MARCHINHAS VERSÃO 2018

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão

 

Tempos atrás o Carnaval era  exclusivo das marchinhas e sambas que fazem sucesso até hoje.

O  carnaval em si  não mudou tanto, os tempos é que são outros. Os costumes, estes sim, evoluíram rapidamente, talvez para pior. Se as marchinhas fossem escritas hoje, seriam como segue, ao invés de:

1.Ontem:” Olha a cabeleira do Zezé. Será que ele é, será que ele é? Será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé. Parece que é  transviado, mas isso não sei se ele é”.

Hoje: Olha a cabeleira do Vital

Será que ele é, será que ele é.

Será que ele é dançarina, será que ele é  travesti

Parece que ele é tudo isso, mas nem isso eu sei se ele é.

 

 

  1. Ontem: “Oh, jardineira, por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros, depois morreu!”.

Hoje: Oh, periguete, por que estás tão triste?

Mas o que foi que te aconteceu

Foi o coroa que quebrava teu galho

Deu dois suspiros, depois morreu.

 

  1. Ontem: “Se você fosse sincera, ô ô Ô Aurora, ai meu Deus que bom que era, ô ô Ô , Aurora. Um lindo apartamento com porteiro e elevador e ar refrigerado para os dias de calor. Madame antes do nome, você teria agora,  ô ô Ô Aurora!”

Hoje: Se você fosse galinha, oooô, Aurora

Ai meu Deus que bom que era, ô ô Ô Aurora!

Um apê de  cobertura ,com cinema e boate.

E um personal training pra teus dias de calor

Um chifre bem na testa, eu ostentaria agora

Oooô, que Aurora!

 

4.Ontem: ”Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero, Mamãe, eu quero mamar. Dá a chupeta, dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar. Dorme filhinho do meu coração, pega a mamadeira e vem entrar no meu cordão, eu tenho uma irmã que se chama Ana, de piscar o olho já ficou sem a pestana.”

Hoje: (Nos salões do poder público)

Mamãe eu quero, mamãe eu quero  roubar

 Me  dá a propina, me dá a propina, dá a propina pro bebê não chorar.

 Dorme justiça, do meu coração,

Pega a propina vem entrar no meu cordão,

Só de ficar vendo tanta mala de dinheiro,

O meu olho viciou parecido ao CerverÓ.

 

 

 

5.Ontem: ”Solteira eu não quero. Casada traz complicação. A viúva tem saudade, a desquitada é a minha solução”.

Hoje: Hetero eu não quero,

Homossexual traz complicação

Sexo virtual pode dar cadeia

Transsexual é a minha solução.

 

6.Ontem: ”Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí , em vez de tomar chá com torrada ele bebeu Parati. Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão, e saiu dizendo mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero mamar  !”

Hoje: Pegou sua moto incrementada e saiu por aí

Em vez de tomar chá com cachaça cheirou um monte de pó

Levava um  pistola no cinto e um celular na mão

E saiu dizendo ao chefe da gangue: Pai eu quero matar, papai eu quero matar, papai eu quero matar!

 

5.Ontem: As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo mão na saca, saca, saca rolha, e bebo até me afogar. Se a polícia por isso me prender, mas na última hora me soltar, eu passo a mão no saca, saca, saca rolha ninguém me agarra, ninguém me agarra

Hoje: (cantada pelos batalhões das blitzes )

As multas vão rolar,

Papudinho  hoje eu quero ver soprar

Eu passo a mão no  bafômetro e empurro

Até o coitado se afogar!

Se o desgraçado pedir pra não prender

E vier me implorar para soltar

Eu passo a mão no cassetete e enfio nele

Ninguém me agarra, ninguém me agarra!

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José Ewerton Neto é autor de

O ABC bem humorado de São Luis

 

 

VIDA ÚTIL e vida INÚTIL

Você  sabe, caro leitor qual é a vida útil de seus  óculos escuros? Ou de uma toalha? De seu pente ou do seu chinelo? Claro que não, você nunca se preocupou com isso. Aliás, você nem imagina qual seja a sua vida útil, esquecido de que você também é um produto, a ser consumido pelos demais. E, já que você não se importa com isso, permite que o Governo a defina.

É o que está fazendo Michel Temer com sua Reforma da Previdência que, de saída, o enxerga como inútil, mas, estranhamente,  pronto a se sacrificar para manter inabaláveis os privilégios previdenciários dos corruptos e poderosos.

