Crise no transporte expõe uma São Luís parada no tempo

Por Marlon Botão, ex-secretário de Cultura de São Luís, marqueteiro e militante político há mais de 40 anos

Marlon Botão lamenta que o prefeito Eduardo Braide continue em silêncio absoluto sobre o Passe Livre Estudantil

A deflagração de mais uma greve no transporte coletivo urbano em São Luís não é um acidente de percurso. É o sintoma mais visível de um sistema que segue sendo administrado sem visão estratégica, sem ousadia política e sem compromisso com soluções estruturantes. Enquanto a cidade amanhece novamente com ônibus parados e milhares de usuários prejudicados, a Prefeitura de São Luís permanece parada no tempo — reagindo a crises, mas incapaz de enfrentá-las na raiz.

O contraste com outras capitais brasileiras é cada vez mais evidente. Fortaleza acaba de se colocar formalmente como cidade-piloto da política de Tarifa Zero no transporte coletivo urbano, iniciativa que surge no contexto dos estudos solicitados pelo presidente Lula ao Ministério da Fazenda para avaliar a viabilidade de um modelo nacional de gratuidade. Não se trata de promessa vazia nem de aventura populista. Trata-se de planejamento, estudo técnico e, sobretudo, vontade política.

A capital cearense já conta com passe-livre estudantil em funcionamento e agora avança para um desafio ainda maior: a gratuidade universal. Ao se apresentar como laboratório da Tarifa Zero, Fortaleza assume o protagonismo de um debate que vai além da tarifa e toca no cerne da política urbana: como financiar o transporte coletivo como serviço público essencial, reduzindo desigualdades e fortalecendo o próprio sistema.

Enquanto isso, São Luís segue presa a um modelo esgotado. Mais de 600 mil usuários dependem diariamente de um transporte coletivo precário, instável e agora novamente paralisado por greve. Pessoas que vivem uma rotina de incerteza, atraso e humilhação. Quem pode, migra para a moto ou para aplicativos; quem não pode, fica refém. O resultado é uma cidade cada vez mais congestionada, com excesso de transporte individual e um sistema viário em colapso permanente.

Não há obra pontual, viaduto ou intervenção cosmética que resolva esse problema. Falta política estruturante. Falta encarar o transporte coletivo como eixo central da vida urbana — e não como um problema a ser empurrado para o próximo impasse.

E São Luís já teve, sim, a chance de iniciar outro caminho. O Passe Livre Estudantil foi aprovado por quase 90% da população em plebiscito, uma demonstração inequívoca de apoio popular a uma política de mobilidade inclusiva. A Câmara Municipal, dentro de suas atribuições legais, fez a sua parte: criou uma comissão especial, promoveu audiências públicas, dialogou com estudantes, especialistas e setores empresariais e chegou a enviar uma comitiva a Fortaleza para conhecer de perto o modelo em funcionamento. Ao final, foi elaborado um relatório técnico demonstrando que a experiência é viável e adaptável à realidade ludovicense.

O que falta desde então é decisão do Executivo. O prefeito Eduardo Braide segue em silêncio absoluto sobre o Passe Livre Estudantil — mesmo diante de um mandato popular claro e de um estudo técnico consistente. Não é falta de informação. Não é falta de debate. É falta de vontade política. E esse silêncio também contribui para fragilizar o sistema como um todo, inclusive em momentos críticos como o atual, de greve já instalada.

Esse impasse local dialoga com um problema nacional. Segundo o IBGE, quase 18% dos trabalhadores brasileiros — cerca de 12,4 milhões de pessoas — vão a pé para o trabalho porque não conseguem pagar a passagem. A Tarifa Zero, portanto, não é uma pauta ideológica. É resposta concreta a uma exclusão social silenciosa que se repete diariamente nas grandes cidades.

Fortaleza entendeu isso. Entendeu que investir em transporte coletivo gratuito fortalece o sistema, reduz conflitos, amplia o acesso ao trabalho, à escola e aos serviços públicos, e diminui a dependência do transporte individual. Por isso se credencia a receber investimentos federais e a liderar um modelo que pode ser expandido para o país.

São Luís, ao contrário, segue administrando o atraso. A cada nova greve deflagrada, fica mais evidente que não se trata de um problema pontual entre empresários e rodoviários, mas de um modelo falido, mantido pela inércia política. Enquanto algumas cidades olham para o futuro, a capital maranhense continua apagando incêndios — e deixando a população pagar a conta.

