O poder da fé

Tenho acompanhado de perto a luta de Roseana Sarney em seu mais recente tratamento de saúde e, dessa experiência, tenho extraído uma quantidade inesperada de lições.

Ao assistir às postagens que ela compartilha no Instagram, vejo uma mulher gigante, realmente uma guerreira.

Vejo que Roseana é mais guerreira agora do que antes. Não uma guerreira por causa de um slogan de propaganda; não por ser a primeira de seu gênero a governar um Estado brasileiro; não por ser uma gestora firme, obstinada ou politicamente combativa. Não por isso.

Quando expõe essa sua luta, Roseana se eleva a uma dimensão raramente alcançada. Nessa hora ela faz jus ao adjetivo de guerreira, sem que esse adjetivo tenha sido criado por um marqueteiro. Muito pelo contrário! Marqueteiros com quem tenho conversado, dizem que o que Rose tem feito ao expor o seu tratamento, é algo desaconselhado, pois demonstra fraqueza, e político fraco não é admirado nem é seguido.

A própria família de Roseana foi contrária a ela se expor como tem feito, mas, como ela é Roseana Sarney, e só faz o que acredita ser a coisa certa, nos mostra que mesmo as pessoas mais poderosas, em todo e qualquer  sentido, são passíveis de sofrer com uma grave enfermidade.

Há, porém, um efeito dessa exposição que preciso compartilhar. Algo que ela provocou em mim e que jamais imaginei experimentar dessa forma.

Fui criado na tradição católica. Minha mãe era profundamente religiosa. Deu-me valores, ensinou-me orações, transmitiu-me um sentido ético da vida. Mas não me formou como um homem religioso no sentido estrito. Ainda assim, deixou em mim a convicção de que existe algo maior, uma ordem que atravessa o universo, a natureza, o tempo e a própria existência. Algo que muitos chamam de Deus.

Essa convicção sempre esteve comigo, de maneira silenciosa, quase abstrata. O que mudou agora foi o gesto. Pela primeira vez em muito tempo, tenho rezado diariamente as orações que minha mãe me ensinou. Não por medo, não por barganha, não por obrigação. Rezo porque a luta de Roseana despertou em mim uma fé que eu não sabia possuir.

Eu creio nisso, e, por isso, tenho rezado diariamente aquelas mesmas orações que minha mãe me ensinou, para que Roseana vença essa batalha, para que ela se recupere e volte logo ao convívio de sua família e de seus amigos.

A fé de Roseana, ao se mostrar sem ornamentos, sem heroísmo, acabou me ensinando isso. Às vezes, acreditar não é afirmar certezas, é simplesmente sustentar esperanças, fé.

A fé de Roseana tem me feito sentir coisas que eu desconhecia.

O valor e o preço

A diferença entre valor e preço é, ao mesmo tempo, semântica, prática e existencial. Confundi-los costuma empobrecer decisões pessoais, sociais e econômicas, além de distorcer a forma como compreendemos o mundo e a nós mesmos.

Valor é uma medida qualitativa, não redutível a números. Refere-se ao significado, à importância e ao peso simbólico, moral, afetivo ou funcional que algo possui para alguém ou para uma coletividade. O valor não é fixo nem universal. Ele depende de contexto, experiência, cultura e história. Pode existir mesmo sem possibilidade de troca e pode aumentar ou diminuir sem que ocorra qualquer transação econômica.

A confiança entre duas pessoas, a dignidade humana, um filme que transforma a forma como alguém compreende a própria vida, um objeto herdado de família. Nada disso tem valor porque custa algo. Tem valor porque importa.

Preço, por sua vez, é uma medida quantitativa. É a expressão numérica atribuída a algo dentro de um sistema de troca, geralmente monetário. Ele é determinado por fatores como mercado, escassez, oferta, demanda, custos e convenções sociais. O preço é mensurável, negociável e temporário, e só existe dentro de um sistema econômico organizado.

O valor em dinheiro de um ingresso de cinema, o custo de produção de um livro, a remuneração paga por um serviço são exemplos claros de preço. Para saber o preço de algo, respondemos à pergunta “quanto custa?”. Para compreender o valor de algo, precisamos responder a outra pergunta, muito mais complexa, “quanto isso importa?”.

