A TELEVISÃO NO MARANHÃO

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O Brasil comemora 70 anos da inauguração da primeira estação de televisão, a TV Tupi, em setembro de 1950, em São Paulo, solenidade que se repetiu na Cidade Maravilhosa, em janeiro de 1951, eventos presididos pelo poderoso dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, proprietário de quase todas as emissoras de rádio e jornais do País.

Eu tive o privilégio de ver a chegada da televisão em São Luís em dois marcantes momentos.

PRIMEIRO MOMENTO

Eu era estudante do Liceu Maranhense quando em fevereiro de 1955, por motivos políticos, o povo de São Luís teve a invejável oportunidade de conhecer uma novidade eletrônica, que o saudoso jornalista carioca, Stanislau Ponte Preta, chamava de “máquina de fazer doido”.

A população maranhense, em matéria de veículos comunicação social, desfrutava de três emissoras de rádio, cinco jornais e dezenas de serviços de alto falantes, de repente se dá conta de ser a terceira cidade do Brasil a ter diante dos olhos e ouvidos, imagens transmitidas pela televisão.

ELEIÇÃO DE CHATEAUBRIAND

Quem empreendeu tão arrojada iniciativa foi o jornalista Assis Chateaubriand, não por motivos financeiros ou culturais, mas por razões políticas, pois perdera a eleição de senador na Paraíba, sua terra natal.

Como Chatô era homem poderoso, o PSD precisava de sua cadeia de rádio, jornal e televisão, para apoiar a candidatura de JK à Presidência da República em 1955. Resultado: sob as bençãos do senador Vitorino Freire e do governador Eugênio Barros, o PSD maranhense assumiu o compromisso de realizar uma eleição fora de época.

Para isso, contaram como a colaboração do senador Antônio Bayma e do suplente Newton Bello, que renunciaram aos mandatos, bem como do TRE, que marcou para 5 de março de 1955, a nova eleição, na qual Assis Chateaubriand derrotou o candidato das Oposições, coronel da Aeronáutica, Armando Serra de Menezes.

A TV NA PROPAGANDA

Como não havia tempo para a realização de comícios e propaganda do candidato do PSD ao Senado, que estava sendo bombardeado pelos oposicionistas, que o denunciavam como barganha política, a direção dos Diários Associados trouxe para São Luís, técnicos e equipamentos da TV Tupi, e usaram os estúdios da Rádio Timbira, que funcionava no começo da Rua Osvaldo Cruz, de onde geravam imagens para os aparelhos de televisão, espalhados na Praça João Lisboa, para uma multidão que às noites comparecia para ouvir notícias, vocalizadas pelo famoso locutor Carlos Frias, bem como  ver shows de artistas nacionais do rádio, cinema e teatro do nível de Adelaide Chiozzo, Trio Irakitan, Francisco Carlos, Emilinha Borba, Ivon Cury e de cantores da terra, a exemplo da Dupla Ponto e Vírgula, Orlandira Matos, Lourdinha Costa, Maria Emília, Hamilton Raiol e Joran Coelho.

SEGUNDO MOMENTO

O segundo momento da presença da televisão em São Luís, verificou-se quando eu cursava Direito, na antiga Faculdade da Rua do Sol.

Desta vez, a tevê veio para ficar, época em que a sociedade maranhense exigia inovações tecnológicas, na área da comunicação social, onde a televisão era a principal atração.

A inauguração da pioneira estação de TV em São Luís, surge oito anos depois do arremedo de televisão, que Chateaubriand instalou com finalidade eleitoral. Às 21 horas de 9 de novembro de 1963, o representante do Presidente da República, ministro da Justiça, Abelardo Jurema, o governador Newton Bello e o deputado Raimundo Bacelar apertaram um dispositivo eletrônico, fazendo com que as imagens da TV- Difusora, canal 4, fossem para o ar.

 ENLATADOS E DE CHANCHADAS LOCAIS

Os irmãos Raimundo e Magno Bacelar, que não eram neófitos na área da comunicação social, pois fundaram o Jornal do Dia e a Rádio Difusora, adquiriram os equipamentos de televisão nos Estados Unidos e os instalaram nos últimos pavimentos do Edifício João Goulart, na Avenida Pedro II

Mesmo funcionando em espaços não adequados, a TV Difusora veiculava uma programação à base de enlatados, com filmes geralmente americanos e seriados, intercalados com programas de artistas locais, que, sob à direção do saudoso Reynaldo Faray, apresentava shows, entrevistas e até novelas, que não passavam de chanchadas tupiniquins.  

Quem pagou um preço alto por acreditar que a TV Difusora viera para ficar, foi um pequeno número de gente, que, por isso, via a casa ser invadida por vizinhos curiosos e visitas incômodas. Alguns, para se livrarem dessas inoportunas figuras, fechavam antes do anoitecer as portas das moradias. Outros, porém, mais sabidos, cobravam dos visitantes e curiosos, um pequeno valor monetário, para ajudar no custo da eletricidade.

A CHEGADA DO VÍDEO-TAPE

Três anos depois da inauguração da TV Difusora, quando havia aumentado consideravelmente a quantidade de aparelhos de tevê e de telespectadores, os irmãos Bacelar, aprontaram outra surpresa aos maranhenses: em junho de 1966, implantaram o sistema de vídeo-tape, que fez a  programação da emissora dar uma guinada de 180 graus.

Pelo vídeo-tape, os programas veiculados pelas emissoras do Rio e São Paulo, como noticiários, novelas, shows com cantores nacionais e estrangeiros, apresentações de peças teatrais, com atores e atrizes famosos e partidas de futebol, com os grandes craques, passaram a ser vistos, não simultaneamente com os sulistas, mas dias depois.    

A REPERCUSSÃO DAS NOVELAS

A primeira novela transmitida pela TV Difusora foi produzida pela Record, chamada de Redenção, que fez enorme sucesso em São Luís, a ponto de dar nome a um bairro novo, nas proximidades do Filipinho.  A realidade dos moradores assemelhava-se à ficção novelesca.

Por causa dessa novela, um garoto que morava no Apeadouro, ao ver uma cena violenta, teve um choque emocional e perdeu a fala por várias horas.

Nessa mesma novela, uma das atrizes interpretava uma mulher fofoqueira denominada de Maroca, que acabou virando em São Luís o verbo marocar.    

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PÉROLAS POLÍTICAS DE ALFREDO DUAILIBE

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Quando o Dr. Alfredo Duailibe deixou a política e a medicina, atividades nas quais se projetou no Maranhão como uma das mais importantes figuras humanas e profissionais, eu, conquanto não fosse de sua geração, sempre o visitava, a princípio na sua confortável casa, no Calhau, que trocou depois por um apartamento bem amplo, no bairro Renascença, onde, morava em companhia da idolatrada esposa, Maria, e da filha Teresa.

Nessas costumeiras visitas, geralmente vespertinas,  conversávamos sobre assuntos diversos, mais do passado do que do presente, sobretudo do tempo em que militou na vida pública, quando nela ingressou a convite do interventor federal Saturnino Bello, para dirigir o Departamento de Instrução Pública, em 1946, na transição da ditadura para a democracia, época em que conheceu Vitorino Freire, com o qual forjou uma longa e fraterna amizade.

Ao longo de nossas conversas, Dr. Alfredo, dotado de memória privilegiada, não fazia reservas ou deixava de contar, com riqueza de detalhes, tudo que eu perguntava sobre pessoas, atos e fatos de uma das fases mais polêmicas e importantes da política maranhense, relatos que tenho gravado e de onde selecionei algumas pérolas políticas, para conhecimento das novas gerações, que ignoram por completo as figuras humanas que pontificavam no cenário político maranhense, no qual Alfredo Duailibe, brilhou pela competência, honradez e integridade, como deputado federal, secretário de Estado, suplente de senador, senador, vice-governador e chefe do Executivo.

