A SABEDORIA NA PANDEMIA

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A Pandemia não modifica as pessoas, apenas mostra o que elas são.   Não precisa ser nenhum sábio, basta ser apenas um observador para concluir isso. Sim, porque é justamente nas situações extremas que os seres humanos mostram suas verdadeiras faces, com máscaras ou sem máscaras.

Os exemplos são muitos, bastaria lembrar mais da metade dos respiradores comprados que jamais chegaram aos doentes, ou, então, os milhares de brasileiros que se apropriaram da ajuda de custo destinada aos carentes.   Neste caso, a Pandemia não aprimorou a dose de canalhice dessa corja, apenas a exibiu.

Mas a frase original não é essa, mas sim “O poder não modifica as pessoas apenas mostra o que elas são”,  o que me faz pensar na grande variedade de frases sábias, adaptadas, ao que se vê na Pandemia:

1.Ser ou não ser, eis a questão. Mas se você não resolveu essa questão antes da Pandemia é melhor deixar pra lá, porque em uma Pandemia se vive muito pouco para ser alguma coisa, e depois que ela acabar, se acabar,  a questão passará a ser sobreviver. Ser ou não ser será artigo de luxo. 

2.Na Pandemia brasileira a sabedoria de Jesus Cristo se transforma sob o ponto de vista dos políticos: “Dai a César  o  que  é de César, a Deus que  é de Deus e aos Corruptos o dinheiro desviado da Saúde”.

3.Em uma quarentena as aparências enganam,  como sempre, mas as máscaras conseguem esconder a feiura com mais precisão e vantagem (porque sai mais barato) do que o Botox .

4.A pressa sempre foi inimiga da perfeição, mas o Pico da Pandemia não precisava exagerar na seu passo de tartaruga.

5.Em uma Pandemia, o brasileiro, usa o ditado do jeito que lhe convêm : “Cada macaco no seu galho, cada Gafanhoto no Uruguai e cada Covid 19  numa piscina de álcool Gel.”

6.De médico e de louco todos temos um pouco mas, na Pandemia, a parte médica diminui menos que a de loucura aumenta.

7.Na Pandemia a sabedoria ressoa com mais precisão ainda quando falada desta forma: “Dize-me com que Covid 19 andas , que eu te direi quem eras”.

8. Mente vazia, como todos sabem, sempre foi a oficina do Diabo. Na Pandemia as mentes se transformaram em oficinas de fabricar lives. O que, praticamente, dá no mesmo.  

9.Para bom entendedor meia palavra basta. Mas na Pandemia metade da metade de um espirro basta para espantar todo mundo.

 10.Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. Mas na Pandemia é bom lembrar que Hoje é amanhã, Amanhã virou nunca e,  quanto ao futuro,  a OMS ainda está decidindo .

12.Jamais ponha a carroça adiante dos bois, mas na Quarentena o melhor a fazer é deixar o Covid adiante da máscara.

13.Roupa suja se lava em casa, mas na Pandemia prefira lavar a roupa suja antes de entrar em casa.

14.Um dia é da caça outra do caçador, mas se o Covide é o caçador e o ser humano a caça, faz mais de 12 semanas que todo dia é dia do caçador.

O pior é que, se depender da OMS e seus cientistas, o caçador continuará deitando e rolando e a vez da caça tão cedo não chegará.      

josé Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas

Segunda edição em breve nas livrarias.Primeiro livro de ficção científica sobre as mais belas lendas maranhenses
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A Nova Onda da flexibilização

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O Pequeno Dicionário da  Pandemia não para de crescer, com o surgimento de novas palavras e expressões:

1.Flexibilização. Esta  palavra acabou se tornando, de uma hora para outra, a da moda, substituindo a Pico (da Pandemia)   que reinou durante algum tempo. Agora só se fala em flexibilização. 

Acontece que, como o tal do Pico, que se escondeu e, definitivamente, ninguém sabe onde se meteu,  o  que era para vir  somente depois dele, surgiu e se estabeleceu.  Mais ou menos na base do: “Já que esse Pico não chega, vamos de Flexibilização.”

