O FIDEL FIDELÍSSIMO

artigo publicado no jornal O estado do maranhão

Jose Ewerton Neto, autor  de O entrevistador de lendas

Durante muito tempo se pensou que Oscar Niemeyer fosse o último comunista vivo. Mas, estamos falando de comunista de verdade, daqueles que se dedicam à revolução marxista de corpo e alma e não de copo e alma, como Chico Buarque e outros. Será que ainda existe?

 

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Ei-lo. Lá vai ele, o último comunista. Vai ou vem? Ninguém sabe exatamente. Dizer que é comunista é pouco, mas ao mesmo tempo  é tudo, porque é a única coisa que dele se sabe.

Até porque outras coisas não lhe  interessam, inclusive o nome, que ninguém sabe qual é. É comunista e pronto. Sabe-se que tem barba, usa óculos, anda com um livro grosso, de capa preta,  debaixo do braço, veste roupas longas com calor abrasador e de vez em quando senta na praça sozinho, concentrado em algo indefinido.  Usa antigas sandálias tipo franciscano e uma camisa surrada com a imagem de Che Guevara.  Uma vez observaram-no na locadora pegando um DVD. Diários da motocicleta, sobre Che Guevara.

Se sua geração, cinquenta anos atrás, já não  o entendia direito que dirá esta. Mas, um belo dia, a menina de treze anos, sua vizinha de rua, que anda lendo muito ( para desgosto de seus pais que preferiam vê-la dançando forró )  perguntou para sua mãe.

– Mãe, ele não tem nome?

– Tem sim, comunista.

– Mas, comunista é nome?

A mãe não soube ou não quis  explicar. Irritada por ter de explicar coisas que não estavam ao seu alcance a mãe encerrou  o assunto, mas a menina não se conformou. Queria porque queria saber o que significa ser comunista. A oportunidade surgiu quando conheceu um jornaleiro amigo do homem. “Também não sei o que significa” disse ele. “Só sei que fala coisas estranhas como: revolução, ideal marxista, ditadura do proletariado, abaixo o imperialismo, paredón! . Sei que vive enfiado nos livros e enrolado numa bandeira vermelha com uma foice. Sei que não acredita em Deus mas ontem o vi rezando pela alma de Fidel Castro. Para que não esbarre com a de Chávez no inferno –explicou.”

A menina seguiu o conselho da mãe e resolveu desistir dessa história  mas não conseguiu: só se falava nisso depois da morte de Fidel. Chamou-lhe atenção especial uma frase do compañero do ditador cubano, Che, o que a deixou mais confusa ainda: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura, jamais!.” “Ternura?”, pensou ela. “E mandar enfiar balas de fuzil nos corpos de um monte de gente encostada numa parede, lá  isso é ternura?”

Quando o viu passar hoje nas ruas, parecendo mais comunista em sua solidão, a menina chegou a sentir pena. Como parece triste!”

Mal sabendo ela que o último comunista não está nada de triste mas obcecado por uma felicidade. Não tira da cabeça a ideia de iniciar uma nova e verdadeira revolução, esta sim vitoriosa para sempre.  Sozinho. Já preparou até um litro de Cuba Libre para iniciarem a caminhada. Por enquanto é seu único acólito.

 

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AO MESTRE COM CARINHO

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artigo publicado no jornal o Estado do Maranhão

 

O amor de um professor pela sua escola: alunos, profissão, ambiente,  e vice-versa. Tudo isso está no romance Adeus Mr. Chips de James Hilton, traduzido por Érico Veríssimo,  que virou filme de sucesso no século passado. (Coisa um tanta rara, aliás,  de acontecer em plenitude, hoje em dia, quando, vez por outra,  alunos costumam se digladiar com professores em situações de confronto).

