O petróleo é nosso

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Por José Sarney

Na minha adolescência, um grito incendiava nossos pensamentos de patriotismo: “O petróleo é nosso!” Repudiávamos nossa dependência econômica dos países do “primeiro mundo”, principalmente dos Estados Unidos. Os jovens denunciavam a CIA, o entreguismo, o imperialismo americano como os grandes empecilhos ao progresso do País.

Naquele tempo de grande ebulição estudantil, depois da Segunda-Guerra, discutiam-se muito os “ismos”. Eu não me deixei contaminar por nenhum “ismo”, fugi aos aliciamentos ideológicos, para ser aquilo que sempre fui, um liberal, tolerante e humano, seduzido pelos grandes nomes nacionais do antigetulismo e por seu partido, a UDN – União Democrática Nacional. Bem moço, no Liceu, fui da Juventude Brigadeirista.

O petróleo escapava às posições políticas, pois era uma causa nacional. Isto me fez defender a bandeira “o petróleo é nosso”. Pressionado pela onda nacionalista, que envolvia inclusive grande parte das Forças Armadas, Getúlio Vargas mandou ao Congresso o projeto de lei que criava a Petrobrás (Lei nº 2.004). A UDN, contrária a Vargas, apoiou a criação da Petrobrás e fez mais: apresentou a Emenda Bilac Pinto, que estabeleceu o monopólio estatal do petróleo.

A Petrobrás mandou buscar um grande especialista americano em petróleo, Walter Link, da Standard Oil, para mostrar como descobrir os hidrocarbonetos (petróleo). Qual a nossa grande decepção quando Mr. Link, com toda a sua sabedoria, anunciou que o Brasil não tinha petróleo! Foi uma verdadeira revolta. Ele era um traidor, agente da interferência americana em nossos problemas. Mr. Link foi o grande saco de pancadas.

No meu governo, aumentamos nossas reservas de petróleo de 2,3 para 8 bilhões de barris. Mandei mapear todas as bacias sedimentares do Brasil, onde o petróleo se esconde, e descobrimos os maiores campos antes do pré-sal.

O futuro nos mostrou que o petróleo promove o aquecimento global e ameaça o mundo de extinção caso continuemos a poluir. O caminho é a energia limpa: eólica, solar e hídrica.

No desenrolar da novela do petróleo, acabamos de ver a decepção de o grande leilão de petróleo, tão esperado, não ter atraído o investidor internacional. O Ministro de Minas e Energia disse que perdemos o timing: não vendemos o petróleo quando ele valia cem dólares o barril, e hoje ele está em sessenta. Isso nos traz dúvidas se o pré-sal será competitivo.

O mundo está inundado de dinheiro, mas o capital é medroso, prefere a segurança ao lucro.

E o Brasil, com instabilidade, populismo, problemas institucionais, não oferece a segurança que ele deseja.

Assim, “o petróleo é nosso”, que defendemos com tanto ardor, está ameaçado de ser mesmo nosso, mas ficar escondido no fundo do mar.

Coluna do Sarney

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Democracia e AI-5

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Por José Sarney

A melhor definição de democracia que conheço é de Lincoln: “regime do povo, pelo povo e para o povo”. Na Oração Fúnebre aos mortos no Peloponeso, Péricles fala, pela primeira vez, da necessidade de que um governo seja constituído pelo povo: “chama-se democracia porque não é um governo dos poucos, mas dos muitos”. Era a maneira de superar a lei do mais forte.

No Brasil a democracia teoricamente se instalou com a República, antagonista da Monarquia. Mas ela não pôde instaurar o governo do povo, porque o povo não era republicano, e sim monarquista. Aristides Lobo diz que ele — povo — assistiu bestificado à proclamação da República.

