DICIONÁRIO PRÁTICO DAS ELEIÇÕES

1.F de FACADA.

Tem coisas que só acontecem no Brasil. Em pleno século XXI,  só no Brasil ainda se tentam matar potenciais presidentes na base da faca.

Mas a bizarria não fica só nisso. Mais absurdo que o primarismo da facada em si, é o fato de ainda não haver sido descoberta pela  Polícia, um mês depois,  a real motivação  do sujeito. E olha que estamos falando de um eventual presidente. Já pensou se fosse um de nós, caro leitor, quando descobririam?

Tudo leva a crer que se esqueceram do mais elementar que é perguntar para  o agressor , porque esse papo de ‘loucura’ , levantado por advogados, mais parece conversa pra boi dormir.

Isso me fez  lembrar quando eu trabalhava em uma Siderúrgica nos anos 80. Havia uma médica responsável por avaliar o laudo médico de funcionários relapsos que se ausentavam do trabalho com a desculpa de distúrbios psíquicos. Alguns eram reincidentes. Ela dizia: “Depois que os avalio como sãos,   louco para mim só se rasgar dinheiro ou comer bosta”.

 

2.OS PILARES DE CIRO .

O currículo do candidato Ciro Gomes, cheio de contradições e atitudes intempestivas nos leva a concluir que sua maior realização foi ter namorado Patrícia Pilar, na época mais moça e mais bonita. Claro que isso não o credencia para a presidência,  mas já é alguma coisa de onde não se esperava nada. Inclusive, nesse requisito ele dá de dez em seu adversário Bolsonaro, já que, segundo propaga Rita Lee,  este deu em cima dela e nada conseguiu. Talvez porque, nessa época, o charme de Jair se limitasse ao Bolso Naro e não ao Bolso Cheio.

O xis da questão é: por que o romance não continuou? Se ele se deu ao luxo de perder seu Pilar , que desperdício não poderá fazer com o Brasil?

 

Um site de fofoqueiros da internet insinua que não foi Ciro que deixou Patrícia, mas o vice-versa. O fofoqueiro complementa insinuando: “Dizem que Ciro era tão ‘bom’ de cama que Patrícia, esquerdista de fé, para se virar, fantasiava  até com Fidel Castro!” Dá-lhe barbudão!

  1. G de Geraldo.

Segundo Zé Simão, Geraldo Alckmin não arreda do seu degrau na parte de baixo da pesquisa porque sua presença tem o mesmo apelo e sedução de um picolé de chuchu: insípido, inodoro e intragável.

Será por causa do enorme nariz (o povo se sente invadido em seu odor íntimo) ou por causa do nome difícil de pronunciar? No passado, a popularidade de Juscelino Kubitschek disparou depois que este passou a anunciar-se como JK.

E então tucanos, ainda há tempo, chamem o marqueteiro! Vão de Geraldão ou de GAF (Geraldo Alckmim Filho)?

Sei não, melhor Geraldão. Esse negócio de GAFE  é muito esclarecedor.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas

 

VAI UM MIOJO AÍ?

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO MIOJO

Suspeito que haja leitores que diante do título desta crônica estejam torcendo o nariz.  Ouso desconfiar de que não estejam sendo sinceros. Torcem o nariz para o Miojo, de fato, mas não torcem a boca. Isso porque o MIOJO é mais consumido no Brasil que o arroz com feijão e, no mundo, são devorados mais de 3 mil pacotes e copos de macarrão instantâneo,  a cada segundo.

Há lances épicos na sua trajetória. Vamos a ela.

1.Pode-se dizer que o pai do Miojo foi a Segunda Guerra Mundial e sua mãe a Fome. A ideia de gera-lo em blocos de macarrõezinhos encaracolados nasceu num Japão em ruínas com 3 milhões de mortos, economia destroçada e resquícios arrasadores de bombas atômicas, gerando  fome, muita fome.