Pois reflita que tudo na vida tem sua vida útil, e não apenas os remédios e as comidas. Apenas para satisfazer sua curiosidade é bom saber que seus  óculos escuros têm vida útil de no máximo dois anos, os sapatos esportivos seis meses, as toalhas 3 anos e seu pente, no máximo um ano. Sabia? Claro que não,  por isso é que se torna salutar pensar na vida útil de um monte de coisas sobre as quais você jamais havia se dado ao trabalho.

1.Vida Útil de uma atriz sem talento. Da   Globo, etc.

Dura até se casar com um craque de futebol riquíssimo, o que imediatamente fará aumentar o seu cachê. Se a atriz for esperta induzirá o craque a lhe enfiar um filho ou dois, o suficiente para garantir pensão  e grana por várias gerações. Isso fará com que sua vida útil, depois de morta, torne-se maior do que quando viva. (Para seus herdeiros, é claro).

2.Vida útil de uma dupla musical sertaneja.

Dura até seu ouvinte chegar à conclusão de que aquilo não é nada de dupla musical, mas um só idiota duplicado.

3.Vida útil de uma Ex-BBBrasil.

Normalmente, sua vida útil era próxima de zero até ser escolhida para  participar de uma edição do  BBBrasil. A partir daí sua vida útil passa a ser de uns 6 meses até posar nua  para uma revista pornô,  o que estenderá sua vida útil por mais uma semana. Tempo suficiente para que o comprador da revista a jogue no lixo. A partir daí…

 

 

4.Vida útil de um juiz de futebol.

Depende. Se estiver roubando para o time de sua predileção sua vida útil dura em torno de 90 minutos (o tempo total da partida mais a prorrogação,  se houver). Já, se estiver roubando contra seu time, sua vida útil é de 2 segundos até que você comece a  xingar sua mãe.

5.Vida Útil de uma blitz da Lei Seca.

Para bandidos tem vida útil vinte vezes  maior do que para o cidadão comum, já que as blitzes permitem que os bandidos pratiquem suas atividades à vontade, enquanto o grosso do contingente de policiais permanece de tocaia nas avenidas para caçar papudinhos distraídos. Os bandidos agradecem.

6.Vida Útil de uma Delação Premiada.

No Brasil, dura alguns meses até que caia nas mãos de Gilmar Mendes. Neste caso,  sua vida útil se tornará abaixo de zero( se seu objetivo for prender corruptos) já que , neste caso, jamais serão presos.

7.Vida Útil de um livro de autoajuda.

Algumas semanas até que o leitor desista da leitura e se decida a ler, ao invés,  alguns capítulos da Bíblia. ( Novo Testamento, Sermão da Montanha). O  leitor concluirá rapidamente que perdeu seu tempo e tudo o que poderia apreender de útil e edificante  num livro de autoajuda já estava lá.

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José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

 

 

A CAMINHO DA RÚSSIA

Mais alguns dias e não se falará em outro assunto: Rússia, para onde iremos todos em junho, carregando o sonho de mais uma copa. Mas, que Rússia é essa? Que sabemos dela?

Uma boa ideia seria compara-la  ao Brasil, senão futebolisticamente , pelo menos, nos costumes.

1.Os russos são bem conhecidos por serem muito sérios e desconfiados O sorriso, para eles, é uma demonstração de carinho e não deve ser dado para qualquer pessoa sendo, por isso, somente usado em ocasiões excepcionais.

Nesse ponto diferem muito dos brasileiros. O brasileiro, como se sabe,  ri de tudo, desde durante o hino nacional até em cerimonial fúnebre, quando é comum discutir futebol e contar piada. Tem gente que ainda se permite comentar diante do cadáver: “Ficou tão sério agora! Nem parece mais um brasileiro.”

  1. Em momentos de crise é comum os governos da  Rússia   pagarem aos professores com wodka em vez de dinheiro.

Portanto, na Rússia se usa bebida para pagar o salário das pessoas. Por aqui é quase a mesma coisa: as pessoas usam o salário para pagar bebidas.

  1. Existe uma lei na Rússia que proíbe as pessoas de contarem às crianças tudo o que tenha a ver com a homossexualidade.

Por aqui, é o contrário. A s novelas de tevê, o noticiário, e até as novas  leis fazem de tudo não só despertar como também  para estimular a homossexualidade nas crianças.

  1. Até o começo deste século, a cerveja era considerada um refrigerante e não uma bebida alcoólica.

Bem ao contrário do Brasil. Depois da Lei Seca, toda bebida por aqui virou alcoólica e quem as ingere um alcóolatra. Dia virá em que bafo de refrigerante será motivo para alguém ser preso e pagar multa.

