Todos jovens

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Por José Sarney

Desde sempre o grande desejo do homem é fugir da morte e, para uns mais avançados, com uma juventude eterna. Na Grécia a ambrosia dava imortalidade, na Idade Média os alquimistas chineses e europeus buscavam o elixir da longa vida, a pedra filosofal.

Um dos livros que mais me marcaram foi o do filósofo espanhol Dom Miguel de Unamuno, motivo de lembrança e emoção quando visitei a Universidade de Salamanca, na Espanha, onde ele pontificou — e onde fiz uma conferência sobre os 100 anos de Jorge Amado. O livro era O Sentimento Trágico da Vida, isto é, a visão da morte. Ele defende a tese de que a grande penetração do Cristianismo foi pregar a ressurreição dos corpos, o que quer dizer que nós morremos, mas voltamos com os mesmos corpos. Era uma novidade, porque todas as religiões já pregavam a imortalidade da alma, mas era um ente difuso que não se sabia onde verdadeiramente estava.

Pois não é que agora abro um jornal e vejo a notícia de que a revista Nature, célebre e prestigiosa por divulgar as novidades e descobertas científicas, publica que cientistas americanos descobriram um coquetel do rejuvenescimento.

Bastou a notícia para eu ficar logo animado. O tal coquetel foi descoberto por acaso: eles estudavam a influência de determinado remédio no crescimento da glândula timo quando descobriram que este medicamento, misturado com dois outros, tinha o poder de alterar os DNAs e fazê-los mudar nossa idade numa média de dois anos e meio.

Tive uma primeira dúvida e indagação: esse coquetel influía nos DNAs para aumentar dois anos e meio das nossas vidas ou para diminuí-las em dois anos e meio? Assim, ficaria à nossa escolha: queremos ficar dois anos e meio mais jovens ou queremos prolongar a nossa idade para viver mais em menos tempo? Eles não esclarecem se o remédio é cumulativo ou se uma só dose dá esse resultado.

Lembrei-me logo do Magalhães Pinto que dizia que velho era quem tinha um ano a mais do que ele. Se fosse assim o Magalhães não encontraria mais nenhum velho porque esses já teriam recuado dois anos pelo famoso coquetel.

A minha crença em coquetel é forte, uma vez que foi um deles, apresentado num congresso de Vancouver, que surgiu como esperança para deter a AIDS. Apresentei logo um projeto mandando que ele fosse distribuído gratuitamente a todos os brasileiros com o vírus; esse projeto funcionou e até hoje funciona, diminuindo o sofrimento dos portadores dessa epidemia que atacou a humanidade, associando nos seus males o amor à morte.

São Paulo, repito, já disse isso aqui em meus artigos,pregava sem ressurreiçào não há Cristianismo. Pois agora estes cientistas não promovem a ressurreição, mas nos tornam cada vez mais jovens (ou mais velhos). O diabo é quanto vai custar e quando essa pílula vai aparecer.

Eu, cá por mim, defendendo a minha parte, peço que seja logo, porque não tenho muito tempo mais para esperar. Mas a minha opção será ficar dois anos e meio mais novo, prolongando a minha juventude.

É a ciência a serviço do sonho do homem.

Uma coisa já está resolvida: o coquetel, de saída, dura pelo menos seis meses. Já é a metade do tempo pregado pelo Magalhães Pinto.

Coluna do Sarney

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Minha São Luís dos franceses

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Por José Sarney

São Luís tem nome de Rei, Rei Santo e povo sem pecados. Pensava-se que os franceses tinham aqui passado três anos. Da chegada (1612) de La Ravardière e seu frades do convento de Saint Honoré até 1614, quando Jerônimo de Albuquerque e Diogo de Campos Moreno.

Quando chegou a Guaxenduba, Albuquerque avisou a seu Capitão de Campo: — “Amanhã terei índios do Maranhão comigo”. E apostou dois pares de meia de seda…

Teve, ganhou a batalha e assinou no documento da rendição, juntando ao seu nome o do nosso Estado: “Jerônimo da Albuquerque Maranhão”. Daí os Albuquerques Maranhão!