Ele nasceu em São Luís a 19 de outubro de 1914, filho de Linda Sady e Salim Nicolau Duailibe, ambos libaneses. Formado pela Faculdade Nacional de Medicina, do Rio de Janeiro. Faleceu a 24 de abril de 2010, com a idade de 95 anos.   

AS PÉROLAS POLÍTICAS

– O governador Sebastião Archer da Silva, ao contrário do que aparentava, era um político sabido, astucioso, esperto e primava pelo cavalheirismo e refinada educação.

– Vitorino Freire jamais interferiu em qualquer administração estadual ou procurou tutelar qualquer governador do Maranhão.

– A competência política de Vitorino podia ser medida pelo tipo de oposição que enfrentava no Maranhão, gente de luta e de capacidade, a exemplo de Clodomir Cardoso, Lino Machado, Genésio Rego, Clodomir Millet, Neiva Moreira, Fernando Viana e Henrique de La Rocque.

– Quem começou a quebrar o comando político de Vitorino no Maranhão não foi Newton Bello, mas Renato Archer, pelo enorme prestígio que desfrutava no governo do presidente Juscelino Kubitscheck.

– Dos governadores eleitos por Vitorino, Newton Bello foi o que menos se enquadrou ao vitorinismo.

– Eugênio Barros era muito amigo de Vitorino, mas não tolerava o seu secretário de Interior, Justiça e Segurança, Benu Lago.       

– Foi com a Revolução de 1964, que adotava o figurino político da UDN, que Vitorino começou a perder o prestígio político que tinha no plano federal.

– Vitorino só fez bem aos militares, mas a Revolução foi ingrata com ele.

– Vitorino tinha uma qualidade nobre: sabia respeitar as amizades dos amigos com seus adversários políticos. Ele jamais questionou o meu bom relacionamento com Sarney.

– Eu aconselhei Sarney a não renunciar ao mandato de governador, quando foi pressionado pelos militares, em 1968, baseado no fato de ser eleito pelo povo e não pela Revolução.

– Fraude eleitoral no Maranhão sempre houve. Quando o PSD fazia era de acordo com os oposicionistas.

– Os três melhores governadores que o Maranhão teve em todos os tempos: Paulo Ramos, Newton Bello e José Sarney.

– Chico Abreu, próspero comerciante de Ipixuna, atual, São Luís Gonzaga, não era profeta, mas costumava dizer ao meu pai, Salim Duailibe: – O seu filho, Alfredo, quando crescer vai ser médico e governador do Estado.

– No final do governo Newton Bello, ele mandou sondar-me para assumir o cargo de governador e assinar o ato de sua aposentaria de consultor jurídico. Diplomaticamente, não concordei com a proposta, mas aceitei ausentar-me do Estado, para que o seu substituto legal, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Aldenir Silva, satisfizesse os interesses pessoais do governador.

– O que eu consegui ao longo da minha vida, devo à medicina e ao magistério de nível superior. Da política, não ganhei materialmente nada. Dela só conquistei amizades.  

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O TRICENTENÁRIO DA FUNDAÇÃO DE SÃO LUÍS

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Em 2012, houve uma extensa programação de eventos, organizada pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de São Luís, com vistas às comemorações do quarto centenário de fundação da capital maranhense.

Naquela vasta programação, faltou, contudo, algo precioso e importante: um álbum comemorativo e ilustrado, preparado com esmero e recursos da tecnologia moderna, sobre avanços e conquistas da cidade aniversariante, ao longo de seus quatro séculos de vida, assim como fizeram o Governo do Estado e a Prefeitura de São Luís, em 1912, quando festejaram o terceiro centenário de fundação da capital maranhense.

O ALBUM DO TRICENTENÁRIO

A feliz iniciativa de publicar um álbum relativo aos trezentos anos de fundação de São Luís foi do governador do Maranhão, Luiz Domingues da Silva (1910-1914) e do intendente da cidade, Mariano Martins Lisboa, à época, eleito para cumprir apenas dois anos de mandato (1910-1912).

O álbum, porque ainda não havia policromia, teve a impressão em preto e branco, trabalho realizado pela Typogravura Teixeira, considerada a melhor da cidade, com textos e fotos sobre os festejos comemorativos de tão auspicioso evento histórico.

A COMISSÃO ORGANIZADORA

Para não haver nenhuma suspeita quanto à competência da comissão organizadora do tricentenário da cidade, o governador Luiz Domingues nomeou um grupo de alto nível, formada pelo geógrafo e professor do Liceu, Justo Jansen Ferreira, o historiador e diretor da Biblioteca Pública, José Ribeiro do Amaral, e o oficial da Secretaria de Governo, Domingos Castro Perdigão, para preparar uma programação “que se estendesse do dia 8 de setembro, data em que foi implantada, em 1612, a primeira cruz, no lugar onde é hoje a Avenida Maranhense (Pedro II), até o dia 1° de novembro , quando celebrou-se a incorporação dos indígenas da ilha à civilização do Ocidente pelo compromisso de obediência à França”.

EXPOSIÇÃO DOS PRODUTOS

A parte principal da comemoração foi a exposição dos produtos do Estado, “organizado pela Sociedade Popular do Trabalho e instalada em cinco vastos salões do Palácio, ladeados pelo jardim da entrada e o Jardim Zoológico, que se achavam artisticamente ornamentados”.

 Os salões palacianos “ostentavam belíssima decoração e de imenso gosto estético. No salão nobre realçavam as bandeiras nacional, a maranhense e a francesa. Numa das paredes, estava armado, em quadro, a carta geográfica do Estado, trabalho da autoria do Dr. Justo Jansen Pereira”.

A ornamentação interna e externa do Palácio dos Leões “foi toda custeada por empresas da cidade e fotografada pelo sr. Abdon Coelho, proprietário da Fotografia Popular”.

A INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO

No dia da inauguração, “realizaram-se festas e solenidades no recinto da exposição, que se tornou o centro da comemoração, sendo franqueada ao público e visitantes às quintas-feiras, domingos e feriados”.

“A harmoniosa orquestra dos Irmãos Pargas deliciou os convidados com uma festa musical, onde foram executadas e escolhidas belas melodias. Essa atração artística atraiu grande número de famílias ao evento, especialmente os amantes da boa música”.   

PRESENÇAS ILUSTRES

Além das autoridades e de figuras importantes da sociedade maranhense, a Exposição Comemorativa “foi honrada com a visita de muitos viajantes, em trânsito na cidade, dentre estes alguns estrangeiros de alta posição social, como o ilustre general Ismael da Rocha e o famoso escritor francês, Paul Adam e de sua esposa”.

Para receber o intelectual visitante, “o governador Luiz Domingues, nomeou uma comissão especial, formada por Antônio Lobo, Godofredo Viana, Joaquim Franco de Sá, José de Almeida Nunes e Domingos Barbosa, major João Pedro Smith e do padre José Lemercier”.

Os ilustres hóspedes franceses “foram homenageados com um suntuoso almoço no Palácio do Governo, onde a Comissão da Exposição ofereceu ao casal diversos produtos maranhenses”.

O ENCERRAMENTO DA EXPOSIÇÃO

Como o programado, “encerraram-se a 1º de novembro de 1912, os festejos comemorativos ao Tricentenário da Fundação de São Luís, ato revestido de brilhantismo, notando-se a presença das principais autoridades civis, militares, professores e alunos da Escola Modelo e do Instituto Rosa Nina, representantes da imprensa e de funcionários públicos”.

Presidiu a cerimônia o governador Luiz Domingues, que fez questão de premiar os produtores, após o que concedeu a palavra ao Dr. Justo Jansen, presidente da comissão organizadora, ao longo do discurso disse que a França, “se manteve grande  entre as nações do mundo, para, mais uma vez, assegurar o valor da raça”.       

