O que ficou de um Oscar

A cerimônia do Oscar tornou-se um evento global que, embora cafona e previsível, continua a arrebatar plateias no mundo inteiro. A tendência é que continue assim por muito tempo.

Mesmo não tendo assistido aos filmes em disputa, somos capazes de estabelecer nossas preferências  a partir do roteiro resumido, dos atores em ação ou pela memória do que já vimos, através da qual estabelecemos nossa conexão com o filme. Basta então sentar diante da TV para, conscientemente ou não,   estabelecermos torcidas e aspirações.

Destaco do que vi:.

1.Torcia para que Glenn Close fosse premiada com o Oscar de melhor atriz. Sou seu fã desde sua marcante atuação em Atração Fatal quando, de tão intensa, fez com que praticamente nos esquecêssemos de sua rival nesse filme.  A sua interpretação de uma mulher obsessiva, plena de ambiguidades, mas carente, gera inusitado desconforto para com seu destino anunciado de punição, apesar das crueldades perpetradas pelo seu personagem.

Sabedor que, aos 75 anos,  concorria pela quinta vez ao prêmio, torci mais ainda. A vencedora, no entanto, foi Olívia Colman, uma atriz inglesa, pouco badalada, que foi escolhida pelo seu desempenho no filme A Favorita. Sua descontraída emoção ao ser anunciada como vencedora e o discurso espontâneo de reverência à própria Glenn Close, desfez algum mal estar dos fãs de Close, conquistou a todos e foi um dos melhores momentos da premiação. 

2.Lady Gaga, por sua vez,  foi a rainha da noite, nem um pouco estranha no ‘ninho’ do cinema apesar de seu sucesso já estabelecido em arte distinta. Seria essa uma tendência atual, a de os talentos da área musical popular escaparem dos limites de abrangência de sua atividade para se  sobreporem em outros espaços de manifestação artística? Ora, Bob Dylan, não faz tempo,  ganhou um Nobel em Literatura. Agora, Lady Gaga ganhou um Oscar de melhor canção, mas quase abocanhou o de atriz, para o qual também foi apontada.

3. Ainda sob o peso da sugestão acima, surge uma pergunta natural quando nos referimos ao prêmio concedido de melhor ator a  Rami Malek pelo filme Bohemian Rhapsody. Teria ele ganho o prêmio fosse sua crucial interpretação, não a de Fred Mercury, ídolo popular, mas de outro biografado menos conhecido e menos apoteótico? Difícil responder, principalmente para mim que não assisti a nenhum dos selecionados.

Uma coisa é certa. Como fã de rock e da banda Queen aspirava a que esse filme fosse premiado.

Ou seja, o “não vi  mas gostei” também faz parte do Oscar.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

Capetas, exorcismo e presidência

So chamando um padre
para exorcizar

PRE-HISTÓRIA DO EXORCISMO Alguns religiosos-cientistas acreditam que o Universo tenha começado por causa do exorcismo (ou melhor, pela falta dele). Aporrinhado com as chateações do Satanás, e sem ter acesso aos cursos espanta-demônios que somente começaram a existir neste século,  Deus teria resolvido criar o Mundo para se ver livre do capeta em definitivo. Meio como quem diz:  “Toma, pega tudo isso aí, te diverte, mas me deixa em paz!”

As labaredas quilométricas e as temperaturas altíssimas durante o big-bang  típicas de um inferno em expansão seriam a prova mais cabal disso.  Somente bilhões de anos após,  ao acordar,  o Todo Poderoso  se deu conta do que havia feito e mandou seu filho para tentar consertar as coisas. (obs. Como o tempo nada significa para Deus, toda essa demora foi equivalente apenas ao seu sono de uma noite).

Acontece que os  demônios, mal-acostumados, e já tendo se apossado da maioria das almas daqueles seres minúsculos e arrogantes denominados homens, resolveram crucifica-lo. Deus, triste e decepcionado, desistiu pela segunda vez e resolveu tirar uma breve soneca por mais alguns bilhões de anos.

