Nostradamus e o Corona

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Por José Sarney

Acho que todos nós a quem Deus deu a graça da vida já passamos muitas vezes pelo anúncio de que o mundo ia acabar. Algumas vezes marcavam data, outras vezes invocavam as profecias de Nostradamus ou de outros profetas menos votados. Nostradamus, desde 1555, quando escreveu seu livro Profecias, assusta a humanidade.

Dizem que previu a Revolução Francesa, Hitler, a tragédia das Torres Gêmeas de Nova Iorque e agora, para 2020, como todos os anos, furacões, tempestades, enchentes, a deposição de Kim Jong Il (Deus queira que se realize), um concurso de cabelos congelados no Canadá, que está fazendo furor. Mas foi incapaz de profetizar a mais fácil: o terremoto de Lisboa de l755, que ocorreria 200 anos depois da publicação do seu livro e que destruiu a bela capital portuguesa, mas possibilitou a ascensão do Marquês de Pombal.

Estou como no mosteiro de um ermitão em minha casa de Brasília, minha mulher feliz porque eu não saio de casa há 20 dias. A TV é só catástrofe, e o medo é o sentimento que circula em todos os corações. Principalmente no meu, a 20 dias de completar 90 anos de idade.

Já passei também por outro anúncio do fim do mundo, na minha querida cidade de São Bento, este com data marcada, as casas com cruzes riscadas em carvão atrás das portas para espantar o diabo. Felizmente a data passou e ainda assisti a muitos anos passarem. Impossível chegar a 3.979, ano final das profecias de Nostradamus.

Mas, bom humor à parte, estou profundamente apreensivo. Porque do mundo acabar sempre temos notícia, mas da humanidade acabar é a primeira vez que presencio. E este momento não é profecia, tem lógica, porque muitos livros já o aventaram com a ameaça das doenças desconhecidas, que podem chegar e cortar a história do homem na face da Terra.

Quem não acredita em Deus pode aceitar isso. Nós, cristãos, não, porque então seria, como dizia S. Paulo, “vazia a nossa fé”.

Mas acredito que o mundo será diferente depois da crise do Coronavírus. O Homem terá que pensar em modificar esse tipo de sociedade consumista e de sublimação dos prazeres, para pensar num mundo mais fraterno, mais humano e com maior justiça social. Foi essa a mensagem do Papa, na bênção Urbi et Orbi, na semana passada. Quando o vi atravessando a de São Pedro, só e frágil debaixo de chuva, senti que a solidão a que estamos forçados, afastados inclusive das missas e da comunhão, é uma travessia para um mundo com o mandamento que Jesus nos deu: o do amor. Como dizia São Paulo: “O que fica agora é fé, esperança, amor — estas três coisas. Mas destas a maior é o amor.” (1Co, 13, 13).

A sociedade de comunicação, virtual e destruidora de valores morais, dará lugar a uma utopia realizada de caridade, justiça e igualdade.

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Além da literatura e da política

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Por José Sarney

Sempre tive febre de conhecimento. Talvez uma Enciclopédia Popular que meu avô José Adriano, professor — mestre escola”, como assim se chamava naquele tempo, em São Bento, onde passei a minha infância —, me tenha despertado essa curiosidade.

Na cidade nem na nossa casa não tínhamos livros para minha idade. Havia apenas o Almanaque de Bristol e essa Enciclopédia, que meu avô recebia mensalmente, e era minha fonte de conhecimentos novos. Eu tinha uma grande pressa em esperá-la mensalmente.

Daí meu hábito da leitura e a companhia do maior amigo que encontrei para a vida inteira: o livro.

Crescendo adquiri uma outra grande curiosidade: a física de partículas de altas energias, para descobrir aquela peça fundamental que gerou, do Nada, o Universo.

Quando Presidente da República visitei o Fermilab, em Chicago, nos Estados Unidos, o grande laboratório acelerador de partículas, onde trabalhava uma equipe de jovens brasileiros, sob a direção do grande físico brasileiro, Professor Alberto Santoro, que, ao lado do Prêmio Nobel Lederman, que descobrira os neutrinos, continuavam a busca da partícula “quark top”,
uma das necessárias para explicar o chamado Modelo Padrão. A última descoberta foi a do bóson de Higgs. Mas até hoje não encontraram a chamada “partícula de Deus” — nem a encontrarão.

