Indignado pela indignidade

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É indecente e criminosa a politização que está ocorrendo em torno da pandemia de coronavírus. É asquerosa a atitude de pessoas que aproveitam ocasiões de tamanha dificuldade para dar vazão a essa que é uma das mais torpes facetas da condição humana: a perfídia.

Utilizarem-se deste momento, em que enfrentamos essa avassaladora calamidade, onde todos estamos sujeitos a adoecer e alguns até a morrer, para tirarem vantagem política ou denegrir adversários, é algo ultrajante e inaceitável.

Os canalhas que fazem esse tipo de coisa estão sendo observados, e mesmo aquelas pessoas de pouca percepção, são capazes de reconhecer quem joga com suas vidas.

É igualmente inadmissível gestores públicos idiotas não serem capazes de se comportar com a devida e necessária civilidade, urbanidade e decoro, ainda mais em um momento como esse. Muito grave também é o que acontece com a imprensa, onde jornalistas tomam posições ideológicas e partidárias, colocando em segundo plano o bem comum.

Exigir-se inteligência emocional de quem não a possui talvez seja demais, mas ter-se a inteligência comum, aquela que nos faz entender como funciona uma operação simples de adição ou subtração, isso é indispensável. Sem essa inteligência mínima, somos completamente descartáveis, principalmente neste momento de crise.

O que se espera é que todos deem vazão à honra e à nobreza que deve habitar em algum canto obscuro, até mesmo da criatura humana mais desnaturada que vaga sobre esta condoída terra.

Estou enojado com o que tenho visto e posso garantir que o que vi até aqui me faz crer que ninguém está inocente das acusações.

A responsabilidade de um governante numa hora dessas ultrapassa o limite da mera representatividade eleitoral e política. Ela passa a extrapolar os limites da obrigação legal e a se estabelecer como questão de posicionamento social e humano.

A macroeconomia, lato sensu, e individualmente os sistemas econômicos mais simples, que vão das empresas de maior porte até as empresas individuais, atingindo o cidadão comum na ponta mais distante desta cadeia, não pode ser de forma alguma esquecida, mas também não pode ser o item mais importante neste momento.

Quando eu era detentor de cargo público, como deputado ou secretário de estado, sempre chamei a atenção dos meus colegas e colaboradores para um dilema que bem representa a vida e a ação dos políticos de todas as esferas. O dilema da vaca e do carrapato.

Nele, algumas pessoas advogam que por existirem carrapatos, melhor seria não se ter vacas, enquanto alguns mais radicais defendem que se mate as vacas para acabar com a praga dos carrapatos.

Desculpem o exagero deste exemplo, mas ele se deve ao fato absurdo de existir pessoas incapazes de ver que cada caso possui no mínimo dois lados. Muitos casos possuem três, quatro, cinco… Uma infinidade de facetas que devem ser levadas todas em consideração. Imaginem no caso de uma situação como esta que estamos enfrentando agora!?…

Da mesma forma que o desastre que essa pandemia vai causar em nossas vidas a curto prazo, de forma pontual e particular, ela causará um incalculável e descomunal desastre econômico, que acarretará problemas gravíssimos de todas as ordens, em todas as esferas, de todos os setores da sociedade.

Mas uma coisa é certa! Os que não morrerem vítimas desta doença, sofrerão as graves consequências dela, e precisam estar preparados para isso. Sobreviver é possível, vejam o que aconteceu depois da peste negra, o que aconteceu durante e depois das grandes guerras, e em consequência das grandes quebradeiras e recessões pelas quais o mundo passou! Sobrevivemos!…

O que não é admissível é que os canalhas de um lado e jumentos de outro, tentem tirar proveito dessa calamidade para ganhar alguma coisa com isso, seja econômica ou politicamente. Isso é inaceitável!

A hora é de total desarmamento dos espíritos.

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Os Cavaleiros do Apocalipse

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Essa pandemia causada pelo novo coronavírus fez com que eu fosse ler um pouco a esse respeito, e em meio a minhas leituras deparei-me com matérias correlatas que me remeteram a outro assunto: o fim dos tempos, o que me levou ao Evangelho de João, o Livro das Revelações, mais conhecido como Apocalipse.

Escrito como se fosse uma poesia, meio que psicodélica, pois em algumas passagens o escritor está tão doidão, parece até ter usado algum tipo de alucinógeno, pois nos induz a acreditar que está tendo visões bem características deste tipo de atitude. É aí que aparecem os Quatro Cavaleiros do Apocalipse: a fome, a guerra, a peste e a morte.

Aquela leitura me fez ver que em pleno século XXI, tempos de imensa evolução tecnológica, a humanidade ainda é atingida de forma avassaladora por surtos, epidemias e pandemias, nos remetendo a um texto religioso de dois mil anos.

Segundo as estatísticas da Organização Mundial da Saúde, morrem no mundo, vítimas apenas dos mais diversos tipos de gripe, duas pessoas por minuto, 120 por hora, mais de 2.800 por dia, acima de 86.000 por mês, o que totaliza mais de 1 milhão e 50 mil pessoas, anualmente.

Porém, há um fato muito mais alarmante do que essa peste que se abate sobre a humanidade e que nos passa despercebido, mesmo sendo muito mais cruel e permanente que a falta de saneamento e as doenças que ela acarreta. Falo da fome, outro dos quatro Cavaleiros do Apocalipse, que segundo João de Patmos se espalharão pela terra e a devastarão, quando estiver próximo o fim do mundo.

