Louvemos a Mãe de Deus

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Por José Sarney

“Numa mulher não se bate nem com uma flor” — esse era o mantra da minha geração. A mulher era o objeto maior da criação. Ninguém tem vida senão através de uma mulher, a criatura mais adorável do mundo, nossa mãe.

O Novo Testamento tem uma protagonista, ao lado de Jesus Cristo, que é Maria. Nossa Senhora é a personagem essencial no nascimento e na morte de seu Filho. Ao receber o anúncio do Anjo Gabriel, Maria responde com o mais belo dos hinos:

“A minha alma exalta o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador! Pois Ele contemplou sua serva humilde. Pois desde agora e para sempre me considerarão bem-aventurada.” (Lc 1,47-48)

A imagem mais desoladora que já houve é a da Mãe com Deus exangue em seus braços. Assim, resolvi que a minha mensagem de Natal fosse uma exaltação Mariana. Não podemos entender que o homem se volte, numa sequência iníqua, a cometer, de uma maneira brutal e permanente, violência contra as mulheres. Que o Natal, cuja figura principal é o Menino Jesus nascido de Maria, ícone da família, não permita que aquela que ele criou para ser a companheira do homem, para que ele não vivesse a solidão do mundo, se transforme em sua vítima, ensanguentada e morta pela maldade do homem.

Nada mais revoltante e ao mesmo tempo humilhante para os homens que a enxurrada de notícias sobre agressões às mulheres, vítimas do ciúme, da dependência familiar, do desajuste, do parceiro violento, do alcoolismo ou até mesmo de formas doentias de desejo sexual, como masoquismo e sadismo — o encontro de satisfação com a dor dos outros, perversão dos sentimentos cuja existência está documentada desde a antiguidade.

O Natal é a festa da família, da solidariedade, do amor, da exaltação da figura de Maria, escolhida por Deus para ser o instrumento de Sua presença na Terra, para que nós tenhamos a certeza de não estarmos sós, mas termos a presença de Jesus Cristo ao nosso lado, para ouvir nossas preces, consolar nossos momentos de angústia e dar-nos instantes de alegria.

O Natal nos traz um momento de felicidade, instante de todos os homens, os anjos cantando a mensagem de Deus: “Paz na terra aos homens de boa vontade.” (Lc 2,14)

Que neste Natal juntemos as nossas preces pedindo a Deus pelas mulheres vítimas de violência, para purificar o coração dos homens do pecado da violência e ver na figura do Deus Menino, do nosso Cristinho, um símbolo de que nas mulheres, nossas mães, mães de todos, Mãe de Deus, não se deve bater, como se dizia na minha infância, “nem com uma flor”.

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São Luís em Dezembro

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Por José Sarney

O sinos do Natal já podem ser ouvidos nos seus sons distantes.

Quando eu era menino e começava, em São Bento, a descobrir o mundo com suas belezas, a primeira coisa que me encantava era o campo verde, lindo tapete de capins: andrequicé, arroz brabo, canarana, capim de marreca. Depois eram os passarinhos que via pousados no fio de telégrafo que atravessava o campo e perdia-se no infinito.

As garças elegantes e brancas olhavam desconfiadas para os lados, sempre atentas a qualquer peixinho que passava nas águas rasas e não escapava de seus bicos. As plantas aquáticas, o mururu, o água-pé, o algodão bravo soltando suas plumas ao vento e os lagos com suas águas de espelho só perturbadas pelas canoas de varas e de remos.

Depois descobri as cores e guardei para sempre na memória os sinos da igreja, tristes no toque de anunciar os que morriam e alegres ao comemorar as festas e aleluias.

A palavra felicidade, disse, está associada à infância. Que encantamento o carinho de nossos pais, a descoberta das cores e o milagre dos arco-íris.

E aí surge o Natal, surge a missa do galo, a espera de Papai Noel, que era pobre como nós e trazia cavalos de vassoura e latas velhas pintadas para improvisados tambores.

Depois começo a conhecer a vida. Vim para São Luís e me apaixonei pela cidade, pelos bondes, pelas ruas, pelos sobrados, que não existiam no interior.

O Natal já era diferente. Tinha bandeirinhas nas ruas e lindos presépios nas igrejas. Os sinos eram de sons fortes, carrilhões que nos sugeriam as alegrias do nascimento do Menino Jesus.