Quanto ao que isso significa, bem… Flexibilização é daquelas palavras que ninguém sabe ao certo de que trata, virando moda por isso mesmo. Vem de flexível que significa adaptável, porém, o termo agregado ao mesmo tem vários tons a mais de versatilidade, ou seja, de flexibilidade. Na prática o sujeito flexível é aquele que fica em cima do muro e nunca se sabe se é ou se não é, o que quer ou o que não quer, o que sabe ou  que não sabe, enfim, um adaptável. Já que a humanidade anda querendo se adaptar ao Novo Vírus, cai  como uma luva para os dias atuais.

Flexibilizar,  na atual conjuntura , significa dizer que se está fazendo isolamento social, mas nem tanto, saindo de casa, mas nem tanto,  vivendo mas não tanto, enfim, o que significa também dizer:  morrendo, mas não tanto, a se julgar  pelas mortes invisíveis ou não computadas.

Seu equivalente religioso é O Agnóstico, aquele que diz não acreditar em Deus, mas nem tanto. Para consumo externo este aprecia propagar que não acredita em Deus, mas admite, sim, a possibilidade de que ele um dia possa aparecer balançando um paraquedas na hora em que estiver caindo do seu avião, já que,  via de regra são os agnósticos  os primeiros a implorar por Deus nessas situações. Ou seja, agnóstico  é aquele que acha conveniente  passar a imagem de conhecedor profundo da Ciência, negando tudo o  que não se pode provar, como querem os cientistas, mas que, por via das dúvidas, também teme que sua alma um dia possa ressuscitar como um corona vírus para sofrer por todos os seus pecados.  Enfim, o agnóstico, ou o flexível,  é aquele de quem Jesus Cristo disse: “Prefiro os quentes ou os frios, porque os mornos, esses eu os vomitarei. “

NOVA ONDA. É um termo que surgiu para contrabalançar qualquer tentativa de otimismo em relação ao Corona-Vírus. Tão acostumados ficaram os seres humanos ao pavor dominante transmitido pela mídia que repetem: ‘Tá sorrindo? Não perca tempo! Vem aí a Nova Onda!’  significando  que não adianta aos que sobreviveram pular, gritar sorrir, que lá vem morte de novo.

Eu só não estava entendendo era o termo Onda, tão poético, estar se metendo nisso.  Bons tempos aqueles do  “como uma onda no mar” de Lulu. A meu ver o nome do pavor deveria ser: Nova tragédia, Nova Catástrofe, Nova aporrinhação! , até que, coisa de  uma semana atrás acabei descobrindo:

 Assim como se atribuiu ao coitado do morcego a proliferação do monstro invisível, agora se começa a desconfiar de uma nova onda catastrófica, desta vez  a partir do salmão,  tanto assim que  os chineses, sempre eles, estão  proibindo a importação do salmão chileno.

Onda, Salmão, tudo a ver, não é?

Coitados dos salmões! Dos morcegos!  E de nós!

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de Lendas primeiro livro
de ficção científica sobre as mais belas lendas maranhenses
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O NAMORADO PANDEMIA

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Livre-se do Namorado-Pandemia


Como não poderia deixar de acontecer os namorados também mudaram com a Pandemia , embora poucas já tenham se apercebido. E, por isso, se faz necessário orientar as moças para que reflitam sobre essas mudanças, até mesmo para que não comprem presentes à toa no próximo dia dos namorados.  

1.O NAMORADO LOCK-DOWN. É aquele que passou a se julgar  possuidor de total controle sobre os atos e movimentos da namorada. Enfim, a amada não pode sair mais de casa nem em fotografia do instagram.

2.O NAMORADO PICO. O namorado Pico da Pandemia é aquele para quem a data de ambos se juntarem nunca chega. Enquanto ela anseia pela por esse dia, ele contemporizando lhe diz: “ Meu bem, segura as pontas só até que cheguemos ao pico de nossas economias, que garantirá nosso futuro”.

Esse pico, obviamente, tal qual o pico da pandemia, nunca chega.

3.O NAMORADO COVIDE 19. É aquele indivíduo, pequeno, invisível, e pegajoso, que um dia, a par de todas as prevenções da namorada, arranja uma brecha em qualquer buraco pertencente a  ela ( o coração também serve) e lá se instala. Depois de invadir seu corpo o próximo passo é a sua casa. A coitada  só saberá se o expulsou de verdade quando conseguir ar puro novamente. Sem respirador.

