De quadrados para cancelados

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A história, de tempos em tempos, passa por períodos de grande tensão. Como uma vara de bambu, o tempo tem uns nós que servem, não sei ao certo se para separar ou para ligar etapas da evolução da vida na terra, e consequentemente da humanidade. Acredito que estejamos vivendo neste momento em um desses nós.

Passando uma vista rápida pela timeline da história, é possível observarmos claramente alguns desses calombos que serviram para consolidar ou para mudar radicalmente a direção dos acontecimentos.

Os anos que compreendem a ascensão e queda de Júlio Cesar só serviram para precipitar o surgimento do Império Romano, bem como seu declínio quatrocentos anos mais tarde, o que prova que alguns nós na régua da história, até parecem ser pequenos, mas podem demorar séculos.

Mais que em seu próprio tempo, a história de Jesus, teve maior repercussão no tempo de Constantino, quando efetivamente o cristianismo passou a existir e a ser definitivo.

Se a revolução industrial transformou a sociedade agropastoril do século XVIII em uma sociedade movida por máquinas e empresas complexas, e isso ocorreu relativamente há muito pouco tempo, a revolução digital que estamos atravessando, irá radical e definitivamente mudar a história da humanidade.

Ao constatar que estamos exatamente em um desses nós, me preocupo em saber quanto tempo ele irá demorar e o que irá modificar em nossas vidas, e como nós as construiremos depois disso.

Uma coisa é certa, as mudanças trazidas por esses períodos acontecem e costumam ser radicais, mesmo que nem todas permaneçam para sempre.

Veja, eu não estou falando de modas e modismos, coisas voláteis e passageiras, como simples tecnologia que caducam e ficam obsoletas, como é o caso dos CDs e DVDs. Estou falando de coisas perenes como a filosofia por trás dessas tecnologias e as mudanças estruturais que elas trazem consigo, como o poder da indústria fonográfica e audiovisual, capazes de ditar subliminarmente normas e comportamentos sociais em todo o mundo, de uma só forma e ao mesmo tempo.

O avanço tecnológico é a maior vitória da humanidade, o problema é a velocidade que esse avanço tem atingido e como ele é assimilado pelas pessoas.

Que ele é bom, não resta a menor dúvida, a questão é o custo dele. Não o custo financeiro, mas o cultural. Não no que diz respeito ao que ele cria, mas ao que diz respeito ao que ele muda, torna obsoleto e faz desaparecer.

Veja só o caso dos escultores. Se por um lado as impressoras 3D, daqui a alguns anos vão fazer com que a atividade desses artistas praticamente desapareça, por outro quem continuar esculpindo manualmente, será reconhecido e respeitado por sua raridade!

Mas não era exatamente sobre isso que eu desejava falar. Queria mesmo falar era sobre o fato de que o nó pelo qual estamos passando, motivado por essa imensa revolução tecnológica, inclusiva e democrática, por mais incrível que possa parecer está impondo comportamentos autoritários e excludentes contra aqueles que pensam ou agem de maneira discordante da corrente detentora do poder que emana desse sistema, e aqui não cabe nenhuma forma de julgamento de valor. Falo do direito inato de discordar, de ser diferente do seu diferente, não importando quem ele seja.

Criaram um monstro devorador de quem não se comporta como desejam os detentores desse poder. Um monstro parecido com aquele criado pelos impérios invasores da antiguidade, em suas jornadas de conquista e dominação. Monstro igual aquele, imposto pela revolução advinda da massificação da propaganda dos anos 1960, onde quem não usasse jeans e tomasse Coca-Cola, era o quadrado, o “cancelado” daquela época. O termo “cancelado”, mesmo ainda não existindo naquela época, já significava a mesma coisa, absurda e inadmissível dos dias de hoje, onde aqueles que não pensam ou agem como prescrevem os detentores desse abusivo poder de impor a todos um padrão, são submetidos de maneira tão violenta quanto a fúria dos piores escravocratas e dos mais repugnantes nazistas em seus tempos.