Durante o sonho, porém, teve visões de que os  demônios haviam tomado conta do planetinha onde mataram seu filho. As provas mais contundentes eram as aparições de figuras diabólicas como Gilmar Mendes, Donald Trump,  Nicólas Maduro etc. Magoado com essa visão perturbadora Deus teria dito: Nada mais farei para salvá-los! Que aprendam sozinhos.

1. Esse aprendizado demorou mas chegou. A prática do espanta-demônio (também chamada de exorcismo) existe desde antes do catolicismo,  há mais de dois mil anos, mas foi aperfeiçoada com o tempo. Na Bíblia há várias passagens sobre expulsão de demônios. Até a reforma protestante no século XVI para exercê-lo bastava ser religioso, a partir daí, um exorcista aprendia com o outro como lidar com Satanás até que no século XVII a Igreja instituiu o exorcismo e estabeleceu regras para o rito oficial.

2. Em tons pós-modernos  o exorcismo ressurgiu a partir de 1999 quando o padre Gabriele Amorth principal exorcista do Vaticano fundou a Associação Internacional dos Exorcistas que desde então organizou o curso que agora está sendo oferecido , mundialmente. As mudanças de método se tornaram um tema de debate palpitante durante o curso, acreditando-se que, em breve, se possa expulsar demônios até pelo whats app – principalmente se este estiver na forma do namorado ou vice-versa.  

Diante disso, várias entidades administrativas em nosso país estão cuidando de credenciar especialistas com o fim de resolver problemas bizarros e insolúveis somente explicáveis pela influência do demo. Uma forte corrente do Governo Bolsonaro, por exemplo, sugere que se peça ajuda do Vaticano para promover a vinda urgente de padres diplomados na matéria.

Como se sabe, o que anda acontecendo de trapalhada por lá não é normal e mais gente do que se imagina estaria possuída. Os filhos de Bolsonaro, por exemplo.  

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José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

Casca de banana e tragédia

“Existe uma casca de banana por perto de toda grande tragédia.” Graham Greene

            A frase acima, do escritor inglês Graham Greene, usei-a algumas vezes nas reuniões preventivas sobre segurança de trabalho, antes das jornadas diárias no ambiente de produção metalúrgica, quando me cabia, como engenheiro, ser o palestrante.

            Era repetida aqui e acolá, porque além de seu fácil entendimento continha, em poucas palavras, o apelo à necessária e permanente vigilância de qualquer funcionário diante de desleixos ocasionais que podem ter consequências acumulativas e avassaladoras.

            Uma casca de banana, disposta de forma ocasional e aparentemente inofensiva: um laudo ignorado; uma decisão que se adia; um equipamento sem manutenção; um jeitinho brasileiro; uma barreira de contenção que não se avalia e… Pronto, eis a tragédia!  

            As tragédias de Brumadinho e do Ninho do Urubu são exemplos recentes de como, especialmente em nosso país, os nossos administradores (seja de uma cidade,  de uma empresa, ou de um time de futebol) fazem questão de jamais enxergarem as cascas de banana por considerarem, que são imunes às suas consequências porque jamais pisam no chão de fábrica, num campo de futebol ou no trajeto  de um fluxo de lama. No popular, é como se pensassem “Se alguém tiver de morrer serão os outros, portanto melhor deixar como está !.” 

            No caso do Ninho do Urubu, foi necessária a morte de 10 rapazes para se enxergar o que acontecia nos arredores do luxo obsceno dos salários e das contratações milionárias de jogadores tidos como ídolos. Enquanto isso se dava,  numa farra de gastos incompatível com a privação em paralelo de Jogadores humildes e ainda sem nome, estes eram jogados em contêineres, em condições precárias.

 À semelhança do descaso criminoso de outras tragédias: Mariana, Brumadinho, Boate Kiss etc cujo número de mortos excede a mil,  esse último episódio mostra  que isso ficou corriqueiro num país onde tudo se vê, mas se faz de conta que não , onde as cascas de banana não são afastadas, mas, são deixadas no mesmo lugar para que sobre elas paire o tempo que fará esquecê-las.