  1. Na Rússia existe o dia Nacional da Concepção. Neste dia, os casais ganham meio dia de folga do trabalho para procriar, e isso funciona! As taxas de natalidade em junho normalmente triplicam todos os anos e os casais dão a luz próximos de 12 de junho  – exatamente nove meses depois .  

O Brasil também, embora não oficialmente. Talvez por considerarem  que um dia apenas seja insuficiente , os Brasileiros dispõem de 5 dias dedicados a isso,  que denominam Carnaval.

  1. Os russos gabam-se de possuir a droga mais devastadora do mundo que chama-se krokodil. É dez vezes mais potente do que a morfina e é chamada assim porque deixa seus usuários com pele de aspecto réptil e a maioria dos usuários morre em dois ou três anos.           Quanto ao efeito aniquilante o Brasil também produz uma droga de efeito igualmente letal, embora mais lenta. Trata-se da  música sertaneja  que mata  devagar,  mas idiotiza seus ouvintes de forma irreversível.

 

  1. Os russos adoram xadrez (jogo) Em 1934, 500 mil russos se inscreveram no programa estadual de xadrez. Hoje, mais da metade dos 20 maiores jogadores de xadrez do mundo vem da Rússia ou de um dos países que faziam parte da União Soviética.

Enquanto os russos vivem jogando de xadrez os brasileiros vivem entrando no xadrez. Nossa população dentro das celas quase rivaliza com a população de Moscou. ( E a  de quem deveria estar lá dentro chega a ser 20 vezes maior).  Graças a isso o Brasil criou especialistas em tirar gente  do xadrez,

 

 

 

sendo considerado como grande mestre internacional o jurista Gilmar Mendes, o único no mundo capaz de dar  xeque-mate na própria  justiça,.

 

José Ewerton Neto é autor de

O entrevistador de lendas, sobre lendas maranhenses

 

 

A SUTIL ARTE DE LIGAR O F**DA-SE

artigo publicado no jornal o estado do Maranhão

O que acontece quando se juntam  “Sutil arte” com “ligar o F**da-se”? Errou quem disse que nada acontece ou pensou em algo estapafúrdio. Quem se dispôs, como eu, a ver a lista de mais vendidos da Veja e deparou com esse ajuntamento de palavras  chegou à conclusão (com alguma dificuldade) que se trata  do título de um livro. Isso mesmo: o título de um livro.

Já vão longe os tempos em que os títulos dos livros de autoajuda nos assediavam apelando para referências religiosas solidárias do tipo “Jesus, o maior psicólogo que já existiu” ou com conversas para boi dormir do tipo “Você vale o que você pensa”. Parece que a autoafirmação, nesta segunda década de século, dispensa conselhos filosóficos ou religiosos. A coisa vai melhor quando se introduz, forçosamente, uma alusão ao sexo.

Isto  posto, impacto alcançado, só resta ao potencial leitor a tarefa de tentar entender que diabos é isso que estão lhe oferecendo. Intrigado, me dediquei à árdua tarefa. Avante!

O que significaria ligar o F**da-se? Até onde eu sabia esse ato não precisa ser ligado na tomada. Ou precisa? Vá lá, é sabido cientificamente que as vaginas quando excitadas produzem algum grau de eletricidade, mas como se daria o ato de inseri-las, digamos assim, num fluxo elétrico?

????

Eipa! Eis que surge outra opção.  Vai ver que o F**da-se não está sugerindo um movimento, mas subtendendo uma imprecação: a de mandar o mundo às favas. Parece que estamos diante de um autor que nos dará apoio nesse propósito (…Mas, cá pra nós, precisa ajuda para isso?)

Huuumm! Como poderia ser também uma proposta de auxílio para quem queira suicidar-se. Se o verbo está no modo reflexivo isso significa que encontramos alguém disposto a ensinar o leitor a se F***, ou seja, a morrer… Heureca!

Metade da questão resolvida,  eis que me deparo com outra parte mais complicada do entendimento. O mais bizarro agora nem é mais o tal  “Ligar o F**”, mas conceber uma explicação para o que vem antes. Pois o autor categoricamente insinua que, por trás disso, há uma arte sutil. Sim, senhores: Nada de Shakespeare, nada dos aforismos de Millor Fernandes ou de Mencken, arte sutil, nos dias de hoje é ligar o F**da-se!