Devia a leitura desse livro a mim mesmo, faz bastante tempo. Quando na AML, em homenagem prestada a Erasmo Dias por ocasião do centenário do seu nascimento em 2 de junho , me coube essa tarefa ,  lembrei   do episódio inicial de nossa amizade, quando, então  na adolescência, levei para sua opinião, um poema intitulado A Chamada. Ele, diante do jovem tímido,  enquanto eu lhe fazia a leitura do curto poema, exclamava: “Good bye Mr. Chips!” E repetia,  com entonação cada vez mais emotiva, o título do romance que virou filme.

Bem, o poema, por ser curto, pode ser aqui reproduzido facilmente:

 

“Nº 1: Presente!…  

Nº 2: Presente!…,

Nº 3: Presente!…,

Nº 4: Presente! ……

Nº 50: Presente!….

…………………………………………………………….  

Ao mestre com carinho 50 presentes cheios de ausência!’” 

Finda a leitura, percebi que ele se emocionara positivamente com o poema. Mas, e o Good Bye Mr.Chips? Por que a alusão?  Eu sabia que esse era o título de um filme e que o final do poema, por sua vez, evocara o título de outro filme de sucesso Ao mestre com carinho (o qual assistira), com Sydney Poitier. Foi fácil apreender que o filme provavelmente aludia a essa terna relação do mestre com seus alunos  porém, ao mesmo tempo, a essa notável complexidade,  quando se chocam a necessidade do aprendizado e o distanciamento libertário da juventude – que o poema sugere, talvez, inconscientemente.

Após o término da palestra, conversando sobre esse episódio com um amigo confrade e escritor, lamentamos que, passado tanto tempo, eu ainda desconhecesse o texto original do romance que originara o filme e provocara a exclamação de Erasmo Dias. Notei que algo se fazia premente para dirimir essa incompletude, o que, nestes dias de internet é tão fácil: Estante Virtual, preços módicos, breve diligência, e em uma semana o livro ( uma edição antiga e com páginas amarelecidas e frágeis) estava em minhas mãos.

Então entendi melhor. Pouquíssimas vezes poderia  ser condensada na trajetória de um professor prestes a se aposentar a desenvoltura desses sentimentos típicos dessa relação mestre/aluno; maturidade/juventude; experiência/esperança. Na edição que li, de 1962, a chamada de capa já enunciava: “A história irresistível do professor mais querido de todos os tempos que já encantou milhões de leitores em todo mundo”.

De fato, Mr Chips é irresistível, e o resumo dessa empatia talvez ecoe na fala do narrador a respeito de Chips, quando este, a essas alturas já aposentado, foi convidado a regressar ao batente: “Ao  voltar para a escola pela primeira vez na vida Chips se sentiu necessário,  e muito necessário a algo que estava muito perto do seu coração. Não há no mundo sensação mais sublime e isso ele a tinha”.

Enfim, Adeus Mr.Chips é uma leitura breve e prazerosa que recomendo a todos, especialmente os professores, enquanto agradeço ao saudoso Erasmo Dias e sua memória,  anos depois, mais um de seus ensinamentos literários que agora se junta aos que tanto me gratificaram.

Jose Ewerton Neto é autor de

O entrevistador de lendas

 

 

QUE O QUERIDO DEUS CUIDE

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Jose Ewerton Neto, autor de O entrevistador de lendas

 

Foi de Pelé, maior atleta do século passado, de quem Romário disse que “calado era um poeta”, no entanto,  uma das mais expressivas homenagens prestadas ao lateral  da seleção campeã mundial de 1970, Carlos Alberto Torres, morto três semanas atrás. Nas palavras de Pelé: “Que o querido Deus cuide do nosso capitão.”

Pois foi essa imagem de capitão e líder de time,  levantando a taça Jules Rimet,  a que permaneceu na memória de todos, naquela que foi a melhor apresentação de uma seleção de futebol em todas as Copas. O seu ultimo gol, o quarto contra a Itália, num passe de Pelé, mil vezes repetido, conjuga com essa imagem como se já  fosse,   em sua concepção e realização,  um  voo harmônico rumo a um levantamento de cetro.