Já mais velho, depois que, em Xangai, ouvi Helmut Schmidt falar das doenças desconhecidas e que elas ameaçavam mais o futuro da humanidade do que a bomba atômica, comecei a interessar-me por elas e ler o que me aparecia à mão.

Isso começou a apavorar mais os cientistas depois que, em 1967, o Filovirus de Marburg foi isolado, vindo de macacos trazido de Uganda para estudos cientícos, com 31 infecções e 7 mortes no laboratório que realizava os estudos, provocadas por severas hemorragias. Pouco depois apareceu o Ebola, também um Filovirus. Antes, em 1960, foi isolado Coronavírus responsável pelo resfriado comum. Ao longo da História diversas espécies de peste mataram multidões de seres humanos. Mataram e matam. Todo ano morrem muitos milhões de pessoas por impaludismo, sarampo, AIDS…

Agora, surge o SARS-CoV-2, candidatando-se a ser o apocalipse com sua doença, a COVID-19. O mundo é outro, o homem sabe tudo, descobre tudo, a sociedade é outra, os medicamentos são descobertos — e o homem quer matar Deus.

Mas é ELE quem vai nos salvar e em breve, pela mão d’Ele um novo Sabin ou Fleming — descobridores da vacina contra a paralisia infantil e da penicilina — virá em nosso socorro.

Para mim, depois de ter lido tanto, sobre nosso Princípio e Fim, sei pela FÉ que Deus vai nos salvar e está chegando.

Coluna do Sarney

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Santa Luzia – Açailândia

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Por José Sarney

Como um humanista, cuja vocação não era a política – e que nela entrou seguindo a máxima de Napoleão de que a política é um destino, e não uma vocação -, exerci o destino com a visão de construir, sem caráter partidário, nem de facção, nem de divisão, nem de considerar os que não pensavam comigo como inimigos.

Todas as ações que fiz pelo Maranhão e no Maranhão foram pensando no conjunto do Estado e no objetivo maior da Política com P maiúsculo, como dizia Nabuco, pensando coletivamente e procurando melhorar a sorte do meu Estado e do meu País. Deus deu-me a graça de poder conduzir-me dessa maneira em todos os encargos que Ele colocou em minhas mãos.

Jovens poetas, eu e meus companheiros pensávamos que não devíamos somente fazer versos e avançar nos gêneros literários, mas também colocar nossas inteligências a serviço do povo de nossa terra.

Como disse no início dessa série de artigos sobre as coisas pelas quais fui responsável, encarnei uma função de liderança, que exerci sem nunca passar por cima de ninguém.

O Maranhão, como disse, era um Estado desintegrado, sem nenhum recurso, mergulhado num obscurantismo que era um prolongamento do século XIX. Para integrá-lo territorialmente, precisávamos integrar a faixa da Amazônia que ficava em nosso território e vivia, sob a dependência do Rio Tocantins, sem ligações profundas, nem culturais, nem econômicas, com o resto do Maranhão e sua capital, São Luís.

Candidato a governador, como já disse, um dos nossos propósitos era incorporar essa região e o sertão, para que pudéssemos buscar a nossa unidade territorial.

Assim, no programa que submetemos ao povo, tínhamos que ligar a Belém-Brasília a São Luís. Então, lembro uma noite, no sítio Natal, onde nos reuníamos, em que tentamos traçar uma estrada que atravessasse a Floresta Amazônica e a ligasse à São Luís-Teresina, que também pretendíamos asfaltar.

Calcule o que não era, há 50 anos, vir de Imperatriz a São Luís. Nem Carolina, que era a cidade mais representativa do sertão, era ligada à Belém-Brasília. Para sair de lá e ir à nossa capital, tínhamos que ganhar os caminhos que demandavam o Sul e o Nordeste e entrar no território maranhense pelo Piauí, e então pegar a intransitável São Luís-Teresina, então quase um caminho de carro de boi.