 Ao final da brilhante oração, fez questão de “glorificar Daniel de La Touche, senhor de La Ravardiére e dos seus arrojados companheiros que se deixaram esta ilha, com a esperança desvanecida de fundar a França Equinocial, em compensação, formaram os primórdios desta cidade, cuja população, 300 anos depois, aqui, distintamente representada, rememora os seus nomes, conservando-os entre os valorosos que da lei da morte se libertaram, permitindo-me parafrasear, mais uma vez, o sublime verso do imperecível vate da heroica nação lusitana de que descendemos”.

FRANCESES E PORTUGUESES

Pelo que li no Álbum Comemorativo do 3º Centenário da Fundação de São Luís, em 1912, o povo participou e aplaudiu o tão festejado evento, durante o qual não aconteceu nenhuma discussão ou polêmica, como se viu em 2012, em que intelectuais e historiadores, pelos jornais ou em reuniões acadêmicas, defendiam teses ou opiniões divergentes acerca da fundação de São Luís.

Enquanto um grupo defendia ardorosamente a tese da fundação de São Luís pelos franceses, o outro grupo, abraçava a causa de que a capital maranhense teve os portugueses como fundadores.

Em 1912, o povo do Maranhão não estava dividido entre franceses e portugueses quanto à fundação de São Luís, pois o sentimento dominante, à época, era de que a glória dessa iniciativa pertencia indiscutivelmente à França.

Outro assunto que não levantava discussão naqueles tempos: o nome da capital maranhense, que deveria ser grafada com s e não com z.        

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NOVENTA ANOS DE GULLAR

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Se Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, não tivesse falecido a 4 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro, onde estava radicado desde 1951, certamente que a cultura brasileira comemoraria no próximo dia 10 de setembro, os seus noventa anos de vida, quase todos dedicados às letras e às artes do País.

Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Lago Burnett, José Sarney, Lucy Teixeira, José Bento Neves e outros jovens intelectuais, fizeram parte do movimento literário que vicejava em São Luís do Maranhão, no final da década de 1940, que se reunia com frequência em uma movelaria na Rua do Sol e onde nasceu a revista A Ilha, tendo como parceiro o também poeta Lago Burnett, totalmente voltada para a promoção dos novos valores literários de nossa terra.

O intelectual maranhense notabilizou-se a nível nacional por ser um escritor talentoso, um poeta de expressão, um crítico de arte renomado, um tradutor respeitado, um memorialista famoso e um ensaísta invejável, sendo, também, famoso por ser um dos fundadores do neoconcretismo.

Gulllar foi um escritor engajado politicamente, integrou as fileiras do PCB, razão porque foi perseguido pela ditadura militar, exilando-se na União Soviética, Argentina e Chile.

Depois de muito assédio, concordou em fazer parte da Academia Brasileira de Letras, eleito para a Cadeira 37, que pertencia a Ivan Junqueira, e tomou posse a 5 de dezembro de 2014.

VIDA E OBRA

Em setembro de 1998, uma das melhores revistas de cultura publicadas no Brasil, denominada Caderno de Literatura Brasileira, editada sob os auspícios do Instituto Moreira Salles e da Lei de Incentivo à Cultura, dedicou toda uma edição ao extraordinário homem de letras, nascido em São Luís.

Dentre as matérias incluídas na revista, todas de excepcional qualidade literária, selecionei a intitulada “A campanha”, que traz uma cronologia, um verdadeiro retrato sem retoque dos primeiros tempos de sua vida no Maranhão e de sua ida para o Rio de Janeiro, cidade que o projetou para o Brasil como extraordinário e polivalente intelectual.

A CRONOLOGIA

1930 – Nasce no dia 10 de setembro, na Rua dos Prazeres, 497, em São Luís, capital do Maranhão, José Ribamar Ferreira, quarto filho do comerciante Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart. Depois dele, o casal teria ainda mais sete filhos.

1941 – Matricula-se no curso primário do Colégio São Luís Gonzaga, um dos mis tradicionais da cidade e de orientação católica; quatro anos antes, iniciara seus estudos no Jardim Decroli, de onde sairia para ter aulas primeiramente com as irmãs Duarte, costureiras e dublês de professoras e em seguida numa escola particular, da qual acabaria fugindo.

1942 – É aprovado em segundo lugar no exame de admissão do Ateneu Teixeira Mendes; não concluiria, porém, o ano letivo nesse colégio.

1943 – Ingressa na Escola Técnica Federal. Apaixonado por certa Terezinha, moradora na mesma rua que ele, abandona seus dois grandes amigos, apelidados de “Esmagado” e “Espírito da Garagem da Bosta”.

O apelido de Gullar na época era “Periquito” e passa a ficar dentro de casa lendo livros retirados da Biblioteca Pública e escrevendo poemas.

1945 – Sua redação sobre o Dia do Trabalho ganha nota 95 e é elogiada pela professora de português na escola inteira. Os cinco pontos que faltaram para a nota máxima se devem a erros de gramática, levando-o a mergulhar no estudo das normas da língua.

A redação, que ironizava o fato de não se trabalhar no Dia do Trabalho, seria o ponto de partida para o soneto “O trabalho”, primeiro poema publicado por Gullar, três anos depois no jornal O Combate, de São Luís.

1948 – Começa a trabalhar como locutor da Rádio Timbira, ao mesmo tempo em que se torna colaborador do jornal Diário de São Luís.

1949 – Publica seu primeiro livro de poesia, “Um pouco acima do chão”, editado com recursos próprios e o apoio do Centro Cultural Gonçalves Dias.

1950 – Presencia o assassinato de um operário pela polícia, durante repressão do governo a um comício de Adhemar de Barros, na Praça João Lisboa, em São Luís.

Em protesto, nega-se a ler, em seu programa na Rádio Timbira, uma nota que aponta os comunistas e baderneiros como responsáveis pela morte. Essa atitude faz com que perca o emprego de locutor; o episódio, porém, rende-lhe um convite para participar da campanha politica no interior do Maranhão.

 Com o poema “O galo”, inspirado em anúncio do sal de frutas Eno, vence concurso promovido pelo Jornal de Letras; a comissão julgadora era formada por Manuel Bandeira, Willy Lewin e Odilo Costa Filho.

Gullar começa a escrever poemas que iriam integrar o livro “A luta corporal”

1951 – Muda-se para o Rio de Janeiro. Indicado pelo jornalista João Condé, consegue emprego na redação da Revista do Instituto de Aposentadoria e Pensão do Comércio. Conhece o crítico de arte, Mário Pedrosa, iniciando uma longa amizade. Publica na Revista Japa, que teve somente um número, o conto “Osiris come flores”. Entusiasmado com o texto, o escritor Herberto Sales, arranja-lhe um emprego de revisor na revista O Cruzeiro. Entre dezembro e março do ano seguinte, passa três meses num sanatório  em Correias, Estado do Rio, tratando de uma tuberculose.   

1953 – No dia em que completa 23 anos, é apresentado pelo jornalista Oliveira Bastos a Oswald de Andrade. O escritor modernista havia lido o então inédito e recém-concluído A luta corporal e leva de presente a Gullar dois volumes teatrais de sua autoria, um contendo “A morta e O rei da vela” e outro, “O homem e o cavalo”. Nessa época, Gullar começa a escrever “Crime na flora ou Ordem e Progresso”, texto quase que inteiramente em prosa poética. Concluído no ano seguinte, o livro só seria publicado em 1968 pelo editor José Olympio.   

1954 – Casa-se com a atriz Thereza Aragão, com quem teve três filhos. Lança a “Luta Corporal”, impresso na gráfica da revista O cruzeiro. Após a leitura do livro, os poetas Haroldo de Campos e Décio Pignatari escrevem-lhe uma carta manifestando o desejo de conhecê-lo. No final do ano, Gullar começa a trabalhar como revisor na revista Manchete.