4. O NAMORADO  VACINA. É aquele que tem solução pra tudo,  doenças e não doenças.  Até briga de cachorro ele resolve. Se a namorada compra um carro, ele, solidário,  logo se antecipa: deixa o carro comigo e fique em casa para sua segurança, meu amor!

Desconfiada da vacina que está tomando só resta à garota sair atrás de um antivírus justamente contra o Namorado  Vacina. A essas alturas já descobriu que só o distanciamento não resolve. 

5. O NAMORADO NOVO NORMAL. É aquele que se julga vários segundos à frente de todo mundo. Sua palavra de ordem é: “Tudo mudou depois da Pandemia meu bem!”.  Quando ele apresenta, aos beijos e abraços, um novo amigo de quem ela desconfia os trejeitos, ela começa a ter certeza que há algo de anormal com o seu namoradinho Novo Normal.  

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

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CONTO DA QUARENTENA

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Alírio sempre foi um solitário. Gabava-se disso. Dizia: “Quem procura a companhia dos outros é porque não consegue suportar a si mesmo”. Sem filhos, tinha uma namorada aqui outra ali, porque sedução não lhe  faltava. Esse seu modus vivendi era, para ele, a felicidade: amava as mulheres desde que não o tirassem de sua solidão, sua mais querida companheira.

Alírio sempre foi um solitário. Gabava-se disso. Dizia: “Quem procura a companhia dos outros é porque não consegue suportar a si mesmo”. Sem filhos, tinha uma namorada aqui outra ali, porque sedução não lhe  faltava. Esse seu modus vivendi era, para ele, a felicidade: amava as mulheres desde que não o tirassem de sua solidão, sua mais querida companheira.

A pandemia chegou e, com ela, a quarentena. Na ocasião  os amigos lhe diziam, com uma ponta de inveja: “Para você tudo bem, não é Alírio ? Sempre foste um lobo solitário”.

Veio a primeira semana, depois outra, mais outra, e o que não se esperava aconteceu: Alírio  perturbou-se  com essa nova solidão. A  razão foi  fácil descobrir:  “ Uma coisa é ser solitário por vontade própria, outra é sê-lo  por imposição. Estavam lhe roubando também a sua liberdade,  associada à sua solidão”. Lembrou-se de uma frase de Rubem Braga “ O chato é aquele que te rouba a solidão sem te fazer companhia.”

E a quarentena continuou. Só havia espaço agora, na vida, para políticos se digladiando, cientistas atarantados e repórteres histéricos. Uma ideia lhe acudiu: se suicidar. Por que não? Parecia-lhe uma solução factível, mas logo recuou. Talvez, se encontrasse quem o matasse, mas isso era impraticável. E Agora?

Uma coisa puxa outra. Uma nova ideia lhe pareceu exequível: matar alguém. Por exemplo: o vizinho de seu apartamento. O desgraçado perturbava sua solidão, agora angustiante, com sons de música sertaneja, estrondosos, paupérrimos, avassaladores. Isso era tétrico, horripilante, asqueroso. Um motivo mais que suficiente para matar alguém, pensou. 

Tinha um revólver antigo, escolheu o dia e a hora, mas não deu. Seu vizinho, parecendo desconfiar do motivo pelo qual ia ser morto, de repente,  parou de escutar o maldito som de dupla sertaneja e o substituiu por samba, rock e jazz, que Alírio apreciava. Alírio desistiu de sua intenção,  mas não foi apenas  por isso. Era um homem bom.

Mais dias se passaram, trazendo-lhe uma nova ideia. Matar um animal e procurar a Polícia. Passou a acompanhar cachorros e  gatos nas raras vezes em que o permitiam sair de seu apê.  Nem precisaria gastar a bala do seu revólver, bastava-lhe uma pedra. Em vão. Até que em uma manhã de desespero aconteceu. Um rato apareceu no chão de sua sala, em quietude convidativa. Mesmo tomado de inquietante compaixão Alírio apontou o revólver. Não apontou pra valer, mas o animal morreu. Lágrimas lhe desceram  dos olhos.

Em seguida, foi à delegacia se apresentar ao delegado de plantão.  

– Eu cometi um crime, pode me prender, sou um assassino.

– Como?

– Matei um pobre animal. Este rato.