Ora, o alimento mais comum no Japão, além do arroz,  historicamente é o lámen – um macarrão fresco servido na forma de ensopado. Com a economia em baixa no pós-guerra o Ministério da Saúde tentou substituir esse alimento pelo pão fabricado com farinha de trigo, doado pelos USA. Só que  esqueceram  de combinar com a população, que, sem outra alternativa, comia o pão ‘na marra’, pois continuava com saudade do velho macarrãozinho.

Foi então que Momofuku tirou uma ideia do Kofu (se a tradução fosse cofo não seria uma rima, mas seria uma solução).

Sua ideia foi produzir o macarrão desidratado em larga escala. Superando dificuldades financeiras Momofuku somente conseguiu desenvolver sua linha de fabricação em 1958, mas, agora, deparou com outro tipo de obstáculo: é que a primitiva ideia, então salvadora, não fazia mais sentido justamente porque a essas alturas… Ninguém mais  estava com fome.

2.Momofuku, perseverante como todo japa,  não desistiu. Se estudou a fundo matemática não se sabe, mas o certo é que chegou a uma fórmula que, se não revolucionou a ciência moderna, pelo menos, influenciou diretamente a forma da boca humana lidar com alimentos, no mundo inteiro:

Fome + Falta de Tempo = MIOJO

Um verdadeiro postulado que, trocando em miúdos, determina que o ideal para um faminto acelerado matar a fome é aquele alimento que praticamente não se come, ou, melhor ainda, aquele que se faz de conta que está comendo. Assim, unindo o útil ao desagradável o Miojo se estabeleceu como a alimentação mais adequada a um século de gente apressadinha.

3.O resto todo mundo sabe. Se a fome estava em baixa no Japão, continuou em alta em outros cantos do mundo.

Hoje, continua vitorioso mesmo diante daqueles que o acusam de ser uma bomba de sódio. (Cada saquinho contém 1,6 grama desse verdadeiro “carrasco” do coração e o máximo recomendado pela saúde é 2 gramas).

Embora isso seja verdade, ninguém pode acusar nosso herói de ser infiel às suas origens. Cada vez que alguém encara um pratinho de Miojo sabe que está lutando contra a fome, em guerra contra o sabor e arriscando sua vida contra bombas (de sódio). Ou seja, guerra, fome e bomba. Tal como foi no início.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas

 

PALAVRAS QUE NOS SOCORRERIAM

Sabe aqueles sentimentos que você não encontra palavras  capazes de traduzi-los? A culpa, neste caso,  não é de falta de conhecimento do seu idioma, mas, sim porque ainda não existe no Dicionário da Língua Portuguesa um conjunto de letras com essa finalidade específica.

No entanto, alguns desses sentimentos fazem sucesso fácil em outros linguajares, já que, por lá,  existem palavras que os traduzem. Que tal pedir  emprestado algumas delas?

1.JAYUS (Indonésia). Significa a vontade inexplicável de rir de uma piada muito, muito ruim.

No Brasil essa vontade é muito comum nas repartições e ambientes de trabalho quando é o chefe que conta a piada ruim. Só que, neste caso, uma expressão conhecida explica o jayus à brasileira: puxa-saquismo.

2.TARTLE (escocês) É o pânico que alguém sente quando vai apresentar outra pessoa e não se lembra do nome da mesma.

Essa palavra teria muita serventia para nós, brasileiros.  Numa situação  dessas, muito comum, bastaria ao desmemoriado se sair com um “Desculpe- me, deu um branco  agora…rererere . Você podia me dizer  seu nome? A culpa é do Tartle! ”

Mais comum, porém, é o inverso, ou  seja, o pânico acontecer quando você lembra do dito cujo , mas faz tudo para fingir que não sabe o nome, muito menos a pessoa. Geralmente quando se trata do cobrador, do síndico do condomínio, do oficial de justiça, ou da ex-mulher.