Enquanto o ídolo Zico, egresso das divisões de base, em depoimento pungente exigia a apuração rigorosa dos fatos o presidente em exercício  general Mourão Filho, dando uma de torcedor tardio e deslocado,  preferia atribuir a morte dos rapazes a uma fatalidade. Ou seja, ao responsabilizar o imprevisto da natureza para acobertar crimes de descaso o general cometeu o mesmo crime de leniência que as autoridades cometeram em relação aos culpados de Mariana, cuja punição exemplar teria evitado o segundo massacre.

            A omissão no enquadramento desses dirigentes (de times de futebol a  executivos de empresa e  administradores públicos ) por conduta leviana e indiferente  transforma-se assim na casca de banana mais perigosa, a que se perpetua trazendo outra e mais outra, enfim, uma sucessão de grandes tragédias que, pelo visto, tão cedo não serão estancadas.

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José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis, um livro sobre as coisas típicas da ilha, em segunda edição revista e ampliada

sobre foto dos sobrados de São Luis, de Ivanildo Ewerton

O INVERNO E SEUS HERÓIS

1.O GUARDA-CHUVA

Basta o inverno chegar, ei-lo de novo. Quase do mesmo jeito que há mais de 200 anos, quando o inglês Jonas Hanway introduziu seu uso diário, apresenta poucos sinais de evolução científica, digamos assim. Um acionamento quase automático aqui, uma cobertura de plástico ali, mas basta uma olhadela em sua direção para constatar que continua o mesmo de sempre: sério, sorumbático e deselegante, com uma indisposição histórica.

Esse seu estoicismo talvez seja decorrente da indiferença com que é tratado pelos homens, nos dias comuns e ensolarados. Tanto se associou à chuva (razão de sua existência) que acabou parecendo uma extensão da mesma. Revoltado com o descaso, torce pela chuva, cagando  e andando para os que o apanham para se proteger. Quando isso acontece demora-se a abrir, e mais ainda a fechar-se, além de dar um jeito de se esconder nos locais mais improváveis. Recente estatística  descobriu que 70 % dos guarda-chuvas são esquecidos (ou fogem) do comprador antes de serem usados pela primeira vez .

Em termos evolucionistas, o único modismo em que se insere é o de pertencer à classe dos produtos descartáveis, por obra e graça dos asiáticos. Em qualquer ajuntamento de camelô chinês, lá estão os guarda-chuvas, aos montes, fazendo concorrência a bonés, pomadas japonesas, bugigangas paraguaias e  mulheres rodando celular (elas não usam mais bolsinhas).  Comprados a preço de banana, são fabricados em escala industrial mais volumosa que a de produção de miojo. Têm prazo de garantia, mas este costuma não passar de meia hora – se não estiver trovejando e relampejando.

Tem-se como verdadeiro, na comunidade científica, que o uso  do guarda-chuva em pleno século XXI acontece muito mais por uma imposição psicológica. Ao começarem os raios seguidos de trovões um medo anterior e ancestral se apossa do inconsciente humano e o indivíduo se socorre da arma que tiver em mãos para superar seu pavor. A seguir, faz questão de brandir seu guarda-chuva como se fosse um escudo ou uma arma.  Claro que, ao fim, se encharca todo, mas a ilusão de que enfrentou de igual para igual as adversidades impostas pela natureza acaricia seu subconsciente, e isso lhe basta.

Recentemente, um cientista japonês se saiu com uma teoria originalíssima para justificar o fato de nenhuma civilização extraterrestre, haver estabelecido,  até hoje, contato com os terráqueos. Segundo ele, ao tomarem conhecimento da geringonça que os homens usam para se proteger das tempestades, enviaram para as demais comunidades interplanetárias uma mensagem com os seguintes termos: “Não percamos tempo com eles. Não é merecedora de atenção uma raça que após 4 milhões de anos não conseguiu inventar, para se proteger da água,  um equipamento melhor do que um guarda-chuva.”

