Chove lá fora.

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Até que enfim chove lá fora.
Há muito
o sol
amigo diário,
diurno,
não dava espaço a doce chuva matinal.
Abro as cortinas e vejo o céu cinza.
Não vejo nada além disso.
Meus olhos
olham para dentro de mim.
Minha lembrança voa em busca da infância
povoada por chuvas de todos os tipos:
torrenciais,
pingos doloridos do tamanho de bolinhas de gude,
finas e rápidas,
localizadas – incrivelmente só de um lado da rua…
Abro a janela e sinto a suave brisa da manhã,
escuto trovões distantes,
e sinto o respingar da água da vida em meu rosto.
As margaridas no canteiro do parapeito da janela
parecem sorrir para mim.
De repente
o vento abre uma pequena fresta na parede de nuvens,
faz com que a folhagem do babaçual ao lado
balance em sutil reverencia
e o sol
distante
manda dizer por um raio dourado cintilante
que permite o casamento da raposa com o rouxinol.

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Ave Fernando Pessoa e Jair Andrade.

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Minha mãe reinventou o almoço em família. É! Na nossa, assim como acredito que em todas, esse evento acontece aos domingos e é regado, variando de um lugar para o outro, pelos sempre maravilhosos pratos especiais da vovó ou da nona, conforme a etnia e o sotaque.

Mas voltemos à minha mãe, avó de Laila, Nagib Neto e Pilar e de mais duas dúzias de netos que não são filhos de seus filhos legítimos, mas de filhos que se deram para ela, de presente, sem que tivessem que deixar de serem filhos de suas próprias mães. Algumas mães têm essa capacidade de irem acumulando filhos postiços pela vida afora, e a minha é uma dessas.

Pois bem, acontece que a minha mãe, Dona Clarice Pinto Haickel, estabeleceu que além do almoço de domingo, às vezes tipicamente árabe, comida que ela aprendeu a fazer com minha avó, mãe de meu pai, às vezes tipicamente maranhense, cuxá, torta de camarão, peixe pedra frito, carurú, carne de porco assada ou ainda, assessorada por mãe Teté que faz carne de grelha, assada no fogareiro, servida com um arrozinho branco quentinho, passado na manteiga Real, ou ainda uma suculenta feijoada de mulata gorda, com legumes, verduras, toicinho, linguiça e até com banana, milho, caju, ou sua tradicional macarronada com carne moída, frango ao forno e galinha ao molho pardo, ou o velho e rico arroz de toicinho, acompanhado de sua maravilhosa salada de camarão seco e o tradicional molho d’água, espécie de acompanhamento inventado por meu avô, pai de minha mãe, destinado a saciar a fome de sua família, grande e não abastada, complementando a refeição, feito à base de água fria, cebola, alho, limão, uma ou outra folhagem verde, daquelas usadas para temperar peixe, uma pitadinha de sal e pimenta murici, ingrediente indispensável para atrair o freguês a comer algo parecido com nada e ainda assim se sentir satisfeito e refestelado. Comida de pobre mesmo.

Não estou fazendo rodeios, é que preciso desenhar esse cenário todo para poder chegar onde desejo, o novo dia do almoço familiar Pinto-Haickel. Dona Clarice que arrumou uma função melhor que ser nossa mãe ou presidente da Fundação Nagib Haickel, agora só quer ser é avó de Nagib Neto, pois Pilar está morando com a mãe dela em Paragominas e Laila, agora com vinte anos, namorando, fazendo faculdade, passa pouco tempo em casa. Nagib Neto, que é um gigante de cento e noventa centímetros de altura, oitenta e cinco centímetros de largura e dezesseis anos de idade, é um ser que visto de longe já é imenso e de perto só não é assustador por causa de seu sorriso infantil e doce. Ele resolveu que vai comer todo o jerimum e toda a vinagreira do extraordinário cozidão maranhense que minha irmã de criação Litiane, sob a supervisão de mamãe, faz agora todas as sextas-feiras, o tal novo dia de almoço familiar.