1955 – Às vésperas do carnaval, conhece Augusto Campos, iniciando discussões a respeito da literatura. Trabalha como revisor no Diário Carioca, antes de engajar-se no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil.

1956 – A convite de Augusto e Haroldo Campos e Décio Pignatari, participa da I Exposição Nacional de Arte Concreta, que acontece em dezembro no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

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SÁLVIO DINO: AMIGO, COMPADRE, CONFRADE

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Transporto-me para o limiar dos anos 1960 e lembro da Assembleia Legislativa do Maranhão, para onde Sálvio Dino, pelo PDC, e eu, pelo PSP, nos elegemos deputados estaduais, e integrados à bancada das Oposições Coligadas.

Aportávamos no Poder Legislativo no fulgor da mocidade. Eu, ainda estudante da Faculdade de Direito de São Luís, ele, já bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, portanto, militando na advocacia, depois de brilhar na política estudantil, atuando no Grêmio Cultural do Colégio de São Luís, no Centro Acadêmico e no Parlamento-Escola da Faculdade de Direito, onde fundou o jornal Voz Universitária. 

VEREADOR Á CÂMARA MUNICIPAL

Essas participações na vida universitária, o credenciaram a concorrer à Câmara Municipal de São Luís, nas eleições de 1954, elegendo-se vereador e teve desempenho invulgar, sendo considerado pela imprensa, pelos projetos apresentados e propostas defendidas, o melhor edil da legislatura.

De sua autoria, entre os mais destacados, o projeto de criação do ginásio municipal, o que obrigava aulas inaugurais na rede pública municipal, a elaboração de um Plano Urbanístico de São Luís, a concessão de 50 por cento de desconto para os estudantes nos transportes coletivos, a criação da Secretaria da Agricultura do Município e a nomenclatura das ruas da capital maranhense.

Paralelamente, atuava nas redações dos jornais e revistas da cidade, a exemplo de Afluente, O Indicador Maranhense e O Panorama, em que publicava matérias literárias em prosa e verso.

ADVOCACIA E POLÍTICA

Após cumprir o mandato na Câmara Municipal, Sálvio decide se dedicar inteiramente à profissão de advogado, no exercício da qual publica o seu primeiro livro: “Um moço na tribuna”.

Em plena ação profissional, é designado pelas Oposições Coligadas, para acompanhar as eleições de 1960, na região tocantina, para impedir os governistas de praticarem uma grosseira fraude eleitoral, contra o candidato Clodomir Millet.

Pela brava luta contra a distorção da vontade eleitoral, Sálvio ganha notoriedade, admiração e prestígio, que o fizeram continuar atuando profissionalmente em Imperatriz e cidades que ficavam em seu entorno, oportunidade em que viu em toda a plenitude a deflagração da coação policialesca, a cobrança arbitrária de impostos, a submissão dos mais pobres aos poderosos e a exploração do homem rural pelos latifundiários.

Com o sentimento de defender os humildes da região tocantina, que começava a crescer a olhos vistos e a despontar pelas oportunidades que oferecia ao empresariado, se candidata a deputado estadual, nas eleições de 1962. Malgrado as dificuldades financeiras e as intimidações políticas, elege-se com expressiva votação à Assembleia Legislativa do Estado.

MANDATO DE DEPUTADO ESTADUAL

Em janeiro de 1963, assume o mandato parlamentar e no plenário do Poder Legislativo, consolidamos a nossa amizade e passamos a atuar juntos e coesos, no que contamos com o companheiro de luta, o deputado, Ricardo Bogéa, e formamos um grupo que se impôs no desempenho do mandato de forma ética e com um discurso político, sintonizado com as mudanças estruturais, as reformas de base  e os problemas sociais, reclamadas pelo País que o Presidente da República, João Goulart, procurava implementar.

Pelas nossas vozes, os protestos contra as iniquidades sociais e o atraso econômico vigentes no Maranhão, passaram a ser levantados e discutidos no plenário, onde se exigia dos governantes atitudes administrativas para a mudança dessa triste realidade, o que irritava a bancada majoritária e os detentores do poder, que nos intimidavam e nos rotulavam de extremistas, agitadores e esquerdistas.

O EXPURGO DA VIDA PÚBLICA

A oportunidade para sermos expurgados da vida pública chega com a deflagração do movimento militar em abril de 1964, por meio de um plano maquiavélico, articulado no Palácio dos Leões, contra os deputados que defendiam as causas populares.

Sem perda de tempo, veio do IV Exército, um cabograma mandando a Assembleia Legislativa “cassar os mandatos de Sálvio Dino e de Benedito Buzar, e, se fosse o caso, de Ricardo Bogéa.”

Ao arrepio da Constituição e por um ato ilegal e arbitrário, no dia 25 de abril de 1964, perdemos o nosso mandato, conquistado democraticamente nas eleições de 1961. 

DEZ ANOS DEPOIS

Inconformado com a brutal expulsão da vida pública, Sálvio, em 1974, com o regime militar ainda em efervescência, decide se candidatar a deputado estadual, pretensão barrada pelo Tribunal Regional Eleitoral, mas derrubada em Brasília, pelo TSE.

Com a candidatura registrada, elege-se, depois de dez anos, à Assembleia Legislativa, com a maioria da votação conquistada na região tocantina. Nesse mandato, deu prioridade aos problemas do meio ambiente e da solução do polêmico caso dos limites territoriais entre o Pará e o Maranhão.

Após a legislatura de 1975-1979, graças ao seu extraordinário desempenho no plenário e nas comissões técnicas, retorna ao exercício do mandato nas legislaturas de 1979-1983 e de 1983-1987.

DO LEGISLATIVO PARA O EXECUTIVO

Quem pensava que Sálvio Dino, após cumprir três mandatos legislativos, abandonasse definitivamente a cena política, equivocou-se completamente. Como se ressurgisse das cinzas, retorna aos rincões tocantinos, para onde transfere o domicílio eleitoral, condição que o habilita a concorrer a cargos executivos, mirando a  prefeitura do recém-criado município de João Lisboa, onde ganha duas eleições majoritárias: 1987 e 1996.

A VERTENTE LITERÁRIA

Sem querer imitar José Sarney, que faz política, mas sem deixar a literatura de lado, assim foi Sálvio Dino, que mesmo antes de ingressar na atividade pública, já se dedicava a escrever poemas, crônicas, contos e romances, obras essas que pela sua dimensão cultural, fizeram com que  se candidatasse à Academia Maranhense de Letras e conquistasse, por meio de eleição, realizada em 16 de julho de 1998,  a Cadeira 32, patroneada por Vespasiano Ramos, fundada por Mariana Luz e teve como ocupantes, Felix Ayres e Raimundo Carvalho Guimarães. Quem o recepcionou na sua posse, em 16 de julho de 1999, foi este escriba, seu compadre e padrinho de seu terceiro filho, o governador Flávio Dino, produto da parceria com a primeira esposa, Maria Rita.

De sua imensa e proveitosa bagagem cultural, legou à posteridade as seguintes obras: Nas barrancas do Tocantins; Onde é Pará Onde é Maranhão; Semeando manhãs; Grandeza da terra na glória do seu povo; A trilogia da emoção; A devastação do meio ambiente importa na destruição da raça humana; Raízes históricas de Grajaú; A conciliação entre o meio ambiente e o desenvolvimento econômico; A dinâmica ocupacional dos espaços físicos do Maranhão; A Nova República; Perfil de Amaral Raposo; Luzia quase uma lenda de amor; Um palácio de histórias, lendas, mitos e chefões; Clarindo Santiago, o poeta maranhense desaparecido no Rio Tocantins; A Faculdade de Direito do Maranhão; e  A Coluna Prestes no Maranhão.  