Segundo estatísticas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a fome mata pelo mundo, 10 pessoas por minuto, 600 por hora, mais de 14.000 por dia, algo em torno de 430.000 por mês, totalizando mais de 5 milhões 180 mil pessoas por ano. O equivalente a quase cinco vezes a população da cidade de São Luís! São números inacreditáveis!

Em outra esfera, e por mais incrível que possa parecer, a guerra, outro cavaleiro do dos tempos, mata muito menos pessoas. Estimativas indicam que aproximadamente 360 mil pessoas morreram em 2019 nas guerras convencionais, em curso no mundo. Número bem inferior à quantidade de outras mortes, causadas pelos outros agentes citados anteriormente.

O número de vítimas da guerra ganha imensas proporções quando se soma todas as mortes de todos os conflitos bélicos da história, mas cumulativamente os três fatores são catastróficos.

O quarto flagelo é a própria morte, e nesta última leitura que fiz, por um instante, fiquei achando que havia um erro naquele elenco, afinal de contas os três outros cavaleiros sintetizam o quarto. Todos levam à morte! Mas logo entendi que aquela morte citada por João em seu caótico poema profético, tem uma outra conotação, uma outra dimensão, ela diz respeito a um outro tipo de vilão que ataca a humanidade também há milênios. O controle torpe e corrupto dos homens e das sociedades por religiosos e políticos infames e mentirosos. Essa morte representa isso, a falência das lideranças da humanidade, na religião e na política.

A alegoria usada para caracterizar os quatro mensageiros do fim dos tempos é auto explicativa: montado em um cavalo branco acinzentado, aparece uma figura de porte majestoso, usando uma coroa, um arco e uma máscara, que representa a mentira e a infâmia praticadas pelos poderosos da falsa igreja e os mandatários da terra; um potro avermelhado, cor do sangue que jorra nas guerras, traz uma figura com características de guerreiro que empunha uma espada com a qual matará seus inimigos; um equino negro, cor que sugere as trevas e a ganância, traz montado em si uma figura famélica, carregando uma balança destinada a fraudar a pesagem e a distribuição dos frutos que por sorte brotem da terra; e, por fim, um corcel amarelo esverdeado, cuja cor sugere a decomposição dos corpos, traz montado em si uma figura com característica cadavérica, empunhando uma jarra contendo doenças e uma espécie de gadanho, que usará para revirar os restos de suas vítimas.

No momento atual é este último cavaleiro, o da peste, que nos visita. Ele está sendo combatido e certamente será derrotado em mais essa batalha. Mas uma pergunta se impõe: até quando ficaremos reféns destes flagelos? Quando iremos nos livrar deles definitivamente?

A minha opinião é que estes quatro tem um que os lidera, e que deve ser eliminado para que os demais deixem automaticamente de existir.

Pense nisso!…      

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Singularidade

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Ninguém pode sustentar com capacidade de impor como verdade, a narrativa de que uma pessoa age discriminando as mulheres, lato sensu, se ficar comprovado que tal pessoa se refere a um indivíduo em particular, que por acaso é uma mulher, não pelo fato de ser mulher, mas por sua posição política e ideológica. O mesmo ocorre em muitos outros casos, como narrativas sobre racismo, homofobia, fascismo, corrupção, desonestidade…

Dois casos desse tipo tomaram conta do nosso dia a dia nos últimos anos. No primeiro, a esquerda, insiste em dizer que criaram uma narrativa caluniosa, injuriosa e difamatória contra o ex-presidente Lula, imputando a ele ações criminosas, corruptas e desonestas que envolvem bilhões em desvio do erário público brasileiro.

Acusações foram feitas, processos foram instaurados, julgamentos aconteceram, sentenças foram proferidas, penas foram cumpridas e ainda assim a banda à esquerda do espectro ideológico de nosso país, de modo geral, defende a inocência do apenado, declarando isso tudo ser uma grande trama, um grande golpe contra a liberdade e o estado democrático de direito.

Por outro lado, a direita defende incondicionalmente o presidente Jair Bolsonaro, acusado de racismo, homofobia, misoginia, fascismo, apologia ao desrespeito à liberdade, à violência e à ditadura.

O fato é que em 2018, depois de desmontado, o esquema de poder do Partido dos Trabalhadores, que comandou nosso país, por 14 anos, apoiado numa esquerda que minou, aparelhou e fragilizou nossa sociedade nas últimas seis décadas, ruiu.

Isso aconteceu por um motivo elementar, comum às estruturas políticas baseadas em ideologias autoritárias, concentradoras de poder, mesmo aquelas que APARENTEMENTE não o são, como no caso da que se implantou no Brasil, desde a ascensão da esquerda ao poder em 1995 com Fernando Henrique Cardoso.

Essas estruturas não sobrevivem ao tempo, pois as pessoas e as gerações mudam. Elas não se perpetuam, ainda mais em uma sociedade como a de hoje, onde a informação se dissemina por si só, não dependendo mais dos grandes detentores e manipuladores do poder jornalístico, que teve seu apogeu nos anos quentes da Guerra Fria, nas décadas de 60 e 70, e seu declínio a partir de 1989, com a queda do Muro de Berlim, símbolo do controle ideológico e político de metade do mundo pelo comunismo.