A memória leva a 1966, um dos maiores fracassos do Brasil nas Copas. Depois do bicampeonato e tendo Garrincha e Pelé, dois gênios do futebol, o Brasil partiu para Londres na condição de grande favorito. O oba-oba era tamanho que Carlos Alberto, então um jovem promissor de uma nova geração,  foi cortado da seleção para a entrada de Fidélis, apenas para que Rio de Janeiro e São Paulo tivessem o mesmo número de jogadores na seleção potencialmente campeã. O fracasso monumental veio na esteira de duas derrotas na fase classificatória para a Hungria e Portugal, em cuja seleção despontava um  outro jogador excepcional , o africano Euzébio, logo apontado como sucessor de Pelé – o reinado do futebol brasileiro sendo colocado em cheque.

Pois coube justamente ao   Santos de Pelé e, agora, também de Carlos Alberto , recém-  contratado ao Fluminense,  restaurar a honra do futebol brasileiro. Realizou-se,  em Nova Iorque,  um grande torneio, o World Champion Cup, espécie de tira-teima,  com a presença do   Santos, Milan e Benfica( time de Euzébio) os melhores times do mundo.

 

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Os norte americanos,  que começavam a se deslumbrar com o futebol,  pagaram pra ver e encheram os estádios para comprovar  a derrocada do futebol bi campeão do mundo.

E foi então que a imagem do mito se formou quando, sonho de vingança realizado,  o deslumbramento surgiu. Com atuação excepcional Carlos Alberto Torres anulou completamente o  ponta esquerda Simões considerado o melhor da Europa, especializando-se naquilo que é tão raro e é só possível a laterais de sua estirpe. Não só marcava bem, como atacava melhor, o que é muito raro.  Pelé, de novo exuberante,  e cia.  fizeram o resto. O  Santos esmagou o Benfica por 4 a 0 e goleou  o Milan por  4 a 1, iniciando  a recuperação do futebol brasileiro rumo ao tri em 70.

Portanto, 4 anos antes do tri , Pelé  etc. e os meninos Carlos Alberto Torres e Edu começaram a ganhar a Grande Copa.

“Que o querido Deus cuide do nosso capitão”  como disse Pelé.

 

 

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O DINHEIRO ‘VIVO’ DE LULA, E O NOSSO.

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artigo publicado no jornal o Estado do Maranhão

autor de O entrevistador de lendas

 

Primeiro a eleição de Donald Trump, depois a SUPERLUA. Alguma coisa a ver? Aparentemente não, mas a ‘realidade’ tem razões que a própria razão desconhece. Isso segundo afirma JUCA POLINCÓ, ex-jornalista, ex-comunista, ex-jogador de futebol, enfim, ex-tudo, antes de se tornar, segundo ele próprio afirma, um filósofo. Tanto assim que se autointitula Juca Polincó, (o filósofo politicamente incorreto da periferia).

 

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São dele   os  comentários que aqui reproduzo.(Não necessariamente em nome da concordância com suas ideias, diga-se de passagem ) .

1.A eleição de Donald Trump, com a entronização de Melânia Trump como primeira dama dos USA confirma uma tendência: ex-modelos como primeiras-damas.  Aliás, mulheres que já tenham posado nuas, neste século, já despontam como favoritas para ocuparem cargos públicos. Recentemente, na Ucrânia, Anastassia Deeva, de apenas 26 anos de idade e habituê de ensaios  sensuais, foi nomeada vice-ministra do Interior sob muita polêmica.

Apenas como primeiras damas, primeiro foi Marcela Temer, agora Melânia Trump. Antes disso já houve a Carla Bruni, esposa de Nicolas Sarcozy, na França. Descortina-se, portanto,  um novo futuro para as modelos: ao invés de Ex-BBBs, Primeiras-Damas.