A minha velha é muito esperta. Ela inventou esse outro dia para almoçarmos em sua casa, para poder fazer com que meu indisciplinado irmão Nagib coma direito, pois se depender dele, passa o dia todo só no cafezinho, além de aproveitar para ter os homens de sua vida aos seus pés.

Numa dessas sextas-feiras de almoço familiar, cujo prato era um daqueles imensos cozidões, presentes à mesa, dona Clarice na cabeceira, ladeada por mim e por meu irmão, que tinha ao seu lado Nagib Neto, que por sua vez tinha a sua frente, mãe Tetê e do seu outro lado mãe Loló, conversávamos sobre as coisas do dia a dia. De repente eu suspirei fundo e disse a eles uma coisa que queria ter dito há muito tempo: “Eu sou muito feliz” e continuei depois dos améns das mães, da aleluia do meu irmão e da cara de espanto de meu sobrinho gigante. “Sou muito feliz porque tenho uma família maravilhosa, mesmo que minha mãe insista em colocar apenas três quilos de jerimum no cozido, causando briga entre mim e esse mastodonte do Nagib Neto; sou feliz, porque tenho dito para todos que não sou mais candidato a deputado e de todos a quem já disse isso, só ouvi palavras de apoio, mesmo que às vezes discordantes de minha decisão; sou feliz por que amo e sou amado por uma mulher sensacional; sou feliz porque me sinto realizado em minha vida profissional, em todos os âmbitos e aspectos; sou tão feliz, que até quando as coisas não acontecem do jeito que eu queria que acontecessem, acontecem de um jeito melhor; sou feliz porque mesmo sendo agnóstico, sinto que meu Deus fala comigo das formas mais variáveis possíveis, sem precisar de intermediários, sem precisar de religare; sou feliz…” e continuei por um bom tempo enumerando os motivos de minha felicidade, quando cheguei a uma comprovação que havia tido naquela manhã, uma certeza de felicidade, em que pese ser uma certeza triste e pesarosa, pois me foi dada em um depoimento choroso, de uma pessoa que estava em um velório de um de meus grandes amigos, colega do Dom Bosco e correligionário político do município de São Domingos do Maranhão, Francisco Jair Sousa Andrade, que faleceu pouco antes de completar 52 anos, vítima de derrame cerebral.

Uma pessoa veio falar comigo e disse que ele, Jair, gostava muito de mim. Gostava tanto que se alguém dissesse que eu era feio ou mesmo gordo, duas coisas que eu realmente sou, ele partia para cima dessa pessoa, tentando mostrar as qualidades que ele achava que eu tinha.

Naquela hora comprovei que sou realmente muito feliz, pois tenho amigos verdadeiros, pessoas que estão comigo por carinho, amizade, respeito, companheirismo… Amor mesmo.

A absurda e prematura morte de Jair, de certa forma quebrou as minhas pernas, mas me fez ter certeza que a fragilidade de nossas vidas deve ser exercida de maneira liberta, simples, despojada, para que no final possa se chegar à conclusão que eu cheguei ao ver todas aquelas pessoas no velório. Como disse Fernando Pessoa, “Tudo vale a pena se a vida não é pequena” e a vida de Jair Andrade, mesmo simples, pacata, modesta, valeu muito a pena. Tenho que seguir o seu exemplo.

Depois de dizer isso, em meio ao almoço familiar das sextas-feiras, minha mãe que me acha um rebelde religioso, e eu sou mesmo, deve ter acreditado que suas orações foram ouvidas e eu encontrei o bom caminho.

Quanto a mim, tive a certeza de que Deus realmente escreve palavras corretas por tortas linhas, basta apenas que saibamos lê-las e interpretá-las.

