O ÚLTIMO VÔO DO PÁSSARO

EM HOMENAGEM AO DIA DA POESIA (ontem) um poema do livro

CIDADE ARITMÉTICA

O ÚLTIMO VÔO DO PÁSSARO

  

O mar era ainda mais o mar

E o palpitar de tudo que era vida

Batia no muro do céu e se refletia

Em sua amplidão e superfície

Um pássaro que sobrevoava a longa calma

Em azul sobre a marinha tombou.

E do céu caiu oblíquo, projétil carnal de luz,

Ponte pênsil entre as amarras de espuma e nuvem,

Pedra dura em rota marítima pouca de destino

Mas, à medida que afundava

As ondas se infestavam dos fantasmas

Dos seus ossos aquosos, cintilando

Entre as espumas como vagas ou centelhas

Um músculo do mar moveu-se então

Como um murmúrio da história

Arrancado de entre as águas, ponto de ardor,

Pleno de morte, partícula de sal tocada pela dor

…E o pássaro continuou então sua trajetória

De onde há pouco pousara por descuido

Por um instante tangente

à superfície do mar

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