3.SHADENFREUDE ( alemão) É o prazer obtido a partir do sofrimento dos outros.

 

Enfim, temos a perfeita tradução (no original) do que sentiram os alemães quando nos sapecaram aquele  7 a 1. A palavra até que soa bonita embora  não combine com a agonia que sentimos do lado de cá. Para nós foi crueldade, mesmo.

4.ILUNGA (tshiluba/ Congo). Pessoa pronta para perdoar duas vezes, mas nunca a terceira.

Essa expressão teria aplicação na nossa fala para significar pessoas com a estranha vocação de perdoar sempre, como Gilmar Mendes. A diferença é que Ilunga é aplicável para quem vai só até o terceiro perdão, enquanto Gilmar, como se sabe, perdoa indefinidamente, desde que o sujeito seja corrupto  e tenha grana . Uma adaptação se faria necessária. Ao invés de Ilunga,  Alonga- Gilmar.

5.SHEMOMEDJAMO (georgiano) Traduz a incapacidade de parar de comer uma comida muito boa.

Não confundir com o nosso equivalente “gula”, que se refere a um excesso de volúpia, porém sem a obrigatoriedade da contrapartida de sabor. Aliás, por mais que procuremos no nosso dicionário não vai aparecer expressão similar com tanta desenvoltura, ou seja, com  a quantidade de letras proporcional ao volume de comida que o sujeito está pondo no bucho.

6.KOI NO IOKAN ( japonês) Sensação de que será inevitável se apaixonar por uma pessoa que acabou de conhecer .

O que temos de mais semelhante por aqui é “Amor à Primeira Vista”,  uma expressão parecida,  mas que raramente é usada atualmente.  “O Koi no Iokan” tem seu charme, mas acabaria em desuso assim como sua equivalente nacional . O problema é que as novas gerações brasileiras trocaram o Amor à Primeira Vista pelo Sexo a Perder de Vista.

José Ewerton Neto é autor de O ENTREVISTADOR DE LENDAS

 

 

A CASCA DE BANANA E O FUTURO DO BRASIL

Alguns anos atrás  escrevi neste jornal uma crônica intitulada “De volta ao cocô de cachorro”. No texto eu lamentava que logo após a recuperação da Praça Padre Jocy Rodrigues, no Renascença, ajardinada, limpa e favorecida com brinquedos para crianças e aparelhos para ginastas, as fezes dos cachorros voltassem a frequentar o espaço reservado para caminhantes diários,  como eu.

Nessa época,  de dias melhores economicamente, vislumbrava-se um futuro promissor para a nossa Nação. Sugeri, no texto,  que,   enquanto a consciência popular  não fosse  suficiente para zelar pelo espaço público como coisa sua,  isso  seria um empecilho para nosso país chegar a esse pretendido estágio,  de grande país, o que motivou  cartas de solidariedade de leitores, em especial, de moradores do bairro.

 

  1. Sexta-feira,  31 de agosto de 2018. Estou na mesma Praça, em obediência à minha disciplina de caminhadas diárias.  A praça  já não tem o apelo e a  atração daquele período  pós-reconstrução.  Os brinquedos se foram, danificados , assim como os equipamentos de ginástica, mas ainda merece a atenção da Prefeitura com uma rotina de limpeza e adequação que, embora precária, talvez não haja em todos os logradouros desta cidade.

Eis que, em meio a caminhada, percebo  uma equipe de trabalhadores iniciando um serviço de colocação de placas. Leio o que está escrito: “Sua praça não é depósito de fezes de animais. Zele por ela!” Um amigo,  também em sua rotina de exercícios,  passa em sentido oposto, observa os trabalhos, faz um sinal de positivo para mim e diz: “ Será que desta vez vai?”