Pegamos o mapa e riscamos um traçado que, saindo de Santa Luzia, rasgasse a floresta e chegasse à Belém-Brasília. Dois lugares, pequenos acampamentos da construção daquela estrada, existiam como pequenos povoados: Frades e Açailândia. Nesta morrera Bernardo Sayão – o construtor da Belém-Brasília -, quando, muito ferido, ali chegou para embarcar num teco-teco.

Hoje ninguém sabe o que significou essa epopeia, abrir o linhão e começar o seu traçado. Lembro-me bem com que emoção eu, em Açailândia, então um lugarejo, dirigindo um trator, derrubei a primeira árvore. Açailândia hoje é uma referência nacional, com a mais moderna aciaria do Brasil, unindo hoje a área do Tocantins, o sertão, ao Maranhão.

Eu já havia construído a estrada de Carolina-Estreito, possibilitando que as estradas do sertão também tivessem acesso a essa nova via.

Hoje ninguém se lembra, nem os que ali transitam, que ela nasceu de um planejamento e de uma visão de um Maranhão Novo, que afinal surgiu.

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O caso da ponte

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Por José Sarney

O grande e sempre saudoso poeta José Chagas eternizou a ponte que ligaria o centro de São Luís ao São Francisco, num poema que até hoje é lembrado e ganhou lugar na literatura maranhense. João Cabral de Melo Neto, outro grande e dos maiores da poesia brasileira, conhecia o poema e certa vez me disse: “Sarney, o poema do Chagas da ponte é um raro momento épico da poesia brasileira.” É que a ponte, mesmo antes de existir, era motivo de propaganda dos governos que me antecederam. E a ponte não existia, mas era real na comunicação daqueles governos.

Chagas, de tanto ouvir badalação sobre a ponte inexistente, fez um poema “O Caso da Ponte do São Francisco”, que tomei de empréstimo para título deste meu artigo de domingo, interrompendo uma série da História recente do Maranhão.

O motivo é que a ponte que não existia, mas que quando governador tornei realidade, agora, em 2019, completou meio século, 50 anos, data redonda – e as datas redondas são mágicas. No poema do Chagas ele dizia: “Quando a maré vaza, a ponte vaza / Quando a maré enche a ponte enche.” Segundo ele, mesmo sem a ponte existir, havia uma grande discussão sobre qual a cor de que devia ser pintada. E concluía: “Com pincel comprido ou curto / Pinte-a seja como for / Se a ponte é feita de furto / Pinte a ponte furta-cor.”

No nosso programa de renovar a capital, estava no plano fazê-la. Mas eu não falei nada nos dois primeiros anos, porque sabia que, se falasse, ia haver uma especulação para comprar as terras do outro lado. Quando começaram as primeiras movimentações para construir a Ponte do Caratatiua – que depois também fui eu quem fiz -, os encarregados do governo anterior antes das obras compraram as terras.

No São Francisco só o engenheiro que previu que a ponte era a expansão natural da cidade, a primeira coisa que fez foi comprar as terras onde possivelmente seria localizada a ponte. Eu – e ninguém ressalta isso -, na seriedade e honestidade com que administrava, guardei o segredo e procurei comprar todas as terras do outro lado para o Governo do Estado, isto é o IPEM, e só depois da transação, feita pelo advogado Kleber Moreira com o antigo proprietário da fábrica Gamboa Francisco Aguiar, anunciei a Ponte.

Alguns amigos meus ficaram zangados e me cobraram que eu não tinha avisado para que eles fizessem um grande negócio! Assim sempre me comportei como homem público. Então corremos contra o tempo. Em dois anos fizemos projeto e construção. Em 1970, janeiro, inauguramos a Ponte, cortando a fita a filha do marechal Castelo Branco, Dona Antonieta, nossa amiga, que representou o pai, já morto e que muito ajudara o Maranhão.

Essa Ponte, a que lei proposta pelo governador Dino deu o nome de José Sarney, mudou São Luís. Preservou a cidade velha e construímos, em 50 anos, na margem esquerda do Rio Anil, uma nova cidade, que hoje tem 300 mil habitantes, moderna, bonita, com acesso às praias.

Assim, posso dizer, fundamos uma nova cidade, a São Luís moderna, hoje uma das mais bonitas do Nordeste.