O Natal de hoje vem chegando. É um Natal de Jesus dos comerciantes, vestido de rico, com luzes feéricas em todas as praças e ruas, com festas de amigo invisível, e presentes e mais presentes e as ceias com os perus de granja, sem o gosto dos da minha infância nem a farofa do peito disputada com meus irmãos.

E um mundo em que só se fala em protestos, agitações, greves, assaltos, violência contra as mulheres e em que, mais que a vinda do Redentor, conta a Black Friday com ofertas mirabolantes que despertam fantasias, criam sonhos e geram frustrações.

Mas não quero ser saudosista. Vamos agradecer a Deus a graça da vida, viver Dezembro, com luzes, enfeites e festas, esquecendo o que passa e acreditando que vamos sempre melhorar com o milagre do Nascimento de Deus, ressurreição da esperança.

Jesus Cristinho, como canta o Boi Barrica, será sempre, na palavra de Fernando Pessoa, o menino que “vive na minha aldeia comigo”. De São Bento, de Pinheiro, de São Luís — do Largo do Carmo, do Portinho, da Praia Grande, do Calhau, de Ribamar, do Panaquatira e de Curupu.

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O petróleo é nosso

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Por José Sarney

Na minha adolescência, um grito incendiava nossos pensamentos de patriotismo: “O petróleo é nosso!” Repudiávamos nossa dependência econômica dos países do “primeiro mundo”, principalmente dos Estados Unidos. Os jovens denunciavam a CIA, o entreguismo, o imperialismo americano como os grandes empecilhos ao progresso do País.

Naquele tempo de grande ebulição estudantil, depois da Segunda-Guerra, discutiam-se muito os “ismos”. Eu não me deixei contaminar por nenhum “ismo”, fugi aos aliciamentos ideológicos, para ser aquilo que sempre fui, um liberal, tolerante e humano, seduzido pelos grandes nomes nacionais do antigetulismo e por seu partido, a UDN – União Democrática Nacional. Bem moço, no Liceu, fui da Juventude Brigadeirista.

O petróleo escapava às posições políticas, pois era uma causa nacional. Isto me fez defender a bandeira “o petróleo é nosso”. Pressionado pela onda nacionalista, que envolvia inclusive grande parte das Forças Armadas, Getúlio Vargas mandou ao Congresso o projeto de lei que criava a Petrobrás (Lei nº 2.004). A UDN, contrária a Vargas, apoiou a criação da Petrobrás e fez mais: apresentou a Emenda Bilac Pinto, que estabeleceu o monopólio estatal do petróleo.

A Petrobrás mandou buscar um grande especialista americano em petróleo, Walter Link, da Standard Oil, para mostrar como descobrir os hidrocarbonetos (petróleo). Qual a nossa grande decepção quando Mr. Link, com toda a sua sabedoria, anunciou que o Brasil não tinha petróleo! Foi uma verdadeira revolta. Ele era um traidor, agente da interferência americana em nossos problemas. Mr. Link foi o grande saco de pancadas.

No meu governo, aumentamos nossas reservas de petróleo de 2,3 para 8 bilhões de barris. Mandei mapear todas as bacias sedimentares do Brasil, onde o petróleo se esconde, e descobrimos os maiores campos antes do pré-sal.

O futuro nos mostrou que o petróleo promove o aquecimento global e ameaça o mundo de extinção caso continuemos a poluir. O caminho é a energia limpa: eólica, solar e hídrica.

No desenrolar da novela do petróleo, acabamos de ver a decepção de o grande leilão de petróleo, tão esperado, não ter atraído o investidor internacional. O Ministro de Minas e Energia disse que perdemos o timing: não vendemos o petróleo quando ele valia cem dólares o barril, e hoje ele está em sessenta. Isso nos traz dúvidas se o pré-sal será competitivo.

O mundo está inundado de dinheiro, mas o capital é medroso, prefere a segurança ao lucro.

E o Brasil, com instabilidade, populismo, problemas institucionais, não oferece a segurança que ele deseja.

Assim, “o petróleo é nosso”, que defendemos com tanto ardor, está ameaçado de ser mesmo nosso, mas ficar escondido no fundo do mar.