Academia Ludovicense de Letras promove Sarau Vozes da Ilha em ritmo de Carnaval

Com homenagem a Maria Firmina dos Reis, evento reuniu literatura, música e folia no Centro Histórico de São Luís. Presidente anunciou posse da nova diretoria para o próximo dia 5 de fevereiro, no Fórum Desembargador Sarney Costa

Com poesia, música e muito samba no pé, a Academia Ludovicense de Letras (ALL) realizou, na última quinta-feira (29), a primeira edição do Sarau Vozes da Ilha. O evento, que já nasce consagrado como um marco da literatura ludovicense, teve como ponto alto a apresentação da Escola de Samba Turma da Mangueira, que colocou o público em clima de Carnaval ao celebrar a vida e a obra de Maria Firmina dos Reis, patrona da entidade.

Realizado no Teatro da Cidade, no Centro Histórico de São Luís, o sarau marcou o início das atividades da nova diretoria da ALL, presidida pelo juiz e escritor Osmar Gomes. Artistas, poetas, escritores, grupos de leitores e o público em geral participaram da celebração, que promoveu o encontro entre literatura, cultura popular e a memória da capital maranhense.

“A primeira edição do Sarau Vozes da Ilha foi um sucesso e certamente entrará para a memória da Academia. Reunimos artistas e poetas que revelaram a riqueza da nossa produção literária e homenageamos autores que deixaram um legado fundamental para o Maranhão. O evento integra a programação que antecede a posse festiva da nova diretoria e a recente inauguração da biblioteca, reforçando nossa missão de aproximar a Academia da sociedade, fomentar a leitura e estimular a formação de novos escritores”, destacou o presidente da ALL.

A programação contou com performances artísticas e poéticas, apresentações musicais, declamações de poemas por membros da Academia e a execução do samba-enredo de 2020 em homenagem a Maria Firmina dos Reis, pela Turma da Mangueira. Crianças e adolescentes da Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil também participaram, declamando poemas em homenagem à capital maranhense.

O evento reuniu representantes de diversas academias de letras, entidades artísticas, grupos folclóricos e amantes da cultura ludovicense, reafirmando o Sarau Vozes da Ilha como espaço de encontro, celebração e valorização da identidade cultural de São Luís.

Posse festiva – Na próxima quinta-feira (5), a partir das 18h, acontece a cerimônia de posse da nova Diretoria e do Conselho Fiscal da Academia Ludovicense de Letras, para o biênio 2026–2027, além da abertura oficial do ano acadêmico. O evento será realizado no auditório do Fórum Desembargador Sarney Costa, no bairro Calhau.

O ato marca o início de um período promissor para a instituição, que completa 13 anos de fundação em 2026. O programa de gestão da nova diretoria prevê aproximar ainda mais a ALL da sociedade, fortalecer a produção literária local e regional, promover atividades formativas e criativas por meio da literatura e das artes, garantir sustentabilidade institucional e ampliar parcerias.

Entre as metas está também a expansão de pontes culturais para além das fronteiras maranhenses, com intercâmbio literário e cultural com países de língua portuguesa e nações historicamente ligadas a São Luís, como Portugal, Espanha, França e Inglaterra.

No último dia 22 de fevereiro, foi inaugurada a Biblioteca Literária Professor Wilson Ferro, na nova sede da Academia, localizada na Praça João Lisboa, nº 102, Centro.

Maria Firmina dos Reis – patrona da ALL – Maria Firmina dos Reis (1822–1917) é uma das figuras centrais da história literária e educacional do Maranhão. Primeira romancista negra do Brasil, autora de Úrsula (1859), destacou-se como professora abolicionista, fundadora de escola mista e defensora da igualdade, sendo referência do pioneirismo da literatura afro-brasileira.

Em 2020, a Turma da Mangueira levou para a avenida o samba-enredo “Dos Reis da Abolição a Rainha é Ela: Maria Firmina, de Guimarães para o Mundo”, conquistando o terceiro lugar no Carnaval de São Luís. A homenagem à escritora não é inédita: em 1977, a escola já exaltava Maria Firmina dos Reis, destacando sua contribuição para a literatura brasileira.

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