Foto: Arquivo/Biblioteca

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Por que São Luís?

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Por José Sarney

A grande tarefa de 1966 era tirar o Maranhão do século 19 e trazê-lo para o século 20. Era um estado totalmente desintegrado e sem cabeça, isto é, sem capital. O sul do Maranhão estava ligado a Goiás e a economia do lado do Tocantins ao Pará. Toda a vida na densa floresta amazônica que acompanhava a rodovia Belém-Brasília e em torno das nascentes do Mearim, do Pindaré e do Grajaú se voltava para o Pará e Goiás, sem nenhuma ligação com o Maranhão.

A margem esquerda do Rio Parnaíba, lado maranhense, tinha toda a economia vinculada ao Piauí e ao Nordeste. Restavam ao território econômico maranhense as margens do Itapecuru, via que no passado fora responsável pela penetração e escoamento do algodão, açúcar e arroz que produzíamos e servira também de via de transporte; mas o rio estava assoreado e sem navegação.

A estrada de ferro São Luís-Teresina, que o seguia, também estava sucateada e sem carga para transportar, predominando o trem de passageiros que servia às populações das cidades em suas margens. Era a única possibilidade de acesso à capital por terra, passando pelo Estreito dos Mosquitos do continente para a Ilha de São Luís. A capital fantasma, sem porto, sem estrada, mergulhada em decadência, sem água, esgoto, energia, calçamento, estava apenas ligada à Baixada pelos velhos barcos à vela. De Pinheiro para cima tudo se dirigia a Belém: Turiaçu, Guimarães, Carutapera e toda a zona de influência do Gurupi, perto de Bragança. O pato para misturar ao tucupi paraense durante o Círio ia da Baixada.

São Luís era uma cidade velha, cercada de palafitas, pequena e sem perspectivas de crescer. A capital do Maranhão, a cabeça do Estado, sem ser cabeça, era uma cuia vazia cercada de pobreza e de miséria.

A tarefa primeira era integrar. Ligar o Tocantins, o Parnaíba e o Gurupi ao Maranhão.

Tracei e construí a Açailândia-Santa Luzia, asfaltei e abri a São Luís-Teresina, abri estradas na Baixada, ligadas por Ferry-Boat, construí a Pará-Maranhão, a Porto Franco-Peritoró. Fiz o Itaqui e trouxe o minério por uma estrada de ferro, a Carajás-Itaqui. Tudo foi construído.

Para São Luís o programa era fazer a cidade. Criei a Caema para fazer o novo sistema de abastecimento d’água, armazenada na nova Barragem do Batatã. Consegui com o BID recursos para uma adutora para levar água do Batatã a Sacavém, onde construímos a nova estação de tratamento e deixamos projeto da adutora trazendo água do Itapecuru para São Luís. Fiz uma bateria de poços artesianos para reforçar o sistema de água da Capital, totalmente novo, com novo encanamento e caixas d’água para equalização da pressão.

Criei a Cohab para fazer casas para o povo, com os conjuntos Anil; no São Francisco, Cohab e Basa; e na nova estrada o Anjo da Guarda. Asfaltei toda a cidade, abri a Avenida Kennedy e a Avenida dos Franceses para dar mobilidade à cidade.

Substituí a velha rede elétrica. Formei a Telemar para termos um sistema de comunicação da capital com o interior, do Maranhão com os outros Estados do Brasil e melhorar o existente dentro de São Luís.

Mexemos em tudo. Tínhamos que fazer a Capital do Estado. Dar-lhe cabeça. Assim, também construímos grandes obras, a então maior ponte do Nordeste — a do São Francisco —, a ponte do Caratatiua, a Barragem do Bacanga e deixamos projetada a ponte Bandeira Tribuzzi e ainda outra que um dia acabará sendo feita.

Nascia a nova capital, cabeça do Maranhão Novo, dentro do plano global de integrar o Estado. Hoje, São Luís é duas cidades, a do São Francisco, nova, das praias, com 300 mil habitantes e todos os equipamentos de uma cidade moderna, e a cidade velha, preservada, que Roseana fez Patrimônio da Humanidade.