Tivemos ao longo da República Velha intervenções militares conhecidas como “salvacionistas“. Os militares as faziam dizendo proteger as instituições. Por isso eu considero que a última dessas intervenções tenha sido a de 64. Os militares diziam que era para salvar a democracia. Castello evitou que 64 virasse uma quartelada. Mas em 1968 Costa e Silva, em meio a uma crise paroxística com o Congresso, editou o AI-5, rasgando os direitos individuais, inclusive o habeas corpus.

Fui o único governador que não se solidarizou com o AI-5; passei telegrama a Costa e Silva dizendo que não concordava e esperava que logo voltássemos à normalidade democrática. Por isso fui ameaçado de cassação.

Dez anos depois, eu era Senador e no Congresso fui o relator da Emenda Constitucional nº 11, que revogou o AI-5. Em 1985, coube a mim presidir a transição democrática, fazendo eleições todos os anos, acabando com a eleição indireta, dando anistia aos sindicalistas banidos, legalizando as centrais sindicais, acabando com os municípios de segurança nacional, revogando toda a legislação autoritária e convocando a Constituinte. Fiz isso com a diretriz de que a abertura seria feita com as Forças Armadas, e não contra as Forças Armadas, e que, sendo o seu Comandante-em-Chefe, cumpria o dever de zelar pelos meus subordinados, não deixando ocorrer nenhuma revanche. Os ventos da liberdade varreram como nunca o nosso País.

Os momentos de ruptura democrática no Brasil ocorreram sempre em meio a crises institucionais gravíssimas. Agora temos uma Constituição absolutamente democrática, a mais longeva da história da República. Na coerência de minha atitude ao longo da vida de democrata, não posso admitir com o meu silêncio que alguém pense em romper com nosso caminho de liberdade e democracia. Assim, condenei a atitude de um deputado que voltou a falar do AI-5, coisa do século passado, de um tempo que já se findou. Hoje o Brasil é uma sociedade de democracia consolidada e de instituições fortes. Assim, vejo com grande satisfação a reação nacional quase unânime de repelir qualquer tentativa de violar a Constituição.

A democracia veio para sempre, e eu dei a minha contribuição para que assim seja.

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Sarney divulga nota em defesa da Democracia

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O ex-presidente da República José Sarney divulgou nota lamentando a declaração do deputado federal Eduardo Bolsonaro, líder do PSL.

Segundo Sarney, a primeira cláusula pétrea da Constituição é o regime democrático.

“Devemos unir o País em qualquer desestabilização das instituições”, destaca Sarney.

Leia a nota na íntegra:

“Fui o Relator no Congresso Nacional da Emenda Constitucional que extinguiu o AI-5, enviada pelo Presidente Geisel.

Presidi a Transição Democrática, que convocou a Constituinte e fez a Constituição de 1988. Sua primeira cláusula pétrea é o regime democrático.

Lamento que um parlamentar, que começa seu mandato jurando a Constituição, sugira, em algum momento, tentar violá-la.

Devemos unir o País em qualquer desestabilização das instituições. E sei que expresso o sentimento do povo brasileiro, inclusive das nossas Forças Armadas, que asseguraram a Transição Democrática, que sempre proclamei que seria feita com elas, e não contra elas”.

José Sarney
Ex-Presidente da República

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Santa Irmã Dulce

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Por José Sarney

Estou em Roma, emocionado. Eu que tantas vezes estive nesta cidade, que é uma síntese da História, desta vez aqui me trouxe a fé.

A fé numa Santa que conheci muito de perto, que amei pelo seu trabalho e pela santidade de sua vida: Irmã Dulce.

Venho para refazer o gesto que fiz em minha vida, beijar-lhe os pés de Santa — que sempre foi e agora o Papa Francisco canoniza.

Ainda hoje recordo essa emoção: poucos dias antes de falecer, em seu leito de agonia, no que não era cama — era quase uma cadeira —, eu lhe disse: “Eu sou indigno de fazer outra coisa, senão de beijar-lhe os pés.” Ali, eu beijei os pés de Irmã Dulce, ajoelhado.