Comentário de Juca:

“Ao invés de isso ser interpretado como uma coincidência, é tempo de que todos se conscientizem de que estamos diante de uma nova regra que  poderia se chamar Postulado Zero da Pretensão Presidencial que se enuncia: “ Se você pretende ser presidente de um país grande e forte, primeiro case com uma modelo com 30 anos menos – de preferência que já tenha feito nus. Depois disso a presidência lhe cairá como uma  luva. ”

 

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2.A Revista Isto É desta semana denuncia que  Lula recebeu propina em dinheiro vivo.

Comentário de Juca:

“Felizes os que podem escolher se recebem dinheiro vivo ou dinheiro morto.  Nós, pobres, só recebemos  dinheiro espírita, ou seja , aquele que só aparece quando se sonha.

3.Só não dá pra entender é tanta surpresa quanto à Lula e o dinheiro que recebeu ainda vivo (o dinheiro, claro). Como todo mundo sabe Lula sempre foi mais vivo do que o dinheiro que recebe!”  A eleição de Donald Trump para presidente do maior país do mundo, com zero de experiência administrativa, e com o único mérito de ter comandado um Big-Brother  revela a chegada de um novo tempo.

Comentário de Juca:

“Finalmente!  Deixamos de ser espectadores para sermos (todos os humanos vivos ) participantes de um imenso Big-Brother. Era inevitável, embora tenha acontecido mais cedo do que se esperava.  E nosso comandante será o animador Donald Trump.

Bem, para os brasileiros resta o consolo de que podia ser pior. Por mais canalha que seja, Trump não é um farsante como Pedro Bial ou um bobalhão como Roberto Justus.

 

ENTREVISTANDO LENDAS MARANHENSES

capadoentrevistadorhttps://youtu.be/zOVJJTMUHWI

http://blogdowilsonmarques.blogspot.com.br/

HOJE, domingo, às 20 h na Casa do Escritor Maranhense

Livro une ficção científica e personagens do folclore maranhense

O escritor José Ewerton Neto, membro da Academia Maranhense de Letras, lança hoje, na Felis, no stand da livraria Vozes, a partir das 19h, o livro “O Entrevistador de lendas – uma aventura de ficção científica sobre lendas maranhenses”. Trata-se, segundo o autor, de uma aventura de ficção científica sobre lendas do Maranhão com o objetivo de trazer aos leitores, especialmente aos estudantes, todo o fascínio das principais lendas da região num formato mais lúdico que didático. Na trama, personagens do futuro viajam pelo tempo em busca de lendas em um momento em que se esgotam as possibilidades de entretenimento humano. Desse modo, iniciam interações que são divulgados para todo o universo. O ritmo é alucinante. O final é insólito e, além das emoções propiciadas pelo texto, o leitor tem de quebra informações sobre o folclore maranhense.

Para o professor e escritor José Neres, neste novo livro de Ewerton “o exotismo das lendas maranhenses entra em cena como aperitivos rápidos, suculentos e bem explorados em uma questionadora obra que agora vem público”.

“O Entrevistador de lendas” faz parte do Plano de Publicação da Academia Maranhense de Letras, realizado através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO TEMPO

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artigo publicado no jornal o Estado do Maranhão

Jose Ewerton Neto, autor de O oficio de matar suicidas

 

Tem tempo pra tudo neste mundo, menos para falar do tempo, já parou pra pensar sobre isso, leitor? Claro que não, porque o tempo… Bem, o tempo…

Durante muito tempo o homem pensou que conhecia o tempo. Sim, porque em qualquer lugar do mundo lá estava ele, o tempo, o mesmo de sempre, com pequenas variações de humor ( às vezes rindo, às vezes chorando, às vezes queimando, às vezes jorrando tempestades). O mesmo estoicismo de sempre, lavando a mão para as presepadas humanas, nem aí para as nossas reclamações e dramas.