Tanto trabalho, tanta coisa, em quatro anos. Sobretudo, mudamos a mentalidade do Estado e civilizamos a política, sem perseguições, violência ou divisão.

E hoje somos o único Estado do Brasil sem anistia, que não foi necessária, porque aqui não foi demitido nem cassado ninguém.

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Maranhão (2)

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Por José Sarney

Dou prosseguimento ao meu testemunho sobre o que era o Maranhão quando assumi o governo em 1966. Afirmei então que vivíamos no século 19, pois não havia Estado (no seu conceito moderno) funcionando.

Era a estagnação e a ausência de serviços públicos: nem médicos, nem equipamentos de saúde, nem saneamento, nem leis que representassem a busca do bem público. O que existia era o poder do mando, era uma classe que, se apoderando das funções do Estado, em seu nome explorava o povo, condenado à pobreza absoluta. Vinham da Colônia a escravidão, nas grandes plantações e nos latifúndios, e o enfrentamento com os pobres e sofridos índios. José Bonifácio dizia que a obra da Independência — 1822 — não se completara porque deixou de adotar soluções sobre a emancipação dos negros e a liberdade dos índios, condenados, em sua cultura milenar, a viver em lutas que resultavam na sua dizimação, morte em guerras de extermínio ou escravidão.

Vieram leis de proteção aos índios e a abolição, mas elas não deram a uns e outros condições de participar da construção do país, problema até hoje existente, com a marginalização dos negros e o abandono dos índios. Os pretos continuam sem direito à ascensão social e os índios, sem uma política de garantias.

No Maranhão tínhamos 82% de nossa população na área rural, com taxa de analfabetismo estratosférica de 72%. Ainda convivíamos com a pobreza extrema, sem indústria, saneamento, água, energia, saúde, educação, e não tinha perspectiva nem recursos humanos na política que vissem a dimensão e a solução do problema.

Em vez de criticar ou abrir comissões de inquérito, antes mesmo de assumir o Governo, em 14 de março de 66, criei o GTAP (Grupo de Trabalho, Assessoria e Planejamento), para organizar a administração pública e um programa de Governo. A grande dificuldade era a falta de recursos humanos. Fiz uma convocação nacional para que os maranhenses que estivessem fora, e quisessem trabalhar nesse novo tempo, voltassem. Fui à Sudene e, junto ao Celso Furtado, seu idealizador, consegui a cessão de jovens técnicos para me ajudar: Mário Pires Leal, Joaquim Itapary, brilhante e ocupando posto de grande destaque naquele órgão, Darson Duarte, Mariano Matos, Manuel Lopes, Celson Mendes, José de Jesus Morais Rego; do CEM (Centro de Estudantes Maranhenses) do Rio, vieram João Alberto, Loester Mendes e outros. Depois vieram juntar-se Carlos Madeira, Eliezer Moreira, Murilo, Chico Batista, Amauri Ritter, Benedito Buzar, Bandeira Tribuzzi, Nivaldo Macieira, Emiliano Macieira, Vicente Fialho, José Reinaldo, Haroldo Tavares, Antônio Luís Oliveira, José Lins, Cesar Cals. Muitos se tornaram nomes nacionais.

Não conhecia quase nenhum deles nem recebi pedidos. Foram o idealismo e o desejo de renovar a política e a administração maranhense que me levaram a isso.

Quando me acusam de não querer renovar, meus atos mostram o contrário. Foi assim que sempre agi a vida inteira, sem passar em cima de ninguém e dando oportunidades para todos.

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Como era o Maranhão

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Por José Sarney

Em 1966, ao assumir o Governo do Maranhão, constatei de que não podíamos debitar somente aos governadores, meus antecessores, a situação de bagunça em que estava a administração do Estado. Na verdade ela não existia.

Basta, como exemplo, dizer que a contabilidade era feita à mão, num daqueles velhos e grandes livros iguais aos do comércio de “deve” e “haver”. Meu primeiro ato foi ir ao Tesouro e, com um lápis vermelho, encerrar esse livro e escrever: “Aqui começa um novo Maranhão.” Já citei uma vez o grande chefe político maranhense Marcelino Machado, que marcou época quando disse que o Maranhão era um “burgo pobre”.

