Geofagia

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Planície no lugar de costa
costa no lugar de enseada
enseada no lugar de península
península no lugar de golfo
golfo no lugar de ilha
ilha em seu próprio lugar.

Seios no lugar
ombro no lugar
Venus no lugar.

Fechar os olhos
e dormir
e ver tua geografia
cosmologia
astronomia
astrologia.
Ver tua lógica.

Vale no lugar de costa
Venus em quadratura com Sagitário.
Centauro enclausurado
amarrado.
De corda
as correias de sua sandália grega.

Tirei-lhe-as
Tirei-lhe tudo.
Descalça
Desnuda…

Só braços
mãos
coxas
pernas
ventre…

Todos os montes
colinas
montanhas.

Língua
linguagem
loucura.
Fome de ti.

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Como se eleger Deputado.

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Semana passada, um amigo me pediu que lhe explicasse detalhadamente como é que acontece uma eleição para deputado, pois ele ficou sabendo da candidatura de uma determinada figura e achou que se o tal podia pensar em se eleger, ele também poderia. Achei a idéia boa e vou tentar falar sobre isso de maneira simples e direta, sendo didático sem querer ser professoral.

Eleger-se deputado não é coisa impossível para ninguém. Tarefa mais difícil é a de tentar explicar como fazer isso em 750 palavras.

Para que alguém se eleja deputado, seja federal ou estadual, basta que para tanto ele siga um conjunto de regras obrigatórias e indispensáveis. É uma equação simples, que se executada com auxílio da fórmula correta, a fórmula 3E, que junta efetividade, eficiência e eficácia, será difícil dá errado.

A primeira coisa que o candidato deve fazer é se filiar em um partido que, segundo as regras das eleições vigentes, possa lhe propiciar uma eleição, digamos, mais plausível e viável.

Para que um partido eleja um deputado, terá que atingir o coeficiente eleitoral, valor que é conseguido dividindo-se o número de votos válidos pela quantidade de vagas oferecidas, 18 no caso de deputado federal e 42 para deputado estadual. Quem entende desse assunto imagina que esses coeficientes em 2010 fiquem entre 70.000 e 75.000 para estadual e 170.000 e 175.000 para federal. Logo o partido ou coligação que não atingir esse patamar mínimo de votos não elegerá nenhum deputado.

O candidato tem que mensurar isso com antecedência de um ano. Tem que saber se seu partido vai se coligar com algum outro e se eles tem em seus quadros candidatos no mesmo nível que o seu, pois caso contrário, será engolido pelos colegas de chapa.

A eleição para deputado (e para vereador também) em última instância é uma festa onde só conseguirão entrar os primeiros da fila. A luta consiste em ser um dos primeiros dessa fila no caso das coligações ou partidos com muitos votos, que elegerão 10 ou 15 deputados ou ser o primeiríssimo no caso dos pequenos que só irão eleger 1 ou quem sabe 2.

Em 1998 me elegi pelo PRP, um pequeno partido que naquela eleição conseguiu eleger 2 parlamentares, um direto, eu, com pouco mais de 13.000 votos, e um na sobra, Maurinete Gralhada, com quase 11.000.

A sobra é a quantidade de votos que excede o coeficiente e que não sendo suficiente para eleger mais um, mesmo assim o faz, pois as sobras tem uma hierarquia. Quem tem mais, elege mais um primeiro, antes que os demais.

Para eleição subseqüente me transferi para o PTB e em seguida, por motivos “partidários”, fui para o PMDB, onde passei a concorrer numa faixa mais alta e onde consecutivamente me elegi em 2002 e 2006 com algo em torno de 23.000 e 33.000 votos respectivamente.

Existem ingredientes indispensáveis para uma eleição vitoriosa de deputado: A pessoa que se propõe a esse intento tem que ser do ramo, saber o que está fazendo e porque está fazendo. Não deve ser um curioso ou um pára-quedista, sob pena de se estatelar no chão.

É indispensável ter dois grupos que o apóie, um acima de si e um abaixo, seus líderes e seus liderados. Não se faz política sem grupo. Precisa-se ter um território, um reduto, uma área de atuação.