Um belo dia, porém, no século passado, Albert Einstein, um humano um pouquinho mais inteligente  que os demais surgiu com a ideia de que o tempo não existe como entendemos, é apenas uma ilusão:  o tempo e o espaço são relativos e, no fundo, a mesma coisa. A partir daí tudo embaraçou na cabeça dos homens a ponto de a conversa mais ouvida na atualidade ser  justamente “não dá tempo” que traduzida em bom linguajar significa “deixa o tempo pra lá, não dá muito papo pra esse cara, tratemos é de viver.”

Um pouco antes de se chegar a esse ponto (de coexistência não pacífica) ao entender que o tempo o perturbava, o homem teve a ideia de que poderia controla-lo. Nessa ocasião, inventou uma caixa a que denominou relógio e enfiou o tempo lá dentro. Ali, contido e demarcado por uma escala pensou que o tempo estava submetido como um escravo, pronto para servi-lo. ”Brilhante”,  pensou o cara que inventou o relógio. “Gênio!” asseverou a plateia “Agora o desgraçado está preso numa gaiola!”.

 

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Mas, qual o quê, o feitiço logo virou contra o feiticeiro e, de repente,  o ser humano é que ficou algemado, ao invés de controlar o tempo, ele é que passou a ser controlado pela máquina.

Hoje, depois da virada do século, aí é que nos controla cada vez mais. ‘O tempo urge’, dizemos quando acordamos, mas bem melhor diríamos que o tempo ‘ruge’, isso sim, pois é a mercê de sua vingança  que seguimos todos, autômatos definitivos, apressando-nos rumo a lugar nenhum.  Essa pressa, a que uns chamam de velocidade, outros de aceleração, faz vibrar algo que bate dentro de nós num ritmo descompassado apenas para cumprir as ordens da caixinha. “Pressão alta”,  diz um parente “Pressão alta”, grita a enfermeira “Mais pressa, grita o médico!” e lá vamos nós, céleres em cima de uma maca, sempre cumprindo as ordens do relógio, rumo a UTI e…  daí,  à morte.

Tornando cada vez mais pertinente uma pergunta crucial: “Afinal de contas, que raios de relação  tem o tempo com Deus? São amigos ou inimigos, quem veio antes ou depois?” Porque se o tempo se disfarça de vida para controlar os humanos, Deus parece permitir isso,  tanto é assim que o usa costumeiramente para concluir seus desígnios nem sempre previsíveis ou inteligíveis. “Cúmplice de Deus, ou um autor poderoso à sua revelia?” Ninguém jamais saberá, o que se constata é que quanto mais vivemos, graças à tecnologia, menos tempo dispomos,  deixando-nos pouca opção a não ser nos agarrarmos à fala religiosa  que diz que a ressurreição, ela sim, acaba sendo a suprema vitória, a paz completa, a liberdade, enfim.

Nessa ocasião o tempo, que já era espaço se subjugará em infinito, depois em luz e nos misturaremos com a essência da vida, libertos, afinal, do tempo e seus humores.

E nosso único relógio serão as estrelas.

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POBRE. MAIS PARA DOA DOR, QUE DOADOR.

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artigo publicado no jornal o Estado do Maranhão

autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

Reportagem recente do Fantástico enfatiza o drama da doação de órgãos: doentes à espera de um doador que não vem. Sem eufemismos, de um morto que não  chega. Nessa ocasião, cessam os orgulhos e as vaidades e todos se igualam. Ricos ou milionários que antes evitavam os pobres agora não se incomodam em misturar seus órgãos com os dos miseráveis, desde que lhes permitam um pouco da saúde que o dinheiro não lhes conseguiu comprar.

“Não há grande homem para seu criado de quarto!”, dizia Napoleão Bonaparte, e a morte corrige essa injustiça: equaliza a todos. Diante do drama surge naturalmente a pergunta: “Por que motivo o débito de doadores aqui no  Brasil é tão grande , justamente um país onde seu povo é tido como cordial e solidário?”