Em matéria da máquina de governo vivíamos com as práticas do Século 19. Resumia-se a Polícia e Coletoria. Uma para assegurar o comando político, outra para controlar o dinheiro dos impostos e completar o domínio do primeiro. No interior, a estrutura era formada pelo Delegado, pelo Subdelegado e pelo Inspetor de Quarteirão. Ao primeiro competia prender e soltar. Ao ser preso, o indivíduo tinha de pagar a carceragem, o que rendia um bom dinheiro ao Delegado. O Subdelegado dividia as funções com o Delegado. Nos povoados o Inspetor de Quarteirão prendia, soltava e tinha poder sobre todas as coisas. Era a maior autoridade.

Muitos Municípios não tinham cadeia — a prisão era o tronco a que se amarrava o preso com correntes. Todos nomeados pelo Governador e indicados pelo chefe político municipal. A metade dos Municípios não tinha Juiz; a função de julgar era exercida por três suplentes de Juiz, 1º, 2º e 3º, nomeados pelos Governador.

O Coletor cobrava o imposto, perseguindo uns e dispensando outros. O Delegado e o Coletor eram assim o Estado, e o Juiz Suplente, a Justiça.

Mas havia um gancho que dava grande poder político ao Coletor: ele arrecadava, mas não mandava o dinheiro para o Tesouro em São Luís, pois não havia banco nem outra maneira de fazer o envio. Assim o Coletor vinha todo mês trazer o dinheiro à repartição do Tesouro em São Luís e, entre duas vindas, manobrava esse dinheiro, favorecendo ou prejudicando os comerciantes com o dia de pagar ou de não pagar. Fiscalização: nenhuma!

Na minha campanha de Governador, sabendo que esse sistema era as pernas do coronelismo (quem quiser se aprofundar no tema leia o livro clássico deVictor Nunes Lea, Coronelismo, Enxada e voto), prometi — e cumpri — que, eleito Governador, o Delegado seria nomeado por concurso público e o Coletor, sem vinculação com politicagem.

Minha primeira aparição na televisão como Governador foi mostrando as correntes dos troncos medievais no Maranhão — acabei logo com todos eles.

Vi logo que tínhamos que organizar o Estado e fazê-lo funcionar realizando imediatamente uma grande reforma administrativa. Trouxemos técnicos da Sudene, fizemos convênios com o Instituto de Serviço Público da Bahia, expert no ramo, e com a Universidade de Miami. Fundamos a Sudema, órgão de planejamento, com gente nova, cheia de idealismo e sintonizada comigo. Gente como Tribuzzi, Fialho, Haroldo Tavares, Emiliano Macieira, Eliezer Moreira, Itapary, Buzar e tantos outros de grande talento. Começamos a grande mudança — modernização e planejamento — para fazer o Maranhão Novo. Sair da estagnação.

Novos ventos e mentalidade sopraram. Saímos do zero e abrimos caminhos para deixarmos de ser o Maranhão estagnado.

Primeiro passo: organizar para transformar. O navio sai do porto!

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Esquecer e lembrar

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Por José Sarney

Os psicanalistas apresentam como certeza que a gente não esquece as coisas pelas quais guarda interesse e esquece as que não nos interessam. A memória se encarrega dessa diabólica lei seletiva.

Isso para a política é trágico, porque o bem que se faz é logo esquecido, e os inimigos ficam inventando sempre o mal que não se fez. O senador Victorino Freire, que marcou sua chefia política com mão de ferro, dizia adotar em relação aos adversários a seguinte conduta: “Quando meus inimigos não têm rabo, eu ponho rabo neles.”

Estas considerações me ocorreram com a leitura de uma pesquisa feita na Inglaterra sobre a notável figura de Winston Churchill, considerado por seus biógrafos como o maior estadista dos tempos modernos. Churchill salvou a humanidade da tragédia da Segunda Guerra Mundial, resistindo ao nazismo. Pois essa pesquisa procurou saber o que o povo pensava sobre
seu grande líder e herói.

