Por que Braide não quer enfrentar Brandão no governo

Por Marlon Botão, ex-secretário de Cultura de São Luís, marqueteiro e militante político há mais de 40 anos

O prefeito Eduardo Braide já foi recebido pelo governador Carlos Brandão para reunião no Palácio dos Leões

Nos bastidores da política maranhense, cresce a avaliação de que o prefeito de São Luís, Eduardo Braide, prefere um cenário em que o governador Carlos Brandão deixe o comando do Executivo estadual e se coloque como candidato ao Senado. Essa leitura não é casual, nem fruto de especulação gratuita. Ela nasce de um cálculo político bastante objetivo: enfrentar Brandão no exercício do governo, com sua estrutura, capilaridade e base política, é um risco alto demais para qualquer projeto estadual liderado por Braide.

Braide conhece Brandão muito bem. Há entre eles não apenas relações políticas, mas também vínculos históricos e familiares, o que ajuda a explicar por que o prefeito tem plena consciência do tamanho da força que o governador acumulou ao longo dos últimos anos. Justamente por isso, ele sabe que é muito difícil partir para uma disputa estadual com Brandão governador — e ainda mais com um candidato apoiado por ele, sustentado por uma base municipal ampla e consolidada.

Hoje, o grupo político liderado por Brandão reúne algo em torno de 180 prefeitos, mais de 700 vereadores e uma base social espalhada por praticamente todo o território maranhense. Essa estrutura não se sustenta apenas em alianças formais, mas em um conjunto contínuo de obras, programas e ações que alcançam municípios de todas as regiões do Estado. Trata-se de uma capilaridade territorial que nenhum projeto restrito à capital consegue neutralizar.

Há ainda um componente institucional que pesa fortemente nesse cálculo. Governar uma capital, mesmo uma cidade complexa como São Luís, é muito diferente de liderar um Estado federativo como o Maranhão, marcado por realidades regionais diversas, conflitos distributivos permanentes e necessidade constante de articulação política. Braide sabe que a transição de um modelo de gestão concentrado para o comando de um Estado exige experiência política, capacidade de negociação e presença territorial — atributos que não se constroem apenas com visibilidade urbana ou desempenho administrativo local. É justamente nesse ponto que a vantagem de Brandão se torna ainda mais evidente.

No fundo, esse contraste revela dois modos distintos de fazer política. De um lado, a política de vitrine, baseada na comunicação rápida, na imagem e na gestão concentrada. De outro, a política de território, construída na negociação, na presença contínua e na articulação federativa. É essa diferença estrutural que torna o embate estadual desigual e ajuda a explicar por que Braide prefere um cenário em que Brandão não esteja no comando do Executivo.

Mesmo em São Luís, onde Braide construiu sua principal vitrine política, o governo estadual mantém presença significativa. A capital concentra um volume expressivo de obras e intervenções do governo Brandão que, em termos de impacto urbano e social, não fica devendo às ações da Prefeitura ao longo de cinco anos de gestão, já incluindo o primeiro ano do segundo mandato do prefeito. Ou seja, mesmo após esse período, Braide vê o governo estadual ocupando espaço relevante na capital, reduzindo a margem de diferenciação política que ele tenta explorar exclusivamente no território ludovicense.

Outro fator central nesse cálculo são as pesquisas de opinião. Braide é conhecido por acompanhar com atenção quase obsessiva os números de popularidade, mas sabe — melhor do que ninguém — que pesquisas são fotografias de um momento específico. Elas têm temporalidade. Mesmo com sua forte capilaridade digital e presença intensa nas redes sociais, ele sabe que, até a chegada efetiva do período eleitoral, parte significativa da popularidade hoje registrada em São Luís tende a se diluir, sobretudo quando o debate deixa de ser local e passa a ser estadual.

Diante desse cenário, há ainda um elemento decisivo: o tempo político. Braide sabe que, quanto mais Brandão permanece no comando do governo, mais o tabuleiro estadual se consolida a favor do governador e do grupo que o sustenta. A cada obra entregue, a cada aliança municipal reafirmada e a cada agenda no interior, o espaço para aventuras eleitorais se estreita. Antecipar o debate sobre a saída de Brandão não é apenas desejo — é uma tentativa de interferir no ritmo natural de amadurecimento do cenário político maranhense.

Do outro lado, Brandão mantém índices de aprovação elevados, acima dos 60%, sustentados não apenas por visibilidade institucional, mas por capacidade estratégica de mobilização política e proximidade com a população em diferentes regiões do Estado. Essa combinação torna o governador um adversário particularmente difícil, sobretudo quando se considera o peso do seu grupo político e a possibilidade real de transferência de capital político para um sucessor.