Discordar dessa turba pode até ser considerado um suicídio, mas está mais para uma chacina, praticada com os mesmos requintes de loucura e crueldade que aqueles praticados pelas velhas e abomináveis KKK e SS.

Por favor não pense que eu estou exagerando. Longe disso! Tudo que eu digo e tudo que qualquer pessoa disser, ainda será pouco perto deste inominável crime que está acontecendo neste momento.

Conheço um pouco sobre os mecanismos que movem as engrenagens da história. Entendo as reações que as ações causam. Sei que como tudo na vida, as causas trazem inevitáveis consequências. Quaisquer que sejam as que resultarem desse tempo de terror, menos sangrento, porém tão pavoroso quanto a Revolução Francesa, elas virão. Só espero que não demore tanto tempo e que não sejam tão violentas.

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A propósito dos 132 anos da proclamação da república no Brasil.

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Em retrospecto, pelos primeiros anos de nossa história como república, o fato de nossos primeiros presidentes terem sido velhos militares, deixa claro que o dito regime democrático, onde o governo é exercido pelo povo e para o povo, é uma balela.

Eu e você seríamos incapazes de dizer com absoluta certeza, em quantos desses 132 anos de história republicana o governo foi realmente exercido segundo a vontade soberana do povo brasileiro, até porque sabemos que o fato de acontecerem eleições, não significa dizer que elas sejam exatamente a demonstração cristalina dos anseios e da vontade do povo! Mais e pior que isso, não significa dizer que o povo estivesse em alguma dessas ocasiões apto a escolher de modo consciente e satisfatório quem melhor poderia representá-lo, estabelecer seus deveres e defender os direitos provenientes deles, de maneira coerente, correta e honesta!

Todos nós sabemos que não há forma de governo nem regime político que seja perfeito. O que pode haver é uma cultura onde as pessoas e seus representantes possam estabelecer regras de convivência que sejam capazes de diminuir ao máximo as tensões provenientes dessas relações, e para que isso aconteça é indispensável que o povo que detém, em tese,  o poder de escolha desses sistemas, tenha discernimento para melhor escolhê-los, coisa que não se faz sem educação em seu mais amplo sentido, o que não é o caso, não apenas no que diz respeito ao povo brasileiro, mas na maioria dos povos do mundo.

Com raríssimas exceções e muito pontualmente, a população mundial está apta a escolher o que pode ser mais satisfatório para si mesma. Poderia arriscar a citar alguns países nórdicos e outros poucos países europeus. Na Ásia, Japão e Coreia do Sul. Nas Américas, o Canadá e em alguns aspectos, menos pelo povo e mais pelo sistema, os Estados Unidos.

Até mesmo povos com culturas poderosas e educação sólida de seu povo comete equívocos absurdos, como foi o caso dos alemães nas décadas de 30 e 40 do século passado e mesmo os ingleses muito recentemente no caso do Brexit, um imenso erro de avaliação sobre seu próprio destino, não apenas o individual, mas principalmente o coletivo, ou ainda o caso dos separatistas da Catalunha , que não conseguem enxergar que no contexto do mundo de hoje, a independência geopolítica não é a coisa mais importante, mas sim a qualidade de vida que as pessoas podem usufruir.

Imaginem se um povo que em sua maioria, quase em sua totalidade, é manipulado pela religiosidade, como é o caso dos mulçumanos, dos hindus ou mesmo dos cristãos mais fanáticos, podem escolher de forma consciente quem melhor possa estabelecer seus deveres e defender seus direitos!?… Essas questões são extremamente delicadas e decisivas nesses complexos contextos.

Meu pai se dizia monarquista, mas ele não sabia exatamente o motivo de preferir este regime e não uma forma mais moderna e democrática de gerir o estado em nome das pessoas.