Agora no Vaticano, rezarei pela minha família, pelos meus amigos, pelo povo do Maranhão. Farei meu pedido pela Paz, pela saúde e pela felicidade de todos.

Irmã Dulce nos deu o exemplo da caridade e da virtude esquecidas. A sociedade capitalista gera valores materiais e negligencia os valores espirituais. Irmã Dulce era uma tocha permanente, que brilhava para lembrar que não podemos ficar, somente, no usufruto dos nossos bens, sem pensar no universo que nos rodeia, nos miseráveis, nos pobres, nos deserdados.

Ela era o cristianismo sem adjetivos, uma esmoler dos doentes. Irmã Dulce era uma flor de amor e de bondade, esse desejo de ser um pedaço de Deus nas ruas de Salvador da Bahia. Doce como os santos, santa como os profetas.

Eu tinha conhecimento da obra social de Irmã Dulce. A comunhão do nosso espírito consolidou-se quando a conheci pessoalmente, como presidente.

Visitei-a sempre, algumas vezes no anonimato. A amizade que tínhamos um pelo outro era nutrida de nossos sentimentos comuns de amor ao próximo e só fez se consolidar com o passar dos anos, em benefício maior da parte que me toca, visto que a minha alma se engrandece na memória de alguém tão pura, como enriquecia, ontem, no convívio com uma pessoa tão abnegada ao próximo.

Em 1988, indiquei nossa Irmã Dulce para o Prêmio Nobel da Paz. Não estava somente atestando preferência e escolha pessoais, expressava o que habitava no fundo da alma brasileira.

Quando ouvia sua sobrinha, Maria Rita, me dizer que o Vaticano pedia mais um milagre de Irmã Dulce, eu respondia: eu sou testemunha, ela já me fez mil milagres. Ao deixar o governo, eu ia descer a rampa numa situação difícil. Então, antes de sair, reuni minha família, minha mulher, meus filhos e coloquei um lenço no bolso para as lágrimas.

E disse a todos: “Olhem, vocês se preparem. Agora, vou descer a rampa do Palácio” — na frente, havia uma multidão —: “metade vem para aplaudir o candidato que vai tomar posse, a outra metade vem para vaiar o candidato que vai tomar posse, mas todas as duas correntes vêm para me vaiar.” Peguei na mão da minha mulher e dos meus filhos e desci a rampa.

Não sei por que, ao descer, senti ao meu lado alguém. Olhei, procurava ver quem estava ali: era Irmã Dulce. Tirei o lenço do bolso e o sacudi como quem se despedia. De repente, aquela multidão, de um lado e de outro, que vinha para me vaiar, começou a me aplaudir. Eu não sabia nem como. Vi as pessoas chorarem. Eu me dizia: é milagre da Irmã Dulce!

Agora, a Igreja reconhece um milagre especial: um homem cego rezou a Irmã Dulce. Os médicos afirmam: ele continua cego, mas, pela intercessão de Irmã Dulce, vê.

Santa Irmã Dulce, rogai por nós!

Coluna do Sarney

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Liderança

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O governador Flávio Dino (PCdoB) falou novamente sobre o encontro que manteve com o ex-presidente José Sarney (MDB) em junho deste ano.

À revista IstoÉ, o comunista disse que o ex-presidente da República é “uma liderança política importante” e que, por isso também o procurou para conversar.

“O ex-presidente José Sarney é nosso adversário regional, mas também uma liderança política importante no Brasil”, disse.

Sem acordo

Na mesma entrevista, Flávio Dino afirmou que apesar do diálogo com o ex-presidente, não houve qualquer tipo de acordo político.

“Sem que haja qualquer tipo de acordo regional, porque não houve, de fato, nem da parte dele, nem da minha parte, mantivemos e manteremos um bom diálogo a respeito dos temas nacionais. Esse é o caminho certo”, acrescentou.

Dino tenta consolidar-se como pré-candidato à Presidência da República e busca a interlocução com lideranças de amplitude nacional para análises sobre o projeto.