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Audiovisual ganha espaço privilegiado em São Luís

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Foto histórica de São Luís será uma das imagens a serem guardadas no Museu da Memória Áudio Visual do Maranhão (Mavam), que será instalado no Desterro, em pleno Centro Histórico da Ilha

Foto histórica de São Luís será uma das imagens a serem guardadas no Museu da Memória Áudio Visual do Maranhão (Mavam), que será instalado no Desterro, em pleno Centro Histórico da Ilha

A partir da próxima sexta-feira, 16, produtores, cineastas, colecionadores, curiosos e afins terão à sua disposição um acervo audiovisual que, ao mesmo tempo, irá resgatar e fazer a história do Maranhão e dos maranhenses. Fotos, arquivos de documentários, filmes, gravações de TV e rádios e toda uma gama de materiais de áudio e vídeo estarão disponíveis no Museu da Memória Áudio Visual do Maranhão (Mavam). A inauguração acontece às 18h30.

O Mavam funcionará na antiga Companhia de Navegação – que posteriormente, no século XX, funcionou um entreposto comercial -, no bairro do Desterro (Avenida Senador Vitorino Freire, nº 42), mais precisamente em frente à atual sede da Flor do Samba. É neste local que serão reunidos materiais que contam a história do áudio visual do Maranhão.

De acordo com Joaquim Nagib Haickel, idealizador do projeto, o Museu já tem uma importância histórica singular, pois será a primeira tentativa de resgate, guarda e mostra de produções que, por si só, contam várias histórias sobre a sociedade maranhense. “Teremos materiais que hoje fazem parte de coleções particulares e, apesar de não serem proibidas ao público, não estão disponíveis na medida em que estão em locais privados”, conta o cineasta e também deputado.

Para disponibilizar esse material ao público, o Mavam vai buscar parcerias com estes colecionadores particulares, com emissoras de TV e de rádio, cineastas, documentaristas, fotógrafos, entre outros profissionais, instituições e empresas que dispõem de materiais audiovisuais que possam auxiliar na composição do Museu. “Também buscaremos famílias que queiram dividir suas histórias conosco, em forma de fotografias, por exemplo”, diz Haickel.

Estruturação – De acordo com a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Maranhão (IPHAN), Kátia Bogéa, o prédio onde funcionará o Museu da Memória Áudio Visual do Maranhão passou por uma reforma completa. “Trabalhamos com base nas características da edificação. Queríamos deixá-la igual ao que era na época de sua construção”, revela.

O Mavam é um tipo de projeto, segundo a superintendente, que preenche as expectativas do IPHAN, no sentido de que, além de restaurar um prédio tombado e de intangível importância histórica nacional, colabora para a preservação e utilização. “Não apenas reparamos os danos causados pelo tempo, mas estamos restituindo ao Maranhão um espaço que faz parte da história dos maranhenses”, destaca Kátia Bogéa.

O Museu de Audiovisual disponibilizará ao público um amplo espaço climatizado. Salas servirão como pontos de exibição do acervo, que estará disponível, em horário comercial, a quem desejar conhecer um pouco mais da história do Maranhão, em registros diversos. “Além disso, teremos uma sala equipada pronta para ser utilizada por estudantes que necessitem de um local para produzir e aprender sobre produção de documentários, por exemplo”, garante o seu idealizador.A declaração revela mais uma vertente do Museu, que é a produção de materiais. “Não será um espaço apenas para guarda e exibição de acervo. Teremos um museu dinâmico, onde se produzirão documentos audiovisuais. Essa produção também fará parte do catálogo do Mavam”, acrescenta Haickel.

Sonho de cineasta foi iniciado em 2007

O Museu é um sonho antigo de Joaquim Nagib Haickel. O projeto só saiu do plano das idéias e foi parar no papel, no entanto, em 2007, quando foi criado um projeto museológico. “A partir daí buscamos a efetivação, o que foi conseguido graças a emendas parlamentares de políticos que perceberam a importância cultural e histórica do Mavam”, diz o deputado, referindo-se ao senador Epitácio Cafeteira e as deputados federais Ribamar Alves, Sétimo Waquim, Pedro Novaes, Gastão Vieira, Carlos Brandão e Cléber Verde.

