Aprendizado nas manhãs de domingo

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Desde que entrei para a Academia Maranhense de Letras, aos domingos, visito sempre que posso o confrade Jomar Moraes, em sua residência. Lá, costumam ir, entre outros acadêmicos, Lourival Serejo, Mont’Alverne Frota, José Carlos Sousa Silva, Ney Bello Filho, José Joaquim Ramos Filgueiras, Ceres Costa Fernandes, José Ewerton, (este último, apesar de morar quase em frente, sempre chega depois dos demais). Também comparecem com regularidade alguns professores como os dois Alan Kardec, o Pacheco e o Duailibe.

As conversas sempre variam da boa e velha arte, em todas as suas expressões, com prevalência para a literatura, secundada pelo cinema, passam pela política, seja ela municipal, estadual, nacional e internacional, e depois descambam para as amenidades, algumas vezes chegando até nas fofocas das diversas colunas sociais e políticas de nosso arraial.

O Jomingo, como ficou conhecido esse encontro, combina Jomar com domingo e para mim muito tem servido como fonte de aprendizado e prazer, rara oportunidade de conversarmos, lembrarmos fatos marcantes da nossa história, para comentarmos aspectos controversos de determinados acontecimentos e inclusive conhecermos algumas coisas novas.

Os encontros acontecem no paraíso do bibliófilo, sua biblioteca. Uma sala em L cujas paredes são forradas de estantes que comportam duas fileiras de livros. Um desses lugares em que qualquer pessoa que ame esses objetos mágicos, os livros, adora estar.

A impressão que me dá é que Jomar dorme lá. Um dia, discretamente, saí procurando para vê se havia escondido, por detrás de alguma daquelas estantes, um par de armadores de rede, pois não consigo imaginá-lo alojado em outro cômodo daquela casa.

Um domingo desses, depois de colocar os assuntos em dia, observei um dorso de um livro onde estava escrito, “Almanak 1866”, que logo comecei a folhear.

Nele descobri que na São Luis de 1866 havia coisas que hoje, 144 anos depois, não temos mais, coisa que eu e alguns amigos, conterrâneos e patrícios estamos querendo, em parte, resgatar.

Havia aqui naquela época seis representações consulares além de 19 vice-cônsules.

Hoje, que eu saiba, temos apenas uns três vice-consulados.

Quase 150 anos atrás, São Luis, o Maranhão, estava, vamos dizer assim, mais inserido no mapa-múndi que hoje, éramos mais vistos, procurados, importantes. É lógico que 150 anos depois, as necessidades e as exigências, devido aos modernos meios de transporte e comunicação propiciam isso, além da economia que isso possa acarretar, favorecem a não existência de consulados por aqui. Mas não deixa de ser um fato curioso, um século e meio atrás tantos países terem representações diplomáticas em nossa terra enquanto hoje, nós, descendentes de libaneses no Maranhão estarmos pleiteando, já há bastante tempo, um consulado libanês para nossa cidade. Para isso mostramos recentemente aos representantes do governo daquele país que nós somos, excetuando-se os africanos das várias procedências, e depois dos portugueses, a maior colônia de imigrantes estrangeiros no Maranhão. Mas isso é outra história, voltemos ao Jomingo e ao “Almanak 1866”.

Continuei folheando o livro, encadernado em capa dura, e me deparei com a lista das autoridades, entre eles, deputados, senadores e conselheiros. Entre os nomes, havia um que me soava conhecido: Lafayette Rodrigues Pereira, o conselheiro Lafayette, presidente da Província.

Elegi-me deputado pela primeira vez em 1982 e nunca soube que esse moço, nome de rua no Rio de Janeiro e de município em Minas Gerais havia governado o Maranhão. Naquele momento minha mente, como num velho e hoje quase obsoleto vídeo-cassete, rebobinou. Dava até para ouvir aquele ruído peculiar. Levou-me à Grécia antiga, onde vi o velho Sócrates, passeando com seus discípulos pelas alamedas de Atenas, dizendo “o que sei é que nada sei”. Realmente sabemos muito pouco e devemos aproveitar todas essas oportunidades para sabermos um pouco mais.

Depois daquele clic temporal, voltei ao Jomingo e já ouvi Jomar me chamando para ver uma foto do conselheiro Lafayette em um livro sobre dom Pedro II.

Isso é outra coisa incrível, quando quer mostrar alguma coisa em um de seus quase 20 mil livros, Jomar se levanta, vai até uma das estantes, pega um livro e abre na página onde está o assunto que deseja abordar.

Acabei de lembrar de um outro evento de domingo pela manhã que me foi muito engrandecedor. Trinta anos atrás, quando namorava Cristina Tavares, quando ia buscá-la em sua casa, antes de irmos à praia, eu passava por uma espécie de sabatina ou aula com seu pai, Haroldo Tavares, um dos homens mais cultos de nossa terra. Haroldo é responsável por hoje o nosso trânsito não ser ainda mais caótico, pois é dele a obra urbanística que possibilita andarmos de carro em São Luis.

Pois bem, Haroldo nos sentava ao seu lado para assistirmos Concertos para Juventude, um programa de música clássica com o maestro Isaac Karabitchevisky e depois dele, Globo Rural, quando esse programa era instrutivo e informativo e não um catálogo de compras e oportunidades de negócios como é hoje.

Os domingos, dias insípidos, inodoros e incolores, como água, foram e são, ontem e hoje, dias de aprendizado e amadurecimento onde tive e tenho o privilégio de ter mestres como Haroldo Tavares e Jomar Moraes.

4 comentários para "Aprendizado nas manhãs de domingo"


  1. Gustavo

    Ato falho, claro. Mas o que passava na TV era “Concertos para Juventude”. E não Consertos.

    Resposta: Correto!

  2. Rômulo Barbosa

    Joca, que tal você também falar do aprendizado das manhãs/tardes sabáticas (das quais, aliás, andamos ausentes)?:RBs

  3. waldimir filho

    Joaquim,

    Voce provavelmente não procurou com o devido cuidado os armadores na biblioteca do Jomar , pois posso lhe assegurar que o Inigualável Jomar tira boas sonecas numa tremenda ¨baladeira ¨, estrategicamente armada naquele templo de cultura.

  4. Roberto Pires

    Caro Joaquim (Êbi),
    Gosto muito de visitar seu blog, seu modo de escrever semelhante a seu jeito de falar, agradável, que flui com facilidade. Continue com a narração desses seus interessantes momentos de dia-a-dia. Invejo-lhe a capacidade de ter bons amigos e compartilhar com eles deliciosos momentos de prosa e troca de conhecimentos. Tive o prazer de lhe conhecer quando namorava Cristina durante a famigerada peça teatral do Yazigi (rsrs) já o querido Haroldo Tavares somente o conheci varios anos depois, sempre demonstrando a sagacidade inerente a todo soteropolitano. Um sonhador incansável infelizmente preterido nas homenagens que devemos fazer pelo muito que fez pela nossa cidade muito bem lembrado por voce, com a criaçao do plano urbanistico e pela inteligencia de sua prosa. Receba meu abraço.

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