Continuo minha caminhada. Noto que estão levantando as placas para coloca-las na posição mais adequada e acabo por distinguir aquele  que, provavelmente é o líder da equipe. Peço licença, me apresento e ele esclarece: “A iniciativa de colocação das placas não partiu do poder público, mas consegui da Prefeitura  o necessário  aval para executar este serviço. Minha firma confeccionou as placas, gratuitamente. Depois desta,  várias outras praças serão distinguidas com  a sinalização preventiva.”

Parabenizo-o pela iniciativa, enquanto constato que as placas estão sendo estrategicamente colocadas em nos galhos das árvores para evitar  que os vândalos a danifiquem.

Sigo meu caminho e lembro  uma frase do escritor Graham Greene que diz “ Existe uma casca de banana, por perto de toda grande tragédia”.

Pondero,  inspirado na sábia sentença,  que deve existir um povo capaz de limpar a própria sujeira, por perto de toda grande Nação.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luís

 

 

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SUA MELHOR INIMIGA

 

Emagrecer é uma das obsessões do mundo atual. Sempre surge uma balança para ajudar E é aí que começam as frustrações.

A BALANÇA

Se você está adquirindo uma balança a fim de que esta se torne sua amiga na batalha contra seus quilos a mais, esqueça! Uma balança,  seja ela qual for ( portátil, tamanho GG, eletrônica, ou com tecnologia de física quântica),  não está nem aí para seu apelo de solidariedade.

Antes de tudo porque, definitivamente,  ela não gosta de você. Não adianta escolher a mais simpática, a mais alegre ou a mais fácil de ludibriar. Uma balança não faz concessões à sua angústia, Não é que  tenha sido concebida para isso, a questão é de  antipatia pura e simples,  desde o instante em que você pôs seus olhos em cima dela.(E olhe que você ainda nem tinha posto o corpanzil).

Assim, ela é capaz de descansar o dia todo sem lhe fazer mal esperando a penas o momento de lhe cravar o equivalente a  um tapa bem dado: o registro de seu peso, sem tirar nem por.  Sim, porque basta um mero esfregar de números em sua fuça para colocar por terra tanto esforço e tanta esperança acumulada ao longo do dia.

Você tem esperança de ficar mais magro? Ela está  cagando pra isso. Você está depressivo e sofrendo com jejuns e dietas? Ela também caga  pra isso. Você chegou ao desespero de tomar remédios para evacuar o dia inteiro a ponto de viver defecando ao invés de defecar para viver? Ela não está nem aí pra isso. Resumindo: você está diante de uma inimiga que se especializou  em ‘cagar’ nas suas esperanças.

Certo, tendo batalhado a vida inteira, ao descobrir que tem uma inimiga dentro de casa você não se rende. Você é forte, bravo, você é um herói da resistência e está disposto a lhe provar isso. Um belo dia, num lance de sorte que nem você saiba explicar, ela se rende e, afinal derrotada, tem de se conformar em lhe anunciar os seus quilos a menos. Você  sorri, vitorioso e tem vontade de berrar: Venci!

 

 

 

Mas é bom não se iludir. Mais dia menos  dia, ardilosa e ladina como uma cobra,  a balança estará esperando para se vingar.  Silenciosamente, (como fazem os sorrateiros) ela lhe anunciará que você, de fato, não emagreceu de verdade porra nenhuma. E, como toda cobra que se preze, matará  a cobra e mostrará  o pau  exibindo  a prova definitiva.

Desesperado você chama o mecânico e diz: “Essa balança tá doida! Não aumentei tantos quilos de uma hora pra outra.” Com dó de você ele talvez diga: “Tente trocar a bateria! ”

Jamais faça isso. No primeiro reencontro ela vai escancarar sua derrota definitiva e só lhe restará  jurar que, a partir de agora, jamais vai vê-la o resto da vida. Só assim ambos dormirão e viverão em paz. Você porque comerá suas guloseimas sem dramas e sem dar satisfação a ninguém, ela porque se livrará de um babaca em cima dela!

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

 

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OS BRUTOS TAMBÉM AMAM ?