Joaquim Haickel ressalta que, embora o gerenciamento do Museu da Memória seja de responsabilidade da Fundação Nagib Haickel, todo o recurso obtido foi direcionado ao IPHAN. “Foi o órgão que se encarregou dos processos licitatórios necessários, bem como da reforma do prédio e da compra de alguns equipamentos”, afirma.

Isso é confirmado por Kátia Bogéa. A superintendente diz que a Fundação Nagib Haickel providenciou um projeto de restauração do antigo prédio, tão logo recebeu a notificação do Instituto. “O prédio oferecia risco de desabamento e necessitava de reparos imediatos”, lembra Kátia.

O fato é que já se pensava tanto na restauração do antigo entreposto comercial, quanto na criação de um museu audiovisual. “Decidimos aproveitar o prédio, doado por mim para a Fundação Nagib Haickel, e construir o Mavam. Só precisávamos de recursos, que foram obtidos com as emendas”, diz Joaquim Haickel. “Com isso, estamos devolvendo ao bairro do Desterro, que possui raízes históricas e culturais muito fortes e dinâmicas, um prédio que reforça a identidade do bairro. Ganhamos todos”, arremata Kátia Bogéa.

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Em muito boa Companhia…

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Recebi o texto abaixo como comentário do post Repercutindo, publicado neste blog, no último dia 3.

Ao lê-lo, confesso que fiquei envaidecido, pois realmente me senti em muito boa companhia, ou talvez fosse mais apropriado dizer que as pessoas citadas pela jornalista Maria Clara Cabral, de a Folha de São Paulo, é que vieram abrilhantar a atitude que eu tomei muito antes da maioria deles: Não serei candidato a deputado nas próximas eleições.

Assim como eu, homens da estatura de Ciro Gomes (PSB-CE), Fernando Coruja (SC), do deputado mais votado do PSDB em 2006, Emanuel Fernandes (SP) e do secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo (SP), os deputados Roberto Magalhães (DEM-PE), Germano Bonow (DEM-RS) e Ibsen Pinheiro(PMDB-RS) e do senador Sérgio Zambiasi (PTB-RS), resolveram que é hora de dar um tempo, olhar as coisas de fora, com um certo distanciamento o legislativo, buscar outros caminhos, outras formas de contribuir.

Vejam a integra da matéria da Folha.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u715792.shtml

03/04/2010 – 09h00

DESILUDIDOS, FIGURÕES DO CONGRESSO DESISTEM DE TENTAR A REELEIÇÃO

MARIA CLARA CABRAL
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Desilusão com a produtividade no Legislativo, o altíssimo custo das campanhas eleitorais, os financiamentos obscuros e o risco crescente de escândalos na classe política. Esses são os motivos alegados para que prestigiados senadores e deputados desistam de concorrer à reeleição este ano.

Com história política notável e alguns com votos mais do que suficientes para tentar novos mandatos, eles seguem a trilha aberta pelo ex-governador e atual presidenciável Ciro Gomes (PSB-CE) e dizem que não têm mais entusiasmo para continuar na vida parlamentar.

Na lista há nomes como os do líder do PPS na Câmara, Fernando Coruja (SC), do deputado mais votado do PSDB em 2006, Emanuel Fernandes (SP) e do secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo (SP).

Renovação no Congresso é normal, porque há uma dança de cadeiras entre os vários Executivos e Legislativos. Desta vez, porém, a questão não é de quantidade, mas de qualidade.

Levantamento feito pela Folha junto às lideranças partidárias aponta que cerca de 88% dos 513 deputados devem tentar a reeleição, com a expectativa de renovação de 50%, mas a bancada do “cansei” abrange quase todos os partidos, espectros ideológicos e regiões.

