DE ILHA REBELDE Á ILHA DO AMOR

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Em 1951, como presente pelos seus 349 anos de fundação, São Luis recebeu a denominação de “Ilha Rebelde”, pela brava resistência oferecida, à época, aos detentores do poder. Essa resistência ganhou visibilidade na greve política contra a posse do governador Eugênio Barros, que, segundo os oposicionistas, vencera a eleição de outubro de 1950, realizada sob os auspícios da fraude eleitoral e com o beneplácito da Justiça.

Contra isso se levantou povo de São Luis através de um fabuloso movimento popular que durou mais de seis meses e com presença nas ruas, dia e noite. Transformada em trincheira de luta contra o vitorinismo, a cidade, pelo voto, massacrava os candidatos governistas, impondo-lhes derrotas memoráveis. Se os governistas tinham o domínio político no interior do Estado, na capital, a situação se invertia. Aqui, só os candidatos oposicionistas tinham vez.

Mas esse quadro político teve um prazo de validade relativamente curto. Em menos de vinte anos, como se um processo de anestesia coletiva desabasse sobre São Luis, o eleitorado mudou, acomodou-se e perdeu aquela valentia que lhe era peculiar.

De repente, a Ilha Rebelde fica sem a sua identidade política e comporta-se igual a qualquer povoado do interior maranhense. O povo esquece os idos de 1950, quando nas vias públicas, com o sacrifício até da vida, insurgiu-se contra a investidura de um governante que considerava sem legitimidade para assumir o poder.

O FIM DA ILHA REBELDE

Para quem acompanha a vida política do Maranhão, São Luis começa perder a sua alma de rebeldia política na década de setenta, com a chegada dos militares no comando do país e com a decretação do Ato Institucional nº 2, em 27 de outubro de 1965, pelo presidente Castelo Branco, no bojo do qual um artigo mandava extinguir todos os partidos políticos existentes no Brasil.

Ainda, em cumprimento ao AI-2, o governo militar define por Ato Complementar as regras da reorganização partidária, segundo a qual apenas dois partidos seriam criados: de um lado, o partido governista, Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e, de outro, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

No Maranhão, a mudança das regras partidárias complica a situação dos políticos. Mas, em função da prática do fisiologismo, a grande maioria da militância política aninha-se na ARENA. Para o MDB, migraram os dotados de formação ideológica ou os refugados.

Por conta dessa corrida em massa para o partido governista, o quadro político conturba-se pela dificuldade de convivência no mesmo grupo de lideranças que se enfrentavam em lados opostos. Como poderia um partido ter vida e se estruturar organicamente com figuras que defendiam causas diferentes e não se toleravam física e politicamente? Não foi fácil colocar no mesmo compartimento partidário José Sarney, Clodomir Millet, Vitorino Freire e Newton Bello, que vinham de renhidos embates eleitorais, quase sempre travados sob os eflúvios do ódio e do rancor.

Mas o caldo estava derramado e do governo militar a ordem era uma só: quem quisesse ser governo, devia esquecer as incompatibilidades pessoais e políticas. Em cumprimento a essa orientação e depois de muita lavagem de roupa suja, sarneístas, vitorinistas e newtistas depuseram momentaneamente as armas e juntaram-se numa convivência nada pacífica, mas como era questão de sobrevivência, acomodaram-se e pagaram pra ver.

Apenas um político do Maranhão, que desejava ser da Arena, ficou de fora: o então prefeito de São Luis, Epitácio Cafeteira, rompido politicamente com o governador José Sarney. O gestor municipal fez de tudo para ingressar no partido governista, mas não conseguiu. Motivo: Sarney montou uma operação de guerra para defenestrá-lo e conseguiu. Para não ficar sem partido, o prefeito foi parar no MDB, sendo recebido, também, com restrições.

O resultado dessa mixórdia partidária veio a lume nas eleições senatorias de 1966, com a disputa do cargo de senador. A luta não se deu entre os candidatos da ARENA e do MDB, mas entre os arenistas Clodomir Millet que venceu apoiado por Sarney, e Eugênio Barros, derrotado, numa sublegenda, apoiado pelo que sobrou do vitorinismo e do newtismo.

Merece registro a quantidade volumosa de votos nulos e brancos. Só em São Luis, o índice foi de 15 por cento dos votos apurados. Esse resultado mostra indiscutivelmente a apatia e o descontentamento do eleitorado com a nova realidade política e partidária, que resultou na eutanásia da Ilha Rebelde.

ILHA DO AMOR, MAGNÉTICA E BELA

Com o fim da Ilha Rebelde, despolitizada pelo regime militar, vislumbra-se um espaço para São Luis conquistar outras qualificações, estas, impregnadas de louvação ao amor e à beleza da cidade. Aproveitam-se dessa lacuna os cantores e compositores maranhenses João Sá ou Claudio Fontana, César Nascimento e Carlinhos Veloz.