De talento pessoal, o candidato precisa no mínimo saber se expressar e se não for bom nisso tem que ter alguém que o faça por ele.

Possuir os pré-requisitos citados até aqui significa ter a metade de uma eleição, porém um todo não é feito de apenas uma metade, mas de duas.

O candidato precisa investir dinheiro nessa empreitada. O mais recomendável é que ele use o seu próprio dinheiro, mas pode também ser dinheiro de um grupo de amigos, de uma entidade ou de uma classe que queira ter um representante no parlamento. O fato é que sem dinheiro ninguém se elege, pois carro de som custa dinheiro, combustível custa dinheiro, cartazes, panfletos e santinhos custam dinheiro, plotagem de veículos custa dinheiro, deslocamentos emergenciais de avião custam dinheiro, comícios custam dinheiro. Nem adianta tentar que não se faz uma eleição sem dinheiro, tanto que para isso, muita gente bem se preparou para as próximas eleições.

E tem mais, quem quiser se eleger e manter o seu mandato, terá que seguir rigorosamente as regras eleitorais. Essa parece que será a missão mais difícil nessas eleições, pois os legisladores originários fizeram uma legislação cheia de furos, o que propicia aos tribunais eleitorais em suas duas instâncias “dirimir” as dúvidas que por acaso se apresentem.

Não está inclusa na formula 3E, mas o texto a seguir é aconselhável a todo aquele que deseja se eleger e a todo aquele que deseja ter sucesso na vida. “Oração de Jabez”: Abençoe-me Senhor! E alargue minhas fronteiras. Que tua mão esteja sobre mim. E me preserve do mal, de modo que não me sobrevenha aflição.

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Decepcionado e triste.

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Não deveria estar decepcionado, pois nunca me iludi sobre as virtudes de caráter de certas pessoas. Mas mesmo assim estou decepcionado, porque no fundo, bem lá no fundo, nutria uma tênue esperança de que eu estivesse equivocado em meu juízo de valor e pelo menos algumas dessas pessoas, as que tinham tudo para provar que eu estava errado, se salvassem do patíbulo comum da decapitação pública pelo crime de extorsão, pela venalidade.

Saudade de Walter Rodrigues. Todos sabem que ele não era uma figura fácil, mas nunca se soube que ele tenha usado a função de jornalista para extorquir quem quer que fosse. Nunca se soube que ele desfrutasse da intimidade de algum “poderoso” para em seguida cobrar-lhe a conta, verba, mídia para seu jornal, sua coluna ou seu blog. Isso não.

Mas por essas bandas, isso não é novidade que aconteça. Sempre aconteceu! Aqui e em muitos lugares, mas não pensei que pudesse acontecer com quem se diz tão honrado e sério, defensor dos mais altos e nobres sentimentos de justiça, paladino da moralidade e defensor de um jornalismo comprometido com as mais altas causas da sociedade.

Que desperdício de talento. Alguém que já quis ter a alma leve como a de Quintana, que quis trilhar os caminhos das pedras de Drummond. Alguém que amava Rimbaud, que lia Whitman na intenção de absorvê-lo, que tinha Pessoa como régua e compasso, mas que pelo que tudo indica, no final, vai acabar tendo do seu lado apenas um único de seus antigos ídolos: Bukowski e sua garrafa de gin.

Estou triste. Mas a minha maior tristeza é por ver comprovada a sina de algumas pessoas, por ver que não adianta tentar. De pedra não se tira água.

Mas mesmo assim me resta um último consolo, refletido num trecho de um belíssimo poema, muito antigo, mas bem atual e que vale tanto para o pau quanto para o machado.

Tudo tem seu tempo,
há um momento oportuno
para cada empreendimento
debaixo do céu.

Tempo de nascer,
e tempo de morrer;tempo de plantar,
e tempo de colher

Tempo de matar,
e tempo de sarar;
tempo de destruir,
e tempo de construir.

Tempo de chorar,
e tempo de rir;
tempo de gemer,
e tempo de dançar.

Tempo de atirar pedras,
e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar.