Acusar Bolsonaro de tudo que acusam é muito fácil e acho até que ele ajuda bastante seus acusadores, pois é um camarada verborrágico, irascível, descontrolado, que reage primeiro e pensa depois!… Quando pensa!…

Mas acusar quase 60 milhões de brasileiros que disseram um retumbante NÃO a tudo que o PT e os esquerdistas fizeram com nosso país, isso é inadmissível! Um absurdo sem precedentes na história contemporânea, essa mesma história que é movimentada e sustentada pelas redes sociais!…

A tentativa de criar uma narrativa falsa sobre o fato de nossa democracia está sendo enfraquecida pelo presidente, que ele defende o uso da violência, o desrespeito à liberdade, à depredação do meio ambiente, que ataca índios, homossexuais, mulheres, negros… Isso é apenas o reducionismo da questão política estabelecida pela esquerda em busca de recuperar o espaço que perdeu.

Bolsonaro é acusado de misoginia, mas ele tem parte das mulheres ao seu lado. Ele não ataca as mulheres, ataca as pessoas deste gênero que se opõem a ele e ao seu projeto político, que foi chancelado por seus eleitores! O mesmo ocorre com os negros, os homossexuais, os indígenas… O problema deste senhor é que além de não saber se comunicar, não demonstra nenhum interesse em aprender, o que dificulta muito o trabalho de pessoas que como eu, acredita saber o que realmente está acontecendo em nosso país.

Em minha modesta opinião o que está acontecendo no Brasil é um distúrbio, quase como uma singularidade gravitacional, causada pelo desmonte das estruturas sociais, perpetrado pelas ideologias de esquerda, na intenção de controlar totalmente a sociedade. Ninguém está preparado para absorver e solucionar a imensa fragilidade estrutural causada pelo vazio, pelo buraco negro (se é que posso chamá-lo assim sem ser considerado racista), que dá origem a este distúrbio, a esta singularidade.

PS: Atenção patrulhadores, de esquerda e de direita: corram para o Google!…

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A importância da História

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Fiquei imaginando qual é a nota que se poderia dar, de zero a dez, para filmes baseados em fatos reais, no que diz respeito ao conhecimento, aprendizado que eles possam nos oferecer ao assisti-los. Imaginei isso no tocante às portas e janelas que eles possam abrir para nós, mesmo que algumas vezes até conhecemos o enunciado do assunto, mas quase sempre desconhecemos os detalhes sobre eles.

Cheguei à conclusão que muitas respostas podem ser dadas a essa pergunta, mas posso garantir que nenhuma será igual a zero. Não existe nenhum filme, por pior que seja, por mais mal feito que possa ser, que não agregue conhecimentos e aprendizados para quem o assistir. 

Observei que muito poucas deverão ser as notas iguais a 1, 2 e 3, e essas não estarão relacionadas a filmes ruins, mas àqueles que se apropriam de um determinado fato real para desenvolver em torno dele uma forte carga dramática. Essas podem até parecer notas baixas para filmes tão importantes, mas não são. “Tróia”, “Barrabás”, “Quo Vadis”, “Coração Valente”, “…E o Vento Levou”, “Sem Lei, Sem Alma”, “O Encouraçado Potemkin”, “Doutor Jivago”, “O Discurso do Rei” e “Cidadão Kane”, são perfeitos representantes deste tipo e desta categoria de filme. 

Estabeleci que notas 4, 5 e 6 deveriam ser as pontuações de filmes que usam em seus enredos apenas algumas dramatizações e licenças poéticas, como é o caso de “Ben-Hur”, “Spartacus”, “El Cid”, “1492, a Conquista do Paraíso”, “A Rainha Margot”, “Titanic”, “Carruagens de Fogo”, “Reds”, “O Vento será tua Herança”, e “O Império do Sol”. Todos, filmes baseados em fatos reais, que se apoderam das narrativas literárias e cinematográficas para mais e melhor envolver o público, dando asas à dramatização, mas mantendo-se bem fiéis ao fato histórico enfocado. 

Vi que poderia dar notas 7, 8 e 9, para filmes que estão em patamares quase totalmente ancorados em fatos reais, mas com uma pegada mais próxima da documentação histórica, não do documentário, e sim com menos preocupação com os artifícios literários do roteiro ou com os recursos próprios da cinematografia, como, “A Missão”, “Amistad”, “Tora, Tora, Tora”, “O mais Longo dos Dias”, “A Queda – as últimas horas de Hitler”, “O Julgamento de Nuremberg”, “Malcolm X”, “JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar”, “Os Gritos do Silêncio” e Attica.

As notas 10, em minha opinião, devem ser atribuídas a filmes que agradam quase a unanimidade das pessoas graças a sua abordagem bem ajustada, limpa, sem ruídos, irretocável, como é o caso de “A Guerra do Fogo”, “Agonia e Êxtase”, “O Homem que não Vendeu sua Alma”, “Amadeus”, “Os Eleitos”, “O Último Imperador”, “Lawrence da Arábia”, “Gandhi”, “Patton” e “A Lista de Schindler”. 

É importante que se ressalte que quem tiver o privilégio de assistir a esses 40 filmes, pode se considerar não só um felizardo, mas ficar certo de ter tido acesso a algumas das páginas mais importantes da história da humanidade. 

Preciso dizer também, sendo um pouco gabola, que assisti a todos estes filmes e a mais algumas centenas deste mesmo tipo, que é o meu favorito. Os vejo sempre com o espírito crítico bem aguçado, procurando analisar neles, o que é verdade e o que é obra literária e cinematográfica. Sugiro que se pesquise a respeito dos fatos envolvendo os filmes baseados em eventos reais ou históricos, faço isso frequentemente e essa é uma outra grande satisfação que tenho com o cinema: a pesquisa histórica.

