupta de seus “modus vivende”, para o qual não foram preparados.

Em geral, quando o assunto é aposentadoria, uns se assustam, outros se preocupam e se retraem e não querem falar sobre o mesmo, e, há os que tem até medo de chegar a essa época. E, ao tratar sobre ela, as principais questões são sempre as mesmas: reclamações, revoltas, previdência, salários, direitos, desassistência, etc. São queixas comuns, que se destacam sobre qualquer outro assunto e, um dos que menos se fala, são dos sentimentos, vivências, expectativas e projeto de vida que cada pessoa apresenta ao se aposentarem. Ao meu ver, um assunto absolutamente relevante, que deveria ser melhor tratado, do ponto de vista médico, psicológico, social e previdenciário.

Para mim, como um psiquiatra e como observador das questões sociais e humanas, não estranho, esse descuido sobre essas questões quando o estado nem as empresas não se preocupam em fazê-lo, muito embora possa haver danos importantes na saúde e no comportamento dos muitos que aposentam.

Infelizmente, não há um olhar especial sobre os aposentados, isto é, sobre a pessoa que passou a vida toda trabalhando, produzindo, colaborando com a sociedade, que, ao se aposentar, via de regra, é deixado de lado literalmente, abandonado a sua sorte, pela ausência de uma política efetiva, regular, abrangente e humanizada, que venha dar a essas pessoas as garantias mínimas, de proteção, valor e os meios adequados para se organizarem para entrar nesse novo ciclo de vida.

Restringirei meus comentários, nesse artigo, sobre os aspectos psicológicos e comportamentais das pessoas que se aposentam. E, nesse sentido, resgato parte de uma conversa que tivera, há alguns anos atrás, com um dileto amigo, Evandro Carvalho, quando discutíamos algumas questões sobre as aposentadorias. Ele, por muitos anos, dirigiu a Caixa de Previdência dos Funcionários do antigo Banco do Estado do Maranhão, a CAPOF e na época, me convidara para ser médico desse órgão.

Entre as conversas que tínhamos, Evandro, enfaticamente dizia: aposentar-se do trabalho, não é aposentar-se da vida. E dizia isso a partir de algumas observações minhas lidando com servidores especialmente aposentados os quais procuravam-me para consultas. Entre essas queixas, a de depressão era enorme. Uns se sentiam inúteis, com baixa estima pessoal. Outros, ainda, referiam dificuldades de adaptação a nova vida, ou se sentiam ansiosos, inseguros e culpados, ou ainda, passavam a beber muito e até usar outras drogas. Referiam somatizações clínicas frequentes e conflitos familiares. Houve um caso, que me lembro até hoje, quando uma Sra., referindo-se ao seu marido, recém aposentado, me dissera, Dr.: não aguento mais esse homem, depois que ele se aposentou, está insuportável e se transformou completamente.

Essas alterações de comportamentos, em minha avaliação, estavam ligadas diretamente ao fato de se aposentarem e não estarem, entre outras coisas, preparados para tanto, algumas dessas pessoas, quando voltavam a trabalhar, tempos depois, observava-se uma drástica redução dessas queixas, isto é, melhoravam sua qualidade de sua vida. Essas observações me convenceram que a aposentadoria, ou era a causa principal desses problemas, ou a mesma funcionava como gatilho para desencadear alguns desses comportamentos. Em uma condição ou outra, percebi e ainda percebo, que são muito tímidas as ações institucionais que oferecem medidas de prevenção a essas reações comportamentais desadaptativas, tão frequentes entre os aposentados, deixando-os vulneráveis a essas idiossincrasias.

Sabe-se, que trabalhar é uma das melhores e mais importantes formas de se promover, assegurar e prevenir doenças mentais e ocupacionais, especialmente nessa população de vulneráveis que são os aposentados. A ocupação, em si mesma, é um meio indispensável de se prevenir doenças e agravos psicológicos. Os danos à saúde em uma aposentadoria mal trabalhada, é enorme, e, é preciso que haja, no âmbito dos serviços públicos ou privados, políticas ou ações específicas, nas áreas sociais ou de RH, que trabalhem de forma antecipada e sistematicamente, com seus servidores a condição de virem a se aposentar. Além do mais, recomenda-se, que haja igualmente, ações específicas destinadas ás famílias desses que se aposentam para evitarem maiores problemas a partir desse novo modo de vida.

Essas e outras medidas, são de caráter preventivos-assistenciais, que poderiam ser implementadas ainda no ambiente de trabalho, muito antes de efetivamente se aposentarem. Isso, ao meu ver, facilitaria a transição dessa condição de uma vida produtiva para a de aposentado, dirimindo os efeitos negativos desse processo.

Aposentar-se, é salutar e que nem sempre representa problemas, muito pelo contrário, muitos ganham qualidade de vida, tempo livre e se expandem do ponto de vista existencial, além de terem a chance de trabalharem em outras atividades que não sejam as habituais, o que é muito interessante do ponto de vista psíquico e laborativo.  Ocorre, que como nem todos reagem assim, há os que ficam à mercê de graves problemas comportamentais e de adaptação pessoal e social, a esses, deveria ser oferecida medidas protetivas para uma boa transição entre o trabalho e a aposentadoria.

 

 

 

sem comentário »