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem-humorado de São Luis , segunda edição revista e ampliada nas bancas e livrarias da cidade.

100 metas em 100 dias

O novo presidente, começou 2019 apresentando 100 metas para serem executadas em 100 dias.  A julgar pelo que já se constatou antes, vejamos como os executores  dos projetos estão se virando para poder cumpri-los.

 1.Combate a fraudes no INSS. Revisar cerca de 6,4 milhões de benefícios. A MP 871 já foi publicada.

Ação. O ato de respirar passará a ser considerado um benefício doado pelo Governo. Os executores acreditam que  seja muito mais fácil extrair dinheiro do povo cobrando imposto pelo ar que se respira do que revisar 6,4 milhões de casos de invalidez.

2.Reduzir a máquina administrativa.

Ação. Ao invés de extinguir 21 mil funções comissionadas a “Máquina” será reduzida eliminando máquinas de ar  condicionado, de computação, máquinas de cortar grama, máquinas de calcular e demais máquinas.

3.Lei anticrime. Esse projeto de lei será criado para aumentar a eficácia no combate ao crime organizado.

Ação. Como o combate é ao crime organizado e não ao desorganizado, os crimes de bala perdida passarão a serem considerados crimes organizados e uma nova lei será criada: “Se alguém for morto por bala perdida, a partir de agora a bala terá de ser identificada e presa. “

4.Operação Lava-Jato. Melhoria da capacidade através da recomposição e aumento da estrutura.

Ação. Para isso a Operação Lava-Jato terá seu nome mudado para Operação Lava-Transatlântico.

5.Passaporte. Retirada do brasão atual para fortalecer  a identidade e o amor à pátria.

Ação. O Hino Nacional cuja cantoria em jogo de futebol hoje é a maior demonstração cívica brasileira coletiva, passará a ser cantado em missa de sétimo dia, casamento e até na louvação do pôr-do-sol em Copacabana.

6.Cargos no Governo. Impedir o loteamento político de cargos públicos adotando critérios objetivos de nomeação.

Ação. A partir de agora o loteamento será feito através de leilão,  em sessão restrita a políticos e empresários. Lances só a partir de uma BMW

 (isso será feito para evitar rachadinhas e sucessivos depósitos de 2 mil à la Queiroz / Flávio).

8.Campanha nacional de prevenção ao suicídio. Programar ações de conscientização.

Ação. O porte de armas, já aprovado, será um avanço nesse sentido. Ao invés de recorrer a armas brancas o suicida poderá utilizar armas de qualquer cor, o que, já será um passo do Governo contra a discriminação racial.  

9.Educação Domiciliar. Regulamentar o direito à Educação Domiciliar.

Ação. Programas da tevê serão regulamentados como educação domiciliar. A educação sexual, por exemplo, será reconhecida, através da audiência a programas como o  BBBrasil. Teoria e prática.

10.Bolsa-Atleta. Modernizar o programa para maior estímulo.

Ação. Identificar e aproveitar o potencial de jovens atletas, que se destacam em corridas. Terão direito a bolsa aqueles que já batem recordes no dia a dia das ruas, ou correndo para assaltar alguém ou fugindo dos ladrões.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luís, segunda edição revista e ampliada sobre fatos, lendas, curiosidades etc da cidade e de seu povo.

O homem-celular

Acreditem o homem-celular, ou o celular-homem (porque é mais celular do que homem) chegou mais cedo do que se esperava. E no Brasil.

Um detento, após uma saidinha de 7 dias, ao retornar à cela na Colônia Agrícola Penal de Florianópolis foi flagrado por um scanner corporal com 10 celulares e 52 objetos no estômago. Entre os 52 objetos estranhos havia cabos USB, chips etc. e ainda sobrou para isqueiro e drogas. Diante de tanto objeto bizarro encontrado no estômago do rapaz de 24 anos a atendente  se confessou surpresa por haver encontrado, do lado de fora do estômago, um prosaico umbigo.