Tempo de buscar,
e tempo de perder;
tempo de guardar,
e tempo de jogar fora.

Tempo de rasgar,
e tempo de costurar;
tempo de calar,
e tempo de falar.

Tempo de amar,
e tempo de odiar;
tempo de guerra,
e tempo de paz.

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…Alargue minhas fronteiras…

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Tenho andado assoberbado, como há muito tempo não acontecia.

Não tenho tido tempo nem para escrever, coisa que gosto muito de fazer e de que preciso, tanto quanto comer ou dormir.

Não tinha nada para postar aqui nesse domingo. Não queria falar de política, de candidaturas, de impugnações, nem de futebol, de Seleção Brasileira ou da Argentina. Se bem que não posso deixar de dizer que sinto mais orgulho dos vizinhos uruguaios que dos canarinhos sem graça de Dunga. Esporte de nível é o que apresentou a equipe uruguaia, força, garra, determinação, brio. Coisa bonita de se ver, mesmo perdendo. Comentar sobre Bruno, goleiro do Flamengo, isso nem cogito, da mesma forma que sobre Alessandro Martins.

Pois bem, sem saber o que postar, entrei em meu carro na intenção de ir para minha casa, em busca de algo que valesse a pena. Depois de enfiar a chave na ignição e ligar o motor, ato contínuo, liguei o rádio. O último a dirigi-lo havia deixado o rádio sintonizado na FM 92,3 , onde uma voz feminina disse uma frase que me Salvou: “Faça como Jabez!”. Essa frase resolveu o meu problema. Ela me deu o mote que eu precisava para escrever algo do qual eu pudesse me orgulhar e que não fosse apenas para cumprir tabela.

Meses atrás meu irmão Nagib Filho, que agora é evangélico, me mandou a “Oração de Jabez”. Uma oração simples, mas que resume tudo que se deve pedir a Deus.

O fato é que eu não tenho uma memória muito boa. Em verdade, não tenho uma memória normal, ela é seletiva, às vezes funciona, às vezes não. Não guardo nomes nem datas, mas o sentimento, isso eu não esqueço, isso eu apreendo.

Não conseguia me lembrar da oração e não queria nem podia recorrer ao Google, pois estava dentro do carro. Recorri a minha Jacira, que fez das palavras de Jabez sua oração mais freqüente. Liguei para ela e ela me mandou por SMS.

Abaixo você poderá ler a minha versão dessa que é, em minha opinião, a prece mais simples, bonita e eficaz que há.

“Oração de Jabez”

Abençoe-me Senhor!

E alargue minhas fronteiras.

Que tua mão esteja sobre mim.

E me preserve do mal, de modo que não me sobrevenha aflição.

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Aprendizado nas manhãs de domingo

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Desde que entrei para a Academia Maranhense de Letras, aos domingos, visito sempre que posso o confrade Jomar Moraes, em sua residência. Lá, costumam ir, entre outros acadêmicos, Lourival Serejo, Mont’Alverne Frota, José Carlos Sousa Silva, Ney Bello Filho, José Joaquim Ramos Filgueiras, Ceres Costa Fernandes, José Ewerton, (este último, apesar de morar quase em frente, sempre chega depois dos demais). Também comparecem com regularidade alguns professores como os dois Alan Kardec, o Pacheco e o Duailibe.

As conversas sempre variam da boa e velha arte, em todas as suas expressões, com prevalência para a literatura, secundada pelo cinema, passam pela política, seja ela municipal, estadual, nacional e internacional, e depois descambam para as amenidades, algumas vezes chegando até nas fofocas das diversas colunas sociais e políticas de nosso arraial.

O Jomingo, como ficou conhecido esse encontro, combina Jomar com domingo e para mim muito tem servido como fonte de aprendizado e prazer, rara oportunidade de conversarmos, lembrarmos fatos marcantes da nossa história, para comentarmos aspectos controversos de determinados acontecimentos e inclusive conhecermos algumas coisas novas.

Os encontros acontecem no paraíso do bibliófilo, sua biblioteca. Uma sala em L cujas paredes são forradas de estantes que comportam duas fileiras de livros. Um desses lugares em que qualquer pessoa que ame esses objetos mágicos, os livros, adora estar.