Coluna do Sarney

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O tiro e a toga

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Por José Sarney

O grande escritor e jornalista, que modernizou a imprensa brasileira, Odylo Costa, filho, contava uma história dos antigos tempos, do início do século XX, no tempo das intervenções salvacionistas, passada com um interventor do Piauí, violento e autoritário, como eram as autoridades daquela época e naquelas circunstâncias ditatoriais. Num Tribunal do Piauí, seu pai, o Desembargador Odylo Costa, foi testemunha da invasão da Corte por um grupo de policiais, que vinha com a ordem do Governo comunicando aos desembargadores que, se concedessem um habeas corpus a um preso que o Interventor tinha mandado encarcerar, ele dissolveria o tribunal.

Mesmo sob essa ameaça, a Casa resolveu conceder o habeas corpus. Foi o quanto bastou para que a polícia entrasse no recinto da Corte, caísse de tiros e dissolvesse a sessão.

Contava Odylo que, graças à prudência do seu pai, eles ainda o tiveram vivo por muitos anos, para alegria de toda a família. É que o velho Odylo, sentindo o clima, foi um dos primeiros a retirar-se. Muito mal dera-se um colega seu, retardatário, que saiu correndo, teve sua toga presa na maçaneta de uma porta e, sem olhar para trás, gritava: “Me larga, soldado, que eu votei contra o habeas corpus.” Outro colega, menos prudente, pegou um tiro nas partes pudendas.

Odylo, numa crônica deliciosa para o “Diário de Notícias”, do Rio de Janeiro, contou esse episódio, que já deve ter uns cem anos.

Recordei-me desse fato pensando que isso era um fóssil jurídico da história da magistratura no Brasil. Não é que agora, para perplexidade nacional, um ex-Procurador-Geral da República diz que foi a uma sessão do STF preparado, com premeditação e bala na agulha, para matar um ministro do Supremo Tribunal Federal. Fato que, graças a Deus, não aconteceu, para a sorte do País, mantendo presente e defendendo os direitos individuais o Ministro Gilmar Mendes; e o Dr. Janot, tomando tranquilamente seu aperitivo, quando podia, por um gesto de ira, ter ido fazer companhia ao colega Fernandinho Beira-Mar no complexo da Papuda.

E nós nos lembramos do provérbio do rei Salomão, que diz: “Nada existe de novo debaixo do sol.”

Mas, certamente, o velho Odylo nunca teve medo da bala dos seus colegas, nem dos representantes da sociedade, função do Ministério Público.

Agora eu acho que, por prudência, como tinha aquele velho magistrado piauiense, não só os juízes, mas também os advogados, devem apegar-se com os santos e com o cumprimento do Estatuto das Armas, exigindo que a Polícia não admita porte de armas nos tribunais e em nenhuma das serventias judiciais, porque senão, em vez de surgir a Justiça que todos vão buscar, pode-se encontrar a bala, que, em vez da vida, traz a morte.

E a deusa da Justiça, que está à frente dos tribunais com os olhos vedados, deve tirar a venda, porque senão ela pode ser atingida por uma bala perdida.

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Todos jovens

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Por José Sarney

Desde sempre o grande desejo do homem é fugir da morte e, para uns mais avançados, com uma juventude eterna. Na Grécia a ambrosia dava imortalidade, na Idade Média os alquimistas chineses e europeus buscavam o elixir da longa vida, a pedra filosofal.

Um dos livros que mais me marcaram foi o do filósofo espanhol Dom Miguel de Unamuno, motivo de lembrança e emoção quando visitei a Universidade de Salamanca, na Espanha, onde ele pontificou — e onde fiz uma conferência sobre os 100 anos de Jorge Amado. O livro era O Sentimento Trágico da Vida, isto é, a visão da morte. Ele defende a tese de que a grande penetração do Cristianismo foi pregar a ressurreição dos corpos, o que quer dizer que nós morremos, mas voltamos com os mesmos corpos. Era uma novidade, porque todas as religiões já pregavam a imortalidade da alma, mas era um ente difuso que não se sabia onde verdadeiramente estava.

Pois não é que agora abro um jornal e vejo a notícia de que a revista Nature, célebre e prestigiosa por divulgar as novidades e descobertas científicas, publica que cientistas americanos descobriram um coquetel do rejuvenescimento.