Embaralhado, agora, mais que antes, me deu uma maldita vontade de comprar o livro só para resolver o mistério, o que acabaria fazendo, caso não contemplasse na lista, outra vez, a mesma palavra. Vi que o sexto da lista também vai pela mesma onda sexual e o título  do livro é “Eu sou foda”, de um tal de Caio Carneiro. (Portanto, temos F*** pra dar e vender numa lista de livros mais do que numa edição do BBBrasil)

Enquanto meditava sobre o que levaria alguém a comprar o livro de um sujeito que se julga foda, sem ser o Messi ou o Cristiano Ronaldo, me deparei, afinal, com outro título da lista, este sim, de enorme valia para o momento de ‘dúvida existencial’ que eu passava. É o terceiro mais vendido, com o título Porque fazemos o que fazemos, de certo Sergio Cortella,  certamente um aparentado de Deus para saber tanta coisa a respeito da gente que nem  mesmo a gente sabe.

Talvez ele conseguisse me explicar, afinal, o que leva marmanjos aparentemente normais a escrever livros com título como esses.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas, sobre lendas maranhenses

 

MENTIRAS BRASILEIRÍSSIMAS

 

Todo mundo mente em todo lugar do mundo, mas o que distingue a mentiroso brasileiro é que, por ser tão desonesto, consegue enganar a si próprio, passando a acreditar na mentira que ele próprio inventa. E o pior para a verdade é que o mentiroso brasileiro tem uma obsessão: deseja que os outros também acreditem na sua mentira.

Ora, como todo poderoso  tende para a arrogância, deriva-se, como evidente, que a mentira há de imperar neste país: por vocação, por talento e, se isso ainda não for suficiente, por imposição. Haja mentira pra todo lado!, este País se dando ao luxo de se aprimorar nas ‘mentiras fora de série’,   ou seja, as brasileiríssimas: que todos acabam aceitando  como se fossem verdades.

1.Deus é brasileiro.

Pode até ser, mas qual deles? Tem deus que se presta pra tudo neste país, desde para fazer papel de gaiato em discurso de Michel Temer até a aparecer feito guru, um tanto a contragosto,  em música de Roberto Carlos. Já o Deus  único , exclusivo e onipotente esse parece ter corrido há algum tempo desta terra depois que tanta gente não quis mais ser rei e preferiu ser Deus. Primeiro foi Pelé, depois FHC, Lula,  e agora, Neymar que vai fazer vestibular para ser deus na próxima Copa, na boca de Galvão Bueno.

Aparentemente, foram dois os sinais evidentes de que o Deus verdadeiro não queria mais nada com esta Terra: primeiro  o 7 a 1 da Alemanha, depois quando um raio cortou a mão do Cristo Redentor, logo depois. Os vários sinais de sua debandada seguiram, sendo o mais eloquente a presença de um sujeito como Gilmar Mendes no Supremo Tribunal deste país ( outro que se considera Deus). Hoje já não resta mais dúvida: Deus nos disse Adeus.

2.O Brasileiro não é preconceituoso.

Durante muito tempo acreditou=se que o Brasil era um país em que não havia preconceito racial. Tudo ia relativamente bem até que inventaram o tal sistema de cotas, para despertar o “monstro”. Hoje, além do preconceito racial surgiram à tona vários outros, sendo o mais intolerante o que se pratica contra gente honesta. Honesto é mal visto, na escola ( onde sofre bullyng por causa disso); nas reuniões sociais (rejeitado quando pretendente ao sexo oposto, por não ter futuro) nas blitzes da lei seca ( ser honesto é o primeiro passo para ser tratado como bandido) e, principalmente, na política, onde simplesmente não tem vez.

É tanto o preconceito que a ideia de um sistema de cotas para o honesto chegou a ser  idealizado, para evitar tanta discriminação. O problema passou  a ser a formação da banca julgadora. Como encontrar um honesto para descobrir quem seja honesto?

  1. Brasileiro é bom naquilo.

Durante muitos anos o macho brasileiro acreditou piamente nisso, mas parece que se esquecia de perguntar à sua mulher. Novas pesquisas denunciaram que a coisa não é tão boa assim a julgar pelas caixas de pílulas azuis e similares que são consumidas neste país (segundo lugar no mundo) . Como afrodisíaco natural é o que não falta: guaraná, catuaba, açaí, samba, praia, e carnaval, cada vez mais fica evidente que bom nisso é mesmo a fêmea brasileira  até mesmo porque dentro e fora do país ela dá verdadeiro baile, dançando lambada em pé, deitada, e em todas as posições do kama-sutra ( vide Anitta). E ainda sobra para o Pablo Vittar.