Diante desse conjunto de fatores, o raciocínio de Braide é pragmático. Enfrentar Brandão e o seu grupo significaria assumir um risco elevado de derrota e, pior, ficar no limbo da política: perder mais dois anos de mandato em uma disputa de alto custo, com chances reduzidas de sucesso, e comprometer o próprio futuro político. Nessas condições, enfrentar Brandão não é apenas arriscado — é flertar com a possibilidade real de desaparecer do centro do jogo político estadual.

Não se trata, porém, apenas de uma preferência circunstancial. Há algum tempo, Braide vem operando de forma calculada para tentar retirar Brandão do centro do tabuleiro estadual. Nesse esforço, delegou ao próprio irmão, Fernando Braide, um papel ativo nas articulações políticas que lhe interessam, especialmente aquelas voltadas a fragilizar o governador por dentro do campo que historicamente sustenta o projeto progressista no Maranhão.

Uma das primeiras manobras foi justamente a aproximação com setores da oposição ligados a esse campo progressista. Não se trata de convergência programática, mas de uma tentativa deliberada de produzir fissuras, gerar ruído e deslocar o governador do eixo central da disputa estadual. Esse movimento se repetiu em articulações fora do Estado, no plano nacional, com uma pseudoaproximação com o Partido dos Trabalhadores — diálogo que, embora exista em Brasília, não encontra sustentação real na política maranhense.

Braide conhece bem seus próprios números e sabe que uma aliança efetiva com o PT, no plano estadual, colocaria em risco o principal tripé de sustentação do seu projeto político: o eleitorado ligado à direita liberal, aos conservadores e ao bolsonarismo urbano que lhe garantiu forte desempenho em São Luís. Esse é o núcleo duro da sua base. Qualquer movimento que sinalize adesão consistente ao campo petista tende a produzir perda imediata de apoio nesse segmento, algo que ele não está disposto a bancar.

Essa contradição fica ainda mais evidente quando se observa a prática concreta da sua gestão. Embora tenha executado obras visíveis — especialmente intervenções viárias, asfaltamento e ações voltadas à fluidez do trânsito —, Braide não estruturou políticas continuadas de assistência social capazes de enfrentar os problemas históricos da população mais pobre de São Luís. O transporte coletivo urbano, principal drama cotidiano das camadas populares, permanece sem resposta estrutural. As reformas em escolas e unidades de saúde seguem um padrão paliativo, enquanto o foco da comunicação oficial privilegia ações que dialogam muito mais com quem anda de automóvel do que com quem depende do serviço público.

Essa postura revela um traço ainda mais profundo da gestão Braide: uma lógica política personalista e avessa à construção coletiva, que chega ao ponto de ignorar até mesmo aquilo que as urnas expressam de forma direta. Um exemplo emblemático é o Passe Livre Estudantil. Enquanto o governo federal já desenvolve estudos para avançar rumo à tarifa zero no transporte público, em São Luís o prefeito sequer implementou o passe livre para estudantes — um segmento central da cidade, formado majoritariamente por jovens das camadas populares. Trata-se de uma escolha política que despreza a mobilidade como direito social e reafirma a distância da gestão municipal em relação às demandas dos mais pobres e dos excluídos.

Mesmo com essas limitações evidentes, a estratégia política adotada por Braide não foi inócua. A recente manifestação pública de parlamentares do PT em espaço nacional, defendendo a existência de uma vertente favorável ao prefeito, revela que a infiltração política funcionou como operação tática. Mas esse movimento não altera o dado central: Braide não quer o PT e não estará com o PT nesta eleição. Qualquer aliança orgânica com o partido colocaria em xeque a identidade política que ele construiu na capital e ameaçaria diretamente sua base conservadora.

Essa operação também produz um efeito colateral grave dentro do próprio Partido dos Trabalhadores. Pensar o PT ao lado de Braide significaria, na prática, isolar de forma absurda o candidato próprio que uma parcela significativa do partido reconhece como expressão das bases sociais e históricas da legenda. Mais do que isso, seria desconsiderar a identidade política construída ao longo de décadas junto à população mais pobre. Nesse contexto, causa estranhamento que setores do partido — inclusive lideranças como o vice-governador Felipe Camarão — cheguem a cogitar essa possibilidade não por afinidade programática, mas por divergências pessoais com o governador Brandão. Trata-se de um movimento que, se levado adiante, não enfraquece apenas Brandão, mas desfigura o próprio PT no Maranhão.