Na prática, preço pode ser pago, valor não. Preço se quita, valor se sustenta. É possível pagar caro por algo de pouco valor, pagar pouco por algo de valor imenso, perder algo valioso sem que nenhum dinheiro seja capaz de reparar a perda, ou comprar algo caro que rapidamente se torne irrelevante.

A diferença ética e existencial entre preço e valor torna-se evidente quando uma sociedade passa a tratar valor como se fosse preço. É nesse momento que se precificam pessoas, se monetizam relações, se confunde sucesso com remuneração e se reduz o sentido da vida à utilidade e à rentabilidade.

Preço é o que se paga por algo. Valor é o que permanece depois do pagamento. Preço pertence ao mercado. Valor pertence à experiência humana. Saber distinguir um do outro é uma das formas mais silenciosas e, ao mesmo tempo, mais decisivas de maturidade.

Ontem roubaram meu aparelho celular. O preço dele é de aproximadamente cinco mil reais. O valor, porém, é incalculável, completamente inestimável. Não por acessos a contas bancárias ou cartões de crédito, já que não realizo transações financeiras pelo celular, mas pelo que ele continha.

O valor desse aparelho estava nos documentos pessoais de identidade, arquivos de fotos, nas mensagens de amigos e, sobretudo, nas mensagens de áudio de minha mãe, que eu ouvia sempre que precisava me fortalecer, me acalmar ou recuperar ânimo.

Essa é, em essência, a verdadeira diferença entre preço e valor.

Sobre o Brasil no Oscar 2026

Muita gente vinha me cobrando comentários sobre o filme O Agente Secreto, que vem recebendo indicações e prêmios em importantes festivais internacionais, mas, como estou com vários projetos em andamento, acabei adiando a escrita desse texto até a tarde de quinta-feira, 22 de janeiro, poucas horas após o anúncio dos indicados ao Oscar.

Naquele dia, meu telefone não parou de vibrar com mensagens sobre as quatro indicações do filme. As reações eram variadas: entusiasmo absoluto de quem amou a obra, esperança de que essa visibilidade fortaleça o cinema brasileiro, desinteresse de quem não assistiu ao filme por recomendação contrária de um amigo.

Eu o assisti ainda no ano passado, na abertura do Festival Maranhão na Tela, e gostei. Trata-se de um trabalho muito bem produzido e dirigido. O roteiro tem altos e baixos, mas funciona e satisfaz algumas pessoas.

Em minha opinião, o grande trunfo do filme está no elenco. Não resta dúvida que o Wagner é um excelente ator, mas a seleção dos atores foi perfeita. O ajuste preciso das interpretações revelam um trabalho de extrema atenção. Todos estão afinados com a narrativa e o ritmo do filme.

É fundamental lembrar que O Agente Secreto é uma obra de ficção. Embora traga referências claras ao cotidiano do Recife, algo recorrente no cinema de Kleber Mendonça Filho, mas é importante ressaltar que o personagem central não existiu. Ainda assim, presenciei discussões em que jovens defendiam o filme como relato fiel de um fato real, o que revela uma confusão preocupante entre ficção e realidade.

A cena inicial do filme é deliciosamente insólita: o frentista do posto de gasolina merece um prêmio. O cadáver exposto, os cachorros, os policiais corruptos, o fusca amarelo e a trilha sonora criam, de imediato, um ambiente poderoso. O núcleo liderado por Dona Sebastiana, vivida pela cativante Tânia Maria, transporta o espectador aos anos 1970 com rara verossimilhança. Até os mitos urbanos, como um tubarão e o Perna Cabeluda, se encaixam naturalmente na narrativa, entra e sai do assunto principal.

Como costuma acontecer na filmografia de Kleber Mendonça Filho, este filme é atravessado por inúmeras referências reais, retiradas do cotidiano das pessoas, da cidade do Recife, de seu ambiente urbano e de suas histórias. Aproveito para parabenizá-lo por isso, pelo amor incondicional que demonstra por sua cidade, pelas pessoas que nela vivem, pelas narrativas que brotam como raminhos nos beirais das casas. Sinto algo muito parecido em relação a São Luís e, ao ver o que ele faz, reforço minha convicção de que precisamos agir assim.