Abordei esse assunto hoje porque durante a semana que passou, assisti a dois filmes baseados em fatos reais, os quais eu, que sou tido por algumas pessoas como um sujeito culto, bem informado, além de cinéfilo de grande monta, nem imaginava que existissem. Os filmes e muito menos os fatos que os motivaram.

Não vou fazer spoilers! Só vou dizer que os filmes, “Jodotville” e “O Banqueiro da Resistência”, são imperdíveis, menos pela arte cinematográfica que expressam, e muito mais pelas extraordinárias e surpreendentes histórias que contam. 

Esses dois filmes estão disponíveis na Netflix. Não deixe de assisti-los, e descubra o quão pouco nós conhecemos a história de nosso mundo e comprovem a crueza de nossa condição humana. 

PS: Depois que acabei de escrever esse texto, quando fui lê-lo novamente para revisá-lo, constatei que a maioria dos 42 filmes que usei nele, como exemplos, têm de alguma forma envolvimento com conflitos bélicos. Parece que essa infelizmente é uma marcante e triste condição humana. 

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Conversas de Carnaval

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Durante o carnaval, minha esposa, Jacira, leu para mim, uma postagem em uma rede social que relacionava uma série de expressões como formas sutis, subjetivas e indiretas de preconceito.

Muitas eu conhecia e não as ligava a preconceito, como denegrir. Para mim denegrir era apenas um verbo que significava macular, difamar, falar mal de alguém. Algumas eu conhecia e até ligava a preconceito, mas num sentido meramente simbólico e até de certa forma positivo, como judiar, expressão que significa maltratar, mas pensava que essa expressão fosse usada no sentido de nos fazer lembrar como foram perseguidos os judeus, não para induzir a crueldade para com eles.

Até o dia que minha mulher leu para mim a tal postagem, acreditava que uso da palavra negra associada as palavras magia, lista, mercado e coisa, eram meras associações deste substantivo ou adjetivo feminino como sinônimo de oculta, perigosa, ilegal e difícil! Em minha cabeça essas expressões jamais foram uma tentativa de marginalizar uma raça, diferentemente de coisa de preto, mulata, ou cabelo de nego, essas sim, claramente eivadas de preconceito.

Mas entre todas aquelas expressões, uma me deixou perplexo pelo fato de não conhecer o motivo histórico de tal termo ser usado, ou seja por total falta de conhecimento, de cultura mesmo, de minha parte, como acredito que ocorra neste caso específico com a maioria das pessoas. Soube naquela ocasião que o nome criado-mudo, atribuído ao móvel que colocamos ao lado das camas, é proveniente de um hábito escravocrata, de quando os “senhores” colocavam seus escravos postados, durante toda a noite, ao lado de suas camas segurando uma bilha com água e um copo. Eu jamais poderia imaginar que alguém pudesse ter uma ideia tão absurda e estapafúrdia como essa. Muito mais prático seria colocar-se um banquinho para esse fim!

Pois bem! Ao saber que o outro nome dado à mesinha de cabeceira fazia referência a uma atitude repugnante do tempo da escravidão, fiquei chateado comigo mesmo, por desconhecer tal fato. Além disso fiquei indignado por ser considerado preconceituoso por usar essa expressão, pois, uma vez que não sabia que ela tinha essa conotação, não poderia ser acusado por tal atitude, mas de qualquer modo, daquele dia em diante, só me referirei ao móvel colocado ao lado das camas como mesinha de cabeceira, a magia é oculta, a lista é perigosa, o mercado é ilegal e a coisa tá difícil!

Outro assunto foi tema de nossas conversas durante o carnaval. A existência de um tal do Lugar de Fala, que em minha modesta opinião é uma invenção que tenta limitar a liberdade de expressão de uns em relação a pretensos direitos de outros. É como se algumas pessoas, resolvessem que há uma hierarquia entre alguns direitos fundamentais do cidadão, estabelecidos no artigo quinto da Constituição brasileira, que trata de nossos direitos e garantias individuais e fundamentais. Falo desse assunto usando o mesmo argumento das pessoas que inventaram e defendem esse tal Lugar de Fala, pois fui membro da comissão de parlamentares que durante dois anos trabalhou na confecção desta quadra de nossa Constituição.

Algumas pessoas estabeleceram que alguns direitos, de certos cidadãos, são mais importantes que outros direitos de outros cidadãos, o que é um contrassenso, além de tornar o exercício desses tais direitos subordinados ao uso social deles, transformando-os em poderosos instrumentos de poder de uns cidadãos iguais, contra outros que deveriam também ser igualmente cidadãos.

A tese do Lugar de Fala estabelece que só pode falar ou se manifestar sobre um determinado assunto quem o tenha vivenciado. Nenhum homem pode falar sobre assuntos de mulheres, como por exemplo, menstruação, gravidez, cabelos no sovaco… Nenhum homem pode se dizer feminista! Um teólogo protestante, não pode comentar sobre uma religião de matriz africana… Um filósofo, sociólogo, antropólogo ou psicólogo heterossexual não pode tecer comentário, nem aqueles que sejam aceitos ou favoráveis, sobres assuntos homossexuais, por não ter legitimidade.

Estou vendo a hora alguns tentarem impedir que um cidadão reclame da forma como outros desestabilizaram, corromperam e destruíram a sociedade, que pertence igualmente a todos. Imagine se tentarem impedir que o torcedor de determinado time reclame da chatice de outro, ou um pai de bem educar um filho.