Sem  a pretensão de intuir a causa , ouso sugerir que uma das razões está justamente nas atitudes de ricos, especialmente aqueles que quando egressos da política  ficaram ricos e poderosos sem causa parente. Ao escancararem a ambição que os movem, a ponto de se apossarem do bem coletivo, introduzem a desconfiança no cérebro das eternas vítimas  “Será que meu parente morreu mesmo, ou estarão matando-o para beneficiar os de sempre ?”

Foi por isso que um amigo meu, Juca Polincó  veio com esta: “Pobre não deveria doar nada a rico”. E enfileira uma série de razões para justificar a sua teoria da incompatibilidade de órgãos de pobre em corpo de rico:

 

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Juca Polincó

PÉ. O pé do pobre é pé-de-chinelo, quase sempre um depósito de fungos e bicheiras. Não serve para andar em shoppings  luxuosos, nem participar de celebrações em hotéis de luxo, cruzeiros em transatlânticos, e férias em Dubai. Enfim, um pé desacostumado ao chão onde rico pisa , tropeça em qualquer tapete.  “Pé de pobre pra rico não dá pé!”

SANGUE. O sangue do pobre é sangue de barata, ou seja, sangue que não corre cem por cento nas veias, tanto assim que  aguenta, sem reclamar, tanta injustiça.  Como não há escala diferenciada para medir pulsação de sangue de pobre e de rico, é de se esperar que depois do transplante realizado os aparelhos  alarmem anunciando que a pressão do milionário está baixa, o que será um deus nos acuda.

CORAÇÃO. O coração do pobre é honesto, humilde por obrigação, espontâneo. Uma prova disso é que passa ano sai ano  continua votando nos mesmo políticos que o enganam e roubam. É um coração que não funciona a contento em corpo de rico, que, como todos sabem, precisa  ter o peito fechado para doações e apelos de qualquer natureza. (Recente pesquisa comprovou que os pobres doam mais,  do pouco que têm,  que os ricos,  do muito que possuem).

PELE. A pele de pobre é casca dura de tanto pegar sol, mas nas partes subcutâneas é pele de cordeiro, de animal manso e obediente. Pele de rico é, ao contrário, macia por fora, mas  dura, por dentro: impenetrável e  seca. Imune  a apertos de mãos, abraços, solidariedade etc.

OLHO. O olho de pobre é olho que só aumenta de tamanho depois que morre ou leva susto. Jamais poderia  viver na órbita de um rico que precisa sempre ter olho grande para aumentar cada vez mais o seu quinhão de posses indevidas.

 

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Não vê o olho do Nestor Cerveró? Depois que enriqueceu nem coube mais na órbita original e invadiu o meio do rosto.

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O PRÊMIO QUERIA UM PRÊMIO

Jose Ewerton Neto, autor de O oficio de matar suicidas.

(artigo publicado no jornal o Estado do Maranhão,quinta feira)

  A recente premiação do Nobel de literatura para Bob Dylan, poeta e músico (porém, mais músico que poeta)  indignou muita gente no meio intelectual e provocou um daqueles debates sem solução a que já estamos acostumados, em outros temas. Neste  caso: até que ponto um prêmio de literatura deve ser exclusivo de quem pratica a literatura através da escrita de livros?

 

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Alguns elementos para o debate:

1.Bob Dylan tem tal envergadura como ícone da cultura universal  do final do século passado que não vale a pena esmiuçar sua biografia à cata de referências que o credenciem como artista. É desses talentos que, surgindo raramente, conseguem aglutinar multidões em torno de seu brilho, e conseguem cintilar, mesmo num céu já polvilhado de estrelas.