Há, no entanto, uma decisão que me parece dispensável: escalar Wagner Moura também como o filho do protagonista, décadas após a morte deste. Achei desnecessário.

As indicações ao Oscar são justas, mas uma delas merece destaque especial: a nova categoria de Melhor Seleção de Elenco. Se houver um prêmio com verdadeiro sabor brasileiro nessa disputa, é esse.

Enquanto arrumava minhas ideia para produzir esse texto, recebi outras duas ligações curiosas. Uma questionava o uso das premiações como manifestações políticas. Respondi com um trecho de uma música de Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Eu não faria o mesmo, mas reconheço que talvez nunca ganhe um Globo de Ouro. Ainda assim, teria preferido ver aquele espaço usado para conclamar cineastas brasileiros à busca permanente da excelência e a lutarem por seus projetos.

A outra ligação veio de alguém convencido de que O Agente Secreto é o melhor filme já feito no Brasil. Disse a pessoa que respeitava a opinião dela, e perguntei-lhe se havia assistido Central do Brasil, Cidade de Deus e O Pagador de Promessas.

PS: O Brasil concorre também ao Oscar de Melhor Direção de Fotografia, com Adolpho Veloso, pelo belo filme Sonhos de Trem. Um prêmio técnico, mas essencial à linguagem cinematográfica. Fiquei muito feliz com essa indicação.

Ter dinheiro não é garantia de correção nem de bom senso

Depois de ter passado o dia inteiro mergulhado na solução de algumas pendências, antes de dormir, resolvi me atualizar sobre os acontecimentos mais recentes do Maranhão, do Brasil e do mundo.

No Maranhão, pouco ou nada mudou. O tempo vai moldando os acontecimentos e os prazos vão se encurtando, precipitando, assim, decisões que ninguém parece disposto a tomar. Essa constatação pode até soar falaciosa, mas é verdadeira. Um espera pela decisão do outro, que depende da decisão de outros, que, por sua vez, aguardam que alguém mais se decida. O resultado é a paralisia travestida de prudência.

No Brasil, a situação é pior. Aqui ninguém espera por nada nem por ninguém para fazer besteira. O presidente fala e faz o que não deve; o ministro da Fazenda não fala nem faz o que deveria; e os ministros do STF falam e fazem coisas que, se o país fosse minimamente sério, os colocariam fora de seus cargos, a serem processados e, muito provavelmente, presos.

Ocorre que essa realidade não é nova. Ela nos acompanha já faz algum tempo, e ninguém aguenta mais.

Mas é no mundo que as coisas estão realmente estranhas. Não porque o presidente da maior, mais rica e mais poderosa nação do planeta faça biquinho ao falar ou sacuda os braços fingindo dançar, mas porque ele é tolo o suficiente para escrever ao primeiro-ministro de um país amigo dizendo que, como não recebeu o Prêmio Nobel da Paz, sente-se desobrigado de ajudar a promovê-la. Alega preocupar-se apenas com a segurança do próprio país, não com a do mundo.

Ser rico nunca foi garantia de inteligência. Tenho visto e sentido isso muito de perto ultimamente. Não se trata, neste caso, de falta de capacidade intelectual, já que o bilionário em questão é bastante inteligente para ter falido seis vezes e sobrevivido ainda mais rico.

O problema é outro: hipocrisia, arrogância, prepotência e, sobretudo, ausência de inteligência emocional. Falta-lhe a compreensão básica de que a segurança de seu país não vale nada se o mundo não for seguro. Falta-lhe também humildade para perceber que ele e seu partido caminham rumo a uma derrota eleitoral acachapante nas próximas eleições legislativas deste ano.

A ideia de anexar ou comprar a Groenlândia é completamente descabida. Os argumentos contra isso são simples: se aquele território sofrer qualquer tipo de ameaça, seus aliados irão em sua defesa, e serão recompensados por isso. É assim que agem os que desejam ser corretos. Qualquer outra atitude é abusiva e inadmissível.