Estado Maior

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Tempo de maré grande

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Por José Sarney

O fenômeno é geológico e, portanto, acontece antes do tempo da humanidade: a maré sobe e desce mais em função da sizígia, isto é, do alinhamento dos astros, no caso Terra, Sol e Lua e sobretudo dos equinócios, que são os momentos em que o Sol cruza o Equador.

Para proteger os terrenos destas marés grandes, foi preciso que Roseana fizesse o Espigão da Ponda D’Areia. Uma alternativa seria proteger a cidade com diques, à maneira dos holandeses, que vivem muitas vezes abaixo do nível do mar (em 17% do território) e sempre dependentes do manejo cuidadoso das comportas, que permitem o acesso ao Mar do Norte ou aos lagos como o Markermeer, que banha Amsterdam.

Esses holandeses — naturais dos Países Baixos, será que os devíamos chamar baixinhos? —, quando vieram ao Maranhão, já tinham começado, lá, a conquistar o mar, construindo os polders. Estes aterros com diques, que eles não inventaram, mas aperfeiçoaram de tal maneira que ninguém pode pensar neles sem pensar nos neerlandeses — assim são chamados, oficialmente, os holandeses —, constituem mais de metade da superfície terrestre da Holanda. Nos últimos anos, preocupados com as mudanças climáticas, eles têm preparado novas medidas, que vão da elevação dos diques até a mecanismos de controle muitíssimos engenhosos e serviços de monitoramento avançados. Com isso, andar ou navegar por Amsterdam é coisa que se pode fazer sem medo de se molhar com água vinda do mar — quando cai das nuvens não tem jeito, molha como aqui.

Fico pensando se eles não escolheram Recife e São Luís já de olho em diques que poderiam fazer. Mas no caso daqui talvez a razão seja outra, a profundidade dos canais da Baía de São Marcos, equivalente à de Rotterdam. É claro que, naquela época, não se podia nem sonhar com os mega navios que fazem fila para entrar no porto do Itaqui.

Quando fizemos a Barragem do Bacanga, preparamos tudo para fazer o fechamento na maré seca, o contraponto da maré alta, portanto a mais baixa das marés. A subida da maré foi mais rápida que nossos caminhões de pedras, e de repente um pequeno trator começou a ser cercado pelas águas. Como não tínhamos tempo de o salvar sem perder o trabalho, mandei que o deixassem lá, e ele é hoje parte do dique de fechamento

Nossas marés, as maiores do Brasil, estão longe das maiores do mundo, que se aproximam dos 20 metros. A mais famosa não é a maior, mas a do Monte Saint-Michel, segundo ponto turístico da França, onde se diz que ela sobe como um cavalo a galope. Bem, ali São Miguel Arcanjo jogou o Diabo no Inferno, é natural que a natureza se agite. Perto, em Saint Malo, foi feita a grande usina elétrica de La Rance, que utiliza a força das marés.

Não sei é por que a Prefeitura de São Luís colocou mais quatro quadriciclos, em vez de botes, para ajudar a prevenir que algum descuidado, se afogue em terra, pois o risco é de ser pego desprevenido pela chegada da maré de sizígia do equinócio de setembro, que será na segunda-feira.

Bom banho!

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Todos jovens

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Por José Sarney

Desde sempre o grande desejo do homem é fugir da morte e, para uns mais avançados, com uma juventude eterna. Na Grécia a ambrosia dava imortalidade, na Idade Média os alquimistas chineses e europeus buscavam o elixir da longa vida, a pedra filosofal.

Um dos livros que mais me marcaram foi o do filósofo espanhol Dom Miguel de Unamuno, motivo de lembrança e emoção quando visitei a Universidade de Salamanca, na Espanha, onde ele pontificou — e onde fiz uma conferência sobre os 100 anos de Jorge Amado. O livro era O Sentimento Trágico da Vida, isto é, a visão da morte. Ele defende a tese de que a grande penetração do Cristianismo foi pregar a ressurreição dos corpos, o que quer dizer que nós morremos, mas voltamos com os mesmos corpos. Era uma novidade, porque todas as religiões já pregavam a imortalidade da alma, mas era um ente difuso que não se sabia onde verdadeiramente estava.