Uns ainda se animam com a possibilidade de ocupar funções em campanhas à Presidência ou a governos estaduais e cavar cargos executivos, onde se consideram “mais úteis”. Outros pensam em simplesmente abandonar a política.

Com os “figurões” desistindo, o temor de cientistas políticos e dos congressistas é que o espaço seja preenchido por pessoas com cada vez menos experiência e menor vocação para a política real. Deputados e senadores que já foram prefeitos e governadores podem ser substituídos por quem nunca se elegeu nem a vereador.

“A desilusão sempre existiu, mas hoje o movimento está maior e as críticas mais virulentas. E isso pode resultar em uma diminuição da qualidade política”, avalia Marcos Verlaine, analista político e assessor parlamentar do Diap.

Fernando Coruja, médico em Santa Catarina, diz que não vai disputar as eleições por se sentir “inútil”: “Parece que aqui [na Câmara] você não é importante para beneficiar o seu eleitor, cada vez menos o parlamentar tem capacidade de decisão. Me sinto mais útil exercendo a minha profissão”.

O tucano recordista de voto na Câmara, Emanuel Fernandes, também cogita não concorrer. Ele, que já foi prefeito de São José dos Campos (SP), diz que a figura do parlamentar está desacreditada: “Não decidimos coisas estruturais, que realmente têm importância”.

José Eduardo Cardozo divulgou carta no começo do mês na qual anuncia sua desistência da vida parlamentar, reclama do atual sistema político, com campanhas caríssimas e da “banalização da ideia de que todo político é desonesto”.

Vergonha

Essa banalização resulta em uma certa vergonha em ser parlamentar. Muitos que ostentavam orgulhosamente seus broches de parlamentares até há pouco tempo, agora chegam a tirá-los antes de viajar de avião para não serem hostilizados.

Figura polêmica, Ciro Gomes já foi ministro duas vezes, governador, prefeito e candidato a presidente. Em outubro, quer concorrer de novo à Presidência. Mesmo perdendo, garante que para o Congresso não volta: não gosta de passar horas discutindo sem ver resultados.

Além dele, há o senador Sérgio Zambiasi (PTB-RS) e os deputados Roberto Magalhães (DEM-PE), Germano Bonow (DEM-RS) e Ibsen Pinheiro.

Apesar das desistências, analistas políticos acham que o índice de renovação em outubro deve ficar em 50%, como em anos anteriores. “A renovação deve permanecer no mesmo nível, mas com alguns fatores negativos: sai gente boa e entra muita gente inexperiente”, diz David Fleischer, da UnB.

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Pessach

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Umas três semanas atrás eu cheguei ao posto de meu primo Eduardo, na Ponta D’areia, e ele estava conversando com um de seus frentistas. O rapaz estava pedindo permissão a ele para distribuir aos clientes do posto um folheto confeccionado por sua igreja a respeito da páscoa que se aproximava.

Eduardo argumentava que não haveria nenhum problema, mas que o rapaz ficasse atento, pois algum cliente poderia achar inconveniente tal abordagem, poderia se achar de alguma forma agredido por aquela ação. Coisas da modernidade. Tempo onde todos nós nos sentimos invadidos pela ação das pessoas. Bobagem, bastaria receber o panfleto e caso não quisesse levar em consideração, dobrar, guardar e depois jogar no lixo. Simples assim!

Mas eu fiquei muito curioso em saber se aquele rapaz, nitidamente evangélico, sabia com exatidão o que se festejaria, se ele sabia a diferença da páscoa para a Semana Santa. Impertinente, não me contive e perguntei-lhe se ele sabia a diferença da páscoa judaica para a páscoa cristã. Ele calmamente, com um sorriso maroto nos lábios, respondeu: “a páscoa judaica comemora a libertação dos judeus do cativeiro do Egito, a páscoa cristã comemora a nossa, a libertação de todos nós, através da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, que aconteceu exatamente durante a comemoração da páscoa judaica, há pouco mais de 2000 anos atrás”.