 

PINTURA DE HITLER

 

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão

 

O poder desumaniza as pessoas?  Há alguns anos, cientistas começaram a estudar as formas como o poder  afeta o cérebro humano. Eles descobriram que o poder faz com que as pessoas se tornem mais impulsivas, menos conscientes dos riscos e menos capazes de ter empatia pelos outros. As consequências em termos de gravidade são equivalentes a danos cerebrais.

“O poder não modifica as pessoas, apenas mostra o que elas são”. Esta frase, sábia e conhecida, significa que existiria todo um potencial de vaidade, arrogância, empáfia e até mesmo crueldade inata ao ser humano, prestes a ser revelada desde que surjam condições efetivas para isso.

 

Essas reflexões vêm a propósito do que li recentemente em revista científica revelando que alguns ditadores, causadores de grandes atrocidades, foram também capazes de momentos de afeto e bondade, aparentemente inconcebíveis no imaginário construído a respeito de suas biografias. Por exemplo, Hitler não foi sempre o homem que ordenou a morte de milhões. Eduard Bloch, o médico da família do alemão, era judeu. Hitler ficou tão agradecido pelo cuidado que ele teve com sua mãe, que colocou a família do homem sob  proteção do governo em 1938 e acelerou sua emigração para os Estados Unidos.

Stálin também,  enviava regularmente limões a sua esposa. Fazendeiro,  plantou limão toda a sua vida. Seus filhos achavam que ele era “mais suave” que a mãe, e seus sentimentos por sua esposa não eram teatro político. Quando Nadya cometeu suicídio, Stalin ficou tão perturbado que teve que ser vigiado para não fazer o mesmo.

Igualmente, muitas dessas “feras” tinham pendores artísticos. Hitler foi um pintor obstinado embora mal sucedido. Recordo também que na juventude travei conhecimento com a poesia de Mao Tse Tung. Impactado pela descoberta, levei-a ao saudoso Erasmo Dias que, entusiasmado, avalizou como, de fato belos, os poemas do ditador chinês.

Muammar Gaddafi foi outro poeta e escritor  que escreveu uma coleção de contos. Outro ditador artista foi Saddam Hussein, com seu romance “Zabiba e o Rei”, uma trama romântica num contexto de aventura. Aliás, os guardas que vigiaram Saddam ficaram muito tristes com a sua morte, tal a empatia com ele estabelecida no convívio final. Tudo indica que estes homens “humanos, demasiadamente humanos” talvez não levassem a pecha de sanguinários  caso  não tivessem sido guindados ao poder.

Nestes dias de eleições e de caça ao poder, em que tantos se digladiam e o tom de ataques recíprocos atinge níveis de virulência elevados, nunca é demais lembrar que o poder não é um mal em si, o mal é se deixar seduzir pelo mesmo e tornar seu exercício, “desumano, demasiadamente desumano”. Isso acontece com os destruidores de esperanças tão logo assumem o poder, como, por exemplo, na Venezuela, o execrável Nicólas Maduro.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas

 

 

BELEZA E TRISTEZA

 

Ao longo de minha vida adquiri muitos livros que hoje compõem o que se poderia chamar de uma modesta biblioteca,  senão no tamanho pelo menos na qualidade.

A arquitetura dessa magia se instala mais ou menos assim: um autor incógnito que oferece o seu texto a preço de banana me acenando das páginas do livro, insinuando justificar as inúmeras horas que passo à procura. Aqui a fascinação é a da garimpagem em busca do tesouro escondido. Os tantos livros que vim a adquirir, portanto,  ficam por conta dessa virtual atração: “Como posso deixar de levar uma fortuna oferecida a  um preço tão baixo? Isso é um crime que não posso cometer comigo mesmo!” E, assim, se amontoaram livros e mais livros a ponto de não haver lido nem metade do que gostaria.