  1. Seu talento musical, no entanto, é de tal  forma exuberante que limita a compreensão do seu alcance literário e esse parece ser o xis da questão. Como dissociar uma coisa da outra? Se a concessão de um prêmio é, por natureza,  competitiva, deveria ser elementar que todos pudessem disputa-lo em igualdade de condições. Ora, soa como covardia para com os demais poetas do mundo ( que escrevam apenas livros) que um deles possa concorrer  a um prêmio literário à reboque das músicas que canta, e das fascinações que suscitou a partir disso.
  2. Parece oculto a tanta gente que discordou da escolha, o fato de que a literatura sai ganhando com a eleição de Dylan de uma forma sutil, porém mais explícita do que aparenta à primeira vista.  Sim, a velha Literatura sai dos debates irradiando mais uma vez a sua notável abrangência  e sua face universal ( principalmente para os que disso ousam duvidar) de maior de todas as artes.  Só mesmo a Mãe  Literatura, poderia encampar , sob debates, ou não , um divo de outra arte, colocando- o  premiado sim, mas como um refugiado,  sob seu manto.

4.A atribuição do Prêmio de Literatura para Dylan (sendo ele estranho no ninho ) nada tem de  inovadora, inusitada, sequer original. Aqui mesmo, no Brasil, escritores e críticos literários que se escandalizaram  com a escolha do músico, aceitam naturalmente que Chico Buarque de Holanda, por exemplo, seja concorrente a prêmios literários e os vença , sem mérito literário, certamente porque pesa na concessão do prêmio, a densidade de seus títulos  oriundos da música . No caso de Dylan há uma diferença. O norte- americano jamais se propagou  escritor ou poeta, como fez Chico Buarque . Não foi ele quem procurou o Nobel, mas, o vice-versa que aconteceu.

Dito isso, os argumentos contra e a favor de Dylan/Nobel,  se exaustivamente discutidos, apenas escondem  o aspecto mais danoso dessa problemática. Até que ponto hoje se fazem prêmios para…premiar o prêmio? Seja na Suécia, no Brasil ou em Portugal? Quantos dos prêmios imerecidamente ganhos por Chico Buarque, Gabriel Pensador e outros aconteceram apenas por que, hoje em dia, não se fazem mais prêmios para premiar o escritor, mas escolhe-se alguém famoso para engradecer o prêmio?

Neste sentido, o maior dos prêmios, conhecidos, o Nobel apenas se tornou mais uma vítima dessa doença típica da modernidade: a de querer aparecer – como diria o caboclo. E escolheu para isso (maquiavelicamente, diga-se de passagem) alguém acima de qualquer suspeita: o grande Bob Dylan.

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LUDMILA E O NOBEL DE…físico

 

Essas e outras notícias comentadas por Juca Polincó, o filósofo politicamente incorreto da Periferia.

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1.Os cientistas David, Duncan e Michael ganharam o prêmio Nobel 2016 de Física há poucos dias investigando o estado exótico da matéria.

Comentário de Juca:

“Imagine o impacto para seus estudos quando virem a foto do rosto de Ludmila após a cirurgia que fez. Agora vão ter que evoluir para estudar a transição da matéria para estados super-exóticos!”

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2.Cláudia Leite disse em programa de tevê que rasgou calça dançando KUDURO

comentário de Juca:

” Bem melhor do que rasgar o KU dançando PDURO , certo, Cláudia? Ou não?”

3. Adolescentes foram transformados em robôzinhos, diz a Polícia que de 130 incendiários , 32 eram adolescentes.

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4. Mulher Melão provou que tem palavra. Na noite da última quinta-feira (13), Renata Frisson, resolveu cumprir a promessa feita aos torcedores rubro negros e postou uma foto como veio ao mundo, em seu perfil no Snapchat. A regra era tirar uma peça pra cada gol.

Comentário de Juca:

“Mulher de palavra ( e de bunda solta ) é essa daí . O problema é que se ela for esperar cada gol  de Leandro Damião e Guerreiro pra  tirar uma peça , vai morrer de bunda frustrada por não poder exibi-la. Será que, como dizem os rivais palmeirenses, vai precisar pedir ajuda da Rede Globo pro Flamengo fazer gol e ela poder mostrar a bunda?”