Pode-se dizer que algo nesses moldes já era esperado pela comunidade científica, eis que o homem-celular foi anunciado há algum tempo pelos especialistas como um produto inevitável da evolução da    AI (inteligência artificial). O comportamento da sociedade nas filas, nas missas, nos casamentos, nos auditórios e no consultório médico (os médicos, bem mais que os pacientes) já apontava para isso. O que espantou foi o inusitado fato de o primeiro objeto dessa mutação ter se apresentado como uma loja ambulante. Independente da intenção real isso demonstra, segundo os psicanalistas, um anseio da população para se transformar em máquina, inclusive engolindo celulares para acelerar esse processo.

O fato é que, após a cirurgia, o nosso homem (talvez ainda possamos chama-lo assim) foi entrevistado e passa bem, mas ao preencher a ficha surpreendeu a atendente demonstrando aquilo que ela imaginou, a princípio, como sendo alguma perturbação mental.

– Está se sentindo bem?

– Sim

– Alguma necessidade imediata.

– De carga. Estou descarregado.

– Como? Não entendi.

– Por favor, me conecte logo.

– Hum! Há algo errado aqui.  Ainda se lembra do seu nome?

– Nome? O que é isso? Procure o meu código.

– Por favor, senhor, lembre o nome de seu pai então.

– Pergunte para a operadora.

– Idade?

– Veja o prazo de garantia.

– Família?

– Androide.

Diante do estado do homem a atendente convocou a assistente social e, daí, os psicólogos, que optaram por diagnosticar uma possível contaminação cerebral a partir dos celulares depositados por tanto tempo no estômago. Como a ficha precisava ser encerrada a atendente pediu a ajuda da assistente social para encerrá-la.

– Senhor, seja objetivo e tente se concentrar. O senhor tem consciência de que não é mais um ser humano  e está agindo como um celular?

– Não faço ideia, mas  isso não interessa. Estou com fome.

– Claro, iremos providenciar. Que prefere? Temos sopa de feijão e batata fritas com suco de laranja.

– Não quero isso. Por favor, se não trouxerem de volta pelo menos dois  celulares ao meu estômago morrerei de fome.  

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José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

o ABC BEM HUMORADO DE SÃO LUIS , EM SEGUNDA EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA NAS BANCAS E LIVRARIAS DA CIDADE

Ajudando a autoajuda

Ainda que os livros de autoajuda não precisem de ajuda (vendem pra burro!) eis os mais requisitados recentemente.

1.O Obstáculo é o Caminho. Ryan Holliday

Caminho é uma palavra useira e vezeira em livros de autoajuda. O caminho de Santiago, por exemplo, é citado pelo menos uma vez em todo livro de Paulo Coelho e quinze vezes a cada meia hora de entrevista sua. Tanta recorrência a “caminho”, deve vir da eterna procura da felicidade, cuja frase mais emblemática é “Não existe caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho”, que, embora definitiva não  convence  ninguém. Tanto assim que a maioria anda busca a felicidade como se esta fosse um artigo de ocasião, encontrável na prateleira de uma loja.

Só o que faltava era o Ryan Holliday descobrir que o obstáculo, esse sim, é o caminho, significando que se você está atrás de felicidade o melhor é sair correndo  atrás de um obstáculo como se já não bastassem, na vida, os engarrafamentos de trânsito e a falta de lugares para estacionar.

Bons tempos aqueles em que a palavra ‘caminho’ frequentava poemas de Drummond ao invés de páginas de autoajuda. Naquele tempo, como dizia o poeta, havia uma pedra no meio do caminho. Qualquer dia vai aparecer um especialista em autoajuda capaz de descobrir que, ao contrário,  ha um caminho no meio de uma  pedra.

2.Quem me roubou de mim. Padre Fábio Mello

Este livro, que vende horrores, deve ter alguma razão para tanto sucesso. A julgar pelo título deve ser porque o autor descobriu, finalmente, porque no Brasil todo mundo rouba – a ponto da própria pessoa se roubar. Finda a leitura aprende-se que neste país se rouba tanto que todos devem desconfiar de si próprios. Mesmo sendo padre.