– Senhor, não podemos lhe prender por causa de um rato morto. Vá para casa, descansar. Essa tensão tá pegando meio mundo

Alírio  fez a maior confusão e ameaçou chamar repórteres da tevê. Gritou que aquele era um pobre animal que, no  entanto, valia mais que os seres humanos – pelo menos ratos não corriam para suas tocas com medo de um vírus.  E devia valer muito mais,  também para Deus, porque não roubavam o dinheiro da Saúde destinado às vítimas.  O delegado tentou contornar.

– Calma,  amigo, sente-se Uma psicóloga está vindo.

– Poupe seu trabalho. Da minha solidão cuido eu. Você já leu algum dia esta  frase de Montagne? Anote-a em seu caderno:

“A solidão é muito boa, só que tem um problema. Você precisa de alguém para dizer isso.”

                                                                      

José Ewerton Neto é autor de A Ânsia do Prazer, disponível na plataforma de ebooks da Amazon

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A quarentena de Capitu

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Capitu, a que tinha olhos oblíquos e de ressaca, que pareciam uma epilepsia do mar

Capitu, a do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis era uma moça bonita “com olhos oblíquos e de ressaca“ parecendo uma epilepsia do mar. Fora isso não tinha ambições que a distinguissem de uma moça comum: um bom casamento e filhos; nada de intelectualmente especial.

Tampouco seu autor a dotou de complexidade psicológica, aquela aura que seduz pela personalidade. Capitu era bonita e brejeira, ponto final. Algumas décadas depois outro escritor, Jorge Amado, descreveu outra moça, parecida em características físicas e mentais: Gabriela, que tinha a mesma brejeirice, o mesmo ardor sexual,  a mesma singeleza de raciocínio. Mas havia uma diferença, Gabriela não controlava seus impulsos. Esses que no dizer popularesco se diz das moças atiradas: “…mulher quando quer dar ninguém segura”.

Pois Capitu não chegou a tanto. No romance, jamais foi pega praticando infidelidades. Era esposa recatada e do lar, como convinha. Devia lá ter seus desejos reprimidos e olhadelas à socapa (quem não tem?). E olha que aguentar um sujeito como Bentinho, deve ter sido uma barra!

Neurótico, obsessivo, o cara fazia tudo para levar um bom par de chifres! Millor Fernandes, escritor, chegou a constatar, nas entrelinhas do romance, que Bentinho tinha uma paixão secreta por Escobar. (Será?).  Pra completar, Bentinho jogou o nome de sua mulher na lama, para sempre, sem prova de nada.

2. Podemos imaginar como seria a Capitu, versão 2020. Esta, como aquela,  pouco lê. Preocupa-se apenas em dar  vazão aos seus prazeres imediatos. Gosta de novela, não perde o BBBrasil  e adora – como adora!- música sertaneja, porque, verdade seja dita, Capitu é uma obtusa. Parece-se com Bruna Marquezine naquele jeito brejeiro e sensual, de santinha de pau oco, como se dizia. Não tira o celular da mão, odiando  tudo o que se refere a estudo ou livros.  Sonha, isso sim, em se casar.

E não é que encontra? O Bentinho do século XX. Porque foi casar justamente com um Bentinho nem ela sabe. Bentinho é sério demais para o seu gosto, é trabalhador, religioso da Igreja Universal e talvez tenha sido por isso que o escolheu: para dar um rumo à sua vida. Têm pouca coisa em comum,  mas o fato de ele também gostar de música sertaneja lhe parece mais do que suficiente. O casamento, ao som de Luan Santana,  achou o máximo, dançou, estava feliz.

A lua de mel nem tanto. Bentinho não chegou junto e a coisa foi arrefecendo. Com alguma dificuldade (da parte dele) e boa vontade da parte dela (fantasiava com outro para aguentar) deu até para ter um filho, que hoje tem 3 anos. Por incrível que pareça esse é dele mesmo.

Até que chega a quarentena. Só dá ela, vendo lives de música sertaneja, e Bentinho, batendo panela na janela. Capitu tá que não aguenta. Durante uma distração de Bentinho ela sai de casa. Quando volta ouve o berro: Onde você estava, sua  vagabunda? Ela, com os mesmos olhos oblíquos do passado, responde:  “Ora, com o filho do porteiro. Quer saber? Não te aguento mais! Se eu transei? Com você é que não foi.”

O resto todo mundo sabe. Mais um feminicídio.