Essa  impossibilidade faz com que, vez por outra, eu tente privilegiar alguns, colocando-os  na categoria dos próximos a ler, relevando os demais a uma leitura fortuita sabe-se lá quando. Eis que, mais por acaso do que por pertencer a alguma lista de preferência,  deparei  semana passada  com o Livro Beleza e Tristeza de Yasunari Kawabata.

 

 

 

Ao averiguá-lo, foi como a reedição de um novo achado, pois não tive a menor lembrança de onde e quando o adquiri. Reli então a orelha e descobri a possível razão de tê-lo trazido. Primeiro, o título, de uma singeleza arrebatadora porque traduz uma verdade pouco lembrada: a de que é difícil haver beleza plena sem um toque de tristeza, ainda que mínima, ou vice-versa. Mas, além disso, a fascinação pela capa com uma gravura japonesa e a alegoria de um perscrutador mistério.

Yasunari Kawabata, seu autor, ganhou o prêmio Nobel em 1968 e suicidou-se em 1972. A história por ele  narrada, comum, torna-se fascinante pela sua forma de condução da narrativa,  sublimando as paixões intensas que descambam para um desenrolar trágico previsível , ao sobrepor um tom de contemplação estética que suaviza o quadro de opressiva tristeza , pela introdução, inclusive nos diálogos, do êxtase em face da beleza  física ou artística, no caso,  mais desejada que verdadeira .

Uma obra-prima, de leitura gratificante e, portanto  imperdível , mas que , por isso mesmo,  veio me rechear das duas  sensações sugeridas pelo título do livro:   de Beleza, pelas obras-primas de autores para mim desconhecidos e que guardo em minhas estantes; e de Tristeza por saber que, por mais que me dedique ao exercício de uma leitura intensa  jamais conseguirei ler a todas.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas

 

 

A MAIS BELA EQUAÇÃO

Um grande autor inglês ao ser perguntado em uma palestra sobre como escrever um romance, respondeu, com um leve tom de ironia: “É simples, primeiro você põe uma letra maiúscula e no final um ponto. No meio você coloca a ideia”.

Como a resolução de um grande problema subentende uma ideia e um exercício para desenvolver a equação que o soluciona, tenho a impressão de que o mesmo autor se perguntado sobre como chegar ao enunciado de uma brilhante fórmula, talvez respondesse com o mesmo leve tom irônico: “É simples, primeiro você coloca um número, no meio um sinal de igualdade, e antes e depois do sinal de igualdade você coloca uma ideia.”

Por isso, ao me deparar em uma revista científica com o resultado de uma pesquisa com estudiosos sobre as mais belas equações, no total de 11,   me surpreendi  com a relativa simplicidade de pelo menos duas delas, ombreando com  outras famosas e geniais sobre temas complexos para leigos como a da Relatividade Geral , da Relatividade Especial ou a Equação de Euler.

A primeira, a do teorema de Pitágoras, é velha conhecida dos bancos escolares e, embora  de importância abissal para os estudos  matemáticos , é compreendida facilmente por qualquer estudante do curso elementar. A  outra , que eu não conhecia,  é a que se anuncia abaixo:

1 = 0,9999999999999999999999…

No caso da equação citada, ao ser colocada a unidade, no patamar do infinito nos lados opostos de uma equação, evocando o começo e o fim, o todo e o nada, essa expressão sugere uma religiosidade numérica que alcança um tom inalcançável por qualquer  poesia. Esta é a equação favorita do matemático Steven Strogatz que sobre ela diz: “O lado esquerdo representa o início da matemática, o lado direito representa os mistérios  do infinito. Muitas pessoas não acreditam que isso possa ser verdadeiro, mas é.”

A menção ao infinito me fez lembrar o livro Cidade Aritmética (um livro de poemas com temas matemáticos, edição da FUNC de 1996). Neste busquei estabelecer, numa singela tentativa,  a conexão acima expressa e que imagino existir  entre matemática e poesia , letras e números, transcendência  e realidade, que trata,  também, do infinito e de sua ambiguidade,  sutilmente capturada na fórmula acima.