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José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas

 

JOSÉ LOUZEIRO, UM ROTEIRO EXEMPLAR

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão

Uma das maiores alegrias de minha vida me foi propiciada pelo escritor José Louzeiro, morto na sexta feira passada, quando dele recebi uma pequena carta, quase um bilhete. Dizia: “Um verdadeiro  romance policial. Denso. De suspense. Como um bom roteiro de cinema.”

Referia-se aos originais do meu primeiro romance O Prazer de Matar ( que ,mais tarde, em duas reedições sucessivas no Sul do país recebeu o nome de O oficio de matar suicidas). Até então, nos idos da década de oitenta eu não sabia que aquilo que havia escrito em trinta dias  – na convalescença de uma cirurgia –  daria um livro: um romance ou, muito menos, um policial.

Neste episódio destaca-se um dos mais preciosos atributos do caráter de José Louzeiro: a sua generosidade, expressa de duas formas: no apoio que concedia aos escritores em potencial, nos quais vislumbrava o embrião do talento (a bondade do homem);  ou na incorporação  de personagens sofridos e marginalizados ( a generosidade de sua escrita).

Essa sua magnanimidade haveria, talvez, de atingir seu clímax na criação de seu personagem mais famoso: Pixote, em cujo romance A infância dos Mortos, se desenrola a história de um pivete, sem rumo e sem salvação, que, adaptado ao cinema pelo diretor argentino Hector Babenco ganhou vários  prêmios vindo a se instalar, certamente,  entre os dez melhores filmes já produzidos pela cinematografia brasileira.

 

 

A leitura atenta desse romance permite vislumbrar que o escritor não estava ali criando um personagem e dosando- o para o gosto do público ou das expectativas de mercado, mas sim se transfigurando no mesmo, expondo através dele a sua alma de repórter jornalístico revoltado com as injustiças sociais. José Louzeiro montou sua arquitetura criativa para tornar-se a voz deles todos: De Pixote, a criança excluída;  De Lúcio Flávio, a juventude perdida nas teias dos ideais inalcançáveis  e da menina Araceli ( de Araceli, meu amor)  a adolescente pobre e bonita, triturada por uma corja de “mauricinhos” ricaços, sob a proteção da impunidade.

Essa face da postura intelectual de Louzeiro  o fez desaguar  em um gênero literário muito adequado para  isso: o romance-reportagem , por ele inaugurado no Brasil (que teve, lá fora, com  Truman Capote em A Sangue Frio sua marca mais notável)  e que doou à sua literatura um componente de originalidade para cuja concepção eram necessários justamente esses ingredientes: o fato real, o destino  irremediável e acachapante para os fracos, a denúncia.

Pois foi partindo da realidade nua e crua que José Louzeiro inscreveu sua trajetória romanesca, o que o tornou  um inovador, um dos primeiros cultores do policial no Brasil, esse gênero literário ainda hoje considerado menor pela crítica universitária – o que causa estranheza, justamente numa nação como a nossa, em que tudo acaba em polícia e crime. Seria por isso que José Louzeiro jamais teve um reconhecimento à altura de sua estatura literária, mesmo em sua terra?

Que a memória trazida pelo seu falecimento corrija essa injustiça trazendo novamente seus livros ao alcance das novas gerações,  e que, a reboque dessa necessária reavaliação se faça uma biografia à altura de sua trajetória de lutas e  realizações, plena de valores essenciais para a construção de uma humanidade melhor. Como um roteiro de cinema. Um grande roteiro!

José Ewerton Neto é autor de O ofício de matar suicidas

PREVISÕES PARA 2018 ( não autorizadas)

A alta cúpula do  Governo Federal tem como certas algumas  previsões para o ano de 2018 que não foram  autorizadas para divulgação. Seguem as principais.

1.Gilmar Mendes continuará soltando presos da cadeia. Em 2018  com velocidade maior do que solta pum (um problema médico que o faz ficar com o beiço arriado por causa do mal estar).

Em meados de Agosto, em reconhecimento a seu apoio aos encarcerados, qualquer tipo de indulto a preso receberá o nome de Lei Gilmar. A novidade  é que não será mais necessária data festiva para que isso aconteça. Todos os presos menores de idade (abaixo de 30 anos) terão direito a essa regalia. Bastará pleitear a Lei Gilmar com antecedência de 15 minutos para que o réu seja solto.

2.A Temporada de Caça a Gente Honesta aumentará a partir do ano que vem. No caso, entende-se como gente honesta (pegos em falta), as vítimas dos múltiplos artifícios  usados pelo poder público para extorquir o cidadão.