 

AQUI SE FALA É ASSIM

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artigo publicado quinta-feira no jornal O estadodo Maranhão

Jose Ewerton Neto, autor de O ABC bem humorado de São Luís

 

Aqui se fala assim. Ou se falava? Dia virá ( e não falta muito) em que do Oiapoque ao Chuí só haverá uma fala, sem a riqueza idiomática peculiar a cada região do país.  E essa fala será em uníssono, repetição das asneiras que se repetem na Tevê: no maneirismo dos apresentadores, nos tiques das celebridades das novelas, uma coisa só.

Bem, o que ainda se fala por aqui estará na reedição de O ABC bem humorado de São Luís, ainda  uma vez explorando sua provável origem risível.

BICA. Torneira.

O maranhense chama torneira de bica porque num estado com tanta abundância de água de chuva, o fato de as torneiras viverem secas só tem uma explicação. Para muita gente, o negócio de água virou bico.

PEGADOR. Brincadeira de esconde-esconde. Originalmente, de crianças.

A brincadeira adquiriu esse nome por aqui porque o garoto, futuro ‘pegador’, começa sua futura vocação de Don Juan se escondendo com as meninas, sabe-se lá onde.

JUÇARA. Açaí

O maranhense chama açaí de juçara porque lembra uma crioula com esse nome, suculenta, gostosa e que vai lhe dar muita força e algo mais.

ATRACA. Diadema ou tiara.

O que lá fora é chamado de diadema ou tiara ganhou por aqui o nome de atraca, porque, antigamente,  os marinheiros quando aportavam no Desterro  doavam tiaras para as meninas da Rua 28, (zona do baixo meretrício) com o objetivo, pré-anunciado, de atracá-las.

RI-RI. Fecho éclair, zíper.

O maranhense chama zíper de ri-ri porque, via de  regra, quando ele abre o de sua parceira e ri de felicidade. Depois é a vez de ela rir, quando abre, por sua vez,  o dele.

BANHAR. Tomar banho.

O maranhense diz banhar ao invés de tomar banho porque, ao contrário dos que aqui chegaram tentando impor a fala “tomar banho”, não está tomando o banho de ninguém, aqui chove o suficiente, não há razão para isso.

BALDIAR. Vomitar

O maranhense diz baldiar ao invés de vomitar porque no carnaval de antigamente ( quando o daqui era o terceiro do Brasil) ao chegar na quarta-feira de cinzas estava tão bêbado que na hora de vomitar confundia o penico com um balde.

PEGAR CORDA. Ficar zangado.

O maranhense , quando está zangado diz até hoje que está pegando corda porque na época da escravidão quando o feitor se zangava , bastava ameaçar os escravos: “Já tô pegando a corda!”

DIZENDO. Algo está ‘Dizendo’, quando dá uma impressão muito positiva.

O maranhense julga que uma coisa espetacular está dizendo por que certas bocas gostosas  (mudas e não oficiais, de sua parceira ) no seu entender, só faltam falar, e dizem mais que se pudessem.

CINTURÃO. Cinto grande.

O maranhense chama cinto de cinturão porque quando as crianças apanhavam de cinto,  a dor era tanta que viam tudo no aumentativo. Não parecia cinto, mas um cinturão.

HEIN-HEIN. Concordância, negação. Fala-se com a voz anasalada.

Essa expressão típica maranhense tanto pode significar sim como não. Até hoje, as grandes decisões administrativas maranhenses são tomadas desse jeito. Daí…  nosso  caos organizacional .  Antigamente, durante o casamento,  tanto o noivo como a futura esposa diziam Hein Hein, ao invés de sim ou não, quando o padre perguntava. Acontece que ao sair logo depois, atrás da virgindade da esposa,  o marido, atônito perguntava “Hein? Onde?” Ela respondia Hein, Hein, confirmando que havia acabado de surgir um corno novo na praça .

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