Um país pode estabelecer regras de contenção à imigração, bem como estabelecer, em seu território, as leis que forem por ele aprovadas. Isso é normal.

Um país bombardear alvos terroristas para eliminar covardes e facínoras que espalham ódio e terror pelo mundo, pode até ser algo até desejável.

Um país destruir instalações nucleares destinadas claramente a fins bélicos pode até ser aceitável.

Até mesmo uma intervenção pontual e cirúrgica contra um governante ilegítimo e sanguinário pode ser compreendida, ainda que traga riscos graves e precedentes perigosos.

Mas um país desejar se apoderar do território de outro simplesmente por medo, é algo completamente indesejável, inaceitável e incompreensível. Em suma: inadmissível.

Resta, então, uma pergunta diante do caso da Groenlândia e ela vale também para qualquer pretensão semelhante envolvendo o Canal do Panamá, o México ou o Canadá: o que fazer?

Confesso que não sei exatamente qual é a melhor resposta. Mas uma coisa é certa: é preciso resistir, da forma que for possível, às ações desse tipo de poder quando ameaçam não apenas países específicos, mas também a própria ideia de convivência civilizada no mundo.

Sobre meu querido amigo António Gaspar

Pensei em começar esse texto contando a você, que me prestigia com sua atenção, o que disse meu tio Zé Antonio Haickel, ao seu filho, meu primo, Elias Haickel Neto, depois que este lhe deu a notícia do falecimento de meu pai, Nagib Haickel.

Tio Zé Antonio, que estava jogando pife-pafe na casa de Zé Meireles, um velho amigo de Pindaré Mirim, ao ver Elias adentrar a sala onde estavam jogando, com uma cara de dor e constrangimento por ter de dizer ao seu pai que seu amado irmão havia falecido, ficou calado e recebeu, como resposta, uma pergunta exclamativa: “Foi Nagib!?”. Elias apenas sacodiu suavemente a cabeça, aquiescendo, e Tio Zé Antonio retrucou: Ô meu Deus, porque tu não levaste Miguel ao invés de Nagib!”. (Miguel era primo de Nagib e Zé Antonio)

Elias conta que, mesmo diante de tamanha consternação de todos os presentes, pela notícia trágica da morte de um ente tão querido, não se controlaram e riram de tamanha loucura proferida por um irmão corroído pela dor. A pergunta que todos faziam era por que Zé Antonio conclamou Deus a levar Miguel no lugar de Nagib e não se ofereceu ao todo-poderoso para ir à viagem no lugar de seu irmão.

O fato é que passei quatro dos melhores anos de minha vida convivendo de perto com Antonio Gaspar, de quem fui colega na Assembleia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados, entre 1987 e 1991.

Antes de sermos deputados juntos, já nos conhecíamos informalmente, pelo convívio natural que tínhamos em nossa ainda pequena cidade.

Antonio era 16 anos mais velho que eu, mas, em muitos aspectos, tínhamos a mesma idade, pois eu sempre fui mais velho em meus gostos, costumes e afazeres, e Antonio, ao contrário, sempre foi mais jovem do que os de sua idade.

Devo fazer aqui uma inconfidência sem trair a confiança do falecido. Ele e eu admirávamos muito a beleza e a inteligência das mulheres, e nisso eu era um monge do mosteiro, enquanto ele era um dos monsenhores.

Durante a campanha eleitoral de 1986, quando concorremos, ambos pelo PMDB, nos aproximamos bastante.

No dia da convenção do partido, no momento da escolha dos números com os quais iríamos concorrer, ficamos ele e eu propensos a escolher os mesmos números: 1515 e 1516
Em sinal de respeito a ele, deixei que ele escolhesse e ficaria com o outro. Ele escolheu 1515 e eu fiquei com o 1516. Naquele dia, brinquei com ele: “Gaspar, espero seguir sempre seus passos e nos elegermos um atrás do outro”.