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O LÍBANO DE MEUS AVÓS

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Fico pensando nos meus avós paternos, Rafiza Gattas Buzar e João Mutran Buzar, se fossem vivos, o que não estariam sentindo ao ver a terra em que nasceram e constituíram famílias,  chamada de Monte Líbano, sofrendo os horrores de uma explosão de um depósito ocupado por 2 700 toneladas de nitrato de amônio, substância altamente inflamável e usada na fabricação de fertilizantes e explosivos, por culpa da negligência de autoridades, que matou quase 150 pessoas e deixou mais de 5 000 feridos.

Não foi por outro motivo, que os meus avós trocaram o Líbano pelo Brasil no momento também de grande sofrimento, quando os povos árabes viviam perseguidos pelo Império Turco-Otomano.  

OS ÁRABES NO BRASIL   

A marcante presença dos sírios e libaneses no Brasil ganha relevância entre o final do século XIX e o alvorecer do século XX, quando da abolição da escravatura e da substituição da Monarquia pela República, movimentos que contribuíram para conduzir o país à modernização de suas estruturas, transformando o trabalho escravo em livre e deixando de ser rural  para focar-se na industrialização e na urbanização.

São Paulo, porque comandava esse processo, era a região que precisava de mais mão de obra estrangeira, por isso, passou a ser o principal agente catalizador dos contingentes árabes, que ingressaram no Brasil.

Se uma parte significativa dessa corrente migratória se fixou em São Paulo, outras, também expressivas, procuraram o Norte e o Nordeste, nas quais aportaram como mascates e posteriormente se transformaram em comerciantes, atividades em que se mostraram insuperáveis pela maneira como sabiam fazer negócios.    

OS ÁRABES NO MARANHÃO

Dentre os estados nordestinos, o Maranhão destacou-se como um ponto atrativo para os imigrantes árabes, que aqui encontraram condições para se implantar e de vencer na vida, pois força de vontade para trabalhar não faltava àquela gente.

São Luís e as cidades às margens dos rios Itapecuru, Mearim e Pindaré, atraíram em maior escala essas correntes migratórias, porque concentravam a maior parte da riqueza econômica produzida no Estado, que demandava para a capital e de onde era exportada para os centros mais adiantados.

OS PIONEIROS

Com exemplos de audácia e coragem, os árabes chegaram ao Maranhão, depois de passarem por momentos difíceis e enfrentarem adversidades de toda natureza, mas aqui souberam aproveitar as oportunidades para acumular recursos e se firmarem como figuras de realce no meio social, empresarial e político.  

Dentre os sírios e libaneses, considerados pioneiros, que fizeram nome na sociedade maranhense, como comerciantes, industriais e profissionais liberais, destacam-se os Murad, Duailibe, Jorge, Mettre,  Simão, Mouchereck, Aboud, Farah, Àzar, Maluf,  Sekeff, Sauaia, Buzar, Fiquene, Safady, Nazar, Fecury,  Waquim, Curi, Millet, Mattar, Francis, Abdalla, Tajra,  Mubarack, Tomeh, Hadad, Mohana, Haickell, Assef,  Zaidan, Chouary, Bouéres, Boabaid, Damous, Nahuz,  Saback e Dino.           

    OS LIBANESES EM ITAPECURU

Os primeiros libaneses que pisaram o solo itapecuruense, pelo que se sabe, foram Basílio Simão, Chafi Buzar, João Elias Murad e Jorge Assef.

Instalaram-se naquela terra, quando ela já havia passado pelos estágios de povoação, freguesia, vila e conquistara o status de cidade, por efeito da lei votada pela Assembleia Provincial e sancionada pelo vice-governador, Silva Maia. A população do município não excedia a dez mil habitantes, sendo administrada não mais por presidentes das Câmaras de Vereadores, mas por intendentes, nomeados ou eleitos.

No momento em que se fixaram em Itapecuru, o Maranhão dava mostras de que, com a extinção da escravatura, um parque têxtil havia se instalado, sustentado na disponibilidade de capital originário da atividade agroexportadora.    

  Esse desenvolvimento da economia maranhense ajudou os árabes a expandirem os negócios e de convencerem os parentes que ficaram no Líbano a virem para o Maranhão, terra que os recebeu de modo fraterno e onde prosperarem.

MEUS AVÓS EM ITAPECURU

Rafiza e João Buzar, ambos nascidos em Zahle, ela, com 25 anos, ele, com 31, vieram para Itapecuru a convite do primo Chafi Buzar, pai do compositor Nonato Buzar, já estabelecido na cidade e desfrutando de boa situação financeira.

Incentivado pelo primo, um comerciante conceituado na cidade, e na certeza de que dele receberia ajuda para conquistar um lugar ao sol em terras maranhenses, João convenceu Rafiza, mulher destemida e trabalhadora, a mudar de ambiente. Com as economias amealhadas, embarcaram num navio até Marselha, na França, e daí tomaram outro navio, com destino a Salvador, na Bahia, onde desembarcaram no dia 21 de abril de 1913.

Além da restrita bagagem, Rafiza trazia na barriga um ser humano em adiantado estado de gestação, fato que fez ela se submeter ao trabalho de parto, na cidade de Juazeiro, cidade baiana, às margens do Rio São Francisco, onde nasceu um bebê do sexo masculino, que recebeu o nome de Abdala, em homenagem ao avô, mas só registrado no cartório de Itapecuru, como nascido naquela cidade, em 15 de novembro.

Quando Rafiza e João Buzar chegaram em terras brasileiras, não possuíam nenhum documento de identidade, pois era assim que a maioria dos sírios e libaneses atravessava as fronteiras estrangeiras.

O casal deixou os filhos do primeiro casamento no Líbano. Anos mais tarde, em 1922, dois filhos de João Buzar, Ana e Nagib, vieram para o Maranhão, moraram algum tempo em Itapecuru, mas depois mudaram-se para a cidade de Codó.

Desde o dia em que colocaram os pés em Itapecuru, Rafiza e João Buzar não perderam tempo. Com o dinheiro trazido do Líbano e o conquistado no processo de mascate, trabalharam incessantemente, inobstante as dificuldades de comunicação, pois o que importava a eles era vencerem as adversidades, prosperarem nos negócios e contribuírem para o engrandecimento da terra que os recebeu fraternalmente.

INICIATIVAS EMPRESARIAIS

As primeiras iniciativas dos Buzar na área comercial, voltaram-se para a venda de artigos de primeira necessidade e de secos e molhados. Compravam produtos manufaturados nas lojas da Praia Grande e os traziam para oferecer à população da cidade e dos povoados ribeirinhos.

O primeiro estabelecimento foi montado nas proximidades da Beira-Rio, num amplo prédio que servia também de residência. Com a expansão dos negócios, mudaram-se para a Rua do Egito, um imóvel bem mais amplo, onde Rafiza deu à luz a outro filho homem, de nome João José, que, mais tarde, junto com o irmão, Abdala, incrementaram os negócios da firma e partiram para uma ousada  empreitada empresarial: a instalação de equipamentos industriais para pilar arroz e fornecer algodão sem caroço para as firmas que formavam o parque têxtil em São Luís.      

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MARANHENSES E LORD COCHRANE

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Na semana passada, abordei um episódio histórico, que merece ser devidamente esclarecido a respeito da verdadeira data da Adesão do Maranhão à Independência do Brasil: 20 ou 28 de julho de 1923.

Para complementá-lo, nada mais oportuno do que tratar da rumorosa participação do militar escocês, Thomas Alexander Cochrane, mais conhecido por Lord Cochrane, considerado herói e vilão, mas contratado por D. Pedro para livrar o nosso país do jugo colonialista português.