3. Porque fazemos o que fazemos. Mário Sérgio Cortella

Mário Cortella, recordista brasileiro de palestras de autoajuda sabe perfeitamente o que faz. Suas palestras geram uma infinidade de livros onde os temas e os assuntos são os mesmos das palestras,  sem tirar nem as vírgulas e os pigarros. O autor só não explica o “porque o faz” já que, assim, teria de dizer que age dessa forma pra se encher de grana, o que é bastante aceitável, mas é politicamente incorreto que se diga.

Pois se Mário faz o que faz,  mas esconde o porquê,  como acreditar que ele possa ensinar a alguém porque os outros fazem o que fazem;   como Gilmar Mendes, por exemplo? Se nem Freud ou a  Lava-Jato explicam, que dirá o Sérgio Cortella…

4. Os segredos do homem mais rico do mundo. Steven Scott

Dá para acreditar que os homens mais ricos do mundo compartilharam mesmo, com o autor, os segredos de como ficaram milionários? Claro que não. Parece evidente que se os caras são os mais ricos é porque nunca contaram seus segredos a ninguém. Ou não?

5. Deus o ama do jeito que você é. Bremann Manning

Tem certeza, Bremann? Por favor, não nos imponha isso.  Deus em sua infinita bondade, claro, deve amar muita gente, mas não precisava exagerar no público alvo.

Como acreditar que Deus possa amar Nicólas Maduro, por exemplo,  do jeito que ele é? Calma, Brennan, Deus nos livre se isso for verdade!

6. Não espere pelo epitáfio. Mário Sérgio Cortella.

O insinuante Cortella ataca de novo. Ora, você sabe muito bem Cortella, que ninguém espera pelo Epitáfio. O epitáfio é que espera pela gente, infelizmente. Concorda?

                                                                       [email protected] 

Jose Ewerton Neto é autor de O ofício de matar suicidas

GRANDES CLÁSSICOS DO CINEMA

 

Semana passada, eis que descobri, por acaso, perdido em meio as ofertas de um prateleira de livros o título 99 filmes clássicos para apressadinhos de Thomas Wengelevski , concebido com o mesmo propósito anterior, mas desta vez para filmes e com uma dose de humor adicional já que, direcionado para a juventude.  Levei o livro  para casa com dois propósitos. Primeiro para esmiuçar as tais mini versões de filmes que já havia assistido e, segundo, para enriquecer a minha interpretação de alguns filmes que, mesmo sendo clássicos, ficaram em minha mente com algum resquício de incompletude.

Como, por exemplo, Cidadão Kane que havia assistido na tenra idade, sempre apresentado como um dos maiores filmes de todos os tempos e que, na época,  não me convenceu disso. Devo dizer que, em geral, o resultado, embora irregular pareceu-me satisfatório. Seguem algumas simpáticas versões.

Cidadão Kane.

Um repórter investiga a palavra que Charles Foster falou em seu leito de morte. Rosebud. Kane era podre de rico,  mas sentia falta de algo.

Sim, a tal coisa que faltava era felicidade. Mas, pô, um cara com aquela grana podia ter tudo. E quem não seria feliz na mansão Xanadu? Acontece que Rosebud era o trenó de Hearst, digo Kane.

É o cara tem dinheiro pra tudo e sente falta de um trenó!  Sei…

Alien, o Oitavo Passageiro. 

Esse filme é sobre penetras. A nave  Nostromos pega, por engano, uma carona alienígena. A  tenente Ripley fica pensando: Como dizer ao carona que ele não é bem vindo?

O pior é que o alienígena vai se infiltrando, penetrando nas pessoas e quando sai deles sai matando. E o pior é que o danado nem levou vinho pra espaçonave. Ripley se cansa de bancar a anfitriã e sai da festa numa nave auxiliar. O Alien não se manca e vai atrás dela,  que tem de bota-lo pra fora. E ele não diz nem um obrigado. Que convidado ingrato!

O Poderoso Chefão

Lição 1. Mate o cavalo do seu inimigo.

Lição 2. Mate o chefe de polícia corrupto.