Aquele pleito foi uma loucura. Eu tinha apenas 26 anos e vinha de um mandato de deputado estadual, no qual me elegera com 22 anos e fui o mais jovem do Brasil naquela legislatura, mas tive mestres como Celso Coutinho, Bento Neves, Raimundo Leal, Gervásio Protásio dos Santos e José Elouf, só para citar alguns.

Antonio tinha outra trajetória. Participou ativamente dos movimentos de política estudantil e chegou a ser presidente da União Maranhense de Estudantes Secundaristas, no período, entre 1962 e 1964. Formou-se em farmácia, especializou-se em bioquímica e passou a ser professor universitário desses cursos. Foi empresário de grande sucesso no ramo das análises clínicas, tendo construído um dos maiores laboratórios desse setor, não só do nosso Estado, mas do Norte e do Nordeste do Brasil.

Ainda durante a campanha eleitoral de 1986, muitos fatos nos colocariam lado a lado, lutando juntos por nossas eleições e também pelo maior aproveitamento possível dos votos de legenda, para que conseguíssemos eleger a maior quantidade de parlamentares naquela eleição.

Gaspar disparou na quantidade de votos e eu fui o penúltimo colocado naquele pleito, mas a caligrafia ruim dos eleitores foi responsável, em muitos casos, para que o 1515 fosse 1516, e vice-versa.

Outro fato interessante é que éramos votados em muitos municípios por lideranças adversárias, mas sempre mantivemos o respeito e a consideração um para com o outro, jamais permitindo que rusgas de chefes políticos locais, de Viana, São Bento, Matinha, Penalva, Cajarí, São João Batista, São Vicente de Ferrer, Peri Mirim, Palmeirândia, Cedral, Mirinzal, Pinheiro… afetassem nosso relacionamento e nossa amizade.

Durante os trabalhos da constituinte convivemos mais de perto. Tínhamos os mesmos grupos e nos relacionávamos com os mesmos amigos: Artur da Távola, Nelson Jobim, Gastone Righi, Pedro Ciolin, Manoel Moreira, sem contar os maranhenses, Albérico Filho, Haroldo Saboia e Eliezer Moreira.

A última vez que encontrei com Antonio foi na inauguração do Makani Mall, de Roberto Hachem e passamos duas horas falando sobre política, negócios, cinema, e falamos também sobre a vida, inclusive sobre saúde e descobrimos que nós dois tínhamos a mesma ideia sobre como deve ser a vida, depois de um determinado tempo, depois que atingirmos uma determinada idade: A vida só vale a pena ser vivida se ela for boa, se ela não trouxer para as pessoas, grandes dificuldades e incômodos, constrangimentos e humilhações, dores dilacerantes e insuportáveis. Que o melhor caminho para uma vida que não fosse satisfatória para o indivíduo, era uma morte serena e tranquila.

Tenho certeza de que Antonio Gaspar teve uma vida boa, cheia de alegrias e realizações. Tenho certeza que ele foi um homem feliz e realizado em todos os âmbitos e sei que quem mais perde com sua partida somos nós que ficamos aqui sem mais desfrutarmos de seu bom humor e de sua agradável companhia.

A verdadeira história sobre esquerda e direita – nos dias de hoje

Recentemente, assisti a um sujeito um tanto aloprado, que se dizia professor da USP, recorrer a uma explicação antiga e já bastante gasta, que remonta ao século XVIII, para tentar definir o que seriam os posicionamentos de esquerda e de direita na política. Ele, de cara, comete um erro recorrente e grave: ignora a necessidade de submeter a aplicação do fato histórico à luz do tempo, de sua adaptação e acomodação, justamente quando o fator temporal e evolutivo deveria ser parte essencial para o perfeito entendimento da equação histórica.

A narrativa que ele repete não resiste a uma análise minimamente profunda. Basta observar que, mesmo em uma disposição aleatória, os semelhantes nem sempre ocupam a mesma posição espacial ou simbólica. Pode-se até admitir que, em determinado momento, tenha havido uma arrumação circunstancial entre grupos com afinidades. Mas isso não autoriza a transposição mecânica dessa imagem para a realidade prática contemporânea.

Ser de esquerda ou de direita hoje é outra coisa.