Assim, se hoje o cidadão que bebe duas  gotas de álcool  é considerado um criminoso pior do que aquele que sequestra, mata ou estupra, a partir do segundo semestre do ano que vem  esse cidadão será condenado à prisão perpétua.

Para tanto não será necessário o uso de bafômetro ou de outro dispositivo.   Bastará que o guarda sinalize que algum sujeito tenha cara de pinguço. O conceito de criminoso será revisto nas cartilhas escolares. Quem rouba malas de dinheiro ou recebe àquele a quem chama de ladrão no recesso de seu lar, será considerado idealista, já quem bebe e dirige (ainda que sejam dois goles de cerveja ) será execrado , repudiado, humilhado e considerado criminoso para o resto de sua vida.

3.Os partidos políticos terão menos letras ou trocarão de nome para não serem confundidos com partidos mal vistos pela lava-jato. Consumando assim o processo já iniciado pelo PMDB que virou MDB.

 

 

Assim, o PSDB passará a ser SDB, abreviatura de Se Dê Bem. O PV passará a V de verde, em Janeiro e, meses depois, para A de amarelo. A razão, para os marqueteiros do partido é que a  letra V no fim do alfabeto, pode dar impressão de fim da fila. Com tanta letra sumindo ou sendo trocada surgirá um novo partido: o dos 5 P ( Partido do Povo, Puto, Penando e Procrastinado)

4.A eleição para presidente terá como candidatos mais fortes: Bolsonaro, Galvão Bueno (que substituirá  Huck como candidato da Globo) e Temer  ( que terá  Lula como vice).

A candidatura de Temer terá como slogan  “Unidos Venceremos” que a oposição interpretará como Ladrões Unidos jamais serão Vencidos. Galvão Bueno, cujo slogan será “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”, depois de liderar a pesquisa por vários meses tombará nas pesquisas depois de mais um fracasso internacional do Flamengo. Sobrarão para o segundo turno Bolsonaro e a dupla Lula-Temer.  Os unidos vencerão mais uma vez, mesmo depois de Bolsonaro trocar o nome de Bolso-Naro para Bolso-Vazio para alardear honestidade.

  5.Neymar e Bruna Marquezine continuarão a novela Fica-Volta na razão de 3 separações por mês nos sites de Fofoca e 2 vezes por dia na realidade nua e crua.

 

 

 

A razão para tanto encontro-desencontro explicada pela atriz será: “Ele prefere os parças a mim. Exijo exclusividade” Já o craque do PSG dirá : “ Não sei o que acontece comigo, mas enjoo dela  mais depressa que dos parças.”

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

 

 

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CONTRA A CULTURA

 

Tempos atrás nas rodas de estudantes, quando se tornava difícil  elucidar uma confusão a respeito de determinado tema, alguém dizia ironicamente: “Não confunda a obra de arte do mestre Picasso com a p… de aço do mestre obra”,   ou então  “ O buraco do lavrador Chico do Funrural com o Funeral do lavrador de Chico Buarque. E encerrava-se a questão.

Que não se confunda também (nestes tempos de confusão)  Contracultura com Contra a Cultura. Contracultura é um movimento que teve seu auge na década de 1960, quando teve lugar um estilo de mobilização e contestação cultural, através do  qual os jovens tangenciavam  o antissocial aos olhos das famílias mais conservadoras . Contra a Cultura, por seu lado, é algo muito mais danoso,  pernicioso e  chega a ser perverso se praticado por autoridades que não possuem, sequer para justifica-los,  o arroubo demolidor dos jovens. Como,  por exemplo, entre outras coisas, desconsiderar o papel cultural desempenhado por bancas de revistas e livros.

Bancas de revista , como todo mundo sabe, são aquelas mini lojas que parecem ter vida própria e que se disponibilizam nas avenidas e centros das aglomerações urbanas para dar uma mãozinha ao cidadão quando este menos espera,  afogueado sob a tensão do trânsito. Uma revista aqui, outra ali, um livro, mapa, crédito para celular, ou, simplesmente para prestar uma informação adicional. Enfim, um braço amigo na selva de pedra da cidade grande.

Dá para acreditar que exista quem  se insurja contra elas, as bancas?

 

Difícil, mas um amigo meu, dono de uma banca de revista na  Praça Deodoro, sugere que sim. Que incrustados na tecnocracia administrativa desta cidade devem existir pessoas que expressam esse ponto de vista, justamente entre os  que comandam as obras que visam o bem-estar da população. Segundo ele, à vista de uma reforma (que todos julgamos necessária) a ser iniciada nessa bela praça, há o planejamento de retirar as bancas de revistas do logradouro, negando aos seus proprietários  a expectativa do devido – e necessário –  retorno.  E, por uma razão que espanta: as  bancas seriam incompatíveis com o layout e o ambiente desejado para a praça por serem  estruturas anacrônicas, incoerentes com o design moderno das metrópoles.