Pois não é que agora abro um jornal e vejo a notícia de que a revista Nature, célebre e prestigiosa por divulgar as novidades e descobertas científicas, publica que cientistas americanos descobriram um coquetel do rejuvenescimento.

Bastou a notícia para eu ficar logo animado. O tal coquetel foi descoberto por acaso: eles estudavam a influência de determinado remédio no crescimento da glândula timo quando descobriram que este medicamento, misturado com dois outros, tinha o poder de alterar os DNAs e fazê-los mudar nossa idade numa média de dois anos e meio.

Tive uma primeira dúvida e indagação: esse coquetel influía nos DNAs para aumentar dois anos e meio das nossas vidas ou para diminuí-las em dois anos e meio? Assim, ficaria à nossa escolha: queremos ficar dois anos e meio mais jovens ou queremos prolongar a nossa idade para viver mais em menos tempo? Eles não esclarecem se o remédio é cumulativo ou se uma só dose dá esse resultado.

Lembrei-me logo do Magalhães Pinto que dizia que velho era quem tinha um ano a mais do que ele. Se fosse assim o Magalhães não encontraria mais nenhum velho porque esses já teriam recuado dois anos pelo famoso coquetel.

A minha crença em coquetel é forte, uma vez que foi um deles, apresentado num congresso de Vancouver, que surgiu como esperança para deter a AIDS. Apresentei logo um projeto mandando que ele fosse distribuído gratuitamente a todos os brasileiros com o vírus; esse projeto funcionou e até hoje funciona, diminuindo o sofrimento dos portadores dessa epidemia que atacou a humanidade, associando nos seus males o amor à morte.

São Paulo, repito, já disse isso aqui em meus artigos,pregava sem ressurreiçào não há Cristianismo. Pois agora estes cientistas não promovem a ressurreição, mas nos tornam cada vez mais jovens (ou mais velhos). O diabo é quanto vai custar e quando essa pílula vai aparecer.

Eu, cá por mim, defendendo a minha parte, peço que seja logo, porque não tenho muito tempo mais para esperar. Mas a minha opção será ficar dois anos e meio mais novo, prolongando a minha juventude.

É a ciência a serviço do sonho do homem.

Uma coisa já está resolvida: o coquetel, de saída, dura pelo menos seis meses. Já é a metade do tempo pregado pelo Magalhães Pinto.

Coluna do Sarney

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Minha São Luís dos franceses

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Por José Sarney

São Luís tem nome de Rei, Rei Santo e povo sem pecados. Pensava-se que os franceses tinham aqui passado três anos. Da chegada (1612) de La Ravardière e seu frades do convento de Saint Honoré até 1614, quando Jerônimo de Albuquerque e Diogo de Campos Moreno.

Quando chegou a Guaxenduba, Albuquerque avisou a seu Capitão de Campo: — “Amanhã terei índios do Maranhão comigo”. E apostou dois pares de meia de seda…

Teve, ganhou a batalha e assinou no documento da rendição, juntando ao seu nome o do nosso Estado: “Jerônimo da Albuquerque Maranhão”. Daí os Albuquerques Maranhão!

Essa era a história da memória e dos arquivos portugueses. Depois os arquivos franceses mostraram que franceses passaram aqui, não 3, mas 8 anos!…

Conta Abeville que os caciques locais levaram de presente para os frades umas indiazinhas, cheirando a flores e águas dos rios da Ilha, onde banhavam-se o dia inteiro. Diferente das mulheres francesas, com dez peças de roupas, sem banho e cheiro de corpo. Os frades recusaram. Os caciques ficaram furiosos e disseram: — Como vocês recusam nossas filhas que lhes oferecemos, se há 40 anos os franceses com elas têm filhos?