Acredito que eu tenha Lugar de Fala, enquanto pessoa, cidadão cumpridor de minhas obrigações e respeitador das leis, ao dizer que este mundo em que vivemos está muito chato, que tenho saudade do tempo em que lutávamos pela liberdade que não tínhamos, e hoje que a temos, a limitamos de tal forma que acabamos por perdê-la para nós mesmos, o que é um grande absurdo, uma imensa tragédia.

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BBB

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Escrevo este texto na madrugada da terça-feira anterior ao sábado, de carnaval, dia em que ele não só estará publicado na página de opinião do Jornal O Estado do Maranhão, mas também estará postado em minhas janelas nas redes sociais.

Ressalto o sábado de carnaval, pois este texto não trata das folias de Momo. Eu o escrevo exatamente para aqueles que não se interessam muito por elas e preferem dois dedos de uma prosa leve sobre a nossa vidinha, sem confetes nem serpentinas.

Faz tempo que gostaria de falar sobre este assunto, e logo quando resolvo fazê-lo, descubro que meu amigo, confrade e professor de direito penal, José Carlos Sousa Silva, já o fez antes de mim. Posso não tratar de assunto inédito, mas o abordarei do meu jeito. O assunto é o BBB!…

Calma!… Não se trata do reality show da Rede Globo. O BBB de quem falo é o Benedito Bogéa Buzar, um dos amigos que herdei no vasto inventário de meu pai, que, diga-se de passagem, se nos deixou alguns bens materiais, nos fez ricos de preciosas amizades.

De ascendência libanesa como eu, Buzar nasceu na cidade de Itapecuru Mirim. Eleito deputado quando para isso não se precisava mais que uns mil amigos, e tendo na juventude ideias libertárias, foi acusado de comunista e cassado, junto com outros tão comunistas quanto ele: Sálvio Dino e Ricardo Bogéa.

Tive o prazer, enquanto deputado, de receber simbolicamente de volta na ALM, Buzar, Sálvio e Ricardo, recolocando a história nos trilhos de onde jamais deveria ter sido tirada.

No último dia 17 de fevereiro, Buzar completou 82 anos, muitos dos quais dedicados ao jornalismo, à política, ao registro histórico de personagens e acontecimentos marcantes de nossa terra. Nisso fazemos parelha. Ele é colaborador preferencial do Museu da Memória Audiovisual do Maranhão. É sempre a primeira pessoa a quem recorremos para tirar alguma dúvida sobre este ou aquele fato, ou para descobrir quem está em um filme ou em uma foto antiga. Fico triste e preocupado por saber que um dia, que espero ainda demore bastante a chegar, não teremos mais quem nos diga que naquele filme de Lindberg, ou que naquela fotografia de Azoubel ou Valdo Melo, quem aparece é Carlos Vasconcelos ou Matos Carvalho.

Nos últimos anos tenho convivido bastante com Buzar. Fazemos parte do Senadinho da Fribal, que se reúne aos domingos na Ponta D´Areia, comandados por Aparício Bandeira; do grupo de ex-deputados do MDB, dirigido por Remi Ribeiro e secretariado pelo mesmo Aparício, que se reúne uma vez por mês em lautos almoços; temos a honra de fazer parte de um grupo extremamente restrito de amigos, que sempre que pode se reune com o presidente Sarney; e principalmente, ele, Buzar, tem sido nos últimos anos, presidente da Academia Maranhense de Letras, onde realizou um maravilhoso trabalho, não apenas administrativo, mas principalmente diplomático, pois apascentar o ego e o temperamento de outras 39 criaturas, todas com muita cultura, informação, e das mais diversas formações e conformações, não é tarefa muito fácil!…

Nosso convívio na AML, graças ao seu jeito contemporizador, tem sido de grande valia para mim, pois tenho podido ajudar da maneira que mais gosto: descompromissado, sem cargo ou patente, sem responsabilidade e por isso mesmo com compromisso comigo mesmo, com uma patente de amor e devoção dada por mim, e com a responsabilidade que eu me exijo. O jeito simples de Buzar me propicia isso!

Ele tem para comigo muita consideração e sempre me dá relíquias históricas, como os documentos e fotos do Senador Clodomir Milet, grande amigo dele e de meu pai. Livros sobre cinema e política, assuntos pelos quais muito me interesso.

Estava pensando em escrever essas mal traçadas linhas já faz algum tempo e aproveitei exatamente essa oportunidade, quando Buzar deixará de ser presidente da AML, para fazê-lo.

Obrigado Buzar!

PS: Vou cometer aqui uma inconfidência. Há uma coisa que os amigos mais íntimos de Buzar reclamam muito dele e que poucos que me leem agora vão entender: Buzar não é bom de reza! Definitivamente ele não rezou direito!…

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O insulto

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O insulto

Em uma animada conversa sobre cinema, com amigos, em São Paulo, buscando um exemplo prático sobre o que falávamos, citava um determinado filme, como por exemplo Assim estava escritoO Mahabarata ou A festa de Babete, e observei que muitos dos presentes, todos envolvidos com audiovisual, não os tinham visto.

Os mais sábios, dizem que para que alguém escreva, e escreva bem, é preciso que leia e aprenda com isso. É assim em tudo na vida. No cinema não é diferente!