Muita gente jura que foi uma tentativa de vingança (tardia e mal sucedida) da Capitu atual pelo que a sua versão sofreu no passado. O certo é que Bentinho, o feminicida, continuará vivo  e à solta como tantos.  Como sofrem as Capitus deste país!

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas, novela premiada de ficção científica sobre as mais belas lendas maranhenses

                                                                      

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José Sarney, a ilha e o mar

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Com a perda recente do poeta Ferreira Gullar e, pouco antes, do escritor Josué Montello,  permanecem na vitrine do reconhecimento nacional e internacional  à literatura dos maranhenses vivos, três  escritores não residentes em São Luís: os igualmente poetas e romancistas José Sarney e Ronaldo Costa Fernandes,  e o poeta Salgado Maranhão. Em paralelo, num período relativamente curto,  foram-se também vultos de grandes escritores e/ou intelectuais radicados em nossa terra:  Nauro Machado, José Chagas, Ubiratan Teixeira e Jomar Moraes. Foram perdas irreparáveis que provocaram inevitáveis fissuras no bloco sustentador de nossa literatura e cultura.

Torna-se assim oportuno e até urgente, a cada dia, que as entidades literárias se congreguem no esforço de prestar justas homenagens àqueles cuja envergadura conquistada com seus talentos,  os mantêm na linha de frente da exposição daquilo que a histórica vocação literária do Maranhão fez por merecer.    

Essas homenagens do povo maranhense a seus filhos ilustres ganha contornos especiais  no caso de José Sarney, por completar 90 anos , ser membro das Academias Maranhense e Brasileira e ter tido, em paralelo à sua  vitoriosa trajetória intelectual,   uma relevância política que nenhum outro maranhense alcançou (conhecida amplamente por todos, não cabendo,  aqui, repetir) .  A pergunta, óbvia, que salta aos praticantes de literatura, como eu,  diante dessa trajetória, é como ele conseguiu conciliar a pujança de sua atividade política com uma também marcante realização literária. 

A leitura do livro O dono do mar, que aprecio de forma especial por ter crescido junto ao mar ( meus saudosos pai, Juvenil Ewerton,  e avô, José Ewerton, possuíam barcos de pesca) sugere algumas soluções como respostas. Certamente lhe é inata uma imaginação fértil que permite conciliar a crueza do embate cotidiano com o onírico; da exata percepção da realidade,  com o místico.  Esse  pragmatismo, que é  necessário a todo homem do mar para sobreviver e confrontar os perigos da natureza , derrama-se no romance em contraponto ao diálogo com as lendas e o sobrenatural, numa simbiose perfeita.  

Ora, o mar é próprio da ilha, quem ama sua  ilha ama o mar, com uma cordialidade e uma devoção que surgem como uma sina em qualquer atividade a que se proponha quem nela nasceu , fazendo sobrevir, no romance, curiosamente,  uma das características mais decantadas do caráter do escritor e político José Sarney: a Cordialidade.

Neste caso, o romance O Dono do Mar a expressa também. Dos embates e da violência contra a  dura realidade das águas brotam permanentes gestos de aproximação e cordialidade com o mar, suas lendas,  e suas representações.

José Ewerton Neto é autor de Pequeno Dicionário de Paixões Cruzadas, livro de contos, lançamento em breve.

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Quarentena de bons maranhenses

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bons livros de maranhenses

VIEIRA NA ILHA DO  MARANHÃO, de Ronaldo Costa  Fernandes

Neste romance de ficção histórica, Ronaldo se afasta dos temas habituais,  em seus contos e romances,  para construir   uma homenagem à sua terra, o Maranhão – e que homenagem! Para tanto buscou um de nossos  personagens mais ricos  e emblemáticos, o padre Antonio Vieira.

Vieira, no romance, paira, por assim dizer, como um farol, iluminando a ocorrência dos fatos, mas  sem participação no desenlace dos mesmos. Mantendo-o equidistante de sua criação imaginativa,  Ronaldo edificou um significativo registro de uma época, da qual até os maranhenses mais letrados sabem pouco. Aos poucos,  o leitor vai percebendo que, com suas palavras, o autor traçou um denso painel em que suas  frases substituíram  registros documentais, desenhos e mapas de uma fase embrionária da nossa formação como povo .  É um romance cujo fascínio não está no mistério da trama, não linear e quase inexistente, mas na composição dos tipos: fortes, devassos, estúpidos e aventureiros, e na descrição dos eventos em torno dos mesmos, o que   nos transporta   para o passado como se estivéssemos – perdoem o clichê- viajando através do tempo.