Assim, esse amor que nós devotamos aos franceses, numa cidade tão portuguesa, vem do sangue. Essas lindas caboclas, gente do nosso povo, que encontramos de olhos azuis, cabelos loiros, mulatos cambaios guardam dos fundadores, nos genes que os séculos não apagam, a singularidade do nosso Maranhão.

Tenho muito orgulho de possuir uma relíquia única daqueles tempos: os franceses, sem saber que La Ravardiére tinha sido derrotado na Batalha de Guaxenduba, o forte já era português, os franceses expulsos, mandaram reforço para missão dos frades capuchinhos. Chefiava o frade Bourdemére, cujo retrato do século 17 comprei de um colecionador em Paris, depois de descoberto por Napoleão Sabóia.

Cheguei a São Luís aos doze anos. Aqui vivi todos os amores da minha vida. Da cidade, da família, da esposa, dos filhos, dos amigos, dos poetas, do sonho de transformá-la, pela minha mão, riscando avenidas às quais dei os nomes dos conquistadores e venerando todos os seus valores.

A cada 8 de Setembro ouço o ruído das águas das carrancas do Ribeirão. Elas falam da eternidade dos nossos valores, das louças da China, dos marinheiros que aqui passaram, das caravelas de todos os mares, dos nossos irmãos da África, de Angola, da Mina dos nagôs, dos cabindas, dos mandingas e de todos os santos.

Cidade sem pecado, da convivência e do amor.

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Está quem manda

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Por José Sarney

Nos meus primeiros meses como Presidente da República, tive que aprender a rotina das solenidades militares, sempre muito bem organizadas, com fórmulas estabelecidas há décadas e impecável respeito a horário e cerimonial. Justamente neste aprendizado, cometi uma das maiores gafes ao ser recebido no Corpo de Fuzileiros Navais de Brasília, no Dia da Marinha.

Diante da tropa formada estava o Ministro da Marinha, Almirante Henrique Saboia, um dos melhores homens públicos que conheci, grande profissional, mas sobretudo personalidade de honradez, cultura e sensatez. Devo-lhe grande ajuda de conselhos, recomendações e solidariedade.

Quando cheguei, ele, com grande garbo, deu a ordem a sua tropa, conforme os costumes navais, seguida pelo toque dos apitos dos marinheiros, e abriu a solenidade, anunciando: —”Está quem Manda!”

Eu, novato em ser o Comandante em Chefe das Forças Armadas, entendi a saudação do Almirante Saboia como “Está queimando.” Abandonei a postura solene de Comandante para me voltar, à procura de onde vinha o fogo. Fui socorrido por meu ajudante de ordens, Major Heitor, a explicar-me que não havia fogo e sim a saudação naval. Até hoje conto com vergonha minha gafe aos almirantes amigos.

Essa foi a exclamação que me veio à cabeça quando recebi a trágica notícia do que acontece na Amazônia, lembrando-me daquele tempo. Desta vez está queimando mesmo, e muito, e escandalosa e catastroficamente fora de controle a nossa Amazônia.

Quando caiu o muro de Berlim, com o fim da utopia socialista, nasceu a ideologia do Meio Ambiente. O Brasil foi colocado no banco dos réus sob a alegação de que destruía a Amazônia, pulmão do mundo — por produzir uma sobra de oxigênio, o que não é verdadeiro, o papel pertence às algas marinhas. A Amazônia é fundamental para a humanidade porque é a maior floresta úmida, tem a maior diversidade e faz, aí sim, a regulação do clima mundial.

