O mineiro e o mar

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jurubeba21.jpgA escritora Dinah Silveira de Queiroz, em seu livro “Quadrante 2”, tem um belo conto intitulado História de mineiro.

Trata-se de um mineiro, de família humilde do interior do Estado, que precisou abandonar a família para buscar a vida no Rio de Janeiro. Com o passar do tempo, prosperou. Um belo dia, enviou uma carta ao pai externando a vontade de alegrá-lo satisfazendo qualquer que fosse seu desejo.

Seu pai, devoto de Nossa Senhora Aparecida, respondeu a missiva dizendo que o único sonho que alimentara durante toda a vida era ver o mar…

Aos mais curiosos, recomendo a leitura do conto. Vale a pena.

Aqui, aproveito a carona do conto para falar de um outro mineiro que chegou ao nosso Estado motivado pelo mesmo sonho: ver o mar! Veio, viu e ficou. E mais. Estabeleceu com o mar do Maranhão uma relação de cumplicidade, amor e dedicação sem igual.

A beleza das coloridas velas tremulando ao léu, a harmonia das tintas magistralmente aplicadas nos cascos das embarcações maranhenses, despertaram em Phelipe Andrés, mineiro de nascimento, cidadão ludovicense por mérito, a idéia de realizar o projeto “Embarcações do Maranhão”.

O calendário registrava o ano de 1977 quando ele decidiu garimpar informações que lhe permitiriam resgatar as técnicas artesanais de construção naval, até então guardadas na cabeça daqueles mestres-carpinteiros espalhados pelo litoral do Estado e transmitidas de geração em geração.

A modernidade dos dias atuais vinha afastando os mais jovens dessa sabedoria. Todo esse cabedal de conhecimento, carregado pelas mãos dos calafates, veleiros e pintores corria um sério risco de se perder no tempo.

Um exaustivo e criativo trabalho de resgate da forma construtiva dessas embarcações foi por ele empreendido. Já em 1986 seu projeto acabou recebendo o apoio e financiamento da FINEP e a partir daí, contando com uma equipe de jovens pesquisadores, foi visitando estaleiros, entrevistando mestres, saciando sua curiosidade e aplicando seus conhecimentos de engenharia na elaboração de um verdadeiro “as built” de um projeto de construção naval.

Lembro do Edgar Rocha, fotógrafo maior de nossa Ilha, que me repetia as sábias palavras do mestre Pedro Alcântara, no auge dos seus calejados 76 anos: “o barco é feito assim todo torto pra poder ficar direito na água”.

Quase 20 anos depois, em 1996, a pesquisa de Phelipe Andrés iria conquistar pela primeira vez para o Maranhão, o prêmio Rodrigo de Melo Franco, concedido pelo Ministério da Educação.

Todo esse refinado trabalho, reconhecido pela UNESCO, convergiu para a publicação, em 1998, do livro “Embarcações do Maranhão-Recuperação das técnicas construtivas tradicionais populares”.

Dias atrás, como que num passe de mágica, fui transportado para a minha infância. Passeava pelo Centro Histórico da cidade, quando fui surpreendido pelo “Estandarte” com suas velas tremulando, ancorado no seco, em plena Praça da Praia Grande.

Era mais uma das criações do Phelipe: “Barco na Praça”, na verdade um Projeto que tem como objetivo “valorizar a arte da construção naval artesanal maranhense, proporcionando ao público, especialmente às crianças, uma primeira oportunidade de contato com uma embarcação tradicional, de uma forma lúdica e didática”.

O “Estandarte”, tradicional barco que durante mais de cinqüenta anos cortava os “furos” do litoral do Maranhão, estava de novo, “novinho em folha”, graças ao trabalho desenvolvido pelos alunos do Curso de Construção Naval Artesanal do Estaleiro Escola.

Inaugurado no final de 2006, o Estaleiro Escola vem recebendo total apoio do CNPq e do Governo do Estado, através da UNIVIMA que, na pessoa do professor Othon Bastos, não tem medido esforços para garantir o sucesso desse projeto da mais alta relevância para história da construção naval do país.

Agora a canoa costeira “Estandarte” brilha no pavilhão de frente da Amazontec, o grande evento sobre o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia que se realiza no Multicenter Sebrae. Seu antigo proprietário o Mestre marítimo Sebastião continua no comando e nos leva a um passeio mágico pelas entranhas de uma canoa costeira e emocionado nos fala. “Eu, que aqui transportei tanto carvão, nunca imaginei que iria vê-la com tanta luz nos porões!”