Os historiadores modernos consideram que a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelo sangue dos russos (que perderam mais de 20 milhões de vidas!) e pelo dinheiro dos americanos, que contribuíram com armas, aviões, tanques e todo equipamento bélico necessário, esquecendo o grande vencedor, Churchill.

Pois bem, qual a surpresa quanto ao resultado da pesquisa? Ela revela que a maioria do povo, sobretudo os mais jovens, esqueceu o grande líder. Ao inquirirem sobre quem era Churchill, os pesquisadores foram surpreendidos com a resposta da maioria de que “era o cachorro que figurava no anúncio do charuto Churchill”, massificado pela mídia – a publicidade do cigarro que homenageava o estadista misturara dois símbolos seus: o charuto, de que não se separava, e a característica do
buldogue de não largar sua presa.

Quando li isto, resolvi que já era tempo de lembrar um pouco aos mais jovens, que não conhecem a história do Maranhão, qual foi a minha contribuição para retirar o Estado do atraso e, ao mesmo tempo, planejar uma infraestrutura capaz de trazer desenvolvimento para ele. Se aquilo acontecia com o maior estadista inglês, o que não aconteceria com este modesto maranhense de Pinheiro, que foi governador e presidente, tão atacado, injustiçado, combatido e vilipendiado político, que dedicou toda sua vida a trabalhar pelo Maranhão?

Por isso, vou utilizar esta coluna dedicada aos leitores para dizer das coisas de que hoje ninguém lembra, nem os jovens podem lembrar, pois não viveram naquele tempo, não viram e não sabem o que era o Maranhão em 1966, quando assumi o Governo do Estado.

Assim, na próxima semana vou tratar da organização administrativa e poderei armar, com orgulho, que nada que existe no Maranhão atual deixou de passar pela contribuição de minhas mãos.

ERRAMOS: Também quero fazer uma reparação com o deputado Hildo Rocha, um dos melhores parlamentares de nossa Bancada, pela omissão injusticável que cometi em meu artigo sobre a Base de Alcântara, quando deixei de citá-lo, pois foi ele quem, na Câmara dos Deputados, foi o relator do Acordo e a peça chave para esse ser aprovado.

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A Guerra de Carajás

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Por José Sarney

As minas de ferro de Carajás determinaram uma guerra entre o Pará e Maranhão. É que essas minas, das maiores do mundo, pela sua localização no interior do Pará, não tinham como escoar sua enorme riqueza.  Desencadeou-se uma guerra para saber como viabilizar seu aproveitamento. O escoamento seria por via fluvial ou terrestre — ferroviária?

O Pará reivindicava a via fluvial, pois assim todas as receitas de sua exploração seriam naquele estado. Acontece que ele, dos mais ricos do Brasil, não dispunha de porto com o calado necessário para escoar tanto minério de ferro, além do Rio Tocantins necessitar de uma barragem dotada de comportas, a serem construídas em Tucuruí, sem o que o Rio não seria navegável.

Foi aí que o Maranhão entrou na história oferecendo a solução ferroviária da construção da Estrada de Ferro de Carajás até o Itaqui, porto que, tendo uma das melhores localizações do mundo, poderia capacidade de receber graneleiros de até 400.000 toneladas, o que acontece hoje.

Mas o Pará não se conformava com essa solução. Numa dessas reuniões de bancadas com o Presidente Médici, o deputado Epílogo de Campos, paraense de grande talento, disse ao Presidente:

– O Pará tem direito, Presidente.

O Presidente Médici respondeu:

– Direito tem, o que não tem é Porto.

É que eu já construirá o Porto do Itaqui com esse objetivo, sabendo que se tivéssemos o porto em condições o viabilizaríamos, pois Carajás seria a grande fonte de carga que sustentaria o Itaqui. Para isso lutei com todas as forças, tendo o apoio decisivo do Ministro Andreazza, do Presidente da Vale, Eliezer Batista e de Vicente Fialho, que o Ministro Cesar Cals, que tinha sido Presidente da Cemar, nomeara presidente da Amazônia Mineração, companhia criada para estruturar a presença da Vale nesta região.