Como um camarada pode ser roteirista e nunca ter visto filmes que trazem em si roteiros extraordinários como O sol é para todosA felicidade não se compra ou Relíquia macabra? (Cabe aqui fazer um calombo para dizer que o editor do filme, aquele que monta as sequências das cenas que compõem a história contada, é uma espécie bem peculiar de roteirista, ou pós roteirista, aquele que não escreveu a história, mas é responsável pela forma de apresentá-la ao público).

Imagine alguém que quer ser diretor de cinema e nunca tenha visto os filmes de Frank CapraDavid Lean ou Sidney Lumet!

Um ator que não assistiu as performances de Charles Laughton, em A vida privada de Henrique VIIIO Corcunda de Notredame e Testemunha de Acusação; de Betty Davis, em Jezebel, A Malvada, e O que terá acontecido com Baby Jane? Ou ainda atuações magistrais de coadjuvantes como Walter Brennan, Shelley Winters e John Gielgud, estará definitivamente prejudicado, ficando por conta unicamente de sua genialidade, coisa que a cada dia tem sido mais difícil de se encontrar.

Em menores proporções, devido a natureza quase independente de suas atividades, que são na verdade agregadas à indústria do audiovisual, o mesmo ocorre com produtores, diretores de fotografia, músicos, diretores de arte, cenógrafos, figurinistas, maquiadores, que se propõem a realizar um filme, e não assistiram a obras fundamentais como O nascimento de uma nação, Lawrence da Arábia, e A excêntrica família de Antônia.

Mas preciso confessar a você que me lê agora o verdadeiro motivo daquela conversa. É que eu comentei com aqueles amigos que uma determinada pessoa, chateada comigo, escreveu um texto onde tenta me insultar me chamando de cinéfilo, acusando-me de não ser um cineasta.

A comparação que fiz, pra tentar explicar como aquela pessoa que tentava me insultar estava errada, foi com jogadores famosos de futebol. Mostrei-lhes que os melhores jogadores, os maiores craques dos gramados, são aqueles que jogam com amor, com alegria, como se estivessem em um campinho de pelada, desses de várzea. Verdadeiros boleiros!

Lembrem aí: Garrincha jogava com uma ginga e uma alegria que maravilhava a todos; Podemos dizer o mesmo de Didi, Puskás, Di Stefano e até de Pelé. É fácil dizermos isso de Neymar, Messi, dos Ronaldinhos, Gaúcho e Nazário, de Maradona, Zico, Romário e até de Zidane e Cristiano Ronaldo. Isso não é menos verdade quando pensamos nos elegantes jogadores nórdicos, de sangue frio, como Cruijff e Beckenbauer.

Em todos eles há um certo ingrediente de peladeiro. Nuns mais que em outros, o que seria o similar a se dizer de alguém que trabalhando com cinema, seja antes de qualquer coisa um apaixonado por ele. Isso de modo algum é um insulto, e aquele sujeito que tentou me alvejar, na verdade conseguiu me fazer o maior dos elogios, pois alguém que realiza o seu trabalho, aquilo que se propõe, com paixão, amor, devoção, como um peladeiro, o faz da melhor maneira possível, com as asas da alma abertas para voar.

PS 1: Escrevi este texto e o publico agora, na ocasião da realização do maior evento do cinema mundial, o Oscar, para homenagear o audiovisual brasileiro que teima em continuar existindo como pode, e a todos que realizam trabalhos nesse importante setor.

PS 2: O insulto é o título de um maravilhoso filme libanês que precisa ser visto por todos. Ele fala de uma epidemia que precisa ser aniquilada: A intolerância.

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Carta para mim mesmo

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Uma das coisas que mais me preocupa é a velhice, não a velhice útil como a da minha mãe ou a de Zé Sarney, que aos 90 anos estão operantes e são capazes de levar suas vidas com a indispensável dignidade.

O que me preocupa é a senilidade, é a incapacidade de lembrarmos das coisas e de fazer outras. Ninguém merece isso.

Uma criança é criança porque ainda não sabe, porque ainda não aprendeu, e isso é até bonito! Tanto que a grande quantidade de porquês que elas atiram em nós, podem até nos incomodar, mas não nos preocupa, pois sabemos que mais adiante elas estarão aptas a saber todas as respostas, e lembrarem-se delas por muito tempo.

As dores nas costas, nas pernas e em outras partes mais sensíveis, que normalmente afligem aqueles que conseguiram o maravilhoso feito de viver tempo suficiente para senti-las, também se constituem em um problema, só que este é mais fácil de se entender e até de se aceitar. É algo mecânico, algo que de uma forma ou de outra, em algum momento iria acontecer.

Adoro analogias e a que faço quanto a isso é fundamentada em uma das paixões que desenvolvemos graças à grande revolução industrial e social ocorrida no finalzinho do século XIX, início do século XX. A paixão pelos carros.

Gosto de pensar que nossos corpos são como carros. Cada um de nós é um carro diferente, mesmo que existam muitos modelos iguais, dos mais diversos anos e estados de conservação.

Um velho Ford Modelo T de 1920, mesmo com 100 anos pode estar bem conservado, mas o esperado é que seus amortecedores estejam desgastados, que seu motor esteja enfraquecido, que seus bancos ranjam… Um Jaguar, 1970, na flor de seus 50 anos, que pertenceu a uma rapaziada da pesada, numa Londres psicodélica, que tenha sido esmerilado sem dó nem piedade, mesmo tendo desfrutado dos maiores prazeres de seu tempo, terá os problemas decorrentes de seu uso. Assim acontece conosco.