Pessoas de direita são, em essência, liberais. Defendem a livre iniciativa, o Estado Democrático de Direito e o respeito irrestrito às leis. Sustentam o direito à propriedade, valorizam a meritocracia e preservam valores tradicionais ligados à família, à religião, ao patriotismo e à cidadania responsável. Para essas pessoas, o Estado deve interferir o mínimo possível na vida dos indivíduos, limitando-se a regular questões comuns a todos, como leis, direitos e garantias, que devem ser aplicados de forma igualitária e equilibrada. Observando que quanto mais à direita, mais essas noções se intensificam e se radicalizam.

Pessoas de esquerda, por sua vez, são socialistas. Acreditam e valorizam mais as iniciativas do Estado do que as dos indivíduos. Defendem que a coletividade deve prevalecer sobre o indivíduo, muitas vezes relegando a pessoa a um plano inferior ao da comunidade. Para as pessoas de esquerda, a propriedade privada só se justifica em função da coletividade. Seus adeptos pregam a revolução permanente, a mudança contínua, e tendem a rejeitar ou relativizar valores tradicionais como família, religião e pátria. Acreditam que o Estado deve regular e controlar praticamente todos os aspectos da vida social, estabelecendo regras e métodos para tudo, sempre a partir de um padrão ideológico específico. Nessa lógica, a meritocracia deixa de ser um valor e passa a ser vista como um privilégio, e não como resultado da capacidade individual. Da mesma forma, mas em sentido oposto, quanto mais à esquerda, mais essas posições se exacerbam e se tornam radicais.

Entre esses polos, tanto à direita quanto à esquerda, situam-se os moderados: aqueles que flexibilizam suas posições com ponderação e bom senso, dialogando e transitando entre os campos que, em geral, se encontram em conflito permanente. É nesse espaço de moderação que ocorrem as negociações entre esquerda e direita, e é nele que surgem os avanços e a evolução possíveis entre esses interesses, que conseguem sobreviver neste constante conflito da lateralidade em que o mundo se encontra.

Contabilidade e dosimetria de uma possível pena atribuída a Alexandre de Moraes por seus crimes contra o Brasil e os brasileiros

Neste dia 8 de janeiro de 2026, resolvi contabilizar o número de condenados na dita tentativa de golpe de Estado, que teria ocorrido em nosso país em 8 de janeiro de 2023, uma fantasia criada pelo STF, pelo governo e por parte da imprensa, para justificar sua abjeta interferência no destino político no Brasil.

Resolvi então inverter o polo das acusações e julgar apenas o ministro Alexandre de Moraes, por abuso de poder, descumprimento do devido processo legal, destruição do Estado Democrático de Direito, atentado à lei constitucional de nosso país, e resolvi usar de forma ténue uma dosimetria que ele jamais levou em consideração nos processos que julgou, dando a ele um dia de pena para cada ano que ele tenha atribuído de para as pessoas que ele condenou injustamente.

Vocês sabem quantos anos de cadeia este verme receberia se esse julgamento fosse proferido e essa pena fosse cumprida? Mais de 30 anos de prisão.

Eu explico como cheguei a esse número. Foram mais de 800 condenações que, em média, atingiram 14 anos de pena. O montante de anos ultrapassa 11.200, que, divididos por 365, resultam em mais de 30 anos de pena que seriam aplicados a esse Torquemada moderno.

Essa alegoria serve apenas para exemplificar a destruição que esse ser abominável operacionalizou em nosso país. É apenas uma alegoria, mas bem que poderia se transformar em realidade, e isso não seria vingança, seria apenas justiça.

Ações semelhantes, motivos diferentes (ou O que Carmem Lúcia e Donald Trump têm em comum)

Há momentos na história em que decisões excepcionais são justificadas em nome de valores considerados superiores. É justamente nesses momentos que se torna indispensável um exame crítico rigoroso, pois o risco maior não está apenas na decisão em si, mas no precedente moral e institucional que ela representa.