A impressão que me dá é que Jomar dorme lá. Um dia, discretamente, saí procurando para vê se havia escondido, por detrás de alguma daquelas estantes, um par de armadores de rede, pois não consigo imaginá-lo alojado em outro cômodo daquela casa.

Um domingo desses, depois de colocar os assuntos em dia, observei um dorso de um livro onde estava escrito, “Almanak 1866”, que logo comecei a folhear.

Nele descobri que na São Luis de 1866 havia coisas que hoje, 144 anos depois, não temos mais, coisa que eu e alguns amigos, conterrâneos e patrícios estamos querendo, em parte, resgatar.

Havia aqui naquela época seis representações consulares além de 19 vice-cônsules.

Hoje, que eu saiba, temos apenas uns três vice-consulados.

Quase 150 anos atrás, São Luis, o Maranhão, estava, vamos dizer assim, mais inserido no mapa-múndi que hoje, éramos mais vistos, procurados, importantes. É lógico que 150 anos depois, as necessidades e as exigências, devido aos modernos meios de transporte e comunicação propiciam isso, além da economia que isso possa acarretar, favorecem a não existência de consulados por aqui. Mas não deixa de ser um fato curioso, um século e meio atrás tantos países terem representações diplomáticas em nossa terra enquanto hoje, nós, descendentes de libaneses no Maranhão estarmos pleiteando, já há bastante tempo, um consulado libanês para nossa cidade. Para isso mostramos recentemente aos representantes do governo daquele país que nós somos, excetuando-se os africanos das várias procedências, e depois dos portugueses, a maior colônia de imigrantes estrangeiros no Maranhão. Mas isso é outra história, voltemos ao Jomingo e ao “Almanak 1866”.

Continuei folheando o livro, encadernado em capa dura, e me deparei com a lista das autoridades, entre eles, deputados, senadores e conselheiros. Entre os nomes, havia um que me soava conhecido: Lafayette Rodrigues Pereira, o conselheiro Lafayette, presidente da Província.

Elegi-me deputado pela primeira vez em 1982 e nunca soube que esse moço, nome de rua no Rio de Janeiro e de município em Minas Gerais havia governado o Maranhão. Naquele momento minha mente, como num velho e hoje quase obsoleto vídeo-cassete, rebobinou. Dava até para ouvir aquele ruído peculiar. Levou-me à Grécia antiga, onde vi o velho Sócrates, passeando com seus discípulos pelas alamedas de Atenas, dizendo “o que sei é que nada sei”. Realmente sabemos muito pouco e devemos aproveitar todas essas oportunidades para sabermos um pouco mais.

Depois daquele clic temporal, voltei ao Jomingo e já ouvi Jomar me chamando para ver uma foto do conselheiro Lafayette em um livro sobre dom Pedro II.

Isso é outra coisa incrível, quando quer mostrar alguma coisa em um de seus quase 20 mil livros, Jomar se levanta, vai até uma das estantes, pega um livro e abre na página onde está o assunto que deseja abordar.

Acabei de lembrar de um outro evento de domingo pela manhã que me foi muito engrandecedor. Trinta anos atrás, quando namorava Cristina Tavares, quando ia buscá-la em sua casa, antes de irmos à praia, eu passava por uma espécie de sabatina ou aula com seu pai, Haroldo Tavares, um dos homens mais cultos de nossa terra. Haroldo é responsável por hoje o nosso trânsito não ser ainda mais caótico, pois é dele a obra urbanística que possibilita andarmos de carro em São Luis.

Pois bem, Haroldo nos sentava ao seu lado para assistirmos Concertos para Juventude, um programa de música clássica com o maestro Isaac Karabitchevisky e depois dele, Globo Rural, quando esse programa era instrutivo e informativo e não um catálogo de compras e oportunidades de negócios como é hoje.

Os domingos, dias insípidos, inodoros e incolores, como água, foram e são, ontem e hoje, dias de aprendizado e amadurecimento onde tive e tenho o privilégio de ter mestres como Haroldo Tavares e Jomar Moraes.

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