Os versos do poema  dizem: O infinito na matemática/mal consegue disfarçar sua sina de impostor/ Sua mãos, úmidas de estrelas/ ao cravar-se nas fórmulas/ da essência dos signos se apropria/ e reluz a insana farsa/ de caber-se no tempo sendo eterno/ na fração sendo infinito/ pela soberba talvez de sendo tudo/ imaginar que só lhe basta/ vestir-se do avesso pra ser nada.

NOMEANDO ANIMAIS E VICE-VERSA

 

Se você é uma celebridade que já conseguiu fama, dinheiro e sucesso, porém nunca  teve seu nome intitulando uma espécie rara de animal , acredite, alguma coisa está faltando.

Ser homenageado com seu nome doado a uma espécie significa a imortalidade que o sucesso nunca garante, principalmente nestes dias em que num segundo  você tem milhões de seguidores na Internet e, no outro,  caso morra, não encontrará  ninguém para seguir atrás de você no funeral.

Seguem alguns animais que foram ‘presenteados’ com nomes de gente. O que não se garante é que tenham ficado satisfeitos.

1.Neopalpadonaltrumpi, como o nome está dizendo,  é uma espécie de animal batizada com o nome do presidente norte-americano. Trata-se de uma traça, que tem um topete formado por escamas amarelas que lembram o penteado do político. Bem, pelo menos esse foi o motivo aparente, mas há quem especule que tenha mais a ver com a vocação nociva das traças.

2.Beyoncé, a cantora, que já reclamou de mosca no hotel quando esteve no Brasil, acabou cedendo seu nome para alguém da mesma família da perturbadora. A espécie Scaptia Beyonceae tem esse nome em homenagem à cantora  porque os cientistas australianos, que a descobriram, acharam que a parte inferior do seu corpo é mais larga do que a de outras espécies . Além disso, a mosca tem uma cor dourada intensa, como Beyoncé, com a diferença de que o dourado da mosca é mais natural que o da moça.

3.MendesGylmarekis é um tipo raro de sapo boi beiçudo que foi descoberto, por incrível coincidência , nos charcos de Brasília. Gilmar Mendes foi o escolhido para ser homenageado  tanto por possuir o beiço proeminente como pela facilidade nata de expelir ( ou soltar, se preferir )  seja lá o que for, especialmente odores. A semelhança é grande, especialmente no fato de que ao invés de caçar suas presas, Gilmar prefere espera-las sentado.

 

 

 

4.DuplexSertanejex. Oriunda de um tipo de simbiose rara entre animais que permanecem juntos desde o nascimento como irmãos siameses, esta espécie rara de cabras parceiras emite um ruído estridente, insuportável e não identificado. A extraordinária semelhança desse ruído e o fato de serem inseparáveis um do outro como as duplas sertanejas fez com que essa espécie fosse associada aos cantores desse ritmo, por razões óbvias.

6.Bolsobrabonaro. Trata-se de uma espécie aparentemente raivosa descoberta no Mato Grosso que teria nascido do cruzamento ancestral de um lobo selvagem com uma raposa. Os cientistas lhe deram esse nome em homenagem a Bolsonaro porque essa  espécie, à sua semelhança,  rosna e ladra , mas não morde. Chega a fazer muito alvoroço, mas corre de qualquer cachorro vira-lata.

5.HylaStingi é uma espécie de perereca colombiana, cujos cientistas que a descobriram  resolveram homenagear com o nome do  cantor e roqueiro inglês Sting. O cantor foi imortalizado pelos seus esforços em prol da floresta tropical.

Nesse ponto teve mais sorte que o falecido cantor brasileiro Wando,  que ficou famoso por colecionar calcinhas para homenagear as pererecas, mas nunca deu nome a uma. Coisas da vida!

