De herdeiras do campo a líderes de fazendas, mulheres ampliam espaço na pecuária e articulam redes de apoio no sul do Maranhão

A presença feminina no agronegócio brasileiro deixou de ser coadjuvante para ocupar espaços de liderança, gestão e sucessão familiar no campo. Um movimento que ganha corpo sobretudo quando mulheres se organizam em redes próprias para troca de conhecimento e apoio mútuo. No sudoeste do Maranhão, um exemplo concreto dessa transformação é o grupo AgroUnidas Nacional, uma iniciativa que reúne produtoras rurais com foco em fortalecer a atuação feminina no setor, promover aprendizado coletivo e ampliar as conexões entre mulheres que atuam na pecuária e na agricultura.
Criado no segundo semestre de 2025 a partir de uma reunião de mulheres do agro em Porto Franco, o AgroUnidas já soma mais de 100 integrantes e se consolida como um espaço para compartilhar experiências, tirar dúvidas práticas sobre gestão de propriedades, sucessão familiar e desafios do dia a dia na fazenda.
A iniciativa vem se fortalecendo por meio de ações práticas. Em fevereiro deste ano, o AgroUnidas Nacional realizou seu primeiro Dia de Campo, reunindo produtoras, técnicos e instituições parceiras para discutir tecnologias, práticas de manejo e tendências de mercado, marcando um passo importante na consolidação do grupo.
“Estamos transbordando de alegria. É um sucesso. Conseguimos passar bastante conhecimento para o pessoal. É um marco no nosso grupo”, afirma a vice-presidente do AgroUnidas Nacional, Eulina Diniz, destacando a importância de espaços coletivos que incentivam a troca de experiências e inspiram outras mulheres a assumirem papéis de liderança no campo.
Do legado familiar à liderança no campo
São diversas as histórias de mulheres que atuam no agronegócio maranhense. Trajetórias marcadas por desafios, perdas, sucessão familiar e pela necessidade de assumir responsabilidades ainda jovens. No AgroUnidas Nacional, essas experiências deixam de ser isoladas e passam a se entrelaçar, fortalecendo uma rede que transforma vivências individuais em aprendizado coletivo.
A vice-presidente do grupo, Eulina Diniz, cresceu no ambiente rural. O pai, que inicialmente trabalhava no setor ceramista, tornou-se produtor rural e a inseriu desde cedo na rotina da fazenda. Aos 16 anos, após a morte dele, Eulina precisou assumir a condução da propriedade. “Ele sempre dizia: aprende de tudo e usa o que você precisar. Quando ele faleceu, eu tive que tocar a fazenda sozinha”, relembra.
A história da presidente do AgroUnidas Nacional, Rossi Cavalcanti, da Fazenda Bom Sossego, em Porto Franco, segue caminho semelhante. Ela começou a trabalhar no agro aos 16 anos, em um processo de sucessão que, segundo define, não foi planejado, mas se construiu na prática. Com a morte do pai, em 2017, assumiu integralmente a gestão dos negócios e hoje já prepara os filhos para dar continuidade à terceira geração da família na atividade rural.

As duas trajetórias refletem uma realidade cada vez mais comum no campo: mulheres que assumem a liderança da produção, da gestão financeira e das decisões estratégicas das propriedades rurais.
Para Rossi, a presença feminina no agro não deve ser medida apenas pelo enfrentamento ao preconceito, mas pela capacidade de entrega de resultados. “O preconceito é problema do outro, não é meu. Não tem preconceito que resista a resultados”, afirma.
Ela reconhece que o setor ainda carrega resistências e que o desafio da aceitação feminina no comando de propriedades rurais existe. No entanto, afirma que nunca permitiu que isso definisse sua trajetória. O foco, de acordo com Rossi, sempre esteve no trabalho e nos resultados.
Superadas as barreiras iniciais, o maior desafio hoje é acompanhar a velocidade das transformações do mercado agropecuário. “Tudo muda muito rápido. A maior dificuldade é estar adequada sempre a essa nova situação”, aponta.
Foi justamente dessa necessidade de atualização constante e de troca de experiências que surgiu o AgroUnidas Nacional. Para Eulina, a iniciativa representa não apenas um espaço de aprendizado, mas também de inspiração. “Surge uma responsabilidade muito grande, mas nos inspira a seguir melhor a cada dia”, reforça.
Conexão, conhecimento e impacto econômico
O avanço da presença feminina no agro não se restringe à representatividade. Está diretamente relacionado à dinâmica econômica do setor e à modernização da gestão no campo.
Dados do Boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio 2025, elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), indicam que as mulheres representam cerca de 37% das pessoas ocupadas no agronegócio brasileiro, somando mais de 10 milhões de trabalhadoras.
O levantamento mostra ainda que, nos últimos anos, o crescimento da participação feminina ocorreu em ritmo superior ao da masculina, especialmente em funções ligadas à gestão, administração e qualificação técnica.
Para a analista do Sebrae e gestora de empreendedorismo feminino na Unidade Imperatriz, Aline Maracaípe, a organização em rede tem sido decisiva para consolidar esse avanço.
“A mulher sempre esteve no campo, mas muitas vezes invisibilizada na gestão. Quando ela passa a se reconhecer como empresária rural, muda a forma como administra, busca capacitação e acessa mercado. O AgroUnidas nasce exatamente nesse contexto de fortalecimento coletivo”, afirma.

Aline acompanhou a reunião que deu origem ao grupo, em Porto Franco, e também participou do primeiro Dia de Campo promovido pela iniciativa. Segundo ela, o movimento demonstra maturidade e visão estratégica das produtoras da região. “Não é apenas sobre ocupar espaço, mas sobre qualificar a gestão, melhorar indicadores e ampliar competitividade”, afirma.
Para as integrantes do AgroUnidas, os números nacionais ajudam a contextualizar, mas é na prática da fazenda que as transformações se concretizam, seja na sucessão familiar, na adoção de novas tecnologias ou na articulação coletiva para enfrentar um mercado cada vez mais exigente.
Esse movimento observado no campo acompanha uma tendência mais ampla no estado: o crescimento da liderança feminina em diferentes segmentos da economia maranhense.
Empreendedorismo feminino cresce no Maranhão
Dados do Sebrae apontam um crescimento expressivo da liderança feminina nas Micro e Pequenas Empresas (MPEs) no Maranhão. De 2024 a 2026, o número de MPEs comandadas por mulheres no estado passou de 118.360 para 145.367, avanço evidenciado, principalmente, pelo crescimento das Microempreendedoras Individuais (MEIs).
Nesse cenário, o Sebrae Delas se consolidou como um dos principais programas do Maranhão voltado ao fortalecimento do empreendedorismo feminino. A iniciativa foi criada para apoiar mulheres que já possuem um negócio ou que desejam empreender, oferecendo capacitação, orientação estratégica e estímulo ao desenvolvimento pessoal e empresarial.
Outra iniciativa importante é o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, uma das principais premiações do país voltadas ao reconhecimento de mulheres que lideram negócios inovadores e de impacto. Na edição de 2025 do prêmio, o Maranhão conquistou um resultado histórico: duas empreendedoras, de São Luís e Imperatriz, venceram a etapa nacional da premiação, resultado que reflete a força do empreendedorismo feminino no estado.