Problemas mecânicos e estéticos irão acontecer, tanto nos carros como nas pessoas, mas há uma espécie de problema que existe com as pessoas que não encontram paralelo nos carros. Carros não ficam tristes, solitários, depressivos, eles podem até sofrer de uma espécie de Parkinson, e tremerem, mas peças novas e um bom mecânico dão um jeito nisso. Carros não ficam senis, nem sofrem algo parecido com Alzheimer.

Tenho pensado muito nisso ultimamente. Olho para minha mãe, com 90 anos e vejo que muito dificilmente vou chegar a esse patamar, ainda mais em tão bom estado. Olho para mãe Teté, minha mãe de criação, cinco anos mais nova que minha mãe, e constato como ela se encontra em condição bem menos favorável.

Para todo lado que me viro vejo pessoas idosas e outras que estão caminhando pra essa condição a passos largos, umas melhores, outras nem tanto e outras ainda lutando bravamente contra o quase inexorável: A velhice.

Por isso resolvi que deveria escrever uma carta para mim mesmo, uma espécie de diário, contendo as coisas que eu precisarei saber no futuro, sobre tudo o que vivi, para ter consciência do meu passado e certeza do presente que terei no futuro.

Parece algo bom a fazer… Mas na verdade o que eu gostaria mesmo era de ter uma vida boa, como a que tive até hoje. Ela não precisa ser muito mais longa. Sempre valorizei mais a qualidade que a quantidade.

Nunca achei que os romances fossem melhores que os contos simplesmente por eles serem maiores. Pelo contrário, sempre preferi os contos, por terem um arco narrativo menor e isso me dar mais tempo para que eu mesmo imaginasse as causas e os desdobramentos de seu enredo.

Como na literatura e no cinema, não me interessa apenas ser o redator, o escritor da obra, me interessa principalmente ser o criador da ideia, e que, ao compartilhá-la com outras pessoas, possa transformar a elas e a mim mesmo em co-escritores, coprodutores e codiretores dela.

Minha ideia é viver bem, o melhor possível, enquanto puder me lembrar das coisas boas, e até das não tão boas que vivi e que vivemos, e quem sabe poder proporcionar essa extraordinária aventura para algumas pessoas também.

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Goebbels, Bohr e Pirandello

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Credita-se a Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha nazista de Adolf Hitler, a frase “uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade”. Tem gente por aí que faz muito isso, mesmo que jure que não.

Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos da América, disse que: “Pode-se enganar todos durante algum tempo, pode-se enganar alguns durante todo tempo, mas não se pode enganar a todos por todo o tempo”.

Em sua genialidade, o autor de 1984 e Revolução dos Bichos, o inglês George Orwell, disse que: “Em tempos de fraude universal, dizer a verdade se torna um ato revolucionário”.

Certa vez Jesus tentou mostrar a seus discípulos o que era realmente verdade: “Digo-lhes a verdade: não foi Moisés quem lhes deu o pão do céu, mas é meu Pai quem lhes dá o verdadeiro pão do céu”.

O parabólico e metafórico nazareno queria simplesmente dizer que o adorado deve ser o detentor do poder e da glória, não seu agente, não seu obreiro.

Quando esse mesmo Jesus disse que ele era o “caminho, a verdade e a vida”, quis dizer mais do que entendemos em suas palavras traduzidas do hebraico ou do aramaico. Ele, em verdade, nos dizia que só se terá redenção, só se chegará na glória divina sendo como ele, sendo minimamente bom em tudo em nossas vidas, tendo em nós mais as boas qualidades do que as más. Mas afinal de contas o que é mesmo verdade?

O pouco lembrado Niels Bohr, um dois gênios da humanidade, explica filosoficamente não apenas a mecânica dos elementos, e por analogia, a mecânica da vida. Disse ele que existem verdades triviais e grandes verdades. Disse também que o contrário das verdades triviais é claramente falso, mas que no caso de uma grande verdade, seu contrário é também verdadeiro. Essa afirmação bagunçou minha cabeça. Passei muito tempo digerindo o que disse Bohr, que antes só conhecia das aulas de física e de química.

Havia então duas constatações a levar em conta. A primeira é que, obrigatoriamente, um cientista, antes de tudo, teria que ser um humanista, um filósofo. A segunda, se for realmente verdade o que disse Bohr, teria que reformular minha opinião sobre o demônio, o satanás. Para mim ele não existe. É tão insignificante perto de Deus, onipotente, onipresente e onisciente, que nem cogito sua existência. Em minha concepção, o que há é o livre arbítrio humano, que na maioria das vezes, quando posto em prática, assemelha-se muito ao trabalho do coisa ruim.

Pois bem, sendo Deus uma grande verdade, satanás, segundo Bohr, também o é. Confesso que não gosto dessa ideia, ela dá margem para muita especulação.

Em meu socorro aparece Nietzsche, mas acaba por bagunçar ainda mais minhas ideias, afirmando que toda verdade é simples.

Meu pai, que não era nem cientista nem poeta, dizia que algumas verdades eram tão preciosas que precisavam ser garantidas por uma série de mentirinhas. Ele dizia umas coisas bem interessantes para um homem de pouco estudo. Uma vez, falamos sobre isso em uma de nossas viagens pelo interior desse Maranhão. Foi no intervalo do ensaio do discurso que iria proferir naquele dia e a eterna transmissão de um jogo de futebol entre Arsenal e Manchester, que ele ouvira pelo rádio, quando eu ainda nem era nascido.