Certamente fruto de árdua pesquisa, a abordagem literária  a meio caminho entre crônica dos acontecimentos  e romance , valoriza sobremaneira o resultado.  Uma obra enriquecedora  que deveria ser recomendada para  leitura em nossas faculdades , especialmente para os formandos em Letras ou História.

ANÔNIMOS, de Lindevania Martins

Os contos de Lindevania Martins possuem o dom de aberturas poderosas, sugestivas e originais. Leva-se algum tempo para constatar isso porque, extasiados, somos motivados a continuar  com progressivo  interesse,  já que o que vem pela frente não se desloca do mistério ou da inquietação prometida. Ao invés, nos conduzem a mais labirintos perfeitamente delineados, sem que se tope com bizarrias que, de algum tempo para cá, se tornaram um caminho fácil para escritores que, sem o mesmo talento, ficam emparedados,  no espaço curto de um conto,  descambando para  a conclusão  grotesca ou ineficaz.

Assim, em dilacerantes contos como a Língua ou Coisa sem nome, para citar apenas estes, Lindevânia Martins consolida a narrativa de seus contos em um todo monolítico, fazendo com que  o start-up impactante perdure até o final,  para deleite do leitor.

LITTERAE SEMPRE, De Alexandre Lago

Este segundo livro de Alexandre Lago sobre a mesma temática  , pode ser considerado , dada a linguagem accessível e dinâmica, tanto como livro de iniciação à boa literatura , como de aprimoramento,  para os mais versados .

Mesmo aquele que já tenha viajado literariamente por “ mares nunca antes navegados”  há de encontrar aqui  o tesouro da ilha que julgava perdida , e dotará  sua navegação ( a leitura é uma viagem ) com um  fértil manancial de obras sutilmente postas à disposição do leitor através de uma arquitetura de compartilhamento em que o autor concede, além do resumo da obra, sua abalizada opinião.

Mais um utilíssimo livro que deveria enriquecer o acervo de nossas escolas. Desta feita para estudantes do segundo e terceiro grau.

José Ewerton Neto é autor de O Entrevistador de Lendas cuja segunda edição já está na gráfica

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Quando as primeiras são especiais

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“Os últimos serão os primeiros”  dizia Jesus Cristo contrariando a obsessão moderna de primazia em tudo que se refere a poder e visibilidade . Nestes tempos de Corona, a enxurrada de especialistas que aparece para ostentar  sapiência sem oferecer soluções,   batendo em uma tecla de prevenção  do tempo de nossos tataravôs, faz ver  que a ciência progrediu muito em certas direções relacionadas à tecnologia de  consumo e , relativamente,  pouco no que se refere à proteção à saúde dos indivíduos.

Nada como, nesses tempos sombrios, refletir sobre alguns primeiros  especiais.

                1.O primeiro mandamento no Velho Testamento é “ Não terás outros deuses diante de mim”. ( Exodo 20.3). No Novo Testamento  uma sutil  alteração foi feita por Jesus Cristo. “Amarás, pois,  o senhor teu Deus de todo coração, de todo teu entendimento, e de toda a tua força.

                Isso significa que até os mandamentos são adaptáveis,  segundo a visão daquele que tem o poder de alterá-los. Por exemplo, na política, o primeiro mandamento que regeu a administração dos governantes corruptos, associados à lava jato foi: “Só terei um Deus diante de mim, o dinheiro”.

Já o primeiro mandamento cabível a um bom governante nestes tempos de crise é “ Deixe a politicagem de lado”.

2.As primeiras cordas de violão clássico eram feitas de tripas de gato.

Isso explicaria  porque, de vez em quando,  ouvia-se um indescritível e fascinante acorde. Devia ser  o gato miando.

3.A primeira máquina construída para facilitar o trabalho das mulheres  foi a de costura.

Mas a única que lhes fez realmente vibrarem foi a última: o  vibrador.

4.O primeiro método que se tem notícia para evitar a gravidez das mulheres era um tanto rústico. As egípcias colocavam pedrinhas no útero que funcionavam como um verdadeiro DIU.