Quando a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que um de seus votos seria claramente incorreto do ponto de vista jurídico, mas que ainda assim o proferiria “apenas daquela vez”, em nome de um bem maior, em nome da defesa da democracia, estabeleceu-se um raciocínio de exceção. O argumento central não foi o da legalidade estrita, mas o da finalidade política supostamente virtuosa. A correção do meio deixou de ser essencial porque o fim foi considerado superior, o que iguala a ação da ministra ao pensamento interpretativo vinculado à ideia atribuída a Maquiavel, segundo a qual o fim justifica os meios.

A lógica subjacente a esse posicionamento é simples e perigosa: a legalidade pode ser relativizada quando se acredita estar protegendo algo maior do que ela própria. Ainda que o propósito declarado seja nobre, o efeito prático é a introdução de um critério subjetivo de legitimidade, no qual o intérprete da lei se autoriza a suspendê-la parcialmente em nome de um valor que ele define de forma pessoal e discricionária.

Esse mesmo raciocínio pode ser observado, em escala distinta, mas com natureza equivalente, na defesa da intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela para depor o ditador Nicolás Maduro. Também aqui o argumento central não é a legalidade internacional, a soberania nacional ou os tratados multilaterais, mas a ideia de que a existência de uma ditadura brutal invalida esses princípios. O fim, libertar um povo oprimido, seria tão moralmente superior que justificaria a violação das regras que organizam a convivência entre os Estados.

Nos dois casos, o fundamento é idêntico: a suspensão consciente de normas reconhecidas como corretas em nome de um bem maior previamente definido por quem decide. No caso do STF, suspende-se a coerência jurídica em nome da democracia; no caso da Venezuela, suspende-se a soberania e o direito internacional em nome da libertação política.

No segundo caso, cabe ainda um outro argumento relevante, de que o povo oprimido da Venezuela não usufruía da soberania que deveria ter porque ela já havia sido usurpada dele pela ditadura ali implantada há quase 30 anos.

A equivalência moral e lógica entre essas duas atitudes não está na comparação de suas consequências materiais, mas no método de justificação. Ambas operam por exceção. Ambas afirmam, explicitamente, que a regra é válida, mas não naquele caso, naquele momento. Ambas pressupõem que o agente que decide possui legitimidade para determinar quando a norma deve ser respeitada e quando deve ser relativizada.

O problema central desse tipo de raciocínio não é apenas o risco de abuso, mas também a corrosão silenciosa dos próprios valores que se pretende proteger. Uma democracia sustentada por decisões assumidamente incorretas deixa de ser um regime de regras e passa a ser um regime de intenções. Da mesma forma, a libertação de um povo por meios que desconsideram princípios básicos do direito internacional pode substituir uma opressão por outra forma de tutela externa, que deve ser evitada a todo custo.

Em ambos os casos, a pergunta decisiva não é se o objetivo é justo, mas quem decide quando a justiça autoriza a violação da regra. Quando esse critério deixa de ser objetivo e passa a ser moralmente autodeclarado, abre-se um terreno instável em que qualquer exceção futura poderá reivindicar o mesmo argumento.

Assim, colocar essas duas atitudes em pé de igualdade não significa afirmar que são idênticas em escala ou em impacto, mas reconhecer que compartilham o mesmo fundamento ético-procedimental: a crença de que, diante de um bem maior, a fidelidade à norma pode ser momentaneamente dispensada. É justamente essa crença que, historicamente, tem mais servido para fragilizar instituições, relativizar direitos e transformar exceções em método permanente de poder, o que se viu e sentiu claramente no caso do voto “político” da ministra brasileira.

Há uma diferença moral decisiva entre repulsa institucional e alívio existencial, e é exatamente nessa fratura que se instala minha indignação.

Sinto asco ao ouvir uma ministra do Supremo Tribunal Federal, cuja função primordial é guardar a Constituição e proteger os direitos do povo brasileiro, admitir que proferiu um voto sabidamente incorreto, ainda que “apenas daquela vez”, em nome de um bem maior. Quando uma integrante da mais alta Corte do país, declara conscientemente a exceção à legalidade, não estamos diante de um erro técnico ou de uma divergência interpretativa; estamos diante de uma ruptura ética. A Constituição deixa de ser o limite do poder e passa a ser um instrumento contingente, acionado ou suspenso conforme a conveniência moral do intérprete.