LORD COCHRANE NA AMÉRICA

O almirante escocês notabilizou-se na Marinha inglesa no período das guerras napoleônicas, nas quais ganhou fama e contratos em vários países da América do Sul, para atuar como comandante nas lutas armadas pela independência da Argentina, do Peru e do Chile, em que, na condição de mercenário a serviço da liberdade, conseguia por manobras ousadas, que pregavam o inimigo de surpresa, libertar os países do domínio da América espanhola. 

Para participar dessas lutas, geralmente travadas no mar, Cochrane cobrava recursos escorchantes, que nem sempre os países podiam assumir, fato gerador de desentendimentos com os governos, que se viam sujeitos a atos de pirataria e de saques perpetrados pelo ardiloso almirante.     

LORD COCHRANE NO BRASIL

Com a missão cumprida e as relações arranhadas com os países da América espanhola, Cochrane volta as suas vistas para o Brasil.

Em 1822, D. Pedro precisava, para comandar as lutas em favor da Independência do Brasil, de um líder para ficar à frente da Marinha e enfrentar as forças portuguesas que atuavam nos Estados do Pará, Maranhão, Pernambuco e Bahia.

As negociações do governo do Brasil logo se estabeleceram com o almirante, ao qual foram feitas promessas vantajosas, destacando-se um decreto que a ele garantia “todas presas(cargas) tomadas na guerra de propriedade de quem capturar”.

A 13 de março de 1823, o almirante desembarca no Rio de Janeiro, de onde começa os preparativos para atacar os portugueses na Bahia, para o que contaria com navios precários e marinheiros despreparados para a guerra, mas graças à sua competência e experiência, derrota os portugueses, com a captura de 16 navios e 2.000 prisioneiros.

COCHRANE NO MARANHÃO

Depois de esmagar a esquadra lusitana (2 de julho de 1823), o almirante vem para São Luís do Maranhão, onde consegue derrotar os portugueses com as armas da astúcia. Conta-se como verdade que, na capital maranhense, ele hasteou a bandeira britânica, em vez das cores brasileiras. Os militares que vigiavam o porto acreditaram tratar-se de um navio inglês, neutro no conflito, e enviaram ao seu encontro um brigue com mensagens de boas-vindas. Ao subir a bordo, porém, o oficial encarregado de entregar os papéis se deu conta de que estava em um navio brasileiro. Foi imediatamente preso, mas Cochrane decidiu liberá-lo com a condição de levar uma carta ao governador das armas, Agostinho de Farias, na qual exigia a capitulação da cidade. No dia seguinte, 28 de julho, a junta do governo, já ciente da aproximação das tropas brasileiras pelo interior, anuncia a adesão da província ao império do Brasil.

COCHRANE SAQUEIA A CIDADE

O escritor Laurentino Gomes, revela no livro 1822, que por não receber do governo o que havia sido acertado, “depois de obter a rendição portuguesa em São Luís, Cochrane dedica-se ao saque metódico da cidade, tomando posse de um patrimônio estimado em 100.000 libras esterlinas – cerca de quarenta milhões de reais atualmente. Incluía todo o dinheiro depositado no tesouro público, na alfândega, nos quartéis e outras repartições, além de propriedades particulares e mercadorias armazenadas a bordo de 120 navios e embarcações ancoradas no porto. Na prática, o almirante tratou a capital do Maranhão como se fosse toda ela um território inimigo conquistado. Os habitantes se revoltaram, mas, sob a mira dos canhões, acabaram forçados a aceitar suas exigências, cujos bens e   mercadorias aprendidos foram despachados para o Rio de Janeiro, onde Cochrane esperava que fossem confirmados como presas de guerra”.

COCHARANE, O AMALDIÇOADO

Laurentino Gomes diz ainda que “apesar do comportamento brutal e mesquinho em São Luís, Cochrane foi recebido no Rio de Janeiro como herói nacional e agraciado por D. Pedro com a recém-criada Ordem do Cruzeiro do Sul e o título de marquês do Maranhão – decisão que soa aos maranhenses até hoje como uma ofensa”.

Foi por conta dessa auréola de herói conferida ao almirante escocês, que levou José Sarney, no cargo de presidente da República, numa visita à Abadia de Westminister, em Londres, ao aproximar-se da tumba, onde se encontravam os restos mortais de Cochrane, a pisar sob a lápide e exclamar para espanto dos que o acompanhavam: “Corsário!”

Outra manifestação irada de maranhense contra o Lord, encontra-se no livro de Astolfo Serra, intitulado “Guia histórico e sentimental de São Luís”, com o registro desse desabafo: “Cochrane foi simplesmente isto em São Luís: um autêntico pirata! Não libertou a cidade, saqueou-a brutalmente”.

OPINIÃO DE JOMAR

Numa crônica de Jomar Moraes, publicada neste jornal em 28 de julho de 2010, intitulada “Nossa data cívica”, o saudoso escritor maranhense, depois de também criticar o Lord Cochrane, pelas suas espertezas e trapalhadas, “relativamente aos pesados tributos que sua rapinagem impôs à portuguesada capitalista da terra, pelo menos estava cobrando alto por seus assinalados serviços à consolidação do Império do Brasil, que não tinha recursos para lhe pagar”.

Em seguida, escreve categoricamente: “Que fique bem claro que não estou, de modo algum, cantando loas ao almirante, mas entendo que ele precisava pagar-se a si e aos seus comandados pelos serviços aqui prestados inegavelmente pela causa da Independência nacional”.   

Ao término da crônica, Jomar afirma: “E então o Maranhão aderiu à Independência e ainda ofereceu, a 24 de novembro, no palacete conhecido como Solar Cesário Veras, um lauto banquete ao lord, que teria comido com um lord, dançado como um lord e como um lord feito o que no Largo do Carmo por muito tempo se comentou, embora não me lembre de ninguém que no Maranhão traga em seu nome o antropônimo Cochrane”.     

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20 OU 28 DE JULHO A ADESÃO DO MARANHÃO À INDEPENDÊNCIA

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Em 1994, sob os auspícios da Academia Maranhense de Letras e da Alumar, o professor Mário Meireles publicou um dos livros mais importantes de sua trajetória de escritor, pesquisador e historiador: Dez Estudos Históricos.

Dentre os assuntos polêmicos, tratados na obra do respeitado professor, destaca-se o relevante ato histórico da Adesão do Maranhão à Independência, que,  em função da Lei nº 11, votada pela Assembleia Provincial em 6 de maio de 1835 e confirmada pelo Congresso do Estado, pela Lei 1.092, de 30 de abril de 1923, é comemorado equivocadamente a 28 de julho de 1823, segundo Mário Meireles.

COMEMORAÇÕES CÍVICAS

Para que a Adesão do Maranhão à Independência do Brasil fosse comemorada de modo retumbante e contasse com a participação da população, o Governo do Estado, de acordo com a lei, realizava solenidade cívica, em São Luís, no dia 28 de julho, que contava com a presença de autoridades governamentais e educacionais.

O festejado episódio histórico, em anos mais recentes, deixou de ser feriado e virou ponto facultativo, motivo pelo qual as novas gerações não sabem dizer o que aconteceu numa data tão cara para os maranhenses, que o professor Mário Meireles não nega a importância histórica do evento, mas discorda quanto ao lugar e a data em que o ato foi protagonizado.  

A RESISTÊNCIA DOS PORTUGUESES.

Depois de treze anos no Brasil, D. João VI e a família real retornam a Portugal e o filho D. Pedro I é nomeado príncipe regente do Brasil, que, como tal, anuncia a decisão de aqui permanecer e a 7 de setembro de 1822, nas margens do Rio Ipiranga, proclama a Independência do Brasil, ato que o  Maranhão e a Bahia resistem em reconhecer, porque eram províncias nas quais os portugueses tinham forte presença e não concordavam com o gesto  de Pedro I.