As mulheres, coitadas, recorriam ao que estivesse ao alcance. Quando não conseguiam afugentar os machões com pedradas, resolviam depois com pedrinhas.

5.Os chineses foram os inventores dos primeiros sorvetes. Estes tinham como ingredientes uma pasta de leite e arroz.

Ainda bem que não tinha pasta de carne de morcego na composição. Já pensou?

6.O primeiro carro a vapor que circulou no Brasil colidiu com uma árvore. Seu motorista era o poeta Olavo Bilac. Foi o primeiro acidente automobilístico do país.

Romário, se  vivo na época, talvez dissesse: “ Olavo Bilac como motorista é um poeta!”

Pelo menos isso serviu de inspiração a Olavo Bilac para criar uma célebre abertura lírica “Ora, direis , ouvir estrelas”, que ele teria adaptado  do original “ Ora, direis. Eu vi estrelas!”

8. A primeira criança russa vacinada contra a varíola recebeu o nome de Vacccinov.

Espera-se que a primeira criança vacinada no Brasil contra o Corona Vírus não receba o nome  de Cora Vacinona .

9.A primeira guerra mundial iniciou-se em 28 de junho de 1914 e terminou em 11 de novembro de 1918. A segunda  durou de 1939 a 1945.

A terceira começou há dois meses contra o Coronavìrus. A diferença é que as nações do planeta, desta vez,  não estão se digladiando entre si, mas  seguem juntas contra um único mas pavoroso inimigo comum.   Um  vírus.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas

Sobre as mais belas lendas maranhenses.
Em breve , segunda edição.
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A ILUSÃO QUE VOCÊ É

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Sim, caro leitor,  você é uma ilusão. Nosso eu é uma ilusão, não passamos de ilusões. E nem estou me referindo à vida humana, essa de quem, com muito maior razão, se desconfiava “A vida de alguém é a soma de suas ilusões” já dizia Henry James.

Estou me referindo a esse Eu, que todo mundo pensa que é e que, agora, a ciência desmente como apenas um conceito, dissociado da realidade. Como diz o neurocientista Daniel Dennet em seu livro “A perigosa ideia de Darwin”.  Ele atesta, assim como outros especialistas, que a mente humana é apenas uma constante sucessão de ideias, lembranças, sucessões, projetos, sentimentos, disputa por atenção etc. que passa por nossa consciência, de forma não linear. Para ele a forma de dar sentido a esse turbilhão é dizer que há um Eu que está experimentando, ou no comando de seus pensamentos. Mas esse eu unificado é apenas um conceito, portanto, um impostor.  

Para ilustrar essa realidade pode-se imaginar o seguinte diálogo entre um homem e seu espelho, ao  perceber que, dentro da moldura, a imagem o encara fixamente, como se estivesse viva e fosse outro ser. O homem, intrigado, pergunta àquele que julgava ser apenas a  réplica de si mesmo.

– Quem é você?

– Eu sou você.

– Nada disso. Você é apenas a minha imagem. Eu sou eu.

– Não se iluda. Eu sou você.

– Idiota! Se você for eu, quem, afinal, eu sou?

– Uma ilusão. Somente isso e mais nada além  disso, meu caro.

– Ah, quer dizer então que eu como, bebo, respiro, transo, posso te mandar à puta que pariu agora mesmo e,  mesmo assim,  eu não sou eu. Enquanto que você, sem corpo e sem vida, por trás da lente de um espelho é a minha pessoa…

– Eu pelo menos sou sua imagem. Você  nem isso, simplesmente é uma fantasia criada por você mesmo.

– Essa é boa! Vejo que você pretende me tirar do sério. Quer dizer que sequer uma imagem eu consigo ser, ou ter?

– Claro! Basta pensar. Daqui a um segundo você já terá outra imagem. Eu poderei ser sempre sua imagem atualizada, basta vir até a mim. Já você, ao sair daqui, pensará  que sua imagem ainda será a mesma de agora, esquecido de que esta já foi envelhecida pela passagem de mais um segundo.  E, assim por diante, uma sucessão de rostos se deteriorando até morrer.

– Peraí. E meu pensamento?

– Seu pensamento é uma soma de sensações que você teve,  imitou dos outros ou lhe impuseram, portanto, nada exclusivo seu.

– E meu relógio? Meus pais? Meus genes? Minha carteira de identidade?