Bastou a notícia para eu ficar logo animado. O tal coquetel foi descoberto por acaso: eles estudavam a influência de determinado remédio no crescimento da glândula timo quando descobriram que este medicamento, misturado com dois outros, tinha o poder de alterar os DNAs e fazê-los mudar nossa idade numa média de dois anos e meio.

Tive uma primeira dúvida e indagação: esse coquetel influía nos DNAs para aumentar dois anos e meio das nossas vidas ou para diminuí-las em dois anos e meio? Assim, ficaria à nossa escolha: queremos ficar dois anos e meio mais jovens ou queremos prolongar a nossa idade para viver mais em menos tempo? Eles não esclarecem se o remédio é cumulativo ou se uma só dose dá esse resultado.

Lembrei-me logo do Magalhães Pinto que dizia que velho era quem tinha um ano a mais do que ele. Se fosse assim o Magalhães não encontraria mais nenhum velho porque esses já teriam recuado dois anos pelo famoso coquetel.

A minha crença em coquetel é forte, uma vez que foi um deles, apresentado num congresso de Vancouver, que surgiu como esperança para deter a AIDS. Apresentei logo um projeto mandando que ele fosse distribuído gratuitamente a todos os brasileiros com o vírus; esse projeto funcionou e até hoje funciona, diminuindo o sofrimento dos portadores dessa epidemia que atacou a humanidade, associando nos seus males o amor à morte.

São Paulo, repito, já disse isso aqui em meus artigos,pregava sem ressurreiçào não há Cristianismo. Pois agora estes cientistas não promovem a ressurreição, mas nos tornam cada vez mais jovens (ou mais velhos). O diabo é quanto vai custar e quando essa pílula vai aparecer.

Eu, cá por mim, defendendo a minha parte, peço que seja logo, porque não tenho muito tempo mais para esperar. Mas a minha opção será ficar dois anos e meio mais novo, prolongando a minha juventude.

É a ciência a serviço do sonho do homem.

Uma coisa já está resolvida: o coquetel, de saída, dura pelo menos seis meses. Já é a metade do tempo pregado pelo Magalhães Pinto.

Coluna do Sarney

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Eleições municipais

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Por José Sarney

Na minha longa vida política testemunhei muitas mudanças. Mudanças de todo tipo: comecei com a votação em cédulas impressas com o nome do candidato e distribuídas entre os eleitores, que as levavam à mesa eleitoral, onde recebiam um envelope para colocar o voto. Era uma guerra entre cabos eleitorais para formar chapas, substituí-las por outras, o que motivava brigas e pancadarias entre candidatos e entre seus seguidores.

João Francisco Lisboa recuou um pouco mais e escreveu largamente sobre eleições na Antiguidade, desde o “palmômetro” até o “brigômetro“, as eleições a cacete.

Vi mudanças de legislação eleitoral às carradas, costumes parlamentares, maneira de escolha de candidatos; vi baixar o nível das candidaturas e corromper a vontade popular, usando como linha de frente o poder e o dinheiro.

Mas nada como agora, quando surgiu para mim uma novidade extraordinária: os partidos não escolhem os candidatos que têm votos, sob a argumentação de que tiram as possibilidades de eleição dos novatos. Tivemos até, na última eleição, um partido que não aceitava candidatos de eleição certa.

Isso sem dúvida é uma coisa que jamais pensei surgir na disputa eleitoral: os candidatos, para conseguirem entrar na chapa, não podem ser aqueles que tiveram sempre a preferência do povo e se elegeram, mas os que não têm votos e, somando os poucos votos dos novos, criam a possibilidade de o partido ter um ou dois eleitos, geralmente os detentores das direções partidárias.

Assim, a primeira qualidade para ser candidato é não ter votos nem possibilidade de se eleger. Fiquei sem saber qual era a lógica dessa conduta. Assim, a política não é mais a escolha por ideias, por trabalho, por tradição ou pela capacidade de liderar e por já ter sido testado pelas urnas. A experiência não é levada em consideração, nem o trabalho partidário, mas o que conta é não ter voto nem capacidade de angariá-lo. Hoje ganhou status de circulação geral a chamada barriga de aluguel, em que afinal uma barriga, o partido, serve para fazer crescer um filho que não é seu.

Soube, contudo, que a experiência de chapas dos sem-votos, na última eleição, também tornou os partidos que assim procederam em partidos sem representantes: não elegeram ninguém.