Ora, como tal argumento não se sustenta diante da realidade, facilmente constatável, que se vê em outros países e outras grandes capitais do país, como na Avenida Paulista em SP ( onde o que não falta é banca de revista), subtende-se  razões de idiossincrasia pessoal: enfim de “contra a cultura”  caso essa ideia venha a prevalecer por aqui.

Jorge Luís Borges, o escritor argentino dizia que certas ideias, de tão absurdas  eram “ como aceitar a presença de um estranho na cabeceira da minha mente.” Pegando carona na sua frase,  todas as ideias que se insurgem  contra a cultura , sua disseminação e propagação, também assim se parecem: com  um assaltante, um invasor, ou um sequestrador a se instalar na cabeceira de nossa mente. No caso, alguém com a intenção de violentar um bem  precioso que esta cidade possui e que através da comercialização e divulgação do trabalho impresso, tornou-se mais uma das sentinelas do áureo passado de feitos conquistados pela literatura local.

Que esses vultos sombrios sejam definitivamente afastados das mentes das autoridades que nos comandam.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas e O ABC bem humorado de São Luis

 

 

 

( relançamento das ultimas unidades) amanhã no espaço Amei, shopping São Luis ,  15 h -Lançamento coletivo de escritores maranhense

 

COINCIDÊNCIAS APENAS?

 

Abraham Lincoln foi pela primeira vez eleito para o Congresso dos USA em 1846. O mesmo aconteceu a John Kennedy 100 anos depois. Lincoln foi eleito presidente em novembro de 1860, Kennedy em novembro de 1960. Ao morrerem foram sucedidos por homens do Sul com o nome de Johnson. Andrew Johnson sucedeu Lincoln e nasceu em 1808, Lindon Johnson sucedeu Kennedy e nasceu em 1908. O assassino de Lincoln ( Wilkes Booth) nasceu em 1839. O de Kennedy (Lee Oswald) nasceu em 1939.

Ambos os assassinos tinham origem sulista e foram abatidos antes de serem julgados. Booth cometeu o crime no teatro e correu para um armazém. Oswald atirou contra Kennedy de um armazém e fugiu para um teatro. Lincoln recebeu o tiro num teatro chamado Ford e Kennedy em um automóvel Ford, modelo Lincoln. Os nomes de ambos possuem 7 letras. Duas pessoas ligadas a eles aconselharam-nos a não irem ao teatro e a Dallas. A de Kennedy chamava-se Lincoln, e a de Lincoln, Kennedy.

2.No Brasil uma mala com mais de  55 milhões de reais foi achada no apartamento de Geddel e não tem dono. A derrota de 7 a 1 para a Alemanha, até hoje ninguém se considera dono. Existem nas ruas do país milhares de cachorros sem dono e número quase equivalente de filhos não reconhecidos pelos pais porque estes não se consideram donos. A reforma da previdência, de Michel Temer, subtende que milhões de trabalhadores deste país não são donos de seus direitos, mas mantêm os privilégios  dos donos – do poder.

Neste país ser dono é uma questão  de conveniência, não de coincidência.

2.No dia 5 de dezembro de 1664 um navio afundou no estreito de Menai, ao longo do norte de Gales , com 81 passageiros. Houve apenas um sobrevivente: um homem chamado Hugh Williams. No dia 5 de dezembro de 1785, na mesma região, outro navio afundou com 60 passageiros. Salvou-se somente (outro) Hugh Williams. Em 5 de dezembro de 1825 no mesmo local, ocorreu outro acidente: outro navio e 25 passageiros . O sobrevivente, único, foi um homem chamado Hugh Williams.

3.Na última Copa ganha pelo Brasil nosso melhor jogador foi Rivaldo, mas quem recebe os louros, até hoje, é Ronaldo Fenômeno. Rivaldo foi esquecido enquanto Ronaldo continua badalado e exaltado. Ronaldo é carioca e Rivaldo, nordestino.

Guimarães Rosa é tido como o grande romancista brasileiro pós-Machado de Assis. Graciliano Ramos, embora escrevesse melhor e mostrasse mais  talento (ao retratar a realidade do sertão brasileiro) anda esquecido na base de dois parágrafos  escritos sobre sua obra  para cada vinte páginas escritas sobre seu colega.   Guimarães Rosa é mineiro.  Graciliano Ramos é alagoano e nordestino. Coincidentemente.