– Não são seus. Você os tem apenas provisoriamente.

– Nada existe então de meu? De minha pessoa?

– Nada, você é pó, e ao pó retornarás, lembra? Já eu não. Hoje sou você, amanhã posso ser outro, mais outro. Pelo menos sou uma imagem. Valho mais que você.

– Miserável! Vou te matar criatura, seja lá quem você for.

– Vamos lá, pegue uma pedra atire em minha direção e me quebre. E assim perderá a oportunidade de continuar vendo  a ilusão que você é. O resto é memória. Quando fica.

josé Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas, 2a edição em breve, nas livrarias

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Nomeando estrelas

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O Brasil deu nome à sua estrela

“Ora (direis) nomear estrelas. Certo perdeste o senso…” escreveu o poeta Olavo Bilac.

Estaria o poeta certo? Ele sim, eu é que não.  O poeta disse ‘ouvir estrelas’ e não ‘nomear estrelas’. Mas, seria igualmente falta de senso nomear estrelas?

Evidente que não. Tantas   estrelas se descobrem a cada dia, muito mais que na época do poeta, e se torna necessário  nomeá-las. Usam-se números para isso, mas estrelas são estrelas e não convêm (para a ciência e bem mais para a poesia)  que estas se eternizem   associadas a números e não a nomes.

Graças a Deus que assim pensam os membros da IAU ( União Astronômica Internacional) , pretendendo dar ao infinito estelar um toque, digamos, pop. Com isso determinaram que os países ligados a ela teriam o direito de escolher como vai se chamar um minissistema – constituído de uma estrela e o planeta a ela associado – desses que gravitam fora do sistema solar, mas ainda dentro da Via Látea.

A associação da dupla de astros para  cada país foi escolhida pelo critério da distância: precisava estar próximo o suficiente para se fazer visível , por meio de um telescópio, à população do lugar que a batizará. No caso do Brasil  a dupla a intitular é atualmente conhecida pela junção de letras e números HD23079, fica a mais de 100 anos-luz da Terra e pode ser avistada entre os meses de Dezembro e Fevereiro, do Brasil, com auxílio de um telescópio.

A competição para escolha do nome foi lançada em 2019, durou até agosto e qualquer brasileiro podia participar dando asas à sua criatividade, satisfazendo certas regras: os nomes careciam ser representativos da cultura do país e possibilitar novos nomes em harmonia com a dupla original, para a eventualidade de descobertas de novos planetas girando em torno dessa estrela. Como há, por exemplo, uma estrela batizada com o nome de Cervantes, tendo planetas em seu entorno com os nomes de Quixote, Sancho, Rocinante etc. Uma verdadeira e justa apoteose ao maior de todos os romancistas!

Já pensou ser você o autor do nome escolhido para batizar uma estrela? Imagino que Olavo Bilac, o poeta que ouvia estrelas, gostaria de ter sido um, infelizmente não pode e as mais votadas foram aparecendo: Ceci e Peri, Capitu e Bentinho, Tupã e Jaci, Ribaldo e Diadorim etc saídos da literatura e da cultura indígena. Confesso que cheguei a torcer por Capitu e Bentinho, por causa de Machado, mas depois aceitei que isso seria uma maldade com os astros. Explico. Não por Capitu, sobre quem até hoje pesa, injustamente a meu ver, a pecha de ter sido adúltera. Mas por causa do marido: paranoico, obsessivo e com vocação de cornudo até a alma a ponto de manchar para sempre a memória da mãe de seus filhos  só porque esta era brejeira, tinha os olhos de ressaca parecendo uma epilepsia do mar  e era  mais bonita do que ele. E, convenhamos: Bentinho lá é nome de astro?

Soube, posteriormente, que nenhum dos nomes acima citados foi escolhido e que a competição foi vencida pelas palavras Tupi e Guarani, o que considerei apropriado. Palmas, portanto,  para o vencedor. Confesso,  porém,  que, do jeito que as coisas estão neste Brasil e como brasileiros decididamente escolhem mal, cheguei a temer que a preferência acabasse repousando nos nomes de algumas dessas infinitas duplas sertanejas que não param de infernizar nossos ouvidos. Já pensou?  

José Ewerton Neto é autor de Pequeno Dicionário de Paixões Cruzadas,

 

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