Os partidos transformaram-se em cartórios de registro de candidato e estão quase todos morrendo, como morrendo está a democracia representativa.

Como a próxima eleição é municipal, essa técnica está sendo costurada para ela, e ninguém está querendo coligação com partido que tenha vereador eleito. Na eleição passada, as chapas de deputado feitas assim resultaram num grande fracasso.

Essa regra de eleição sem voto nunca pensei que pudesse existir. Pois no Maranhão existe. Só se João Lisboa nascer de novo e escrever, em vez de “eleição na antiguidade”, “eleição na atualidade”…

Coluna do Sarney

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Alegrias e tristezas

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Por José Sarney

Fui matar saudades na Praia Grande, rever o Centro Histórico, cumprir alguns deveres e realizar desejos. O maior deles: visitar a Casa Josué Montello, que preserva o acervo de meu grande amigo, orgulho de nossa terra. Basta lembrar o maior romance sobre a escravidão no Brasil: “Os Tambores de São Luís”, em que ele, por amor, incluiu no título limitativo o nome da cidade em que nasceu. A França bem entendeu isso e, na versão francesa, usou apenas “Les tambours noirs“.

Fiquei feliz. Estive várias vezes com ele na Casa Josué Montello. Muitas tardes no pequeno apartamento em que ele morava com Ivone, conversamos sobre história do Maranhão e literatura. A Casa está impecável. Bem organizada, tratada com mãos de carinho e amor. A visitação do centro cultural é grande.

Depois fui à Livraria AMEI e tive outra satisfação. O imenso acervo só de autores maranhenses continua crescendo e recebo a informação de que se está editando quatro livros por semana no Maranhão. Novos talentos, grandes temas, jovens autores.

Em seguida, andei pelo Desterro e aí acabou minha alegria. Sua igreja está desmoronando — e ela é a mais antiga da cidade, com seu estilo único. Felizmente, temos Kátia Bogéa, que vai restaurá-la, como está fazendo por toda a cidade. Já concluiu a da Praça Deodoro e a da Rua Grande; agora começa a do Largo do Carmo e planeja muitas outras realizações. Ela, que é um exemplo de administradora, talentosa, inteligente, dedicada e com grandes serviços já prestados ao Maranhão e ao Brasil, está dando um show na sua atual administração do IPHAN pelo Brasil inteiro.

Mas quase chorei — se não chorei mesmo — ao ver as ruas abandonadas, esburacadas, três mil camelôs nas calçadas; os sobradões caindo, as placas de “Aluga-se” e “Vende-se” como a decoração da decadência.

Recordo quando fui governador

A cidade só tinha paralelepípedos soltos, pedras desmanchando-se. Fiz o calçamento de toda a cidade. Toda mesmo. O asfaltamento que resiste até hoje é do meu tempo. Faltava água, construí o novo sistema com as grandes caixas d’água que hoje marcam a paisagem de São Luís; fiz a barragem e adutora do Batatã; ampliei a estação de tratamento do Sacavém e mudei a encanação da cidade, feita na década de 20, no tempo do Governador Godofredo Viana.

Não fiz só a Barragem do Bacanga, a Ponte do Caratatiua, a de S. Francisco, as habitações do Anil, a Avenida Kennedy, a dos Franceses, o Hospital Carlos Macieira, a TV Educativa, as faculdades e a universidade. Toda a cidade foi bem tratada.

Agora vejo São Luís desse jeito. Trânsito caótico, bairros chorando por melhores condições de vida.

Estou com medo de perdermos o título dePatrimônio CUltural da Humanidade. Assumimos com a Unesco o compromisso de conservar São Luís e fazer dela referência turística.

O espaço é pouco para falar mais. Não é uma crítica: é um pedido de socorro.

Coluna do Sarney / O Estado

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A Estrada das Onças

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Por José Sarney

A Estrada de Ferro Norte-Sul, pela qual paguei um alto preço e que foi combatida fortemente por aqueles que consideram a política acima do interesse público, está em fase de conclusão. Se tivessem permitido que a fizesse durante o meu governo, o Brasil seria outro hoje.

Sempre defendi o modelo ferroviário e por isso recebi um boné de maquinista da Associação dos Ferroviários, que até hoje guardo com o maior carinho. As estradas de ferro foram o transporte do passado e agora ressurgem como o transporte do futuro, com um horizonte aberto pelas novas tecnologias de construção e trens de alta velocidade.

