RECORDAÇÕES CARNAVALESCAS

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Confesso sem medo de ser feliz: desde criança o carnaval faz parte de mim. Ainda que a idade não me ofereça mais fôlego e resistência para participar da folia, como nos tempos de juventude, continuo gostando das festas dedicadas a Momo.
Quem me fez gostar de carnaval foi meu pai, Abdala Buzar. Ele, em Itapecuru, um carnavalesco de primeira linha, tomou a iniciativa de fazer com que eu e meus irmãos, desde pequenos, nos tornássemos adeptos da folia momesca. Ao seu lado, fizemos as primeiras incursões no mundo das brincadeiras carnavalescas, que nos contaminaram na infância, continuaram na adolescência e permaneceram na vida adulta.
Lembro-me ainda, e com imensa saudade, dos tempos em que ele saía nas ruas, e, com a sua irradiante descontração, alegrava a população itapecuruense, que ansiosamente desejava vê-lo maquiado, com roupa de mulher e jogando talco ou atirando rodó nas pessoas que dele se aproximavam. Uma de suas vítimas era o pároco José Albino Campos, seu dileto amigo, que se acostumara a recebê-lo na casa paroquial, onde era literalmente coberto de pó. Até o arcebispo, Dom José Delgado, certa vez, não escapou de um banho de talco, fazendo a sua batina preta virar branca.
Concluída a fase da infância, vivida em minha querida terra, vim para São Luis continuar os estudos. Aqui, a partir do final dos anos de 1950, já mais taludo e arguto, passei a integrar-me à vida mundana desta cidade, com direito a freqüentar o Jaguarema, o Lítero e o Cassino Maranhense, sem esquecer os chamados clubes populares ou bailes de máscaras.
Com o sangue carnavalesco correndo nas veias, não houve qualquer em aderir às brincadeiras momescas de São Luis, à época, por serem singulares e diversificadas, deram à capital maranhense a fama de terceiro carnaval do Brasil, só perdendo para o Rio de Janeiro e Recife.
Enturmado com colegas do Liceu e fazendo da Praça João Lisboa o nosso ponto de encontro, então, o maior centro de convergência da cidade, entrei de cabeça no carnaval da cidade, onde se brincava de forma alegre, descontraída e despojada, cuja temporada começava na festa de reveillon.
A partir, portanto, da primeira semana do ano novo, São Luís era só carnaval. Nos clubes da chamada elite social, que funcionavam no centro da cidade, pontuavam as festas para os associados e convidados. Nos seus salões, as presenças de colombinas, pierrôs, dominós e fofões.
Só quando a cidade começa a espraiar-se e contar com novos bairros, as novas sedes dos clubes Jagurema e Lítero são deslocadas para o Anil, que passam a servir de palco para a temporada momesca. As festas eram monumentais e os que a elas compareciam apresentavam-se com fantasias luxuosas e de bom gosto, pois assim poderiam participar de desfiles em que os vencedores recebiam prêmios valiosos.
Se isso acontecia nos clubes sociais, não era diferente o que ocorria nos clubes populares ou bailes de máscaras, que, também, iniciavam as programações carnavalescas em 31 de dezembro e acabavam na madrugada da quarta-feira de cinzas. Esses clubes, por só funcionarem no período do carnaval, realizavam as noitadas festivas em casas alugadas no centro da cidade e ornamentavam-se feericamente para receber homens e mulheres, estas, não podiam entrar no salão de dança de cara limpa. Vestidas de fofões, rostos cobertos por máscaras e mãos enluvadas, esse o traje exigido para evitar que elas fossem identificadas. As mascaradas tinham acesso livre e entre elas encontravam-se adúlteras, virgens, desvirginadas, balzaquianas, solteironas em final de carreira, prostitutas da Zona do Meretrício e de outras paragens. Nem os qualhiras eram discriminados. Os que existiam na cidade e reprimidos pelo forte preconceito, aproveitavam o carnaval para se liberar e tirar sarros nos incautos.
Os proprietários dos bailes, pessoas bem conhecidas na cidade, dentre os quais Moisés Silva e Reinaldo Pinto, contratavam ônibus para trazer as mulheres da periferia. Umas vinham apenas para se divertir; outras, contudo, visavam melhorar as receitas domésticas, usando a atividade sexual.
Dentre os clubes populares que marcaram época no carnaval de São Luis destacavam-se O Bigorrilho e a Gruta de Satã, em cujos salões os foliões dançavam ao som de orquestras de bom nível. O cardápio musical era à base de sambas e marchinhas carnavalescas. Mas o ritmo mudava, para delírio da galera, com a execução do Mambo Jambo, música caribenha de muito sucesso por aqui.
E as brincadeiras de rua como eram, onde se realizavam e quem delas participava? Os corsos dominavam o cenário carnavalesco da cidade, sendo os mais aplaudidos pela população. Mulheres com fantasias vistosas e simples e pandeiros nas mãos cantavam e dançavam nas carrocerias de caminhões. Constituíam também atrações a casinha da roça, fofões, mascarados solitários ou em grupos, baralhos, blocos, turmas de sambas e batucadas, estas, substituídas pelas escolas de samba à moda carioca, que nada têm a ver com a nossa cultura e nossa tradição.
Por falar em tradição, convém ressaltar os “assaltos carnavalescos”, bastante apreciados e praticados. Homens e mulheres da alta sociedade, acompanhados de orquestras, invadiam as casas de pessoas conhecidas e nelas realizavam divertidas e surpreendentes festas dançantes.
Nessa resumida retrospectiva do carnaval de São Luis, uma conclusão é clara como a luz do dia: não dá para comparar a folia do passado com a dos dias correntes. Se aquela era espontânea, original e sem aparatos, a vigente é formal, maqueada e onerosa.

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