O clima de beligerância entre maranhenses e portugueses ganha mais consistência a partir do momento em que a Junta Provisória e Administrativa, que governava o Maranhão, presidida pelo bispo Dom Joaquim de Nazaré, desconhece a autoridade de D. Pedro e ainda presta juramento de fidelidade à Constituição de Portugal e à Casa de Bragança.   

 OS MARANHENSES EM AÇÃO

Os maranhenses com a ajuda dos independentes cearenses e piauienses, imediatamente deflagraram ações em Caxias, com o objetivo de alcançar São Luís.

A vila de Itapecuru, pela sua posição estratégica, torna-se o teatro de embates contra as forças fiéis a Portugal. A luta pelo domínio militar e político da vila ocorre de maneira aberta entre os simpatizantes do príncipe do Brasil, comandados pelo capitão Salvador de Oliveira, e os adeptos do trono lusitano, encabeçados pelos coronéis José Felix Pereira de Burgos e Ricardo José Coelho.   

As desinteligências entre Burgos e Coelho fizeram a Junta Governativa demitir o primeiro do comando geral da vila, o qual, por sua vez, abandona a causa dos portugueses e adere as tropas independentes.

AS LUTAS EM ITAPECURU

O livro do ilustre historiador Luís Antônio Vieira da Silva, intitulado História da Independência da Província do Maranhão, mostra o desfecho dessa luta: “O coronel Burgos permanecendo na vila do Itapecuru-Mirim e vendo que pela invasão das tropas indisciplinadas, a desordem e a facção passaram a ocupar os distritos onde haviam sido expulsas as tropas portuguesas, e que à sombra da independência se iam cometendo roubos e assassínios, receosos de que a anarquia tomasse conta da Província, julga prudente instalar provisoriamente os governos municipal, civil e militar naquela vila, visto achar-se cortada a comunicação com São Luís, que ainda se mantinha sujeita ao governo português.

De acordo com Mário Meireles, no dia 18 de julho de 1823, Burgos, reúne a Câmara-Geral em Itapecuru e após discutir o assunto resolve a 20 proclamar a Adesão do Maranhão à Independência do Império e jurar fidelidade a Pedro I como Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil, sem esquecer de eleger uma Junta Provisória Independente para a Província.

Os eleitos foram José Felix Pereira Burgos, governador das Armas, Padre Antônio Pereira Pinto do Lago, secretário, Antônio Joaquim Lamagnére Galvão, Fábio Gomes da Silva Belfort e Antônio Raimundo Belfort Pereira de Burgos, ficando reservado três lugares para a capital da Província.

SOLENIDADE NO PALÁCIO

Depois de instalado o Governo de Itapecuru-Mirim, às 11 horas do dia 28 de julho, no Palácio do Governo, a Junta Provisória, proclama a Adesão do Maranhão à Independência do Brasil e procede-se a eleição para a composição do Governo Provisório.

A OPINIÃO DE MÁRIO MEIRELES 

“ Se a Câmara-Geral de São Luís, convocada para organizar o Governo Provisório da Província, houve por bem eleger os três membros, inclusive o presidente, que haviam sido reservados para a capital na Junta de Itapecuru- Mirim, ela, a câmara geral, representando a vontade do povo de São Luís, reconheceu, de fato e de direito, esse governo eleito em 20 de julho, pois que se submeteu às condições impostas e, consequentemente, à Adesão ali e nesse dia proclamada”.

O saudoso historiador encerra o polêmico assunto com esta sentença: “Por que dizer que o Maranhão aderiu à Independência do Brasil no dia 28 de julho, se desde uma semana antes existia o governo independente que, reconhecido, subsistiu depois dessa data? Consequentemente, talvez fosse mais justo comemorar-se a 20 de julho.”      

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PRAÇA DOS POETAS

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Chegou ao conhecimento dos meios intelectuais a notícia de que o governador Flávio Dino pretende brevemente inaugurar uma praça no Centro da Cidade, em homenagem aos dez maiores poetas de nossa terra.

Segundo a informação, no espaço destinado à Praça dos Poetas, deverão ser introduzidos bustos de vates que projetaram nacionalmente o nome do Maranhão e produziram uma obra poética da melhor qualidade literária.

Não se sabe ainda se o Governo vai constituir uma comissão de intelectuais para selecionar os dez melhores poetas ou se realizará uma pesquisa junto à opinião pública para apontar os que terão um lugar cativo na mais nova praça da cidade.

Enquanto o Governo mantém o assunto em quarentena e sem fornecer maiores informações sobre a localização da praça e dos poetas laureados, espera-se que os indicados sejam literatos de reconhecida expressão cultural e de indiscutível valor intelectual e moral.

No aguardo de informações mais precisas sobre o projeto, o governo não pode permitir o que aconteceu em passado recente, quando pessoas interessadas em agradar amigos e parentes de pseudos escritores, desenvolveram ações nefastas, fazendo instalar no Panteon Maranhense, subliteratos e figuras que nada construíram em favor do engrandecimento da cultura maranhense.

APONTAMENTOS DE JOMAR

O saudoso escritor Jomar Moraes em 1977 escreveu um precioso livro, publicado pelo Sioge, intitulado Apontamentos de Literatura Maranhense, no qual se pode ver de maneira didática a notável quantidade de intelectuais de nossa terra, que produziram obras que os consagraram no firmamento literário nacional.

O GRUPO MARANHENSE

Com conhecimento de causa, Jomar mostra que a partir do século XIX, de 1832 a 1868, o Maranhão conquista a sua autonomia literária, por conta do expressivo e valoroso número de escritores, que se projetaram no cenário brasileiro.

Trata-se do chamado Grupo Maranhense (1832 a 1868), que, como expressão da vida literária regional, se destacou em todas as áreas da cultura, com nomes do quilate de Odorico Mendes, João Francisco Lisboa, Gonçalves Dias, Sousândrade, César Marques, Cândido Mendes de Almeida, Antônio Henriques Leal, Luís Antônio Vieira da Silva, Sotero dos Reis, Joaquim Gomes de Sousa, Frederico José Correa, Antônio Marques Rodrigues, Trajano Galvão, Gentil Braga, Antônio Joaquim Franco de Sá, Francisco Dias Carneiro, Joaquim Serra.

A REAÇÃO RENOVADORA

Segundo Jomar, de 1870 a 1890, surge A Reação Renovadora, da qual fazem parte os seguintes escritores: Celso Magalhães, Teófilo Dias, Adelino Fontoura, Artur e Aluísio Azevedo, Coelho Neto, Graça Aranha, Dunshee de Abranches, Frutuoso Ferreira, Euclides Faria, Ribeiro do Amaral, Barbosa de Godóis, Paula Duarte, João de Deus Rego, Raimundo Correia, Agripino Azevedo, Nina Rodrigues e Teixeira Mendes.

OS NOVOS ATENIENSES

Trata-se da geração literária que despontou na última década do século XIX, mantendo-se atuante nos limites da “província” até a altura de 1920. Foram representantes desse movimento: Antônio Lobo, Domingos Barbosa, Viriato Correia, Vieira da Silva, Godofredo Viana, Alfredo de Assis, Fran Pacheco, Nascimento Moraes, Inácio Xavier de Carvalho, Maranhão Sobrinho, Vespasiano Ramos, Correia de Araújo e Humberto de Campos.

OFICINA DOS NOVOS

De acordo com Jomar, a 28 de julho de 1900 era fundada em São Luís a Oficina dos Novos, com o objetivo de cultuar os vultos do passado; incentivar os autores contemporâneos; promover solenidades cívico-literárias; organizar a biblioteca do autor maranhense e manter um periódico literário.

Desse movimento literário, destacaram-se os seguintes escritores: Josué Montello, Manuel Caetano Bandeira de Melo, Oswaldino Marques, Franklin de Oliveira, Odylo Costa Filho, Assis Garrido, Correia da Silva, Maranhão Sobrinho, Vespasiano Ramos, Corrêa de Araújo, Erasmo Dias e Antônio Lopes.