.           Obs. As homenagens internacionais já foram concretizadas. As brasileiras estão a caminho.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

 

A COPA E A VOLTA AO VIRA-LATA

 

Complexo de Vira-Lata. Em 1958 quando o Brasil conquistou a sua primeira Copa do Mundo de futebol o escritor Nelson Rodrigues anunciou como definitivamente sepultado o que chamou Complexo de Vira-Lata, a seu ver um tipo de psique predominante nas mentes brasileiras, decorrente de auto depreciação. No seu entendimento, a vitória  da Copa do Mundo mostrava pela primeira vez ao mundo o que os brasileiros eram capazes de fazer.

De fato, embora muita gente ainda insista em relevar o futebol  a um degrau secundário  toda a ressonância mundial em torno do mito/evento futebolístico com participação globalizada, hoje, 50 anos após , mostra que o cronista estava certo. As vitórias nos campos de futebol fazendo do Brasil o primeiro Tri trouxeram visibilidade e autoestima favoráveis à Nação: agora tínhamos o primeiro Rei mundial, o incontestável Pelé.

O complexo de vira-lata parecia definitivamente enterrado.

O tempo passou o Brasil virou o decantado País do Futebol . Mesmo sem a exuberância do passado, o Brasil conquistou mais duas Copas.

Até que uma tragédia futebolística aconteceu 4 anos atrás,  a partir da falta de planejamento e do endeusamento midiático de profissionais incapazes (Felipão, um técnico arrogante e tosco),  refletindo o que acontecia na administração pública: o 7 a 1, vergonhoso e acachapante, inibiu  a trajetória crescente de esperança  no rumo de uma nação do primeiro mundo  em paralelo a outras  forças negativas que se juntaram para espezinhar o orgulho popular,  quando muitos líderes  brasileiros foram presos ou suspeitos de transações corruptas.

O que se esperava era que, após isso, a derrota servisse de farol para uma mudança de rumo. Apontei, antes desta Copa, como nocivo o endeusamento prematuro do técnico da seleção Tite.  Cheguei a ser contestado por leitores e amigos  e bem  que gostaria que não tivesse tido razão.

Como todos sabem a seleção fracassou com um desempenho pífio. Mais lamentável, porém,  é que, logo após a derrota iniciou-se o processo de blindagem do técnico da seleção, na base “Uma vez feito santo, tem de continuar santo” num processo de aceitação da derrota que não enxerga os erros técnicos e táticos que foram cometidos, aos quais se adiciona  alguns detalhes inusitados e extravagantes. Basta elencar o  que a Tite foi concedido : desde o salário mais alto entre todos os técnicos  de seleções a até poder se acompanhar de seu grupo de auxiliares do Corinthians, inclusive o filho (25 pessoas). Convocou quem quis e bem quis, transformando a seleção numa espécie de sucursal do Corinthians. Por último, segundo o jornalista Mauro César, da ESPN, teve um privilégio jamais  concedido a outro: o de escolher seu próprio chefe: o Sr. Edu Gaspar, também corintiano, entronizado como diretor de futebol.

Ora, tudo isso poderia ser aceitável tivesse havido uma contrapartida à altura. Ganhar de times fracos às  custas do talento individual de jogadores não configura meritocracia alguma. No único confronto mais difícil levou um baile tático do treinador da Bélgica

O técnico Tite já demonstrou  ser um profissional  capaz e inteligente o suficiente para aprender com os erros e continuar. O deplorável é essa tentativa (sua, inclusive) de lustrar a participação da seleção brasileira como coisa digna, na base do “Se não perdeu de 7 a 1, está bom”,  o que configura uma aceitação de perdedor, de leniência com o fracasso, de tapar o sol com a peneira,  que tem o seu equivalente político no ‘rouba mas faz’.  Enfim, esse arsenal de pensamentos complacentes que um dia fez parte do imaginário coletivo da Nação.

É o velho complexo de vira-lata que está de volta, rondando o país e nossas mentes.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

 

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