Essa atitude provoca indignação porque nasce de cima para baixo, de quem detém autoridade institucional, estabilidade, proteção e poder. Não há desespero, não há coerção, não há sobrevivência em jogo. Há escolha. E a escolha foi relativizar o dever constitucional, que é exatamente o que legitima a existência do cargo.

Em sentido oposto, a satisfação do povo venezuelano ao ver-se livre do ditador Nicolás Maduro não decorre de um cálculo jurídico ou de uma abstração moral confortável. Ela nasce do esgotamento humano. É o alívio de quem foi submetido por décadas à violência de Estado, à perseguição política, à miséria administrada e à supressão sistemática de qualquer possibilidade real de escolha. Trata-se de uma reação visceral, compreensível, quase inevitável: a alegria de sobreviver à opressão.

Não se pode exigir desse povo o mesmo rigor normativo que se exige de uma ministra do STF. Um povo esmagado por uma ditadura não delibera em termos de tratados internacionais, soberania formal ou teoria constitucional; delibera em termos de vida, medo e esperança. Se, para romper o ciclo de opressão, foi necessária a intervenção de uma potência estrangeira, o sentimento de alívio não se confunde com adesão irrestrita ao meio utilizado. Confunde-se, isso sim, com a gratidão imediata por a violência cotidiana ter sido interrompida.

É justamente aí que reside o contraste moral. O povo venezuelano não tinha escolha real; a ministra brasileira, sim. O povo celebrou o fim de um algoz; a ministra relativizou a lei que jurou proteger. Um reagiu à opressão; a outra a normalizou sob o verniz do “bem maior”.

Essa diferença é essencial. Quando autoridades institucionais passam a justificar exceções conscientes à legalidade, a democracia deixa de ser um regime de regras e passa a ser um regime de intenções declaradas. Já quando um povo oprimido celebra a queda de um tirano, ainda que por meios traumáticos, não está corroendo princípios abstratos; está tentando retomar a própria condição de sujeito histórico.

Por isso, minha indignação não é contraditória. Ela é seletiva e, justamente por isso, moralmente coerente. Repudio a violação consciente da Constituição por quem existe para defendê-la. E compreendo, ainda que com reservas quanto aos meios, a satisfação de um povo que, finalmente, vislumbra a possibilidade de decidir seu próprio destino.

Confundir essas duas coisas é apagar a diferença entre quem detém o dever e quem sofre a violência, entre quem escolhe relativizar a regra e quem apenas tenta sobreviver fora dela. É essa confusão que me causa repulsa. E é contra ela que faço questão de me posicionar.

Perfil

“Poeta, contista e cronista, que, quando sobra tempo, também é deputado”. Era essa a maneira como Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel aparecia no expediente da revista cultural Guarnicê, da qual foi o principal artífice. Mais de três décadas depois disso, o não mais, porem eterno parlamentar, ainda sem as sobras do tempo, permanece cronista, contista e poeta, além de cineasta.

Advogado, Joaquim Haickel foi eleito para o parlamento estadual pela primeira vez de 1982, quando foi o mais jovem parlamentar do Brasil. Em seguida, foi eleito deputado federal constituinte e depois voltou a ser deputado estadual até 2011. Entre 2011 e 2014 exerceu o cargo de secretario de esportes do Estado do Maranhão.

Cinema, esportes, culinária, literatura e artes de um modo geral estão entre as predileções de Joaquim Haickel, quando não está na arena política, de onde não se afasta, mesmo que tenha optado por não mais disputar mandato eletivo.

Cinéfilo inveterado, é autor do filme “Pelo Ouvido”, grande sucesso de 2008. Sua paixão pelo cinema fez com desenvolvesse juntamente com um grupo de colaboradores um projeto que visa resgatar e preservar a memória maranhense através do audiovisual.

Enquanto produz e dirigi filmes, Joaquim continua a escrever um livro sobre cinema e psicanálise, que, segundo ele, “se conseguir concluí-lo”, será sua obra definitiva.

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