Essa era a história da memória e dos arquivos portugueses. Depois os arquivos franceses mostraram que franceses passaram aqui, não 3, mas 8 anos!…

Conta Abeville que os caciques locais levaram de presente para os frades umas indiazinhas, cheirando a flores e águas dos rios da Ilha, onde banhavam-se o dia inteiro. Diferente das mulheres francesas, com dez peças de roupas, sem banho e cheiro de corpo. Os frades recusaram. Os caciques ficaram furiosos e disseram: — Como vocês recusam nossas filhas que lhes oferecemos, se há 40 anos os franceses com elas têm filhos?

Assim, esse amor que nós devotamos aos franceses, numa cidade tão portuguesa, vem do sangue. Essas lindas caboclas, gente do nosso povo, que encontramos de olhos azuis, cabelos loiros, mulatos cambaios guardam dos fundadores, nos genes que os séculos não apagam, a singularidade do nosso Maranhão.

Tenho muito orgulho de possuir uma relíquia única daqueles tempos: os franceses, sem saber que La Ravardiére tinha sido derrotado na Batalha de Guaxenduba, o forte já era português, os franceses expulsos, mandaram reforço para missão dos frades capuchinhos. Chefiava o frade Bourdemére, cujo retrato do século 17 comprei de um colecionador em Paris, depois de descoberto por Napoleão Sabóia.

Cheguei a São Luís aos doze anos. Aqui vivi todos os amores da minha vida. Da cidade, da família, da esposa, dos filhos, dos amigos, dos poetas, do sonho de transformá-la, pela minha mão, riscando avenidas às quais dei os nomes dos conquistadores e venerando todos os seus valores.

A cada 8 de Setembro ouço o ruído das águas das carrancas do Ribeirão. Elas falam da eternidade dos nossos valores, das louças da China, dos marinheiros que aqui passaram, das caravelas de todos os mares, dos nossos irmãos da África, de Angola, da Mina dos nagôs, dos cabindas, dos mandingas e de todos os santos.

Cidade sem pecado, da convivência e do amor.

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Está quem manda

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Por José Sarney

Nos meus primeiros meses como Presidente da República, tive que aprender a rotina das solenidades militares, sempre muito bem organizadas, com fórmulas estabelecidas há décadas e impecável respeito a horário e cerimonial. Justamente neste aprendizado, cometi uma das maiores gafes ao ser recebido no Corpo de Fuzileiros Navais de Brasília, no Dia da Marinha.

Diante da tropa formada estava o Ministro da Marinha, Almirante Henrique Saboia, um dos melhores homens públicos que conheci, grande profissional, mas sobretudo personalidade de honradez, cultura e sensatez. Devo-lhe grande ajuda de conselhos, recomendações e solidariedade.

Quando cheguei, ele, com grande garbo, deu a ordem a sua tropa, conforme os costumes navais, seguida pelo toque dos apitos dos marinheiros, e abriu a solenidade, anunciando: —”Está quem Manda!”

Eu, novato em ser o Comandante em Chefe das Forças Armadas, entendi a saudação do Almirante Saboia como “Está queimando.” Abandonei a postura solene de Comandante para me voltar, à procura de onde vinha o fogo. Fui socorrido por meu ajudante de ordens, Major Heitor, a explicar-me que não havia fogo e sim a saudação naval. Até hoje conto com vergonha minha gafe aos almirantes amigos.

Essa foi a exclamação que me veio à cabeça quando recebi a trágica notícia do que acontece na Amazônia, lembrando-me daquele tempo. Desta vez está queimando mesmo, e muito, e escandalosa e catastroficamente fora de controle a nossa Amazônia.

Quando caiu o muro de Berlim, com o fim da utopia socialista, nasceu a ideologia do Meio Ambiente. O Brasil foi colocado no banco dos réus sob a alegação de que destruía a Amazônia, pulmão do mundo — por produzir uma sobra de oxigênio, o que não é verdadeiro, o papel pertence às algas marinhas. A Amazônia é fundamental para a humanidade porque é a maior floresta úmida, tem a maior diversidade e faz, aí sim, a regulação do clima mundial.