Nós, maranhenses de nascimento e de coração, só temos a agradecer a esse exitoso Projeto que nasceu em terra, na alma e dos sonhos de um mineiro, agora maranhense por opção voluntária e que buscava o mar.

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Ditados populares.

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Numa roda de amigos, o assunto do momento era a grave crise financeira que acabara de ser anunciada e abalava os mercados mundo afora.

Genivaldo, um dos entendidos do mercado de capitais, impostava a voz para dizer:

– “Não há bem que sempre dure e nem mal que não se acabe”.

Bertoldo, por sua vez, lembrava a todos que a situação atual era “escarrada e cuspida” à grande crise de 1929.

Dando um trago no chopp e sempre atento à conversa, Genivaldo, o mais erudito da turma, fez uma pequena correção:
– “Em Carrara esculpido!” – É esse o ditado. Lembrando que na Roma antiga era utilizado dessa forma para descrever uma obra esculpida em mármore de Carrara semelhante ao modelo.

– Em momentos iguais a este, “onça que dorme vira tapete!” – É bom ficar atento, teria comentado o vizinho da mesa ao lado.

Genivaldo, com seu ar professoral, comentou que a especulação financeira faz jus ao ditado popular “sorte de uns, azar de outros”.

– “A dor ensina a gemer”, gente! Suspirou o Ramiro, o mais triste de todos. – Imagina a minha situação. Desempregado há muito tempo e vivendo às custas da “patroa”, me empolguei e apliquei a grana toda da minha mulher numas ações que um amigo me recomendou! Perdi quase todo o dinheiro dela nessa ciranda financeira! Meu avô, que vivia pedindo a Deus para lhe dar “paciência e um pano para embrulhá-la”, se vivo estivesse, estaria a me dizer: Meu filho, “Boca do ambicioso só se fecha com terra de sepultura”.

Um outro colega ao lado, soltou ainda esta pérola para animá-lo: – “azar no jogo sorte no amor”, rapaz ! – E, digo mais ainda, não adianta se apavorar. Tenha calma! Afinal de contas, “cautela, água benta e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.

A conversa rolou animada, cada qual filosofando sobre a crise, até que, tarde da noite, a mesa foi desfeita. Pediram conta e cada um retornou para a sua casa.

Ramiro, preocupado e tentando encontrar uma explicação para a mulher quando chegasse em casa, estava muito tenso. Pensava consigo mesmo: “É hoje que a cobra vai fumar”. Afinal, já tinha aprontado algumas anteriormente  e como “gato escaldado tem medo de água fria”, sabia que a mulher iria lhe cobrar muitas explicações. Dito e feito. Chegando em casa “mais macio que doce de batata” logo percebeu que a mulher já sabia de tudo. Ela estava uma fera!

– Tu bem sabias, Ramiro, que “dinheiro não traz felicidade, mas ajuda muito!” – Bem que a vizinha vivia me dizendo para eu abrir os olhos, mas como “o corno é sempre o último a saber”… eu aqui ficava pensando que meu dinheiro estava repousando seguro numa caderneta de poupança e tu especulando com a minha grana! Desse jeito Ramiro, a gente vai acabar ficando “sem eira nem beira!”

A vizinha, acordada no meio da discussão, tentou acalmar a briga e ainda levou logo um chega pra lá:

– Não te mete no que não te diz respeito, “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. E virando-se para o marido disparou desolada: “pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto!”

Ramiro ainda tentou argumentar dizendo à mulher que “macaco só vê o rabo do outro…”, ao que ela retrucou de pronto:
– Tu vais ter ainda que me escutar! – E te calas porque tu não tens razão! “Quando um burro fala, o outro murcha a orelha” soltou furiosa a mulher.

Como “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, Ramiro decidiu “recolher o trem”.

Desolado, foi dormir na sala. Refletiu bastante e resolveu adotar uma nova postura daí em diante. Como “quem morre de véspera é peru de Natal” e adotando a máxima de que “quem quer vai, quem não quer manda”, acordou cedo disposto a encontrar um emprego e recuperar o prejuízo. Iria “arregaçar as mangas” e partir em busca de novas oportunidades para reaver a grana lembrando-se que “quem procura sempre acha, se não um prego uma tacha”.

Decidiu esquecer a discussão da noite anterior, lembrando-se de que “tristeza não paga dívidas”.

No café da manhã, chamando-a de querida, ainda tentou fazer as pazes com a mulher, lembrando a ela que “roupa suja se lava em casa” e saiu de casa disposto a ser um novo homem.

Afinal de contas, “é errando que se aprende”, filosofou Ramiro.

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