Foi uma guerra. Lutei e finalmente vencemos. O Maranhão conquistou Carajás. Fui ao Pará, falei na Associação Comercial tentando fazer as pazes entre os dois estados. Depois da minha conferência, em que eu dizia que o Maranhão salvara Carajás com o Porto do Itaqui, o Fialho que fora ao banheiro, ouvira a conversa de dois empresários paraenses:

— O Sarney, com essa conversa, se não abrirmos os olhos, termina levando o Círio de Belém para São Luís.

Injustiça, ninguém mais admirador, amigo e desejoso do desenvolvimento do Pará do que eu. Os tempos passaram. Hoje vê-se que o Pará muito lucrou juntando-se ao Maranhão, promovendo um dos maiores polos de riqueza do Brasil.

Fico feliz de ter contribuído para essa grande obra. Ajudei Carajás, o Maranhão, o Pará e o Brasil. O Maranhão sem o Itaqui, que eu construí, e sem Carajás, que viabilizei, não teria as perspectivas que hoje tem — terceiro porto do Brasil.

Foto: Agência Vale

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2020 e Alcântara

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Por José Sarney

O Ano Novo pode marcar uma data histórica para o futuro e o progresso do Maranhão. É que acaba de ser aprovada a autorização para que a Base de Alcântara possa abrir-se ao mercado internacional de lançamento de foguetes portadores de satélites.

Isso significa que o Maranhão poderá participar de uma indústria de ponta, que tem um poder germinativo capaz de criar indústrias paralelas, formação de recursos humanos e ser um pólo de referência mundial, competindo com Kourou, na Guiana Francesa, onde os franceses têm, desde 1968, uma de suas fontes de renda e de participação na exploração espacial. Os dois lugares têm uma vantagem importante: sua posição quase na linha do Equador é extremamente vantajosa no lançamento de satélites geoestacionários.

Foi ainda De Gaulle quem criou o CNES, Centro Nacional de Estudos Espaciais, proprietário da base, que a administra em conjunto com Arianespace e com a ESA, Agência Espacial Europeia. Arianespace é a maior empresa de transporte espacial do mundo, e explora lançamentos de satélites de Kourou com os foguetes Ariane e Vega, e, em acordo com a ESA e a agência russa Roscosmos, com os foguetes Soyouz. Mas a concorrência é forte, com empresas russas, americanas, chinesas, japonesas e indianas.

A indústria de comunicação, que tem como carro chefe os satélites que cobrem a Terra em várias altitudes, gerando possibilidades de transmissões que vão desde sensoriamento remoto até o fornecimento de um número incalculável de dados, é a que mais cresce no mundo. Além dos benefícios que presta à humanidade é uma fonte de ganhos e alavancagem para o crescimento econômico.

Alcântara, há mais de 40 anos, por motivos ideológicos e radicalismos, é vítima de uma campanha de um nacionalismo primário que nada tem a ver com a realidade. Eu, quando presidente da República, lutei bravamente para romper esses obstáculos. Construí a infraestrutura necessária ao seu funcionamento — a última cerimônia do meu governo foi o lançamento de um satélite meteorológico em Alcântara —, construí em S. José dos Campos o laboratório de construção de satélites e apoiei as pesquisas para que tivéssemos o nosso próprio veículo lançador, o que por infelicidade explodiu tragicamente.

A resistência sustentava que tínhamos que examinar e espionar o equipamento das firmas que quisessem utilizar a Alcântara, como se alguém permitisse isso.

A Câmara e Senado, tendo à frente o Senador Roberto Rocha, aprovaram o decreto legislativo autorizando o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas, que, promulgado a 20 de novembro, entrou em vigor no dia 16. Infelizmente alguns representantes do Maranhão, poucos é verdade, ainda se aliam a esses obstaculizadores do nosso desenvolvimento.

Ao que tudo indica, vamos finalmente ver os novos portos do outro lado da Baía de S. Marcos, com estradas ligando essa área à Norte-Sul e o Maranhão sendo uma referência mundial de ciência e tecnologia.

E quem sabe se traremos também um ITA, um Instituto de Tecnologia da Aeronáutica para cá? O exemplo do Cabo Canaveral, que levou a NASA a fazer o Kennedy Space Center e centenas de estruturas na área, deve nos servir de inspiração.

Coluna do Sarney

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