PACTO DE SOLIDARIEDADE

0comentário

Pouca gente sabe que sou detentor de um expressivo arquivo político. Não conheço ninguém em São Luis que tenha documentos originais ou impressos de jornais, do passado e do presente, tanto quanto eu. Reconheço que não dou aos mesmos o tratamento técnico, como manda a ciência arquivística, mas faço o possível para manter essa farta e preciosa documentação em boas condições de uso.

Recentemente, encontrei uma boa alma que me convenceu a perenizar e a deixar à posteridade tantos e tão preciosos documentos: o meu querido amigo e confrade Joaquim Haickel. Por meio de uma parceria, começou a digitalizar toda documentação manuscrita, impressa e fotográfica, esta com mais mil imagens, que recolhi ao longo do tempo, especialmente com respeito à vida política maranhense e que guardo com carinho.

Digressões à parte, que venha o que interessa. Em São Luis, a ordem do dia gira em torno de pactos. Diante disso, nada melhor do que comentar e trazer a lume um documento com assinaturas de senadores e deputados do Maranhão, publicado em jornais da época em que foi produzido.

O documento registra o sentimento de contrariedade de um grupo político ao governador que então ocupava o Palácio dos Leões. Tudo aconteceu nos idos de 1984, portanto, há mais de trinta anos, com a divulgação  do Pacto de Solidariedade, que pregava a insurgência da representação do PDS do Maranhão no Congresso Nacional ao comando do governador Luiz Rocha, pelo modo como conduzia os destinos do Estado e tratava os companheiros de partido.

Esses desencontros do chefe do Executivo do Estado com a bancada federal já vinham ocorrendo, mas faziam parte da rotina política. Só chegaram ao domínio da opinião pública a 8 de janeiro de 1984, no momento em que a imprensa de São Luis divulgou com certo estardalhaço o Pacto de Solidariedade, tendo como signatários os senadores Alexandre Costa e João Castelo, o vice-governador João Rodolfo Ribeiro Gonçalves e os deputados federais Bayma Junior, Magno Bacelar, Eurico Ribeiro, Jayme Santana, José Burnett, José Ribamar Machado, João Rebelo, Edison Lobão e Nagib Haickel, todos do Partido Democrático Social.

O impacto que o documento causou na sociedade foi bombástico, até porque não se imaginava que com Luiz Rocha no governo, eleito pelo povo, depois de três governadores com mandatos indiretos – Pedro Neiva, Nunes Freire e João Castelo, os políticos maranhenses pudessem se estranhar e entrar em rota de colisão tão prematuramente.

Depois de algumas considerações para explicar e justificar o lançamento do pacto, os signatários alertaram que o documento não tinha o propósito de embargar a ação política ou administrativa do governador, de obstruir o seu caminho e nem estava contaminado de qualquer prevenção ou má vontade para o com o seu governo.

Em vez da desagregação, da divisão, do esfacelamento e da dissidência, o que desejavam era a união para “o Maranhão, onde a cada dia aumenta a miséria, avoluma-se a fome e cresce o desemprego, se reencontrar com os atos revestidos de grandeza, desprendimento e resignação”.

Ao final do documento, uma advertência foi endereçada a Luiz Rocha: “A partir desta data, nosso apoio passa a depender do respeito, da consideração e do tratamento dispensados aos que ora se unem em função dessas ideias e princípios”.

O governador, contudo, não engoliu a seco o pacto. Como bom sertanejo, deu o troco em entrevista à imprensa. Discordou do teor do documento assinado por dois senadores, o vice-governador e nove deputados federais do PDS, e ainda mandou este atrevido recado: “Para governar o Maranhão, dispensava do apoio dos signatários do Pacto de Solidariedade”.

Foi o bastante para o surgimento de uma tréplica e do lançamento de um “Manifesto ao povo maranhense” com oito itens, sendo os três primeiros duros e ríspidos contra Luiz Rocha.

No primeiro item, o governador é acusado “de praticar atos que desagregam o partido”; no segundo, mostram o desacordo “com a demissão de milhares de funcionários e pela via oblíqua de realizar um concurso inoportuno”; no terceiro, condenam “as perseguições feitas em todo o Estado, com demissões e remoções de companheiros que contribuíram para a eleição do próprio governador”.

Do quarto ao oitavo item, esclarecem que o manifesto será levado ao conhecimento do senador José Sarney, presidente nacional do PDS; que o senador Alexandre Costa e o deputado Jayme Santana seriam os interlocutores e coordenadores do grupo; que sem a bancada federal o governador não teria viabilizado o empréstimo externo no valor 25 milhões de dólares; e que esperam de Luiz Rocha sensatez e equilíbrio para a retomada do “diálogo com a classe política e governar em sintonia com os companheiros de partido e com o povo”.

Mas a paz entre Luiz Rocha e a bancada federal não demorou a ser restabelecida. Quem a promoveu foi o senador José Sarney que, com a autoridade de presidente nacional do PDS, fez uma reunião em Brasília, em que muita roupa suja foi lavada, após o que as desavenças e os mal-entendidos foram esquecidos.

Sem comentário para "PACTO DE SOLIDARIEDADE"


deixe seu comentário