Há três dias o governo assinou o contrato de concessão de dois ramos prontos da Norte-Sul, com o governo recebendo um ágio de 109,2 % acima do piso da licitação, isto é, dois bilhões e setecentos e dezenove milhões de reais, quando o preço mínimo era de um bilhão e trezentos milhões.

A disputa pela estrada foi tão grande que a RUMO, empresa vencedora, ouviu do Ministro dos Transportes a afirmação de que “a Norte-Sul é espinha dorsal dos transportes no Brasil”. Quando lancei a Ferrovia Norte-Sul, quase toda a imprensa dizia que a estrada seria uma desgraça para o Brasil, porque era “um golpe do Sarney para levar as cargas brasileiras para embarcar no Maranhão, no Porto do Itaqui, dinheiro botado fora”. O tempo é mesmo o grande mestre da razão: hoje vejo todos a favor da estrada e ela já está dando dinheiro para o País.

O tráfego é caótico 

Realmente, o Brasil precisa com urgência construir mais estradas de ferro. O modelo rodoviário está morto. As cidades estão saturadas de veículos, não se anda mais, o tráfego é caótico. As rodovias acabadas e engarrafadas. Esse o principal componente do “custo Brasil”, que diminui nossa competitividade internacional. E o mais grave: o País na mão dos operadores de transporte. Eles podem parar o Brasil a qualquer hora, estamos reféns de sua vontade. Basta uma greve. A que foi feita no final do ano passado provou isso.

São Luís, como um dos dez melhores portos mundiais, será no futuro o grande curador dessa tragédia.

Foram necessários muitos anos para que se abrissem os olhos da razão, e todos reconhecessem que se parou o Brasil.

Mas agora fico feliz. Dei ao Maranhão porto, estrada e energia. Temos a grande estrutura nacional para sermos o grande São Paulo do Norte-Nordeste.

Em vez de “estrada das onças”, como diziam quando a atacavam, hoje a Ferrovia Norte-Sul é a “estrada da salvação”.

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São Luís, os velhos ainda sonham

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Por José Sarney

Nossa cidade de São Luís está cada vez mais decadente. Sem empregos e sem perspectivas de futuro. Já falei aqui que é preciso pensar na cidade.

Hoje, o turismo é uma das indústrias mais dinâmicas no mundo. Portugal hoje, como o resto da Europa, tem o turismo como uma de suas principais fontes de renda. O Nordeste brasileiro já está usufruindo de seus benefícios. Fortaleza, por exemplo, é um destino muito procurado pelos europeus. Voos turísticos internacionais chegam hoje a muitos destinos do Brasil.

Precisamos planejar e montar a logística para atrair empresas de turismo e turistas. São Luís tem tudo para isso. Primeiro, é Patrimônio Cultural da Hmanidade segundo, é o terceiro porto do Brasil. Mas ambas as vocações, turística e portuária, estão abandonadas.

O Centro Histórico é o maior conjunto colonial português, com seus sobradões, seus azulejos, seu casario, suas ladeiras e seus mirantes. Mas a cada inverno ele se deteriora mais. A UNESCO já até ameaçou que, se continuar assim, vai nos tirar o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.

São Luís tem história

Três dominações: francesa, holandesa e portuguesa. No Império, tornou-se um centro de irradiação cultural.

Mas turismo? Nada.

Outro dia fui visitar a zona do Porto. Está em decadência, desorganizada e desleixada. Precisamos planejar, sob o ponto de vista turístico, o Porto. Não o porto de águas, mas a parte terrestre. Poderíamos receber os grandes transatlânticos turísticos no Porto do Itaqui. Mas é necessário criar atrativos, estrutura e infraestrutura.

Quando Senador do Amapá incentivei muito os prefeitos a transformarem Macapá num atrativo turístico. Lá existe uma belíssima fortaleza do século XVIII, a Fortaleza de S. José do Macapá. Sugeri que se fizesse um museu, ultramoderno, para mostrar a madeira da Amazônia e o Parque do Tumucumaque, conhecido por sua biodiversidade. Consegui o projeto — que entreguei ao Estado — com o grande arquiteto João Filgueira Lima, o Lelé. Pensei ainda em fazer uma praia artificial na frente da cidade, como se fez em Copacabana.