6.Um oficial inglês chamado major Summerford, lutava nos campos da Holanda quando foi atingido por um raio em fevereiro de 1918, ficando paralisado do lado direito. Morreu dois anos depois ao ser atingido, de novo, por um raio. Vinte anos depois um raio caiu no cemitério da cidade atingindo apenas uma sepultura: a do major.

7.O lugar no mundo onde mais caem raios é o Brasil, onde também mais se morre por causa disso. No ano passado um raio atingiu o Cristo Redentor, embora se diga, coincidentemente ou não, que Deus é brasileiro.

Aqui é o país onde mais morre gente de bala perdida. É também o lugar onde mais se xinga políticos desonestos mandando-os “para os raios que os partam!”.

 

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

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Para imortalizar um nome

 

artigo publicado no jornal O estado do Maranhão

 

Existem termos populares que você nem imagina que tenham sido originados de nomes próprios. Seus donos acabaram se imortalizando  apenas por causa dessa popularização,  o que significa que ter executado um grandioso feito não é condição sine qua non  para ter um nome eternizado. Charles Boycott é um exemplo disso.

Ele foi  um capitão francês que viveu de 1832 a 1897 e teria ficado obscurecido sob os mantos da história não tivesse sido encarregado  pelo conde de Earnes para cobrar impostos extorsivos de trabalhadores empobrecidos . Pois Boycott foi tão açodado  em sua tarefa , que teve sua cobrança solenemente ignorada pelos habitantes da região.  E, assim,  se tornou  o primeiro ‘boicotado’ da história.

Simplesmente aconteceu  que,  a uma atitude corajosa  de repulsa coletiva a uma cobrança, faltava um termo  que a traduzisse, o que faz pensar que novos nomes poderiam ser criados para expressar melhor certas atitudes de quem as executa.  O futuro nos agradeceria se as criássemos:

1.Michelismo. Muitas das ações do nosso presidente, ou todas juntas, ainda não acharam um termo apropriado para traduzir a prodigalidade em traquinagens que o personagem encerra!

Como representar com uma só palavra a atitude de quem chama de bandido àquele que recebe com abraços e beijos, altas horas da noite em sua residência? Ou cujos homens de confiança manuseiam malas de dinheiro com endereçamento obscuro? Ou ao mandatário que compra o apoio de deputados para fugir da cadeia, usando para isso emendas parlamentares? Que tal chamar a tudo isso de Michelismo?

Isso facilitaria enormemente a comunicação futura do brasileiro  já que, ao que tudo indica, as falcatruas continuarão. Podemos imaginar daqui a 30 anos  um deputado, eufórico, antecipando a grana de sua emenda aprovada  e  ofertando-a à sua digníssima esposa “Nosso Natal chique mais uma vez está garantido!” “Como conseguiu , meu amor? “ Ora, querida, Michelismo, pra variar. Isso nunca acabará neste país. Felizmente para nós!”

2.Buenada ou Galvanada. Um neologismo criado a partir das patriotadas de Galvão Bueno (cujo teor se eleva na proximidade das Copas)  poderia definir melhor, através de uma só expressão, esse tipo de patriotismo de araque e  de encomenda que tem sido a marca das transmissões de futebol na tevê . Buenada ou Galvanada ficaria ótimo. Substituiria com precisão o que hoje fica entre exibicionismo e histrionismo podendo sobrepor-se  até mesmo ao preconceituoso e execrável bahianada com que nossos irmãos do sul brindam os nordestinos,  toda vez que alguém comete uma asneira .

3.Geddelânia.O termo sumiço já existe. De esposa, de marido, de dinheiro e de celular etc. Só ainda não existe uma palavra capaz de expressar o sumiço de 55 milhões de reais.

Geddelânia, inspirada em Geddel Vieira, o autor da façanha,  poderia ser criada,  então,  para nomear esse fantástico lugar, onde 55 milhões de reais se amontoam e não aparece dono. Ao invés de Pasárgada, o paraíso proposto pelo poeta Manoel Bandeira onde ‘qualquer homem teria a mulher que gostaria na cama escolhida’ teríamos a Geddelânia como esse lugar paradisíaco da grana farta e sem dono.  Assim,  ao se indagar a alguém na fila da Loteria, o que faria com um prêmio caso fosse sorteado a resposta passaria a ser: adquirir uma Geddelânia. E, assim, resumiria tudo: sumiço, fartura de grana alheia e impunidade.

José Ewerton Neto é autor de O ABC bem humorado de São Luis

 

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