VENTOS DE RENOVAÇÃO

 Com a chegada de Portugal do poeta Bandeira Tribuzi, em fins da década de 40, o movimento cultural cresce por meio de discussões literárias, lançamentos de livros e do aparecimento de poetas, cronistas e artistas plásticos, que se reuniam na Movelaria Guanabara.

Como resultado daquela ebulição cultural, surgem poetas da dimensão de Ferreira Gullar, Lago Burnett, José Chagas, Manuel Lopes, Nauro Machado, e ficcionistas do nível de Bernardo Almeida, Erasmo Dias, Reginaldo Teles, José Sarney, Conceição Aboud, José Nascimento Moraes Filho, Ubiratan Teixeira, Fernando Moreira, Ronaldo Costa Fernandes, Nonato Masson, Viégas Neto, Carlos Madeira e Lucy Teixeira.

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ITAPECURU-MIRIM: FREGUESIA, VILA E CIDADE

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Terça-feira próxima, há 150 anos, a minha terra natal conquistou o status de cidade, em decorrência da Lei 919, de 21 de julho de 1870, aprovada pela Assembleia Provincial, e sancionada pelo governador em exercício, José da Silva Maia.

Era desejo do prefeito Miguel Lauand, em comemoração à importante efeméride, promover ao longo deste ano uma programação festiva e de inaugurações de obras relevantes em benefício do povo itapecuruense.

Diante, porém, da pandemia do covid 19, que vem dizimando a humanidade, o gestor de Itapecuru decidiu sustar as comemorações alusivas ao sesquicentenário da cidade.

FUNDAÇÃO DA FREGUESIA

Ao longo da sua trepidante história, Itapecuru-Mirim, experimentou três formas de ordenamento administrativo. Por ordem cronológica, a primeira veio no bojo de uma Provisão Régia, de 25 de setembro de 1801, em que a Corte Portuguesa autoriza a fundação de uma Freguesia, sob as bênçãos de Nossa Senhora das Dores, tendo em vista que a povoação alcançara um nível satisfatório de progresso, conquistara razoável expressão demográfica e possuía uma capela, tendo como vigário Antônio Fernandes Pereira, que funcionava como gestor da Freguesia.

CRIAÇÃO DA VILA

Revela Luís Antônio Vieira da Silva, no livro História da Independência do Maranhão, que em novembro de 1751, afloraram as primeiras ações com vistas a criação da vila, ao ser encaminhado pelo governador Luís Vasconcelos ao rei Dom José, um documento com mais de 1000 assinaturas de moradores, que desejavam ser melhor administrados.

A solicitação, a princípio, não foi levada em consideração pela realeza portuguesa, que dela só começa a dar atenção 49 anos depois, quando o cidadão lusitano José Gonçalves da Silva, faz ver ao rei que, como interprete dos sentimentos itapecuruenses, poderia transformar em realidade os anseios da comunidade.

 Para atender aos moradores, Dom João VI assina uma Provisão Régia, a 27 de novembro de 1817, na qual faz saber que ordenou a José Gonçalves da Silva, fidalgo da Casa Real, a fundar à sua custa uma vila em terras que possuía na Capitania do Itapecuru.  A resolução obrigava a José Gonçalves da Silva a criar a vila se nela existissem pelo menos trinta casais brancos e casas destinadas à câmara, cadeia e oficinas.

Providenciadas as exigências determinadas pelo Rei de Portugal, a 20 de outubro de 1818 ocorre a solenidade na Praça da Cruz da instalação da vila, com a presença de 767 moradores, das autoridades, do clero e do procurador do alcaide-mor José Gonçalves da Silva, oportunidade em que, em voz alta, foi lida a Provisão Régia de 27 de novembro de 1817, que, por não ser  rigorosamente cumprida pelo fundador da vila, só a 20 de março de 1820, Sua Majestade achou por bem aprová-la.    

 A VILA DE ITAPECURU NA ADESÃO Á INDEPENDÊNCIA

Um episódio histórico, acontecido a 20 de julho de 1823, na vila de Itapecuru, mostra o quanto o povo da minha terra lutou para livrar o Brasil do domínio de Portugal, fato que fez a Junta Governativa do Maranhão, presidida pelo bispo Dom Joaquim de Nazaré a desconhecer a autoridade de D. Pedro, fazendo transmitir para Lisboa o juramento e fidelidade à Constituição Portuguesa.

 Enquanto em São Luís, a Junta Governativa concitava o povo a manter-se ao lado de Portugal, em sentido oposto, na vila de Itapecuru, as tropas independentes, sob o comando do alferes Salvador de Oliveira, decidem lutar e proclamar a adesão do Maranhão à Independência do Brasil, no dia 20 de julho, com a eleição de uma Junta Governativa Provisória, a ser integrada por sete membros, sendo quatro representantes da vila de Itapecuru e três de São Luís, ficando assim constituída: Miguel Inácio dos Santos e Bruce, presidente; padre Antônio Pereira Pinto do Lago, secretário; membros, Lourenço de Castro Belfort, José Joaquim Vieira Belfort, Antônio Joaquim Lamagnére Galvão, Fábio Gomes da Silva Belfort e Antônio Raimundo Pereira de Burgos.

O professor Mário Meireles, no seu livro “Dez estudos históricos”, defende a tese de que a Adesão do Maranhão à Independência teria ocorrido efetivamente em Itapecuru no dia 20 de julho, razão pela qual refuta a Lei nº 11, de 6 de maio de 1835, votada pela Assembleia Provincial, que declara feriado no Maranhão o dia 28 de julho, consagrado à comemoração da Adesão da Província à Independência do Brasil, ato confirmado pelo Congresso Estadual, através da Lei 1.092, de 30 de abril de 1923.

A BALAIADA E A VILA

A vila itapecuruense também fica em pé-de-guerra, quando na vila de Manga, em dezembro de 1838, explode um movimento popular contra as arbitrariedades praticadas pelos governantes estaduais, denominados de cabanos e apoiados na chamada Lei dos Prefeitos, votada e aprovada pela Assembleia Provincial.

A rebelião começa na vila da Manga e como um rastilho de pólvora, se alastra por quase todo o Maranhão, na qual os líderes populares, Raimundo Gomes, Manoel Francisco dos Anjos, apelidado de Balaio, e Cosme Bento das Chagas, o Negro Cosme, estimulados pelos políticos bem-te-vis, revidam as atrocidades cometidas contra a população humilde e que cessaram com a revogação da Lei dos Prefeitos.    

A vila de Itapecuru teve um papel de relevo nessa revolta popular, onde o coronel Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, instalou e comandou as operações contra os balaios, vencidos depois de duras e incansáveis refregas.

Acabada a rebelião, o coronel Lima e Silva, em Itapecuru, a 2 de abril de 1941, promove um ato de lançamento da pedra para a construção da igreja matriz, com a invocação de Nossa Senhora das Dores, oportunidade em que entrega um avultado donativo.

FUNDAÇÃO DA CIDADE

Ainda no século XIX, mais precisamente a 21 de julho de 1870, vem a lume uma iniciativa com o sentido de dar a Itapecuru um status mais avançado no que diz respeito à forma de administrar a urbe.

Sem que houvesse qualquer movimento popular, com vistas a fazer a vila de Itapecuru-Mirim ser elevada à categoria de cidade, o Dr. José da Silva Maya, vice-governador do Estado do Maranhão, no exercício do cargo de governador, sanciona a Lei nº 919, votada e aprovada pela Assembleia Legislativa Provincial.

 Esse procedimento governamental, adotado a partir de 1870 para que as vilas maranhenses conquistassem o status de cidades, prerrogativa que deu às mesmas o direito de serem sedes do poder público municipal.

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