Um dia conversando com ele, ele me disse que não precisava ser exatamente os Orleans e Bragança, a família real brasileira, a ser a detentora do poder, que poderia ser qualquer uma, mas que fosse uma que tivesse AUTORIDADE para fazer REALMENTE o que precisasse ser feito,  e não para ficar contemporizando em, como diria Odorico Paraguaçu, MANOBRAS DIVERSIONISTAS.

Meu pai era favorável ao regime de déspotas esclarecidos, mesmo que ele não tivesse lá muita noção do que isso fosse ou acabasse sendo na prática. Eu não chego a tanto, mas confesso que sinto falta de pessoas que saibam exercer a autoridade com respeito e discernimento, com sabedoria e inteligência, com coerência e honra. Se assim o fosse o mundo estaria muito melhor.

O nome disso é utopia e nem a de Platão, nem a de Morus se provaram possíveis. A minha é mais simples. É conversar sempre sobre isso, até a exaustão, sem nenhuma forma de preconceito, com toda tolerância, aberto para ouvir e disposto a tentar entender as posições dos outros. Somente assim conseguiremos a evolução necessária para chegarmos a alcançar o exercício de uma vida melhor, para nós e para a maioria, se não para todos. 

PS: Ontem, perguntei para alguns jovens que encontrei quando fui almoçar, se eles sabiam o motivo de ser feriado e nenhum soube me dizer. Para mim ficou claro a importância da proclamação da república… Pelo menos para eles!…

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Glória

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Acabei de assistir a excelente série “Glória”, primeira produção portuguesa da NETFLIX.

A série conta a história da RARET, emissora de rádio implantada pelos americanos (CIA) na região do Ribatejo, para transmitir conteúdos anticomunistas para os países do leste europeu (Cortina de Ferro), durante a guerra fria.

A produção é de ótima qualidade, tanto do ponto de vista da forma quanto do conteúdo, e nos apresenta um Portugal que pouco conhecemos, de uma forma completamente inusitada.

Recheada de referências culturais, com citações poéticas, filosóficas e histórias, “Glória” me fez, clara e nitidamente, sentir aumentar meu amor por Portugal e por sua gente, que nós brasileiros normalmente achamos complicada de entender por serem pessoas metódicas e cartesianas, não só nas forma de se expressar como também de agir, como é o caso daquilo quem para nós é seu obtuso senso de humor.

Algumas vezes as construções frasais dos diálogos são tão maravilhosas e poéticas, que me peguei em várias ocasiões voltando as cenas para ouvi-las mais vezes, para sentir melhor o que diziam os personagens, de forma tão incomum para meus ouvidos, mas de maneira incrivelmente melodiosa e poética.

A construção do roteiro é primorosa, tanto na arquitetura dos personagens, mesmo os mais convencionais e previsíveis, como a agente da CIA, fria e calculista, mas que tenta ser generosa e ajudar as pessoas comuns, como a dos agentes de segurança, de um lado ou dos outros, responsáveis pelas cenas de maior violência, obstinados no cumprimento de seus deveres, como o drama de uma jovem noiva ou de uma mulher atormentada pelo marido que encarna o que há de pior em um homem, até os dramas de consciência de um jovem dividido entre a conveniência de sua família e aquilo que ele imagina ser o mais justo do ponto de vista social e o mais aceitável do ponto de vista ético.

“Glória” é mais que uma série que retrata uma época importante de nossa história, ou uma radiografia de um Portugal que desconhecíamos. “Glória” é um poema cinematográfico.

Essa série é tão boa que eu gostaria, de alguma forma e em alguma circunstância, ter participado de sua realização.

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Sobre 2022

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Um empresário amigo meu me ligou pedindo que eu comentasse sobre os possíveis caminhos que a política do Maranhão pode tomar, e resolvi postar aqui hoje, o que eu disse pra ele naquela ocasião.

Falei-lhe sobre alguns dos cenários que poderão se materializar em 2022, me abstendo de dar minha opinião pessoal e valorativa em relação a qualquer uma das possibilidades ou a política em si.