Minha reação, eu que sou ambientalista, amante da Natureza, humanista, foi contestar o que não era verdadeiro como teoria, reconhecer que desde a Colônia o Brasil tinha descuidado de enfrentar o problema do Meio Ambiente e trabalhar. Criei o “Programa Nossa Natureza” — com a ajuda dos ministros Bayma Denis e João Alves —, o Ibama e toda uma estrutura nacional de órgãos e institutos de natureza científica e tecnológica, a começar pelo monitoramento das queimadas. Fomos o primeiro país no mundo a dedicar ao Meio Ambiente um capítulo da Constituição, trabalho dos deputados Feldman e Sarney Filho.

Respondi à comunidade internacional reivindicando para o Brasil a Conferência Mundial do Meio Ambiente, com os embaixadores Paulo Tarso, Ricúpero e Seixas Corrêa pedindo apoio para a candidatura do Rio de Janeiro. A Conferência Rio-92 foi um sucesso e cumpriu sua finalidade. Assim saímos do banco dos réus.

Agora, devemos fazer uma mobilização nacional contra o fogo. Começar pelos municípios, com brigadas de voluntários, chamar os Estados à colação e fazer um grande mutirão nacional.

Vamos dar uma resposta correta. Nada de retórica, tudo de trabalho.

Como eu entendi o que disse o Ministro Saboia: “Está queimando!”

Coluna do Sarney

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Eleições municipais

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Por José Sarney

Na minha longa vida política testemunhei muitas mudanças. Mudanças de todo tipo: comecei com a votação em cédulas impressas com o nome do candidato e distribuídas entre os eleitores, que as levavam à mesa eleitoral, onde recebiam um envelope para colocar o voto. Era uma guerra entre cabos eleitorais para formar chapas, substituí-las por outras, o que motivava brigas e pancadarias entre candidatos e entre seus seguidores.

João Francisco Lisboa recuou um pouco mais e escreveu largamente sobre eleições na Antiguidade, desde o “palmômetro” até o “brigômetro“, as eleições a cacete.

Vi mudanças de legislação eleitoral às carradas, costumes parlamentares, maneira de escolha de candidatos; vi baixar o nível das candidaturas e corromper a vontade popular, usando como linha de frente o poder e o dinheiro.

Mas nada como agora, quando surgiu para mim uma novidade extraordinária: os partidos não escolhem os candidatos que têm votos, sob a argumentação de que tiram as possibilidades de eleição dos novatos. Tivemos até, na última eleição, um partido que não aceitava candidatos de eleição certa.

Isso sem dúvida é uma coisa que jamais pensei surgir na disputa eleitoral: os candidatos, para conseguirem entrar na chapa, não podem ser aqueles que tiveram sempre a preferência do povo e se elegeram, mas os que não têm votos e, somando os poucos votos dos novos, criam a possibilidade de o partido ter um ou dois eleitos, geralmente os detentores das direções partidárias.

Assim, a primeira qualidade para ser candidato é não ter votos nem possibilidade de se eleger. Fiquei sem saber qual era a lógica dessa conduta. Assim, a política não é mais a escolha por ideias, por trabalho, por tradição ou pela capacidade de liderar e por já ter sido testado pelas urnas. A experiência não é levada em consideração, nem o trabalho partidário, mas o que conta é não ter voto nem capacidade de angariá-lo. Hoje ganhou status de circulação geral a chamada barriga de aluguel, em que afinal uma barriga, o partido, serve para fazer crescer um filho que não é seu.

Soube, contudo, que a experiência de chapas dos sem-votos, na última eleição, também tornou os partidos que assim procederam em partidos sem representantes: não elegeram ninguém.

Os partidos transformaram-se em cartórios de registro de candidato e estão quase todos morrendo, como morrendo está a democracia representativa.

