Aposentar-se da vida ou do trabalho?

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Uma questão que me parece absolutamente relevante e que vem merecendo pouca atenção, por parte do estado e de muitas empresas empregadoras nesse país, é o destino de muita gente que, ao se aposentar, passam a apresentar graves problemas emocionais, comportamentais e sociais, em razão direta da aposentadoria.

Para muitos, aposentar-se ao invés de representar uma conquista, um novo e agradável modo de vida, uma oportunidade a mais de ser feliz ou de virem a realizar planos saudáveis na vida, a aposentadoria representa um “inferno” uma tortura ou uma coisa muito ruim. Muitos ficam à deriva, sem saber o que fazer, sem saber para onde ir, sem fazer nada e à margem das atividades sociais e ocupacionais. Outros, torna-se ansiosos, depressivos, fóbicos, inseguros, retraídos, ocasionado pela mudança abrupta de seus “modus vivende”, para o qual não foram preparados.

Em geral, quando o assunto é aposentadoria, uns se assustam, outros se preocupam e se retraem e não querem falar sobre o mesmo, e, há os que tem até medo de chegar a essa época. E, ao tratar sobre ela, as principais questões são sempre as mesmas: reclamações, revoltas, previdência, salários, direitos, desassistência, etc. São queixas comuns, que se destacam sobre qualquer outro assunto e, um dos que menos se fala, são dos sentimentos, vivências, expectativas e projeto de vida que cada pessoa apresenta ao se aposentarem. Ao meu ver, um assunto absolutamente relevante, que deveria ser melhor tratado, do ponto de vista médico, psicológico, social e previdenciário.

Para mim, como um psiquiatra e como observador das questões sociais e humanas, não estranho, esse descuido sobre essas questões quando o estado nem as empresas não se preocupam em fazê-lo, muito embora possa haver danos importantes na saúde e no comportamento dos muitos que aposentam.

Infelizmente, não há um olhar especial sobre os aposentados, isto é, sobre a pessoa que passou a vida toda trabalhando, produzindo, colaborando com a sociedade, que, ao se aposentar, via de regra, é deixado de lado literalmente, abandonado a sua sorte, pela ausência de uma política efetiva, regular, abrangente e humanizada, que venha dar a essas pessoas as garantias mínimas, de proteção, valor e os meios adequados para se organizarem para entrar nesse novo ciclo de vida.

Restringirei meus comentários, nesse artigo, sobre os aspectos psicológicos e comportamentais das pessoas que se aposentam. E, nesse sentido, resgato parte de uma conversa que tivera, há alguns anos atrás, com um dileto amigo, Evandro Carvalho, quando discutíamos algumas questões sobre as aposentadorias. Ele, por muitos anos, dirigiu a Caixa de Previdência dos Funcionários do antigo Banco do Estado do Maranhão, a CAPOF e na época, me convidara para ser médico desse órgão.

Entre as conversas que tínhamos, Evandro, enfaticamente dizia: aposentar-se do trabalho, não é aposentar-se da vida. E dizia isso a partir de algumas observações minhas lidando com servidores especialmente aposentados os quais procuravam-me para consultas. Entre essas queixas, a de depressão era enorme. Uns se sentiam inúteis, com baixa estima pessoal. Outros, ainda, referiam dificuldades de adaptação a nova vida, ou se sentiam ansiosos, inseguros e culpados, ou ainda, passavam a beber muito e até usar outras drogas. Referiam somatizações clínicas frequentes e conflitos familiares. Houve um caso, que me lembro até hoje, quando uma Sra., referindo-se ao seu marido, recém aposentado, me dissera, Dr.: não aguento mais esse homem, depois que ele se aposentou, está insuportável e se transformou completamente.

Essas alterações de comportamentos, em minha avaliação, estavam ligadas diretamente ao fato de se aposentarem e não estarem, entre outras coisas, preparados para tanto, algumas dessas pessoas, quando voltavam a trabalhar, tempos depois, observava-se uma drástica redução dessas queixas, isto é, melhoravam sua qualidade de sua vida. Essas observações me convenceram que a aposentadoria, ou era a causa principal desses problemas, ou a mesma funcionava como gatilho para desencadear alguns desses comportamentos. Em uma condição ou outra, percebi e ainda percebo, que são muito tímidas as ações institucionais que oferecem medidas de prevenção a essas reações comportamentais desadaptativas, tão frequentes entre os aposentados, deixando-os vulneráveis a essas idiossincrasias.

Sabe-se, que trabalhar é uma das melhores e mais importantes formas de se promover, assegurar e prevenir doenças mentais e ocupacionais, especialmente nessa população de vulneráveis que são os aposentados. A ocupação, em si mesma, é um meio indispensável de se prevenir doenças e agravos psicológicos. Os danos à saúde em uma aposentadoria mal trabalhada, é enorme, e, é preciso que haja, no âmbito dos serviços públicos ou privados, políticas ou ações específicas, nas áreas sociais ou de RH, que trabalhem de forma antecipada e sistematicamente, com seus servidores a condição de virem a se aposentar. Além do mais, recomenda-se, que haja igualmente, ações específicas destinadas ás famílias desses que se aposentam para evitarem maiores problemas a partir desse novo modo de vida.

Essas e outras medidas, são de caráter preventivos-assistenciais, que poderiam ser implementadas ainda no ambiente de trabalho, muito antes de efetivamente se aposentarem. Isso, ao meu ver, facilitaria a transição dessa condição de uma vida produtiva para a de aposentado, dirimindo os efeitos negativos desse processo.

Aposentar-se, é salutar e que nem sempre representa problemas, muito pelo contrário, muitos ganham qualidade de vida, tempo livre e se expandem do ponto de vista existencial, além de terem a chance de trabalharem em outras atividades que não sejam as habituais, o que é muito interessante do ponto de vista psíquico e laborativo.  Ocorre, que como nem todos reagem assim, há os que ficam à mercê de graves problemas comportamentais e de adaptação pessoal e social, a esses, deveria ser oferecida medidas protetivas para uma boa transição entre o trabalho e a aposentadoria.

 

 

 

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