Primeiro busquei enxergar as coisas do ponto de vista do grupo do governador Flávio Dino.

Acredito que a melhor opção para Flávio seria ele ser candidato a vice de Lula, fato que é bastante plausível. Neste cenário Brandão seria candidato a governador e Weverton indicaria os candidatos a senador e a vice de Brandão.

Porém há uma variável neste contexto. A montagem de um cenário ainda maior, algo mais monumental, que resultasse em uma ampla coalisão, que envolvesse também o grupo Sarney, o que sacramentaria de uma vez a eleição de todos, sem que muitas forças, políticas e financeiras fossem despendidas. 

Neste caso a vaga ao senado ser oferecida ao grupo Sarney, cabendo a Weverton aceitar indicar o suplente de senador e o vice-governador.

Essa arquitetura seria digna de um Oscar de melhor direção de arte.

Outra boa opção para Dino seria ele ser candidato a senador, Brandão a governador e Weverton indicar os candidatos a suplente de senador e vice-governador.

Aqui também pode haver a troca do parceiro de chapa. No lugar de se compor com o grupo de Weverton, Flávio poderia se compor com o grupo Sarney!

Há, porém, um outro cenário que pode acabar se materializando. Seria Flávio concorrer ao senado com a mulher de Jerry na suplência, Brandão disputar o governo com Felipe Camarão de vice, o que iria rachar seu grupo e faria com que o resultado ficasse completamente imprevisível, principalmente se outros candidatos ao senado e ao governo entrarem na disputa.

Agora vejamos as coisas do ponto de vista do grupo do senador Weverton Rocha.

Fazer acordo com o governador Flávio Dino, não é de todo mal para Weverton, desde que ele possa indicar o suplente de Flávio e o vice de Brandão.

Caso isso não aconteça, a melhor opção para Weverton é ceder a vaga de senador e de vice-governador em sua chapa para quem possa oferecer a ele forças suficientes e necessárias para vencer seus adversários, no caso, Dino e Brandão. Essas forças seriam Roseana Sarney, Eduardo Braide, Roberto Rocha, Josimar de Maranhãozinho, Lahesio Bonfim e Edvaldo Junior.

Por fim, imaginando agora um cenário visto com os olhos dos outros atores desse enredo, algo pouco provável, mas factível de acontecer, caso seja possível haver algum tipo de acordo entre lideranças de temperamentos e posicionamentos tão diversos.

Roseana Sarney, Eduardo Braide, Roberto Rocha, Josimar de Maranhãozinho, Lahesio Bonfim e Edvaldo Junior, só precisariam esperar que o grupo comandado pelo governador Flávio Dino se divida, para unirem forças formando uma chapa capaz de concorrer de igual para igual com as outras, inclusive, quem sabe, até garantindo uma vaga no segundo turno das eleições.

Até pelo fato de ser detentor do poder de mando e ter maior possibilidade de montagens de uma boa chapa, o grupo do governador Flávio Dino, tem a vantagem nesta disputa. Mesmo assim o grupo do senador Weverton Rocha é mais aguerrido e mais bem estruturado politicamente, uma vez que o grupo governista passou oito anos dando pouca atenção aos políticos. Quanto aos outros grupos, ou eles se esfacelaram ou nunca existiram efetivamente e para existirem de fato, precisariam se entender.

Resumo da ópera: No que diz respeito ao senado, os cenários são favoráveis a Flávior, caso não tenha um concorrente que possa motivar a latente reação subterrânea que há contra todo detentor de poder que age como ele.

Quanto a disputa pelo Governo do Estado, o cenário mais provável é aquele com pelo menos quatro candidatos. Brandão, Weverton, Edivaldo e Lahesio.

Sobre o resultado… Eu nunca fui de prever resultados. Já disse e repito, eu analiso cenários. Quem quiser que tire suas próprias conclusões.

A mim só resta repetir o que dizia o grande Lister Caldas, “Quem viver verá”!…

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