Como a próxima eleição é municipal, essa técnica está sendo costurada para ela, e ninguém está querendo coligação com partido que tenha vereador eleito. Na eleição passada, as chapas de deputado feitas assim resultaram num grande fracasso.

Essa regra de eleição sem voto nunca pensei que pudesse existir. Pois no Maranhão existe. Só se João Lisboa nascer de novo e escrever, em vez de “eleição na antiguidade”, “eleição na atualidade”…

Coluna do Sarney

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Alegrias e tristezas

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Por José Sarney

Fui matar saudades na Praia Grande, rever o Centro Histórico, cumprir alguns deveres e realizar desejos. O maior deles: visitar a Casa Josué Montello, que preserva o acervo de meu grande amigo, orgulho de nossa terra. Basta lembrar o maior romance sobre a escravidão no Brasil: “Os Tambores de São Luís”, em que ele, por amor, incluiu no título limitativo o nome da cidade em que nasceu. A França bem entendeu isso e, na versão francesa, usou apenas “Les tambours noirs“.

Fiquei feliz. Estive várias vezes com ele na Casa Josué Montello. Muitas tardes no pequeno apartamento em que ele morava com Ivone, conversamos sobre história do Maranhão e literatura. A Casa está impecável. Bem organizada, tratada com mãos de carinho e amor. A visitação do centro cultural é grande.

Depois fui à Livraria AMEI e tive outra satisfação. O imenso acervo só de autores maranhenses continua crescendo e recebo a informação de que se está editando quatro livros por semana no Maranhão. Novos talentos, grandes temas, jovens autores.

Em seguida, andei pelo Desterro e aí acabou minha alegria. Sua igreja está desmoronando — e ela é a mais antiga da cidade, com seu estilo único. Felizmente, temos Kátia Bogéa, que vai restaurá-la, como está fazendo por toda a cidade. Já concluiu a da Praça Deodoro e a da Rua Grande; agora começa a do Largo do Carmo e planeja muitas outras realizações. Ela, que é um exemplo de administradora, talentosa, inteligente, dedicada e com grandes serviços já prestados ao Maranhão e ao Brasil, está dando um show na sua atual administração do IPHAN pelo Brasil inteiro.

Mas quase chorei — se não chorei mesmo — ao ver as ruas abandonadas, esburacadas, três mil camelôs nas calçadas; os sobradões caindo, as placas de “Aluga-se” e “Vende-se” como a decoração da decadência.

Recordo quando fui governador

A cidade só tinha paralelepípedos soltos, pedras desmanchando-se. Fiz o calçamento de toda a cidade. Toda mesmo. O asfaltamento que resiste até hoje é do meu tempo. Faltava água, construí o novo sistema com as grandes caixas d’água que hoje marcam a paisagem de São Luís; fiz a barragem e adutora do Batatã; ampliei a estação de tratamento do Sacavém e mudei a encanação da cidade, feita na década de 20, no tempo do Governador Godofredo Viana.

Não fiz só a Barragem do Bacanga, a Ponte do Caratatiua, a de S. Francisco, as habitações do Anil, a Avenida Kennedy, a dos Franceses, o Hospital Carlos Macieira, a TV Educativa, as faculdades e a universidade. Toda a cidade foi bem tratada.

Agora vejo São Luís desse jeito. Trânsito caótico, bairros chorando por melhores condições de vida.

Estou com medo de perdermos o título dePatrimônio CUltural da Humanidade. Assumimos com a Unesco o compromisso de conservar São Luís e fazer dela referência turística.

O espaço é pouco para falar mais. Não é uma crítica: é um pedido de socorro.

Coluna do Sarney / O Estado

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Itaqui porto do mundo

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Por José Sarney

A Agência Nacional de Transportes Aquaviários – ANTAQ, reguladora dos portos, em audiência pública realizada em São Luís, com a presença de seu Diretor Geral, Mário Povia, anunciou a licitação de mais quatro áreas no Itaqui, para importar e armazenar combustível, uma das mercadorias que alimentarão o frete de volta da Norte-Sul. Atualmente o combustível de tratores e máquinas da região Centro-Oeste e da região do Matopiba, principais responsáveis pelas centenas de milhões de toneladas de soja que exportamos, é transportado por via rodoviária, cara, ou das refinarias do Sudeste ou dos estoques importados via Paranaguá, no Paraná.