Foi nesse contexto que o prefeito passou a acionar, de forma mais direta, a relação com o Partido dos Trabalhadores, numa aproximação artificial e oportunista que não se sustenta na realidade concreta de sua gestão. Braide não quer o PT. Nunca quis. Desde o primeiro mandato, sua relação com a representação petista em São Luís foi marcada pelo desprezo político sistemático.

O exemplo mais evidente está na Câmara Municipal, onde o Coletivo Nós, primeiro mandato coletivo do PT no Maranhão, apresentou inúmeras proposições voltadas à melhoria das políticas estruturantes e da assistência social na capital. Essas proposições foram reiteradamente ignoradas pelo Executivo. O próprio co-vereador Jonathan denunciou em plenário que o prefeito sequer respondia às solicitações encaminhadas pelo mandato petista, comportamento que se estendia aos secretários municipais, numa clara orientação de silenciamento político.

Na prática, enquanto o discurso oficial vendia uma gestão moderna e eficiente, o que se viu foi o esvaziamento deliberado das políticas de assistência social continuada. Equipamentos fundamentais, como CRAS e abrigos, foram fragilizados. Iniciativas simbólicas e estruturantes, como o Circo Escola da Cidade Operária, simplesmente desapareceram. Tudo isso foi denunciado por quem estava na ponta, dialogando diretamente com a população mais pobre de São Luís — exatamente a base social histórica do PT.

As ações mais divulgadas da gestão Braide dialogam com uma visão liberal de cidade: asfalto, intervenções pontuais, reformas paliativas em escolas e postos de saúde e, sobretudo, políticas voltadas à fluidez do trânsito para quem anda de automóvel. Enquanto isso, o problema crônico da população mais pobre — o transporte coletivo urbano — segue praticamente sem enfrentamento estrutural. Essa opção política não é neutra: ela revela o campo ideológico do prefeito e o eleitorado que ele prioriza, fortemente ancorado nos setores conservadores e bolsonaristas.

Por isso, a ideia de uma aliança entre Braide e o PT não passa de uma falácia. Um verdadeiro Frankenstein político. Em cinco anos de gestão, o prefeito não construiu nenhuma parceria relevante com o governo federal, nunca participou de agendas do presidente Lula e jamais se vinculou às políticas de transferência de renda e de proteção social que marcaram os governos petistas. Imaginar Braide fazendo campanha ao lado de Lula seria não apenas incoerente, mas profundamente prejudicial ao presidente e ao próprio partido no Maranhão.

Esses fatos retiram o debate do campo das suposições e revelam, com clareza, que a relação de Braide com o PT não é apenas circunstancialmente improvável — ela é estruturalmente incompatível.

Essa movimentação não tem como objetivo aproximar Braide do campo progressista. Serve apenas para atingir Brandão, fragilizar sua posição no tabuleiro estadual e criar confusão política. Trata-se de uma estratégia calculada para tentar empurrar o governador para fora da disputa, alimentando a expectativa de que, sem Brandão no jogo, o cenário se tornaria menos desfavorável ao prefeito.

Por isso, digo sem medo de errar: Braide ainda não anunciou sua pré-candidatura porque espera, até os 45 do segundo tempo, que Brandão fique fora da disputa estadual. Vai esticar o tempo político ao máximo, apostando num cenário que talvez nunca se concretize. Mas os fatos indicam que essa espera não passa de uma tentativa desesperada de evitar um enfrentamento que ele sabe ser extremamente arriscado.

A história política do Maranhão mostra que, sempre que projetos progressistas se fragmentaram por disputas internas ou cálculos de curto prazo, o resultado foi o enfraquecimento coletivo e a perda de oportunidades estratégicas. Repetir esse erro agora, isolando ou tentando neutralizar uma liderança com a capilaridade de Brandão, não seria apenas uma decisão equivocada — seria um retrocesso político com impacto direto no futuro do Estado e com repercussões nacionais, pois abrir mão de um Estado estratégico como o Maranhão significa fragilizar o campo progressista em uma disputa nacional cada vez mais polarizada, criando espaço para que setores da direita avancem sobre mais uma unidade da Federação.

É justamente essa leitura histórica e estratégica que ajuda a compreender o comportamento de Eduardo Braide no presente. Não se trata de torcida explícita, mas de lógica política. Braide sabe que, enquanto Brandão permanecer no comando do governo, com sua base municipal robusta, sua presença no interior e sua força institucional, qualquer aventura estadual se transforma em uma aposta arriscada demais. E é exatamente por isso que, nos bastidores, o prefeito parece preferir um tabuleiro sem Brandão no centro do jogo.

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