Falou sobre como agir na política, como deveríamos nos portar enquanto políticos, fez uma comparação entre o mundo do comércio e o da política, mundos onde ele habitava. Disse ele que “a verdade é uma mercadoria complicada de se transportar e mais ainda de se negociar”. Disse que ela “tem que ser dita de tal maneira “acreditável”, se assim não for, parecerá simplesmente mais uma mentira”.

Foi com ele que aprendi que é infinitamente melhor se dizer a verdade, pois dá menos trabalho, é menos cansativo e mais prazeroso. Que só se deve lançar mão da mentira quando for impossível usar a verdade. E ele mesmo completou: “O difícil é sabermos quando”.

Comecei a escrever esse texto porque estava me indagando sobre minhas verdades, fato que me trouxe até aqui, a esse beco sem saída. Só me resta lançar mão de um grande amigo meu, um mágico das palavras, grande conhecedor do pensamento e da alma humana, Luigi Pirandello, que parece ter solucionado esse dilema com uma frase: “Assim é, se lhe parece”.

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A Porta dos Fundilhos

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Em meu último texto de 2019 disse que logo no comecinho do ano de 2020, eu iria “tentar analisar a mais rasa, vérmina, ignóbil e torpe manifestação da cultura cinematográfica humorística nacional. A engembrada e mal enjorcada produção levada a cabo, sem nenhuma tendência, pelos talentosos, mas não inocentes membros do grupo humorístico Porta dos Fundos, sobre a vida de Jesus. Uns espertalhões que se travestem de corretos para encherem os bolsos de grana”.

Farei isso, em que pese o interesse sobre este assunto ter se arrefecido. O assunto do momento é a indicação de “Democracia em Vertigem”, para concorrer ao Oscar de melhor documentário, categoria que tal filme não consegue alcançar, pois é no máximo um longo e faccioso filme de propaganda partidária e ideológica.

Mas vamos ver os fundilhudos!…

É bom que antes de mais nada, você que me lê agora, saiba que gosto de pensar que sou agnóstico, que não tenho uma religião, em que pese gostar de estudar todas, para tentar entender o que nos leva a buscar tanto uma explicação teológica sobre nossa origem e tudo que nos cerca.

O pessoal do Porta dos Fundos escolheu como tema de seu especial de Natal, uma versão bem ao seu modo, irreverente e escrachada, da vida de um personagem histórico, que não por acaso é a pedra fundamental de todas as denominações religiosas que formam a fé cristã, que congrega cerca de 35% da população mundial.

Em segundo lugar, pouco importa se você viu ou não viu essa repugnante montagem! Para que você possa entender de forma realmente correta, qualquer coisa sobre o assunto Jesus Cristo, do ponto de vista do cinema, é indispensável que veja alguns filmes, pois com o puro e simples conhecimento dessas obras você poderá saber como é ignóbil, torpe, despropositado, de mau gosto, coisa de quem não quer pendurar uma melancia no pescoço para aparecer, nem enfiar um espanador no rabo e sair na banda de Ipanema fantasiado de Papa-Léguas…

Assistam ao poético “O evangélio segundo São Mateus”, de Pier Paolo Pasolini (homossexual assumido); ao minucioso “Rei dos Reis”, de Nicholas Ray (narrado por Orson Wells); ao maravilhoso “Jesus de Nazaré”, de Franco Zefirelli (preste atenção em seu elenco estrelar); assista ao violento “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson.

Depois disso, assista ao fenomenal “A Última tentação de Cristo”, profundo mergulho de Martin Scorcese em busca de um Jesus verossímil e real, em que pese o diretor ter fraquejado ao usar o estereótipo louro e de olhos azuis para um judeu da Galileia, de 2000 anos atrás, protagonizado pelo impecável Willem Dafoe.

Só então assista ao extraordinário “A Vida de Brain”, de Terry Jones, que juntamente com sua trupe do Monty Python, dão vida a Brain Cohen e a personagens contemporâneos de Jesus, construindo um cenário paralelo ao do messias, sempre de forma criativa e bem humorada, de forma cômica, mas sem faltar com respeito de forma inaceitável para com as crenças de quem quer que seja.

Se você não quiser assistir todas as obras citadas, assista pelo menos as duas últimas, pois são nelas que residem a tosca justificativa do Porta dos Fundos realizarem seu filme escatológico, no sentido grego da palavra.

Usaram o tema do filme de Scorcese e a licença humorística do filme de Jones para montar um Frankenstein degenerado onde Jesus é um homossexual (Duvivier), seduzido por um Satanás de cabelos de Rick Wakemam (Porchat), Deus é um babaca arrogante e prepotente, Maria não tem nada de santa, trai o marido e fuma maconha…

O filme foi feito com o intuito único e exclusivo de causar polêmica e ganhar dinheiro. Nada tem de humor e muito menos de arte, ainda mais vindo de pessoas inteligentes e talentosas, como são os autores e protagonistas. Uma porcaria produzida sob os auspícios do artigo quinto da Constituição Federal que permite que qualquer cidadão, até os imbecis, digam o que bem entendam.

Viva o estado democrático de direito e a plena democracia brasileira, que alguns dizem estar em vertigem!…

Por fim, gostaria de dizer que até para brincar, principalmente com assuntos tão sérios e controversos como religião, o brincalhão tem que ter capacidade de entender como fazê-lo e estar preparado para suportar as consequências, pois insulto, calúnia, injuria e difamação são tão crimes quanto agressão, violência e terrorismo!…

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