Lição 3. Mate todos os seus inimigos durante o batizado do seu sobrinho.

Dona Flor e seus dois Maridos.

 

Dona Flor é bonita e gostosa, mas acaba se apaixonando por um cafajeste bom de cama que faz dela gato e sapato, principalmente no carnaval, porque sai vestido de mulher com os sapatos dela.

O cara gosta tanto de carnaval que resolve se mandar pro  inferno porque lá o que não vai lhe faltar é cafajestada e putaria. Para isso morre na quarta feira de cinzas.

Virando espírito volta pra atazanar a vida do novo marido de Flor colocando-lhe um belo par de chifres. Flor fica feliz da vida porque agora pode transar de verdade com um espírito e ao mesmo tempo com seu marido, sem precisar fingir o orgasmo.

Obs. Este  ultimo resumo foi uma inspiração e um arroubo deste cronista porque não havia filme brasileiro na lista e a onda agora é ‘pátria amada , Brasil’.  Que tal?

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

 

AS CREDENCIAIS DO 2019

 

Retido na alfândega, O 2019 apresentou suas credenciais antes de ser liberado para assumir. Vejamos como se deu o diálogo com as autoridades aduaneiras.

– Nome

– 2019

– Que veio fazer na Terra, e, mais especificamente, no Brasil?

– Cumprir a missão que me destinaram, evidentemente.

– Missão?

– Sim, ou seja, cumprir o tempo anunciado para mim. Ou vocês  preferiam que não houvesse 2019 e o 2020 começasse logo? É pegar ou largar.

– Claro que  entendemos Sr.  Só pedimos que faça um breve resumo de suas credenciais, já que o Povo deposita suas últimas esperanças em você.

– Nada tenho a ver com isso. Quem se esgoela no fim de ano, porque quer, é o Povo, nada prometi. Aliás, essa conversa está ficando pra lá de demorada.

– Por favor, fique calmo, é mera burocracia, afinal de contas estamos no Brasil. Não nos leve a mal e apresente suas credenciais.

– “Vamos lá, No meu primeiro dia vai sair Temer e começar Temer”…

– Como? Sair e entrar? Como assim?

– “Preciso explicar? Na hora em que o presidente Temer sair do Governo, na mesma hora vai começar a Temer”.

– Ah sim, agora entendi, poderá ser preso. Continue.

“O ex-presidente Lula, por sua vez, continuará na Cadeia embora já tenha feito mais de 50 pedidos ao STF para ser libertado. O último, para acompanhar o funeral de um colega. O que se garante é que, se depender do presidente Bolsonaro, o ex-presidente não sairá da cadeia nem para ir ao próprio enterro. “

– Continue.

“Quanto ao religioso João de Deus, também encarcerado, aparecerão novas 500 mulheres assediadas pelo mesmo, de forma tal que não haverá mais nenhum estado ou território brasileiro sem uma representante na lista de mulheres assediadas.”

– Território?

“Sim, de Fernando de Noronha. Desta vez  uma celebridade da tevê. Ela entrará na lista por se julgar  um horror, depois que sua “beleza” passou despercebida pelo assediador, (mesmo tendo sido atendida no quarto isolado várias vezes).

– Continue.

“Passando para a urbanidade, mais crateras engolidoras de carro estarão aparecendo nas ruas de São Luís à semelhança do que aconteceu na Rua Mendes Frota quando o carro de uma senhora foi bruscamente engolido. Um estudo estará sendo desenvolvido  para transformar essas gigantescas crateras em lava jatos naturais à disposição dos motoristas.

Igualmente, diante dos episódios de violência contra as minorias indefesas, que originaram a criação, a cada dia, de novos termos (como Lesbocídio depois de Feminicídio) mais um neologismo será inventado, desta vez o Carecacídio, referindo-se à violência contra os carecas.

Como a criação de termos esquisitos só faz aumentar a violência uma manifestação terá lugar em todo país. MENOS NOMES, MAIS AÇÃO E MAIS MONSTROS NA CADEIA.