Há alguns anos, escrevi um livro, Maranhão, Sonho e Realidade, no qual disse que o Criador não tinha sido muito generoso com o Maranhão, pois não nos deu nenhum minério, mas terras fracas que necessitam, para se tornarem agricultáveis, de calcário para retirar a acidez do solo. Só temos uma pequena parte de terra realmente boa, na região de Fortaleza dos Nogueiras.

Hoje, na minha velhice, vejo o engarrafamento de navios levando do Maranhão para todo o mundo carga de minérios e — já hoje — soja e outros grãos.

A única riqueza que Ele nos deu foi o Porto do Itaqui, que dizia eu ser “a maior dádiva de Deus ao Maranhão”. E acrescentava que “em torno de um grande porto florescem as mais importantes economias da Terra”. Por isso eu, com uma equipe pequena, com Bandeira Tribuzzi e Emiliano Macieira, ainda como candidato, lancei a minha plataforma de governo girando em torno do Itaqui. Governador, enfrentei uma guerra para construí-lo e outra maior com o Pará e o Sudeste, para escoar Carajás por aqui, o que respondia a indagação com que seus adversários o condenavam: “o que exportar pelo Itaqui?”

Mas o Complexo Portuário do Itaqui, hoje já com nome pomposo, nos diz mais. Presidente da República, enfrentei outra luta pela qual paguei preço alto: fazer a Norte-Sul, cortando com a ferrovia o Brasil de Norte a Sul, para escoar a maior parte da produção nacional pelo Maranhão.

Agora vem uma notícia boa que completa essa visão. Do outro lado da Baía de São Marcos, o canal tem a profundidade de 25 metros (o do Itaqui tem 23), o que possibilita construir ali o moderno porto da Base de Alcântara e outro grande porto com cerca de trinta berços. Dali sairá outra estrada de ferro, de 200 quilômetros, para ligá-los com a Norte-Sul. Alcântara renascerá das cinzas, entre vários portos, retro-portos e uma das mais avançadas bases de lançamento de satélites do mundo.

São Luís e o Maranhão, então, no entorno do Itaqui, serão referência de uma grande civilização, de um grande polo de desenvolvimento. Não estarei mais vivo, mas alguém lembrar-se-á que este velho sonhador sonhou com tudo isso.

Depois falaremos da Base de Alcântara e do que será o grande Complexo Portuário da Baía de São Marcos.

Profecia confirmada.

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Deputado, o amigo

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Por José Sarney

Afinal a Reforma da Previdência passou em primeiro turno. Primeira etapa vencida. Mas nos deixou muitos exemplos. O primeiro deles a total falência dos partidos. Foi preciso o Presidente Rodrigo Maia, que demonstrou uma extraordinária competência para construir uma engenharia política para viabilizá-la, ocupar o lugar do Executivo e articular uma maioria extraordinária dentro da Câmara, usando das práticas que fazem do regime democrático o melhor — na expressão de Churchill, “o pior do mundo, fora todos os outros”.

Quais são elas? O diálogo, a negociação, a articulação entre os partidos, a sensibilidade para aferir a opinião pública e, a maior de todas, o convencimento da classe política de ser a matéria de interesse público inadiável.

O Executivo durante todo o processo pareceu perdido num cipoal que o levou a substituir dois ministros de articulação política e de retirar a tarefa da mão de outro que se mostrou inapetente para a tarefa, dada suas relações com o Presidente da Câmara. O próprio Presidente da República teve de ir e vir, trocando farpas, nas quais era possível ver sombras da política do Rio de Janeiro.