Minha reação, eu que sou ambientalista, amante da Natureza, humanista, foi contestar o que não era verdadeiro como teoria, reconhecer que desde a Colônia o Brasil tinha descuidado de enfrentar o problema do Meio Ambiente e trabalhar. Criei o “Programa Nossa Natureza” — com a ajuda dos ministros Bayma Denis e João Alves —, o Ibama e toda uma estrutura nacional de órgãos e institutos de natureza científica e tecnológica, a começar pelo monitoramento das queimadas. Fomos o primeiro país no mundo a dedicar ao Meio Ambiente um capítulo da Constituição, trabalho dos deputados Feldman e Sarney Filho.

Respondi à comunidade internacional reivindicando para o Brasil a Conferência Mundial do Meio Ambiente, com os embaixadores Paulo Tarso, Ricúpero e Seixas Corrêa pedindo apoio para a candidatura do Rio de Janeiro. A Conferência Rio-92 foi um sucesso e cumpriu sua finalidade. Assim saímos do banco dos réus.

Agora, devemos fazer uma mobilização nacional contra o fogo. Começar pelos municípios, com brigadas de voluntários, chamar os Estados à colação e fazer um grande mutirão nacional.

Vamos dar uma resposta correta. Nada de retórica, tudo de trabalho.

Como eu entendi o que disse o Ministro Saboia: “Está queimando!”

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Eleições municipais

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Por José Sarney

Na minha longa vida política testemunhei muitas mudanças. Mudanças de todo tipo: comecei com a votação em cédulas impressas com o nome do candidato e distribuídas entre os eleitores, que as levavam à mesa eleitoral, onde recebiam um envelope para colocar o voto. Era uma guerra entre cabos eleitorais para formar chapas, substituí-las por outras, o que motivava brigas e pancadarias entre candidatos e entre seus seguidores.

João Francisco Lisboa recuou um pouco mais e escreveu largamente sobre eleições na Antiguidade, desde o “palmômetro” até o “brigômetro“, as eleições a cacete.

Vi mudanças de legislação eleitoral às carradas, costumes parlamentares, maneira de escolha de candidatos; vi baixar o nível das candidaturas e corromper a vontade popular, usando como linha de frente o poder e o dinheiro.

Mas nada como agora, quando surgiu para mim uma novidade extraordinária: os partidos não escolhem os candidatos que têm votos, sob a argumentação de que tiram as possibilidades de eleição dos novatos. Tivemos até, na última eleição, um partido que não aceitava candidatos de eleição certa.

Isso sem dúvida é uma coisa que jamais pensei surgir na disputa eleitoral: os candidatos, para conseguirem entrar na chapa, não podem ser aqueles que tiveram sempre a preferência do povo e se elegeram, mas os que não têm votos e, somando os poucos votos dos novos, criam a possibilidade de o partido ter um ou dois eleitos, geralmente os detentores das direções partidárias.

Assim, a primeira qualidade para ser candidato é não ter votos nem possibilidade de se eleger. Fiquei sem saber qual era a lógica dessa conduta. Assim, a política não é mais a escolha por ideias, por trabalho, por tradição ou pela capacidade de liderar e por já ter sido testado pelas urnas. A experiência não é levada em consideração, nem o trabalho partidário, mas o que conta é não ter voto nem capacidade de angariá-lo. Hoje ganhou status de circulação geral a chamada barriga de aluguel, em que afinal uma barriga, o partido, serve para fazer crescer um filho que não é seu.

Soube, contudo, que a experiência de chapas dos sem-votos, na última eleição, também tornou os partidos que assim procederam em partidos sem representantes: não elegeram ninguém.

Os partidos transformaram-se em cartórios de registro de candidato e estão quase todos morrendo, como morrendo está a democracia representativa.

Como a próxima eleição é municipal, essa técnica está sendo costurada para ela, e ninguém está querendo coligação com partido que tenha vereador eleito. Na eleição passada, as chapas de deputado feitas assim resultaram num grande fracasso.

Essa regra de eleição sem voto nunca pensei que pudesse existir. Pois no Maranhão existe. Só se João Lisboa nascer de novo e escrever, em vez de “eleição na antiguidade”, “eleição na atualidade”…

Coluna do Sarney

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