Quanto ao futebol, os times brasileiros continuarão apanhando dos argentinos que, por sua vez continuarão apanhando de time africano. Enfim, o futebol brasileiro continuará em plena decadência, com o dinheiro valendo mais que a técnica e se pagando rios de dinheiro para jogadores medíocres. O S.E. Palmeiras, o novo time ricaço do Brasil talvez mude de nome para S.E. Crefisa (os torcedores rivais o chamarão de Agiota F.C.)

Por favor, senhor 2019. Pode passar! Como não tem jeito mesmo suas credenciais foram aprovadas.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis, cuja segunda edição revista e ampliada já está nas bancas e livrarias da cidade.

 

 

BEATLES RAHPSODY

Sem os Beatles teria havido o Queen?

 

 

Conversávamos entre amigos sobre o estrondoso sucesso internacional do filme Bohemian Rahpsody cobrindo a trajetória de Freddie Mercury, líder da banda Queen, quando um de nós, ardoroso fã de MPB e rock, me dirigiu a pergunta acima:

Eu, que ainda não vi o filme, não respondi de pronto,  não só porque é difícil conceber a resposta exata como porque a sua indagação ensejava outras: O que seria da existência humana sem os sonhos da juventude? Como seria a geração dos Beatles, e as que se seguiram, caso eles não tivessem existido?

Em relação à última pergunta, a resposta é que os sonhos juvenis de nossa geração, que os admirava, e de outras que os sucederam, seriam bem menos interessantes. Os Beatles (John, Paul, George e Ringo) personificaram para uma geração de jovens no mundo inteiro, até então atônita e comprimida, muito mais do que excepcionais artesãos da arte musical. Ainda que já tivesse havido ídolos igualmente carismáticos como Elvis Presley (que lhes serviu de referência) e, mais anteriormente, no cinema, James Dean, os Beatles atingiram a universalidade porque culminaram a sua excepcional musicalidade com os anseios  da juventude por uma mudança comportamental que se encontrava defasada do avanço tecnológico da época e da que se vislumbrava para a frente.

A palavra em voga para essa expectativa represada era avanço e modernismo, mas, no fundo, buscava-se uma nova forma de pensar e agir livre das amarras de uma sociedade que impunha dogmas de conduta e tabus como a virgindade feminina – que eles não levantaram a bandeira para abolir, mas que levaram de roldão em sua passagem, como uma santa epidemia que se alastrava no mundo.

“A rebeldia está para a juventude  assim como o coração está para a vida”, ou seja, a juventude não pulsa nos corações conformados. Por isso, os jovens de hoje, na maioria, jamais farão ideia do que representou os Beatles para a sua geração, a que seguiu e assim por diante, como se tivessem inoculado o vírus de uma nova  juventude, para a frente  através de canções marcantes, como Yesterday ( a terceira canção mais regravada no mundo) , A day in the life, Something,  etc – para meu gosto prefiro entre todas The fool on the hill)

Hoje, muitos cantores jovens, mas medíocres, permanecem distantes  desse manancial de sonho que lhes deveria ser peculiar como maestros de tenras esperanças.  Para citar exemplos brasileiros, Gusttavo Lima e Luan Santana, jamais expressarão abrangência duradoura ou similar, até porque o fundo musical de suas potenciais epopeias é de enorme pobreza. Adultificados precocemente em seus  ideais e ambições, a marca que ostentam é a de serem desprovidos de vontade de mudar o mundo.

Aqui entra o tom de rapsódia, sem dúvida a mais completa rapsódia juvenil do século passado Que foi iniciada pelos Beatles e que depois influenciou jovens e talentosos – e trágicos -, como o próprio Freddie Mercury , Jim Morrison, e mais recentemente Amy Whinehouse, que às vezes sucumbe ao peso da fama e da incessante busca,  mas sempre deixa rastros. Enfim, a rapsódia da juventude, a verdadeira  juventude.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado  de São Luis, em segunda edição revista e ampliada Livrarias Tempo de Ler, Amei, Vozes e bancas de revista de São Luis

 

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