Outro ângulo foi a constatação já conhecida da fragmentação dos partidos (trinta e três) de funcionar como tal, tendo como base a disciplina e a coerência de pontos de vistas, já que nenhum deles tem programa a executar — estes são apenas objetivos difusos esquecidos nas letras mortas dos Estatutos partidários, não lidos pelos representantes nem ao menos encontrados impressos, sobreviventes apenas pela descoberta da internet, onde é possível encontrá-los sob a guarda do Professor Google.

Em nossa democracia representativa os representantes eleitos não representam nada.Dez dias depois de cada eleição, eles não sabem das ideias que os levaram aos parlamentos, a maior delas votar no amigo, o apoio de cabos eleitorais, alguns cartazes e, hoje, algumas mensagens conjunturais nas redes sociais. Basta ver na votação da Reforma da Previdência que os principais entraves — causa das maiores discussões — eram as reivindicações corporativas de sindicalistas, evangélicos, ativistas femininas, minorias discriminadas (LGBT), ruralistas e outros menos votados. São interesses setoriais defendidos por grupos corporativos.

Hoje, já é unanime a constatação de que a única legitimidade que resistiu nos parlamentos é a geográfica, isto é, a que existe nos países em que usam o voto distrital, onde o deputado representa o território e a população do seu distrito e por isso mesmo, repetimos, é legitimo.

Há 40 anos apresentei no Senado um projeto de Voto Distrital, que pode ser misto ou puro. Dorme no sono profundo dos Anais do Congresso Nacional, que Golbery dizia serem o único lugar em que se pode guardar um segredo.

Enquanto isso, todos, tendo à frente os cientistas políticos, são unânimes em afirmar que a democracia representativa agoniza.

Sua única e visível legitimidade passa a ser, na hora de votar, ter amigo e ser amigo do eleitor.

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Adriano afirma que seu mandato não é sujeito a acordos

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O deputado estadual Adriano Sarney (PV), líder da oposição na Assembleia Legislativa, se manifestou hoje, terça-feira (2), sobre o encontro entre o governador Flávio Dino e o ex-presidente José Sarney, na última quarta-feira (26), em Brasília. (Clique aqui e veja o pronunciamento).

Adriano confirmou que que houve um acordo entre Flávio Dino e José Sarney. O parlamentar ainda criticou o histórico recente do comunista que “demoniza” adversários e depois pede apoio. “Ele fez isso com o João Castelo, com o Aécio Neves, com o Jackson e com vários outros. A história política de Flávio Dino é direcionada pelo oportunismo político”.

Apesar de expor o acordo, ele reiterou que seu mandato pertence ao povo que o elegeu para fazer oposição ao governo atual. Além disso, não há a mínima possibilidade de que um acordo formulado na semana passada mude sua postura no parlamento. Adriano irá permanecer na oposição ao comunista. 

“Esse acordo certamente não me envolverá jamais. Porque neste mandato o titular sou eu, e eu vou até o final independente de acordos políticos”, disse o deputado.

Adriano afirmou que não cabe a ele expor os detalhes do acordo. “Não sou eu quem devo apresentar as particularidades do que foi conversado entre José Sarney e Flávio Dino. Mas houve sim acordo e o povo do Maranhão vai presenciar esses detalhes futuramente”, reiterou.

Foto: Agência Assembleia

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O real e o cruzado

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Por José Sarney

Celebramos no dia 1º de julho o 25 anos do real, a moeda criada pelo bem-sucedido plano para baixar a inflação brasileira a níveis que permitem aos agentes econômicos a previsibilidade orçamentária, pilar da economia de mercado.

Quando, em 1985, assumi a presidência da República, herdei uma forte inflação, provocada, em grande parte, pela combinação de preços do petróleo, descontrole da dívida externa e conjuntura das taxas internacionais Libor e prime rate — que se mantiveram muito altas no meu governo, chegando a 9,3 e 10,9 (naqueles anos, descontada a inflação, as taxas chegaram a ser negativas para o mundo industrial).

