“Caos no Socorrão II é retrato da crise na saúde municipal”, afirma ex-diretor

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oliveira.jpgEm entrevista ao blog, o médico ortopedista Antônio Carlos Oliveira (foto), demitido por telefone, na última sexta-feira, da direção-geral do Hospital Clementino Moura, o Socorrão II, afirma que seu afastamento teve motivação puramente política. Nomeado pela ex-secretária de Saúde e vice-prefeita Helena Duailibe, também exonerada de forma nebulosa, ele revela que, devido ao caos na unidade de saúde, chegou a entregar o cargo duas vezes, na gestão de Helena Duailibe e na atual, comandada por Gutemberg Araújo. Com a experiência de quem atua como gestor na área médica há mais de 25 anos, ele diz que o caos no Socorrão II é o retrato da crise em toda a rede municipal de saúde.

Daniel Matos – Como o senhor foi informado de que estava demitido?

Oliveira – Por telefone. A secretária adjunta de Saúde, Ieda Vanderlei, me ligou informando que entre os ofícios que havia recebido naquele dia com medidas a serem executadas na Semus, estava um sobre a minha pessoa. Respondi que sabia do que se tratava e ela abriu o jogo. De modo algum, a exoneração me surpreendeu, pois, além de já ter pedido para sair duas vezes, era natural que com a saída da Helena eu também deixasse o cargo.

DM – A que o senhor atribuiu a demissão?
 
Oliveira – Posso garantir que incompetência minha não foi. Até porque eu não gerenciava recursos. Além do mais, consegui equipar um pouco mais o hospital, pois fazia muitas solicitações ao comando da secretaria. A única explicação para a minha saída é o revanchismo político. É notório que essa situação começou quando a então secretária Helena Duailibe se reuniu com o secretário estadual de Saúde, Ricardo Murad, para discutir uma ação conjunta na área em favor da população de São Luís.

DM – De que forma o senhor avalia a experiência como diretor do hospital?

Oliveira – Houve alguns avanços, mas, no geral, o trabalho foi marcado por extrema dificuldade. Para se ter idéia, vários médicos já abandonaram o emprego no hospital por causa dos baixos salários e da falta de condições de trabalho. Isso reduziu ainda mais nossa capacidade de atendimento. É um absurdo um médico receber R$ 1 mil de salário, como é o caso de alguns profissionais que atuam no Socorrão II. Há técnicos de enfermagem que ganham R$ 300, muito menos que um salário mínimo. Esse dinheiro dá muito mal para pagar a passagem de ônibus. Uma das principais causas do problema é a baixa remuneração. Não há como ter profissionais dedicados com salários irrisórios.

DM – Por que o Socorrão II está em uma situação tão crítica?

Oliveira – O hospital não tem orçamento próprio e isso compromete o trabalho de administração da casa. É inadmissível que uma unidade de saúde do porte do Socorrão II, que faz cerca de 5 mil atendimentos por mês e consome entre R$ 3 e R$ 4 milhões em recursos mensalmente, não tenha autonomia financeira. Para receber equipamentos, material hospitalar e outros itens, o diretor tem que elaborar uma lista e cabe à Semus providenciar a compra. Em quase cinco meses à frente do Socorrão II, eu nunca tive acesso a nenhuma planilha de gastos. Isso acaba engessando qualquer gestão.

DM – Mas as dificuldades não estão só no Socorrão II.

Oliveira – Claro que não. Toda a rede de saúde do Município está em crise. Nenhuma unidade atende a contento. O caos no Socorrão II é apenas o retrato dessa crise, que só poderá ser eliminada com uma profunda reformulação administrativa. 

DM – Que mensagem o senhor deixa à nova gestão?

Oliveira – Espero que com a minha saída as coisas melhorem, pois se houve a substituição é porque a Semus pretende dar nova dinâmica à administração do hospital. Conheço o novo diretor-geral, Artur Serra, que era meu diretor-técnico e é um profissional jovem e competente. Se ele e sua equipe conseguirem superar as dificuldades, vou ficar satisfeito.

Fotos: Flora Dolores/O Estado do Maranhão

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