Fiquei sem palavras, pois era a primeira vez que ouvia a resposta exata, pelo menos aquela que eu gostaria de ouvir, mesmo que incompleta, faltando pequeninos detalhes que só os historiadores, jamais os religiosos levariam em consideração sobre o que realmente é a festa da páscoa.

A páscoa é uma festa judaica realizada em memória da morte dos primogênitos e da libertação dos israelitas de sua escravidão no Egito. O nome páscoa deriva de uma palavra hebraica Pessach que significa a passagem do anjo exterminador, o instrumento de Deus usado para realizar a décima e última praga enviada por Ele para obrigar o faraó do Egito a libertar o povo de Moisés do cativeiro. O anjo passou pelas terras do Nilo fazendo perecer os primogênitos de todas as casas, tendo sido poupadas apenas as habitações dos israelitas, cujas portas haviam sido ungidas com o sangue de um cordeiro. Era tão rigorosa a obrigação de guardar a páscoa, que todo aquele que não cumprisse tal preceito seria condenado à morte.

Os tempos mudaram tanto que para muitos gerentes de lojas de chocolate, padarias e supermercados, a páscoa é simplesmente uma data instituída pelo Clube de Diretores Lojistas ou pela Associação Comercial para incrementar as vendas nessa época difícil entre o carnaval e o São João.

Algumas crianças acham até que os coelhinhos põem ovos. Só algumas! A sobrinha de um amigo meu, com quem encontrei essa semana, num Shopping Center da cidade, pedia insistentemente que o tio comprasse para ela um ovo de chocolate e no meio de sua tese de convencimento a garotinha de cabelos encaracolados e com uma carinha de sapeca disse ao tio que ela queria um ovo de chocolate, não de coelho, pois coelho é mamífero e mamífero não põe ovo e se pusesse não seria de chocolate, seria de coelhinhos. Ao ver aquela cena lembrei que durante muitos anos, enquanto criança, acreditava que Papai Noel existia e até que os coelhos, na época da páscoa, punham ovos de chocolate. Não se fazem mais crianças como antigamente.

Há nessa historia toda, porem, uma coincidência interessante – se bem que meu irmão Nagib, que é evangélico, diz que não existem coincidências, mas sim desígnios divinos – a páscoa cristã, ou seja, a salvação dos homens consequência do martírio e da morte de um justo, Jesus de Nazaré, aconteceu exatamente quando os judeus comemoravam a sua páscoa, ocasião em que festejam a sua libertação do cativeiro egípcio.

Pode até ser que, como dizem alguns incrédulos, que tudo tenha sido orquestrado minuciosamente para acontecer conforme estava previsto nas escrituras proféticas, mas pelo beneplácito da dúvida, acredito firmemente que a páscoa seja mesmo a ocasião para comemorarmos a salvação, a libertação, não só de nossos corpos, mas também de nossas almas, de nossas consciências e de nossas mentes, que merecem não ser escravizadas por dogmas religiosos a serviço única e exclusivamente cooptação de fieis seguidores.

Não comer carne vermelha e presentear as pessoas com ovos de chocolate são apenas dois dos muitos costumes que nós seres humanos nos impomos como uma das marcas registradas de nossa espécie.

Shalom!

Salam aleikum!

Que a paz seja convosco!

PS: Quero dedicar minhas orações no sentido de canalizar a energia dos sentimentos de libertação e salvação representados pela páscoa, tanto a judaica quanto a cristã, em benefício de meus queridos amigos Ribamar Fiquene, Roberto Macieira, Jair Andrade e Hermínio de Lima, que se encontram enfermos, para que eles se restabeleçam logo e voltem ao convívio normal de seus familiares e amigos.

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