A solução do FMI era a recessão econômica, que tinha um preço social impagável, a refletir-se, sobretudo, no nível de emprego. Nada se compara à angústia de quem não pode suprir as necessidades de sua família e, tendo disposição para trabalhar, não encontra oportunidade — e volto a lembrar o drama dos 42 milhões de trabalhadores que hoje ou estão procurando emprego sem encontrar ou desistiram de procurar ou trabalham no mercado informal sem qualquer garantia e, impossibilitados de contribuir para a Previdência, veem o anúncio de sua falência.

Não aceitei este caminho. Com João Sayad, resolvemos examinar o caminho heterodoxo de Israel. Para lá enviamos Pérsio Arida, e ele, com André Lara Resende e Francisco Lopes, formulou o esboço do que seria o Plano Cruzado.

Quando me expuseram o plano, disseram ter dúvidas que algum presidente tivesse coragem de decretar congelamento de preços. Eu tive a coragem de adotar todo o Plano Cruzado, inclusive os ajustes salariais que pensavam necessários para enfrentar o lado recessivo do plano.

O plano introduziu no País a participação da sociedade na vida pública, que começou com os “fiscais do Sarney”. O crescimento econômico foi de 119% naqueles cinco anos, só igualado no governo Lula. A inflação, que só atingiu o pico depois do meu governo, era compensada pela correção monetária, de modo que, para os assalariados, o efeito inflacionário era muito menor. O desemprego atingiu a menor taxa de nossa História, e os trabalhadores tiveram, finalmente, acesso à sociedade de consumo.

A mesma equipe fez o Plano Cruzado e o Plano Real, valendo-se da experiência do primeiro para acertar no segundo. A coragem de fazer o Plano Cruzado, primeira experiência de solução heterodoxa da inflação, permitiu o Real. Parabéns a Fernando Henrique, a cuja persistência deve-se o sucesso do Plano Real, e a Itamar, que o viabilizou.

Devemos ressaltar ainda dois homens decisivos: Rubens Ricúpero, mártir do Real, atingido por afirmação óbvia e menor de que não devemos divulgar nossos males, e Bill Clinton, amigo de FHC, que num momento de crise de 98 ajudou injetando 70 bilhões de dólares em nosso País.

Já lhes falei da recomendação do provérbio chinês de que, se você vai beber água num poço, deve pensar em quem abriu o poço.

Ao comemorarmos os 25 anos do Real, tão importante para o País, lembremos o Plano Cruzado.

Foto: Divulgação

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Thaiza destaca encontro de Flávio Dino e José Sarney

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A deputada estadual Dra. Thaiza também repercutiu na Assembleia o encontro entre o governador Flávio Dino e o ex-presidente José Sarney. Ela ressaltou que o governador do Maranhão reconheceu a grandiosidade dos ex-presidentes, suas experiências, e deixou de lado as divergências políticas do seu estado para dialogar sobre o Brasil com o ex-presidente Sarney.

“O momento agora é outro, pensar no crescimento do Maranhão, pensar em soluções para o Brasil. Fico feliz e admirada com essa atitude do governador Flávio Dino, sendo referência para todos nós, deixando de lado a política pequena e atos medíocres, em que alguns seguem criticando, enquanto o momento requer algo maior, como a união, a imparcialidade, e lograr e sonhar com um Brasil e um Maranhão melhores. Parabenizo o governador Flávio Dino e deixo a minha admiração ao ex-presidente Sarney”, disse a deputada.

A deputada reforçou a necessidade dos parlamentares de também buscarem mais a união em prol das melhorias para o estado do Maranhão.

“É esse exemplo de política que estamos precisando, e justamente a que nós pregamos, o novo modelo da política, focando na unidade, na maturidade, e sempre recorrendo ao outro.  Foi um ato grandioso esse gesto, porque o presidente é uma peça fundamental em Brasília, e a gente reconhece isso, e com o governador Flávio Dino, como gestor, o Maranhão avança muito. Que esse diálogo não seja apenas um único encontro, mas que se deixe de lado as divergências de uma vez por todas,  e se trabalhe pelo estado e pelo país”, destacou Dra. Thaiza.

Foto: Agência Assembleia

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