Alberto Silva, Governador do Piauí, um sonhador e idealista, para atrair visitantes, planejou em Teresina um observatório gigantesco de óvnis, isto é, discos voadores!!!

São Luís tem duas vocações, a portuária e a cultural. Temos de dinamizá-las, fazer da Ilha do Amor também a Ilha da Beleza Histórica, valorizar nossas praias, modernizar e aumentar nossos museus. Sua parte viária é boa, com viadutos e grandes avenidas feitas por Roseana.

Enfim, este é o caminho da riqueza, da vocação da cidade, para criar empregos e desenvolvimento.

Quero ver São Luís com Aeroporto Internacional, o Porto do Itaqui no roteiro do turismo internacional, com transatlânticos desembarcando milhares de visitantes.

E quem diz São Luís, diz Maranhão. De São Luís indo aos Lençóis — o mais belo deserto à beira-mar do mundo, com suas lagoas coloridas. À Chapada das Mesas, com sua beleza e suas cachoeiras.

E por último, mas principal, ver um povo acolhedor, simpático, hospitaleiro. Prefeito, vá por aí. Os velhos ainda sonham.

*Coluna do Sarney

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Dom Felipe e o Carnaval

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Por José Sarney

Dom Felipe — Dom Felipe Benito Conduru Pacheco, grande intelectual, glória de São Bento, de onde era filho — escreveu muitos livros, dentre eles Pai e Mestre, biografia de seu progenitor Benício Conduru, que abriu a vala e fez a comporta no Rio Aurá, para facilitar o acesso à cidade de São Bento, e uma história da Igreja — História Eclesiástica do Maranhão — fundamental para o estudo da evangelização no Estado. Foi bispo de Parnaíba, onde aposentou-se. Já velho, morava aqui no Palácio Episcopal, sendo arcebispo Dom João Motta. Governador, eu recebia sempre uns bilhetes de Dom Felipe, a quem dedicava uma deferência especial, pois fora ele quem me batizara em 1930.

Meu slogan de governo era “Maranhão Novo”, numa empolgação por realizar as grandes obras que mudaram o Maranhão, como o porto do Itaqui, a São Luís-Teresina, a universidade, as faculdades, e com o grande desenvolvimento que conseguíamos. Pois bem, passado o Carnaval de 1967, recebi uma carta de Dom Felipe, dizendo: “Governador Sarney: Enquanto não se acabar com a devassidão do Carnaval, não fale em Maranhão Novo.” Ele não se conformava com os populares “bailes de máscara”, com as mulheres todas vestidas de “dominó” e mascaradas — e assim livres de ser identificadas e podendo se esbaldar. Nas portas havia sempre uma comissão de reconhecimento para evitar a entrada de prostitutas ou de homens vestidos de mulher.

Era uma atração especial e característica do carnaval de nosso Estado e se tivessem continuado acho que seria um atrativo especial para os turistas que marcaria o Maranhão.

O nosso saudoso Cafeteira, Prefeito de São Luís, como Dom Felipe, também não gostava dessa liberdade carnavalesca e proibiu os bailes de máscara. Fez-se até uma marchinha muito cantada, que dizia “Cafeteira não quer / Máscara neste Carnaval”, o que provocou uma grande discussão, uns apoiando e outros, inclusive eu, protestando, querendo que continuassem, pois faziam parte de nossa tradição.

Assim, esta discussão sobre a liberdade de costumes liderada pelo Rei Momo, não é nova, vem de longe e o povo gosta. Mas sempre houve exagero e hoje, com a destruição dos valores cristãos, a coisa fica de jacaré nadar de costa.

Acima dos excessos, que devemos condenar e policiar, não há coisa mais bonita e brasileira do que a alegria explosiva e contagiante do nosso povo, nas suas fantasias e ritmos.

Os mascarados não desapareceram somente do Maranhão, mas do Brasil inteiro, pois o que quase todos querem é mostrar a cara. Enquanto isso Dom Felipe está no céu, pedindo ao Criador que acabe a devassidão, e Cafeteira se conforta com a exibição dos biquínis nos belos corpos das mulheres que passam nos extraordinários carros dos desfiles das Escolas de Samba.

Coluna do Sarney

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