Essa apologia musical a São Luis nasce e vinga entre os anos setenta e noventa. Claudio Fontana, que morava em São Paulo, saiu na frente com uma declaração de amor a terra em que nasceu e se criou.

Com letra e música de sua autoria, lança a canção intitulada “Ilha do Amor”, cujo estribilho caiu na boca do povo de modo impressionante: “Quero voltar, quero voltar para São Luis/Ilha do amor onde eu nasci/ onde em criança eu fui feliz”.

Nesse mesmo caminho, veio César Nascimento, com residência em Petrópolis, Rio de Janeiro, que dedica a São Luis uma gostosa melodia, intitulada “Ilha Magnética”, de endeusamento à cidade onde o amor e a natureza se misturam em versos como estes: “Ponta D’Areia, Olho D’Água, Araçagi/ Mesmo estando na Raposa/ Eu sempre vou ouvir/ A natureza me falando que o amor nasceu aqui”.

Explorando a mesma temática, Carlinhos Veloz, cantor e compositor de Imperatriz, presenteia São Luis com esta canção denominada “Ilha Bela”, na qual ressalta a beleza da cidade e o que ela tem de pujante – sua história e seu tropicalismo, que se manifestam nos casarões seculares, no clima e na sensualidade da dança e da música.

Quem ouve a música de Carlinhos se encanta com estes versos: “Quero juçara que é fruta rara, lambuza a cara e lembra você/ E a catuaba pela calçada na madrugada até o amanhecer/ Na lua cheia, Ponta D’Areia, minha sereia dança feliz/ E brilham sobrados, brilham telhados da minha linda São Luis.”

ILHA DOS POETAS, DOS AZULEJOS E REGUEIRA

Além de Ilha Rebelde, dos Amores, Magnética e Bela, São Luis também se tornou conhecida nacionalmente por Ilha dos Poetas, dos Azulejos e Regueira.

“Ilha dos Poetas”, pela quantidade e qualidade de seus vates. A escritora Stela Leonard criou esta frase lapidar : Quem deseja ser poeta, basta dormir uma noite em São Luis.

Em uma de suas magníficas crônicas sobre São Luís, o saudoso Jomar Moraes assim se expressou: “Dizem que São Luis é uma cidade de poetas. Bairrismos à parte, a afirmativa procede, tantos são os poetas que tivemos e continuamos tendo. Ou melhor – que temos, já que os poetas não morrem. Encantam-se. Embora fazendo a necessária advertência de que há poetas, é perfeitamente correto assegurar que esta Cidade, entre seus altos e honrosos privilégios, inclui o de possuir muitos e importantes poetas.”

Não fica atrás o grande poeta Bandeira Tribuzi. No poema em homenagem a São Luis, transformado em hino da Cidade, reluzem estes versos: “Cercada de águas e sonhos, / de glória, de maresia/ a Ilha é circundada de Poesia.”

ILHA DOS AZULEJOS

Uma preciosa peça, à vista de todos, que se realça pela beleza e singeleza, fez com que São Luis se tornasse conhecida por “Ilha dos Azulejos”. De origem portuguesa, o azulejo é encontrado nas paredes das casas residenciais e comerciais do nosso Centro Histórico. Se até pouco tempo era cobiçado como peça de valor estético, hoje é alvo da cobiça dos  ladrões que os roubam para vendê-los  aos colecionadores e especuladores.

Segundo os historiadores, o azulejo chegou ao Maranhão, no final do século XVIII, pelas mãos dos e portugueses, ferramenta de embelezamento estético e fazer de São Luis uma segunda Lisboa. O sucesso do azulejo entre nós deu-se em grande escala, pelo aproveitamento nos revestimentos de igrejas, conventos, casas de saúde, escolas particulares e fachadas residenciais.

A pesquisadora Dora Alcântara acha que os azulejos foram a solução encontrada pelos maranhenses, com vistas à decoração das fachadas residenciais e dos objetos domésticos, que por motivos estéticos, ganharam status social.

ILHA REGUEIRA

Resta uma palavra sobre a “Ilha Regueira”, que se manifesta através do esfuziante ritmo caribenho, que invadiu São Luis no final do século passado e hoje é coqueluche no Maranhão inteiro.

Reza a lenda que o reggae chegou através das emissoras de rádio do Caribe, que tinham grande audiência na área suburbana. Por meio das radiolas, o ritmo, pela sua languidez e sensualidade, impôs-se e obteve enorme aceitação junto às classes menos favorecidas.

O reggae espraiou-se assustadoramente em São Luis. Por obra de sua enorme legião de adeptos, virou instrumento político. Na penumbra do ritmo de Jimmy Cliff, nas eleições municipais, sempre são eleitos  vereadores à Câmara Municipal.

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